segunda-feira, abril 27, 2026

Cartas de amor

 

Provavelmente só as pessoas até à minha geração conhecem a experiência de receber cartas de amor. Ou escrevê-las. Em papel, enviadas pelo correio.

Como sempre adorei escrever, onde eu ia arranjava alguém com quem me corresponder. 

Ia acampar com miúdos de outros liceus, e era uma festa, dias longe de casa, numa quinta. E, vinha de lá, com um monte de nomes e moradas e, depois, escrevia cartas e cartas e ficava numa expectativa à espera que o carteiro trouxesse envelopes gordos, cheios de novidades, de pensamentos, de dúvidas. 

Conheci uma inglesa na praia, mergulhámos, sorri para ela, começámos a conversar, o meu pai ensinou-a a nadar e, durante anos, através de uma muito assídua correspondência, conheci  realidade de uma adolescente que vivia uma vida diametralmente oposta à minha. A liberdade inglesa contrastava com o moralismo da fechada e cinzenta sociedade portuguesa. Espantava-me com tudo o que ela me contava. E trocávamos fotografias. Era uma realidade que me chegava de um outro mundo.

Depois conheci um rapaz de um liceu do Porto. Uma inteligência incomum. Correspondemo-nos durante muito tempo, creio que já andava na universidade. Tão diferente de todos os demais. Hoje, um ilustre catedrático. 

Em Angola, um amigo especial, inseparáveis durante um mês. Vivências muito diferentes, eu com dezassete acabados de fazer, ele já com dezanove, a meus olhos, um homem feito. Uma história que me marcou. E, depois, as cartas dele, cheias de ironia e de provocação. Tentava desinstalar-me, coisa que eu sempre apreciei. Uma só a descobri quando estava a esvaziar a escrivaninha da sala da minha mãe.

E depois um outro rapaz irlandês. Pelas fotografias via que era gigante, cabelos compridos. Um outro mundo, tempos de grandes conflitos, ele com uma consciência política muito à frente da minha, uma revelação. Abriu-me horizontes.

E um rapaz africano que muitas vezes não sabia se as suas cartas conseguiriam chegar até mim, que tinha que percorrer uma longa distância para receber as minhas. Aí a vivência não era apenas muito diferente, nem era por ser um outro continente, era, mesmo, como se fosse outro planeta. As dificuldades pelas quais passava eram imensas e, sobretudo, havia conflitos e tinha muito medo que o matassem. Eu recebia as suas cartas com inquietação mas ainda maior inquietação sentia quando passava muito tempo e não chegava carta dele. Depois lá chegava e eu ficava toda feliz. Até que, por fim, as cartas dele deixaram de chegar.

E, depois, as cartas de amor. Tenho um saco cheio delas. Deixei-as ficar em casa dos meus pais. Também as recuperei quando há cerca de dois anos as encontrei na mesma gaveta em que as deixei. Não fui capaz de as reler. Eram dirigidas a uma que já não sou. Contudo, sei que eram cartas bonitas, muito bem escritas. Tinham sempre várias folhas, e eu, sobretudo, gostava de ler. Não era tanto o amor, era mais o prazer de ler, em especial por serem bem escritas. E eu retribuía e sei, honestamente falando, que mais do que o sentimento, era o prazer da escrita, o prazer de desbravar caminhos através das palavras.

Encontrei também as cartas que o meu pai enviou à minha mãe enquanto fez a tropa, em Abrantes.

E encontrei a carta que o meu avô materno dirigiu à minha avó, para se declarar.

São palavras que sobrevivem e que são testemunhos não apenas de sentimentos mas, também, de uma época.

Mensagens escritas no telemóvel esvaem-se, não ficam para o futuro. Cartas são cartas, são eternas. Não sou saudosista, não há muitas coisas das quais tenha saudades mas das cartas tenho. 

Talvez por isso, goste tanto de ouvir ler cartas, em especial cartas de amor. E, se forem ditas por quem tem uma voz feita para dizer palavras, ainda melhor.

Benedict Cumberbatch lê uma bela carta de amor

Gerald Durrell e Lee McGeorge conheceram-se em 1977, quando Durrell — já naturalista e escritor de renome — dava uma palestra na Universidade de Duke, onde ela estudava comportamento animal. Tornaram-se amigos íntimos rapidamente e, em dois anos, casaram. Em 1978, pouco depois de se terem conhecido, Durrell escreveu-lhe uma carta.

Benedict Cumberbatch leu esta bonita carta para terminar o nosso espetáculo especial do Dia da Terra no Royal Albert Hall, em abril de 2026.

O espetáculo foi realizado em parceria com a Vivobarefoot e em apoio à Greenpeace.


Desejo-vos uma boa semana

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