Pronto, vá, condescedo: nem tudo ali é mau. Nas redes sociais, quero eu dizer. Na realidade, se tenho sido exposta a toda a espécie de parvoíces e de gente sem substância, a verdade é que também tenho feito algumas descobertas interessantes. É verdade, tenho que reconhecer.
Procuro avidamente boas notícias, descobertas de curas, projectos inovadores, novos artistas, coisas e pessoas que, de facto, sejam diferentes para melhor. E tenho sido agradavelmente surpreendida. Parece que as coisas boas da vida deixaram de ser notícia, temos que garimpar para dar com elas. Mas, depois, o algoritmo, sabendo das nossas preferências, vai-nos bafejando com notícias daquilo que sabe que nos interessa. Nem tudo é mau, no meio da maldita engrenagem dos algoritmos que fazem girar a caixa registadora das redes sociais
Ao escrever isto, estava a lembrar-me de uma coisa que republiquei (ou partilhei?, não sei o nome corrente do acto) no Instagram: geradores de energia quer eólica, quer fotovoltaica em 'árvores' urbanas em que as 'folhas' oscilam com o vento e que, na base têm mini-painéis. Ficam bonitas, integram-se nos espaços urbanos, são quase silenciosas e aproveitam cada bocadinho de sol e de vento. Coisas assim, parecem-me interessantes. Neste caso, isto parece-me um gostoso ovinho de colombo.
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Mas é só um exemplo. Se estivermos atentos, por entre a lixeira a céu aberto em que toda a gente diz e mostra coisas e faz propaganda a marcas e difunde aldrabices ou exibe a sua futilidade e vacuidade, vão-se encontrando alguns oásis.
Há pouco, por exemplo, apareceu-me uma coisa de que nunca tinha ouvido falar e que me parece verdadeiramente fantástica. Nasceu na Dinamarca. As pessoas vão lá não para escolher um livro mas uma história. Só que a história não está escrita, será dita, cara a cara, através de respostas a perguntas. O conceito é simples: algumas pessoas disponibilizam-se para falar sobre a sua vida ou sobre acontecimentos em particular ou sobre algumas circunstâncias ou sobre a sua própria condição. E os 'leitores' vão até lá, presumo que se inscrevam, sentam-se ao pé da pessoa e conversam. Há condições: não deve haver preconceitos, não devem ser feitos julgamentos.
Acho a ideia fascinante. O hábito de se conversar -- com tempo, sem querer iludir ninguém, sem receio de se ser mal interpretada, dando espaço para pensar, para olhar nos olhos -- tem-se vindo a perder e é pena pois é tão bom, tão, tão bom.
Gostaria de poder participar em coisas assim, quer num papel quer no outro. Estar sentada e aparecer alguém com a mesma disposição que eu: conversar, ouvir, partilhar ideias ou experiências. Pode ser numa sala, pode ser num jardim. A organização da Biblioteca Humana escolhe os locais.
Do que me informei o conceito já se expandiu, já está noutros países. Da pesquisa que fiz sobre Portugal, vi que tem havido eventos pontuais.
- Torres Vedras teve uma Biblioteca Humana em 2026, na Biblioteca Municipal, com pessoas como “livros” e conversas sobre experiências de vida.
- Coimbra teve uma Biblioteca Humana em março de 2026, no Jardim Botânico, com investigadores como “livros humanos”.
- Porto teve em março de 2026 uma Biblioteca Humana no Museu de História Natural e da Ciência da Universidade do Porto, integrada no projeto Somos Livros e Livres.
- A Rede de Bibliotecas Escolares também apresenta o conceito e há escolas portuguesas que o utilizam.
Tomara que se generalizasse. Tomara que em vez de as pessoas estarem isoladas a deslizar o dedo no telemóvel estivessem em jardins ou salas a conversar umas com as outras, com desconhecidos, sobre os mais variados temas. Não é uma ideia incrível?
[Interrompi, entretanto, para ver as notas dos últimos colocados e, se aquilo se confirmar, o meu mais velho entrou onde queria, coisa com a qual contava com razoável à vontade pois tem uma média bastante confortável; mas eu sou de ver para crer. A ser mesmo assim, e há de ser, está, pois, a poucos dias de se tornar um estudante universitário e ir percorrer as mesmas escadarias e corredores que um dos avôs e um dos tios pisaram. Um orgulho. Estou mesmo contente. No entanto, só vou mesmo atirar foguetes quando ele receber o mail com a colocação ou vir no recibo (não me perguntem a que recibo me refiro, só sei que é um recibo de inscrição a que se acede no portal em que se fez a candidatura) que entou mesmo naquele curso, naquele estabelecimento de ensino. E já estive a trocar mensagens com ele, diz que também já tinha visto, só não tinha mandado mensagem geral porque julgava que a esta hora a família estava toda a dormir; esqueceu-se que tem uma vovó coruja...]
E já é tarde, de facto. Vou pregar para outra freguesia.
Mas, entretanto, partilho uns vídeos sobre as Bibliotecas Humanas.

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