Não sei porque escrevi aquilo ali em cima. Não faz sentido. Geralmente começo a escrever sem saber bem para onde os dedos me vão puxar e, só no fim, quando percebo o que saiu, tento resumir, dando à prosa um título. Hoje a coisa virou-se de pernas para o ar e comecei pelo fim. Se calhar tem a ver com um pensamento que me assolou esta tarde. Estava num sítio, parada. Estava uma aragem e as árvores ondulavam ao de leve. Tudo o resto parecia imóvel. Pensei: o tempo está em suspenso. Depois pensei que deveria corrigir: talvez não seja o tempo pois, a ser, a terra teria interrompido o seu incessante movimento em volta de si própria e do sol. Depois pensei que, se um dia disparar o gatilho da gravidade e esta desaparecer ou for neutralizada, deixaremos de estar todos atraídos para o centro da terra e passaremos a flutuar por aí, talvez nos percamos pelos vastos mares do infinito, ideia que tem o seu quê de tétrico e de maravilhoso.
E começando assim o texto de hoje até se poderá pensar que o dia foi tão flauteado que até me está a dar para a poesia. Pois não foi. Foi mesmo um dia de cão -- no mau sentido, claro.
Para começar tinha vários assuntos críticos e urgentes para tratar e tudo a requerer computador. Com o meu avariado, há mais de quarenta e oito horas sem tugir nem mugir apesar de mil manobras de eanimação, tive que tentar ultrapassar a terrível condicionante com o telemóvel e com o anquilosado computador cujo techado cobre parte do écran, nomeadamente o que deve estar a descoberto, e onde só se consegue escrever, e mal, uma tecla a seguir à outra, com minutos de intervalo entre cada. Um desespero que me deixa agoniada.
Várias coisas desagradáveis mas, porque existem, incontornáveis. E sem carro, ainda por cima.
Mas, no meio das chatices que queria ter resolvido rapidamente e que, para mal dos meus pecados, não consegui resolver, aconteceu que, ao fim do dia, ligaram a dizer que já se poderia ir levantar o carro. Tinham resolvido o problema, espero que de vez (e já bati três vezes na madeira não vá o dizer isto dar azar e amanhã já não pega novamente). Portanto, já montada nele, fui logo com o computador à loja das reparações. E lá, começou por não me deixar ficar mal e não arrancou mas, ao fim de uns minutos, arrancou. Se eu estivesse dentro de uma série humorística, naquela altura teria pegado nele e tê-lo-ia atirado ao chão e saltado em cima dele. Caraças.
Mas o rapaz, sem se rir, disse:'Talvez esteja alguma coisa a bloqueá-lo'. Pensei que só me faltava mesmo era aquele toque de ironiazinha, a falar como se o computador também precisasse de fazer terapia para se livrar de bloqueios. Mas depois percebi que estava a falar num registo puramente técnico. Andou a ver, vasculhou tudo, e, no fim, ambora deveras céptico, disse que talvez um determinado software estivesse a bloqueá-lo e eu disse que não me fazia falta e ele desactivou-o. Portanto, trouxe-o de volta e ele aqui está, nas minhas mãos, lampeiro, ladino. (Refiro-me obviamente ao computador, não ao jovem da loja).
Os meus dados saltitam de tecla em tecla e quase nem sei por onde eles andam, já conhecem os cantos à casa.
Com as voltas que ainda demos, e demo-las graças a termos a voiture, só chegámos a casa perto das dez. Pelo caminho apanhámos uma pizza que nos soube maravilhosamente, tamanha a fome que trazíamos.
E agora aqui estou, a adormecer entre cada palavra, quase derrotada pelo sono. Para além do dia ter sido arraçado de coisa ruim, também estava eu a dormir, de manhã, ouço a campainha, uma e outra vez. Vesti-me à pressa, pensei que o meu marido estava no seu passeio matinal com o dog, mas depois ouvi a voz dele. Dele, do meu marido. Aliás, dos dois, pois o cão (está melhor, obrigada, Maria Martins. mas ainda lhe dói quando se limpam algumas das feridinhas) ladrava furibundamente como sempre faz quando alguém assoma ao portão, mesmo que do lado de fora. Tinham vindo trazer os ninhos para chapins. Devem ter começado a entrega por nós pois aquilo não eram horas para fazer levantar uma pessoa da cama. O pior é que obviamente já não dormi, tanto mais que o meu marido veio dar-me a boa nova: 'Já chegaram os ninhos para chapins'. Vai pendurar nos pinheiros, aqui e in heaven, pois, ao que consta, os chapins comem as lagartas-do-pinheiro. A ver vamos.
Obviamente não consegui, nem consigo agora, responder aos vossos comentários. E não consigo já falar das coisas mirabolantes que um dos meus netos nos contou na quarta-feira, ao almoço. Coisas verdadeiramente estapafúrdias. Estávamos todos perplexizados. Fica para outro dia. Hoje vou para vale de lençóis. Aliás, não: durmo destapada.
Sem comentários:
Enviar um comentário