Acabei de ter uma grande alegria. Aprendi uma coisa e percebi que, na volta, não sou maluca de todo.
Vou contar-vos.
Tenho um hábito, coisa muito minha, que me leva a ficar a olhar para os muros, para as paredes, para o chão, e que me deixa encantada. É como se o mundo dito real, palpável, se desdobrasse em vários outros, ao mesmo tempo efémeros e imarcescíveis.
Se tenho comigo o telemóvel, fotografo. Senão, muitas vezes vou a correr buscá-lo. Dantes usava a máquina fotográfica, mas tantas se estragaram que desisti. O telemóvel serve bem. Então fotografo o que me encanta.
Mesmo à noite, quando vamos passear com o cão, deixo-me ficar para trás para fotografar. Fotografo a sombra que a luz dos candeeiros projecta nos muros, fotografo as árvores contra o céu escuro, quase a sombra que as árvores nocturnas espelham no céu.
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| Esta fotografei há pouco, achei-a linda |
O meu marido apressa-me, não lhe parece bem que, à noite, as ruas vazias, e isto já para não falar no frio ou na chuva, eu atrase a marcha, me demore, me deixe ficar sozinha. Dantes perguntava o que é que eu estava a fotografar. Agora já se deixou disso. Quando perguntava, muitas vezes eu respondia: 'Nada'. E não era para ser antipática, era mesmo porque achava que ele não ia achar muito lógico se eu dissesse que estava a fotografar sombras.
Tenho incontáveis fotografias disso: a sombra que as coisas fazem. A sombra fugaz. Daí a instantes, a posição relativa das coisas face ao sol (ou ao foco de luz) estará diferente, as sombras estarão diferentes ou inexistentes. Ou se o vento agitar as coisas, a sombra perderá a sua nitidez. Adquirirá então movimento, tornar-se-á fluida, ainda mais lábil.
Não comentava com ninguém, ou até escondia, este meu encantamento. Achava que, se falasse nisso, as pessoas achariam que eu não era boa da cabeça e eu teria dificuldade em rebater, se calhar é mesmo pancada. Se me dissessem que eu estava a enaltecer uma coisa banal, uma coisa a que qualquer pessoa normal não atribuiria qualquer relevância, iria pôr-me a falar da beleza poética do que é imaterial, do que não deixa rasto? Estaria a enterrar-me ainda mais, não é?
Mas eis que agora me aparece um vídeo em que se dá um nome a isto. Komorebi. A luz do sol filtrando-se através das árvores. Ou seja, não apenas não é maluquice minha como até tem um nome. Adorei o vídeo: fala-se sobre o assunto, fala-se da beleza das sombras etéreas, intangíveis, móveis, belas, fala-se do que se pode contemplar em silêncio, do que se pode sentir dentro de nós.
A beleza do Komorebi: como os japoneses veem a luz filtrada
Komorebi é uma palavra japonesa que descreve a luz solar a filtrar-se pelas árvores.
Neste vídeo, exploramos a beleza do komorebi e como os japoneses veem a luz filtrada não apenas como algo que vemos, mas como uma experiência serena de tempo, natureza e presença.
Das florestas e ruas da cidade à arquitetura, jardins de chá e vida quotidiana, o komorebi revela uma forma delicada de perceção do mundo. Ele lembra-nos que a beleza não exige atenção. Ela espera por ela.


Bom dia. Já votei no Filipe, só porque sim.
ResponderEliminarMas isto fez-me lembrar isto.
No fim do século 19 ou principio do 20, algures em França, um policia deu ordem de prisão a um sujeito, que apresentava um comportamento suspeito.
Estava deitado no chão de barriga para baixo parecendo um vagabundo.
O velho justificou-se, -estava a observar o comportamento das moscas- ao que o policia respondeu com exaltação.
O velho encolheu os ombros e a luz iluminou a faixa que tinha no casaco.
Até um policia saloio sabia o que significava a medalha da LEGIÃO DE HONRA, e pediu desculpa.
FABRE, O INCORRIGÍVEL ADMIRADOR DA NATUREZA.
Se votou no Filipe porque sim, então porque não...?
EliminarE gostei da história que contou. Muito obrigada.
Adenda ao comentário anterior.
ResponderEliminarConsta que uma das frases de FABRE, foi esta pérola.
NÃO PRECISO DE ACREDITAR EM DEUS, VEJO A SUA OBRA EM TODO O LADO.
Possivelmente lera ESPINOSA, tal como EINSTEIN.
https://youtu.be/7lf2R6KZ2Ew
Não conhecia a palavra "Komorebi" até ontem a ter visto aqui. Acabei de a reencontrar agora em " Panados e arroz de tomate" . Achei curioso duas pessoas cujos escritos sigo com gosto fazerem a mesma referência em momentos tão próximos.
ResponderEliminarQue engraçado... E sabe que me levou a espreitar esse blog de que nunca tinha ouvido falar...? E gostei. Muito obrigada. Les beaux esprits se rencontrent...
EliminarÉ mesmo uma coincidência curiosa! Também estou a gostar de ler este blog.
EliminarQue alegria ler isto. Passo a vida a fazer exatamente o mesmo em cima da minha scooter: a parar para ver o que ninguém vê e a "fotografar" com o olhar (e às vezes com a câmara) essas sombras que são, afinal, a alma das coisas. É um alívio saber que essa nossa "pancada" tem um nome tão bonito e que, no Japão, é elevada a categoria de arte. Há uma beleza imensa nessa "leitura lenta" do mundo. Muitas vezes, o que é imaterial e não deixa rasto é o que mais nos preenche. Revejo-me inteiramente nessa busca pelo efémero, por esse instante em que a luz e a sombra decidem dançar num muro qualquer de uma rua vazia. Afinal, a sensibilidade não é maluquice; é apenas uma forma de presença.
ResponderEliminarOlá Daniel. Que alegria e que boa surpresa ler o seu blog. Vou passar a segui-lo. Obrigada pelas suas palavras.
EliminarOlá Calita. Gostei de vê-la por aqui. Muito obrigada.
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