terça-feira, fevereiro 17, 2026

A coragem de Gisèle, a mulher que recusou o silêncio

 

Ultimamente vamos sabendo de acontecimentos que superam a mais tortuosa imaginação. 

Quando soube desta história fiquei até apática, quase como se não fosse possível. Uma pessoa pode ser casada uma vida inteira com um homem, gostar imenso dele, ver-se a viver, a dois, tranquilamente, os tempos da reforma, achar que ele é atencioso, afectuoso, a quem nunca detectou qualquer atitude inapropriada, nomeadamente em relação a mulheres, e, do nada, descobrir que o marido a drogava e a violava nesse estado de inconsciência e convidava homens para irem lá a casa violá-la, filmando essas violações? 

Gisèle e Dominique quando ela acreditava que eram um casal feliz

Juro que eu diria assertivamente que não. Uma pessoa pode não saber tudo de outra mas há coisas que, vivendo uma vida inteira com ela, forçosamente sabe. Sabe se ele faz comentários ordinários em relação a outras mulheres, mesmo que diga que o faz na brincadeira, em casa, sem ninguém ouvir, sabe se ele olha de maneira parva ou lúbrica para outras mulheres, mesmo que disfarce. Acho que sabe. Também sabe se ele é desinteressado em relação a ela, se não tem empatia, se é um estupor.  Não me pareceria possível que uma mulher pudesse viver uma vida inteira com um homem, cinquenta anos de vida em comum, ter filhos e netos, vendo-o a ser um pai e um avô querido, e não lhe passar pela cabeça que o sujeito com quem está casada é uma besta quadrada, um troglodita do pior, um porco imundo. 

E, no entanto, aconteceu. E foi verdade. Tudo provado.

Para quem não conheça a situação vou tentar descrevê-la (servindo-me sobretudo da wikipedia).

Gisèle Pelicot nasceu em 1952 na então Alemanha Ocidental, filha de um militar francês. Mudou-se para França ainda criança. Perdeu a mãe muito cedo, aos 9 anos, e construiu a sua vida adulta em território francês.

Teve uma carreira estável como gestora administrativa numa empresa pública de eletricidade, uma função ligada à área logística e administrativa. Casou-se jovem com Dominique Pelicot em 1973. O casal teve três filhos e manteve, durante décadas, uma vida aparentemente normal de classe média.

Gisèle trabalhou durante décadas na área administrativa e reformou-se em 2013. Após a reforma, mudou-se com o marido para o sudeste de França, onde levavam uma vida tranquila: ela participava num coro e ele andava de bicicleta. A família — filhos e netos — visitava-os frequentemente.

Dominique Pelicot, por sua vez, tinha trabalhado como eletricista e no setor imobiliário, ao que parece com alguns negócios falhados ao longo da vida.

Entre 2011 e 2020, Dominique drogou a mulher de forma sistemática, misturando sedativos na comida e bebida. Enquanto Gisèle permanecia inconsciente, ele violava-a e convidava dezenas de homens — pelo menos 50 identificados e mais de 80 suspeitos — a fazer o mesmo, filmando os abusos.

Durante esses anos, Gisèle sofria de perdas de memória, fadiga e problemas de saúde, chegando a recear ter Alzheimer ou um tumor cerebral. Nunca imaginou o que realmente estava a acontecer.

A verdade só foi descoberta em 2020, quando Dominique foi detido por filmar à socapa debaixo da saia de algumas mulheres num supermercado. A investigação policial levou à apreensão dos seus computadores — onde foram encontrados vídeos dos abusos.

Em novembro de 2020, a polícia mostrou essas imagens a Gisèle. Esse foi o momento em que a sua vida se desmoronou: percebeu que tinha sido violada repetidamente durante quase uma década sem nunca ter consciência disso.

O julgamento começou em 2024, em Avignon, envolvendo Dominique e outros 50 homens.

Como vítima de violação, Gisèle tinha direito ao anonimato e a um julgamento à porta fechada. No entanto, tomou uma decisão extraordinária: recusou o anonimato e exigiu que o julgamento fosse público.

Fez isso por uma razão clara: queria que a vergonha mudasse de lado — das vítimas para os agressores — e que outras mulheres encontrassem coragem para falar.

No final do processo, em dezembro de 2024, Dominique Pelicot foi condenado à pena máxima de 20 anos de prisão, e todos os restantes arguidos foram também considerados culpados de crimes de violação ou agressão sexual. Vários abusadores disseram em tribunal que não achavam que tivessem cometido qualquer crime pois o marido autorizava que tivessem reações com a mulher. Outros disseram que ela estava a dormir, não dava por nada. 

Repare-se: tudo isto não se passou em tempos medievos. Isto passou-se em França, agora, no tempo em que vivemos.

A filha de ambos está convencida de que também foi violada, mas, como no seu caso, não existem vídeos, não foi possível que o pai e outros homens também fossem condenados por isso.

Após a descoberta dos crimes, Gisèle separou-se do marido e iniciou o processo de divórcio, concluído pouco antes do julgamento.

Hoje, vive discretamente em França — vivendo numa ilha — e, orgulhosamente, diz que reconstruiu a sua vida, que voltou a encontrar o amor e afirma querer voltar a viver com alegria, amor e serenidade.

Gisèle Pelicot tornou-se, assim, um ícone feminista internacional: foi incluída nas listas de mulheres mais influentes do ano por meios como a BBC e o Financial Times, recebeu a Legião de Honra, a mais alta distinção civil francesa, e tornou-se símbolo da luta contra a chamada “submissão química” e a cultura de violação.

Hoje, com 73 anos, Gisèle Pelicot afirma-se viva, confiante e determinada a transformar a sua história numa mensagem de coragem para outras vítimas.

Já este ano publicou um livro de memórias onde conta a sua história na primeira pessoa e defende que a vergonha deve pertencer aos agressores — nunca às vítimas. A sua voz ecoa como um apelo: falar, denunciar e recusar o silêncio.

A história de Gisèle Pelicot não é apenas um caso judicial chocante — é, na verdade, um marco social.

A entrevista abaixo -- que dá para ser legendada (e repito-o pois, por vezes, alertam-me para que partilho muitos vídeos em língua estrangeira, sem legendas) -- mostra-a. 

Digna, inteira. Um exemplo. Quem tem que ter vergonha são os abusadores, não quem é abusado. Gisèle lutou contra a vergonha e venceu-a. Mulheres de todo o mundo agradecem a sua coragem.

Gisèle Pelicot fala abertamente sobre como sobreviveu a anos de abuso secreto | The Interview

Num dos casos de abuso sexual mais hediondos da história, Gisèle Pelicot foi drogada e violada repetidamente pela pessoa em quem mais confiava no mundo, o seu marido, que também convidou dezenas de homens para o quarto para a violarem enquanto estava fortemente sedada.

Em 2024, começou o julgamento dos agressores de Pelicot. Mesmo assim, talvez nunca soubéssemos o seu nome. Mas no seu novo livro de memórias, "Um Hino à Vida: A Vergonha Tem de Mudar de Lado", ela explica porque decidiu abdicar do anonimato e tornar o julgamento público. Esta escolha transformou-a num ícone feminista, inspirando mulheres de toda a França a juntarem-se a ela e a exigirem alterações nas leis de consentimento do país.

Pelicot revela como era ver os seus agressores dia após dia no tribunal numa entrevista à apresentadora do programa "The Interview", Lulu Garcia-Navarro.


Dias felizes para todos

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