Estou menos preocupada mas estou cansada. O bichinho ontem só adormeceu depois das duas e tal da manhã. Na prática, deixou-se cair -- e ali ficou. Tenho que confessar que até fui fazer aquilo que, à socapa, pela calada da noite, fazia com os meus filhos e que ainda faço com os meus netos: fui confirmar que estava a respirar.
Já contei várias vezes: na minha vida profissional e mesmo na vida normal há quem me ache destituída de medos. Na verdade sou muito de me atirar, sem medo. Quando quero uma coisa, vou, e acredito que acabarei por conseguir. Até por vezes me arreliava, intimamente, por ser tão destemida. À minha volta ficavam passados, achavam que eu não avaliava os riscos, que parece que não via as confusões em que me ia meter, os obstáculos que iria enfrentar. Mas eu avaliava, simplesmente tinha confiança em que eu e os que eu arrastava nas minhas empreitadas haveríamos de conseguir. E conseguíamos. E mesmo a outros níveis: não tenho medo de ir ao dentista, quase adormeço, nos exames médicos mais longos também quase adormeço de tão descontraída que estou, fui fazer artroscopia aos dois joelhos ao mesmo tempo sem consultar segunda opinião e sem medir consequências e, na véspera, estive aqui até às tantas a escrever como se nada se fosse passar. Sou assim. Mas quando a coisa tem a ver com filhos ou netos sou a mais maricas de que há memória. Chicken mais chicken não pode haver. Também me preocupo com o meu marido, claro que sim, mas não é aquela coisa absolutamente visceral que é com a descendência. Com os meus pais também havia aflição, por vezes bem grande, mas acho que era uma aflição misturada com ansiedade, com um temor de outra ordem -- não exactamente a mesma coisa que medo.
E com o meu cão-bichinho há uma coisa que também não é fácil: quando o vejo aflito. é a sensação de preocupação misturada com responsabilidade e, também, aflição. Ele não sabe explicar-se, eu tenho que adivinhar, e, se interpreto mal e tomo a decisão errada, ele não pode defender-se. Claro que nisto há uma responsabilidade partilhada com o meu marido.
Dito desta maneira parece que com os demais não há essa responsabilidade partilhada. Talvez haja mas de maneira diferente. Ele confia, ele desliga. Eu não. Quando os meus filhos eram adolescentes e saíam à noite, ele adormecia na boa. Eu não. No caso da minha filha, por vezes ele levantava-se às três ou quatro para ir buscá-la. Mas, antes disso, dormia. Eu não. Mesmo com o meu filho, já adulto, enquanto vivia lá em casa, eu não dormia, via as horas a passarem, numa inquietação, num sobressalto. Tinha que me conter porque se o meu marido se apercebia disto dizia que eu era maluca (e virava-se para o outro lado, a dormir). No entanto, muitas vezes em certos aspectos, era pior que eu. Eu sabia que eles não queriam que eu ligasse e, por isso, continha-me. O meu marido se acordava e via que era mais tarde e que eu estava numa inquietação, queria que eu ligasse. Eu não queria e ele inistia tanto que eu acabava por ligar. O pior era se eles não atendiam. Aí a coisa virava pânico. E, então, voltava a ligar. Quantas vezes eles depois se aborreciam por verem que eu já tinha ligado carradas de vezes... Enfim. Lembro-me do meu filho me dizer que eu tinha que aprender a controlar-me. Aí o meu marido fazia-se de santinho, todo sonso, como se não fosse ele também a picar-me para eu lhes ligar.
Pois bem. O meu cãobeludinho fofo ontem, tarde e más horas, depois de longas horas de calvário, a andar de um lado para o outro todo o santo dia, sem se deitar e, muito menos dormir, acabou por capotar.
Pus o despertador para ligar para a clínica logo na abertura. A veterinária do outro dia não tinha chegado e ainda bem. Marquei para uma outra que, felizmente, estava de tarde e que é muito mais soft, mais open mind, menos quero-posso-e-mando. De seguida liguei para a jovem que vinha buscá-lo para ele ser tratado. Relembro: continuamos sem carro.
A oficina ainda não conseguiu pegar nele. Escassez de mão-de-obra por todo o lado. E ainda há gente estúpida que não percebe que mais mão de obra houvesse e mais a economia cresceria.
Felizmente o meu filho conseguiu abrir alas nos seus compromissos da tarde para vir cá buscar-nos, levar-nos lá e depois trazer-nos. E, pelo meio, abusei como já tinha feito com a minha filha: pedi se, enquanto estávamos lá dentro, podia ir ao supermercado. A minha filha está habituada a fazer compras, ir com uma lista de compras não é transcendente. Mas ele não, lá em casa dele só encomendas online. Por isso, vi o sobressalto que se lhe estampou no rosto quando eu lhe pedi isso. Talvez não ponha o pé num supermercado há anos. Mas, pronto, lá foi... De resto, em qualquer dos casos, a minha ideia original era pedir que parassem por uns minutos que eu ia. Mas, no caso dela, ofereceu-se para ir durante a consulta. No caso dele, disse que tinha que ir abastecer de combustível e, portanto, aproveitei essa brecha que ele abriu.
Esta veterinária da tarde esteve a ver no sistema e, quando o observou, até achou que não estava tão mal como esperaria vendo o descritivo que a colega tinha escrito. O bichinho hoje estava mais tranquilo pois resolvemos seguir o conselho da primeira: que antes de ele lá ir, três horas antes, lhe dessemos um ansiolítico. E demos. Por isso, estava menos reactivo, menos apavorado. Quando a vet desinfectou as múltiplas feridas ganiu, saltou, tentou fugir e, se apanhasse alguém, ter-se-ia vingado, mas nada que se parecesse com o pesadelo de quando a outra médica o torturou no primeiro dia. Ou porque estava mais calmo, ou porque esta o desinfectou de forma mais gentil ou porque as feridas já estão melhor, a verdade é que a coisa foi controlada. A veterinária deu-lhe uma injecção de anti-inflamatório pois a inflamação nitidamente estava a incomodá-lo bastante. E usou um produto mais neutro na limpeza das feridas.
Explicou-me que o exsudado, em especial, o purulento, cria uma crosta que, se não for retirada, os tecidos debaixo ficam necrosados e a pele pode não regenerar. Mas que não tem que ser esfregado ou esfolado. E o líquido a usar não vai ser o betadine ou o outro de que não sei o nome mas que também lhe deve arder para caraças mas sim um que lhe vai dar uma sensação de frescura sem ardor.
Vamos ver. Espero que tudo, a partir de agora, corra melhor.
No entanto, chegou a casa e pôs-se outra vez às voltas pela casa, de vez em quando parado a olhar fixamente para nós. Agora veio pôr-se aqui encostado a nós, de pé, para lhe fazermos festas. Estávamos a ver que ia ser a mesma coisa. Mas não. Por volta talvez da meia noite e tal, perto da uma, creio, eu disse-lhe: 'vá, agora vai beber aguïnha e vai fazer ó-ó'. Se estivesse aqui o meu filho repreender-me-ia: 'não é um bebé... falas com ele como se fosse...'. Mas sai-me assim, que hei de fazer?. Eu disse-lhe aquilo e ele ficou um bom bocado parado a olhar para mim. Depois saiu da sala, ouvimo-lo a beber água e já não voltou, está a dormir. Felizmente. Também já vai no terceiro dia de antibiótico, há de ir melhorando.
Entretanto, vai abrir um novo espaço veterinário não muito longe daqui e estou tentada a mudar. Estas agora onde vamos são experientes, a clínica está bem equipada, etc. Mas a veterinária chefe, a dona, é linha dura, para ela os animais não são gente. E para mim são. Como no outro dia citei: cão como nós. E acrescentei: e nós somos gente como ele.
Tenho que agradecer os comentários tão simpáticos que me deixaram e os mails identicamente queridos, com conselhos e dicas. Não respondo individualmente porque estou muito exausta, a modos que esgotada. Muita contrariedade em simultâneo. E o facto de ter andado, há alguns dias, a dormir muito menos do que necessito, retira-me, ainda mais, a energia.
Esta coisa de estarmos sem carro é uma delas: faz-me sentir dependente e isso deixa-me doente. Amanhã o meu marido vai fazer um ponto de situação com a oficina e provavelmente vamos activar o carro de substituição. Mas não sabemos por quanto tempo. Receamos fortemente que ele, o crazy dog --que, quando vai no carro, quer atirar-se aos motoristas, em especial aos de uber ou glovo, e, como não consegue, se desforra mordendo o estofado das portas ou dos bancos -- dê cabo do carro de substituição e nos vejamos metidos em sarilhos. Irei atrás agarrada a ele. Poder-se-ia pensar que, por ter o colar isabelino, não consegue fazer estrago. Mas a verdade é que ele consegue tudo, já aprendeu os ângulos em que consegue chegar onde quer. Felizmente, até ver, não consegue chegar ao próprio corpo e isso é a principal prioridade neste momento porque, se apanha a cauda, nem imagino o estrago que fará.
Mas, portanto, muito obrigada, do fundo do coração, pelas vossas mensagens amigas. Perceber que aí desse lado estão pessoas com um coração grande dá-me muito conforto.
E vou esperar que nos próximos dias as coisas se vão endireitando. O meu optimismo deve ser a última coisa a morrer. Se calhar, quando estiver com os pés para a cova, ainda vou estar a dizer que o mundo é maravilhoso, as flores um encantamento, e que, vão ver, vai tudo correr bem.
Tenham um dia muito bom, ok?
Que bom! Graças a um Deus que acredito haja. Como já tive amigos de quatro patas, que para nós são família, compreendo -a bem na sua aflição. São amiguinhos dependentes de quem os ama. Um abraço e um bom fim de semana.
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