É o caso. Vejo as manifestações em que supostamente se protesta contra a carestia das casas à venda e contra a dificuldade em arrendar casa -- e apesar de concordar que a vida está para além de cara e que as casas estão a ser vendidas a preços exorbitantes (pelo menos nos maiores centros urbanos) e parte significativa das casas antes colocadas em arrendamento habitacional se terem virado para alojamento local, reduzindo, portanto, as outras -- e o que vejo ali é um total desfocamento em relação às causas dos problemas.
Ou seja, o que vejo é muita parra e pouca uva. Se espremermos tudo o que ali se diz e faz, o que sobra é uma mão cheia de nada. Poderia surgir um caderno reivindicativo com cabeça, tronco e membros, com pernas para andar. Mas não, nada.
Aprendi, nos meus estudos, que primeiro há que perceber qual o problema, formulá-lo correctamente, e, só depois, se pode encontrar a solução. Por exemplo, se uma pessoa estiver sem conseguir andar, sem se conseguir pôr de pé, sem conseguir mexer as pernas, é absurdo andar aos gritos a reivindicar que lhe cortem o cabelo. Pode até acontecer que esteja com o cabelo comprido e que gostasse de andar de cabelo curto, mas, na verdade, isso não vai resolver o problema de não conseguir andar. Diria eu que primeiro haveria que examiná-la para perceber a origem do problema: uma hérnia? osteoartrite? outra coisa? Só depois de feito o diagnóstico, seria possível encontrar uma solução: cirurgia? fisioterapia? outra coisa? E, sabendo-se a raiz do problema e qual a solução para ele, se reivindicaria então meios para que a solução fosse possível.
Ora o que eu vejo e ouço nas manifestações e nos partidos que as apoiam é gritaria, cantoria, mas, de concreto, nada que se aproveite. Falar na lei do arrendamento, querer que se reduzam as garantias aos senhorios é apenas muito estúpido. Veja-se o que está a acontecer em Espanha na sequência das manifestações e na perspectiva de mexida na legislação: uma parte importante dos proprietários está a retirar casas do arrendamento, com receio do que possa acontecer. Numa altura em que é preciso que o máximo de casas sejam postas a arrendar, a instabilidade e a perspectiva de que sejam dificultados os meios em caso de incumprimento, fazem com que os donos da casa receiem sujeitarem-se a problemas. Preferem vender as casas ou esperar que tudo acalme. Do que li, numa análise feita junto de cerca de 600 agências imobiliárias em Espanha, nas últimas semanas, as percentagens de retração no mercado de arrendamento são significativas, variáveis entre cerca de 20% até 50%. Portanto, só por estupidez ou burrice encartada se pensa que a solução para o problema da habitação passa por reduzir as garantias de estabilidade e de segurança junto dos senhorios. Na verdade, produz o efeito contrário.
Por cá, na manifestação, creio que era em Lisboa, ouvi uma senhora a dizer que não tem trabalho nem família, e que a senhoria quer que ela saia. E dizia isto como se fosse suposto que a senhoria a albergasse sem receber dinheiro, isto com a senhoria a ter que continuar a pagar IMI, seguro, manutenção da casa, se calhar condomínio. E eu pensei: mas o que pode fazer um senhorio numa situação destas senão pedir ao inquilino que saia? Um senhorio é um cidadão com tantos deveres quanto todos os outros, não lhe compete substituir-se à acção social e ficar a perder dinheiro para resolver casos sociais. Um caso destes é um caso social e, como tal, deve ser tratado. E a casa deve ficar disponível para quem anda à procura de casa e consegue pagar a renda. A menos que a segurança social pague a renda.
Uma outra, na manifestação, dizia que se tinha separado e tinha um pequeno negócio e não consegue arranjar casa. Claro. Posso estar a subestimar o negócio, mas, do que vi e ouvi, admito que provavelmente tem um daqueles 'negócios' de venda de 'cenas', se calhar via facebook, tudo à margem de qualquer registo. Que banco empresta dinheiro a alguém sem rendimentos declarados? Ou que senhorio mete lá em casa alguém que não tem como provar que pode pagar a renda?
Cada caso é um caso mas os casos devem ser tipificados e deve ser possível, para cada caso, dizer qual o enquadramento: se o problema é do tipo A, a pessoa deve dirigir-se ao sítio X, onde tratarão de lhe arranjar alojamento até que consiga arranjar rendimentos para poder viver sem apoios. Se o problema é do tipo B, deve legalizar o negócio, organizar-se, provar os rendimentos e fazer-se à vida.
Quanto à juventude que vi a saltar, a cantar, a dançar, a tocar tambor, e que não consegue comprar casa ou arrendar apartamentos no centro da cidade (e até vi uma miúda de 15 anos e outro de 18, acampados, na maior alegria, a garantir que iam passar ali a noite), o que tenho a dizer é que devem procurar casa nos subúrbios ou dividir casa com amigos -- até que o Governo volte a ter programas de habitação jovem. Quando eu era jovem havia ali nas Forças Armadas, à esquerda de quem subia, uns prédios enormes da EPUL, rendas baratas, a que os jovens poderiam concorrer. Sei que a EPUL já não existe e se calhar está na altura de avançar urgentemente com uma coisa similar: construção em força de apartamentos para jovens. E creio que a EPUL era só para Lisboa. Mas devia haver disto em todos os centros urbanos em que há carência de habitação.
E, volto a dizer o que disse há dois dias: quem está ali manifestar-se não são os mais carenciados, os muito pobres. Mas não podemos esquecer-nos deles, dos que não têm voz. Para esses é urgente, urgente, avançar com casas com fartura, milhares. Habitação social em força.
Quando sabemos que existem centenas de edifícios devolutos do Estado (da Administração Central, dos Municípios, da Segurança Social, das Forças Armadas), de que estão todos à espera para avançar com reabilitação disso para disponibilizar casas e casas e casas a quem precisa, a preços baixos?
E de que é que os partidos estão à espera para reivindicar isso?
E de que é que os babacas do Governo, uns verdadeiros envaginados, igualmente muita parra e pouca uva, estão à espera para vir sossegar as pessoas e anunciar um plano realista, ambicioso, urgente, de disponibilização de milhares de casas de diferentes tipos: habitação social para os muito carenciados e habitação acessível para jovens ou mediamente carenciados (ie, não em situação de grande pobreza)?
Faltam recursos? Certo. Faltam sempre. Mas, quando são precisos, também aparecem sempre. Sejam criativos, façam parcerias com quem tem dinheiro, sejam investidores privados sejam instituições de solidariedade social (já agora: alô, alô Igreja Católica! Onde andam vocês quando são precisos?), mobilizem-se recursos europeus, mexam-se, puxem pela cabeça, dêem corda aos sapatos.
Não há pachorra para tanto imobilismo por parte dos que podem e devem fazer alguma coisa e tanta estupidez por parte dos que fazem barulho mas não são capazes de parir uma única ideia inteligente.
Acampar, tocar tambor, dançar e cantar, apelar à violência, incendiar caixotes do lixo ou fazer discursos incendiários, isso, na prática não faz mover o assunto nem um milímetro na direcção da resolução do complexo problema da falta de habitação em Portugal. E o governo ficar de cabeça enfiada na areia muito menos.
«E de que é que os partidos estão à espera para reivindicar isso?» De um sinal do PM, se for capaz. a) Em encontro na Cidade Universitária, pequeno anfiteatro com a Helena Roseta e o Nunes da Silva na mesa, Uma jovem que levanta a lebre alojamentos. Um oficial das FA para a HR: há e vai haver, prédios do exército vazios e ou a fechar. O Prof NS, àh vi isso na Alemanha, espaço gerido pelos estudantes! Há mais de uma década. b) Cravinho com SE na Defesa, no HMB obras » Covid - uma falcatrua de uns milhoes, em saco roto! c) No Jornal do Fundão há semanas tema Diagnósticos do Diretor: a meio do artigo do leitor, de memória Maria Filomena Mónica s/deputados: «incompetentes, imaturos, preguiçosos» d) passemos em frente à ministra de Costa na Habitação, antes do surgir da crise, entretida nas redes: «porque é que os jovens não poderão viver em Alvalade? Depois, a bomba H+. Somos assim?
ResponderEliminarOlá José,
EliminarVão-se levantando assuntos e o tempo passa e nada se resolve, não é?
Cultura de empresa Jota. Estatuto razoável para incapázes de voar mais alto.
EliminarUJM,
ResponderEliminarGosto de pensar como resolveria certos dramas da nossa sociedade. Sei que tal não é simples mas, por vezes não consigo compreender a sua impossibilidade.
Portugal é como já todos comprovámos, um país de burocracias, papeis e papelinhos autorizações e depois esbarra-se sempre em decretos por vezes absurdos obsoletos.
E depois temos as capelinhas.
Por exemplo, passo algumas vezes por quarteis, seminarios, conventos e outros edificios publicos desactivados.
O serviço militar está reduzido. Já não há serviço militar obrigatorio, e como escola civica e tecnica, que util seria, então porque não reconverter esses quarteis em apartamentos. Claro não pode ser porque o Ministerio da Defesa é "dono" e não os cede.(nem os governos actuam, se calhar até que um gigante imobiliario apareça).
Há em Lisboa e arredores seminários vazios que poderiam ser residencias para estudantes. Claro que não pode ser pois são propriedade privada proveniente por vezes de doações e o Clero não os cede, mas vive de contributos do estado sendo mais um encargo. Nem o seu espirito religioso partilha tais espaços com crianças e jovens carentes.
Há ainda edificios vazios que poderiam ser hospitais de recuo, lares de terceira idade.
Tudo isto daria emprego e tornaria muita gente util. Serão assim tão descabidas estas ideias?
Já tenho sido apelidada de lirica, ingenua, fadinha da varinha mágica, mas continuo a pensar que seria possivel .
Dizem que o Grande Criador quando fez o mundo e o questionaram porque dotava este cantinho à beira mar de tantas coisas boas, Sol mar, serras, Ele respondeu: Vais ver a porcaria de governantes que lá vou pôr.(escusava de ser mausinho).
Uma boa semana, cheia de paciencia, paz e força.
Dei conta disso, quartéis , e elevadas compras de material militar. Num DN. com o título "Crimes económicos na Defesa". Pedir ao MDN, quando estão ali os maiores criminosos, e nos ramos a maior dificuldade de se aproveitar. Ganhei um par de anos 'impedido' de ali entrar. Salaam Aleykum da passagem pela Guiné.
EliminarOlá Pôr do Sol,
EliminarPosso assinar por baixo? É que concordo com tudo. E parece fácil, não é? Não parece que se um conjunto de mulheres experientes e bem intencionadas se juntassem resolveriam isto nas calmas? Mas, pelo contrário, dá ideia que isto está entregue a aselhas, a anhucas, a totós, a chico-espertos, a gentinha inexperiente, fala-baratos, gente que não sabe tomar decisões nem fazer nada...
Uma boa semana também para si e para os seus. Haja saúde, alegria, boa disposição e muita paciência...
Um abraço, Sol Nascente!