Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, junho 30, 2016

Uma mulher com máscara de gata




Um dia disse-te que um dia falaria. Pediste: não. Não te respondi. Sabes, deverias saber desde sempre, que um dia eu falaria. Não poderias esperar que, para sempre, vivesse sob esta máscara que um dia me ofereceste, sem saberes que ela se iria colar a mim.

Pensaste que eu me limitaria a esperar por ti, pelos teus humores, que me limitaria a compensar as tuas atitudes inconsequentes e infantis com devaneios, talvez até com uma ou outra recaída nos braços efémeros de outros inúteis como tu. Pensaste. Sempre pensaste segundo os teus imaturos e idiotas padrões, não foi?

Não percebeste que eu não sou a gatinha doce que gostas de acariciar e depois maltratar? Não percebeste, pois não?

Julgavas que eu estaria aqui sempre à tua espera? Julgavas? Julgavas que, enquanto dormias, eu ficava num canto à tua espera, talvez olhando os horizontes infinitos, talvez as longínquas serranias? Ou lendo, ou sorrindo ao céu e às nuvens que passam?

Fingias não perceber as minhas saídas, ou, se mostravas conhecê-las, mostravas desprezo, como se tudo o que eu pudesse fazer fosse desprezível. Mostravas desprezo, oh pobre idiota, como se não percebesses o desprezo crescente que eu ia sentindo por ti. Pobre, pobre idiota.

Querias que eu falasse para te entreter, para que tivesses pretexto para me fazeres ouvir-te. E eu fazia o que tu me pedias, eu queria o teu bem. Mas nem isso percebeste, pois não? Oh pobre, pobre idiota.

Eu colocava a máscara com que gostavas de me ver fantasiada, eu deixava que me olhasses e te iludisses, eu deixava que tu pensasses que eu te queria bem. Porque eu te queria bem. Apesar de tudo, eu queria-te bem, talvez até te amasse. Mas nunca percebeste isso, pois não? Sempre tão cheio de ti, sempre só tu, tu, tu. Tu e a mulher com a máscara. Eu, a mulher da máscara.

De vez em quando, senti que suspeitavas mas sempre tiveste medo de perguntar. Cobarde. Pobre, pobre cobarde.

Quem te julgas, tu, pobre homem que não sabes amar uma mulher? Tu que não sabes ser amado por uma mulher? Quem te julgues tu, pobre, pobre idiota?

Eu disse-te: um dia digo-te tudo.

Não. Pediste. Não. 

Mas eu digo-te. Há um mundo lá fora, sabes? E é lá fora que eu vivo, eu a mulher com a máscara que um dia ofereceste e com a qual tanto gostas de me ver fantasiada.

Olhavas para mim, dizias-me poemas, sonhavas comigo, desejavas-me -- não digas que não, oh não digas, que o teu desejo era tão visível -- e querias ter-me nos braços, imaginar-me disponível para te ouvir, para te amar. E julgavas que eu não tinha vontade, que a minha vontade era estar disponível para ti. Coitado, coitado.

Mal te sentia a dormir, eu evadia-me do teu casebre, entrava no mundo, esgueirava-me pela porta secreta, subia a escada que me levava ao paraíso e juntava-me a outras como eu, a mulheres que gostam de homens que gostam de mulheres clandestinas, a homens que gostam de prazeres secretos, desconhecidos como eu. Homens e mulheres sem nome, como eu.

Não, pobre idiota, não rias. Poderia dizer-te que ali se discutem e tomam as grandes decisões que mudam os destinos do país, poderia falar-te de como são belas as vozes que dizem poemas roucos como gritos de amor, poderia, até contar-te como são acesas as lutas em torno de ideais, de sonhos, de como por ali passa a grande e a petite histoire. Mas poderia estar a mentir-te porque a ti não me apetece sequer dizer-te a verdade. Que sabes tu da vida, pobre, pobre idiota? Que sabes tu de como a adrenalina que a mente ordena faz vibrar os corpos? Que sabes tu dos instantes de abandono e felicidade? Que sabes tu de alguma coisa?

Por pena, poderia contar-te. Mas não o compreenderias. Tu, pretenso rebelde, insurgir-te-ias, dir-me-ias perdida, louca, acusar-me-ias de orgias - e que mal têm as orgias? -, mostrarias, uma vez mais, desprezo. Pois mostra, estás à vontade, quero lá eu saber do que pensas.

Olha, sabes?, se quiseres, um dia levo-te lá.

Ofereço-te eu uma máscara. Irás, pobre idiota, ver o mundo que desconheces. Irás ver como eu sou quando vejo la vie en rose. Irás ver-me em momentos de prazer como nunca me viste. Verás como me amam os homens e as mulheres que me amam como tu, pobre, pobre idiota, nunca foste capaz de me amar. Poderás dizer que não, que aquele é um lugar de falsos prazeres solitários, falsos porque partilhados, de voyeurs, poderás dizer que é um antro de taras e loucuras, poderás dizer o que quiseres que a mim tanto me dá. Sabes lá tu, pobre idiota, o que penso ou sinto?

Pobre coitado. Para que estou eu a dizer-te isto? Para quê se não percebes nada, nem de mulheres nem de afectos nem de prazeres nem de nada? Pobre, pobre idiota.

Olha, se quiseres ir lá ver-me, inscreve-te no clube. Se te aceitarem - o que duvido, pobre idiota -talvez até me divirta a tentar descobrir-te no meio dos outros mascarados, talvez, até, deliberadamente seduza outros fingindo que é a ti que estou a tentar seduzir. E, mesmo que tenha a certeza que és tu, podes ter a certeza que farei de conta que não te conheço, talvez assim consiga suportar o tédio que exalas.

Ou não. Talvez simplesmente me deixe tocar para que me vejas como nunca me viste, uma mulher gata, uma mulher cujos gemidos atravessam a noite.

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E agora, se quiseres que eu te recomende para que te deixem entrar no clube, pobre, pobre homem, faz por me agradares.

Não sabes como? Claro que não sabes. Nunca o saberás. Olha, nada esperes mas fica a saber que te concedo uma última oportunidade, não para algum dia me teres mas para eu continuar a olhar com comiseração para ti: diz-me um poema, ao meu ouvido, mas diz devagar, devagar, vá, lenta, lentamente. Deixa que eu sinta a tua respiração, deixa que eu sinta o latejar do teu sangue, o latir do teu coração, deixa que a tua voz entre docemente em mim, deixa.

Diz. Um qualquer. Pode ser este:
My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;


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Texto inspirado no artigo:

INSIDE A HAMPTONS SEX PARTY FOR THE ELITE da Harper's Bazaar, 

Jenna Sauers, Jun 28, 2016


[For the first time, London-based ​Killing Kittens brought its upper-class orgy to an exclusive East Hampton estate. Armed with La Perla ​lingerie and an open mind, one writer decided to investigate.]


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O que faria você, Caro Leitor, se visse uma criança de seis anos sozinha um espaço público?


A mesma criança. Primeiro bem arranjadinha, limpinha. Depois suja, mal vestida.

Vejo e penso em mim. As minhas reacções.

A Unicef alerta para a forma como os nossos olhos filtram as nossas emoções. Pensemos em nós.


What would you do if you saw a six year-old alone in a public place?




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Ver também Publication du rapport Situation des enfants dans le Monde 2016

Segundo as tendências actuais, daqui a 2030, 69 milhões de crianças com menos de 5 anos morrerão principalmente de causas evitáveis, 167 milhões de crianças viverão na pobreza e 750 milhões de mulheres casar-se-ão durante a sua infância.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.

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quarta-feira, junho 29, 2016

Como é que o que comemos afecta o nosso cérebro?
- e outras derivações
(o mal e os desafios da razão, o terrorismo no aeroporto de Istambul e, no extremo oposto, os pássaros que voam em V, a definição de amor, etc.)





Estive a ouvir poesia. Como quando uma pessoa parece que precisa de açúcar, assim estava eu, a precisar de uma voz junto a mim a dizer poesia.

Parece que me sinto nostálgica mas isto é capaz de não ser nostalgia. O mais certo é ser sono. A esta hora não distingo bem, já se confundem saudades, calor, vontade de ir de férias. Será que toda a gente sabe escalpelizar o que sente? Eu não. Verdade seja dita que também não me dá para perder tempo com isso. Há bocado fui abrir a janela para entrar a frialdade da noite e tive vontade de puxar uma cadeira e deixar-me ficar ali a olhar a negrura. Talvez me pusesse a pensar no passeio que anda aqui a forjar-se dentro de mim. Volta e meia, a meio do dia, penso que, se tivesse dez minutos sossegada, ia ao google maps e olhava para os percursos possíveis para chegar lá. Mas não consigo e, por isso, a vontade de pensar no assunto anda aqui ao meu lado. Será que o receio de não poder ir é que parece ser nostalgia?

Não sei. Ou uma vontade de sair pela noite, juntar-me às paredes gastas junto ao rio, ficar a ouvir o ranger das correntes, sentir a maresia limpa, imaginar o sono dos gatos.

Estou a ouvir música, a cabeça vazia. Escrever assim sem fazer a mínima ideia do que vai sair, descansa-me. Deve haver explicação para isto.


Em vez de escrever sentada à mesa onde costumava entricheirar-me entre livros, agora arranjei o hábito de me pôr no canto do sofá, reclinada, os pés em cima do assento de uma cadeira e o computador ao colo. Deve-se isto ao sono com que ando: estes meus dias são assim a modos que muito preenchidos de coisas diversas, surpreendentes e desafiantes. No outro dia, uma pessoa dizia-me que era desafioso. Sorri. Desafioso? Nunca tinha ouvido mas muito bem, seja. 

Mas, ao fim de um ano já de si bem cheio, e agora este sprint em pleno verão, e o calor dão nisto -- chego à noite já quase em modo off. 

Também não tenho oportunidade para beber os chás que costumava beber ao longo do dia, chás e infusões. Careço disso e agora nem sempre posso. Provavelmente, a água que bebo não produz o mesmo efeito que o chá verde e as infusões de camomila, erva cidreira, lúcia-lima que agora pouco consumo.

Digo que careço mas não sei se é correcto: pode não ser carência, pode ser apenas um hábito.

No regresso, já o céu de um dourado quase nocturno, vim ao telefone e a ouvir música. Gosto de conduzir assim.

Cheguei, estacionei, calcei os ténis e fui andar. Passava já bem das nove quando entrei em casa. Vale-me o ter já a comida feita, sopa e, hoje, lombinho estufado e, portanto, é apenas aquecer, juntar salada. Acompanhei com vinho branco bem gelado, coisa pouca, acho que nem um copo inteiro, e um copo de sumo de beterraba e maçã bem gelado. No fim, comi um damasco e comi um bocado de queijo de cabra. Adoro queijo, e gosto de o misturar com fruta ou de lhe pôr um pingo de mel de urze em cima.

Depois ainda algumas arrumações e, quando aqui chego ao sofá, a primeira meia hora é para adormecer de cinco em cinco minutos. Há mails ou comentários, alguns a que tenho mesmo vontade de responder, leio-os com gosto, mas penso: se me ponho a responder, chego ao fim boa para encostar de vez e escrever no blog, está quieto, zero. Mil desculpas, meus amigos.

Amanhã, irei levantar-me cedo, como sempre, e hoje já escolhi a roupa. Prefiro fazê-lo de véspera porque, quando desatino, perco imenso tempo, parece que nada combina com nada, parece que nada é adequado ao ar do tempo, ponho-me a vestir e a despir, com vontade de me embalar numa porcaria qualquer, esperar que um shopping qualquer abra, e ir escolher uma toilette brand new que faça pendant com o meu estado de espírito Tolices, claro. Mas perco tempo. E, assim, essa etapa de duração imprevisível não fica para de manhã, já que, de manhã, é sempre a abrir, tempos espremidos.

O pequeno-almoço é tomado sentada, gosto de estar tranquilamente a comer, por vezes enquanto ouço as primeiras notícias da manhã. Agora o meu pequeno-almoço é composto por uma banana e um pêssego, depois iogurte ou kefir com cereais, muesli. Por vezes junto frutos secos. Segue-se um café.

Ao almoço, sempre que posso como peixe e legumes. Quando vou, depois de almoço, para o meu gabinete, se não me esquecer de manter o reaprovionamento (coisa que desgraçadamente acontece com frequência) como dois quadrados de chocolate preto. Gosto muito de chocolate preto, forte, quase puro.

Muitas vezes, também se estou no gabinete habitual, a meio da tarde como duas bolachas recheadas de fruta ou, então, uma maçã.

Acho que não como muito mas a verdade é que não sou magra. Aliás, nunca fui. Acho que não se pode dizer que seja gorda mas gostaria de, no mínimo, ter uns três ou quatro quilos a menos. 

Ao longo do dia, quando estou a trabalhar, não tenho sono e a maior parte das pessoas até se surpreende com a minha energia. Não me vêem aqui, como estou agora, só a bocejar... já mais a sonhar com voos, brancas cavalgadas e noites de luar do que com energia para o que quer que seja.

Os cavalos foram fotografados por  Carina Maiwald

E vem grande parte desta conversa a propósito de um vídeo que o meu amigo google seleccionou para mim. Conhece-me melhor, este algoritmo, do que grande parte dos meus melhores amigos.

Seleccionou a música lá de cima, a Halie Loren a interpretar In a Sentimental Mood, seleccionou o vídeo da Nature que vou colocar mesmo no fim, Come fly with me, e este já aqui abaixo. Juro que fico perplexa com a simpatia deste meu compagnon de route. Adivinhou que eu estava in a sentimental mood, adivinhou que me apetecia que me levassem a voar e adivinhou que eu adoraria saber um pouco mais sobre o meu cérebro.

Partilho convosco porque acho que este vídeo é serviço público. Sugiro que o vejam também porque é bastante interessante e útil.

How the food you eat affects your brain


When it comes to what you bite, chew and swallow, your choices have a direct and long-lasting effect on the most powerful organ in your body: your brain. So which foods cause you to feel so tired after lunch? Or so restless at night? Mia Nacamulli takes you into the brain to find out. 


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Há bocado, na minha tentativa frustrada de deambulação, perdida de sono, passei os olhos pelo título: O mal: um desafio aos limites da razão. Espreitei. Não li. Fujo do mal como se, fugindo, ele não me apanhasse.


Mas, de uma maneira ou de outra, sempre acaba por tocar-me. Ouço agora a tragédia do aeroporto de Istambul. iam em turismo ou em trabalho, não interessa, e viram-se a meio do inferno. Mais de trinta mortos, muitos feridos. Uma coisa diabólica esta. Chacinas levadas a cabo por gente doida.


Mas não quero falar nisto. Dizer o quê? Que o mal anda à solta? Sempre andou. Parece que o género humano, de vez em quando, em certas zonas do globo, passa pela compulsão da destruição.

Prefiro não olhar, quase ignorar -- como acima disse, quase como se, evitando olhar ou pensar nisso, ajudasse a que o mal se mantenha, para sempre, bem longe de mim e dos meus: não me contagie, não me salpique.

Alguns dos meus Leitores, talvez os mais cínicos, são capazes de achar que tanta ingenuidade minha é sinal de estupidez. Eu penso que nem será (apenas) isso: será talvez um instinto de sobrevivência ainda muito animal, ainda não maculado pelo meu lado racional. Quero tentar viver feliz, longe de angústias e de medos - só isso.

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Prefiro, antes, partilhar convosco o vídeo dos pássaros que voam alto, livres, sem conhecerem os tormentos em que se afogam alguns estúpidos humanos

Come fly with me


In this Nature Video, we see how researchers at the UK's Royal Veterinary College put data loggers on ibises to record their position, speed and wing flaps when they migrated. The ibises position themselves within the V so that they benefit from the flow of air created by the bird in front. They carefully time their wing flaps with their flock mates', to get an extra lift when flying high.


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E, por agora, mais nada. Estava com vontade de partilhar convosco a voz que há pouco me trouxe a poesia de que eu estava precisada mas, agora quando a fui procurar, apareceu-me o próprio poeta, não a dizer um poema mas numa das suas cínicas tiradas: ironia, provocação, talvez apenas o prazer de usar palavras.

Bukowski define o amor



Não concordo. O amor não desaparece assim tão facilmente. Disparate.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.

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terça-feira, junho 28, 2016

Ela foi a primeira a usá-lo entre as pernas.
Escândalo! - exclamaram muitos.
Devem as mulheres ser completamente abolidas? - perguntou Clementine Churchill.
Respostas absolutas não sei, falo só por mim (e mesmo assim, oh oh)





Hoje ouvi que Guilhermina Suggia, nascida em 27 de Junho de 1885 e de quem já aqui várias vezes falei, causou escândalo ao tocar com o violoncelo entre as pernas. As mulheres tocavam-no colocando-o de lado. Não ela.

Aquela a quem também hoje ouvi que chamaram Paganina, mulher emancipada, de vontade vibrante e de paixões exuberantes, impôs o seu mérito e o seu querer numa época em que as mulheres eram pouco mais do que um sub-produto da espécie humana.

A sua vida e a sua arte são excepcionais, tanto mais que, num Portugal provinciano e acabrunhado, uma atitude livre como a dela, a expunham a todo o tipo de crítica social.

Mas Guilhermina não se sentia intimidade por ser uma mulher num mundo de homens.
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Não faz grande sentido, depois de falar de Suggia, puxar-me, eu, a mim para o palco. Mas não tenho, assim de repente, aqui à mão, um exemplar feminino que conheça tão bem como me conheço a mim. Não é exibicionismo, é mesmo falta de matéria prima.

Então, com vossa licença:


Desde há mais de mil anos que chefio pessoas. Na maioria, tenho chefiado homens até porque sempre trabalhei em empresas ou em departamentos em que há uma notória preponderância masculina.

Tinha 30 anos e já chefiava uma equipa heterogénea de gente de todas as idades e hábitos. Chefiar mulheres era, então, uma excepção e um prazer. Chefiar é para mim natural. Agora não se diz chefiar, diz-se liderar. Gosto de liderar mas o meu estilo de liderança, segundo reza a teoria e conferem os técnicos da coisa não é uma liderança directiva mas sim inspiradora. Não tenho paciência para explicar o que têm que fazer nem para andar a controlar se já fizeram. Espero, sim, que apareçam com as coisas feitas e que me surpreendam. O meu maior desejo em relação às equipas que lidero é que sejam mais criativas que eu, que inovem, que ousem, que me ensinem. Depois fico toda contente, faço com que o trabalho deles seja conhecido e, sobretudo, reconhecido.

Se não podem ir trabalhar, não vão, se lhes dá jeito ficarem algum dia em casa, que fiquem. Ao princípio, os meus colegas olhavam-me de lado, quase me censuravam como se eu fomentasse as baldas. Nada. Faço defesa intransigente do direito de cada um a gerir o seu tempo e a sua vida -- e arreliam-me as pessoas que acham que devem sacrificar a vida pessoal -- e apenas quero que cumpram ou superem o que era suposto.

Tanto trabalho bem com homens como com mulheres. Mas há diferenças. Os homens são muito de não assumirem dificuldades, de não pedirem ajuda, são muito daquilo a que se chama 'orgulho besta', coisa que não aproveita a ninguém nem a eles. As mulheres assumem mais facilmente as suas fragilidades, esforçam-se mais genuinamente para trabalharem em equipa. Mas, se motivados, todos são bons e eu não faço diferenças. 

De vez em quando sou objecto de comportamentos cavalheirescos por parte dos meus subordinados homens. Armam-se em meus protectores e isso não só me surpreende como me enternece. Contudo sabem todos que, haja o que houver, têm em mim a sua defensora absoluta e que, em qualquer guerra (que, nas empresas, volta e meia há) podem contar com a minha presença na linha da frente.

Na sociedade, em geral, ainda há, contudo, um peso demasiado débil da representação feminina: não apenas nos órgãos de gestão das empresas mas também nos governos ou nas demais instituições as mulheres estão em minoria.

Há muitos homens que ainda não vêem com bons olhos serem liderados por mulheres: geralmente são os mais palermas ou caguinchas que assim pensam.

Mas há também muito, da parte das mulheres, um certo complexo de inferioridade, acham que têm que provar o seu valor. Ora não têm que provar nada, têm apenas que ser como são e, nas respectivas áreas, serem competentes, sérias, genuínas. E, sobretudo, não têm que morder os calcanhares umas das outras. Há nas mulheres, em muitas mulheres, uma raivinha (encapotada ou não) contra as mulheres que não são, nem se armam em coitadinhas. Outras vezes, algumas mulheres, ao quererem mostrar que são donas da sua vida, tal o descontrolo e a ânsia de o fazerem, perdem a subtileza, roçam a vulgaridade, parecem que querem mostrar que são mais carroceiras do que o mais carroceiro dos machos-alfas.

Qualquer destas atitudes é contraproducente. As mulheres, tal como os homens, se querem ser respeitadas, têm que saber dar-se ao respeito.

Mas, enfim, é um caminho - acho eu e escuso de dizer que o caminho se faz caminhando.
Energúmenos, machistas, parvalhões (de ambos os sexos) e, até, verdadeiramente misóginos sempre os houve e sempre os haverá. É preciso é que sejam cada vez em menor número e cada vez mais alvo de rejeição social. 
Um caminho, pois. Um caminho que, apesar de vir sendo percorrido há tantos anos, parece que ainda agora começa a ser trilhado, tão incipientes são, em algumas áreas, os resultados alcançados.

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"Ought women not to be abolished all together?


[Louise Brealey lê Clementine Churchill que escreve ao editor do The Times (28 Março 1912)]


On March 28th of 1912, an eminent bacteriologist named Almroth Wright wrote a lengthy, pompous letter to The Times in which he argued that women should not be allowed to vote, and in fact should be kept away from politics altogether, due to their supposed psychological and physiological deficiencies. Unsurprisingly his opinion generated many responses, the best of which was the following witty letter from "One of the Doomed," printed in the paper two days later. Unbeknownst to all, its sender, "C.S.C.," was 26-year-old Clementine Churchill


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Lá em cima Suggia, com Reginald Paul no piano, interpretam Fauré: Sicilienne Op. 78 for Cello & Piano

As fotografias da parte do texto em que falo de mim são da autoria de Helmut Newton.

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E queiram, por favor, descer até ao post seguinte no qual faço uma decisiva confissão.

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Confissão



Por todo o lado cartazes, notícias, fotografias, entrevistas. E eu nada. Não sei quem são, o que representam - e, pior, não sinto qualquer curiosidade.

Não vi o filme, não li o livro. Para mim é tudo chinês. Tinto. Coisa de um mundo que nunca tive vontade de frequentar.

Guerra dos Tronos. 


E há mais coisas assim, não é só com este. Por exemplo as Sombras de Grey ou muitos outros êxitos de bilheteira ou best sellers livreiros: toda a gente sabe, toda a gente trata por tu os personagens, toda a gente tem uma passagem especial. Eu, zero. Bola. Ao lado. Nas tintas.

Agora, chegada a casa, refrescada depois da minha caminhada, e aqui refastelada enquanto a Inglaterra não é também corrida do Euro (queriam festa? ok. Então toma, vai buscar) para poder ir jantar, pus-me a dar a minha voltinha internética. Por onde passo, ou é anúncio, ou entrevista ou artigo com fotografias. Guerra dos Tronos, Guerra dos Tronos. Passo em frente. E nem me ocorre que, na volta, estou a perder uma experiência inesquecível. Não me ocorre. O meu mundo não se intersecta com aquele mundo de gente estranha. No entanto, admito que, se calhar eu é que sou estranha. Se assim for, paciência.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.

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segunda-feira, junho 27, 2016

Futebóis, Ronaldo in The Last Game, Eleições em Espanha, Passacailles, Fotografias de Rua, Metáforas.



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Depois de ter partilhado convosco o vídeo que a grafómana Gina G. fez para mim, pus-me por aqui a circular pela net.

O meu dia foi tranquilo, praia de manhã, depois arrumações em casa, cozinhar, tratar da roupa, passeio a pé ao fim da tarde. Não vi televisão, não li jornais. 

Só há pouco soube que o ensarilhanço em Espanha se mantém -- e isso dá-me vontade de rir.

Quando a nossa comunicação social se faz eco das bocas que os ex-pafs vão passando e que tentam fazer-nos crer que em Bruxelas aqueles artolas andam preocupados com as medidas do governo português, só mesmo gente descerebrada é que pode cair nessa: com uma Espanha com um governo em gestão há meses, com um Reino Unido tem-te não caias há meses, com uns países a serem corroídos por dentro pelos vermes do xenofobismo e do populismo, só mesmo totós é que iam acreditar que alguém de bom senso se preocupa com as contas orçamentais portuguesas que, no meio de todas as dificuldades (em especial do sistema bancário), até se vão aguentando bastante benzinho. Talvez se preocupem, isso sim, com a forma tranquila como a governação está a decorrer 'apesar' das rédeas estarem na mão dos socialistas que contam com o apoio de comunistas e bloquistas, heresia que tende a chocar as cabeças acéfalas e burocráticas.

Mas não estou agora virada para me pôr a falar disto.


Hoje recebi um mail em que o Leitor referia o facto de eu também não me ter pronunciado sobre a passagem de Portugal aos quartos de final. Pois foi, não comentei. A noite ontem foi agitada cá por casa.

De facto, este sábado tive um dia cheio, cheio. De tarde, a família reunida. Os caranguejos começaram a atacar e agora vai ser de seguida. Depois, parte da família veio cá para casa: jantar, futebol.

Por isso, vi o jogo, sim senhor, mas, quem tem crianças pequenas em casa sabe bem como é difícil estar concentrada em qualquer coisa. O meu marido acho que ontem, por acaso, até conseguiu. Deita-se no sofá dele e foca-se, não janta ao mesmo tempo que nós para não perder tempo, e, quando nós regressamos à sala vai ele até à copa, onde vê o futebol enquanto janta. Regressou à sala, salvo erro, para o prolongamento. Nessa altura tinha-me eu alapado no sofá dele, de onde se tem uma melhor visão para a televisão -- mas fui logo corrida. Obedeci porque já sei que em dias assim, em que quer ver o futebol sossegado, fica arreliado se há muita perturbação ambiente e, portanto, dadas as circunstâncias, não quis acrescentar factores de distracção que o deixam amofinado.

Fui para outro sofá. Mas por pouco tempo.

Pelo meio, os demais também viam o jogo, mas depois os mais pequenos queriam o jogo que estava em cima do móvel que eu já nem fazia ideia o que era, depois queriam que eu ligasse o computador para verem um vídeo que metia o Ronaldo transformado num boneco atoleimado (e que agora descobri para vos mostrar), depois outro queria escrever e, pelo meio, eu ia tentando perceber a quantas paravam as modas com o esférico entre as quadro linhas.

Do que vi, pareceu-me um jogo morno, desengonçado, uns moços desfocados, uma falta de graça. Finalmente, com o golo do Quaresma lá vibrámos e houve saltos e palmas - e pronto, lá se passou à próxima. Mas falta garra. Já no outro dia o disse: falta testosterona à equipa portuguesa. Não têm instinto guerreiro, aquilo não desenvolve. Uma seca.

Claro que ainda bem que passaram à fase seguinte mas, com este nível de jogo, ninguém dirá que têm mística que chegue para se igualarem aos artistas do Fado ou ao poder de atracção de Fátima. Os três F's passarão a ser FF e um f muito pequenino. 

Para quem goste, aqui vos deixo, então, o vídeo que os pimentinhas estiveram a ver todos entusiasmados e que, na volta, consegue ser mais animado do que foi o fastidioso Portugal-Croácia.


Nike Football: The Last Game



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De notar que quando falo no défice de testosterona da selecção portuguesa, não me baseio em nenhuma constatação médica nem estou a insinuar nada. É, digamos assim, uma metáfora. E eu gosto de metáforas. Tal como gosto de ironia. Tal como gosto de subtilezas - mesmo que possa não parecer. Muito do que digo é assim um modo de dizer mais do que uma coisa verdadeiramente dita. Posso é não ter a arte para dissimular o entretexto ou as costuras do texto.

Já agora, para os que também gosta do assunto:

A arte da metáfora -- por Jane Hirshfield com animações de Ben Pearce




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As fotografias que usei ao longo do texto são da autoria do fotógrafo Bill Cunningham que trabalhou para a The New York Times e que se foi este sábado, com 87 anos. Pode ver-se em acção nestas duas últimas, ao praticar um dos seus prazeres, a Street Photography.


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A Passacaille de Jean-Baptiste Lully (em  Armide) pode parecer aqui deslocada. Se calhar está. Mas a mim apeteceu-me ouvi-la enquanto escrevia. Era como se estivesse a ver reflexos de luz, cintilações, revendo memórias, intangíveis pontos de luz. Espelho no espelho.

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E queiram, por favor, aceitar o meu convite e ver, já aqui abaixo, o vídeo que recebi de presente.


A grafómana Gina G. fez um vídeo para mim e eu, agradecida, aqui o partilho com os meus Leitores



Fico sempre admirada com a imensidão que é a blogosfera e com a facilidade que muitas pessoas têm em andar, por lá, à descoberta. Eu, por mim, acho que nunca descobri nenhum blog. Ou os descubro porque os vejo nas estatísticas do Um Jeito Manso por aqui terem andado, ou através dos comentários que aqui deixam ou, por acaso, reparo em referência a eles noutros blogs que já visito e que, em geral, se limitam aos que, por facilidade, referenciei na 'galeria' lateral.

Numa dessas vezes vi referência ao Dias de uma Grafómona (a que, mais tarde, aqui ao lado, dei o nome de A raça de uma Mulher) e fui lá espreitar. Achei muita graça pois há ali uma genuína necessidade de comunicar. Um dia vi um dos vídeos e fiquei fã. Não há ali dissertações temáticas dobre os grandes temas da actualidade. Pelo contrário, o que ali se vê encaixa, sobretudo, naquilo a que vulgarmente se designa por small talk, E eu gosto disso. Não há disfarces ou armações, há o que vem à cabeça. Eu também, quando posso, gosto de conversar assim, sobre pequenas coisas, conversa solta, bem disposta, sobre tudo e sobre nada. Não se pretende convencer ninguém de nada, apenas deambular pelos pequenos apartes do que vai pairando ao longo do dia.

Um dia destes vi uns vídeos sobre o que o filho deixou lá em casa. Sorri.
Aconteceu-me isto quando os meus filhos saíram de casa, também deixando coisas para trás. A minha filha deixou roupa que já não lhe servia ou que já não era a seu gosto. Como sou mais baixa que ela, aproveitei imensa coisa. Ainda agora, para aí uns doze anos depois de ter saído de casa, uso, cá por casa, alguma dessa roupa. E bonecas. Ainda lá estão no quarto e, volta e meia, a sobrinha brinca com elas. Tudo o que ela deixou eu reconheço. Pior foi o meu filho. Também deixou roupa e ténis mas deixou outras coisas misteriosas. Volta e meia lembra-se de alguma e pede para vermos se encontramos. Muitas vezes não sei sequer com o que se parece. O quarto dele ainda tem vários desses objectos. 
Outras vezes a Gina G. fala dos seus cozinhados ou dos seus passeios ou faz fotografias e eu gosto de tudo isso, Há uma alegria despretensiosa e uma energia criativa em tudo o que faz.


Acho graça à sua espontaneidade ao pôr-se ali, ao balcão do seu estaminé, a falar para a câmara, ou na sua casa. Nestas coisas haverá sempre os eruditos que permanentemente ocupam os seus neurónios com os grandes dilemas da humanidade e que, portanto, talvez mostrem alguma superioridade face a quem faz coisas simples. Mas, a sério, gostava de os ver em frente a uma câmara a falar - a ver se lhes saía tão espontâneo e bem disposto como sai à Gina G.

Diz ela que quem vem aos blogues não vem para ver vídeos mas para ler. Talvez. Mas eu sou fã de vídeos em geral: aprendo, divirto-me, distraio-me, fico com vontade de ir descobrir mais. E gosto de ver os vídeos dela.

Por isso, agradecendo de novo à Gina o vídeo que fez para mim e que, como já lhe disse por mail, já foi objecto de visionamento por parte da família que o viu com surpresa e sorrisos, aqui o coloco para o partilhar com os meus Leitores.

Acho que o mundo é mil vezes melhor se for pontuado por pequenos gestos de gratidão e reconhecimento e acho que o desprendimento e a alegria tornam os dias leves e bons de serem vividos. Talvez por sentir que a Gina G. também assim pensa, eu sinta empatia em relação à sua escrita, fotografias ou vídeos.

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Gracias, Gina!

[Tomei a liberdade de usar duas fotografias suas, surripiadas ao seu blog, para ilustrar o texto. Espero que não se importe.]

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E, a quem quiser colher alguma da espuma do brexit ou uma curiosa explicação das motivações inglesas a cargo dos Monty Phyton, é só descer.

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domingo, junho 26, 2016

O brexit, as capas da imprensa internacional e as razões da saída explicadas pelos Monty Phyton


Na senda do post anterior -- em que partilhei convosco a prova do estado de atordoamento em que, na hora da ressaca, os ingleses parecem ter mergulhado sem perceberem bem que raio de cena afinal era aquela do referendo, e o que, de facto, é isso da União Europeia -- mostro algumas das capas da imprensa internacional sobre o dito brexit.

Permitam, contudo, que, para contextualizar a situação, introduza aqui o hino. Deus proteja a Rainha.

(E mais espantoso do que ela, a simpática Isabelinha com os seus coloridos 90 anos, ainda se aguentar tão direitinha e atiladinha, é o marido, o divertido Príncipe Philip, 95 anos preenchidos de suculentas gaffes, ainda se aguentar tão bem com aquele barretão peludo à cabeça).






















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Mas, afinal, quais as verdadeiras razões para que o Não à União Europeia tivesse ganho?

Eles próprios não sabem - mas o vídeo abaixo ajuda a perceber.


What has the EU ever done for us? - Monty Python



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E sigam até ao post seguinte para verem a ganda pancada daquelas cabeças.


Ainda se fosse uma coisa pensada... agora votarem para sair e, depois dos resultados, desatarem a googlar para descobrir o que é a UE ou para perceber o que tinham acabado de fazer... já parece mesmo coisa de copofónicos em estado avançado.


De Leitor a quem agradeço recebi um conjunto de links que me mostram que parte dos ingleses que votaram a saída da União Europeia, andam à nora: não sabem bem o que fizeram.

Durante a campanha, desataram a brincar aos revolucionários sem querer saber de desgraças, uma alegria, cartazes engraçados, um empolgamento. Aqueles dois bacanos, o Nigel Farage e o Boris Johnson são tão divertidos, tão descinzentos, que bom, que bom, e bora lá correr com os emigrantes, e bora lá mostrar a esses continentais que na ilha mandamos nós, e bora lá recuperar o que é nosso, and... and whatever. 

E agora que o conseguiram, acordaram ressacados a olharem uns para os outros: mas que raio é afinal essa UE? e agora, saímos mesmo? mas saíamos afinal de onde?

O google a bombar com as perguntas desses inteligentes que acham que ainda podem voltar a ser um glorioso império.

Vejo agora que já há cerca de dois milhões a quererem voltar com as sardinhas ao prato e que um segundo referendo começa a ser equacionado. Gente responsável, esta.

Um mundo virado de pernas para o ar. Ou, de facto, andam a inalar demais, ou a beber demais, ou não andam a aprender nada na escola, ou andam a passar-se coisinhas mesmo muito más nas cabeças daqueles bifes.

E estes são os links, para verem com os vossos olhos:




Até dói. 
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Bye bye

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[Apercebo-me, via estatísticas do blog, que este post está a circular via Facebook. Assim, a quem aterra directamente aqui, permito-me recomendar que veja também:

O brexit, as capas da imprensa internacional e as razões da saída explicadas pelos Monty Phyton ]

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E, a todos, desejo um belo dia de domingo.

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sábado, junho 25, 2016

London is calling -
Look at you, look at you, the game is over

[A propósito do BREXIT, claro]


Big wheel



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Estes meus dias trazem-me por sobre a actualidade do dia. Saio cedo de casa, regresso tarde e, pelo meio, não tenho um minuto meu. Bem, estou a exagerar: ontem, por acaso, tive uns cinco ou dez minutos que me souberam que nem ginjas.

Mas hoje nem um minuto.

Sessões contínuas, sem me poder distrair - porque sou eu que estou a conduzir as reuniões e as conversas - e almoço em contexto profissional.

Ouço os mails a chegarem e, de vez em quando, espreito e vejo que, desde a última vez, já tenho mais de vinte por ler e, portanto, descoroçoada, logo viro o telemóvel de costas. Olhos que não vêem, coração que não sente. Agora que cheguei a casa já os estive a ver e a responder a uns quantos.
São fases da vida. E, dentro de algum tempo, tudo terá entrado na normalidade.
De manhã, ao ir no carro, ouvi aquilo do Brexit e, meio parva, fui tentando alcançar o que tinha acontecido. Custava-me a acreditar. Contudo, até que cheguei a casa e que o meu marido me esteve a contar tudo e, agora, em que as televisões aí estão, ao rubro, naquela euforia que tão bem as caracteriza nestes momentos fúnebres, não soube ou falei de nada relacionado com o que se passava no mundo. Quase que o mundo poderia ter-se rarefeito que eu, ali, teria permanecido convencida de que tudo estava normal. Estes fenómenos, em que parece que se cria uma bolha que nos isola do mundo e em que a única coisa importante parece ser o que ali está a acontecer, são misteriosos. Para dizer a verdade, volta e meia apetece-me dizer: alto e pára o baile que quero ver as notícias, quero saber se há algo de novo na ciência, se há alguma exposição para ser inaugurada em breve. Ou melhor: caraças para isto! agora tudo calado durante uns minutos que me apetece ouvir dizer poesia. Se algum dos presentes quiser presentear-me com um gesto de delicadeza, faça favor, sou toda ouvidos. Caso contrário, tudo de bico calado que me apetece ouvir dizer Neruda. (Neruda, por exemplo: podia ser Borges. Ou outro)

Mas não dá. Ainda não os conheço o suficiente para me poder armar em maluca.

London’s burning

Quando saí, música com força, telefonemas familiares e combinação de uma caminhada pela noitinha, ao fresco.

E agora que já é tão tarde aqui estou, sem vontade nenhuma de falar dos caramelos dos ingleses. Palavra.

Tenho trabalhado com gente de tantas nacionalidades e nunca como com um palerma de um inglês com quem tenho lidado de perto me engalinhei tanto. Já contei: com alemães, que tanta gente abomina, eu dou-me lindamente. No entanto, para dizer a verdade, dá-me ideia que têm vindo a emburrecer (antes, parece que, para além de simpáticos, eram todos pragmáticos, simples, terra a terra, excelentes colegas de trabalho. Agora são isso tudo mas em mais quadrados, mais em burrinho, parece que incapazes de um golpe de asa). Mas pode ser coincidência.

Mas aquele palerma daquele inglês... que coisa. Muito alto, talvez até interessante (para quem aprecie o género), charmoso, armado em bom, insinuante -- mas notoriamente um farsante, falso. Bem falante como poucos, um sentido de humor fantástico, mas um oportunista. Um descarado oportunista. Claro que também pode ser coincidência e o comum dos ingleses não ser nada disto.

Até esta sexta-feira, não levei isto da saída da UE a sério, parecia-me mais uma daquelas balelas em que os galãs ingleses parecem exímios. Via isto como uma manobra eleitoral do parvalhão do Cameron. Depois achei que os ingleses não seriam tão parvos, tão copofónicos, tão estupidamente auto-convencidos que à última hora não curassem a bebedeira do fim de semana e não caíssem neles.


Packing light

Dito isto, que não se pense que não ache que a cambada de deslustrados, amorfos pedantes, burocratas de meia tigela, que inundam aqueles atapetados corredores de Bruxelas em que se cozinham os povos europeus em banho-maria -- esses deputados e funcionários que ganham fortunas para, armados em bons, passarem por cima das ansiedades e anseios dos povos -- não estavam mesmo a pedir um valente pontapé nos testículos.

Acho. Há muito que acho que o estão mesmo a pedir.

The gherkin

Mas a responsabilidade não é dessa burocrática gentinha da união europeia. Não: a responsabilidade é nossa. Votamos em listas de gente que nunca ninguém viu ou achamos muito bem que se despachem para Bruxelas os nabos que não queremos em Portugal. Aceitamos tudo. 

Outras vezes não queremos saber das eleições europeias, não votamos.

E quando descobrimos que a nossa vida está feita num oito porque aquela pandilha põe e dispõe de nós como se alguém os tivesse ungido com os divinos óleos do poder já é tarde demais: já eles criaram regras que nos ataram, algemaram, amordaçaram.

Por isso o descontentamento é óbvio, legítimo, expectável. Dos ingleses e dos franceses e dos portugueses e dos gregos, e, a bem dizer, de toda a gente.

Mas se uma família está descontente com a empresa que gere o condomínio do prédio pega na bagagem e larga o prédio? Acho que não. Acho que deve é discutir o descontentamento em assembleia de condóminos e, eventualmente, propor a mudança da empresa. Não faz sentido mudar-se do prédio, nem faz sentido esquecer as razões que os levaram a decidir lá viver.
Até porque, com essa decisão limite, a família pode dividir-se: uns podem preferir divorciar-se e permanecer naquela casa.
Enfim. Votaram, está votado.

Agora é olhar de frente o day after.

Não me parece caso para perder a cabeça e desatar a panicar com a reacção dos mercados mas também não me parece que possamos ignorar que uma bomba foi detonada no seio da Europa. Com a imaturidade do Cameron ao fazer uma campanha com base na promessa de levar por diante um referendo a propósito de uma situação tão complexa de referendar, pode ter-se aberto a caixa de pandora. Falta uma liderança capaz nesta Europa. Talvez António Costa ou o Matteo Renzi tivessem o carisma e a determinação para agarrar nas rédeas desta desgovernada União - mas o poder está tão disseminado e tudo funciona de forma tão difusa e incaracterística que, na verdade, admito que a perplexidade vá ser aproveitada pelas marines le pens desta vida, perigosamente contagiando as cabecinhas que acham que sair de uma união europeia é coisa para se fazer lampeiramente, cantando e rindo.

Urban warfare
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E não me apetece agora dizer mais do que isto. Não tenho sapiência para rapar de acontecimentos históricos e fazer paralelismos para, de seguida, puxar lustro à sapiência e dizer que, se soubessem mais de história, não haveria por aí tanto comentadeiro a metro a opinar sobre o sucedido. Mas não é só não ter sapiência: é que, na verdade, acho que é frouxo querer explicar tudo, tudo, tudo o que se passa na actualidade com base no que já se passou no passado. Primeiro, se dá o conforto de encontrar um padrão (o que é útil a quem precisa de compartimentar os acontecimentos segundo padrões conhecidos), a verdade é que, daí, não dá para prever o futuro, o que torna o exercício a modos que fútil. Segundo: sendo o contexto e as circunstâncias tão díspares, dificilmente a evocação histórica tem qualquer utilidade prática. É como se, caso me caísse agora um dente, me aparecesse pela frente um desses convencidos a dizer, com ar superior: qual o espanto? então não se lembra que aos cinco anos também lhe caíram vários?

Pois. Grande notícia. E daí? Concluo o quê? Que me vai voltar a nascer um dente no lugar do que caíu?

Ora abóbora.

Portanto, não digo mais nada. Quem se deita com crianças acorda mijado -- sempre ouvi dizer. E é no que dá pôr à frente dos destinos dos países e das instituições gentinha desqualificada, gente imatura, impreparada.


Pode ser que agora, face às ondas de choque, o sobressalto seja grande e as pessoas percebam com quem se estão a meter (populistas, xenófobos, atrasados mentais, bebedolas) e, de alguma forma, ainda revertam ou atrasem a decisão de modo a que um novo referendo volte a confirmá-los na União europeia.

Tirando isso, nada.

E, meus Caros, só não acabo isto com um palavrão porque sou uma menina fina. Contudo, digo de outra maneira: até que atinem, eu quero é que os ingleses se reproduzam. E não é porque queira que ainda haja mais da raça deles, é só para estarem entretidos uns com os outros e não chatearem.

Atenção ao dedinho da menina: isso mesmo.
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Mas que não seja por isso. Se eu, no que para aqui estive a escrever, não dei uma para a caixa, tenho aqui o link para um texto a preceito. Nem todas as evocações históricas são pura basófia, há interpretações ou análises que fazem sentido, que vão mais fundo, ao que pode muito bem ser a raiz da questão. Enviado por um Leitor que bebe do fino, que sabe do que fala e com quem sempre aprendo, um texto que agradeço e que os Leitores certamente também apreciarão:


Brexit as Nostalgia for Empire 


The Zong Massacre of 1781
The run up to the EU referendum has shown Britain for what it is. Woodwork: the washed-up bracken of the British Empire, and the ugly flotsam of its legacy of racism.

(...)

If what we want is to live in a more equitable society, it is dangerous to begin by voting for an outcome which has been driven by racism. A nostalgia for empire is no starting point for emancipatory struggle based on solidarity with the oppressed.


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As duas últimas fotografias, a preto e branco, foram feitas em Londres por Britt van der Meijden. As primeiras, condimentadas com uma pitada de humor, respeitam também a Londres e são da autoria de
James Popsys. A última imagem, a gravura, consta do artigo acima referido.

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E é chegada a hora da poesia. Se alguém aí tiver uma poesia para me dizer, só a mim, agradeço. Enquanto a não ouço, vou ouvir esta


"When we Two Parted" de Lord Byron (lido por Tom O'Bedlam)


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

Sejam felizes, está bem?

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