Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, novembro 30, 2016

São os ovos? O cálice de Porto? A distância dos homens?
- o que é que aumenta a longevidade das mulheres?


Depois das garotas do Pirelli 2017, continuo na companhia de garotonas bem vividas. Já conto o segredo de algumas mulheres que viveram para lá dos 100 anos mas primeiro vou aqui prescrever uns pontos. E, se não se importam, para irmos de visita ao texto, vamos na companhia da Natural Woman, Carole King.





1º - Não estou completamente segura de que seja uma grande coisa viver para lá da conta. Uma pessoa viver bem, autonomamente, na ligeireza de existir, distribuindo sabedoria e boa disposição é coisa boa. Boa mesmo. Mas viver tombando da tripeça, toda na dependência da generosidade alheia, sendo tratada como uma criança, vendo os mais novos a sorrir de condescendência como se cada bobagem fosse uma grande conquista, ter que esperar pela hora de mudar a fralda, isso aí parece dureza em que nem é bom a gente pensar.

Só de uma pessoa se ver desdentada, pêlo grande a sair do queixo, ouvindo, em surdina, um queixume por o raio da velha nunca mais dar à sola (parafraseando o disfuncional permanente Montenegro), já deve dar vontade não ter comido tanto ovo cru.


2º - Viver é bom -- e, até ver, pela parte que me toca não tenho razão de queixa. Ouço, por vezes, pessoas da minha idade invocando já algum direito ao descanso, como se os anos vividos fossem pilhas que se foram gastando, como se os anos vividos fossem tiros no submarino, no porta-aviões, como se já poucos tiros houvesse para disparar. Ouço-as como se eu tivesse metade da sua idade, eles declarando-se acabados e eu sentindo-me ainda aí para as curvas. 

Isto da idade é genético ou tem a ver com o estilo de vida? Não sei. A minha mãe, oitentona, cheia de actividade, agora numa azáfama com as compras de natal em cima dos seus dois dias de ginástica e toda cheia de projectos de tricot e crochet, sempre com revistas cheias de modelos todos modernos, gerindo a casa e as suas contas, como consegue ela essa proeza? Foi operada a um cancro, tirararam-lhe metade do cólon, e dois ou três dias depois estava como se nada se tivesse passado. Vive quase prisioneira do meu pai que teve um AVC gigante há uns sete ou oito anos, nem sei, que agora acorda de noite a dizer que tem fome, que quer leite e bolo e que a chama, chama, sem a deixar dormir. E, no entanto, fala sempre a rir como se a sua vida fosse um mar de rosas. E, quando se refere a outras da idade dela, é capaz de dizer 'umas velhas' e ela não, ela não é velha. E tem razão, eu também não a vejo como velha.


3º - No outro dia, o meu filho e a minha nora -- que tinham ido ver os meus pais -- ficaram por aquelas bandas para irem jantar com uns amigos. Nós trouxemos os miúdos (ele com quatro, ela com seis) para virem jantar connosco. Uma vez que tinha vindo do campo, não tinha jantar em casa. Resolvemos ir comprar um frango de churrasco e arroz. Como estava a chover muito, eu fiquei no carro com eles. Claro que, acto contínuo, já estavam os dois na maior impaciência: 'e falta muito?', 'e quanto tempo é que o avô ainda demora?' e ela 'não sei o que estamos aqui a fazer! se tivessemos ido para casa, a esta hora já tínhamos jantado!' e eu 'mas jantávamos o quê, se o que estamos a fazer aqui é ir comprar o jantar?' e ele 'mas então, quando é que ele vem?'. Desliguei, desisti de responder a cada pergunta impaciente, certa de que não devia demorar muito. Até que o ouço dizer a ele, tom compungido, 'coitadinho do nosso avôzinho... tão velhinho... se calhar morreu...' Despertei. Como tínhamos vindo de casa dos meus pais, pensei que ele estava a falar do avô velhote, ou seja, do meu pai. Mas confirmei: 'Mas qual avôzinho tão velhinho é que se calhar já morreu...?'. Respondeu 'o avô J'. Ou seja, o meu marido. Dei-lhe logo um grito: 'ai...! credo, rapaz, mas que ideia é essa? vira essa boca para lá, morreu lá agora, está só à espera que o frango esteja assado, credo...'. E ele 'é que já há tanto tempo sem aparecer...'. Lá lhe expliquei que entre atravessar a rua, ir à churrasqueira, esperar pelo frango, pagar, etc, o tempo ia passando. Ouviu com atenção. Passado um bocado, o tom mudou 'Estou furioso! Quando é que aquele cabeça de bacalhau vem?!'. Desatei a de rir. E depois, já sem os conseguir ouvir mais, resolvi ir, mesmo à chuva, ter com o avôzinho velhinho, coitadinho.

Mas fiquei a pensar: será que os miúdos nos vêem já mais para lá do que para cá? Ou aquilo terá sido um estado de alma passageiro? Não sei. Sei que, na idade deles, achava os meus avós já velhos. Mas, se vir fotografias deles, acho mesmo que eram pessoas de idade, nada a ver com o que eu e o meu marido hoje somos. (Digo eu).

Mas, na volta, tudo erros de paralaxe.


4º - E tudo para falar de decana da humanidade. A italiana Emma Morano fez esta terça feira 117 anos. Imagine-se uma coisa destas. E, curiosamente, atribui o fenómeno à sua dieta, em tempos prescrita por um médico: come 3 ovos por dia, 2 dos quais crus. Também pequenas doses de carne. Frutos e legumes são quase nenhuns. 

Pasmo, juro que pasmo. Tudo o que se sempre se ouviu dizer que fazia mal.
Também podia referir a francesa Jeanne Calment que morreu com 122 anos. Dizia ela que, para além do seu capital genético, a vida longa se devia ao desporto e a um cálice de Porto por dia.

Ou a escocesa Jessie Gallan que viveu até aos 110 anos e que atribuía a vida longa à distância que mantinha dos homens os quais, segundo ela, só serviam para dar chatice.

Ou ainda a americana Susannah Mushatt Jones que viveu até aos 116 anos, dizia que dormir bem e ter uma vida dalai-lamiana, peace and love, é que lhe garantia a longevidade já que daí lhe vinha a energia positiva que a alimentava.

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Receitas há muitas. Mas não sei se os efeitos secundários são fatais pois há mais que patinam (por isto ou por aquilo) do que as que ultrapassam a meta.

Por isso, que se lixem as mezinhas e que cada um tente a sua sorte como souber e que saiba ser feliz enquando puder.

E eu vou agora beber um copo de leite magro, morno, e vou dormir porque a noite passada dormi pouquíssimo e não faço outra coisa senão estar para aqui, de minuto a minuto, a adormecer. Faço ideia o texto, deve estar todo cheio de falta de letras, uma espécie de dentes em falta numa boca a céu aberto. Mas não consigo rever o texto, não mesmo.

[Tanto comentário e tão desafiante tenho nos posts de ontem e eu, que queria tanto responder e ver se tirava nabos da púcara de uma Leitora super misteriosa, tenho um corpo que só me puxa para a cama.]



Great Basin bristlecone pine -- Pinus longaeva

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As meninas das fotografias são as citadas no texto.

E antes que me quede por aqui, a dormir a sono solto no sofá, tenho mesmo que me ir.


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As garotas de rosto nu do Calendário Pirelli 2017
- um grito contra o terror da perfeição e da juventude


O meu prazer em fotografar é inversamente proporcional ao de ser fotografada. 


Nunca me apanham em grupinhos a dizer cheeeeese ou ba-ta-ta. Impossível. E se tenho que ser fotografada por obrigação sou incapaz de me produzir para o momento.

Acho que já o contei. Quando o ano passado foi um fotógrafo à empresa para tirar fotografias a cada um de nós, cheguei lá e fiquei espantada com a produção de cada uma das outras mulheres. Muitas tinham ido ao cabeleireiro, vinham aperaltadas, todas de ponto em fino. Eu fui normal. Aliás, ao arranjar-me em casa, foi coisa que nem me ocorreu. Depois, estava numa reunião quando me foram chamar. Fui num ápice dar uma espreitadela à casa de banho. Achei que menos mal. Quando ia a entrar para a sala, pensei que devia ter passado uma corzinha nos lábios. Tarde demais. Pus-me lá no sítio que o fotógrafo disse e começou a dar-me vontade de rir. Ele, profissional, não ligou. Aproximou-se e pôs-me ligeiramente de lado. E eu com vontade de rir. Fiz um esforço para manter uma pose adequada ao status. E, nisto, pergunta-me ele enquanto me fixava com olho clínico: 'Sô-Tôra, não quer afastar o cabelo?' e fez um gesto com a mão, como que para afastar a franja. Fiquei preocupada: 'Mas está mal?' e ele. meio atrapalhado: 'Não... Mas podia querer afastá-lo mais da cara...' Fiquei apreensiva. Tive vontade de lhe dizer: 'Alto e pára o baile. Tenho que ir ver com os meus próprios olhos!'. Mas não, achei que, se afastasse o cabelo, poderia ficar com ar demasiado despido e e não me dispo perante qualquer um. Ficou assim. Agora olho a fotografia e não consigo formar opinião. Algumas colegas odiaram ver-se, exigiram um remake. Eu fiquei depois a pensar que, se calhar, devia ter aproveitado a oportunidade de tentar segunda chance, talvez ficasse melhor. Mas não. Só passar outra vez por aquilo... Não gosto.

Apenas de vez em quando, quando não estou nem aí, é que não me importo que o meu marido ande à minha volta a apanhar-me tal como estou, sem poses ou sorrisos pasmados. 


Acontece-me também, quando me vejo nas fotografias, achar-me diferente do que era tempos atrás. Como já o contei, tendo, então, a protestar com o fotógrafo: não devia pôr-me com o sol a bater-me na cara, não tem cuidado, não me adoça a pele, mostra-me as rugas junto aos olhos, mostra que o meu rosto já não tem a frescura de quando eu tinha a vida inteira pela frente, bem podia apanhar-me em melhores ângulos, com luz mais esbatida. Etc. Ele não liga, acha que fiquei bem. E está dito. Não lhe arranco nem mais uma palavra.

Depois, se calha eu ver essas fotografias anos depois, olho e já acho que ali ainda era uma jovem, cinquenta mil vezes com mais piada do que na actualidade.

E isto contado assim até parece que dou muita importância a isto. Não dou. São pensamentos ou reacções momentâneas que desaparecem na hora.

O que entretanto aprendi é que somos sempre jovens e bonitos aos olhos de quem é mais velho e acabado que nós.

E aprendi, sobretudo, outra coisa: é que a beleza de uma pessoa é francamente subjectiva. 

Gosto de me maquilhar ao de leve pois acho que sem um toque de cor, fico um bocado descorada, as sobrancelhas claras, a pele clara, parece que está mesmo a pedir uma sombra leve na pálpebra superior, um pouco de blush, coisa leve em tom de pêssego e só mesmo nas maçãs do rosto, e, nos lábios, uma passagem de gloss, cor de romã suave. Mas, ao fim de semana, nada, quanto muito um esfumado ligeiro  na pálpebra superior. E, no entanto, a minha filha diz que fico melhor assim, rosto nu. 


Mas não sei se ela tem razão. O meu marido, por seu lado, não se pronuncia. Não tem paciência para os meus inquéritos. E diz que receia responder o que quer que seja pois acha, que diga o que disser, ficará sempre sujeito a mais perguntas, e, se há coisa que o impacienta, é ter que dar justificações das opiniões que exprime. Por isso, tenho que me fiar na minha opinião. Contudo, nunca me deu para carregar na maquilhagem, usar base para disfarçar imperfeições, carregar no rimel, pintar os lábios de cor compacta e desenhando o contorno. Acho que não suportaria o contraste quando, à noite, retirasse a maquilhagem. Penso que deveria parecer-me com um palhaço no fim do circo, no camarim, a desfazer-me do personagem.

Mas a verdade é que tanto faz. Se nos sentimos bem e confiantes, está sempre tudo bem. E haverá sempre quem goste de nós, quem nos olhe com olhos doces de afecto ou apreço. Nem que seja um velhinho, cinquenta anos mais velho que nós (pitosga, taraulhoco, meio deslembrado).

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Vem isto a propósito do Calendário Pirelli 2017. Transcrevo:


This year, Peter Lindbergh became the first photographer to shoot three Pirelli calendars. His 2017 also marks another first for "The Cal", as the images have not been retouched. Lindbergh tapped 14 of his favorite women in Hollywood: Nicole Kidman, Lupita Nyong'o, Uma Thurman, Lea Seydoux, Rooney Mara, Kate Winslet, Robin Wright, Julianne Moore, Alicia Vikander, Charlotte Rampling, Zhang Ziyi, Penelope Cruz, Jessica Chastain and Helen Mirren. Lindbergh also included Anastasia Ignatova, a political theory professor in Moscow, that he met a dinner last year. All the women featured were tasked with sharing their natural beauty for the black and white calendar which he has titled "Emotional".


"Beauty is just commercial interest, as you see in magazines, women are washed out from every experience. That's just the opposite of what I wanted. These are the most talented women that I admire in the entire world. They are emotional and I wanted to show that," Lindbergh said during the official press conference in Paris today.

All the women in this calendar, we're women of all different facets. The calendar is physical, so what are you building inside? It's about the journey." Lindbergh and his subjects all hope to spark the cultural conversation on what real beauty looks like. "Look at this Pirelli calendar," Mirren said, "the reality is we live, we love, we continue, that's the role of women. It is very difficult, for young girls nowadays, incredibly challenging. The only way we can help them along the way is to say, life goes on a long time. You will be many things in your lifetime."

Pirelli Calendar 2017 by photographer Peter Lindbergh


Captured by legendary photographer Peter Lindbergh and featuring equally as iconic women as Nicole Kidman, Julianne Moore, Lupita Nyong'o, Kate Winslet and more.


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E tenham, meus Caros Leitores, um dia muito feliz. Vocês merecem.

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terça-feira, novembro 29, 2016

O PCP e o BE nas sondagens e nos actos





Vou dizer uma coisa.

Nas autárquicas, sempre que me pareceu ser a candidatura mais credível, votei no PCP. Ou melhor, na CDU, acho eu. Claro que não faço ideia qual a diferença entre a CDU e o PCP. Nem sei se CDU é feminina ou masculino pois não sei o que é o C. Podia googlar mas, a esta hora, não estou para isso. Nas legislativas nunca votei no PCP. É gente honesta, não tenho dúvidas disso, mas há ali uma utopia datada, improvável, que me afasta. Sobretudo, há uma forma sectária de ver o mundo. Ou talvez não seja isso, talvez seja apenas uma forma sectária de falar. Não sei. Sou próxima de pessoas do mais PCP que há, militantes, com vida pública ao serviço do partido. Contudo, não consigo falar de política com eles. Dá ideia que têm sempre um inimigo de estimação e que constroem a sua 'narrativa' em torno disso. 

Por isso, o PCP, apesar de reconhecer nos seus militantes uma genuinidade de intenções, não é a minha praia.

Sou, por natureza, despreconceituosa, aberta a ideia novas, gosto de pôr em causa tudo o que seja ortodoxia, não consigo aceitar que me condicionem a liberdade de pensamento e de expressão, sou uma desalinhada por natureza. Não poderia, pois, encaixar-me no PCP.


No Bloco de Esquerda também nunca votei. Ou melhor, votei no Miguel Portas para as Europeias. Mas, por cá, embora lhes reconheça algumas boas ideias e, por vezes, uma inegável capacidade de falar claro e de apontar o dedo a algumas anomalias do 'sistema', nunca votei neles. Sempre me pareceram um bocado inconsequentes, com muita sede de protagonismo, ávidos de mediatismo. Há ali um deslumbramento pelas suas próprias artes performativas que, por vezes, me enfastia. Outras vezes, parece que ficam cegos pelo tacticismo e, na prática, fazem o jogo daqueles a quem dizem combater. Tenho apreço pela inteligência acutilante de Louçã, tenho simpatia pelo humanismo de João Semedo, aprecio a empatia de Marisa Matias, acho que Catarina Martins tem uma combatividade desarmante -- mas, todos juntos, formam uma mistura que não acolhe as minhas simpatias. Acresce que acho que Mariana Mortágua não tem tento na língua, é muito auto-convencida, falta-lhe humildade e falta-lhe a autoridade que advém de uma vida vivida. E é um bocado exasperante constatar que ali, naquele Bloco, cada um pode exibir o ego a seu bel-prazer que não há quem se sinta com autoridade para mandar bater a bolinha baixa a qualquer outro.


Como já o disse muitas vezes, voto maioritariamente PS embora, como tenho confessado, parafraseando o O'Neill, seja na base do 'não me apetece mas voto PS'. Não me revejo nos jogos palacianos, não me revejo em amigalhices aparelhísticas, não me revejo no uso abusivo, para desviar atenções, do verbo fácil. E, por vezes, esses são tiques de que o PS padece (também versejei!). Mas, numa lógica de redução por absurdo, analisando pragmaticamente as alternativas, muitas vezes tenho chegado à conclusão que do mal o menos e, portanto, votei PS.


Mas, pelo que referi, não sou fundamentalista em relação a nenhuma das minhas ideias.


E é assim que é com pena e um sentimento de que uma injustiça está a ser cometida que vejo a fraca preferência dos eleitores pelo PCP que a última sondagem revela. 6% para o PCP é injusto. Desde que apoiou o governo PS, o PCP tem revelado uma enorme dignidade, uma atitude vertical e honrada. Não têm deixado de expor as suas razões, de encabeçar as suas lutas mas sempre de uma forma madura, sempre respeitando o acordo que fizeram, sempre de uma inteireza que deveria merecer melhor reconhecimento. Têm mostrado ser gente de bem e isso não é coisa pouca.


6% é o que o CDS também tem e o CDS é uma mão cheia de nada, um partido pífio, um bando de gente de cabeça oca, uma nítida nulidade. 


E custa-me ver como o BE, com toda o seu histórico de leviandades, algumas das quais bem recentes, consegue a preferência de 8% dos eleitores. 


Há nisto qualquer coisa de muito injusto.

A vida é assim, bem sei, cheia de injustiças, cheia de avaliações deficientes que conduzem a iniquidades. É dos livros: muitas vezes são os melhores que ficam pelo caminho. É da história: muitas vezes é por delicadeza que os melhores se deixam matar. É do dia a dia: muitas vezes são os que mais têm a dizer que menos são ouvidos.

Mas é por ser tão banal que nos conformemos perante toda a espécie de injustiças que a mediocridade vai alastrando como uma mortífera mancha de óleo, fazendo retroceder a civilização, anulando parte da elegância e da beleza da vida.

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E, por falar em beleza e em elegância, as pinturas são de Hiroshige (1797 - 1858) e é Jordi Savall quem interpreta 'Greensleeves'.

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Comecei referindo que ia dizer 'uma coisa' e acabei dizendo uma data delas. As minhas desculpas.

E agora, caso vos apeteça visitar o fantástico mundo das pessoas verdadeiramente inteligentes, queiram, por favor, descer até ao post que se segue.

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Gente verdadeiramente inteligente


Cada vez mais aprecio gente genuinamente inteligente. É rara gente assim.

Eu não devia dizer uma coisa destas mas o que me vale é que isto é anónimo. Que dia o de hoje! Caraças. 

Acreditem ou não, cheguei a casa às dez da noite, acreditem ou não, tive uma reunião que durou oito horas seguidas. E, acreditem ou não, chegada aqui ao computador depois das onze da noite, são coisas como as que aqui partilho convosco que me mostram que, por difícil que por vezes seja de acreditar, ainda há gente inteligente à superfície da terra.

E, note-se, quando digo isto, incluo-me no naipe alargado de gente pouco inteligente porque, se cumprisse os mínimos, outro galo cantaria e a minha vida seria outra.

Bem. Adiante.

A televisão estava nos Prós e Contras. Fiquei com os cabelos em pé. Já não consigo ouvir aquela gente. Falava o rapazelho do CDS, aquele que já foi secretário de estado não sei do quê. Era o que me faltava depois de um dia como o que tive ainda ter que ouvir estes meninos velhos com a cabeça cheia de tralha sem uso possível.


Agora estou a ver nem sei o quê, parece coisa científica,. Olho sem atenção. Vejo gente que me parece civilizada. Fotografia. Parece que falam de Carlos Relvas. Fica aqui. Palavras assim fazem boa companhia.


De manhãzinha, quando ia trabalhar e quando ainda julgava que ia ter um dia normal, ocorreu-me que hoje iria escrever sobre o papel do jornalismo nos dias que correm. Mas agora não consigo, só me apetece falar de gente inteligente.

Vejam estas respostas fantásticas. Ah como eu gostava de lidar, de manhã à noite, com gente assim...


E para quem gosta de matemática...? Até dei uma gargalhada com esta aqui abaixo.


E esta? Pedia-se para desenhar uma linha para a resposta correcta. O máximo.


E, já agora, uma musiquinha num ambiente igualmente criativo e animado. 
Que entrem os meus amigos OK Go com The One Moment.


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segunda-feira, novembro 28, 2016

O Pastilha no meio dos Príncipes
- ou como a filha de Luís Figo debutou no meio dos aristocratas, da alta burguesia e das estrelas de cinema

[E breve recordação do meu Baile de Finalistas]





Eu tinha 16 anos, andava no último ano do liceu e um dos momentos do ano era o Baile dos Finalistas. O grande salão era adaptado, arrumavam-se as mesas, cuidadosamente decoradas e distribuídas à volta. Ao meio uma passadeira vermelha. E, antes, durante um ou dois meses, ensaios. Ensaiávamos o desfile na passadeira com os nossos pares, depois a valsa que abria o baile. Para além das famílias, eram convidadas as forças vivas da cidade.

Para mim, foram tempos de sufoco. Andava de candeias às avessas com o meu namorado. Orgulho de parte a parte, coisa de adolescentes que davam os primeiros passos no mister da paixão -- já aqui o contei muitas vezes. E, aproveitando a oportunidade, o senhor que haveria de se seguir avançou e convidou-se para ser o meu par. E eu, furiosa por o meu namorado andar armado em parvo e todo ciumento, aceitei ir com esse outro. Aquilo dilacerava-me mas, ao mesmo tempo, era mais forte que eu. E a verdade é que, com isso, cavei um fosso ainda maior entre mim e aquele por quem o meu coração acelerava. 


Nessa altura não havia pronto a vestir para vestidos de baile. Escolhia-se um modelo, um tecido e a modista fazia a obra.

Escolhi, na Vogue, um vestido comprido e imaginei-o em cor de fogo. Comprámos a seda. Era cortado na cintura e a saia, evasée, flutuava em torno das minhas pernas. Da cintura para cima era justo. Era de alças, decote redondo, generoso à frente e depois continuava, estendendo-se pelas costas. De facto, era aberto nas costas até à cintura. Não pude levar soutien, claro. Em toda a volta do decote e contornando a profunda linha das costas, tinha um folho plissado. Portanto, quando eu andava, o folho ondulava.

Eu tinha o cabelo comprido com ondas largas e naturais e deixei-o assim. Achava-me o máximo naquele vestido comprido, elegante, uns altos sapatos de fino tacão. Não quis levar qualquer adorno mais pois achava que o vestido muito decotado e fluido chegava como adorno por sobre o meu corpo adolescente quase nu.

Daniela Figo com os pais - uma beleza serena, a dela

Aquele que o meu coração amava (e odiava em doses iguais) não foi ao baile. Foi o único do nosso ano a não ir. No entanto, quando eu ia a entrar no salão com os meus pais, ia-me dando uma coisa: ele estava à porta, de jeans, camisola desportiva, com aquele cabelo desalinhado de que eu tanto gostava. No meio de rapazes todos em fatos escuros, todos produzidos, e de raparigas que pareciam princesas ou estrelas de cinema, eis que ali estava ele, vestido daquela maneira, deslocado, estranho, quase um intruso. Retardei o passo e, com o coração aos saltos, temendo que ele estivesse ali para armar confusão, perguntei-lhe, furiosa: 'O que é que estás aqui a fazer?'. Ele respondeu : 'Vim ver-te. Estás muito bonita.'. Depois deu meia volta e foi-se embora. E eu fiquei a achar que devia ir atrás dele e pedir-lhe para ficar. Mas isso era se eu fosse outra.

Pouco depois estava eu a desfilar pelo braço do meu par e depois a dançar a valsa, e depois toda a noite a dançar todos os géneros de música.

E durante todo o tempo eu esperei que o meu amor rebelde reaparecesse, que me tirasse dos braços do meu par, que caísse aos meus pés. Não o fez. No dia seguinte comecei a namorar com o outro. De vez em quando chegava a casa e desatava a chorar: o outro adorava-me a achava que era retribuído e eu não sabia como fazer para não o desiludir, incapaz de lhe confessar que aquilo era tudo um mal entendido.


Nunca mais voltei a vestir aquele vestido tão bonito. Para mim aquele vestido cor de fogo era o símbolo da minha traição, da minha capitulação. Já não sei que é feito dele. Se calhar a minha mãe ainda o tem para lá guardado mas eu não sinto qualquer gosto em ver coisas do meu passado.

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Só me lembrei disto ao ler o artigo sobre o Baile das Debutantes em Paris, um baile que juntou 23 jovens da mais fina flor da sociedade. Princesas, condessas, todas pelo braço dos seus Cavaliers. Mas também meninas muito ricas e a filha de Annette Bening. E Daniela, a filha de Luís Figo e de Helen Svedin.


Daniela vestiu Jean Paul Gaultier e estava muito bonita. Não sei bem o significado deste baile, talvez apenas a apresentação das meninas da melhor sociedade ao mundo, mas imagino que tenha sido uma noite marcante para as adolescentes que o frequentaram. É bom que haja pricesas para alimentarem o imaginário das meninas que vivem em ruas suburbanas, daquelas ruas em que há clubes locais onde se acolhem os meninos do bairro que gostam de praticar desporto, meninos como em tempos foi Luís Figo que começou por jogar no clube Os Pastilhas.

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A Segunda Valsa é de Dmitri Shostakovich
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Tinha em mente contar-vos a linda odisseia que vivi durante este domingo e como rematei o dia paseando num dos meus lugares de eleição.


Mas esta história da diva Domingues e da totozice do primo do Mourinho desconcentraram-me. Depois ainda estive a acabar o meu TPC e, finalmente, desviei-me para isto do baile. E agora, a esta hora, já não são horas para começar post novo. Não posso deitar-me às quinhentas porque esta minha segunda-feira é das que prometem. Tenho que estar bem acordada.

Pode ser que amanhã ainda me apeteça partilhar convosco a minha reportagem fotográfica. Para já, deixo aqui uma fotografia. Uma não: duas, uma inside um sítio onde andei a almocei (perto das 4 da tarde) e outra na rua mas fotografando para dentro (de uma galeria).


Lisboa, ma belle.
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E sobre o desfecho da soap opera, Domingues fica - Domingues sai, queiram, por favor, descer até ao post abaixo.


António Domingues demitiu-se da CGD e eu tenho umas perguntinhas para ele e um recadinho para António Costa


Na fase em que andavam há meses para desarrincar um elenco para a CGD e, no fim, apareceram com um magote deles que mereceram dúvidas ao BCE, já eu aqui tinha criticado o Secretário de Estado Mourinho Félix e o Ministro das Finanças Mário Centeno e, consequentemente, António Costa. O Primeiro-Ministro deixou que a coisa se arrastasse daquela boa maneira para, no fim, aparecer um Conselho de Administração que era uma turma absurdamente excessiva.


A coisa passou. Mas logo a seguir rebentou a castanha do ordenadão de António Domingues e, pior, a de não querer (ele e os colegas) reger-se pela lei do comum dos mortais nestas funções, apresentando a declaração de rendimentos.

Também já aqui várias vezes disse que a trupe pafiana não ia descansar enquanto não visse a CGD de pantanas. Tem sido um fartote. Campanhas negras, interpelações, a comunicação social encharcada das notícias que os pafs não se têm cansado de plantar.

Face às ameaças, era da mais elementar prudência que António Costa percebesse que esta não é matéria para verdinhos. Mário Centeno e o Mourinho Félix podem ser competentes mas não passam de uns meninos do coro quanto têm pela frente macacos de rabo muito pelado. 


Agora as televisões anunciam o pedido de demissão de António Domingues que pode ter as suas razões mas que, perante a opinião pública, nos apareceu como uma diva caprichosa. 


Ora a Caixa não vai aguentar mais uns meses deste carnaval. Um banco vive da confiança dos clientes e necessita imperiosamente de estabilidade. Tem que haver uma equipa sólida à frente do maior banco público nacional. E tem que haver não é só para calar a boca à comunicação social e a alguns deputados mais histéricos - é, sobretudo, para pôr em prática o plano de recapitalização e é para transmitir aos clientes a necessária confiança..

A última coisa de que o País precisa é de mais um filme de tipo BES. Na SIC N, o José Gomes Ferreira já está a agitar o papão das contas com mais de 100.000 euros -- e daqui até a uma corrida aos depósitos pode ser um instante. 


Por isso, a coisa tem que ser estancada de imediato. Tem que ser António Costa a encabeçar a resolução deste imbróglio: tem que nomear uma boa equipa, agilizar todo o processo de aprovações, pô-la a agir o mais urgentemente possível. E, se necessário for, que Marcelo o ajude. Parece que já há um nome ou alguns nomes. Não faço ideia quem seja mas gente capaz e que aceite um tratamento dentro da lei é o que não falta. Pois bem, que se avance de súbito, dando todos os passos com segurança e rapidez -- e tranquilizem os depositantes.

Mário Centeno, António Costa e Marcelo têm que anular o efeito pernicioso que tudo isto está a ter na confiança dos portugueses. Façam-no o mais rápida e eficazmente possível.


NB: Não me parece que Mário Centeno deva ser demitido. Tem alcançado resultados que não devem ser subestimados, resultados ímpares. Nem digo que Mourinho Félix está a precisar de um par de patins. Não lhe conheço as competências. Admito que o Secretário de Estado seja bom em algumas coisas e que, apenas, tenha falta de tacto político ou de capacidade para lidar com situações mais complexas. António Costa é que sabe se é de segurá-lo ou não. Mas o que tem, em qualquer circunstância, é puxar o assunto CGD a si. Já.


...   &   ...

Agora uma pergunta a António Domingues: se era para isto, porque é que se não se demitiu logo? Se queria um regime de excepção e se viu o ensarilhanço que isto estava a causar, ou cedia e era logo ou saía e era logo. Agora meses deste chove-e-não-molha para, no fim, se vir demitir...? Ora abóbora. Que vá participar em regatas, estudar filosofia ou aprofundar o conhecimento dos gregos que, ao que parece, é o que está mortinho por fazer -- que vá e não chateie mais.


E que sirva de lição a António Costa: gaitas destas não podem voltar a acontecer. As crises têm que ter respostas imediatas. Há situações que não vão lá com sorrisos e ironias. Há ATR (assuntos que o tempo resolve), lá isso há. Mas este, seguramente, não é um deles.

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domingo, novembro 27, 2016

O meu dia 26 de Novembro de 2016


Dia de chuva e tranquilidade. Uma vez mais o meu corpo chegou ao fim da semana a pedir descanso. Na noite de sexta-feira, reclinada no sofá, o computador ao colo, ia escrevendo e adormecendo. Tenho um trabalho para fazer e enquanto pensava que seria preferível fazê-lo logo e tirar daí o sentido, o meu corpo recusava o esforço adicional. Sábado está a chegar ao fim e ainda não lhe peguei.

Queria responder aos comentários e adormecia. Fui para a cama mais cedo do que o habitual e dormi, de seguida, até às nove e tal da manhã. 




Quando acordei fui à janela e vi que chovia a bom chover. Liguei a televisão e vi que tinha morrido El Comandante. Pensei que o Marcelo tinha tido pontaria. Não que o tiro fatal tenha sido disparado por ele mas, enfim, conseguiu, por um triz, apanhá-lo ainda com vida. Pensei que a anciã Isabel II -- a tal que já era rainha quando Marcelo ainda era uma criança -- deve estar a pensar que, graças a deus, ainda está bem de saúde.

Fiz papa de aveia, arrefecia-a, misturei um diospiro aos bocados e um iogurte e comecei o dia em beleza. O bem que isto me sabe só eu sei. Rematei com um cafezinho bem quente e cheiroso.

Entretanto, o meu marido disse que tinha caído um botão da manga do casaco de bombazina castanho. O botão é daqueles redondos, forrados a pele. Tirei outro para servir de amostra.

Fomos os dois dar a nossa caminhada mas, antes, passámos pela retrosaria da rua. Já não existia. Lembrámo-nos, então, de ir ao chinês. Tinha botões (tem tudo o que se possa imaginar) mas nada que se parecesse com o pretendido. Aproveitei para comprar uma embalagem de alfinetes de dama e outra de alfinetes de cabecinha. Volta e meia é preciso fazer bainhas nas calças e já me reareavam os alfinetes para fazer as marcações. O meu marido trouxe também um frasquinho de plástico com óleo lubrificante. Já pôs num fecho de um blusão que estava meio emperrado e agora o fecho já fecha bem e experimentou pôr também numa máquina de aparar a barba que tinha deixado de funcionar e a verdade é que, com o bendito óleo, ela ressuscitou.


Lembrei-me, então, de uma retrosaria atafulhada de tudo e mais alguma coisa que havia num fundo de um pequeno centro comercial. Lá fomos. Ainda lá estava. O dono é um silencioso indiano já de alguma idade. A empregada, portuguesa, talvez da idade dele, pelo contrário, fala pelos cotovelos, ri, mete-se com os clientes e dá ordens no patrão. Mostrei o pequeno botão e de uma parede forrada a caixas de botões, saíu uma caixa de cartão com botões daqueles, de todos os tamanhos. 

Quando saíamos o meu marido disse: O senhor Inesh é amante da empregada e ela é que é, na verdade, a gestora da loja. Achei que talvez fosse verdade.

Depois fomos fazer outras compras, incluindo, claro está, diospiros na loja dos outros indianos. Trouxe dos redondos, rijos, e dos ovais, moles e suculentos. 

Despachadas as obrigações, fomos então às devoções. Andar: uma caminhada de cerca de uma hora. Chuva, frio, as ruas molhadas mas, de quando em vez, alguma luz quase dourada. Fotografar, um dos prazeres maiores. O meu marido retarda o passo, chama-me, queixa-se, 'assim não dá'. Gosta de andar de seguida, a ritmo certo, mas também não quer seguir viagem e deixar-me para trás, deve ter medo que algum mergulhão me envolva nas suas asas negras e mergulhe comigo até ao fundo das águas.


Almoçámos tarde. Durante o almoço, liguei aos meus filhos a perguntar se queriam lanchar cá a casa. Uma semana sem os ver a todos e já me dá umas saudades que só visto. Quiseram. Por isso, depois de almoço, fomos ao supermercado.

A seguir, ainda tive tempo de escrever um post sobre Fidel Castro no qual mostrei um vídeo com um discurso 'poético' que merece ser visto.

Quase logo a seguir chegaram eles. Primeiro fomos a um lugar onde os miúdos gostam de brincar. Depois viemos para cá para casa.

O lanche foi: paezinhos escuros com sementes várias e pão alentejano às fatias levemente torrado. Queijo limiano às fatias, fiambre, queijo fresco de ovelha e queijo fresco de cabra. Para uma tijela cortei, aos bocadinhos pequenos, dois tomates bem maduros, depois desfiz grosseiramente com um garfo e misturei azeite. Bom para colocar sobre fatias de pão torrado. Tinha também manteiga com flor de sal. E iogurtes líquidos, sumo de laranjas algarvias e bongos. 

Como acompanhamento, muito conversa. Depois do lanche fomos para a sala e os três rapazinhos andaram a brincar uns com os outros, a maior parte do tempo às lutas. A menina, sentou-se num cantinho e disse que ali era a sua casa e começou a brincar às comidinhas. Ela e um dos primos andam agora com um dentinho a menos. Estão todos crescidos, sempre muito bem dispostos: uma alegria pegada. E um desatino quando estão juntos num espaço confinado. No fim, foram para o quarto do meu filho, o mais pequeno pegou na guitarra do pai, que ficou cá em casa, sentou-se na cama, os outros à sua volta, e tocou e cantou com energia e boa voz. Os mais crescidos ficaram de pé a assistir ao espectáculo.


Quando se foram embora, fomos os dois a casa dos meus pais. O meu pai, como sempre, muito queixoso por ter estado no cadeirão. Diz que na cama é que está bem, que não suporta a tortura de passar a tarde no cadeirão. Digo que é o médico que quer, que é bom para a circulação, para a respiração, para não perder completamente a massa muscular. Fica todo zangado, diz que não é verdade. Recordo a pneumonia que teve o ano passado, que esteve internado, que os médicos disseram que devia estar levantado para as secreções não se acumularem nos pulmões. Diz que me cale, que não é verdade, que não teve pneumonia nenhuma, que não esteve no hospital, que estou a inventar. A minha mãe diz que não vale a pena. De tarde, refila horas a fio, zanga-se com ela, dá-lhe cabo da cabeça. De vez em quando, vai-se um bocado abaixo, ela. Não quer sair para se ir distrair porque lhe custa deixá-lo em casa, se calhar aflito, a chamar por ela, mas, por outro lado, está saturada, muitas vezes com os nervos à flor da pele. Mas como é como eu (ie, eu é que sou como ela), tem uma facilidade enorme em pôr os problemas para trás das costas e, por isso, logo depois já estava a queixar-se que não conseguia ir à internet no telemóvel. Estava com os dados desligados. Nunca sabe o que faz para desactivar aquilo mas, volta e meia, as coisas estão desactivadas. Liguei. E estive, outra vez, a ver com ela como fazer pesquisas ou ver imagens via google (decoração de bolos, mantas de lã, etc). Também estive a mostrar-lhe como enviar fotografias tiradas no telemóvel por sms. Para exemplificar tirei-lhe fotografias a ela e à senhora que trata da higiene do meu pai que, entretanto, tinha chegado. Ficaram as duas todas divertidas a verem-se nas fotografias.


Depois, à vinda, pelo caminho, como tantas vezes acontece, resolvemos encomendar uma piza grande, metade com alcachofras e presunto e a outra metade vegetariana com queijo feta.

Passámos a buscá-la e quando chegámos, já um bocado para o tarde, estivemos a jantar. Não estava com fome pelo que comi pouco e acompanhei com um chá de erva cidreira.

Agora estou de regresso ao meu sofá aconchegante. Claro que já está a dar-me o sono. Tenho que fazer algum esforço para me manter de olhos abertos. Se os fechar, tenho a certeza que adormeço instantaneamente. Eu estou num sofá e o meu marido está deitado noutro e temos um aquecedor a óleo ao pé de nós. Ouço a chuva, sinto o calorzinho bom, estou a escrever. E sinto aquela paz tão boa que me faz sentir agradecida.


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As fotografias foram feitas de manhã.

Lá em cima, é Judy Collins e Graham Nash interpretando - "I Think It's Going To Rain, Today"

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E ainda não é hoje que vou responder aos comentários (que agradeço!) nem aos mails pois vou agora começar a fazer o meu TPC.

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sábado, novembro 26, 2016

Fidel Castro - o carisma de um guerreiro sonhador


Não sendo eu dada a ídolos ou a paixões assolapadas de cariz político, não tenho grandes arrebatamentos de alma nem a favor nem contra o regime castrista. Coisas boas, coisas más. Um ideal magnífico sem hipóteses de se concretizar, uma utopia sem motor -- qualquer coisa assim.

E a Castro sempre olhei como um combatente muitas vezes sem tropas suficientes, muitas vezes sem capacidade para avaliar melhores alternativas, muitas vezes cercado pelos seus sonhos.

A história o julgará. A mim falta-me competência para tal.

Mas sempre foi um inegável líder, um daqueles homens cujo carisma foi capaz de aguentar os quereres e os desquereres de um povo ao longo de décadas, um daqueles homens cujas palavras largas e gestos soltos atravessavam o coração de quem o ouvia -- quer se concordasse ou não com ele, já que a indiferença não foi reacção que ele tivesse aprendido a despertar nos outros.


Discurso poético de Fidel Castro na ONU em 1979



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Breve intervalo para um sincero conselho aos pobres coitados que padecem de disfuncionalidade cognitiva temporária

- seguido da Dança Nupcial dos Flamingos


Breve conselho aos tais

Continuem. Falem muito. Digam tudo o que vos vai na alma. Despejem cá para fora todas as palavras que conhecem e não se acanhem: usem-nas mesmo que a despropósito. 

Todos. Seja o bacorinho arrebitado, seja a biscateira descarada, seja a mal encarada, seja a réplica do ribeirinho, seja a galinha descabelada, seja o ressabiado no exílio - seja quem for. Queremos vê-los a serem quem são, em estado bruto, desmiolados, desencabrestados. E gritem, pateiem, insultem, insinuem. Podem até enfiar os dedos no nariz, tirar as cuecas do rabo, ver o facebook à socapa - tudo o que quiserem. Não se coibam de nada. Queremos conhecer a vossa genuína essência.

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É que há 36% (30% + 6%) de eleitores que ainda não viram bem as lindas espécies que continuam a apoiar. Portanto, é deixar os disfuncionais cognitivos completamente à solta a ver se mostram bem o que lhes vai na alma.

E, já agora, uma palavrinha para o Secretário de Estado Mourinho Félix - nalguns dossiers a seu cargo acho que tem sido um verdinho e já aqui o critiquei. E hoje voltou a mostrar que o é. Eu, por exemplo, não estou certa de que a referida disfuncionalidade cognitiva seja temporária. Portanto, cá para mim, foi, uma vez, mais um ingénuo.


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Mas isto foi um breve intervalo

Segue, então, o vídeo.


Andean flamingo mating dance


A extraordinária dança coordenada dos flamingos quando armados em conquistadores



Quem queira perceber melhor algumas coisas, então fica também o link


Depois contem-me, está bem? É que não estou com muita paciência para ler tudo.

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E, caso estejam para aí virados, queiram seguir para o spleen by YSL

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Anthony Vaccarello para YSL


Parece que tem a ver com a Primavera de 2017 mas, bem vistas as coisas, tem a ver com mais coisas. Há uma sensualidade cansada, uma androginia indiferente, há um tédio elegante. E talvez ainda mais. É ver.



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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sexta-feira, novembro 25, 2016

O que é que deu naqueles atrasados mentais para não fazerem outra coisa senão inventarem casos e casinhos em volta da Caixa Geral de Depósitos e de António Domingues?
- pergunto.



O maior respeito pelos atrasados mentais. Nada a ver. Tão pessoas como os adiantados mentais e os normais mentais, eles. E que cada um diga o que pensa. Agora isto de andarem todos, à uma, a moerem a nossa paciência, a verem mosquitos em cada banda e a acharem estranhas as coisas mais banais é que é estranho.

É como tudo. Por exemplo, apareceu uma baleia no rio Hudson e também nada a ver: uma baleia é uma baleia, é uma baleia -- e que cada uma ande por onde muito bem queira. Isto de aparecer uma ali no meio de Nova Iorque é que causou estranheza.


Outra. A Fnac mandou 60.00 sms para os seus aderentes a convencê-los a aproveitarem as pechinchas da Black Friday. E nada de mais. Uma Black Friday é daquelas coisas para totós que qualquer marca comercial que se preze gosta de usar. Por isso, nada a ver. Agora aquilo de mandarem as pessoas para a Worten é que parece um bocado atípico. Causa estranheza. Só isso.


Ou o António Raminhos que tem um programa de entrevistas. Ele é divertido, inteligente e um talk shower é coisa nunca por cá antes vista. Chama-se a Banheira das Vaidades e tudo bem. O curioso é que ele e os convidados estão mesmo nus, a lavarem-se enquanto perlapeiam. Nada de mal, nada de mais. A gente apenas sente alguma estranheza. Só isso. Porque, de resto, a sério, estou por tudo. Open-Mind é o meu nome do meio.


Já agora, para quem quiser ver:

No Duche Com a Miss Olívia Ortiz -- o novo talk-show de António Raminhos



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E, portanto, voltando à cold cow, vendo bem, isto de andarem uns quantos atrasados mentais a tentarem pôr em causa a estabilidade da CGD, a verem se atiram areia para os olhos da populaça e a encherem a agenda das televisões com notícias-aborto e comentários a metro em volta dos alucinados casos que regurgitam ao longo do dia não tem nada de mais. Nada. Não se vai esperar que os atrasados mentais consigam produzir raciocínios de longo alcance. Causa é estranheza que aquele punhado que tem assento na AR agora não tenha outro assunto senão aquele. Dias a fio e aqueles pobres coitados sempre naquilo: a quererem saber se o António Domingues, antes de ir para a CGD, não prejudicou não sei o quê (como, se o tivesse feito, o lesado não fosse o BPI que, ao que consta, ainda não se queixou) ou se foi ter uma reunião a Bruxelas (como se alguma criatura responsável não se preparasse ou se informasse antes de deitar mãos àquela empreitada) ou se outra macada qualquer. 


Estranho. Só isso. Poderia pensar-se que aqueles neo-trolls não descansam enquanto não arranjarem sarilho dos grandes mas acho que não há grande perigo porque são demasiado intelectualmente limitados para isso. É certo que já detonaram uns 3 bancos (o BES, o Banif e o ninho de cagarras cujo nome comercial de má memória era BPN) mas mais do que isso duvido que consigam.

Ou seja, acho que não é caso para dramas. Mas cansa, lá isso cansa. E dá um bocado de pena.


Mas pronto: da minha parte, mais nada a dizer sobre o tema.

Agora o que me causa mesmo, mesmo, estranheza é que o nosso Santo Padroeiro, o super-ubíquo São Marcelo, que se preocupa tanto com os menos válidos, não arranje maneira de conseguir um local especial para alojar e manter ocupados aqueles pobres coitados. Uma CERDIPAF, Cooperativa para a Educação e Reabilitação de Deputados Inadaptados e Pafianos. Por exemplo. Aqui fica a dica. A Sede pode ser ali para as bandas da AR mas com sucursal no Parlamento Europeu que há por lá um maluco armado em galinha descabelada que também precisa de quem tome conta dele, cacareja que só visto. 

Mais. Proponho que comecem já a ensaiar a festinha de natal. Àqueles putativos emproadinhos que vi na televisão a fazerem grandes declarações, a lançarem acusações, a pedirem demissões e a ver se armam maiores confusões eu quero é vê-los a dançarem para nós, todos bem treinadinhos, bonitinhos. Vá. E esqueçam lá isso da CGD, ok? 

Não precisa de ser aquela coreografia das galinhas que, doidas, picam, picam, picam para pôrem o ovo lá no buraquinho ou aquela de todos os patinhos que sabem bem nadar, cabeça para baixo, rabinho para o ar. Não. Muito déjà-vu, isso. Vamos lá a inovar. Ok? 

Podem começar usando a mesma coreografia que Jett Adore, Mr Gorgeous, Brewster, Ben Franklin, Tigger apresentaram no New York Boylesque Festival. 


Vou ficar à espera.



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Nas fotografias, o maluco vestido da mesma maneira que Rosenberg, o cão, é Topher Brophy. O outro binómio cinotécnico da segunda fotografia não sei por que nome dá. E não consta que qualquer deles queira armar fuzué mediático ou rebentar com a CGD pelo que não sei o que estão aqui a fazer.

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Desejo-vos, meus caros Leitores, uma Happy Friday com muitos sweet moments.

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quinta-feira, novembro 24, 2016

Prever o futuro


Li que há 'supervisores' de um tipo especial. A notícia nã se refere a pessoas dadas a supervisionar trabalhos ou equipas mas, sim, a pessoas que conseguem prever o futuro.


As palavras de Philip E. Tetlock foram ouvidas, esta quarta-feira, na Universidade de Lisboa, no âmbito da conferência “A Ciência das Previsões”, organizada pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. O cientista social da Universidade da Pensilvânia, Estados Unidos, considera que, hoje, não só é possível fazer previsões com alguma segurança, como essas previsões podem ser melhoradas.
Quis saber mais. Fui à procura. Ouvi entrevistas de Tetlock. Julguei que ia ficar entusiasmada. Não, nada. No que li e ouvi pareceu-me faltar o golpe de asa que o tema pede. O assunto é aliciante mas, como frequentemente me acontece, parece que quem lhe pega não o faz transportando na bagagem ferramentas como a poesia, a física, a pintura abstracta, o prazer do silêncio. E isso, a meu ver, faz toda a diferença.


Acontece que, durante algum tempo, trabalhei com modelos, com previsões e com coisas desse género. É matéria que me interessa e agrada. Contudo, como é sabido, sou de tipo flaneuse, não de tipo plongeuse (se assim me posso exprimir). Afloro as coisas, passeio por elas -- ou seja, não mergulho nelas. Sinto que alcanço melhor a essência das coisas se delas tiver uma visão distanciada, não comprometida. Sei que este meu método contraria as práticas académicas e, portanto, nem quero falar em método, prefiro falar em pancada. Para ver se me protejo dos impropérios vindos dos sacrossantos Illuminati que pululam por aí, vou logo alegando que ando por cá só a ver as montras, que não sei nem quero saber muito de coisa nenhuma e, quem acha que sou uma pobre coitada, pois olhe, se calhar tem toda a razão. 


Mas adiante.

A nível de modelos complexos, já o disse, os que mais me atraíam eram os que se prendiam com a simulação, algo que, na altura, se aproximaria da inteligência artificial.

Contudo, se aparentemente, estava num reino em que a racionalidade e o determinismo imperavam, a verdade é que, para mim, tudo aquilo tinha o seu quê de magia.

Já não navego hoje por essas águas. Contudo, há coisas que deixam marcas. Ou que são genéticas -- não sei. 


Acontece-me por vezes, nomeadamente a nível profissional, estar a ver um projecto ou uma estratégia e achar que vai dar buraco, que aquilo não leva a lado nenhum, que é pura perda de tempo e gasto de dinheiro, ou achar que ali há esturro - e mais ninguém achar isso e, portanto, ficarem a pensar que é pessimismo meu ou, pior, desalinhamento. Se uma pessoa prevê uma coisa não tem como demonstrá-la e, portanto, ao falar nisso é inevitavelmente olhada de través.

Agora mesmo, neste momento, ando desconfiada em relação a uma situação. A ser verdade, é uma situação grave que pode causar danos e que, se comprovada, deverá levar ao afastamento compulsivo de uma pessoa. Mas como provar? Esperar que aconteça algo que pode ser um estrago irreversível causando sérios danos de várias ordens? Mas qual a alternativa séria? Afastar uma pessoa sem provas do que quer que seja, correr o risco de cometer uma tremenda injustiça e metermo-nos num trinta e um legal? Não me parece.

Cenas maradas. 


E as vezes que isto já me tem acontecido... O meu colega mais próximo diz-me muitas vezes que ver antes do tempo é praticamente a mesma coisa que não ter razão. Por isso, se por vezes parece que vejo ao longe, o que tenho a dizer sobre isso é que não há qualquer prazer em antecipar situações nas quais ninguém acredita e que, por via disso e não só, não se conseguem evitar.

Portanto, não sou supervisora nem nada disso -- e ainda bem. Sou um bocado intuitiva, acho eu. Mas isso de pouco me serve. Nem sei se o sou. E, para dizer a verdade, tanto se me dá.

E é que, com isso, das duas uma: ou uma pessoa passa por lunática e ninguém acredita ou passa por dizer banalidades, lapaliçadas.


Por exemplo, qual o gozo de coisas como estas?

. Achar que o láparo vai andar por aí aos caídos e nem para comentador televisivo o hão-de querer contratar?

. Ou que um dia destes o BE se vai ver embrulhado por via de problemas entre Catarina Martins e Mariana Mortágua?

. Achar que Fernando Medina vai ser um dia primeiro-ministro?

. Achar que Paulo Portas vai aparecer aí um dia metido num caso judicial?

. Achar que um dia vamos ter um casamento gay envolvendo uma figura da política?

. Achar que a Teresa Guilherme, anda, anda, anda e ainda a vamos ver a gerir uma casa de meninas?

. Achar que a Merkel anda, anda, anda e ainda a vamos ver a receber o Nobel da Paz?

E etc. 

Ou banalidades ou parvoíces, como dizia atrás. Sem préstimo, portanto.



Por isso, vou mas é ver se consigo paciência para ouvir o senhor Philip E. Tetlock a falar de Why an Open Mind Is Key to Making Better Predictions que pode ser que aprenda alguma coisa de útil.


Mas não é hoje. Hoje, se me permitem, fico-me com a voz de Marlon Brando e as palavras de T.S. Eliot´.

The Hollow Men - How Cultures Die



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Lá em cima Agnes Obel interpreta Smoke And Mirrors e as imagens que espalhei ao longo do texto mostram trabalhos da ucraniana Yelena Yemchuk.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta-feira muito feliz.

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quarta-feira, novembro 23, 2016

Medo




Não gosto de me vitimizar. Muito sinceramente penso que isto é coisa da minha natureza: acho que a pele de vítima não me assenta bem.

Contudo, a verdade é que, em geral, sempre achei que nem teria razões para isso; e, nas poucas vezes em que achei que seria razoável que me fosse abaixo, pareceu-me que seria absurdo puxar a mim o mau da situação ou os males do mundo e, por isso, segui em frente, se calhar, como se não fosse nada comigo. Aliás, arreliam-me imenso as pessoas que perante uma desgraça, desvalorizam o acontecimento, emoldurando antes a sua própria experiência pessoal. Por exemplo, se há uma trovoada desgraçada, queda de raios, árvores esfaceladas, casas inundadas, que sentido tem uma pessoa reduzir isso ao que se passou consigo própria: 'eu estava em casa e, quando ouvi aquele trovão maior, até dei um grito e encolhi-me e fiquei a tremer'? Todos nós as conhecemos (na família, na vizinhança, no trabalho ou, mesmo na blogosfera), as pessoas que querem sempre ser as mais infelizes, as mais desgraçadas, as maiores vítimas.

Fatigam-me um bocado, pessoas assim. Acho-as um bocado egocêntricas.

Eu sou o oposto. Não o digo com vaidade porque não apenas não é coisa voluntária, como nem sei se isso é grande coisa. Mas é o que é. Geralmente, em alturas em que seria normal eu mostrar medo ou preocupação, mostro-me surpreendentemente neutra -- quando não calma, imune aos riscos ou superior às emoções.

Posso ver à minha volta pessoas a chorarem, desoladas, a gritarem umas com as outras, num stress, ou numa aflição, a acharem que vai acontecer uma qualquer desgraça, e eu vejo-me como se fosse desumanamente fria ou -- como a minha mãe às vezes diz -- excessivamente racional.


Por vezes é quando tudo passou que, por um qualquer insignificante motivo -- e em privado -- me vou abaixo. Então, posso chorar como se fosse o fim do mundo. Mas, uma vez o choro acabado (e isto pode durar uns cinco minutos), fico fresca como se nada se tivesse passado e, geralmente, já nem me consigo lembrar do que provocou aquela breve fractura emocional.

No trabalho, tenho uma característica que, se eu conseguisse ver-me de fora, me faria assustar. Abomino aquele tipo de cautelas que levam a que, para não assumirem responsabilidades, por tudo e por nada, os gestores recorram a consultores externos. Cautelas ou cobardias. Os consultores começam por fazer levantamentos, depois fazem muitos power-points, produzem muitos entregáveis, falam em quick wins e tretazecas -- e recebem muito dinheiro. Tudo espremido geralmente não vale um caracol e qualquer gestor com um mínimo de testículos (metafóricos) teria feito dez vezes aquilo, em dez vezes menos tempo e a custo marginal nulo.


Portanto, quando tenho carta branca, faço o oposto. Mas completamente o oposto: é com a prata da casa e é para a frente, à bruta e sem medo. Acontece, no entanto, uma coisa: quando estou no rebentar da onda, naquele momento em que não há volta atrás, em que já envolvi todo o mundo de uma forma irreversível, dou por mim a pensar: 'caraças, outra vez; que risco estúpido; e se isto não corre bem?' e aí, sem que ninguém o suspeite, sinto um medozinho agudo no estômago. Mas bola para a frente porque para a frente é que é caminho. E, se correr mal, remedeia-se.

Isto a nível profissional ou social.

Mas já senti medos agudos, daqueles que nos apertam o peito, o pescoço, o estômago e, em boa verdade, todo o corpo por razões um bocado à toa.


Quando os meus filhos eram adolescentes, era uma luta interna que eu travava. Iam sair à noite, cada um com os seus amigos ou amores. Normal. E eu pensava que era bom que saíssem e crescessem.  E tudo bem. O pior era  resto. Se se atrasavam, eu ficava num pânico crescente. Ao meu lado, na cama, o meu marido dormia a sono solto. E eu ficava a ver as horas a passarem, acordadíssima, incapaz de dormir, a ouvir o elevador, a tentar perceber se ia parar aqui à porta, se eram eles, e via e revia as horas... e esperava até achar que não aguentava mais e que tinha que acordar o meu marido. Por vezes virava-se para o outro lado e continuava a dormir, outras vezes também se assustava.

A minha filha padeceu mais do que o irmão com estes meus medos. Tinha medo que ela andasse na rua, tinha medo que algum meliante estivesse na escada, tinha medo que alguma coisa lhe acontecesse. Medo, medo. Quando ela chegava mais tarde, dava-me umas fúrias pelos riscos que eu achava que ela tinha corrido e pelo que ela me tinha feito sofrer; e, não raras vezes, a coisa dava para o torto, mal a ouvia a abrir a porta. Sublimava o medo em fúria, porque ela não percebia os riscos que corria, porque ela não queria saber dos meus conselhos para nada. 

Quando chegou a vez do meu filho, quase três anos mais novo, já eu tinha aprendido a controlar-me um bocado melhor. Além disso, sendo muito alto e tendo aprendido artes marciais, achava que ele tinha mais possibilidades de se defender. Tinha medos, só que eram outros: que bebesse, que fizesse disparates, que houvesse algum acidente. Ao fim de semana chegava, por vezes, madrugada alta ou de manhã. As minhas noites eram passadas em branco, numa inquietação.


Pior ainda foi quando deixaram de ir connosco para o campo e ficavam de me ligar mal entrassem em casa. E ele, volta e meia, esquecia-se ou ficava sem bateria ou qualquer coisa e não ouvia nem atendia o telemóvel. Chegou uma altura em que a minha filha já não morava connosco e, portanto, nestas aflições eu não tinha a quem ligar para ir ao quarto dele ver se já tinha chegado. Muitas vezes, cheia, cheia de medo, depois de já lhe ter ligado umas 20 vezes para o telemóvel, já queria que nos metessemos no carro para vir à procura dele. Até me custava a respirar, tanto o medo que sentia. Por acaso, felizmente nunca tal foi necessário porque aconteceu sempre que, por fim, lá atendia, todo aborrecido por ver mil chamadas minhas no telemóvel.

E medos também senti quando os meus pais estiveram doentes e tocava o telefone fora de horas: ficava gelada, transida, à espera que fosse alguma notícia terrível. 

Tirando isso, não me lembro de muito mais medos. Não me lembro de ter medos quando era miúda.

Por vezes, quando o meu pai ia à pesca de noite, ficava preocupada porque ele nunca mais chegava. A minha mãe era para o lado em que dormia melhor. Eu não, ficava a vigiar os sons de carros na estrada. Mas não sei se isso era medo. Acho que era preocupação.


Quando tinha para aí uns doze ou treze anos, tinha aulas de manhã e a minha mãe dava aulas de tarde; nessa altura, ainda não saía para ir ter com o meu boyfriend, passava as tardes em casa, sozinha, a ler. Lembro-me de ter lido o Allan Poe e de ter ficado com um bocado de medo de sair da sala ou do quarto para ir lá dentro, tendo que atravessar o que, na altura, me parecia um longo e perigoso corredor. Imaginava que saíssem braços da parede, que ouvisse gemidos, que visse sangue a sair de debaixo de algum móvel.

Tirando isso, medos de jeito, acho que não tive. E sinto-me afortunada e agradecida.

Uma vez uma Leitora contou-me que andava sempre com medo, que sentia uma angústia um pouco inexplicável, como se qualquer perigo estivesse sempre iminente, que mal acordava já se sentia cheia de medo. Li também, uma vez, uma entrevista com Manuela de Freitas na qual ela dizia que tinha vivido parte da sua vida com essa insidiosa sensação de medo dentro de si. Deve ser uma coisa horrível. Imagino que uma pessoa nem consiga ver o lado bom da vida, nem estar descontraída a sentir a simples felicidade de viver. Na ausência de motivos concretos, não sei se isso é sintoma de depressão ou se é coisa que se cure mas imagino que, quando doentio, o medo possa ser tratado.

E a ausência de medo festejada.

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Vem isto a propósito de um vídeo que vi. Depois de uma mal sucedida aventura doméstica -- que pôs o meu marido fora dele e a mim a rir -- vim aqui para a sala.

Mas, antes do vídeo, conto a aventura.

Ontem, quando depois de jantar lavei a louça, ele foi buscar a esfregona e disse, com ar censório, que eu, a lavar a louça, tinha sido uma festa. Não percebi. Disse-me, então, que o chão ao pé do lava-louça estava molhado. Não tinha dado por nada. Nem liguei. Aliás, acho que lhe perguntei se achava que, por causa de uma mísera gota de água, valia a pena pôr a nossa relação em risco. E saí da cozinha. Quando chegou à sala, ironizou: afinal, a tal simples gota de água que quase fizera perigar o nosso casamento, era um cano roto debaixo do lava-louça.

Hoje apareceu com um tubo (uma bicha?) e resolveu provar que é sempre bom a gente ter um homem em casa. Enfiou-se lá por baixo, praguejou, pediu-me ajuda e... no fim, em vez de gotejar, aquilo começou a escorrer água franca. O alguidar que se pôs por baixo, rapidamente ficou a transbordar. Passado um bocado, fui ao lava-louça e a torneira também já estava meia desmanchada. Perguntei se teria também que tirar a pedra da bancada. Não achou graça.

Agora não se pode, pura e simplesmente, usar o lava-louça. Mas não faz mal, amanhã lavo a fruta do pequeno almoço no lavatório da casa de banho. A louça posso lavar no bidé. Claro que, chegado a esta fase, já não aceita que eu goze com ele, está furioso. Diz que se calhar o problema está na bicha, que tem que trazer outra. Colecção de bichas cá em casa, portanto. E mais não digo porque ele lê isto e vai ficar fulo por eu estar a desvalorizar os seus fantásticos dotes de canalizador. Não estou nada. Acho até que fez um lindo trabalhinho. 😂

Mas, dizia eu, cheguei aqui e pus-me a ver vídeos e dei com este aqui abaixo, no qual Paula Rego fala do medo que sente.

(E, então, deu-me para escrever o que acabaram de ler.)

Paula Rego on Fear


Pintar para dar um rosto ao medo


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As pinturas que mostram o rosto do medo são de Graça Morais - mas o Corvo é de Karen Margulis e o Grito que é de Edvard Munch.


A música lá em cima é de Ry Cooder e faz parte da banda sonora de Paris, Texas.

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