segunda-feira, setembro 07, 2026

Como é a casa de uma feminista?

 

Durante muito tempo não quis pensar em mim como sendo feminista. Parecia-me redundante. Claro que era, sempre fui, ferozmente defensora da igualdade de oportunidades entre homens e mulheres, da igualdade de direitos. Mas sempre senti aversão a clubes do bolinha. Lugares só para mulheres, tal como lugares só para homens, é coisa que me parece absurda. Nunca fui capaz de frequentar 'retiros' só de mulheres, causam-me urticárias clubes de leitura só de mulheres, projectos só de ou para mulheres. Ou só para homens. O mundo é plural e as suas múltiplas derivações também o devem ser.

E sempre me pareceu evidente que o mundo caminharia para a rejeição de privilégios (de classe, de género, de 'raça'), para uma rejeição da homofobia, da xenofobia, para uma rejeição de coisas canhestras e ridículas como a defesa de que o papel da mulher é em casa, a tratar de tudo para que a vida do marido seja mais feliz. Tudo isso me pareciam coisas do passado e que já nem valia apena andar a repisar coisas que tinham passado à história.

Só que não, não passaram à história.

Começam a reaparecer saudosismos, ignorâncias, regressões culturais e civilizacionais. Parece-me impossível que isto esteja a acontecer, mas está. Como se uma coisa que se considerava morta e enterrada, começasse a reaparecer de debaixo das pedras, uma coisa com ar meio decomposto, meio infecto.

Quando andei no liceu, havia disciplinas extra curriculares, para quem o quisesse. Como sempre quis tudo, a minha curiosidade era ilimitade e a minha disponibilidade para me entusiasmar era insaciável, inscrevia-me em tudo e mais alguma coisa. Uma em que me inscrevi, porque me disseram que a professora era fixe, foi Lavores Femininos. Supostamente seria para ensinar as raparigas a serem boas donas de casa e boas mães de família, mas disseram-me que não e, por isso, fiquei ansiosa por frequentar. Aprofessora, por sinal casada com um conhecido general, tinha mente arejada. As aulas eram momentos de animada conversa. Foi a ela que ouvi pela primeira vez que o Hitler tinha um único testículo e que, por se sentir complexado, se terá desforrado e exercido tão gratuita e inenarrável violência. Falávamos de tudo, alargávamos horizontes. Portanto, já nessa altura, e há tanto tempo que isso foi, a ideia que havia é que nós, raparigas, podíamos fazer o que quiséssemos. Eu, pelo menos, sempre assim pensei.

Pensar que aos dias de hoje há anormais, perfeitas anormais, que vêm defender o contrário é quase incompreensível, coisa de gente ignorante e burra.

Há dias ouvi uma dessas descerebradas, certamente também psicologicamente perturbada, descrever as feministas como mulheres que viviam para agradar ao patrão, desprezando a vida familiar. Felizmente nunca estive frente a frente com uma dessas anormais, senão haveria de ter muita dificuldade em controlar-me. No mínimo, levantar-me-ia e virar-lhe-ia costas pois com gente estúpida não vale a pena perder tempo a explicar-lhes que tudo o que dizem é mentira, é pura estupidez.

Morreu há dias uma das feministas mais conhecidas, Gloria Steinem. Sempre que falava sorria. Muito longe de quezílias ou discussões estéreis, limitava-se a falar do que importava. Não perdia tempo a rebater A ou B ou a deixar-se submergir pela espuma dos dias: a sua causa era a da defesa dos direitos das mulheres e era nisso que se concentrava. Mulher de cultura mas também de sociedade, elegante, com um savoir faire que ilustra bem que ser feminista não é ser 'radical' ou 'pouco feminina'. Elegante, sempre bem vestida e bem penteada, Gloria Steinmen tem, neste vídeo um colar que eu não me importaria nada de ter igual. E a pulseira também é bonita.

Aqui, ela mostra a sua casa, um apartamento que começou por ser de um piso, depois comprou o piso de baixo e uniu-os por uma escada interior. E tem um jardinzinho, por sinal com a vedação pintada numa cor de que gosto muito. Se um dia repintar a minha casa, esta é uma das cores fortemente candidatas, talvez um pouco mais clara do que a dela.

É uma casa incrível, com muito bom gosto, com muito conforto, com peças interessantíssimas. Claro que já sabem que o meu lado prático me faz sempre pensar no trabalho que dará limpar o pó daquilo tudo. E numa outra coisa: eu adoro tapetes, almofadas, mantas, cortinas. Mas acumulam pó. Tem que se aspirar muito bem, sacudir, lavar com frequência. Senão podem causar alergias. Vou ser muito sincera e temo que me considerem também muito estúpida mas, ao ver a casa, pensei: não é a casa mais saudável e segura para uma pessoa com mais de noventa anos. É certo que tem o jardinzinho, mas ela diz que pouco o frequentava. E vê-se, ao lado dela, uma bengala, por sinal bem engraçada, e isso significa que já tinha alguns problemas de mobilidade. Ora tanto tapete...

Mas o que eu penso ou deixo de pensar não interessa, o que interessa é a diversidade e beleza de tantos objectos que ela tem, é o conforto daqueles sofás, são os tecidos e as cores, são as pinturas, são as soluções engenhosas (como a do quarto extrra). 

Para quem não atina bem com a língua inglesa, relembra que dá para pôr legendas em tradução automática para português.

Por dentro da casa histórica de Gloria Steinem em Nova Iorque | Architectural Digest

A AD tem o prazer de receber Gloria Steinem para uma visita guiada à sua casa em Nova Iorque, onde vive há muitos anos. O ícone feminista mudou-se para o seu duplex num edifício de tijolos do século XIX em 1968, após o estrondoso sucesso da sua reportagem de 1963, "A Bunny's Tale", que expôs o caso do Playboy Club e impulsionou a sua carreira jornalística para novos patamares. Nos 58 anos em que Steinem viveu na sua casa, esta tornou-se a base perfeita para fazer e testemunhar a história. Foi em 1971 que a sua sala de estar recebeu mulheres dos media e da política, e onde nasceu a revista Ms. A casa de Steinem é profundamente pessoal, repleta de memórias fascinantes da sua incansável carreira e ativismo – um espaço luxuoso e colorido, onde é fácil sentir-se acolhida e instantaneamente em casa. Steinem não pretende deixar de receber mulheres influentes tão cedo.


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Desejo-vos uma boa semana, a começar já por esta segunda-feira

1 comentário:

  1. A minha mulher sente-se ofendida com o dia da mulher. acha que é um ultraje à mulher. Eu concordo, também penso que é menorizar a mulher.

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