O dia foi uma complicação daquelas. Ainda estava a dormir quando o meu marido entrou no quarto a anunciar que a garagem e a cave estavam inundadas -- as mil coisas de toda a espécie e feitio, incluindo pertences da minha mãe e em que ainda não mexi, muitas telas pintadas, diversos móveis (talvez os melhores que temos e que deixámos lá em baixo por nos parecerem artilhados e requintados demais para o estilo que agora queremos na casa) -- tudo dentro de água, coisas a boiar.

Dito assim não é nada que se compare com o drama de tanta e tanta gente. Uma dor de alma ver, na televisão, tantas casas destruídas, tanto comércio e tantas pequenas empresas arrasadas, tantas estradas desfeitas, os rios a transbordarem para campos, ruas, estradas. Estragos e mais estragos. Comovo-me quando vejo as pessoas destituídas dos seus pertences, dos seus empregos, da sua mobilidade, da sua privacidade (quando alojados noutras casas ou em espaços colectivos). E tantas pessoas ainda sem eletricidade e sem água canalizada... Como é possível...?
Mas não é por o meu pequeno drama ser coisa de somenos que deixa de ser um problema que temos que resolver.
O que nos aconteceu é que a água da chuva que passa pela caleira que está antes do portão da garagem não foi puxada para o tubo de esgoto das águas pluviais e, portanto, entrou, primeiro para a garagem, depois para a cave, e espraiou-se.
Mais ou menos um palmo bem aberto de altura, até ao primeiro degrau da escada.
A partir daí foram desencadeadas diversas acções. Quase todas infrutíferas: as empresas de desentupimento e esgotos e o canalizador que contactámos não tinham ninguém para vir cá hoje, o electricista que cá costuma vir e que talvez pudesse arranjar a bomba submersível que está dentro da caixa (poço) de esgoto que está em cima, no jardim, (pois o problema deve estar nessa bomba) só poderia vir para a semana.
No Leroy, onde tínhamos ido ontem ao vermos a caleira perigosamente cheia, as bombas estavam esgotadas. O meu marido foi então comprar uma bomba a outra loja mas, azar, não tinham lá mangueira compatível (é uma mangueira larga e espessa, não é como as de rega). Foi, então, ao Leroy. Não tinham mangueiras dessas, estavam esgotadas. Foi a casa do meu filho buscar uma pequena bomba mas não tinha a peça de encaixe da mangueira. Foi, não sei onde, comprar a peça que, afinal, não serviu. Depois ia a outra loja ver se tinham mangueiras mas já estava fechada. Só às duas conseguiu comprar. Trouxe o último bocado de mangueira que lá tinham. Sorte.
Chegado a casa, lá montou as coisas e, felizmente, tudo funcionou. Finalmente!
Está há horas a despejar água e, nas primeiras horas, parecia que estava sempre na mesma, uma coisa estranhíssima.
Há bocado, quando fomos passear o cão, as ruas inundadas, vimos uma carrinha de desentupimento de esgotos. Liguei e consegui que cá viessem espreitar. Concluíram que a bomba deve ter estourado de tanto puxar água. Dizem que, com a que comprámos, nunca mais vamos conseguir tirar tudo pois é uma bomba fraca, de piscina. Talvez à noite, se conseguirem esvaziar outra cave, venham cá pôr uma bomba potente. Comentei que não se percebe de onde está a vir a água pois a bomba está há umas quantas horas a tirar água e parece que continua na mesma. Um deles respondeu: 'é as terras que já não engole mais, deita por fora, a senhora não tá vendo como tá tudo? a terra está jogando tudo fora...'. É brasileiro, claro.
E acredito que seja isso pois o que chove não justifica que se mantenha como estava apesar de estar há horas a deitar água fora à força toda.
Também já percebemos que a parte da garagem está finalmente a dar mostras de querer a escoar, mas a cave está difícil, parece que a água não escorre para fora. E a altura de água que ficar não deve dar para que a bomba submersível funcione. Mas amanhã tentaremos resolver isso, nem que seja arrastando a água à vassourada.
Claro que a seguir temos que tentar resolver o tema de forma estrutural, isto é, substituir a bomba que deve estar estragada por outra. Ainda não percebemos onde se faz a ligação à electricidade, mas uma uma coisa de cada vez.
Enfim.
Pior, mil e mil vezes pior estão os pobres coitados que têm as casas destruídas. Nem imagino a aflição e o desespero de quem está nessas condições.
Mas para não falar só de desgraças, partilho um vídeo que me chegou via o instagram da Ana Marques para a SIC, e que vi com curiosidade.
Depois disso, já visitei o site, Carved Wood, Handmade Design e, agora que sou dada a redes sociais, também a conta de Instagram. Segundo vejo, trata-se de marcenaria de autor, Arte e Desenho de Móveis, com atelier em Azeitão.
Uma história com piada. Segundo vi no vídeo que abaixo partilho, vindo de uma vida muito diferente, o
André resolveu mudar de vida e dedicar-se ao mister que o motivava, a marcenaria. Trabalhando com madeiras maciças, as peças são feitas à medida ou a feitio, outras vezes com design de sua lavra. Obras de autor, que, segundo vejo, são construídas com criatividade e versatilidade.
As imagens com que ilustro o texto são, pois, obras suas. Não vêm a propósito do texto subaquático, bem sei, mas as fotografias que tirei à inundação cá de casa ficam para a Seguradora, caso se verifiquem danos substanciais.
Achei que, para me nos tirar (ou, pelo menos, para me tirar a mim) deste estado cinzento, meio depressivo, em que tanta chuva e tanta humidade nos deixam meio zururus, mais valia espairecer a vista com peças interessantes e que nos dão vontade de as adquirir ou de mandarmos fazer qualquer coisa do género.
[Hoje, por aqui, não se fala do Montenegro e das suas ministrinhas e ministrinhos minions e desasados, muito menos do Epstein ou do Trump ou do Putin. Há que deixar entrar algum oxigénio nos nossos dias. E por pouco não falava também das tortas do Cego, também em Azeitão, ou das cerâmicas Fortuna, um pouco adiante, em Palmela. Ou dos vinhos da Ermelinda. Mas, se o tempo e as ocorrências (derrocadas, quebras de diques, inundações, e despautérios e descalabros políticos de toda a ordem) continuarem, na volta dedico-me é às nossas artes e ofícios. Pelo menos, acabo de escrever o post e estou bem disposta.]
E aqui a seguir está o vídeo em que a Ana Marques, para o seu programa na SIC, mostra a visita que fez à Carved Wood.
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Desejo-vos dias felizes
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