Ok, ok, eu falo. Mas já lá vou.
Antes, retomo o tema da Prestação Social Única e de toda a celeuma que a rodeia. Eu poderia ir tentar descobrir com que linhas a ministra Palma Ramalho coseu a dita prestação, como a chuleou, como cerziu e acolchoou e, no fim, engomou a dita prestação. Poderia, sim, mas não me apetece. Aquilo ainda vai ser discutido, há de ser alinhavado de novo, e muita água há de passar sob as pontes. Li, mas admito que sejam as vizinhas do costume, que a Palma Ramalho, sister de Madame Rebelo Pinto, quer pôr as pessoas com cancro a trabalhar. Não acredito. Nem acredito que queira pôr os desvalidos e desgraçados a tirar o trabalho aos outros. Não morro de amores pela ministra mas não a considero burra nem parva nem estúpida de todo e, por isso, mais depressa acredito que seja fofoca de vizinhas assanhadas.
Como disse, concordo a mil por cento que se faça de tudo para acabar com algumas coisas como, por exemplo:
- a baixa produtividade
- o baixo nível de escolaridade de parte do tecido económico
- a subsídio-dependência
- a avença-dependência
- o parasitismo
- a economia paralela.
Tudo junto torna a economia portuguesa uma coisa a tender para o poucachinho, e os portugueses, alguns deles deles, a portarem-se como chico-espertos, invejosos, mesquinhos.
Recordo:
a) A nível da produtividade portuguesa
Olhando para os dados oficiais mais recentes partilhados pela Pordata e pelo Eurostat, Portugal encontra-se na 19.ª posição do ranking de produtividade do trabalho entre os 27 Estados-membros da União Europeia. O fosso para a média: O valor gerado por um trabalhador em Portugal (cerca de 48 mil euros) equivale a apenas 65% da média da União Europeia.
É importante notar que este ranking não significa que os portugueses "trabalham pouco". Pelo contrário, Portugal tem das semanas de trabalho mais longas da Europa. O problema é o valor gerado nessas horas devido à falta de modernização tecnológica das empresas e à forte presença de setores económicos assentes em mão de obra barata (como a hotelaria e o comércio tradicional).
b) A nível da economia paralela
Portugal apresenta níveis de economia paralela superiores à média da Europa Ocidental e das economias avançadas, integrando o bloco do Sul e de Leste europeu onde a informalidade é mais expressiva.
Estudos de economistas associados ao FMI e ao Center for Economic and Policy Research (CEPR) colocam a média histórica e atual de Portugal na casa dos 17% a 24% do PIB, servindo habitualmente de barómetro para as comparações internacionais rígidas.
Conjungando estes dois aspectos, parece-me óbvio que há medidas que têm que ser postas em prática ao mesmo tempo:
- é preciso puxar a força de trabalho para trabalhos de maior valor acrescentado
- e é indispensável criar mecanismos de combate à economia paralela.
Tem que haver uma aculturação, muito levada a sério, de que trabalhar é dignificante e contribuir com impostos e contribuições sociais faz parte da dignidade do ser um cidadão de pleno direito.
Tem que ser rejeitado pela sociedade, mas rejeitado a uma só voz, com veemência, que haja trabalho informal, dinheiro recebido debaixo da mesa, muito menos que haja quem esteja a receber subsídios e, para não os perder, trabalhe recebendo 'por fora'. E isso é um crime duplo e não pode passar incólume.
Contudo.
Calma aí.
Vamos lá a pôr as coisas em perspectiva.
Claro que estou a falar naquilo tudo e a pensar que, face ao momento de charneira sociológica e tecnológica que atravessamos, não tarda vai haver muito mais desemprego, e, provavelmente, desemprego entre as camadas até agora consideradas de grande valor acrescentado. E isto é um outro filme. Um filme que até hoje nunca vimos.
Ainda hoje vi uma entrevista com Dario Amodei a alertar para os riscos potencialmente hecatômbicos relacionados com a adopção maciça da IA. Não são apenas os riscos existenciais (caso haja governos e empresas que avancem sem avaliar os riscos, passando por cima de todas as linhas vermelhas, e tenhamos armamento autónomo, independente da vontade humana) mas também os riscos de desemprego numa dimensão astronómica. Diz o Elon Musk: tem que se pagar subsídios a toda a essa mole humana. Mas, como também ouvi dizer, e concordo, quando não se tem trabalho, acaba-se a trabalhar para o diabo.
Como se ocuparão todos esses bons profissionais que, de um momento para o outro, se veem sem trabalho? E de onde vai vir o dinheiro para tantos subsídios. Aí já ninguém vai falar de ciganos ou de chico-espertos pois muito provavelmente estaremos a falar de programadores, técnicos de IT em geral, engenheiros, arquitectos, advogados. E esta é a grande discussão. A grande discussão que deveria estar a acontecer.
Mas a malta tende a não querer encarar os grandes problemas -- ou porque são tão grandes que a sua mente não os consegue abarcar, ou porque têm medo e preferem fazer de conta que não os veem. Portanto, estando um pedregulho gigante a vir na direcção da malta, em vez de se arranjar uma estratégia para não ficarmos todos esmagados, a malta olha para os pés e queixa-se que tem areia da praia entre os dedos.
Portanto, vão desculpar-me por não responder a todos os comentários ou nem vou documentar-me sobre a proposta de lei da PSU, nem me alongo mais sobre isto: não quero contribuir para ocupar o espaço público com um tema que me parece normal (fundir vários subsídios e ter regras claras para a sua atribuição bem como mecanismos de controlo na sua aplicação, parece-me, em abstracto, um bom propósito). Bem podem vir para aqui falar na Folha Não-Sei-das-Quantas ou da Não-se-Quantas-Liberal ou de ciganos ou cheganos ou do que quiserem, ou bem podem todos os canais ter comentadores para todos os gostos a falar entusiasticamente do assunto -- não vou dar muito mais para esse peditório.
Mas não me vou sem abordar o tema do canal Denúncia que dá nome a este post. O nome dá coceira, bem sei. Ouve-se e pensa-se logo em bufaria. Mas vejamos o assunto por outra perspectiva: se as pessoas sabem que está a passar-se qualquer coisa de condenável ou repulsivo devem calar-se? Tornar-se cúmplices?
Nas empresas há o canal de denúncia e é muito relevante. É por essa via que as pessoas denunciam casos de assédio sexual ou moral, casos de corrupção, casos de deslealdade profissional, etc. Quando trabalhava, vários casos chegaram até mim. Claro que, em primeiro lugar, os casos eram 'despistados' por uma comissão que fazia uma pré-análise. Geralmente as denúncias são anónimas pois as pessoas têm receio de retaliações e é natural que as tentemos proteger. Muitas vezes, quem faz uma denúncia não é um bufo nojento mas, sim, uma pessoa corajosa. Mas, porque a maior parte das denúncias são anónimas, a primeira investigação para aferir se há ali matéria de facto ou se é obra de colega vingativo pode ser complicada. Geralmente, só depois de já haver um 'caso' devidamente estruturado é que as coisas chegavam até mim e até outro colega que comigo analisava as denúncias. Na sequência de denúncias dessas, por exemplo, uma directora foi despedida com justa causa na sequência de uma denúncia. Um responsável de serviço mudou de funções na sequência de uma denúncia em que a suspeita era grande mas em que não se conseguiu provas suficientes para despedimento. Outros casos traduziram-se em admoestação e aviso por escrito. Outras denúncias ficaram pelo caminho: nada de concreto se conseguiu apurar e mais parecia coisa de ajuste de contas. Pessoas experientes sabem 'pegar' nos assuntos de forma a não alimentar denúncias ocas e, pelo contrário, para aplicar justiça em casos muitas vezes falados à boca pequena e sobre os quais nada se fazia.
Extrapolando para o tema em apreço, que haja um canal nacional para que se possam denunciar situações abusivas de gente que anda a gozar com o pagode, recebendo dinheiro de subsídios quando não precisa deles e quando, ainda por cima, trabalha 'clandestinamente', sem pagar pingo de impostos ou de contribuições, parece-me normal. E confio que haja gente com moral sólida para analisar o que lá for chegando (ie, nada daqueles capangas que movem inquéritos retaliatórios contra juízes que não lhes agradam e que estão feitos com a imprensa sensacionalista).
Contudo, volto a dizer, face à real dimensão dos problemas da economia portuguesa:
- a baixa produtividade + a impensável dimensão da economia paralela + (já para não falar da desgraçada demografia invertida)
- e à ainda maior dimensão da gigante ameaça (ou desafio, conforme se queira ver o assunto) que já começa a desenhar-se, da Inteligência Artificial.
tudo isso não passa de amendoins. Peanuts, para os intelectuais.
Ora bem,fico pelo anónimo.Aplauso por levantar questões pertinentes.Lebres foram levantadas do seu triste turpor,sonolento.A ofensiva reside no conhecimento científico ,bem trabalhado pelos matemáticos: bit,byte,palavra,códigos,algoritmos e temas afins.A linguagem dos CEO’s pode ser perversa.Tem referido,ser do seu conhecimento pessoal alguns da vizinhança,fechada.O paradoxo resulta de se estar de acordo com os princípios,mas discordar dos processos e métodos para os atingir.Dois falhanços,de previsão por cientistas de renome universal {Manifesto pro-Guerra WW1, Einstein+2,derrotado e perseguido}.A seita pidesca não passa de peanuts,quando comparada a IA. Esta seita não dorme,os ramalhos podem ser duros,mas estúpidos não são. Quando Antrhopic,Claude, COPILOT e afins chegarem às mãos de ciganos ,cheganos ou afins,vai ser lindo de se ver! Em tempos de S.Antonio,divirta-se.Nao sei razão,mas hoje apetece-me ouvir K.Jurgens, na cançoneta Zegeuner.Tudo de bom.
ResponderEliminarNão me parece que seja justo comparar os canais de denúncia de assédio, em que a vítima está numa posição de fragilidade perante uma pessoa ou entidade poderosa que abusa do seu poder. No caso das prestações sociais, é o Estado a "vítima", mas é tb ele que está numa posição de força e tem, ou deve ter, os meios para fiscalizar o respeito pelas regras do jogo. Não é ao cidadão que cumpre fazê-lo, nem lhe pode ser assacada essa responsabilidade, nem tem os meios, o conhecimento e a perspectiva distanciada que lhe permita avaliar as situações, das quais, aliás, só será porventura vítima indirectamente e por via da incompetência ou incapacidade da administração pública. E isso não deve ser estimulado também pelos riscos de deslaçamento e até violência social que comporta. Já seria comparável às denúncias por corrupção & cia, mas não há já canais para esse tipo de participações, tratando-se de crimes? Vão simplificar as prestações sociais de um lado e complicá-las do outro, com mais burocracia? O que me parece que se quer com estas alterações, incluindo o "voluntariado obrigatório" é reduzir, ainda mais, os beneficiários, de forma perversa, porque as pessoas até terão medo de pedir o apoio.
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