segunda-feira, fevereiro 16, 2026

Como o perverso Epstein usou as 'elites' para abafar a verdade

 

Um dos médicos que fez a autópsia diz que o que encontrou é compatível com estrangulamento e não com suicídio. Outros dizem que não foi ele que morreu, que foi outro parecido com ele e mostram fotografias que o provam. Para além de tudo, naquela altura, as câmaras que apanhavam a porta da cela não estavam a funcionar, os guardas não estavam lá. Tudo nebuloso, tudo dúbio.

Mas não é só isso. Tudo nesta trama é nebuloso. 

Se eu pensar no meu período mais activo, diria que as pessoas com quem eu mantinha um contacto regular, fosse de que natureza fosse, não iriam além das dezenas, duvido que chegassem às cem. E, desses, com quem mantivesse correspondência regular, mensagens, mails, etc, diria que seriam da ordem da dúzia ou, vá, duas dúzias. 


Mas Epstein mantinha contacto regular com milhares de pessoas. Segundo o The Economist sistematizou, focando-se nos 500 mais regulares, a maioria era gente do sector financeiro (banqueiros, fundos, etc), media (jornais, revistas, televisões, etc), a seguir gente da academia (investigadores, professores, ligados à Matemática, à Física, à Biotecnologia, à Evolução, etc), depois gente dos negócios e das tecnológicas, depois gente da política (políticos de 1º nível, primeiros-ministros, ministros, diplomatas, príncipes e princesas, etc), etc. Uma conspícua e imensa rede. Tudo à vista de todos. Todos sabendo que ele já tinha sido condenado por sexo com menores, e todos marimbando-se para isso. E, para que se perceba bem o modus faciendi dele: todos os que com ele lidavam relatam a atenção que Epstein dedicava a tudo, fazia sessões de brainstorming nas universidades em que se se mostrava a par das investigações, não apenas financiava generosamente projectos como acompanhava o seu avanço. Claro que, provavelmente, gravava tudo e passava a informação para  quem tivesse encomendado o 'servicinho' ou para quem estivesse interessado no state of the art da coisa.

Ora, já dou isso de barato. O que eu agora não percebo é como é que ele tinha tempo para estudar os assuntos, para escrever tantos mails, para estar com tanta gente, para levar massagens a torto e a direito, para viajar, para almoçar e jantar com meio mundo, para escolher obras de arte, para tanto deboche.

E o dinheiro que dava a meio mundo? Não há explicação. Pagava a renda da Sarah Ferguson e dava-lhe dinheiro a torto e a direito, pagava os cursos e os alojamentos a centenas das miúdas de quem abusava e traficava, financiava incontáveis projectos, tudo aos milhões, e tinha empregados e mais empregados, e tinha não apenas grandes mansões em várias cidades nos Estados Unidos e fora do país, e ranchos e ilhas, como uma dúzia de apartamentos em Manhattan para alojar amigos e namoradas, tinha iates, helicópteros e aviões. Dinheiro a correr a jorros.

Parece que está claro que era um agente kompromat e aí, ao que parece, era quase free lancer: tinha material comprometedor de meio mundo que venderia a quem desse mais (ou a vários ao mesmo tempo?), parece também claro que era agente da Mossad e que trabalhava para a CIA e que, para a Rússia, funcionava quer como fornecedor de kompromats como intermediaria a aplicação de dinheiro russo fora da Rússia, lavandaria de primeira.

Mas, pergunto eu: se assim se explicaria a sua vasta e crescente fortuna, um escândalo de fortuna, como se explica que tivesse tempo para tudo isso? Os dias dele tinham sessenta horas? Não percebo. Será que mais ninguém fica intrigado com isso?

No outro dia, um matemático, catedrático em Harvard, e financeiro de Wall Street, que o conheceu, diz que Epstein era uma estrutura. Era alguém 'fabricado', uma estrutura 'fabricada', um produto high level dos serviços de inteligência. 

Não sei. Mas admito que sim, pelo menos, faz-me sentido.

Há, no tema Epstein, vários mistérios, e este do tempo parece-me um deles.

Partilho um vídeo no qual Tina Brown, jornalista da velha guarda, fundadora do Daily Beast, e que, há uns anos, foi intimidada por ele para não avançar com uma série de artigos, conversa sobre o assunto. 

Não que daqui venha uma luz clarificadora mas é interessante, dá para ir iluminando a forma como ele manobrava as muitas pessoas que gravitavam na sua órbita.

Como o perverso Epstein usou as elites para abafar a verdade 
| Podcast do The Daily Beast

Tina Brown relata a sua experiência chocante ao ser citada nos arquivos recentemente divulgados do caso Jeffrey Epstein, revelando como Jeffrey Epstein e os seus aliados tentaram freneticamente "neutralizá-la" e fechar o The Daily Beast depois de a sua reportagem explosiva com Conchita Sarnoff ter exposto a sua rede de abusos. Numa conversa envolvente com o editor executivo do Daily Beast, Hugh Dougherty, Brown narra o pânico dentro do círculo de Epstein, as assustadoras ameaças legais de poderosos escritórios de advogados, a duplicidade da cronista social Peggy Siegal e a decadência moral de um "clube" de elite que protegia os seus membros mesmo depois de a verdade estar à vista de todos. Ela reflete sobre a cultura pré-#MeToo que desconsiderava as vítimas, os nomes poderosos que orbitavam Epstein — de Bill Clinton a Ehud Barak — e a escala industrial de exploração possibilitada por Ghislaine Maxwell e pelo recrutador Jean-Luc Brunel. É uma defesa mordaz do jornalismo de investigação, um aviso sobre o poder corrosivo da riqueza extrema e um olhar por detrás das cortinas sobre o quão perto esta história esteve de ser abafada — então, o que mais ainda está escondido nos milhões de arquivos não divulgados?


Desejo-vos uma bela semana

4 comentários:

Anónimo disse...

Essa das elites faz-me lembrar outra, o sistema, que é assim uma coisa teórica como o zodíaco.

Do que li a criatura procurava gente com nome grosso e dinheiro miúdo. No caso da "realeza" são todos gente com histórias e "realeza" dos novos tempos (da princesa Sofia da Suécia ainda há uma foto com uma cobra grossa enrolada nela, nua ou meio nua, dos seus tempos de modelo de lingerie). Há também os duques, espanhóis, franceses, ingleses, sabe-se lá que mais.

E são tantos, tantos, que uma filha do Marquês de Bristol, outra que lá andava, até concluiu que quem não estava lá não era ninguém. Esta tia aconselhava os sem-abrigo a irem para as Caraíbas no Inverno. Sempre tinham sol e comiam peixe fresco. O pai desta lady foi acusado de furtar joias. O mano mais velho limpou a fortuna da família. Imagine-se, foi-se o solar ficou o apartamento em Chelsea (os nossos nem isso). Digamos que fazia parte da target audience.

E sempre, sempre indo parar à mesma paragem geográfica. O pai da Ghislaine foi um famoso magnata da imprensa britânica de origem checa; não se sabe se houve mão amiga ou se foi da bebida. Limpou o fundo de pensões dos empregados antes de cair do iate para a água. É sabido que foi ele que denunciou ou entregou à Mossad um cientista israelita que denunciou o programa nuclear de Israel. É ir à net. Ao que li o bom do Maxwell está enterrado num cemitério junto ao monte das oliveiras em Jerusalém por onde, reza a tradição, o Messias regressará. Assim será um dos primeiros a ressuscitar. Pode ser também que o Messias faça uma pequena paragem para dar 300 vergastadas no lombo do vígaro.

Elites? Bas-fond, diria antes. Demi-monde...shaddy...

Anónimo disse...

Não dou grande crédito aos elogios que figuras públicas que com ele se relacionavam fazem à sua inteligência, interesse pela ciência e generosidade. O que haveriam de dizer? Que era um proxeneta que satisfazia as suas perversões? Sabemos como o dinheiro cega e o poder seduz. Lembro-me sempre de um documentário sobre a Lehman Brothers mostrar como ninguém percebia de facto que operações eram aquelas mas não o diziam, temiam revelar a sua falta de "inteligência" e queriam fazer parte do negócio. O rei vai nu. Na entrevista que Epstein deu a Steve Bannon (em 2019...e porquê esta entrevista conduzida por SB?) tentam apresentá-lo como um mago das Finanças mas, se virmos bem, pouco mais diz do que banalidades, metáforas básicas e mentiras óbvias, que o entrevistador não desmonta. Por exemplo, passa grande parte do tempo a romantizar a sua passagem pela prisão, dizendo que estava na "solitária" em plena crise financeira e como tinha que escolher a quem telefonar pois só podia fazer um ou dois telefonemas, mas é público que ele esteve preso na Florida em regime aberto, saía todos os dias para ir "trabalhar" e podia, por isso, telefonar a quem quisesse do seu próprio escritório. No entanto, ele conta uma história cheia de detalhes sobre uma realidade alternativa, que o entrevistador não contesta (!). É apenas um exemplo de uma mentira óbvia, gratuita e tão elaborada que torna evidente que se trata de um embusteiro, que mente como quem respira. Nada do que ele e quem com ele se relacionou disseram merece crédito.

Anónimo disse...

Coisas do sistema que não interessam para nada.
Sorria está a ser filmado, para sua proteção obviamente.
https://youtu.be/pNf4-d6fDoY
Ventura não foi eleito Presidente da República, por isso, nada disto pode acontecer no Portugal do inSeguro, aos membros da Geringonça presidencial e ao carapau de gato, ou talvez possa.
Se ele tivesse sido eleito, era outra conversa.
https://greenwald.substack.com/p/amazons-ring-and-googles-nest-unwittingly
Entre a versão do olho estatal e a do olho dos glutões, ou as duas numa, a escolha é sua, de resto, com a curiosidade da malta com tudo que é engenhoquice, só falta levarmos um chip na testa, como aliás parece que, alegremente, na Suecia algumas empresas já usam
no pulso dos mal empregados para picarem o ponto.
Há um filme engraçado, em que no futuro as pessoas tem no pulso um chip de tempo, onde tudo é pago em tempo, o qual se chegar a zero o portador morre, se ninguém encostar o seu pulso ao dele e lhe der tempo, e é claro que os ricos tem tempo até á 5º casa.
Já faltou mais.
Entretanto e para distração outra peça trumpiana.
https://oilprice.com/Energy/Energy-General/Alberta-Separatists-Ramp-Up-Efforts-to-Leave-Canada-After-Trump-Meeting.html

Alice Alfazema disse...

É tudo demasiado nojento, como incrível é a quantidade de gente envolvida.