Tem estado muito calor e, quando levamos o cão a dar o seu passeio, vai contrariado. Ao contrário do que é costume, arrasta-se, encosta-se aos muros para aproveitar a sombra e, mal faz as ncessidades, dá meia volta, quer regressar a casa, e só a custo o levamos a andar mais um pouco. Percebe-se. Não está fácil.
Há algumas casas em obras. Pintam-se pareces, limpam-se telhados, alargam-se janelas. Os homens das obras deixam os portões abertos e aí o cão já quer entrar, é muito cusco. Também sou, mas disfarço.
Com o calor que está, as pessoas que às vezes eu via a cuidar do jardim estão recolhidas, não as tenho visto. Compreendo-as. Também pouco tenho feito.
Sabemos que é a casa de estrangeiros quando, à noite, por lá passamos e reparamos que não baixam estores ou fecham portadas (que, na maior parte das vezes, nem existem), nem têm cortinados. Da rua, vê-se completamente a casa. Isso não os incomoda. Ao fim de alguns anos, continua a causar-me alguma admiração. De fora, parece o enário de um filme ou, outras vezes, uma pintura de Hopper.
No ginásio, quando vou mais cedo, cruzo-me com uma população que não vejo quando vou à minha hora mais tardia. Não só há muito mais gente como, sobretudo, gente muito mais nova. Muitos. Pasmo com o que fazem. Levam aquilo muito a sério. Têm corpos musculados, eles e elas, esforçam-se imenso, põem uma carga que torna as máquinas, para mim, inamovíveis. E há uma senhora francesa, essa não tão jovem, talvez já uns quarenta e picos, muito simpática. Sorri na minha direcção e cumprimenta-me com afabilidade. Há também umas brasileiras que falam com muita graça e que parecem competir quanto à graça e bom corte dos seus fatos.
Hoje, quando saímos do ginásio e íamos para casa, vimos uma jovem, também estrangeira, com dois copos de café na mão. Cumprimentou-nos, muito sorridente. Fiquei intrigada: quem é que vem comprar dois copos de café e os leva, a pé, para casa? E percebemos que não ia para nenhuma casa ali ao pé pois, quando nós virámos para o nosso destino, ela continuou. É certo que estava muito calor mas não é possível que o café chegasse a casa dela em condições.
E, como é bom de se imaginar, continuo sem ver noticiários ou comentários. Mas hoje, quando íamos -- outra vez!!!! -- para o veterinário, ao ligar a rádio, apareceu o tema da legislação laboral e o entendimento ou meio entendimeto do Montenegro com o Chega. Exclamei: 'Lá anda este com o aborto às costas'. O meu marido olhou para mim muito admirado, acho qu epensou que eu estava a chamar aborto ao Ventura.
Mas não. A questão, mesmo, é que só consigo ver a Legislação Laboral como um aborto. Por ali andou a balões de oxigénio a ver se vingava na Concertação Social, e não vingou. Agora por aí anda, na Assembleia, com o Montenegro a toque de caixa do Ventura, uma coisa desonrosa. Só o facto do Ventura ligar isto a uma pretensa descida da idade da reforma (para 60 anos, imagine-se!), deveria levar o Montenegro a virar-lhe as costas e não voltar a dirigir-lhe a palavra. Mas não, como tem esperança que o outro consiga reanimar o aborto, apara-lhe todas as jogadas. Tipos mais infelizes, estes dois.
Com tanto tema grave na actualidade, tanto, tanto, tanto, andam a perder tempo e a desonrar a política, com um aborto destes.
Até me lembrei, e não vem nada a propósito da Lei Laboral, do dia em que fui visitar uns nossos amigos na sequência dela ter tido um aborto espontâneo. Deve ser muito tiste para qualquer mulher mas, para ela, que andava há já algum tempo a tentar engravidar, talvez ainda fosse mais. Estava de facto abalada. Às tantas, como era normal o meu marido ir ao frigorífico buscar uma cerveja ou sei lá porquê, avisou: 'Se forem ao frigorífico não se espantem, o feto está lá.'. Não sei se imaginam o meu sobressalto. O meu horror. Não sei se deixei que uma interjeição se soltasse, presumo que sim. Caraças, no mínimo. Acho que o meu marido soltou um palavrão. Mas, para ela, ter o feto no frigorífico era normal. Como é médica, a par do desgosto, estava a vontade de examinar o serzinho em formação e perceber porque é que não tinha vingado. Então, com a maior das naturalidades, descrevia como a coisa se tinha dado, como, ao expeli-lo, tinha conseguido apanhar o feto ensanguentado e o tinha guardado para, logo que voltasse ao trabalho (nós estávamos lá em casa dela no fim de semana e, portanto, devia estar à espera da segunda-feira), o levasse (não sei para onde, mas presumo que para o hospital onde trabalhava) para ser examinado. Escusado será dizer que nesse tarde ninguém tocou no frigorífico. Perguntámos ao marido: 'Não te faz impressão?'. Meio sem acção respondeu: 'Claro que faz. Nada disto é normal.'. Pois.
Assim o Montenegro. Também põe o aborto no frigorífico e, de vez em quando, vai buscá-lo para ver se alguém lhe pega. Não pega.
Não há pachorra para tanto imprestável.
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Desejo-vos uma boa quinta-feira
Pois eu continuo a pensar que o aborto vai a parto, que o enfermeiro Ventura é a parteira, e que vai ser um pimpolho risonho.
ResponderEliminarCuriosamente diria que quem não vai gostar é a malta do PSD. A do Chega não conta. São brutos e iletrados, bem vendido comem tudo.
Segue-se a segurannça social para baixar as reformas e dar uns cobre a ganhar às seguradoras da IL.
Diria que a coisa arrisca cair toda no dia em que cozinharem a revisão constitucional - os ajudantes de cozinha já devem estar a preparar o molho - quando o actual PR os mandar borda fora para salvar as instituições.