segunda-feira, março 23, 2026

Ouço uma conversa assim, pessoal, íntima, entre um homem e uma mulher, e penso que seria provável que acabassem apaixonados

 

O meu dia foi, tal como o anterior, muito bom e muito tranquilo. Fomos lanchar/jantar a casa do meu filho, e estivemos na casinha de vidro que têm no jardim, que é um lugar muito agradável. Como o dia esteve primaveril, o ambiente fica ainda mais acolhedor. Os lugares em que estou com os meus é sempre um lugar de felicidade. 

Antes de irmos para lá, estive ao sol que não estava muito quente mas que, apesar de tudo, me aqueceu levemente a pele. Ouvia os pássaros e os sinos e pensei o que penso muitas vezes: mesmo que fosse só por um momento assim já valeu a pena. 

Já aqui contei mas, como penso nisso muitas vezes, vou repetir. A primeira vez que me encontrei com um colega depois do confinamento, contei-lhe que tinha mudado de casa. Descrevi-a, disse onde era, e ele ficou pensativo e disse que, quando sabe que algum amigo mora numa casa assim, pensa sempre: 'e quando um dos dois morrer, a casa não fica grande demais só para um?'. Já não me lembro se me ri e lhe disse que estava mórbido demais para o meu gosto ou se fiquei contagiada, melancólica. Só sei que lhe disse que não tínhamos pensado nisso mas que, quando isso acontecer, logo se verá, mas que, até lá, valerá sempre a pena. E tem valido. No verão fará seis anos que aqui vivemos. E cada dia vale a pena. Mas penso no que ele me disse. A lei das probabilidades não esconde que talvez um dia um de nós dois vá antes do outro. Espero que seja daqui por muitos e bons anos. Mas, quando acontecer, será um problema, claro, em especial se, nessa altura, já for, como desejo que seja, bem velhinho. Um velhinho ou velhinha numa casa grande, sozinho/a, longe do centro da cidade, será sempre complicado. Mas os problemas existem para serem resolvidos e, em princípio, a sua resolução requer sempre uma avaliação concreta das circunstâncias. Portanto, como não se sabe quais as circunstâncias desse dia futuro, não vale a pena estar agora a pré-ocupar-me com isso. 

O que vale a pena é pensar: estou aqui, agora, estou bem, gosto de aqui estar, tenho a sorte e a felicidade de aqui viver e de poder sentir o sol, ouvir os pássaros e a música dos sinos, ver as árvores e as flores, andar descalça, pôr as mãos na terra, estender roupa ao sol.

Mas, portanto, ponho-me ali nestas divagações e nem me apetece pegar num livro, estou simplesmente ali, a existir. Também poderia pegar no computador, ver as notícias, circular pelo youtube, não deixar tudo para as tantas da noite. Mas não. Há isto de que já falei um milhão de vezes: tenho que viver o lado funcional durante o dia, cozinhar, jardinar, fazer compras, arrumar coisas, etc, e depois aproveitar um bocado para estar sem fazer nada, a pensar, a dormitar, a olhar em volta. Não quero deixar que esse tempo seja invadido pelo silêncio de que preciso à noite. 

Por isso aqui estou agora. Comecei por me informar sobre esta guerra perigosa -- mas hoje não estou com disposição para me deixar atormentar. Por isso, desviei-me, escolhi outra rota: estive a ouvir a lenta, gostosa, conversa entre a Bella Freud, designer de moda e filha e neta de dois ilustres Freud, Lucian e Sigmund,  e o escritor Karl Ove Knausgaard.

Já no outro dia aqui partilhei um vídeo de uma outra destas conversas. Há vagar, há espaço, não há interrupções nem confrontações. Ouve-se, partilha-se, está-se disponível. É bom de ouvir, são momentos de calma.

Desta vez o convidado é improvável. Mas o engraçado é que a coisa funcionou muito bem. Há uma empatia entre eles, talvez até mais que isso. Gostam de ouvir o que o outro diz, entregam-se à escuta do outro. A conversa vai para áreas sensíveis. Não que ele já não tenha escrito sobre isso: o alcoolismo do pai, o sofrimento que isso lhe causou, o impacto que teve na sua vida. Mas escrever, no silêncio, é uma coisa: não há ninguém a ver, não há ninguém a ouvir, não há ninguém a questionar. Outra, muito diferente, é falar sobre assuntos íntimos e difíceis com alguém. Mas, aqui, a conversa flui.

E sente-se que, um momento assim, tão íntimo, tão exposto, tão sincero, pode dar lugar a um belo romance de amor. Não sei como foi quando ele se levantou do sofá, podem apenas ter-se despedido, gostei muito, thanks e até um dia destes -- mas a mim parecer-me-ia natural que se abraçassem, e, quando falo em abraço, falo em abraço a sério, apertado, demorado. Parecer-me-ia também natural que, depois do abraço, se olhassem nos olhos. E um olhar prolongado nos olhos um do outro, um deep dive, já se sabe ao que leva. Ou seja, parecer-me-ia natural que se beijassem. E, já que o sofá está ali à mão de semear e já que não são umas crianças e que, naturalmente, não têm muito tempo a perder, que testassem logo ali mesmo ver se os corpos também se entendiam entre si.

Mas isto sou eu a ficcionar. Gosto de histórias de amor.

Karl Ove Knausgaard sobre o Poder dos Pais | Podcast Fashion Neurosis com Bella Freud | Vídeo

Karl Ove Knausgaard é um escritor norueguês. O seu romance autobiográfico "A Minha Luta", lançado em seis volumes, foi aclamado como uma obra-prima em todo o mundo. Exerce um grande fascínio tanto sobre os intelectuais como sobre os jovens que refletem sobre o propósito existencial da vida.

O autor Karl Ove Knausgård junta-se a Bella Freud para uma conversa intimista que explora o poder dos pais e as complexidades da identidade. A discussão aprofunda as experiências pessoais com a vergonha e o significado inesperado das escolhas de vestuário. Prepare-se para reflexões perspicazes sobre relacionamentos, arte e a busca universal do eu. 


Desejo-vos um dia feliz

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