Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, janeiro 31, 2016

Uma mulher que ama mulheres, uma faiseuse d’images


No post abaixo falei de uma rapariga diferente. Claro que, quando se diz que alguém é diferente, se deve dizer em relação a que é que ela é diferente. Pois bem, direi que a sua vida é diferente da da maioria das raparigas que conhecemos, que o seu mundo é diferente do mundo que conhecemos. E, no entanto, tão intrinsecamente igual a todos nós, ela. E o mundo em que vive tão perto de nós. 
Que me tenham ocorrido as palavras de um físico que fala como um poeta talvez não seja mera coincidência.
Há coisas que me comovem mesmo. Mais do que um murro no estômago é como se uma mão puxasse por mim. Mas isso é a seguir. 

Aqui, agora, vou falar da fotógrafa de que ontem queria falar. Já outras vezes aqui a tive, de visita a Um Jeito Manso mas é sempre muito bem vinda. Bettina Caroline Germaine Rheims é francesa, nascida de uma família ligada à arte, é casada e fez há cerca de um mês 63 anos.

A sua vida tem sido dedicada à fotografia mas, maioritariamente, à fotografia de mulheres. E, quando não fotografa mulheres, fotografa a ambição de o ser ou o paradoxo dos géneros que se confundem.

Charlotte Rampling, por Bettina Rheims

Mas, para nos acompanhar vamos ao som de uma inesperada aventura: 
a fusão entre a Lacrimosa de Mozart e o Hello de Adele. 


Há gostos que são paixões e paixões que se tornam vícios. A escrita é um deles. A fotografia é outro. Não sendo eu senão uma amadora acidental de qualquer destas artes, não poderei sequer trazer-me para dentro de um texto em que se fala de uma mulher que vive de e para a fotografia, que conhece os meandros do mundo da fotografia, que reinventa a condição feminina a cada fotografia que faz. Mas não estou a trazer-me para me comparar: apenas quero dizer que reconheço nas suas obras o prazer enorme de fotografar. Mais: o prazer da procura do momento perfeito em que tudo parece convergir.

Kristin Scott Thomas playing with a blond wig,
Bettina Rheims

Fotografar alguém não é fácil. O resultado é da responsabilidade de quem fotografa e de quem se deixa fotografar. 

Eu que faço fotografias em quantidades escandalosas e que me deixo encantar por tudo e por nada e que adoro fotografar pessoas, apenas me sinto motivada a fotografá-las quando não sabem que as estou a fotografar ou, então, em ambiente normal, sem poses, sem preparação. Não me dá para pedir às pessoas para rirem, para dizerem cheeeeese, para se virarem para aqui ou para ali. Se alguém está com sol na cara e eu gosto, então é assim mesmo, com o rosto banhado pela luz, que farei a fotografia. Se alguém está com sombras no corpo e eu penso que a sombra parece tatuar-se na sua pele, então é isso que eu a quero captar pelo que jamais me ocorreria dizer, saia daí porque está com sombras. 

É a naturalidade que me atrai nos objectos fotografáveis. Por isso, anulo-me, coso-me contra as paredes, espio de longe -- de modo a que a minha presença em nada perturbe a espontaneidade do que fotografo, sejam pessoas, gatos ou paisagens.

Breakfast with Monica Bellucci, Bettina Rheims

Por isso, admiro as pessoas que conseguem fazer fotografias encenadas e em que a fotografia capta a beleza do momento sem que se sinta que há algo forçado ou artificial. Mais: admiro quem consiga imaginar uma pose ou uma situação em que o que resulta é uma história ou a imagem de uma persona que representa uma cena.

Monica Bellucci, uma mulher sensual, cujo rosto e corpo remetem para o prazer dos sentidos aparece, na fotografia de Bettina, como a pecadora apanhada em falta, toda ela gula, sensorialidade, vontade de mais. 

Kristin Scott Thomas, a versátil artista, que tanto nos aparece frágil ou corajosa, santa ou pecadora, aparece, sob a lente de Bettina, desfazendo-se de uma cabeleira loura, mostrando que, de disfarces, se faz a sua carreira e a sua imagem.

Madonna por Bettina Rheims

Madonna, a provocadora, a que não teme rótulos, anátemas, censuras, aparece na fotografia de Bettina como a irreverente, a pronta a tudo, aquela para quem não há limites nem no vestuário, nem nos comportamentos, nem em nada. Cansada depois de uma noite de excessos, descansando depois de um concerto, não o sabemos, mas até da incompreensão das suas quase excessivas encenações se tem feito a vida de Madonna.

Charlotte Rampling, quando era mais nova, era bem a imagem da sedução sofisticada, do convite à partilha de momentos vividos numa intimidade cheia de mistérios, com algum toque de rebeldia, de elegante desafio. Assim a soube captar Bettina Rheims. 

Catherine Deneuve por Bettina Rheims
Catherine Deneuve, bela, discreta, dela se dizia que era fria, apática. Ou que facilmente se poderia tornar uma mulher submissa. E, no entanto, como Belle de Jour apareceu-nos como uma mulher capaz de procurar os prazeres proibidos durante as tardes de tédio. Bettina trouxe-a misteriosa, bela, sofisticada -- mas sobre uma cama, seios acessíveis.

Todas elas sabiam que Bettina as olhava através da câmara e, apesar disso, não se inibiram. Mostraram-se tal como ela as imaginou e, no entanto, aparecem inteiras, entregando o seu rosto ou o seu corpo à imaginação da fotógrafa e de quem viesse a contemplar a fotografia. Há coragem em quem se deixa assim fotografar tal como há em quem pede a alguém que se vista de uma determinada maneira, que se coloque numa determinada posição ou que olhe para a câmara de uma determinada maneira. Os retratos de Bettina têm isso: a cumplicidade entre a fotógrafa e quem se deixa fotografar é evidente.

Mas Bettina Rheims não fotografa apenas mulheres célebres nem faz apenas fotografias para grandes marcas como a Chanel ou a Lancôme. 



Não. Ela tem feito outras séries. Começou por fotografar mulheres que faziam striptease. ou acrobacia. 


Noutra altura fotografou mulheres que, de alguma forma, aludiam a motivos religiosos, I.N.R.I. e, como seria de esperar, a polémica foi grande.


Outra série dedicou-se à androginia ou à transsexualidade, Modern Lovers e Gender Studies


Em Heroínes, quis trazer a escultura para o terreno feminino. Mas quis vestir as mulheres com modelos originais. usou modelos famosos. E o resultado foi surpreendente.


Noutra, Chambre Close, um livro feito em parceria com um novelista, Bettina dedicou-se a mulheres que se aborrecem em casa e, que, sem saber o que fazer com o tempo vazio, se entretêm com o seu próprio corpo. Pretendia parodiar a pornografia mas o resultado foi uma interessante mostra do erotismo a solo.



E outras. Ou mulheres anónimas. Muitas. Em qualquer das séries, o interesse que o género feminino é evidente: Bettina Rheims não se cansa de olhar as mulheres e de mostrar a sua diversidade, de mostrar as muitas naturezas que podem encarnar ou encenar, de espreitar os mecanismos da sedução ou da solidão. E as mulheres que ela fotografa deixam-se mostrar, deixam que ela as tente desvendar. Bettina é uma mulher que gosta de mulheres - e é uma excelente retratista, uma talentosa fazedora de imagens.

Maison Européenne de la Photographie, um local de culto da fotografia, em Paris, tem desde dia 28 de Janeiro e até 27 de Março uma exposição de Bettina Rheims.

É do texto do site que o anuncia que retiro estas belas e justas palavras

L’œil de Bettina Rheims embrasse les transgressions et abolit les conventions pour révéler l’intimité la plus profonde et la plus universelle. Dès lors, c’est un jeu de miroirs qui s’enclenche…
Bettina Rheims s’est approprié les codes de la photographie de nu pour les détourner et placer la question de la féminité au cœur de sa pratique. Elle met en danger autant qu’elle sublime la beauté de ces modèles. Mises à nu, vacillantes ou triomphantes, elles bousculent et intimident le spectateur.
Portraitiste brillante, Bettina Rheims a su imposer dans l’imaginaire collectif les visages qui peuplent son monde. Bettina Rheims est avant tout une faiseuse d’images, qui défend dans sa pratique une tradition picturale séculaire. La plupart des photographies de Bettina Rheims témoignent de cet héritage, par un travail sur la composition et la narration notamment.
.......

Por falar em mulheres, permitam que relembre que, já a seguir, tenho uma outra mulher, uma mulher muito jovem, que também gosta de ver o mundo através da lente mas, por todos os motivos,  rapariga diferente. Não deixem de a ver, por favor.

...

Um outro tipo de rapariga. Um outro tipo de mundo.




De vez em quando preciso de parar. Não sei explicar porquê. Se me ficar pela superfície, direi que o que conheço acaba por me entediar. Mas sei que não é bem isso. Sei que há uma parte de mim que parece querer viver do outro lado, lá onde me desconheço por entre paisagens e culturas desconhecidas. De vez em quando preciso de rasgar a parede do mundo em que vivo e espreitar o que há para além dele. Apercebo-me, então, de um mundo real, tão real como este meu, apercebo-me de como é finita e precária a realidade que conheço e de como é imenso o que me atrai do outro lado.

Diz Carlo Rovelli,
As imagens que construímos do universo vivem dentro de nós, no espaço dos nossos pensamentos. Entre essas imagens -- entre aquilo que conseguimos reconstruir e compreender com os nossos limitados meios -- e a realidade da qual fazemos parte, existem inúmeros filtros: a nossa ignorância, a limitação dos nossos sentidos e da nossa inteligência, as próprias condições que a nossa natureza de sujeitos, e sujeitos particulares, impõe à experiência. 
Para nós, justamente pela sua natureza efémera, a vida é preciosa. Pois, como diz Lucrécio, "a nossa fome de vida é voraz, a nossa sede de vida insaciável" (De RerumNatura, III, 1084).(...)
Porém, imersos nessa natureza que nos fez e que nos impele, não somos seres sem casa, suspensos entre dois mundos, parte apenas em parte da natureza, com a nostalgia de algo mais. Não: somos a casa.
A natureza é a nossa casa e na natureza somos a casa. Este mundo estranho, variegado e espantoso que exploramos, onde o espaço se esfarela, o tempo não existe e as coisas podem não estar em lado nenhum, não é algo que nos distancie de nós: é apenas aquilo que a nossa curiosidade natural nos mostra da nossa casa. Da trama de que nós próprios somos feitos. Somos feitos da mesma poeira das estrelas de que são feitas as coisas e, tanto quando estamos mergulhados na dor como quando rimos e a alegria resplandece, não fazemos senão ser aquilo que não podemos senão ser: uma parte do nosso mundo. (...)
Por natureza, amamos e somos honestos. E, por natureza, queremos saber mais. E continuamos a aprender. O nosso conhecimento do mundo continua a crescer. Existem fronteiras onde estamos a aprender e onde arde o nosso desejo de saber. Situam-se nas profundezas mais ínfimas do tecido do espaço, nas origens do cosmos, na natureza do tempo, na sorte dos buracos negros e no funcionamento do nosso próprio pensamento.
Aqui, na margem daquilo que sabemos, em contacto com o oceano do que não sabemos, brilham o mistério do mundo, a beleza do mundo, que nos deixam sem respiração.
......

E, abaixo, pode ver-se o mundo tal como Khaldiya Jibawi, a jovem síria de 17 anos, o vê nesta realidade em que agora vive, no Za'atari Refugee Camp na Jordânia. O pequeno filme (com menos de cinco minutos) que abaixo se vê ganhou o galardão juvenil 2015 UNAOC PLURAL+ Free Press Unlimited pela excelência de jornalismo e informação. Apesar do prémio concedido e de já ter sido divulgado no youtube há cerca de dois meses e meio, à data a que escrevo isto, ainda teve apenas 237 visualizações.


Mas, apesar da indiferença do grande mundo, o que vale é que, apesar de tudo, há sempre alguém em quem brilha a alegria de viver e em quem habita o maravilhoso dom de ver luz para além das sombras.


Another Kind of Girl


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As duas fotografias de pequenas bailarinas debaixo de água são da autoria de Alix Martinez

Lá de cima puderam ver  as·phyx·i·a, um vídeo experimental, da autoria de Maria Takeuchi & Frederico Phillips.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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sábado, janeiro 30, 2016

Olhe lá, ó Sr. Passos Coelho! Ainda não curou aquela sua doença do 'bom aluno'?! Que raio de conversa mais pindérica é essa de se gabar de nunca ter passado pelo embaraço de ter um ministro das finanças a ser corrigido pela UTAO? Mas quantas vezes, ó senhor, quantas, foram, consigo, com o Gaspar e com a Albuquerque, o orçamento e a execução orçamental criticados pela UTAO? Já não se lembra? Mas ser criticado ou alertado tem mal? Ou o que tem mal é não acertar uma? Ou o que tem mal é também andar a enganar Bruxelas ou os Portugueses? Ou o que tem mal é andar sempre de calças em baixo a tentar agradar a Bruxelas a troco do que quer que seja? Caraças para o homem, credo.


No post abaixo já deixei uma adivinha e, porque sou uma menina boazinha, deixei também a solução. E não, não é um teste à vossa inteligência ao contrário do que possam pensar: é mesmo só paródia.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. 

Estou aqui com uma em mente (e que tem a ver com uma fotógrafa de que gosto bastante) e a ver se lá consigo chegar que hoje estou numa de adormecer de minuto a minuto. Mas antes, embora a contragosto, não tenho outro remédio senão voltar ao Láparo. Será sina nossa, este emplastro que não nos deslarga?


À hora de almoço ia de carro quando ouvi um excerto do debate quinzenal com o primeiro-ministro, na Assembleia da República. 
A propósito, aquela de o António Costa tratar o Passos Coelho, por duas vezes, por senhor primeiro-ministro até parece aquela minha ao tratar o Ney Matogrosso por tal e coiso, que agora tenho vergonha de explicitar (mas que explicitei no outro dia). Há com cada lapsus linguae mais chato...

Mas, dizia eu, ouvi um bocado do debate. Quando parecia claro para todos, incluindo para o próprio, que Passos Coelho, nos quatro anos em que andou a espatifar o país, vendeu em Bruxelas um peixe diferente do que tinha para vender -- nomeadamente vendendo lá fora as medidas temporárias como definitivas -- em vez de, envergonhado, se esconder debaixo da secretária, saíu-se com aquela que escrevi no título, que ao menos nunca tinha passado pelo embaraço de ser corrigido pela UTAO. Ouve-se uma coisas destas e só nos dá vontade de rir. Parece aqueles totós que fazem tudo à socapa, uns sonsos que se fazem passar por bons meninos mas que são uns calinas da pior espécie e que ainda se gabam de, a eles, nunca ninguém os ter posto de castigo. Quem lhe aplicasse um calduço... (metaforicamente falando, claro, que eu não gosto de violência física -- nem mesmo quando o pescoço é de um láparo que parece andar sempre a pedi-las)


A Merkel e o seu discípulo Pinókio (que, por acaso, tem cara de láparo)

Há pouco, enquanto jantava, vi na televisão a cara do figurão enquanto era acusado pela oposição em peso de ter vigarizado ou Bruxelas ou os Portugueses: uma cara de enjoado, sem lábios, ar retorcido, um esgar a caminho de ser um intragável sorriso amarelo. 

Mas agora, enquanto escrevo, vi-o -- com cara de quem está a mentir com quantos dentes tem -- a dizer que as medidas eram temporárias mas que podiam ter efeitos estruturais e que ele sempre disse em Bruxelas uma coisa e a outra. E eu, ouvindo esta criatura, fico com a sensação que o sujeito das três uma: ou não tem vergonha na cara ou não percebe o léxico ou tem um qualquer défice cognitivo. Também pode acontecer que seja o cúmulo da desgraça e que acumule as três.

E é que podia estar calado a ver se a gente se esquece dele. Mas não. É a toda a hora a exibir este seu lado de troca-tintas, mas de troca-tintas destituído porque nada do que diz faz sentido. Caraças.


Esta gente do PSD e CDS que tão más provas deu da sua competência, falhando, uma a uma, todas as metas, desde as do crescimento, às da dívida, passando pelo desemprego ou do cumprimento orçamental, por aí anda a falar como se tivesse alguma autoridade para falar do que quer que seja. 

Não têm autoridade! Nenhuma! Alguém lhes diga isso, por favor.

E em vez de estarem coesos em torno do Governo que anda a lutar por melhores condições para os portugueses, esses pafianos por aí andam anti-patrioticamente a desestabilizar tudo, desde a opinião pública às famigeradas agências de rating. Se soubessem amar, um bocadinho que fosse, o seu País, juntavam forças e, perante o insucesso da receita anterior, defendiam a pés juntos, perante os germanófilos ou os burrocratos ou o escambau, as medidas de alívio que o Governo de António Costa anda a tentar aprovar e apresentar aos sacanas de Bruxelas. Mas não. Vendilhões até ao último estertor (político), não vão descansar enquanto não armarem alguma estrangeirinha. Não há paciência!

Não sei se ainda andam de bandeirinha na lapela mas, se andam, juro-vos que se algum dia me apanho ao pé do láparo lha arranco nem que seja à dentada.


Com tanto tacho que arranjou para os amigos, será que não há nem um que lhe arranje um tacho a ele, na Conchichina de preferência para nunca mais nos entrar na sala sem ter sido convidado?! Pode não saber fazer mais nada mas, ao que consta, lá dizia um anterior patrão, parece que é bom a abrir portas. Mandem-no para a China fazer de porteiro dos amigos da Fosun ou da Three Gorges ou mesmo no comité central do PC chinês. Chiça.

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As imagens provêm, como é bom de ver, da verdadeira arca do tesouro que é o We Have Kaos in the Garden

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E, meus Caros, já não é agora que vou falar da fotógrafa que tinha em mente. Estou a cair para o lado de sono. A ver se amanhã, antes de almoço, o consigo -- que amanhã vou ter o dia preenchido e a meninada cá em casa e excursões familiares aos bisas e etc. Por isso, vamos ver o que consigo fazer.

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Relembro que não devem deixar de ir ver uns amiguinhos nossos ao post que se segue.

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Hitler, Putin, Richard Branson, Adrien Brody, Madonna e Kim Kardashian - o que têm eles em comum?


É fácil. Para quem já fez testes psicotécnicos é de caras descobrir. Mas, ok, admito que muitos de vós ainda não terão sido submetidos a tal coisa que, diga-se, pode servir para eliminar psicologicamente muitos candidatos a qualquer coisa mas que dá cá uma elasticidade mental que não vos digo nada, oh oh. Mas aquela prova de aferição para tramar os professores contratados também é um bom treino. Mas, pronto, é fim de semana, já vos estou a ver cansados, sem vontade de ginasticar os neurónios. Portanto, vá lá, eu dou uma ajudinha.
Juntam a primeira letra de cada nome e obtêm uma palavra, depois juntam a última letra de cada palavra mas por ordem inversa e obtêm outra. A seguir contam o número de letras de cada palavra, somam e a seguir fazem a prova dos nove. O número que obtêm é o vosso número da sorte. E, portanto, sortudos que são, vão ser capazes de fazer uma cambalhota para trás aí no chão do sítio onde estão e, a seguir, de um salto, olhar para os resultados que obtiveram -- e, eureka!, adivinhar a solução.

Mas, para ajudar, vamos lá pôr uma musiquinha à maneira que sempre ajuda a desembaraçar a mioleira.

Do what you want

Ok Go



Mas, antes, uma outra coisa. É um treino, uma última tentativa minha, a ver se vocês chegam lá sozinhos.

Olhem para esta gravata e descubram o que lá está escrito.
(Não tem nada a ver com a questão lá de cima, isto é apenas um aquecimento mental. Vale?)


Quando tiverem descoberto a palavra, já estarão com uma agilidade mental fantástica e verão que também conseguem descobrir qual a resposta à pergunta que está no título da mensagem, está bem? 

(Se não descobrirem a palavra da gravata, não fiquem tristes 
[Eu não consegui e não senti tristeza nenhuma]
O caminho para a solução está no fim do post)
...   ...

Pronto, pronto, caso, apesar de todas as minhas simpáticas ajudas, ainda não tenham chegado lá, eu digo. Não puxem mais pela cabeça, pronto.

Claro que aquela palhaçada das letras às cambalhotas era só brincadeira. O que aqueles bacanos (Putin, Hitler, Branson, Madonna, etc) têm em comum é que todos eles têm gémeos de quem foram separados à nascença. Claro que a genética não engana e, portanto, olhar um é ver a cara do outro.


Já há algum tempo que não tinha nada para a minha etiqueta 'Gémeos separados à nascença' mas não perdemos pela demora. Eles aí estão, os manos gémeos.

Hitler

Putin

Richard Branson

Adrien Brody

Madonna

Kim Kardashian
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E, para os que não descobriram a mensagem na gravata, aqui podem ver a solução
Upsss....

...

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.
Enjoy.

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sexta-feira, janeiro 29, 2016

Do orçamento, da carta de Bruxelas, das comentadeiras excitadas, do merceeiro, do que queria ser primeiro-ministro, do queixinhas de Bruxelas, da Avoila laranja, das estátuas tapadas e dos aviões, das Barbies da coxa grossa e mais uns apanhados
-- tudo ao som de um afinado coro em versão gospel (faz de conta, claro)


Bem, agora que já despachei o expediente -- e esclareci porque não publico alguns comentários e, a propos (a propósito e, já se sabe, porque gosto de me armar em inteligente...), falei do perigo dos buracos negros -- parto para outra. De novo com vossa licença, cá vou eu. E vou numa boa, numa boazinha mesmo. Podem crer.



Estive aqui a hesitar sobre se deveria falar do orçamento e da pseudo guerrilha entre o Governo e Bruxelas ou da comichãozinha frenicoquenta que muita comentadeira anda a sentir na ponta da língua e da quase petite mort dos direitolas que se têm andado a sentir tão mal amados e que agora estão em festa -- mas falar sobre coisa-pouca só mesmo quando me sinto poucachinha e, fazer o quê?, hoje estou muito abaixo disso.


Também pensei: ah, vou falar da miúfa que essa gente tem toda de quem fala estrangeiro, anda de fato e tem ar de mandar. Ah, vou falar de como, às primeiras perguntas dos burrocratas, já estão todos a baixar as calcinhas e a pôr-se a jeito. Mas não, isso é quando me dá para o profano e eu estou estou a sentir-me especialmente santinha.

Poderia falar também duma coisa que arreliou tanta gente: o ressuscitamento daquele patriota (de plástico, para ser mais barato) que mudou a sede fiscal para a Holanda para optimizar os impostos. Mas não, isso seria se eu hoje estivesse com vontade de ser má e não, hoje, como lá acima declarei, estou muito boazinha (para ver se não irrito nenhuma leitora mais sensível).

Poderia também falar desse putativo primeiro-ministro que nunca mais ninguém empossa, o tal homónimo que dá mau nome ao original, o poeta, e que, quando quer sangue, vai desenterrar o merceeiro. Mas cascar no jornalista que gosta de se disfarçar de economista é nos dias em que estou com o diabo no corpo. Hoje não, hoje estou mais para Irmã Lúcia, peace and love, brothers.

Podia, também, falar de um catraio que, desde que encolheu, parece que ficou despassarado daquela cabeça, o cabelo que o diga que nunca mais conseguiu assentar. Há bocado estava ali num painel, todo ele fricotes e perlapié ossudinho, e eu só ouvia o meu marido a dizer que, se tivesse que debater alguma coisa com ele, teria que se conter muito para não lhe dar uma cabeçada. Liberdade verbal dele, claro, que não é homem para dar uma cabeçada num pobre coitado, tão frágil. Deixá-lo andar lá por Bruxelas, armado em menino-queixinhas.

E, obviamente, podia (e devia!) falar da nossa bela Avoila que, depois de ter estado a hibernar durante a era lapariana, saíu da letargia para regressar à luta. Estão em greve, querem as 35 horas semanais de volta - e já!, antes que escaqueirem tudo. O novo Governo está em funções há meia dúzia de dias mas, pelos vistos, segundo a bela Avoila, já deveria ter feito tudo o que tem para fazer nos quatro anos da legislatura. Podia, pois, falar sobre isso, mas isso seria se estivesse em onda orange, mais orange que a bela sindicalista que tão amiga foi do Láparo e do já saudoso Irrevogável. E não, hélas, hoje estou branca, branquinha, alva, inocentezinha, quase virginal mesmo.

E podia também falar das estátuas tapadas com medo do outro lá do Irão que veio às compras e só de uma assentada encomendou para cima de cem aviões. Toda a gente escandalizada, que servilismo! e mais não sei o quê. A ver se ele viesse cá para meter dinheiro no Sporting, se o Bruno de Carvalho não tapava o Jesus da cabeça aos pés, ai não. Mas não vou falar disso, não percebo nada de ayatollahs. Eu, é sabido, sou mais bolos.

Também podia falar das Barbies que agora já não são todas parecidas com a Margarida Rebelo Pinto, todas magrinhas, descoradinhas, chiquérrimas, boas escritoras e tal: não senhora. Agora já são como as mulheres vulgares: há-as em versão coxa grossa, pele marron, mal-jeitosa, porta-chaves, etc. Não sei onde é que isto vai parar, qualquer dia até aparecem em versão Ana Gomes, Doutora Teodora, Teresa Guilherme. Não sei, não. Mas não vou falar disso, hoje estou muito atiladinha, em versão boa menina, fofinha, fofinha.

O fim de uma era, é o que é.
(Agora como é que sei qual delas é que eu gostava de ser? Só tenho coisas que me ralem)

....

Por isso, não sabendo sobre o que falar vou, antes, mostrar um vídeo. Pode parecer que estou a brincar mas não, o assunto é sério. E a sério que é a sério. Só mesmo uma desmiolada encartada é que poderia gozar com assunto tão sério e eu, oh oh, sou uma inteligente do melhor que há. Por isso, imaginem que isto era convosco e digam-me lá se não fugiam também a sete pés. Ai não que não. Gostava de vos ver: até voavam.

.....

E, assim sendo, uma vez que aos costumes a única coisa que tenho a dizer é que nada, aconselho-vos a deslizarem por aí abaixo... mas com cuidadinho não vão ser sugados por algum buraco negro que isso é bicheza do pior que há. Isso e as comentadeiras em versão maria-amélia que gostam de vir aqui cansar a beleza da Santa UJM. 

..

Porque não publico alguns comentários -- ou o perigo dos buracos negros



E, quando digo que não publico alguns comentários, digo também que não ouço, na comunicação social ou em sociedade, a conversa de gente ácida e destrutiva bem como evito, na internet, textos de cariz censório, geralmente contra incertos. 

A bem da minha sanidade mental, preservo-me. 

E, por muito que custe a quem aqui vem acusar-me de que eu me acho inteligente, eu digo: sim, é verdade, por acaso até acho que sou razoavelmente inteligente. Mais: tanto quanto posso, tento agir inteligentemente. Não sei se sempre o consigo mas isso levo à conta de me encontrar longe da perfeição.
Portanto, se não gosto de uma coisa ou de uma pessoa, afasto-me -- acho que é a atitude mais inteligente. 
Mas há pessoas que não fazem isso perante o que não gostam, ficam por perto a moer a paciência a quem não lhes faz mal nenhum. 

Ora, atendendo a que sou como sou e não vou mudar a minha natureza para agradar a alguém que não conheço, não será mais fácil a pessoa que não gosta de aqui vir dar meia volta e ir chatear outro? Mas não. 

Há gente que não gosta do que lê aqui, acha que escrevo de mais e que ninguém consegue chegar ao fim de lençóis cheios de tretas ou porque acha que eu tenho uma insuportável auto-estima -- e que, apesar de achar que o UJM é horrível, se dá ao trabalho de aqui vir insultar-me. Será isso razoável? Não me parece.

E, porque não me parece razoável, não os publico, apago-os. Se os aqui pusesse, teria vontade de responder e arreliar-me com isso. Ora, para quê? Alguém me diz?

De qualquer forma, a propósito de um comentário desagradável que aqui tinha hoje e que creio ser da mesma pessoa que parece ter uma fixação em vir aqui chatear, vai este post que é geral, para esse leitor e para outros. Percebam uma coisa: aqui na internet é fácil quando a gente não gosta de uma coisa: basta não ver. Simples. Não custa nada. 

Poderia ficar-me por aqui que já estava de bom tamanho.

Mas, como me está mesmo a apetecer escrever mais um dos meus big lençóis cheio de tretas, vou dizer mais umas palermices. Com a vossa licença, cá vou eu.


Percebesse eu alguma coisa de física para poder entender bem o fenómeno dos buracos negros, esses lugares de vazio e ausência, onde a luz não se reflecte, onde não existe informação nem sinal da existência do tempo... Percebesse eu isso e tentaria fazer extrapolações. Talvez as aplicasse a alguns misteriosos lugares onde o vazio parece ser a única presença. Talvez as aplicasse também a algumas cabeças que nada parecem ter dentro senão a inútil cacafonia que criam, reproduzindo ecos, tantas vezes já só apenas letras repetidas, linhas inteiras com uma única letra. 

Percebesse eu alguma coisa de tão estranhos assuntos, colapsos gravitacionais, termodinâmica a temperaturas finitas e outras realidades para mim transcendentes e talvez conseguisse perceber melhor o fenómeno. Onde hoje há vazio e negrura houve, antes, matéria e luz? Já em tempos por lá circulou informação? Ah, como eu gostaria de saber. 

Soubesse eu alguma coisa sobre a teoria da relatividade e talvez conseguisse, ao menos, compreender porque é que, apesar de os buracos negros serem praticamente invisíveis, eles podem ser detectados por meio da interacção com a matéria em sua vizinhança. Talvez, a partir daí, eu conseguisse perceber porque é que os seres de cabeças vazias têm o hábito de se juntar em rebanho, balindo em uníssono,  deslocando-se panurguianamente na direcção em que um primeiro dê um passo. Mas não sei. Limito-me a observar.

Mas, apesar de não compreender, não subestimo.

É que não se menospreze o poder de tão informes massas. Um rebanho, ainda que de seres acéfalos, pode esmagar quem, indefesamente, esteja no seu caminho. Com alguma sorte, atrás de um primeiro, atirar-se-ão todos ao mar mas, se o caminho não for esse, a terra debaixo das suas patas ficará sem vestígios de vida. Uma grande maçada.

Há pois que se ter cuidado. O vazio suga, destrói quem dele se aproxime. No caso dos seres que, em vez de mente, têm como que um buraco negro, não é apenas o facto de se portarem assim, é também o facto de, geralmente, serem tóxicos. Se pouco ou nada têm na cabeça, a verdade é que, tal como os buracos negros emitem radiação térmica, eles, aparentam ter uma bílis estranhamente activa: destilam fel. A sua baba corrosiva espalha-se por onde passam e tendem a querer infectar quem não se alista no rebanho.

Todos nós assistimos às destrutivas manifestações de gente assim: deixam, nos blogs e nos jornais, comentários que mais parecem bocas negras de pútrido hálito, escrevem textos amargos, gratuitamente verrinosos, tentam contaminar com o seu obscuro vazio o vasto espaço sideral,  aparecem nas televisões ou nos jornais desfiando perfídias, venenos anónimos, maldades desnecessárias.

Poderiam, ao invés, estender-se ao sol, tentar que algum vestígio de luz consiga penetrar por alguma brecha nas suas cabeças de onde a matéria parece ter-se evadido; mas não, movimentam-se na sombra, lançam pragas, estendem ofensas ou acusações, destilam invejas à toa. 

Soubesse eu alguma coisa de física e tentaria perceber se há esperança de retorno à normalidade para estes lugares de anti-matéria e negritude.

Mas não sei. Por isso, limito-me a tentar evitá-los.

Mas não é fácil. Os buracos negros são muitos. E, à vista desarmada, invisíveis.

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Como um buraco negro pode destruir a Terra



[Credo que isto até parece a Conjectura de Poincaré aplicada ao Universo]

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Moral da história: vamos mas é a ser todos bonzinhos uns para os outros antes que venha aí um buraco negro mauzão e nos devore a todos, certo...?

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira, dia que, por preceder o fim-de-semana, tem tudo para ser um belo dia.

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quinta-feira, janeiro 28, 2016

Disse-lhe que a situação me fazia lembrar 'O velho e o mar'


No post abaixo já falei do ex-deputado que, em tempos, precisava de pimenta na língua, o José Eduardo Martins, e que, nos frente-a-frente da SIC N, se porta como a versão bijeenche do catavento. Para evitar cenas maçadoras daquelas, com as quais já não se aguenta, apresentei umas quantas sugestões. Os Departamentos de Programação das televisões deviam pôr os olhos no que eu digo, que, entretenimento por entretenimento, que seja a valer.

Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra. Recordações de novo, recordações de um tempo que me parece tão estranhamente longínquo. Recordações que irão sair com um certo toque de nostalgia, quer-me cá a mim parecer.



Era um homem que todos diziam frio e implacável. Muito rico. Despudoramente rico. Podendo usar carro de serviço usava os seus carros pessoais, carros antigos, vintage, lindos. Quem percebia do assunto, fazia estimativas para o valor dos carros: uma exorbitância que deixava alguns muito irritados (exibicionismo, diziam muitos). Tinha também um motorista particular. Os muitos detractores alegavam que era para tratar de negócios secretos, pouco abonatórios. Também lhe atribuíam negócios com ouro ou diamantes por terras de África. Um dia ele disse, Dizem muitas coisas mas poucas são verdadeiras. E contou-nos a proveniência da sua fortuna. Segundo ele, não passava pelo ouro nem por pedras. Também disse, Falam muito dos carros que uso. Uso-os porque gosto muito deles e porque, tendo eu possibilidades, acho que não devo usar carro de serviço. Também falou do motorista: era alguém a quem se tinha afeiçoado, já trabalhavam juntos há muito tempo, fazia recados para a família, tratava de tudo o que fosse preciso. Se podia pagar a alguém de quem se tinha tornado amigo, porque haveria de recorrer a motoristas de serviço?

Quando o filho se casou, a festa foi fantástica. Convidou-me. Convidou os colaboradores mais próximos. Muita gente, família, amigos, quer do lado dele quer do lado da noiva. Uma tenda gigante numa zona plana da sua belíssima quinta. Estava um belo dia de verão e um ambiente muito agradável. A mulher, o oposto dele, dançou a noite toda. Ele não, manteve-se reservado, quase silencioso. Mas via-se que estava feliz. Sorria vendo a alegria e a vivacidade da mulher.


Mas era implacável, sim. Quando desconfiava da lealdade ou da seriedade de algum colaborador, munia-se de provas, cercava-o sem que ele se desse conta. Depois, quando confrontava o prevaricador, o golpe era rápido e certeiro. Tantas e tão inequívocas as provas que quem assim era confrontado apenas tinha que aceitar as condições que lhe eram propostas para se ir embora. E tinha um feeling impressionante. De um colaborador antigo, que toda a gente tinha por exemplar, teve uma desconfiança estranha. Tão melindroso era o assunto que apenas confiou em mim para o ajudar a confirmar. Fiquei chocada, quase ofendida. Como duvidar assim de uma pessoa tão leal, tão séria? Inflexível, inalterável, pediu que eu lhe desse o benefício da dúvida e que fizesse o favor de atender ao seu pedido, só isso -- e de maneira que ninguém desconfiasse. Senti-me a pior das criaturas por estar a ir na cantiga dele. Mas pior fui ficando à medida que fui confirmando aquelas suas absurdas desconfianças. Nem queria acreditar. Antes de o informar do que quer que fosse, muni-me eu, pela calada, de todas as provas possíveis. Não havia dúvida: aquele de quem ele tinha desconfiado e em quem eu confiava sem pestanejar andava mesmo a roubar – e de uma forma absolutamente ardilosa, quase indetectável. Foi despedido de um dia para o outro. Ninguém soube das razões, foi como se o próprio tivesse tido razões para sair. Quando lhe perguntei como tinha desconfiado, disse-me que alguém lhe tinha dito que tinha encontrado num certo Casino uma pessoa que ele talvez conhecesse, o tal. Só isso. A partir daí, através de perguntas inocentes, foi percebendo que algumas pequenas pontas pareciam ligeiramente soltas. Desconfiou que tivesse o vício do jogo. Pensou que só com o ordenado, não conseguiria fazer face a dias de infortúnio. Pensou que de algum lado haveria de vir o dinheiro. Penso que, no fundo, foi o faro do predador.

Mas mesmo em situações menos redutoras, agia de forma irredutível, tranquila, segura. Uma vez, numa acesa reunião, um dizia que não concordava, que não podia aceitar o que ele queria. Ele dizia que agradecia a sinceridade da opinião mas que se faria como estava a dizer. O outro, ao fim de alguma insistência, levantou o tom de voz e disse que, com ele, aquilo não se faria. A mesa estava cheia. Ele, impassível, disse O senhor doutor está enervado, talvez seja preferível sair para ver se consegue acalmar-se. O outro, desabituado de ser tratado dessa maneira, ainda por cima em público, respondeu secamente: Não preciso de ir lá para fora. Mas ficou corado, quase parecia um puto que tivesse levado um raspanete. Ele, tranquilo, disse-lhe, Como queira, senhor doutor, esteja à vontade, se sentir que precisa respirar ar fresco ou dar uma volta, esteja à vontade. O outro não piou mais.

Vi-o anular várias resistências sem levantar o tom de voz. De todas as vezes teve razão em fazê-lo mas a forma como o fazia, de facto fria e implacável, assustava. Ficava-se com a sensação de que podia matar alguém a sangue frio, sem se alterar. Geralmente, a seguir, prosseguia como se nada se tivesse passado. Era uma pessoa muito educada mas inexoravelmente distante.

E era um jogador destemido. Arriscava sem medo, com a convicção de que, estando a fazer o seu melhor, mesmo que errasse teria tentado dar o seu melhor. Quando pensava numa dessas jogadas arriscadas ouvia várias pessoas. Geralmente desaconselhavam-no, aconselhavam prudência. Ele ouvia em silêncio. Depois vínhamos a saber qual a sua decisão, geralmente a que tinha em mente desde o princípio.  

Era desconfiado, não o escondia e, por isso, temiam-no. Um amigo meu ficava nervoso sempre que ia falar com ele. Quando vinha de lá, muitas vezes ia ter comigo ou telefonava-me para desabafar: ‘Acho que passei… mas olha, foi mesmo à tangente. Filho da p…!’


Comigo não se passou isso: nunca senti que desconfiasse de mim, nunca o temi. Muitas vezes, a conversa acabava com ele a fazer-me confidências. Acabei por me tornar o seu braço direito. Eu confiava nele, ele confiava em mim. Sendo a pessoa mais racional que até hoje conheci, era, noutras circunstâncias, absolutamente crente na minha intuição. Perante movimentações de risco que eu lhe propunha, esperando eu que ele as dissecasse e as analisasse numa perspectiva racional, e eu queria que ele o fizesse para me fazer sentir segura, ele olhava para mim e perguntava-me ‘O que é que a sua intuição lhe diz?’ E se eu, por dentro meio assustada, lhe dizia que sentia que era de arriscar, ele concluía, ‘Então, força’.

Encontrava-o geralmente durante o dia mas quase parecia ao lusco-fusco. Corria quase completamente os estores, dizia que com muita luz não via muito bem, e geralmente só recebia uma pessoa de cada vez. Quando havia mais pessoas para a conversa, a coisa convertia-se em reunião e decorria noutra sala.

Uma vez, havia uma cena importante em curso. Ele chamou-me e disse-me qual a sua ideia. Achei coisa de envergadura, não sabia se tínhamos pedalada nem se os outros que ele queria envolver teriam peito para isso. Parecia-me um sonho impossível. Mas ele acreditava. Falou com todos, de facto aderiram, confiavam nele -- era, verdadeiramente, um lobo ou, melhor, aquilo a que se chama um falcão. Metemo-nos, pois, nessa aventura. Mas, como logo percebemos, os dados estavam viciados.

Lutou como um leão mesmo quando era mais do que óbvio que não poderíamos ganhar. No fim, quando a derrota se confirmou, tivemos um enorme desgosto, ele mais do que todos os outros. Apesar de não levantar a voz, quase parecia que, por dentro, rugia. Ou uivar em silêncio como um lobo revoltado, esfaimado.

Resolveu avançar para os tribunais. Dissemos-lhe que estávamos com ele. Estávamos.
Mas eu alertei: Se fizer isso, será certamente destituído. Respondeu-me que não acreditava que o fizessem, que era um cidadão livre, que podia fazer o que quisesse na sua vida privada sem que isso interferisse na sua vida profissional. Homem conservador, lembrou-me a mim, cujo coração sempre bateu mais à esquerda, Vivemos em democracia, miúda.
Avançou (avançámos) em força para os tribunais. Gastei algum dinheiro nisso mas ele muito mais, muito mais do que qualquer um dos outros. Não quis acordos, queria mesmo a reparação do erro. Por vezes parecia querer sangue, de tão revoltado que estava. Mas sempre educado, aspecto sereno, voz baixa. Sentia que estava com a razão e, quando assim era, só estava habituado a ganhar. Várias vezes lhe dei o meu apoio mas dizendo-lhe que achava que o corredor se estava a estreitar, que talvez fosse preferível desistir, aceitar um acordo ou desistir mesmo. Que não, que não era pessoa de se ficar pelo caminho.


Um dia, algum tempo depois, estranhei que não quisesse falar comigo durante o dia como habitualmente. Chamou-me ao fim do dia, a escuridão era quase total. Disse-me em voz baixa: Fui destituído. Tinha razão.

Fez-se silêncio. Durante um bocado, não fui capaz de dizer nada. Depois disse-lhe que me estava a lembrar de O Velho e o Mar. Ele fez que sim com a cabeça, que percebia a analogia, mas que não poderia ter feito outra coisa. Não sei o que lhe disse a seguir mas lembro-me do que ele me respondeu: Sinto que as suas palavras são um abraço. Nesse dia fiquei muito triste, senti que um capítulo importante da minha vida estava a chegar ao fim.

Foi-se embora.  Tinha (e tem) as suas próprias empresas e muitos bens. Nada daquilo ali lhe fazia falta. Estava lá porque gostava daquilo, porque tinha ambições muito legítimas, porque, de certa forma, tinha um sonho (que eu partilhava). Nessa altura perdi muitas das minhas ilusões. O país estava, de facto, votado ao empobrecimento a troco do favorecimento de uns quantos eleitos.

Já lá vão uns anos.

Deixou para trás alguns inimigos (alguns, ainda agora, com uma antipatia e rejeição tão fundas como na altura, o que é o costume quando se está perante pessoas carismáticas), muito poucos amigos e muitos, muitos admiradores. Eu, tendo conhecido, antes dele, pessoas extraordinárias, depois dele poucas mais conheci com a visão, capacidade de liderança, determinação e coragem que lhe reconhecia.

Um dia, tempos depois, num almoço, contei-lhe, Vou ser avó. Olhou para mim incrédulo, O quê, miúda…? A sério…?. Estava emocionado. Tantas guerras, tantas situações complicadas pelas quais o vi passar e sempre impassível, frio, e foi preciso saber que eu, a miúda, ia ser avó para o ver de lágrimas nos olhos. Tenho para mim que foi a constatação de que o tempo passa, de que a vida continua, de que aquele sonho de tempos antes haveria de ser esquecido, que de tão longínquo e de tão utópico que já parecia, haveria por não ser lembrado por ninguém, talvez nem pelos próprios que o viveram.

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O Velho e o Mar começou por ser um livro de Hemingway
(depois foi filme, animação, metáfora, etc)
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Os desenhos são da autoria da polaca Justyna Stoszek excepto o penúltimo, mais colorido, que é da autoria de Dimitra Milan (que tem apenas 16 anos). Lá em cima Kenny Wheeler & John Taylor interpretam Fordor.
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E, para uma coisa mais actual e para uns números a la Monty Phyton ou para uma padaraia muuuuuuiiito especial (a propósito da participação do José Eduardo Martins num debate da SIC) queiram, por favor, descer um pouco mais.

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José Eduardo Martins sofre do síndroma do homem rude / homem polido?
Ou seria melhor mudar o figurino dos debates televisivos?
(Como estou sempre do lado da solução e não do problema, dou uma sugestão)


Aquele senhor já uma vez me divertiu na Assembleia da República desafiando um outro do PS para uma cena de pancadaria na rua e mandando-o para um sítio muito feio (lamento mas não consigo ser explícita: é o único palavrão que tenho dificuldade em dizer), sob o olhar estarrecido do Diogo Feio, moço mais dado a manifestação Cristãs do que a vernaculadas puras e duras. 


Depois, na era lapariana, José Eduardo Martins, nos frente-a-frente da SIC, foi crítico, não gostava de tanta austeridade, quase pedia desculpa à Mariana Mortágua por ser PSD, e todo ele era moderação, demarcava-se às escâncaras da trupe pafiana. 


Pois bem, hoje, julgando-o ainda moderado, numa de conciliador e compreensivo para com as medidas do Governo, especialmente perante a tentativa de ingerência dos burocratas de Bruxelas, face a uma Ana Catarina Mendes (a quem a Clara de Sousa e ele próprio, num lamentável lapsus linguae, trataram por Ana Catarina Martins), fui surpreendida: não senhor, já não estava moderado, estava outra vez na sua versão do contra, contra o orçamento, contra o aliviar da austeridade, contra até o que não conhece, contra, contra, contra.

Não sei se será uma coisa pessoal: se gosta de quem tem pela frente derrete-se, se não vai muito à bola, passa ao ataque. Acho que, para testar esta idiossincrasia comportamental, se poderia pôr à frente do cavalheiro a Mariana e a Ana Catarina, as duas ao mesmo tempo, e ver se se porta como o talhante dos Monty Python, ora rude, ora polido.

The Butcher Who Is Alternately Rude and Polite - Monty Python's Flying Circus





Mas, a seguir pensei numa coisa: ele está ali para fazer o papel de opositor do governo, a voz do contra. Se se mostrar compreensivo, às tantas leva ordem de marcha e ainda contratam o Amorim, que sempre arma maior chavascal, ou aquele puto que parece que era secretário de estado e que agora vai a todas. Por isso, numa de lei da sobrevivência, é ver o José Eduardo Martins a fazer a agulha e a dizer aquilo que esperam que diga.

Mas o mal não é dele, que se é assim e ainda lhe pagam (quando ele é que, cá para mim, devia pagar a um psiquiatra para o tratar da dualidade comportamental), tem é sorte.

O mal é de quem acha que contratar comentadores formatados pelos partidos é um bom negócio. Eu, se lá estivesse na secção do Entretenimento (que acho que deve ser a que se ocupa dos debates), inovava. Contratava paineleiros não por serem a favor ou contra o governo, que isso já é coisa fora de moda, mas por serem giros, ou por serem malucos, ou por serem totós, ou por falarem comendo a sílaba do meio, ou por terem barba só dum lado da cara, ou por usarem meio capachinho e pendido para a testa, ou por qualquer outra habilidade ou gracinha.
Qualquer coisa como a mesa de comentadores que abaixo se vê, cada qual mais maluco que o anterior. 
Garanto que audiência não lhes haveria de faltar. Agora aturar cromos como este José Eduardo Martins ou tantos outros que por aí andam a vender refrescos partidários...? Lamento mas não há pachorra. 

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Claro que podem ir um pouco mais longe: podem pôr os moderadores trajados de forma a motivar os espetadores com gostos mais mais minimalistas. E, quem diz os moderadores, diz, até, os próprios paineleiros. Por exemplo, todos nus, apenas com um avental. Mas não um avental qualquer, claro está. Estou a imaginar a Clara Ferreira Alves com um avental todo fashion, em tricot, feito por elle-même, o Pedro Marques Pereira, claro, a fazer pendant com ela, o Daniel Oliveira, que deve ser peludo todos os dias, com um aventalinho à macho man (e mais não digo), aquele do Inimigo Público que tenta esconder a barriga, com um espartilho -- eu assim não ia perder o Eixo do Mal, oh oh, claro que não. 

Para quem não tenha imaginação, aqui vai um exemplo de um negócio que, recorrendo a esta poderosa arma, se soube fazer distinguir da concorrência:

Uma Padaria diferente das outras




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Ora bem.
Resumindo: não há por aí um Provedor do Espetador?

Se há, só espero que espete o dedo e lance a confusão nos canais de televisão -- é que já não se aguenta tanto tédio e parvoíce.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.

Be Happy.


quarta-feira, janeiro 27, 2016

Passarinhos fritos e outras confissões impossíveis


No post abaixo já despejei a minha irritação contra a Marilú Pinóquia e contra o Cavaco das Cagarras: há gente que tem mau perder e mau feitio e estes dois não percebem que já acabou o tempo deles, que nos deviam poupar aos seus maus fígados, aos seus maus íntimos.

Mas, enfim, isso é no post abaixo. Aqui, agora, mudo de registo e vou mergulhar as mãos nas minhas vísceras. Bem, nas minhas não será bem.



  
Modifiquei-me um bocado com o decorrer dos anos. Por vezes penso que ainda sou muito igual ao que era quando era pequena mas, se cair em mim, vejo como me modifiquei.

Na minha maneira de ser intrínseca acho que me mantenho igual: acho que espontânea, franca, destemida, curiosa, sonhadora. Acho.


Mas há aspectos em que mudei muito. Acho. Tendo tido uma infância muito em contacto com o campo e com o mar, há coisas que, nessa altura, para mim eram naturais e que hoje já me fazem impressão. No entanto, descendo bem ao interior de mim, tenho que confessar que, noutras, parece que, apesar de tudo, ainda subsiste em mim uma certa maneira de ser primitiva.

Exemplifico.

O meu avô sempre gostou muito de pescar. Era um homem extraordinariamente paciente. Contra as investidas da minha avó, mulher controladora e com uns certos laivos de autoritarismo, ele calava-se como se não fosse nada com ele ou ia para a sua horta ou abalava para a pesca. Até ser bem velho, ia todos os dias à pesca e, até certa altura e contra a opinião dos filhos, ia de bicicleta. O meu pai, durante um período, também lhe deu para isso mas não terá durado mais que meia dúzia de anos, se tanto, esse hobby.

Com qualquer deles, havia uma coisa que eu gostava de fazer: amanhar o peixe. Os peixes vinham reluzentes do mar e eu gostava de lhes jogar as mãos às guelras, puxar as tripas. Também gostava de os escamar, despi-los daquela capa de partículas espessas e reluzentes mas, bom, bom mesmo, era sentir as tripas frescas, limpar bem as barrigas. Às vezes, por fim, já o alguidar estava rubro de sangue e eu com as mãos ali metidas. Isto era uma luta: nem a minha avó nem a minha mãe queriam, tinham medo que algum anzol tivesse ficado na guelra e que eu me magoasse ou que me magoasse com a faca. Mas eu sabia ter cuidado. Ainda hoje gosto de o fazer, e faço-o com cuidado, gosto de aproveitar o fígado, gosto imenso de fígado de peixe.

Pior que isso, e já aqui o referi, era um outro costume que o meu pai e os amigos tinham. O meu pai tinha um grupo de amigos com quem jogava futebol e voleibol. Alguns jogavam também hóquei em patins. Uns primos do meu pai eram exímios. No hóquei o meu pai apenas fazia parte da organização. Um dos primos, mais novo, ágil, bonito, bon vivant, tinha o sangue quente. Volta e meia pegavam-se quase à pancada. Aí o meu pai punha uma mão na vedação do campo e elevava-se, num salto, pelos ares, entrava em campo, separava-os, impunha respeito. Quando algum deles se casava, iam todos ao casamento. Lembro-me bem desses tempos, adorava andar por ali, no meio daquelas confusões. Adorava aqueles ambientes. A minha mãe nem sempre ia, só ia se algumas amigas também fossem e, então, sentavam-se juntas e conversavam o tempo todo. Mas, para além dessas práticas desportivas, havia uma outra, muito mais esporádica --  e era a essa que me referia. Em determinada altura, talvez fosse por estas alturas, iam aos pássaros. Antes, iam apanhar formigas de asas, umas formigas grandes a que chamavam agüidas (lê-se o u, pelo que lhe apliquei um trema mas não encontro no dicionário). Guardavam-nas numa caixa de cartão na qual faziam furos na tampa para elas respirarem.

Então armavam as ratoeiras (umas armações metálicas) com as ditas agüidas. Eu própria o fazia, embora os meus pais não quisessem com medo que eu ficasse com um dedo preso. Depois, nos dias em que combinavam, ao fim de semana, iam de manhã muito cedo, talvez quase de madrugada e iam deixar as ratoeiras. Mais tarde, iam levantá-las e traziam os pássaros. Por vezes os pássaros vinham ainda quentes. Gostava de sentir a sua penugem e pele ainda morninhas. E, então, sem que aquilo me fizesse qualquer impressão, queria ser eu a depená-los. Começava pelas asas, pelo rabo, as penas maiores, depois o corpo, a penugem macia. Depois abria-lhes a barriga, gostava de sentir as tripas quentes, aproveitava as moelas, abria-as, limpava-as, depois o fígado e o pequeno coração. Cortava-lhes também a cabeça. Nenhuma impressão.

Se acontecia algum pássaro ainda vir vivo, a minha mãe ficava incomodada. De resto não gostava nada de arranjar pássaros. O meu pai então dava-lhes uma torção no pescoço e eles ficavam-se. Eu assistia impávida.

E adorava comê-los. Passarinhos fritos era um pitéu que eu, na minha meninice e até ao princípio da adolescência, adorava.

Uma das minhas avós também tinha uma capoeira. Eu gostava de ver as galinhas, dava-lhes milho. Outras vezes ficava à espera de as ver entrar na parte fechada, depois virem cá para fora, dando uma cantada. Então eu entrava, ia até essa parte fechada, quase às escuras, e ia buscar os ovos ainda quentes. Depois pedia à minha avó que me fizesse uma gemada. Outro pitéu.

Volta e meia determinava-se que a refeição era galinha. O meu pai não tinha qualquer problema em matá-las. Não me lembro do meu avô nessas fainas. Mas a minha avó também não se ensaiava. Apesar de franzina, era muito indiferente em relação a essas coisas. E eu era sempre a ajudante. Ficava a segurar uma tigela por baixo do pescoço das galinhas, para aparar o sangue pois toda a gente gostava de uma apurada e cheirosa cabidela. O sangue esguichava, a galinha estremecia por todo o lado e eu, na maior, desviando a tigela no sentido do esguicho para não se perder nada. A seguir, o sangue quente, misturava-se vinagre. E depois a galinha era posta em água quente e eu entrava outra vez em acção: depenava, puxava as tripas, aproveitava as miudezas. A minha mãe sempre em cuidado que eu me não magoasse na faca, a minha avó também, mas eu manobrava-a com cuidado e participava na operação com perícia e prazer.

Acho que apenas se alterou alguma coisa dentro de mim uma certa vez, quando o meu pai quis ter no quintal da nossa casa, na parte de trás, junto à horta, uma capoeira.

A minha mãe não gostava, dizia que era uma prisão, que as galinhas só davam trabalho e faziam porcaria mas acho que o meu pai tinha aquela nostalgia de ter uma certa auto-suficiência alimentar. Também plantava feijão-verde, tomate, cenouras, salsa. 

Lembro-me que, por essa altura, arranjou um fogareiro que tinha um espeto e assava frangos. Era ele que os matava.

Acho que já o contei. Um dia ficou a trabalhar até mais tarde, a minha mãe que matasse a galinha. Ela não queria, que esperava. Mas ele não sabia a que horas chegava, ela que o fizesse, já tinha visto muitas vezes, não tinha problema. Não sei como, ela lá acabou por se encher de coragem.

Mas foi o bom e o bonito.

A minha avó ou o meu pai faziam aquilo nas calmas. Escolhiam a vítima, seguravam-na pelas asas, deitavam-na no chão, punham-lhe um pé em cima das patas, seguravam na cabeça e lá vai disto, em três tempos tinham procedido à degola. 

Com a minha mãe foi um festival. A galinha cacarejava, fugia, a minha mãe não a segurava bem. Eu ali à volta com a tigela para aparar o sangue (para fazer um arroz de cabidela, como acompanhamento) e a minha mãe aflita, só se lhe soltavam ais, eu também já aflita com a aflição da galinha e da minha mãe, incapaz de ajudar, com pena delas. Por fim a minha mãe lá se encheu de coragem, aplicou-lhe um golpe no pescoço mas apenas a feriu, a galinha quase gania, a minha mãe só lhe apetecia salvar a galinha, a galinha fugia, uma calamidade. Por fim, depois de uma verdadeira chacina, a minha mãe mais morta que viva, lá se conseguiu dar o assunto por concluído.

Acho que depois disso nunca mais me consegui abstrair do sofrimento dos animais. Hoje seria incapaz, mas absolutamente incapaz, de assistir à matança de uma galinha quanto mais participar, aparando o seu sangue.


Também deixei de ser capaz de comer passarinhos. De resto, o meu pai também deve ter ganho uma outra consciência, era eu adolescente e já ele se tinha deixado disso. Provavelmente mais tarde começou a ser proibido, não faço ideia.


A capoeira lá no quintal também pouco durou. A própria horta foi sol de pouca dura. O quintal (que fica na parte de trás da casa) foi relvado e apenas ficaram as laranjeiras e o limoeiro, que ainda lá estão. Os passarinhos voam por lá em liberdade.

Mas o que sei, e disso ainda me lembro bem, é de como antes nada disso me fazia impressão e, mais, de como gostava de mergulhar as mãos nos corpos e sentir as vísceras ensanguentadas.  

Por vezes penso que, não obstante as preocupações ambientais e ecológicas que tenho, o amor que tenho pelos animais e tudo isso, no fundo, ainda tenho vivo, dentro de mim, um pouco desse meu lado bárbaro, primitivo. Mas nem quero pensar nisso.

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As fotografias de adoráveis crianças são de Katrina Parry. A penúltima é de  Martin Stranka. A da mulher com a galinha e a última são de Margarita Kareva .

Lá em cima Catrin Finch interpreta Clear Sky.

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E, esperando que não estejam horrorizados comigo, convido-vos a descerem até ao post seguinte caso queiram saber o que acho das últimas manifestações da Marilú e do Cavaco.

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