terça-feira, maio 26, 2026

Ichi-go ichi-e
一期一会

 

Tive vários assuntos para tratar. E só o facto de o referir já me dá vontade de rir, gozar comigo própria. Até há cerca de três anos, fazia tudo e mais alguma coisa com uma perna às costas e, entre mil coisas, encaixava outras mil. Agora a gestão do meu tempo é tão extraordinária que meia dúzia de coisas para tratar parece que se transformam numa grande coisa. 

No outro dia, ao queixar-me da quantidade de coisas que compramos no supermercado e do dinheirão que gastamos, o meu marido recordou o óbvio: Quando trabalhávamos, durante a semana almoçávamos no restaurante e, sendo os jantares refeições mais ligeiras, as compras eram naturalmente muito menos.

Mas isso traduz-se também no tempo que agora gasto na cozinha a preparar refeições. 

Depois há o tempo das caminhadas mais o tempo do ginásio. E o tempo dispendido a apanhar banhos de sol. E o tempo a olhar para as coisas, a apreciar a sua beleza, a fotografá-las. E o tempo a ouvir os passarinhos. E o tempo usado a regar. E tudo isso consome tempo e corta o dia. Tudo coisas que antes não faziam parte da rotina diária (só a caminhada pós-laboral, nos últimos anos). Por isso, havendo tarefas que não são diárias, já parecem dignas de realce. Mas sei que não são, estou aposentada mas (ainda) não estou senil.

Ah, e esqueci-me de referir outra tarefa, não menos importante: também ando atrás das formigas. Têm aparecido resíduos em alguns parapeitos. Dá ideia que se alojam na caixa dos estores. Até aqui tenho estado a tentar resolver a bem, com água. Mas amanhã vou enveredar por medidas mais assertivas, vou aplicar um gel que espero que as afugente -- não precisa de ser letal, não sou de violências.

Mas isto para dizer que me encanto com as flores do meu jardim. Olho-as de todos os ângulos, maravilham-me. Tenho sempre a sensação que cada momento é único, no dia seguinte podem ter murchado, secado. E a sua beleza varia segundo as horas do dia, conforme a luz está de frente ou de lado ou a pôr-se, ou eu lhes proporcione grandes planos ou as apanhe quase à espreita. Ando nisto -- e, acreditem ou não, a verdade é que não me canso. 

Não sei se mudei muito ou se sempre fui assim e sempre consegui coexistir com as outras que não eram bem eu. Não sei. 

Mas também me parece que não vale a pena tentar saber. Ao contrário de muito boa gente que acha que tem que se dissecar até à medula, conhecer-se até ao mais não poder, e interpretar tudo o que faz ou deixa de fazer ou encontrar justificações ou desculpas para cada comportamento, eu estou-me bem a marimbar para tudo isso. Quero é viver bem o momento em que estou e o que se segue.

Nunca, n-u-n-c-a, me ocorreu puxar pela cabeça a lembrar-me se os meus pais se zangavam assim ou assado comigo, se alguma vez foram injustos, se alguma vez algum colega da escola me gozou ou deixou de gozar, se, de alguma forma, alguma coisa do passado me traumatizou ou moldou a minha personalidade. Sempre me estive completamente nas tintas para tudo isso. Se me chateava, era momentaneamente. Estrebuchava, mandava vir e, agora que falo nisto, lembro-me que uma vez uma miúda me chateou até à medula e tive um ataque de fúria, tendo-lhe dado um valente par de estalos. E tendo exteriorizado a minha zanga, logo me passava (para todo o sempre). Sempre, desde sempre, me considerei totalmente responsável pelos meus actos e pela minha personalidade. Havia de ter graça agora justificar alguma coisa no meu comportamento porque, no passado, a minha mãe me disse isto ou aquilo ou o meu pai me proibiu daquilo ou daqueloutro ou alguma professora se zangou com ou sem motivo. Quero lá eu saber disso para alguma coisa. Se na altura, logo que aconteceu ficou morto e enterrado era o que faltava que agora fosse consumir o meu precioso tempo a exumar comportamentos que passaram a cadáveres no instante seguinte a terem acontecido. Por exemplo, lembro-me dos ataques de fúria que a minha mãe tinha comigo: travava o punho cerrado no alto da minha cabeça, com vontade de me afincar com toda a força, cerrava a boca com toda a força, quase incapaz de pronunciar palavra. Ficava varada comigo, já nem sei porquê. Mas, ao lembrar-me disso, sempre me deu vontade de rir. Uma vez, contei ao meu marido e ele também achou um piadão e, então, às vezes, se eu o contrariava quando estava ao pé da minha mãe, ele dizia: 'vê lá se queres que eu faça como a tua mãe, e ameace dar-te murros na cabeça'. E ela ria e dizia: 'Sabe lá, levava-me ao desespero, nem imagina...'. Dar nunca me deu, mas eu sentia a pressão do punho fechado na minha cabeça. No entanto, em vez de pensar que ela era demasiado impaciente ou que demonstrava instintos agressivos ou que isso, de alguma forma condicionou o meu desenvolvimento, só me dá é vontade de rir e faz ter vontade de me lembrar o que é que eu faria para a deixar em tal ponto de rebuçado. E tenho a certeza que nada disso influenciou a minha maneira de ser nem me deixou com vontade de a culpar por alguma coisa. Zero. Desde que me conheço que a minha filosofia de vida é uma: bola para a frente. Ou: para a frente é que é caminho. Não é uma filosofia muito profunda, bem sei, mas é o que temos. 

E vem isto a propósito de quê?

Ah, já sei. Estava a questionar-me se sempre fui zen e disfarcei bem, ou se era speedada e agora é que mudei. Mas era uma questão retórica. Quero lá saber.

O que vale a pena ver é o vídeo lá mais abaixo, muito compatível com o meu mood actual. Mas antes, o meu amigo Gemini explica-nos em que consiste o 一期一会

Ichi-go ichi-e (一期一会) é um conceito cultural japonês lindíssimo que pode ser traduzido literalmente como "uma vez, um encontro" ou "neste momento, uma oportunidade".

A essência dessa filosofia é a impermanência e a singularidade de cada momento. Lembra-nos que cada encontro, conversa ou experiência que vivemos é absolutamente único e nunca se repetirá da mesma forma.

A Origem do Termo

O conceito está profundamente ligado ao Zen Budismo e à tradicional Cerimônia do Chá Japonesa (Chado), popularizado pelo mestre de chá Sen no Rikyu no século XVI.

Mesmo que o anfitrião e os convidados se reúnam frequentemente para o chá, o encontro de hoje nunca poderá ser replicado exatamente. A temperatura da água, o arranjo de flores, o humor das pessoas, o clima lá fora... tudo muda. Portanto, o encontro deve ser tratado com a máxima sinceridade e devoção.

Os Três Pilares do Ichi-go Ichi-e

Presença Absoluta: Estar 100% focado no aqui e agora. Se você está a jantar com um amigo, o mundo exterior e o celular deixam de importar; o foco é aquela pessoa e aquele instante.

Consciência da Impermanência: Aceitar que tudo passa. As coisas boas passam (o que nos faz valorizá-las mais), e as más também passam (o que nos traz conforto).

Apreciação e Gratidão: Tratar cada interação — seja com um estranho no metro ou com seu parceiro de vida — como algo precioso, pois aquela exata configuração de tempo e espaço jamais existirá novamente.

Como Praticar no Dia a Dia?

Não é preciso participar de uma cerimônia do chá para aplicar o ichi-go ichi-e. Você pode trazê-lo para a sua rotina de formas simples:

Evite o piloto automático: Preste atenção aos detalhes do seu caminho diário, ao sabor do café pela manhã ou ao tom de voz de quem fala com você.

Pratique a escuta ativa: Quando estiver a conversar com alguém, ouça para compreender, e não apenas para responder.

Não adie a gentileza: Se você teve um momento agradável com alguém, demonstre. Não assuma que haverá uma "próxima vez" para dizer algo importante.

Em resumo, o ichi-go ichi-e é um convite para desacelerar e viver a vida não como uma sequência de tarefas, mas como uma coleção de momentos irrepetíveis.

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Na volta já estão pelos cabelos com tanta sabedoria oriental e tanto slow living mas, como agora está na moda dizer-se, 'eu sou esta pessoa' (expressãozinha mais besta, não é?)

Portanto, cá vai mais uma dose, desta vez em forma de vídeo, o vídeo de que falei lá em cima. É que, como verão no vídeo, são tudo hábitos com que todos ganharíamos.

9 filosofias japonesas para uma vida mais tranquila

Alguma vez se perguntou por que razão o Japão parece tão organizado, calmo e profundamente respeitoso?

A ordem encontrada na sociedade japonesa não é uma coincidência. É o resultado de um código de conduta específico transmitido através das gerações. Do silêncio no metro de Tóquio à forma como as crianças limpam as suas próprias salas de aula, a cultura japonesa prioriza a responsabilidade partilhada e a elevada confiança social.

Organize os seus hábitos e limpe a sua mente. 


Desejo-vos um dia feliz

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