Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, fevereiro 19, 2017

Fred, Dindinha, Tom e eu



Nunca mais aparecia. Acabei por lhe ligar. Atendeu sonolenta. 'Sim...?'. ‘Então? Afinal não vens?’. Silêncio. Percebi que nem se lembrava. ‘Ah, pois foi, disse que ia aí. Mas adormeci. Outro dia’.

Fiquei irritada. Ali eu à espera e nada. Até tinha ido comprar um pão-de-deus porque sei que ela os adora e no fim nem ai nem ui. Isto antes de ontem a noite.

Hoje, tinha eu chegado de uma caminhada na praia e estava a preparar-me para vir aqui escrever qualquer coisa, já com uma roupa leve de estar em casa, desmaquilhada, despenteada, tocam à porta. Pelo intercomunicador ouço ‘Dindinha’. Quando abro a porta, fico sem pinga de sangue: era ela e o professor. E eu naqueles despreparos. Ele, vendo a minha atrapalhação, diz: ‘Não é a melhor altura…?’ mas já ela tinha entrado.

Fiz um gesto que entrasse e fui atrás, tentando compor minimamente o cabelo. Sentámo-nos na sala, perguntei se queriam tomar alguma coisa. Não quiseram. Dindinha disse: ‘Achei que devia apresentar melhor o Tomé’. Ele, com ar neutro mas onde detectei algum atrevimento, disse, ‘E eu achei que devia conhecer melhor a prima’. Até me senti corar.

Dindinha vinha de blusão de pele, calças largas, ténis. Depois despiu o blusão. Tinha uma camisa branca de renda, decotada. Ele pediu autorização e despiu também o blusão. 

Dindinha disse: ‘O Tom foi meu professor de História de Arte e a coisa não correu bem'. Ele sorriu ao de leve, ‘Eu não diria isso’. Ela continuou ‘Chumbou-me, continuo com a cadeira pendurada. E agora está a enquadrar este projecto. E está a dar-me aulas particulares, a ver se consigo aprender alguma coisa’. Estava muito séria. Ele fez um ar professoral, ‘Acho que temos feito alguns progressos’. Olhou para ela, cúmplice, depois para mim ‘Mas ainda temos pela frente um longo caminho a percorrer’. Embora o tom fosse sério, pareceu-me perceber ali, outra vez, algum descaramento.

Sem saber como intervir e sem perceber bem os contornos daquela conversa e, sobretudo, preocupada com a forma como estava vestida e desarranjada, senti-me a ficar cada vez com menos naturalidade.

Entretanto, Tomé tinha-se levantado e circulava pelas estantes. Depois, pegando num livro, aproximou-se de mim e disse: ‘A verdade é que ainda não sei como se chama’.

Dindinha e eu respondemos ao mesmo tempo: ‘Diana’.

Ele sorriu ao de leve, como se de uma observação fugaz se tratasse: ‘Prometedor, o nome’. Senti-me corar de novo. Se estava de namoro com Dindinha, que atrevimento era aquele que parecia estar com vontade de se manifestar? Fingi que não ouvi. Mas ele olhou para trás, com ar de quem sabia que eu tinha percebido o tom de malícia. Baixei os olhos, não tanto atrapalhada mas, mais, surpreendida.

Mas já ele prosseguia como se nada fosse: ‘Fred, bem que me tinhas dito que a prima era dada a livros’. E ela ‘Pois não disse? Acho que muitos nem é para ler’. 

‘Ah, uma consumista…'. Sentindo-me estupidamente tímida, disse: 'Prefiro bibliófila.'. Ele sorriu, 'Sim, sim. Desculpe-se'. Depois prossegiu, 'Mas se a prima não lê, lemos nós por ela’.

Pegou num livro de Ronsard que estava ao meu lado, procurou um certo poema e disse: ‘Vá, Fred, mostre que está a fazer progressos. Leia’

Dindinha descalçou-se, cruzou as pernas sobre a cadeira, bela no seu impudor. E leu:


Vamos, meu bem, a ver se a rosa
que esta manhã, ao sol, airosa,
a sua roupa abriu vermelha 
(...)
Pois se me credes, vós, meu bem,
enquanto a idade em flor vos tem
nessas primícias de verdura,
colhei, colhei a mocidade
que como à flor a velhice há-de
turvar a vossa formosura.

Enquanto ela lia, aparentemente sem perceber bem a escolha de Tomé, ele não tirou os olhos de mim.

No fim, ela perguntou-lhe: ‘Então Tom? Foi bom?’.

Ele passou-me a pergunta: ‘O que achou, prima?’. Um pouco incomodada com a situação, disse apenas: ‘Gostei, claro que sim. Mas talvez gostasse de ouvir algum silêncio entre as palavras'. E, de repente, apeteceu-me ser eu. 'Talvez o teu professor queira agora mostrar os seus dotes'. 

Pela forma como abriu os olhos, percebi a surpresa, 'Ah...'. Mas, de imediato, reagiu. Veio sentar-se ao meu lado e disse: ‘Preste atenção, Fred, veja como me vou esforçar por agradar à prima.’ Depois de uma leve pausa em que parecia estar a lembrar-se do que ia dizer, rectificou: ‘Agradar na leitura, claro’.

Dindinha levantou-se e veio sentar-se ao meu lado, cabeça encostada no meu ombro. Dindinha de um lado, Tomé de outro. E então, voz lenta, uma voz muito cava, ele disse, de cor:


Encostada a mim, Dindinha tinha deixado que a camisa lhe descaísse, os seios praticamente à vista. Do outro lado, muito próximo de mim, Tomé ora fixava o seio mais exposto dela, ora fechava os olhos, ora me olhava nos olhos. A voz macia, macia.

Quando acabou, passou o braço pela minha frente, quase me tocando, e com uma mão também muito lenta, compôs a camisa de Dindinha. Depois olhou para mim e perguntou-me: 'Então, prima, gostou dos meus silêncios... ?'. Perturbada, hesitei. Mas logo ele acrescentou: 'Para a próxima, prima, experimente fechar os olhos'. Senti um arrepio a percorrer a minha pele. Um arrepio silencioso, muito lento.

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Este episódio (o 3º) de Dindinha, que acabou de ser escrito, vem na sequência deste que se seguiu a este.

A tradução do poema 'Mignonne, allons voir si la rose' de Ronsard é de Vasco Graça Moura. A música lá em cima acompanha o filme Lolita e a leitura de Jeremy Irons refere-se ao livro Lolita de Nabokov.

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Trump & Putin: um bromance que ainda agora está a começar



Leio que: Rússia pede fim de ordem mundial dominada pelo Ocidente


O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, pediu hoje o fim da ordem mundial dominada pelo Ocidente e afirmou que Moscovo pretende estabelecer uma relação "pragmática" com os EUA.

Leio também que os líderes europeus estão preocupados com a possível ingerência russa em próximas eleições. Temem as notícias falsas produzidas no exterior, nomeadamente na Rússia, tem os ciberataques.

Aliado deste modo de (des)fazer política, está Trump. Beneficiou disto a ponto de conseguir ser eleito e agora mostra saber movimentar-se no pântano da falsidade. A hipocrisia e estupidez vai a ponto de acusar de Fake News media os que se lhe opõem, especialmente os grandes

(The FAKE NEWS media (failing @nytimes, @NBCNews, @ABC, @CBS, @CNN) is not my enemy, it is the enemy of the American People!  -- tweetou o anormal)

Enquanto isto, e dado o inusitada e quase ridículo da situação, o mundo inteiro parodia a proximidade entre Trump e Putin -- mas vamos ver se, uma dia que percebamos bem as consequências disto tudo, não vamos ter vontade de chorar.








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Até já. 

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sábado, fevereiro 18, 2017

Enquanto por cá os alcopafinhas* andam à nora atrás do seu (deles) excelso rabo,
nos States a Trumjoke em forma de gente atinge os píncaros da carnavalada.
A 1ª conferência a solo do palhaço Trump revela os riscos reais da democracia
ou como a democracia pode incubar um perigoso anormal


Quando vejo a falta de preparação, a falta de educação, a falta de decoro de Donald Trump penso sempre que não é possível que uma anedota destas se aguente muito tempo como presidente dos Estados Unidos. Mas o drama não é a falta de maneiras ou de conhecimentos: o drama é tudo isto associado a um registo de imprevisibilidade, de caos. Pior se vier condimentado com arrogância, com prepotência, com desprezo pelos outros. Dramático se vier envolto em incultura geral (política, histórica, social, etc).

Uma mistura explosiva. 

Ao fim de poucos dias o mundo assiste, aterrado, ao absurdo a que se chegou. De um país que consta ser uma das mais mediáticas democracias (.... e que, reconheça-se em abono da verdade, tão obnóxios presidentes já tem parido e que tanta porcaria tem espalhado pelo mundo...) emanou a maior besta de que há memória. E, ao contrário do que seria expectável -- ou seja, que fosse escorraçado pela força de um voto racional --, eis que a besta quadrada foi eleita.

Não sei se Nosso Senhor se distraíu e deixou que o mafarrico viesse aqui pôr um pauzinho na engrenagem, se Nosso Senhor se cansou desta tropa fandanga e foi pregar para outra freguesia ou quê. O facto é que alguma coisa anda a correr mal: o mundo parece que começou a andar em loop, em contra-loop, às arrecuas, de patas para o ar. Volta e meia, alguém me lembra que os gregos, os antigos, é que eram, que esses é que a sabiam toda. Não sabiam. Se soubessem tinham feito as coisas de maneira que o seu saber não se perdesse. Perdeu-se. A sabedoria desses tempos... onde é que isso já vai...? 
Se bem que também admito que aquilo, às tantas, também eram mais as nozes que as vozes. Uns quantos inspirados, uma escola organizada, uma elite jeitosa mas, às tantas, era mas era uma minoria... e agora os deslumbrados benzem-se como se fosse toda uma população a poemar, a filosofar, a teatrar. Ora, está bem, está.
Mas também não interessa. O que interessa é que tantos séculos de conhecimento, luz, desenvolvimento e consciência social deram nisto: gente estúpida a ser eleita por todo o lado. Dantes a gente ria-se dos estafermos das Áfricas, gente perdida no cu de judas governada por anedotas armadas em ditadores, ou os das Américas do Sul, os das repúblicas das bananas, o maluco da Coreia, o tresloucado das Filipinas. Gente longe da civilização, terceiro, quarto, quinto mundo. Gente escafundida em lonjuras bem longe de nós. Nada que nos dissesse respeito. Material bom para o Borat fazer filmes. 

E, no meio da confusão, enquanto íamos elegendo nódoas ou fechando os olhos aos montes de enxúndia administrativa e burocrática que se iam formando em Bruxelas (e por ai fora) e onde medravam alforrecas, vermes, galinhas histéricas e outros inúteis, devagar, sem que ninguém lhes prestasse atenção, iam renascendo nazis, populistas de baixa estirpe, gandulagem bem falante. E a comunicação social acompanhando a linha descendente, a comunicação social que é bem o espelho da segunda derivada do crescente lúmpen moral, a moldar as percepções, a legitimar a cambada.

Chegámos aqui. Onde antes eram ilustres tribunos e cidadãos exemplares que representavam o povo, agora é a escória da sociedade, os mais oportunistas, os mais promíscuos, os mais desavergonhados que lá se vêem.

Felizmente, apesar da escória estar no poder ou à sua babugem, ainda há algum contraditório. E nos Estados Unidos a imprensa e, curiosamente, os programas de entretenimento mantêm-se como um poderoso bastião na defesa do que resta da democracia.

A 1ª conferência de Trump é uma comédia. Uma tragédia. Um disparate do princípio ao fim. Ver para crer. E ver o que Colbert, Fallon ou Noah gozam. Bonito de ver. Ter cavalgaduras destas à mão de semear é do melhor que há para quem tem sentido de humor. Valha-nos isso.


Donald Trump Wows At First Solo Stress Conference The Late Show with Stephen Colbert






Trump Press Conference Cold Open The Tonight Show Starring Jimmy Fallon




President Trump's Bats**t Press Conference: The Daily Show The Daily Show with Trevor Noah



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*al·co·fi·nha
substantivo de dois géneros
Alcoviteiro; alcoviteira.

* alcopafinha = alcofinha da linha PàF

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E agora queiram, por favor, descer e seguir para o rectângulo tuga onde um grupo de deputados se consola a cheirar o rabo uns aos outros.


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Correia de Matos fez birra porque não lhe deixaram ver SMS trocados entre outras duas pessoas e, vai daí, demitiu-se da Comissão de Inquérito à CGD.
Um dia depois, PSD e CDS unem-se e voltam à carga: querem, porque querem, nova Comissão de Inquérito e querem, porque querem, ver os SMS.
Como presumo que tal vão vai avante (até porque os contribuintes não querem, porque não querem, que o seu dinheiro seja esbanjado a alimentar birras de gente desorientada), espero que os deputados pafiosos se demitam.
Todos. Vão para casa. Não fazem falta nenhuma como deputados.
Ponham lá hologramas, bonecos e bonecas insuflados, cães ou gatos. É preferível.


Para quem ache que estou a gozar, mostro abaixo um vídeo que mostra como a técnica dos hologramas nos ajudaria a higienizar o nosso panorama político.

Imaginem se em vez de um mal amanhado Correia de Matos a fazer birras, com funfuns e gaitinhas, não era melhor termos o holograma dele a dançar. Então não...?


Ilustro com o holograma Michael Jackson, actuando anos depois da sua morte, mas podia ilustrar com Jean-Luc Mélenchon, um político francês que há poucos dias apareceu em pessoa num comício e, ao mesmo tempo, em holograma num outro. (Cliquem no link, pf, para verem a graça que isto é)


Também poderia mostrar como seria até vantajoso ter animais (desde que asseados, claro) nas cadeiras parlamentares do PSD e CDS. Ilustro com a imagem do avião ocupado por 80 falcões. Um príncipe saudita, querendo tranportar os passarinhos, achou que, para eles irem à larguinha e sem stress, mais valia comprar um bilhete para cada um.


Uma solução destas na ala direita da Assembleia não me pareceria mal. Apenas deixaríamos de ter aquela imagem do láparo a rir à porco e isso, concedo, tem graça. Mas, enfim, não vale o dinheiro que nos custa.


De resto, acho que não se perdia mais nada. Os animais são bem formados, inteligentes
(NB: não me refiro aos da fotografia acima, refiro-me aos outros, aos não-humanos). 

A outra solução, a das bonecas e bonecos, também me parece bem. Penso que algumas substituiriam com vantagem a sexy Cristas da coxa grossa ou até D. Teresa Leal-ao-Coelho que também gosta de mostrar o seu lado safado. 


A vantagem das bonecas sobre sobre as duas acima referidas, sobre a mal encarada Cecília Meireles, sobre a descarada funcionária da Arrows, sobre a bem nutrida Teresa Caeiro, e sobre todos e todas as outras pafientas figuras (Montenegro, puto piegas João Almeida, inteligente Hugo Soares, puto Leitão, etc, etc) é que as boencas não chateiam. Caladinhas de dar gosto. 


NB: Também as há em versão homem para o caso de se vir a aplicar aquilo das quotas.


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Tirando isso, sobre o tema não me ocorre mais nada sobre a nova Comissão de Inquérito que os alcofinhas dos tarecos do PSD e CDS dizem que querem porque querem.
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Até já.

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sexta-feira, fevereiro 17, 2017

Dindinha afinal também é Fred


Com esforço, consegui almoçar numa esplanada à beira do rio. O tempo hoje esteve outro. Primaverou, aqueceu-se o ar, limpou-se o azul do céu.



Como não tinha companhia nem me apeteceu procurá-la, levei o livro que tinha no carro, 'Menina a caminho', escrita boa. Nestas condições, a minha vontade de preencher o tempo morto com leitura é contrariada pelo facto de me custar estar ao sol sem óculos escuros, especialmente junto ao rio em que a lâmina de água reflecte a luz do sol. Como acontece que sou levemente míope, os óculos são graduados para ver bem ao longe, o que significa que, com eles postos, fico a ver mal ao perto. E estava eu, justamente, a tentar gerir esta contradição quando me pareceu ouvir uma voz conhecida.

Olhei. Era um ruidoso grupo de jovens. Conversavam animadamente, riam, bebiam, fumavam, de vez em quando alguns fotografavam-se. Não reconheci ninguém. No entanto, de quando em vez, aquela voz familiar. Como, para conseguir ler, tinha optado por não usar os óculos escuros também não via com nitidez os rostos.

Passado um bocado, senti uma mão no ombro e alguém que se baixava para me beijar: ‘Prima… aqui?’ Era Dindinha.


Com uns jeans desbotados e meio rotos, com peitilho à jardineiro mas com uma alça caída, uma blusa larga, ténis, um boné com pala para trás e óculos escuros, estava quase irreconhecível. Lembrei-me, ‘Pois é… a tua escola até nem é muito longe daqui…’ Ela confirmou, acrescentando que, geralmente, este grupo de amigos ia para ali para discutirem os trabalhos, para falarem de cenas, para curtirem a paisagem. E disse: ‘Vem, prima, não esteja aí sozinha, junte-se a nós, venha’. Peguei nas minhas coisas e fui. Um rapaz apressou-se logo a ir buscar uma cadeira e a arranjar-me espaço à mesa.

E então, para minha surpresa, conheci uma outra Dindinha. Percebi que estavam a idealizar uma revista digital. Cada um ia dando ideias, umas muito à frente, outras muito terra a terra, outras banais. Dindinha parecia ter na mão o fio condutor da conversa e a autoridade, reconhecida pelos outros, para decidir quais as que valia apena aprofundar, quais as que deviam cair de imediato. O seu pragmatismo e assertividade deixaram-me atónita. Até a voz era outra. Julga-se conhecer muito bem uma pessoa e depois chega um dia em que percebemos que não conhecemos coisa nenhuma. 

Algum tempo depois, aproximou-se da mesa um homem magro, grisalho, barba, blusão, capacete no braço. Puxou de uma cadeira, sentou-se. Depois, reparando em mim, olhou-me com interrogação e de seguida para Dindinha que respondeu: ‘É aquela prima de que lhe falei’. Ele sorriu-me, ‘Ah, a célebre prima’. Mais admirada fiquei: ‘A minha fama precede-me, é…?’. Ela completou as apresentações: ‘Prima, é o professor Tomé. É também o responsável pelo departamento editorial da escola e está a acompanhar este projecto.’ Ele acrescentou ‘A Fred diz muitas vezes que a prima é que era, que devia ir buscá-la para gerir o projecto, para arranjar financiamentos, para negociar com fornecedores’. Fred? Então, na escola, ela é Fred? Mas limitei-me a dizer ‘Pois. Isso não sei. Mas, se for preciso alguma coisa, digam que não por importarei nada de ver se posso ser útil’. E a conversa entre os jovens prosseguiu, Dindinha impondo-se, o professor Tomé deixando uma ou outra achega. 

Passado um bocado, vendo as horas, reparei que era tarde, disse que tinha que me ir embora. Levantei-me. Dindinha levantou-se também, deu-me um beijo. Afável mas distante, outra. Já no carro, quando estava a preparar-me para arrancar, reparei que o professor também estava a preparar-se para arrancar. Dindinha estava junto a ele. E, para meu espanto, apesar da grande diferença de idades e de, até momentos antes, não ter reparado em qualquer interesse mútuo, vi que parecia haver ali alguma intimidade. Então, para ainda meu maior espanto, ele já com o capacete posto, ela debruçou-se e beijou-o na boca. Depois, com naturalidade, decidida, voltou para a mesa onde estavam os colegas. Não era Dindinha, era Fred. 

De tarde não pensei noutra coisa. Como pode alguém ser uma coisa e, noutro contexto, parecer completamente outra? E quem era aquele Tomé de quem ela nunca me tinha falado? 

Estava eu nisto, toca o telemóvel. Era ela. 'Prima. Posso passar mais logo na sua casa?'. Pareceu-me que estava a chorar. 'Dindinha, o que é isso? A chorar?'. Respondeu apenas: 'Passo depois de jantar'. E desligou o telefone.

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Sobre o lançamento da certamente suculenta obra do grande obrador Aníbal queiram, por favor, espreitar já aqui abaixo.

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A ex-múmia de Belém faz de conta que ressuscita e os seus orfãos reúnem-se para fazer de conta que estão contentes com a memorabílis que a dita deu à luz
[Em actualização]


Ainda não vi televisão, apenas ouvi rádio. 


Se já lhe conheço a voz, o dito Anselmo Crespo lia um bocado da última página onde o putativo candidato a Paul Aster -- mas em versão manequim da Rua dos Fanqueiros  -- dava a entender que estava a ganhar-lhe o gosto, acabando a prosa com umas ameaçadoras reticências. Do que percebi, tendo ajustado contas com Sócrates, certamente com a sua bem conhecida falta de elegância, estará agora com vontade de ir morder as canelas ao Costa por este ter ousado governar com o apoio dos leninistas.

E, ouvindo isto, até me senti com a pele mais marron, com o sorriso mais descarado de António Costa e a dizer em vez dele: 'Ui...medooooo...'


Não faço ideia de quem é que gastará dinheiro para comprar a grande obra, a 'Quinta-feira e outros dias' de seu nome. De literário nada deve ter. Do que lhe conhecemos, imagino que não passará de um repositório de fel, de fel já mais do que decomposto. Não direi que aquilo não deve passar de pura bosta porque não tenho a intimidade com o gado vacum que o autor em tempos mostrou ter. 


E não posso pronunciar-me mais porque, como é óbvio, desconheço a matéria -- mas só o que se anuncia já me faz revolver as entranhas. Diz que relata o que se passava nas conversas com o primeiro-ministro em funções o qual foi, sobretudo, Sócrates. E eu interrogo-me se a cavaca criatura terá a elevação necessária para que o que ali escreve não seja pura lavagem de roupa suja. É que, se lhe conhecêssemos nem que apenas leves laivos de ironia de fino recorte, poderiam ser as 590 páginas um rebuçadinho que todos quereriam levar à boca para depois citar. Agora naquele senhor, que mais parece um cepo, não há nem nunca houve ponta de graça. Logo, antevejo que a coisa não passe de um desagradável ranger de dentes com baba verde a escorrer das comissuras labiais das badanas do livro.



Resta saber se a coisa em forma de livro terá mais sucesso editorial do que a coisa parida pelo Lima do Sótão. Antevê-se que, entre aqueles dois, vá ser despique, mas despique a sério, olho por olho, dente por dente. Coisa que haveria de merecer apostas.

Também ouvi que Passos Coelho e Cristas estiveram presentes na referida missa de corpo presente. Pudera. Desamparados como se têm andado a sentir, só a perspectiva de receberem um alô da múmia cavaquiana já os deve ter feito sentido menos órfãos. Tristes. Nisto só me me interrogo sobre a indumentária da madame da política positiva: estava madame cristas com a coxa grossa ao léu? E o láparo? Cantou ópera? Arreganhou o dente? Pediu autógrafo ao padrinho? -- alguém me elucide, pf.


E pronto. Já cá volto. Vou jantar e talvez veja na televisão imagens do fantasmagórico evento. 

Ah, é verdade... e Madame Cavaca também lá estava, certo? E fez o seu pespenico sorriso de cada vez que o esposo bolsou raivinhas? (Pergunta retórica, claro).


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(Só espero é que, se vir o filme do lançamento da obradura, não me desinspire porque me está a apetecer relatar uma coisa que mete a menina Dindinha.)

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PS: Ah, é verdade. Só mais uma coisinha. O célebre ex-ministro Campos e Cunha também terá sido por lá avistado, prestando vassalagem ao obrador? Faria sentido. E a nossa Joana dos Naperons fez algum arranjo floral gaudêncio para enfeitar a mesa do dito putativo memorialista? Também faria sentido.

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Imagens todas do Kaos excepto a galinha movimentadiça que é do Rói Ossos.

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Já venho.

quinta-feira, fevereiro 16, 2017

Lobo Xavier, os SMS entre Centeno e Domingues
-- e Monica Lewinsky e as manchas brancas no vestido azul


Quando rebentou o escândalo Monica Lewinsky, algumas coisas me chocaram.

Não me chocou o que aconteceu entre Bill e Monica, dois adultos maiores e vacinados -- ela rendida ao efeito afrodisíaco do poder que transpirava de todos os poros dele e ele, adrenalina em alta, rendido às formas radiosas de uma jovem mulher disponível. Cada um sabe de si e, tratando-se de práticas consentidas, é coisa que não me diz respeito. Que ele fosse casado, que ela soubesse que ele era casado, que isto, aquilo e o outro, a mim nada me convence ou desconvence. A intimidade entre dois adultos, sejam quais forem os laços entre eles, é assunto privado sobre o qual não opino.

Mas chocou-me saber que a jovem Monica chegou a casa depois de ter estado na brincadeira com Bill e não apenas foi relatar à mãe o que se tinha passado como foi mostrar à mãe as manchas de sémen que caíram no seu vestido, o célebre vestido azul. 

E chocou-me ainda mais a reacção da mamã que, se queria agir para bem da filha, em vez de lhe recomendar que, para a próxima, usasse avental ou, no mínimo, babete ou, então, que fosse bem educada (e aqui peço desculpa mas, dado este ser um blog de família, não vou explicar-me) --  não senhor. Resolveu que não lavariam o vestido e o guardariam para um just in case. E o just in case aconteceu e a senhora e a senhorita mandaram analisar as manchas brancas do vestido azul para Monica poder vir a público pôr a boca (desta vez) no trombone e entalar o Bill.

Por essa altura, fiquei igualmente chocada pela atarandadice de Clinton que, vendo-se acusado, em vez de dizer simplesmente que não tinha nada que comentar actos da sua vida privada, resolveu ensarilhar-se nas palavras, começando por assegurar que não tinha tido relações sexuais com aquela pessoa para depois, perante as evidências, vir explicar que não tinha havido penetração e, na sua cabeça, isso era sinónimo de não haver relações sexuais. Mal. Mais valia ter ficado calado.

A partir daí a acusação passou a ser que tinha mentido, perjúrio, um caso sério.

E, no meio da confusão que se armou, Bill Clinton ainda conseguiu apanhar um estalo de Hillary -- o menor dos males no meio do furacão que se formou à sua volta.

Contudo, para os destinos do país tudo ficou igual pois aquilo não tinha passado de um banal fait divers empolado por gente coscuvilheira e ociosa.

António Lobo Xavier, nesta história que envolve um personagem que já passou à história e um ministro das Finanças que tem conseguido feitos notáveis mas que provou ser politicamente desasado, é a mãe da menina Lewinsky.


António Domingues, no affaire CGD, rendimentos e o escambau, tentou dar a volta ao Centeno e, de certa forma, até o fez cair na esparrela. E, vendo que tinha nos sms matéria que poderia servir para sacanear o ministro, foi mostrar ao amiguinho de alcova lá no BPI o que deveria ser matéria privada, não transmissível.

E Lobo Xavier, macaco de rabo pelado, mestre da concupiscência que deita na mesma cama política, leis e negócios, parecendo querer evidenciar uma certa vocação para a prostituição ou para a alcoviteirice, começou por dar a entender, na Quadratura do Círculo, que estava sabedor de matéria quente e, de seguida, quando instado a esclarecer a insinuação, pegou nas mensagens e foi mostrá-las a Marcelo.


E eu, esperando que lhe tenha feito bom proveito, devo dizer que estes actos estão, a meu ver, ao nível do vómito. Penso nisto de um banqueiro guardar mensagens trocadas com um ministro, por sinal um verdinho na arte da manha, e ir mostrar a um sabido de primeira água, por sinal conselheiro de Estado, e de este se prestar ao acto vergonhoso de ir mostrar mensagens alheias ao Presidente e fico agoniada. Asco. A palavra que reflecte o que sinto á a palavra asco.

E que Marcelo se tenha prestado a isto de ir ler mensagens alheias, privadas, choca-me.
Bem, não sei se o fez. Tomara que não. Pelo que leio nos jornais, diria que sim. 
Mas, a tê-lo feito, sinto vontade de fazer write off sobre o capital de confiança que tem vindo a conquistar.

Marcelo, se fosse o homem que eu gostava que ele fosse, ao aparecer-lhe Lobo Xavier, qual vizinha coscuvilheira, com as mensagens alheias, ter-lhe-ia dado uma corrida em osso, 

'Rato! Rato de esgoto! Por quem me toma para me aparecer aqui com fofocas e relatos de conversas privadas? Desapareça-me da vista e não volte a aparecer-me à frente. Vou destituí-lo de conselheiro e é já, que não quero cá tipos que, ainda sem ter chegado o Carnaval, já por aqui andam disfarçados de ratos de esgoto, muito menos sentados à mesa do Conselho de Estado. Xô!'
E agora andam os mesmos de sempre, cada vez mais a aparecerem aos olhos do país como vermes, os mesmos que ao longo de anos viveram sobre a podridão governativa de Passos Coelho e Paulo Portas, armados em virgens ofendidas, em ratas de sacristia, exigir a publicação dos sms, a demissão do ministro e sei lá mais o quê. Gente sem memória, sem respeito pelos outros, sem vergonha na cara. E as televisões a darem palco a estes parasitas.

Domingues, a Monica Lewinsky portuguesa, não apenas quase fornicou o Centeno (que é como quem diz, claro) como guardou os sms -- como a outra guardou as marcas de sémen sobre o vestido. 


Mas Domingues já foi à vida. Já acabou. A Caixa já está com outra gestão e há muito trabalho a fazer. Já chega de tricas. Já enjoa tanta chachada que tem como único intuito lançar confusão, denegrir os bons resultados alcançados pelo governo, chatear, chatear, chatear. Já não se aguenta tanta má fé, tanta calhandrice.


Aqueles tristes pàfs, armados em destituídos mentais, não percebem a triste figurinha que andam a fazer alimentando, até à náusea, a polémica em volta deste assunto que fede a sonsice, a traição, a dominguice? 

E Marcelo não é capaz de vir a público dizer que já é tempo de aqueles -- que deveriam estar numa CERCI e não na Assembleia da República -- arranjarem algum programa ocupacional e deixarem de brincar aos políticos de meia tigela já que não fazem outra coisa senão conspurcar o espaço público? A bem do interesse nacional (que é o oposto do interesse dos PàFs e dos balcões onde se serve comentário a copo), Marcelo não é capaz de lhes pôr um par de patins? De lhes dar um valente pontapé no cu? Ou, se quer fazer uma pose presidencial, um murro na mesa, vá? Ou acha bem o que se está a passar? Agora já gosta de ler sms alheios? Já deu em andar a espreitar pelos buracos das fechaduras?

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quarta-feira, fevereiro 15, 2017

A melancolia de Dindinha na dobra do Dia dos Namorados





Dindinha finge que chora, se achega, encosta a cabeça no meu ombro.

Diz: Prima, ninguém quis saber de mim hoje, foi dia dos namorados e nenhum quis se arrimar a mim.

Ponho-me a rir, Deixa disso, Dindinha, bonita como tu és, logo, logo vão andar de roda de ti, cheirando tua saia.

Quem dera, prima, quem dera. Tomei banho em água com pétala de rosa, depois pedi ao Zezinho que pusesse creme em todo o corpo e ele caprichou, cada refego, cada dobra, a pele toda macia, macia, macia, prima. Não quer ver?

     Não, Dindinha, deixa, acredito.

Mas, prima, confira. Eu dispo a blusa. Espere. Já despi, prima, veja.

     Oh Dindinha, para que é isso? Eu acredito.

Mas veja, prima, ponha a mão aqui na maminha, veja, veja, prima, a macieza.

Pega em minha mão e leva-a a ver que o Zezinho caprichou na espalhação do creme.

     Já vi, Dindinha, agora vista a blusa. Já vi.

Mas, prima, veja aqui o biquinho. Não parece botãozinho de flor, bom para passar linguinha?

     Tenha mas é tento na língua, menina, isso é lá coisa que se diga?

Esconde o rosto na dobra do braço, depois encosta-se à porta, finge que tem vergonha. Dindinha é moça melancólica. Desdobra a trança, solta o cabelo. Está triste.

Lastima-se: Veja, prima, foi dia dos namorados e nem uma rosinha alguém deu para mim. Nem bombom. Sabe que eu sonhei.

     Foi? Com quê?

Sonhei que vinha um homem grandão, morenão, barbudo, e batia na porta e eu ia abrir. E ele perguntava: 'Foi daqui que pediram um bombom entregue na boquinha?' E eu dizia que sim. E ele dizia: 'Mas tenho que tirar a camisola e a menina também, são ordens da casa'. E eu tirava e ele também e então ele dizia, 'Agora fecha os olhinhos porque a transacção tem que ser feita de olhinhos fechados'. E eu fechava e ele deixava um bombom na minha boca. 

     Foi um sonho doce, Dindinha.

Ah pois foi, prima. Mas o homem do bombom desapareceu e não voltou de verdade. E agora estou aqui triste, sem namorado que sinta a minha pele macia, a minha língua que ainda sabe a chocolate. Faço agora o quê, prima?

     Olha Dindinha, não pense mais nisso. O que for soará.

Oh prima, sempre com ensinamento distante. Eu queria era um namorado aqui e agora vem a prima com filosofia.

     Ai Dindinha, que impaciência é essa, menina?

Oh prima, é muita decepção, muita, muita. Veja, prima, logo que Zezinho saíu, apareceu Roninho para ver se eu tava precisando de algum nada e eu disse: 'Ah que veio na hora certa Roninho. Estou aqui para pôr uma eau de toilette e não sei bem como'. E Roninho disse: 'Vai Didinha, para não ficar muito forte faz assim: vai buscar um lencinho'. E eu, 'Oi Roninho, lencinho...? Mas onde é que eu tenho lencinho?' E ele, 'Qualquer coisa que dê para a gente depois passar no seu corpo'. E eu disse: 'Cuequinha de seda pode, Roninho?' E ele disse, 'Vai lá buscar Dindinha'. Fui. Ele disse: 'Dindinha... que cuequinha macia.' Então ele pôs a eau de toilette na cuequinha e disse: 'Deita aí na cama, Dindinha'. Deitei. Então ele passeou a cuequinha pelo meu corpo. E, no fim, eu disse, 'Agora cheira, Roninho'. E ele cheirou-me toda, toda, por todo o sítio. E disse, 'Cheira bem, Dindinha'. Mas logo tocou o telefone e Roninho disse 'Não leve a mal, Dindinha. Tenho que ir, a minha mulher lembrou que tenho que ir buscar o menino ao colégio'. E foi, prima. E foi. Fiquei ali largada, meu corpo exalando perfume de desejo, minha pele toda sedenta. E ele se foi, prima. Ai de mim.



      Deixa, Dindinha, mas ao menos tua pele ficou macia e perfumada.

Pois, prima, mas para quê isso tudo se não ganhei nenhum namorado, se agora a noite está caindo e eu aqui sem ninguém que venha passar a mão na minha pele ou venha cheirar meu corpo? Já viu meu destino, prima? Já viu minha solidão?
     Ai Dindinha, que drama, menina. E escuta... você acha que namorado é para isso que serve, menina?

E não é, prima, e não é? 

     Não, Dindinha, namorado é também para dizer um poeminha no ouvido, passar o braço sobre o ombro, olhar o céu em silêncio, segurar a mão enquanto faz jura de amor.

Ai prima que lá vem de novo com poesia. 

     Mas oh Dindinha, só prosa, só prosa...?

Sim, prima, eu quero é substantivo bem definido, verbo bem afirmado, nada de reticência, nada de adjectivo silencioso. Quero grito, prima, quero palmada, beijo de língua, corpo transado, abraço suado. Quero namorado homem, prima, nada de santo, dispenso valentim, dispenso jura, dispenso metáfora, dispenso suspiro. Dispenso até prosa, prima. Quero é homem, prima. Mas primeiro, prima, primeiro me ensina a ser mulher.


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Lá em cima a música é "Minha Namorada" - ( Maria Creuza/Vinicius de Moraes/Toquinho )

As fotografias pertencem ao livro 'Nues. Femmes Lascives', da L'Oeil Curieux.


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A história da Dindinha acabou de nascer. 

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E queiram, por favor, descer para verem como foi o meu dia de S. Valentim

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Num registo confessional, crónica do meu Dia de S. Valentim




Por uma questão de honestidade intelectual devo fazer algumas confissões relativas ao meu dia de S. Valentim.

Se eu percorrer as revistas da especialidade encontro receitas afrodisíacas, lingerie tentadora, filmes inspiradores, livros à maneira, especiarias que atam mais forte do que reza, músicas que não falham.

Pois bem. Deve ser porque me tenho portado mal, a mim não me calhou nada disso.

Almocei um robalo desprovido de qualquer sentido de romance, não lhe detectei especiaria de qualquer espécie muito menos afrodisíaca, não fui ao cinema, ninguém me ofereceu um presentinho que fosse.
Minto, ofereceram-me uma caneta que não é bem caneta e que também não foi bem presente e todos os que estavam à volta da mesa a receberam. Não conta, portanto.
E a lingerie que usei não foi nada do que vi recomendado. Explico-me.

Não gosto de cuecas deste género, parecem-me muito à avózinha
Também não gosto de soutiens de cós alto

Pode parecer muito sexy mas os cinto-ligas já são como o rolo da máquina fotográfica: já eram
Há meias lindas com liga de renda aderente

Mas nem eu, nem ele. Se fosse um homem adaptado aos tempos modernos, há pouco, quando se despiu, teria feito uma declaração de amor verdadeiramente sentimental. Mas não. Incapaz de uma manifestação valentina. Como costuma ler isto, aqui lhe deixo este remoque. Para o ano a ver se se lembra de demonstrar o seu amor de uma forma convincente. Aqui fica um exemplo.


Portanto, já estão a ver. O São Valentim, este ano, não mexeu comigo. Estava a pensar se tinha acontecido algo de verdadeiramente amoroso no meu dia mas só me lembro de o meu marido ter ido comprar cápsulas de Nespresso e de, por acaso, ter um queixo parecido com o do Clooney.
Bolas, agora fui confirmar e o Clooney não tem covinha, tem é uma batatinha. E agora estou a ver que, no outro dia, cometi uma gaffe. De manhã, recebi uma mensagem a dizer que o bebé tem covinha no queixo e a perguntar se o avô tem, para ver a quem sai o bebé. Respondi que não sabia, logo via quando estivesse com ele, que o Brad Pitt e o Clooney tinham, isso eu sabia, agora do queixo do avô da criança não estava certa. A mãe respondeu que o pai já andava a achar estranho que o bebé à nascença parecesse chinês, no dia seguinte russo e que, se ao terceiro dia se parecesse com o Clooney, capaz de começar a não achar muita graça.
Quando reencontrei o dito avô, agarrei-lhe o queixo para o inspeccionar de perto. Ficou admirado, 'o que é isso?'. Expliquei-lhe que tinha que perceber, debaixo da barba, se tinha uma reentrância. E tem, sim senhor. Mas, portanto, se não tem queixo parecido com o Clooney, aquilo de ter ido comprar cápsulas de café já não pontua como facto afrodisíaco.


Tirando isso, acho que nada que encaixe no merchandising do Dia dos Namorados. Nada com corações, hearts ou coeurs, nada a pingar amor, nada de beijinhos retintins com bombonzinhos buonzinzins, lacinhos e dulcelins. Nadica.

De resto, também não sou de tipo namoradinha e não é porque seja contemporânea da Mata Hari -- que todas as idades são boas para se ser namoradeira, não é por ser pentavó que já não podia ser namoradinha-inha. É mais porque o meu género é outro.

Mas não me gabo disso. Tenho este lado muito racional, muito anti-metafísica -- e isto não sei se é bom. Capaz de, se fosse mais aluada (no bem sentido), mais froufrou, capaz até de, se tivesse vontade de me filiar no facebook e espalhar likes como quem espalha amor, capaz de, se conseguisse ser mais dada às ondas, se me alinhasse mais com as trends, os insta e os hashtags, tivesse aqui alguma coisa de jeito a reportar. Assim, só tenho coisas que não têm nada a ver ou de que não posso falar.

E mais. Já que estou nesta de registo confessional, ficam já a saber que há bocado comprei peras abacates e que estou decidida a fazer dieta para perder estes três ou quatro quilos que sei bem que tenho aqui a mais, e dizem que a pera abacate é do melhor que há. E, para o ano, no Dia dos Namorados, vou vestir-me aqui como a Gigi, coração ao peito, quiçá até ossinho da clavícula a pedir um chochinho, penas poéticas a la tête, véuzinho todo religioso, lábios completamente en rouge. A ver se não vai ser um fartote de sweet happennings. Me aguardem.


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Até já, meus amores.

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terça-feira, fevereiro 14, 2017

A minha recomendação ao inteligente Hugo Soares, ao exemplar Passos Coelho e ao grande estadista Marques Mendes:
para a próxima que queiram chatear a medula aos portugueses a propósito do Centeno, do Domingues, do Marcelo ou da existência em geral,
disfarcem-se de Cavaco, de Dias Loureiro, de Oliveira e Costa a ver se conseguem ter ainda mais graça
[Ponham os olhinhos na malta do SNL a imitarem o Trump e Sean Spicer, o delicioso Porta-Voz da Casa Branca]


Já confessei: tive um dia um bocado a tender para o berbicachudo. Nada de mais a não ser, talvez, pela quase overdose. Como se já não bastasse, à vinda para casa, ouço o pobre Centeno, certamente de corda ao pescoço, a lamentar a sua própria falta de jeito. E, a seguir, as reacções, os incontornáveis afobados comentários. E, claro, o costume. As araracas do regime a contrafenearem, brotojeando boca afora mais uma série de vulgares cacafuandos. Apeteceu-me ligar para o Provedor do Ouvinte e protestar. Não há direito. Não se respeita a inteligência de quem ouve. É que nem sequer conseguem fazer despertar-nos um sorriso. Gente desprovida; contudo overloaded de falta de graça. Até um tal Anselmo Crespo apareceu a catatuar, zebelindo marafundués disfarçados de cocoxins. Gente chata a cacarrotear sobre temas congelados, descongelados, voltados a congelar, fedorentosos, ranhíticos, uzucatinos.

Mudei de posto e vim montada na Antena 2. 

Chegada a casa, tarde e más horas, poupei-me. Não vi televisão e não me apeteceu ver os jornais online.

Certamente só veria cenas tristes: o Centeno com cara de 'tirem-me deste filme' e, aos balcões comentadeiros, os urubus pafianos querendo lamber-se com a carniça do pobre e cagando-se para a sua competência e para os bons resultados que vem alcançando (País? Qual país? A gente quer é dar cabo da CGD, do Costa, da Geringonça, do Catavaento e desta porcaria toda. É para partir. -- consta que é o que vai na alma da cambada a quem a balsemânica sic acoberta)

Estamos quase no carnaval e aquela pafienta gentinha não se enxerga: continuam todos a levar-se a sério -- mesmo os que são de gargalhada.


Como se alguém conseguisse levar a sério um tipo com cara de Hugo Soares. Ou como se um sujeitolas, com a cara de pau do Láparo, merecessse alguma credibilidade. 


Ou como se um catraio com cara de velha fofa e ar de quem tem bué de carteiras de vistos gold para a troca pudesse ser levado a sério no papel de garganta funda do regime. 


E depois lá nos aparecem logo também o Baldaia e todos esses que estão sempre a postos para virem armar-se em catequistas rezadeiras de tal maneira que a gente, ouvindo-os, até os imagina logo de joelhos e terço na mão a fazer novenas à santinha do pau oco.


Não há pachorra.

Ao menos disfarcem-se. Finjam que são daquelas gradas e folionas figuras do regime cavaquista que nasceram cinquenta vezes e que, ainda assim, a gente continua a não levar a sério. Finjam que são banqueiros exemplares, empresários impolutos, presidentes de alta estirpe. Divirtam-nos a sério.








Enquanto não o conseguirem, tenho pena mas Huguinho, Pedrinho, Luisinho et al para o vosso actual peditório não dou. Aliás, nunca dei.

Para já, prefiro divertir-me com as imitações americanas. Aprendam.

Aqui abaixo é mesmo o carismático Sean Spicer, o Porta-Voz da Casa Branca, um rapaz tão esperto como o dono.





E, a seguir, Melissa McCarthy da SNL faz uma imitação de Sean Spicer (e ficamos a saber o que ele disse sobre a imitação e, de caminho, podemos também ver Alec Baldwin a imitar Trump):





E, na senda das imitações do impagável palhaço Trump, temos agora Leslie Jones. Ver para crer.




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PS: Se não reconhecem algumas palavras lá em cima, temos pena. Foram as que me ocorreram para relatar a situação e, depois de árdua consulta a dicionários,  não consegui descobrir sinónimos. Fica assim que, pelo som, acredito que conseguirão captar o sentido. Senão, nada a fazer.

Duas das imagens provêm do grande We Have Kaos in the Garden. A do Huguinho não sei mas a culpa de não ser grande coisa não é do fotógrafo.

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E, se estão numa de humor, vejam bem o que os meus Leitores me enviam.

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Os meus Leitores são uns pândegos


Acho que podia fazer um blog inteirinho só om piadas, filmes humorístcos e anedotas que alguns Leitores me enviam. Muitas vezes já conheço e, por isso, receando que muito mais pessoas conheçam, evito partilhar.

Hoje, como tive um dia a atirar para o complicado e estou com a cabeça a precisar de algum descanso, vou mesmo ceder.

Aqui vai, esperando que, para vocês, seja novidade.

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Uma mulher leva um bebé ao consultório do pediatra.

Depois da apresentação, o médico começa a examinar o bebé vê que o seu peso está abaixo do normal e pergunta:

- O bebé bebe leite materno ou biberão?

- Leite materno - diz a Senhora.

- Então, por favor, mostre-me os seus seios.

A mulher obedece e o médico toca, apalpa, aperta ambos os seios; gira os dedos nos mamilos; primeiro suavemente, depois com mais força, coloca as mãos por baixo, levanta-os; uma vez, duas vezes; três vezes, num exame detalhado;

Inconformado chupa os mamilos diversas vezes.

Sacode a cabeça para ambos os lados e diz:

- Pode colocar a blusa.

Depois da senhora estar novamente composta o médico diz:

- É claro que o bebé tem peso a menos... a senhora não tem leite nenhum.

- Eu sei, doutor. Eu sou a avó... Mas adorei vir cá.

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. 4 .

Um nobre e rico aristocrata estava a dar uma festa na sua mansão e reparou que um dos convidados se parecia extremamente com ele.

Pensando que uma tal semelhança não era possível sem laços de sangue e imaginando uma possível aventura do pai, aproximou-se do convidado e perguntou discretamente: 

 - A sua mãe foi alguma vez empregada desta casa ?

 ao que o convidado respondeu: 

- Não, mas o meu pai foi cá jardineiro.


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A escolha das fotografias para ilustrar as anedotas é da minha responsabilidade.


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E já vejo se me inspiro para escrever alguma coisa de meu.

Até lá, esta vai por minha conta a ver se espevito:

Hilda, Duane Bryers (1911-2012)

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Até já.

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