Que Portugal é um País de facilitadores não haverá dúvidas. Lembramo-nos da recente polémica nas presidenciais sobre a atividade do Marques Mendes. Aliás, não será caso único, nomeadamente, entre os ex e atuais políticos e respectivas entourages.
Mas seremos também um País de facilitismos e de facilidades? A recente destruição de infraestruturas devido às tempestades será um resultado destas facilidades e da falta de entusiasmo na verificação do cumprimento dos regulamentos?
Segundo sei, e desmintam-me se estou errado, segundo os regulamentos aplicáveis, resultantes de normas europeias, os postes de suporte de cabos elétricos (AT ou BT) na zona de Leiria devem continuar operacionais com ventos superiores a 150 km/h e devem suportar rajadas entre 200 e 230 km/h. As torres de telecomunicações também devem conseguir operar com ventos entre 150 e 170 km/h e a chamada "rajada de sobrevivência" estará perto dos 200 km/h. Obviamente que os valores precisos dependem da localização, da altura e do tipo da infraestrutura. Já agora, telhados com telha cerâmica, dependendo da altura do imóvel, devem ser capazes de resistir, praticamente sem danos, a ventos entre 150 e 170 km/h.
Sendo assim, qual a razão para ter havido tantos danos e destruição com o comboio de tempestades em que a velocidade do vento só terá atingido valores semelhantes em algumas situações? Será que os postes da e-Redes foram projetados e construídos de acordo com os regulamentos? E as obras foram devidamente vistoriados pelas entidades competentes? Não tenho dados para responder, mas parece-me pouco provável que, tendo sido respeitados os valores de projeto, tenha havido uma razia tão grande nos postes e nas torres, para não falar nos telhados das habitações.
Já aqui referi e volto a escrever: a simplificação anunciada pelo governo para facilitar a reconstrução pode não ser uma boa notícia, caso queiramos garantir que, nas próximas tempestades, não será igual ou pior.
Mas nem a comunicação social está desperta para o assunto nem parece que as oposições queiram correr o risco de ser impopulares caso alertem para esta situação.
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Já agora, umas notas soltas:
1. Será por uma questão de facilitismo, de corporativismo, de falta de gestão, de cada um fazer o que quer ou de se perder inutilmente tempo à procura de gambuzinos na outra margem que, embora tenhamos o dobro ou o triplo de procuradores por 100 mil habitantes do que o número existente em outros países da Europa, a Justiça funcione pessimamente?
2. E qual será a razão para que, embora também tenhamos mais recursos que outros países da Europa na área da Saúde, as coisas vão de mal a pior? A incapacidade da ministra é uma razão de peso, mas a falta de gestão geral e o corporativismo também dão a sua.
3. A prepotência e arrogância de Montenegro emparelham bem com as da D. Palma Ramalho. A notícia de que a ministra não foi capaz de ajustar a disponibilidade da UGT com as confederações patronais nem avisar estas últimas da indisponibilidade da UGT. O que se passou foi ridículo e foi, uma vez mais, a D. Palma Ramalho a gozar com quem trabalha. Fez lá deslocar as confederações, pelos vistos com a intenção de reunir apenas com estas. Felizmente, os patrões mostraram ter a decência que falta à ministra e recusaram-se a fazer a reunião. Será que, perante isto, o Montenegro não dá uma valente rabecada à ministra?
4 comentários:
A propósito de Palma Ramalho: talvez seja de fazer uma comparação entre as suas propostas de legislação do trabalho e as que foram aprovadas recentemente na Argentina. A música parece a mesma: desactualização da legislação, segmentação, banco de horas, flexibilidade, plataformas, por aí. No fundo, lá no fundo, estão dois velhos princípios do liberalismo do século XIX (esse parece estar in): liberdade contratual e autonomia da vontade. Sucede que não foi por acaso que foi devido a eles nasceram os movimentos sindicais.
Facilitismos é uma palavra muito educada.
Um amigo meu comprou casa nova há cerca de uma duzia de anos.
Á medida que os apartamentos forem sendo preenchidos, o lado da empena dele que era a mais barata e tinha mais vendas, logo que o 3º ou 4º apart. teve gente, um dia á noite ficaram sem luz.
Como havia luz na escada e na rua, ele que é afoito foi á procura do problema.
Então, no quadro de entrada, no sitio dos fusiveis ou disjuntores, havia uns arames de cobre enrolados, que logo que aqueceram, derreteram.
Ele avisou a vizinhança e para desenrascar enrolaram uns fios grossos.
Apos confrontarem o vendedor sobre para que serviam os certificados energeticos etc e tal, a desculpa foi a mão de obra dos sub empreiteiros.
Os inspectores deviam estar em greve.
Uma conclusão: há comissões para tudo com gente bem paga a coçar os tomates de sofá em sofá, na hora do desastre, são baratas tontas sem saber como sair das situações.
Quanto à resistência dos postes elétricos, ouvi nas TVs de que os postes não têm resistência para ventos de150km hora. Há efetivamente postes para mais de 200 km, mas por questão de economia continuaram durante anos a montar estes que o vento varreu para poupar nos mais resistentes.
Na saúde, ao contrário do que se diz, a ministra é bastante competente no cargo dado estar meticulosamente a cumprir a agenda de destruição do SNS. Quem compra a ministra por 500g leva cinco kilos bem pesados.
Este governo é extremamente perigoso, e com o encosto do perigoso presidente de saída, então, o desmantelamento do estado era uma andada.
Esta análise toca no nervo exposto da nossa cultura cívica: a discrepância entre o que está no papel e o que resiste no terreno. Se as normas europeias dizem que um poste deve aguentar rajadas de 230 km/h, mas ele tomba com muito menos, o problema não é a tempestade — é a integridade da estrutura e de quem a fiscalizou.
Vivemos no país dos facilitadores, onde a "simplificação" anunciada pelo governo soa mais a uma licença para a mediocridade do que a um ganho de eficiência. Quando facilitamos a reconstrução sem apurar por que razão a construção original falhou, estamos apenas a agendar o próximo desastre. É o ciclo vicioso do remendo.
E o facilitismo não sopra apenas nos telhados de Leiria. Ele manifesta-se:
– Na Justiça, onde o excesso de recursos humanos não se traduz em eficácia, perdendo-se em labirintos corporativos;
– Na Saúde, onde a gestão é asfixiada pela incapacidade política e por braços-de-ferro que ignoram o utente;
– Na Política, onde a arrogância de quem governa (como o episódio vergonhoso com as confederações patronais) demonstra um desprezo perigoso pelo diálogo institucional.
Uma nação não sobrevive apenas com "vontade". Sobrevive com fiscalização, responsabilidade e a coragem de ser impopular em nome do rigor. Enquanto a nossa comunicação social e as oposições continuarem a caçar gambuzinos, o vento continuará a levar o que deveria ser sólido.
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