Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, fevereiro 28, 2017

Cartas a Lucílio




Há dias que cheiram a férias. Nem apetece ir trabalhar. Depois, as estradas limpas. E uma pessoa a pensar que bom, bom, era ter ficado em casa.

À hora de almoço, a mesma disposição: estava-se bem era noutra. Árvores, pássaros, cheiro a terra. E assim foi. E continuou: era bom era ter ali a máquina e fotografar, andar a descobrir os tesouros que se escondem nos muitos recantos quase secretos.

E o almoço. Muita gente num. Experimentar ir ao outro. Também muita gente mas vá, também para quê a pressa? Brás de pato com courgettes e cogumelos. Bem bom. Depois vontade de ficar por ali. O Almada cheio, fila para os bilhetes. Ainda não.

A livraria. A atracção daqueles livros com aquela bela encadernação, aquele papel, aquela paginação, aquele cheiro bom a livro de verdade. A vontade de me sentar e ficar por ali.

A vontade de veranear, livro na mão. Cartas a Lucílio. Folhear, entrever. Ao acaso:
Continuas então a indignar-te ou a lamentar-te disto ou daquilo, sem entenderes que o único mal efectivo é o próprio facto de tu te indignares ou te lamentares?! Se queres saber a minha opinião, eu entendo que nenhum motivo de aflição existe para o homem além da própria circunstância de ele julgar que a natureza contém em si motivos de aflição.No dia em que eu deixar de poder suportar o que quer que seja, deixarei de poder suportar-me a mim mesmo.
Tem razão. E penso como se falasse e falo como se ele estivesse ali para me ouvir. Depois fechar o livro. Olhar em volta, sentir o peso dele. Penso: tenho que me esforçar mais para conseguir manter a minha ignorância, a ignorância deve permanecer intacta. Ler todos os livros como livros de enfeite, não deixar que nada fique impresso. Volteio, então, entre lenços de seda, louça gravada, medalhas de prata, pequenas caixas de cuidado desenho. E leques com coloridas pinturas.

Mas logo, de novo, a atracção: a relatividade, as grandes leis, os grandes desafios, a física das partículas, a lógica, a análise. 

As cores das capas mudam, são uniformes por ramo do saber. Poder-se-ia viver uma vida inteira num limbo, entre jardins e lagos, entre estantes com livros suavemente coloridos, entre revistas que são livros e que falam de utopias, de ilhas, de magias. 

Mas, pensando bem, seria muito trabalho, muito esforço: se uma pessoa se distraía, capaz de macular a ignorância. Perdia-se a inocência, a graça de ver pela primeira vez. Melhor apenas pairar sobre as leituras.

Olho o relógio. Continua com o ponteiro dos minutos certo e o das horas avariado. Não faz mal. 

Abro outra vez ao acaso o livro de Lúcio Aneu Séneca.
Hoje tenho o tempo todo por minha conta, benesse que fico devendo menos a mim próprio do que à realização de uma 'esferomaquia' e à atracção que tal espectáculo exerceu sobre todos os possíveis importunos. Ninguém virá interromper-me, ninguém impedirá o curso das minhas meditações que assim, com esta certeza, prossegue com maior firmeza. Não ouvirei de vez em quando a porta a abrir-se, não verei afastar-se a cortina do meu gabinete: poderei prosseguir em paz e sossego, o que é tanto mais necessário para quem caminha sozinho seguindo a sua própria via. Não pretendo negar que sigo os meus predecessores; claro que os sigo, mas reservando-me o direito de descobrir, alterar ou abandonar alguma ideia; não sou escravo dos meus mestres, apenas lhes dou o meu assentimento!


Depois enchi-me de coragem e fui trabalhar. 

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Séneca - 6ª Carta: Sobre a partilha de conhecimentos



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As fotografias foram feitas no fim de semana durante um rápido passeio in heaven.

Não sei se, por lá, vi borboletas mas, enquanto escrevia, apeteceu-me ouvir Puccini.

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A propósito de livros, queiram, por favor, descer para conhecerem uns livreiros como não haverá muitos.


Livreiros inspiradores


No outro dia, estava eu deambulando entre as estantes de uma livraria, quando ouvi o pedido do além que uma senhora com ar de senhora fazia à pobre coitada da livreira: 'Querida, queria pedir-lhe um conselho. O que é que me aconselha para o meu sobrinho?'. Como se tivesse ouvido uma pergunta razoável, a livreira perguntou a idade do sobrinho da outra e de que é que ele gostava. Ela lá lhe disse a idade, desanove, e quanto a gostos, isto: 'Gosta muito de computadores e eu gostava de lhe oferecer um livro a ver se ele se agarra menos ao computador'. A livreira manteve-se com aparência normal e foi buscar-lhe um livro. Explicou de que se tratava, uma aventura. A senhora mirou e remirou e disse: 'Não sei...' e devolveu o livro. A pobre livreira foi buscar outro, explicou de que se tratava, e a senhora: 'Não sei... não sei se ele gostará...' e devolveu. A livreira, sorriso nos lábios, simpática, lá fez outro esforço. Tive que me afastar rapidamente pois estava capaz de ir dizer à senhora que fosse dar banho ao cão em vez de estar ali a fazer figura de parva e a levar a paciência da livreira ao limite.

Para tudo é preciso vocação e eu, que gosto tanto de livros, passar-me-ia de cada vez que me aparecesse alguém com pedidos parvos e, ainda por cima, insistentes.

Mas, enfim, há quem o consiga.

Estes do vídeo abaixo são diferentes. E é vê-los. Representam as histórias dos livros eróticos que vendem. Uma ideia a reter, Caros Leitores Livreiros.

Romance Bookstore - SNL



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segunda-feira, fevereiro 27, 2017

Em noite de Oscares, continuo a falar das acolhedoras cores de Lisboa, a bela





Estou a ver a abertura dos Oscares. Não faço ideia do que há entre Jimmy Kimmel e Matt Damon que justifique as gracinhas do primeiro, fingindo querer amofinar o segundo. Não frequento as fofocas hollywoodescas pelo que algumas deixas me passam ao lado. No big deal. Antes estive a ver o desfile das estrelas na passadeira vermelha, os vestidos, a graça que conseguem aparentar apesar da pressão ou do artificialismo que a situação sempre deve acarretar.

Não vi parte dos filmes nomeados. Mas vi 'Ela' com Isabelle Huppert e é um filme de tal forma inusual e marcante que talvez lhe fosse um prémio bem dado. E Isabelle é uma mulher de tal forma elegante e tão boa actriz que merece bem ter lugar entre as melhores. Aliás, prémios e reconhecimento é o que lhe não tem faltado ao longo da sua vida pelo que, haja o que mais houver, Isabelle Anne Madeleine já está entre as melhores.

E é enquanto vejo o directo da cerimónia que, já com algum sono, continuo a falar do meu passeio pela beira Tejo num domingo ensolarado e feliz.


Há agora muitas esplanadas, há cadeirões com almofadas, há bancos. Se há situações em que oferta gera a procura esta é uma delas.

Claro que há também pessoas que vão mais longe: descem até à areia para se abeirarem ainda mais do rio. Dá gosto vê-las.


O Cais Sodré também está outro. Do largo junto à estação desapareceu a confusão que por lá reinava e o mar de carros que por ali se conseguia juntar -- e nasceu uma praça ampla. 

De junto ao rio, passando por esta praça branca, chega-se depois ao casario colorido que se ajeita para nos levar, Rua Alecrim acima, até ao Chiado.


Também do Campo das Cebolas, cujo parque de estacionamento subterrâneo será das obras mais complexas e emblemáticas da cidade (e eu, por razões cá minhas, sempre sentirei um orgulho especial no fantástico lugar que está prestes a nascer) também nascem percursos que nos levam por escadinhas e vielas, em que os passeantes têm por vezes que se desviar da roupa estendida de tal forma são estreitas as ruelas.


E, depois, hora de almoçar. Ainda era cedo, pensámos que não haveria crise. Pois, pois. A confiança dá nisto, o turismo em força ainda mais (e ainda bem porque o país estava a precisar de se relançar e o turismo é daquelas boas actividades em que entra dinheiro sem que tenha que sair parte dele): o lugar estava a rebentar pelas costuras.

Mostro a fotografia (abaixo) e imagino que tamanha multidão vos pareça assustadora. Na verdade, é. No entanto, confesso que não desgosto de almoçar em mesas corridas, entre estranhos. Mas estava, de facto, muita gente e, por isso, era difícil arranjar lugar nesta zona.

Por isso, optámos pela nossa já usual escolha de recurso: fomos ao Sea Me que tem bancos ao balcão na passagem por detrás dos restaurantes e onde tudo é mais calmo. 


E termino com uma fotografia a que me, querendo ocultar um pouco o rosto, me apeteceu puxar pelas cores, aquecendo-as. Não gosto de aqui colocar fotografias em que se vê o rosto das pessoas mas gostei tanto de fazer esta, havia uma tal serenidade na mulher que aqui estava a apanhar sol, havia tal quietude, uma luz tão perfeita, que arrisco. 

Claro que retirarei a fotografia se for caso disso. 


Páro já de vos maçar. Mas gostava que acreditassem que Lisboa está mesmo uma belezura e que a frente ribeirinha está linda. Quem puder, que venha confirmar.

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A reportagem fotográfica do meu passeio domingueiro pela Baixa Lisboaeta continua nos dois posts abaixo.

Segue-se o final do folhetim Dindinha -- um final a pingar amor como seria de esperar neste fim de semana dedicado às fitas com um grand finale.

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Pontos de fuga





Ainda há sinais de obras aqui e ali, não digo que não, nem digo que, durante a semana, volta e meia, uma pessoa não se veja engarrafada sem conseguir esgueirar-se por lado nenhum porque os gargalos estão todos entupidos -- mas, fazendo um balanço honesto, vale a pena. Vale muito a pena. A cidade está outra. As mudanças urbanística que Manuel Salgado vem introduzindo em Lisboa, desde quando António Costa estava na Câmara até agora com Fernando Medina, produzem um efeito na vivência da cidade que é difícil de explicar por palavras ou através destas minhas fracas fotografias.


Salvo os momentos que acima referi, a verdade é que os carros começam a circular com normalidade e o que se vê é que a reconfiguração dos percursos, o alargamento dos passeios e os espaços para convívio ou descanso e contemplação, trazem as pessoas para a beira do rio.

Há muitas pessoas por aqui, portugueses e estrangeiros. Caminham, andam de bicicleta, vagareiam, recebem o sol, olham a paisagem. 

E eu, que por aqui ando como se estivesse a desbravar primeiros caminhos, encantada com tudo, deixo que o meu olhar encontre pontos de fuga. Só para mim, enquanto espreito pela lente, componho simetrias, percorro rectas, umas vezes evito intersecções, outras procuro-as -- mas que sejam elegantes --, aguardo que as cores encontrem subtis equilíbrios.

Andar em Lisboa encanta-me. Um veleiro que se faz ao mar, uma mulher que lê um livro, um homem que lê uma oração, um edificio que se banha numa folha de água: há aqui qualquer coisa de reencontro. 

(Ou, então, sou eu que ainda estou sob influência do encontro entre Diana e o Lobo e vejo encontros e reencontros em tudo).







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Andar ao sol, virada a sul, a ver o azul.
[Ama-me como se fosses um rio -- segredará Lisboa ao seu eterno amante, o Tejo]





Agora que Diana e Tomé se desambiguaram, deixando cair as máscaras e fechando um capítulo e entrando num outro, este, sim, agora, cheio de desafios, e que Dindinha vai descobrir como bem festejar a sua vida, volto-me para outra paixão. Lisboa, a bela.

Lisboa abre-se às pessoas, estende os braços ao longo do rio e chama a si quem por ela anda. Maravilhada com a afabilidade da luz, da temperatura, das cores, das pessoas que por ela passeiam, percorro os caminhos já arranjados, estendo-me numa espreguiçadeira de madeira e quase adormeço de imediato, o calor do sol embalando o meu corpo. Percorro os terraços e as esplanadas sobre as águas, maravilho-me. Fotografo. 








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Baile de máscaras





Estive todo o dia sem saber se ia. Queria mas, ao mesmo tempo, temia ir. Aquele estado de dúvida em que se quer uma coisa e o seu contrário. Se me tivesse esforçado, teria podido confessar que, sobretudo, temia desiludir-me. Longos dias e noites de desilusão já percorreram o meu corpo e a minha alma. Mas, se quisesse expressar o que queria que tanto temia não alcançar também não saberia dizer. Talvez quisesse apenas ser surpreendida. Não sei. 

A meio da tarde fui espreitar o roupeiro que tenho no fundo do corredor. Lá dentro estão vestidos que vesti apenas uma vez, vestidos que levei a casamentos, a jantares especiais, aos bailes a que ia numa minha outra vida. Pensei que já não me serviriam, que ficaria ridícula, que tivesse mas era juízo. Ao fim da tarde fui à procura da caixa com a máscara que, numa tarde de enamoramento e ternos abraços, um longínquo amor me ofereceu. Lá estava, envolta em papel de seda. Coloquei-a. Quando me vi ao espelho senti aquele frémito que tão bem conheço. Em mim, a sede de ceder a todas as tentações manifesta-se assim.

Penteei-me, maquilhei-me. Depois preparei uma bebida. Sentei-me a ouvir música, tentei serenar-me. Não consegui. Com as pulsações alteradas, pensei que era melhor não ir.

Já tinha anoitecido quando Dindinha ligou: 'Então, prima, está pronta?' Disse-lhe que ainda não me tinha decidido. Dindinha gemeu 'Ai, prima, venha, é um projecto tão importante para mim...'. Zanguei-me: 'Deixa-te disso, menina, só por acaso é que eu soube dele...'. Ela negou: 'Era surpresa, prima, só queria dizer no fim, fazer surpresa'. Não me apeteceu discutir: 'Tanto faz. Isso de se ir mascarado não tem jeito. Não me apetece mascarar-me'. Ela gemeu de novo 'Oh prima, mas tinha achado bem... Vá, venha lá. Já viu, se não vem, que sozinha e triste me vou sentir? O estúpido do Tom diz que tem mais que fazer, diz que tem que acabar uma treta qualquer, que não tem tempo para macacadas. Estúpido'. 

Ao ouvi-la, pensei: 'Ele vai' e aí as minhas dúvidas dissiparam-se de vez. Iria.

Vesti-me, perfumei-me, meti-me no carro. Estacionei no parque debaixo da escola e foi então, ao sair, que coloquei a máscara.

Quando entrei, o ambiente era de festa. Toda a gente mascarada, uns mais convencionais, outros pândegos, outros artísticos, circulando, rindo. Música boa.

Depois um sino e logo entrou um grupo de jovens não mascarados. Dindinha estava entre eles e destacava-se pela sua beleza. Foi ela que falou para apresentar o projecto, para apresentar os colegas. No fim, agradeceu ao professor Tomé, cuja ajuda e incentivo tinha sido essencial, disse ela. Enquanto falava, iam passando imagens por trás, a imagem da revista. A seguir, mostraram um filme. Toda a gente aplaudiu. Depois Dindinha disse que ia passar a palavra a alguns colegas mas que cada um tinha apenas dois minutos para falar. De forma muito profissional, cada um disse de sua justiça. O projecto estava bem pensado, a estética com uma elegância muito estimulante. Depois a música subiu de tom. Dindinha disse que lá fora havia comes e bebes e que, ali naquela sala, o baile estava quase a começar. Era só o tempo de eles sairem para se irem mascarar.

As luzes baixaram e começaram a passar imagens da revista nas paredes em volta. Passado um bocado, as luzes apagaram-se por uma fracção de segundo e logo se reacenderam com uma música alto e bom som.

E então toda a gente começou a dançar.

Em vão, tinha já tentado reconhecer o Lobo. Nada. Depois tentei reconhecer Dindinha. Também não. Ninguém. Deixei-me ficar encostada a ver toda aquela festa. De vez em quando passava alguém que me puxava pela mão ou pelo braço, tentando pôr-me a dançar. Muita gente já se abraçava às cegas.

Então, senti um braço sobre os meus ombros. Estremeci. Tentei perceber quem era. Não consegui. A máscara encostou-se à minha pele como que para me beijar. Depois puxou-me e pôs-se a dançar à minha frente, segurando a minha mão. Tal como eu, estava com luvas. Não consegui perceber quem era, se era homem ou mulher.

Às tantas, no meio da confusão, senti que alguém se aproximava e, num ápice, puxava a máscara um pouco para cima e com uns lábios quentes beijava o meu colo. Talvez fosse um abuso mas não me importei. Eu própria começava a ter vontade de começar a abusar.

Dancei. Dancei.

Algum tempo depois, já cansada, fui à procura do bar. Com piada, à porta de uma sala, havia um cartaz a dizer: 'Não é engano. O BAR é mesmo aqui'. Havia um conjunto de máquinas de bebidas e de sandes e bolos numa das paredes e na parede oposta havia uma cartaz enorme em que, em pintura, se simulava um bar, com gente sentada em bancos altos.

Tirei uma água fresca e, com cuidado, puxei um pouco a máscara e bebi a água toda. Quando reentrei na sala de baile reparei num vulto que parecia olhar na minha direcção. Misterioso. O vulto começou a vir como se viesse ter comigo. O meu coração disparado. Toda eu descompensada. Não sei se descompensada é a palavra certa. Aflita. Com medo. Prestes a cair num abismo.

O vulto abeirou-se. Baixou a cabeça, num elegante cumprimento. Acho que nem me mexi.

Depois pegou na minha mão e levou-a até ao lugar do seu coração. Eu estava enervada, nem sei se era suposto sentir as batidas, não senti, apenas senti o veludo do seu fato. Depois colocou a sua mão no meu coração. Mas, de facto, colocou a sua mão enluvada sobre o meu seio. Não sei se o meu coração disparou se parou.

Tive o discernimento de com a minha mão dar-lhe dois toques na sua, como que para dizer que já chegava, que tirasse dali a mão.

Puxou, então, por mim, enlaçou-me, começou a dançar comigo, eu enlaçada, eu nos seus braços. Depois parou. Eu ainda nos seus braços. Abraçou-me com força, como se toda a sua vida tivesse esperado por aquele abraço. Abracei também aquele vulto misterioso. Abracei-o como se me entregasse. Depois ele puxou a minha máscara um pouco para cima e fez o mesmo à dele. Beijámo-nos como se não mais pudéssemos deixar de estar juntos.

Depois ele abraçou-me e finalmente falou. Disse: 'Vamos. Venha conhecer a minha casa'. Era Tom. Sabia-o. Eu, ainda com a máscara posta, disse apenas: 'Lobo-lobinho'. Ele voltou a beijar-me. Disse-lhe que viesse no meu carro para irmos juntos. Pelo caminho, ele não parou de me olhar. Eu, de vez em quando dizia 'Lobo-lobinho' e abanava a cabeça, como se ainda não acreditasse. Ele, com aquela sua voz quente, dizia, 'Diana, a caçadora' ou, então, 'Diana, a protectora da caça'. Eu nada dizia. Ele perguntava: 'Qual é? Não é a mesma coisa'. E eu, incapaz de pensar, 'Não consigo pensar em proteger o que quer que seja ao pé de um lobo'. E ele 'Porquê? Já se rendeu? Sabe que o lobo a vai comer?' E eu: 'Não. É um lobo-lobinho, não é um lobo mau'. Ríamo-nos mas estávamos os dois tensos.

Uma casa cheia de livros, livros por todo o lado, livros novos e velhos, livros, livros. Ele acendeu o candeeiro sobre uma mesa pejada de livros. Ligou o computador. Disse-me: 'Veja'. Não precisava de ver. Era a nossa última conversa.

Na parede da frente, várias fotografias de Dindinha. Numas o corpo inteiro, nua, noutras só o rosto, um rosto irradiando sensualidade e beleza.


Vendo-me a olhar, ele disse com naturalidade, 'É linda, a Fred'. Beijei-o. Naquele momento eu era Diana. a caçadora, não a protectora. De resto, Dindinha não era nenhum exemplar de caça e, se fosse, seria tanto meu como dele.

Depois deixei que ele me despisse. Despi-o também. Devagar, conhecendo-nos, as mãos sobre a pele, devagar, devagar. Olhando-nos, tocando-nos. Devagar, devagar.


Sem máscaras, tratando-nos pelos nossos nomes, fomos apenas um homem e uma mulher que se conheciam de antes dos tempos e que, ali, aprendiam a materializar o seu amor. A dois. Dindinha era apenas uma imagem. Cada vez mais esbatida.



.... The end ...

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Este é o último episódio do folhetim Dindinha

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domingo, fevereiro 26, 2017

Paulo Núncio assume responsabilidade política naquilo de esconder as transferências para milhares de milhões de euros para offshores e demite-se não faço ideia de que cargos.
Ora responsabilidade política não sei bem o que é isso: implica o CDS? Implica a ministra de quem dependia, a sonsésima de rabo peladésimo Marilu? Implica o chefe do Governo onde se inseria, o desgraçador-mor do reino, o mal afamado láparo? E serve de quê demitir-se de alguma treta qualquer num partido que não vale um caracol e cuja líder, a madame Cristas da coxa grossa, foi armar-se em queixinhas-totó junto do Presidente da República?

Pergunto. Pergunto porque não sei mesmo o exacto significado de tão sonso acto.


Do Núncio nunca ninguém com dois dedos de testa pensou que valesse uma casca de caracol ao serviço do País. Do seu passado e liaisons só nos vinham indícios que mandava a prudência que andássemos de olho nele.

E os indícios continuaram enquanto Secretário de Estado no desGoverno PSD&CDS. Com a escola toda aprendida enquanto serviu clientes que o procuravam para que ele os ajudasse a fazer optimização fiscal,  a depender, no Governo, de uma outra que também nunca mostrou ser de fiar e, no partido, a depender de um outro que cuidado com ele, este Núncio era peça que se prestava a ser o peão de brega da tourada que foi a gestão financeira do Governo de Passos Coelho.


Leia-se o que José Simões, o certeiro autor do Der Terrorist, escreve em 'Só estou a ler jornais' ou em 'Por falar em "Claustrofobia democrática"' para melhor perceber de que bela peça se trata, este Paulo Núncio.


Leia-se também o que 'O Jumento' tem publicado sobre Núncio para melhor se conhecer o figurão -- um cagãozinho de meia tigela sempre a sacudir a água do capote para cima dos funcionários dos serviços que tutelava (felizmente agora, em boa hora, entalado pelo valente Azevedo Pereira).


Sem grande escapatória, Núncio, agora, assume a responsabilidade política pela barracada que veio a lume. 

Mas eu pergunto-me: que raio significa isso? Que vai pintar a cara de preto? Pôr orelhas de burro? O quê, em concreto?
Facilitou a vida a uns quantos a troco de quê? Isso é que era bom que explicasse.

Enquanto carregavam sem dó nem piedade sobre os fracos, fechou os olhos aos milhares de milhões que saíam do país -- e agora espera que com este heróico acto de fds consiga sair de fininho?


Ou isto é para servir de pára-raios e fazer com que ninguém chame à barra nem o especialista em passar por entre as pingas da chuva sem se molhar, o ex-irrevogável vice primeiro-ministro e agora ilustre mestre entrepeneur Paulo Portas, ou a sua chefe Marilú, também conhecida por Miss Swaps, ou lambe-botas do Schäuble?


E espera o barítono frustrado Pedro Passos Coelho, também conhecido por Pedro-Abre-Portas, que o País esqueça que o controlo do seu desGoverno sobre as transferências para offshores, pelo que se vai conhecendo, foi uma verdadeira bandalheira


Está bem, está. Podemos ser ingénuos mas completamente parvos acho que não somos. Sabemos bem quem é que tem que assumir a responsabilidade (para já a política -- e veremos se apenas essa).

E faz muito bem o Der Terrorist ao trazer-nos à memória o que, em tempos, os jornais revelaram sobre os milhões das comissões dos submarinos, os célebres submarinos de que Portas não conseguirá nunca que a gente se esqueça. 


Agora só espero bem é que a comunicação social também não largue estes assuntos. Depois de terem andado aí a salivar sobre sms que não interessam nem ao menino jesus, a ver como é que agora se comportam. Se forem jornalistas a sério e não uns fracos avençados, farão trabalho a sério sobre isto. A ver. (A ver -- como diz o ceguinho, devo confessar)

E uma perguntinha a pensar no escritor Cavaco: com tanto apontamento que tomou, com tanta perspicácia e sapiência, o Prestador-de-Fracas-Contas também nunca deu por falta de nada? Nunca se lembrou de pedir informação sobre o controlo da transferência dos milhões para offshores?

Esperta, esperta esta rainha suburbana que, enquanto reinou, mais pareceu ao País uma santa protectora de láparos e de banqueiros de índole algo duvidosa.

E Lobo Xavier, o Conselheiro-Alcoviteiro, o que vai agora fazer perante esta bronca que envolve correligionários centristas e, em particular, um colega muito chegado (não só do partido mas, sobretudo, lá da Morais Leitão, Galvão Teles, Soares da Silva & Associados)? Vai contar a Marcelo o quê? Não tem sms alheias ou gravações de telefonemas para andar por aí a alcoviteirar? Ou desta vez não tem interesses envolvidos?


Pergunto. Só pergunto. 


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Toas as imagens, excepto a primeira, provêm do saudoso We Have Kaos in the Garden

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sábado, fevereiro 25, 2017

Quando a brigada da limpeza prova que Natal é sempre que um homem quer
- ou como isto da embrulhada do Marquês é para esquecer
(Agora até o Zeinal Bava e o Granadeiro estão ensarilhados no processo do Sócrates? Oh la la)





A minha sexta-feira foi chata e comprida: começou cedo, acabou tarde e, nem à hora de almoço, consegui intervalar. De notar, contudo, que nem o almoço foi chato (deverei até confessar que, bem pelo contrário, foi superlativo: lugar fantástico, a melhor vista possível, comida excelente, um serviço de primeiríssima e uma companhia irrepreensível: eu e quatro homens simpatiquíssimos), nem a reunião da tarde foi desagradável (deverei até dizer que foi das melhores dos últimos tempos) nem a manhã foi das piores. Simplesmente não consegui alhear-me nem por um instante da persona que me habita quando estou a trabalhar. E também não é que eu antipatize com a dita persona, é mais que preciso de, volta e meia, deixar vaguear a mente, olhar pela janela, esticar as pernas, pensar que me estou a marimbar. Ou seja, necessito de, de vez em quando, intervalar. Fazer silêncio. Ouvir os sons íntimos do silêncio. E não consegui. 


Seguiu-se que saí pouco depois das sete da tarde a pensar que ia chegar a cedo a casa, que poderia ainda ir fazer uma breve caminhada -- e apanhei um trânsito tramado. Cerca de uma hora. Não foi dos piores dias mas, caraças, apetecia-me não apanhar nem um carro pela frente e foi o que foi. E, para fim de festa, tendo resolvido ir jantar fora, decidimos não ir à praia mas ficar por perto. O restaurante foi um dos nossos preferidos, a comida é boa, o serviço de grande cordialidade. Só que estava cheio e demorou, demorou. 

Por isso, cheguei a casa tarde, farta de estar de saltos altos, farta do colar, dos brincos, do relógio, farta de estar com camisa de seda, farta de estar de meias de lycra, farta, farta, fartinha.


Agora, já confortável, instalei-me com vontade de ver coisas boas. E, por acaso, tive sorte: dei uma volta pela net, vi as fotografias maravilhosas que mostrei abaixo e que fizeram com recordasse o nascimento dos meus filhos. 


Só que, agora, ao prestar atenção à televisão, vejo que Henrique Granadeiro e o oustanding Zeinal Bava são arguidos no Caso Marquês, suspeitos, ao que parece, de receberem dinheiro do Grupo Espírito Santo. E fico espantada. Já lá vão mais de vinte arguidos neste processo. Num país pequeno como este, parece que não há processo que não se transforme num mega-processo. Seja porque se oferecem robalos, seja porque se opina sobre o revestimento do chão do apartamento do amigo, seja por que for, é tudo metido ao barulho e um processo, em vez de durar meses, arrasta-se durante longos anos, massacrando a vida de todos aqueles que caíram nas malhas das suspeitas.


Fico admirada com isto. Não que ponha as mãos no fogo seja por quem for e muito menos o faria pelo Zeinal -- e até admito que seja do sono e do estado de saturação em que me encontro -- mas o caso Marquês não tinha a ver com o Sócrates? O que é que o Zeinal e o Granadeiro e de quem recebiam ou deixavam de receber dinheiro tem a ver com o Sócrates?


O Rosarinho, com o beneplácito do Super-Judge Alex, estão para ali a armar um enredo, um enleio que não se percebe como é que, em vida dos visados, isto tudo se vai desensarilhar tal a diversidade de suspeitas, tal o leque de visados, tal a barafunda que já está para ali armada.

Agora fiz zapping e fui parar a um programa onde andam todos nus numa praia mas onde os seios das mulheres e os genitais de todos aparecem desfocados. Se é para tapar, que lógica tem pô-los nus?

É a gota de água. Parece não haver limite para a parvoíce.


Ou seja, e para atalhar razões: não há pachorra. Ou, admitindo que o mal seja meu: não tenho pachorra.

Conto, pois, com a vossa compreensão para permitirem que intervale. Fiquemos, pois, com um momento à maneira. Prestem atenção à letra das canções. 

Cleaning Crew


(com a partipação de Cecily Strong, Emma Stone, Leslie Jones)


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A música lá em cima é The sounds of Silence, de Simon & Garfunkel, numa interpretação de Nouela.

Os desenhos com flores são da autoria de Georgie St Clair

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Pensava que ainda escrever mais um episódio da Dindinha mas é-me impossível.
Vou pregar para outra freguesia.

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E não deixem, por favor, de ver as fotografias maravilhosas do post que se segue.

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Dar à luz




Já contei muitas vezes: tive os meus filhos a sangue frio, sem epidurais ou qualquer outra anestesia que atenuasse as dores. A opção não teve a ver com heroísmo: simplesmente temia que, anos mais tarde, viesse a provar-se que alguma dessas coisas era prejudicial à saúde das crianças. Para além disso, não me achando eu diferente de qualquer outro animal, sempre pensei que deveria deixar que a natureza actuasse por si, sem artificialismos. Hoje, sabendo-se já de fonte segura que não há malefícios para as crianças, teria querido epidural. 

Porque, chegado o termo da gravidez, as crianças não desciam, foram ambos os partos provocados e ambos com recurso a fórceps. Dores de morrer. Tantas dores que transpirava em bica, a cama alagada. Achava que não ia resistir a tamanha dilaceração das entranhas. Horas de contracções e dores, sempre em crescendo. Já extenuada, a sentir que não ia conseguir suportar aquele contrair-se o corpo num esforço brutal para expulsar um ser que parecia não conseguir atravessar o caminho para a vida, a sentir que me ia faltar a capacidade para superar tamanho e tão longo sofrimento, a verdade é que consegui.


E, verdade seja dita, mal as crianças saíam, imediatamente me esquecia das dores e entrava num estado de felicidade levitante, radiosa, como se nada de doloroso se tivesse passado e, pelo contrário, como se vogasse num mar de encantamento.

O meu marido esteve sempre ao meu lado e, sem espinhas, assistiu a tudo.


Ora eu estive lá, vivi cada momento, maravilhei-me quando me puseram as crias ensanguentadas em cima -- mas ver, ver mesmo, isso não vi.


Mesmo que houvesse espelhos, de tal forma estava aflita de dores, não sei se teria tido a capacidade de olhar para o espelho.

Nem sei se seria capaz de assistir a parto alheio. Custa-me imenso ver alguém a sofrer. Também não sei se não estaria com tanto medo que houvesse algum problema que acabaria por cair para o lado.

E, no entanto, não há milagre maior. De dentro do corpo de uma mulher sair uma outra pessoa é coisa mágica -- seja pela via normal, seja via cesariana (como no caso da fotografia seguinte).



Estou, de novo, com isto não porque o tema me seja caro (e é: adorei estar grávida e, apesar de tudo, adorei dar à luz) mas porque vi algumas fotografias de nascimentos que me deixaram maravilhada.

Talvez algumas das pessoas que me lêem já tenham visto, ao vivo, algo com o que aqui mostro mas é a pensar nos outros que, tal como eu, nunca viram uma pessoa a irromper do corpo de uma outra que aqui as mostro.

E devo dizer que de todas as alegrias desta vida, só há uma que supera a de conhecermos um filho que acabou de sair de dentro de nós: é a alegria de sentirmos essa felicidade nos nossos filhos ao conhecerem os seus filhos que acabaram de nascer.


!  Aleluia  !

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Estas fotografias foram algumas das premiadas no concurso anual da International Association of Professional Birth Photographers

Lá em cima: Aleluia do Messias de Handel pelo Coro do King's College

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sexta-feira, fevereiro 24, 2017

Dindinha e eu.
Sem Tom.





Na outra noite mal dormi. Estive a tentar recuperar algumas das muitas horas de conversação no messenger com aquele a quem conheço por H. Lobo, nome que acreditei ser o verdadeiro e a quem, por brincadeira, tratava por Lobo-Lobinho. Costumo dizer que não frequento o facebook. É mentira. Até há uns dois dias, em segredo, era para essas estepes que eu me esgueirava para lá o encontrar. Estive a rever as conversas desde o início. Pasmei. Há quanto tempo. Desafinidades aparentes, afinidades crescentes, antipatias vulcânicas, empatias incontroláveis. Aquilo dos opostos se atraírem. Aquilo das afinidades electivas. Aquilo dos beaux esprits. E discussões homéricas, dramas inconcebíveis, reconciliações indesculpáveis. Aquilo que não se explica. Aquilo que não se compreende. Aquilo de que não se consegue fugir.

De manhã, estava ainda incrédula. Nenhum indício palpável e, no entanto, a certeza absoluta. A certeza absoluta.

Durante todo o dia tive vontade de ir para bem longe. Receio. Sem saber o que fazer, ensaiei mil possibilidades. Perguntar-lhe se estou certa? Não. Dirá que não. Dizer-lhe, com assertividade, o que descobri? Dirá que não. Fingir que nada sei até que um dia a evidência lhe caia no colo? Talvez. E até lá? Fingir? E em relação a Dindinha? Contar-lhe? Mas contar-lhe para quê? Melhor calar. Ou não? 

Habitualmente tão decidida, com isto fiquei francamente abalada. Mal almocei, mal consegui concentrar-me ao longo do dia.

Então, eis que, de tarde, recebo uma* sms de Dindinha: 'Prima, estou a organizar o lançamento da revista. Coisa em grande. Preciso do seu conselho para saber o que vestir. Posso passar lá por casa depois de jantar?'. Pensei que era arriscado: e se o Lobo aparecesse? Mas ela não me deu tempo a desatar o nó. 'Lá para as oito e tal, nove, passo'.

Apareceu-me com um grande saco ao ombro. Enquanto passava por mim, a caminho da sala, disse: 'Quer acreditar que se não fosse eu insistir, o estúpido não dizia nada? Liguei-lhe, não me atendeu. Enviei uma sms e olhe, prima, olhe bem o que aquele estúpido escreveu...' e procurou no telemóvel. Depois mostrou-me enquanto lia: 'Tenho um trabalho para acabar. Pede à tua prima que te leve ao parque infantil'. Respondi-lhe logo 'Porque é que és tão parvo?'. Respondeu-me com um emoji de um diabo a rir. Completamente estúpido. Não acha, prima?'

Pensei cá para mim: 'Típico'. Mas não disse nada. Limitei-me a perguntar: 'Que conselho queres, então?'.

Atirou-se para o sofá: 'É assim, prima. O grande dia vai ser amanhã. Estamos no carnaval. Lembrámo-nos de, para a coisa ter impacto, a equipa estar mascarada. Vamos pedir aos convidados para também irem mascarados. Depois fazemos um baile. De máscaras. O que diz, prima?'

Achei bem. Então Dindinha pegou no saco e disse: 'Tenho aqui uns fatos. Queria a sua opinião, prima'.

Despiu-se. Foi para o meu quarto. Passado um bocado apareceu. Linda.


Tinha apanhado o cabelo com uma tiara florida, pintado os lábios, um rouge bem rouge, um vestido de renda. Disse. 'Depois punha uma máscara, claro'.

Logo, saltitante, voltou ao quarto. Passado um bocado reapareceu. Cabelos soltos, fulgurante. Maquilhagem natural. Uma borboleta radiosa, um anjo colorido. Olhando para ver o meu espanto, acrescentou: 'E punha a máscara.'.

Era Dindinha que ali estava, não Fred. Eu olhava-a com admiração. Quanta beleza. Quanta.


'O que me diz, prima?'

Eu estava sem palavras. Pensei no Lobo, no Lobo safado, com esta menina nos braços. Dindinha nos braços de Tom. Como ele se deverá sentir viril com uma menina com tão doces curvas, tão suave pele, tão gostosa boca. Imagino.

Com alguma compaixão, pensei em mim. Um corpo já com sinais do tempo, sem este viço, sem esta absoluta elegância, sem a carnalidade adolescente que eu aqui via. Pensei que não queria intrometer-me no caminho deles. O corpo de Dindinha é mais merecedor que o meu, pobre meu - pensei.

'Qual escolhia, prima?'.

Eu disse: 'Tão bonita, Dindinha, tudo te faz ainda mais bonita, menina'.

Ela despiu-se, ficou apenas em roupa interior. Olhou pela janela. Outra vez aquela melancolia. 'Nada, prima. Tão bonita o quê. Pois não vê que ninguém me quer? Veja o Tom. Malvado, malvado. Eu sempre disposta às suas exibições e ele trata-me assim.'

'Exibições...?'

'É um narcisista, prima. Tem a mania. Arma-se em mestre. Gosta de me tratar como se eu fosse uma pupila. Acha-se personagem de livro. Deixo, prima. Coitado. Já não é novo. Já não vai ter muito mais hipóteses de se armar. Tolero. Finjo. Finjo que aprendo, finjo que gosto. Coitado. E, volta e meia, imagine, na horinha do bem-bom põe-se com poesia. Não há saco. Mas tenho pena, finjo que gosto'. E olhava a janela, como se triste.

Depois continuou. 'Gosto é de meninos malandros, fogosos, que a gente não tem tempo nem de pensar, nem de soltar um ai'. Suspirou. 'Já viu, prima, eu a querer folgar e ele querendo que eu seja personagem de livro? Já imaginou?'

Sorri. Talvez alguma pena. Dele que não sabe que ela finge, dela que, com tanta beleza, não precisava de fingir.

Continuou. 'Mas não sei o que tenho, prima, parece que têm medo de mim. Parece que gostam mas depois ficam a medo, não sei se têm medo de não cumprir. Não sei o que há com os homens e comigo'

Depois tirou o soutien, sentou-se na minha cama. Disse-lhe 'Tapa o corpo, Dindinha, está frio'.

Tapou-se com a minha almofada. Mas teve um arrepio: 'A almofada está fria. Venha aqui me aquecer, prima.'


Sentei-me ao lado dela, na cama. Encostou-se a mim: 'Diz, prima, há alguma coisa de errado comigo?'.

Fiz-lhe uma festa no cabelo. 'Que errado, menina? Está tudo tão certo.'

Continuei, os meus dedos passando por entre os seus cabelos.

'Cheira bem o teu cabelo, Dindinha'.

Ela disse: 'Gosta? Cheire, prima, cheire.' 

Cheirei. Um perfume bom, morno. Carnal, inocente.

Entretanto, pegou nos meus colares de pérolas, e colocou-mos. Depois despiu-me o casaquinho de lã e pôs-se a brincar com os colares, frios, frios, fê-los escorregar ao longo da minha pele, fez-me arrepiar. Desmanchou-me, então, o cabelo. Foi buscar o lápis dos olhos, pôs-se de joelhos em cima da cama, pintou-me as pálpebras.  Depois disse: 'Quando eu for grande quero ser como a prima, misteriosa'. Olhou para mim: 'Tem muitos segredos, não tem, prima?'

E eu, olhando-a: 'Eu, Dindinha? Eu não, Dindinha.'

Mas ela teimou: 'Os seus olhos estão cheios de mistério. Atraem como abismos, prima'. 

Insisti: 'Que é isso, menina? Não tenho segredos.  Com cada coisa, Dindinha.'

'Diz que não mas deixe que lhe diga, prima: tem olhos de pecado, prima, tem mesmo'. Saltou de novo, foi buscar loção perfumada.

Disse: 'Mas deixe, prima, agora deite-se, esqueça o resto enquanto pensa no disfarce de amanhã. Já pensou? Poder fazer o que quiser sem ninguém saber quem é, já viu, prima...? Liberdade mais boa. Pense nisso, prima. Ou não pense em nada. Vou fazer-lhe uma massagem. Descontraia-se. Tem os músculos tão tensos, prima. Vai ver, prima, vai ver, as minhas mãos são gatos macios, tão cheias de mistérios como os seus olhos. Feche os olhos. Sinta. Deixe-se ir, prima.'

Deixei.


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Lá em cima era Una Preghiera - Elena Ballario

Aqui abaixo uma canção que não tem nada a ver.
Como é bom de ver, está aqui apenas porque é boa para o day after. Para despertar, quero eu dizer.

I kissed a girl - Kate Perry


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Este é o sexto episódio do folhetim Dindinha. Diria La Palice que vem no seguimento do quinto.
De cada um poderão ser alcançados os precedentes.

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma gloriosa sexta-feira.

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