Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, setembro 30, 2015

Os números maquilhados da Maria Luís, a gestão travestida de Passos Coelho, o desamor à verdade dos PàFs - E o milionário, os crocodilos na piscina, o valentão e o fdp


Um número maquilhado do BPN
conforme ordem da Maria Luís Albuquerque
(in 'Isto é muito bonito mas...')


Com medo que os jornalistas comecem finalmente a fazer investigação a sério e descubram mais números maquilhados para forjarem resultados menos maus, Passos Coelho, esse paladino da verdade e dos bons costumes, saíu-se com esta:
"Libertámo-nos da ditadura financeira e dos números, chegou a hora da política", prometeu Pedro Passos Coelho esta terça-feira à noite, num jantar-comício em Coimbra. 
Pudera. Depois dos jornais em peso terem destapado o lixo que a pinokia mandou esconder debaixo do tapete (e vamos lá a ver se terá sido só isso) é natural que agora o Coelho e o vice-desembestado queiram à viva força parar de falar de números.

Transcrevo a cena da maquilhagem com que, esta terça-feira à noite, os Gato Fedorento gozaram à brava:


Maria Luís terá dado ordens para esconder prejuízo do BPN


O actual Governo terá dado indicações à Parvalorem, a empresa pública que gere os ativos tóxicos do antigo Banco Português de Negócios (BPN), para esconder prejuízos do banco com o objetivo de não agravar as contas do défice de 2012, avança a Antena 1. Desta forma, a Parvalorem terá ocultado uma parte das perdas registadas com o crédito mal parado a pedido de Maria Luís Albuquerque, quando ainda era secretária de Estado do Tesouro. Cerca de 150 milhões de euros.

O nº maquilhado do BPN
com um nº maquilhado do novo Banco
(em entrevista ao Ricardo Araújo Pereira na TVI)

Segundo a Antena 1, em fevereiro de 2013 a atual ministra das Finanças (na altura ainda Vítor Gaspar assumia esta pasta) soube que a Parvalorem ia ter perdas de 577 milhões de euros, em créditos em risco de incumprimento. Fonte ouvida pela rádio pública conta que Maria Luís Albuquerque pediu para mexer nas contas e divulgar as melhores contas possíveis: "Foi uma martelada que demos nas contas, as ordens vinham de cima, atuámos dentro da margem que tínhamos."
A Parvalorem terá procedido então a uma operação contabilística para adiar o impacto das contas para exercícios futuro, fazendo alterações às contas já auditadas.
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Espanto? Nenhum. Não a mim. Mas talvez seja um espanto para quem, a esta altura do campeonato, ainda não tinha percebido com que raça de gente tem o País andado a lidar: gente pouco séria, muito incompetente e, sobretudo, com uma noção muito fluida de conceitos tais como verdade, ética, moral, etc.

Mas há que ver o lado positivo das coisas: saber disto talvez seja o empurrão para a piscina de que alguns eleitores indecisos estivessem à espera para saber que é indispensável correr com os PàFs, essa gente incapaz e ignorante que, nos últimos 4 anos, para além de andar de gatas perante a Europa pretendeu pôr Portugal inteiro de gatas perante a Alemanha, China, Angola, Brasil e por aí fora. Há males que vêm por bem -- digo-vos eu.

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Conto-vos a história que Leitor, a quem muito agradeço, me enviou (and pardon my french).



Um milionário promove uma festa numa das suas mansões e, a certa altura, pede que a música pare e diz, olhando para a piscina onde cria crocodilos australianos: 
Quem saltar para a piscina, conseguir atravessá-la e sair vivo do outro lado ganhará todos os meus carros. Alguém se habilita?
Espantados, os convidados permanecem em silêncio e o milionário insiste:
Quem se atirar para a piscina, conseguir atravessá-la e sair vivo do outro lado ganhará os meus carros e os meus aviões.
O silêncio impera e, mais uma vez, ele oferece:
Quem saltar para a piscina, conseguir atravessá-la e sair vivo do outro lado ganhará os meus carros, os meus aviões e as minhas mansões.
Neste momento, alguém salta para a piscina...

A cena é impressionante. Luta intensa, o destemido defende-se como pode, segura o boca dos crocodilos com pés e mãos, torce o rabo dos répteis. Muita violência e emoção. Parecia um filme do Crocodilo Dundee! 

Após alguns minutos de terror e pânico, sai o corajoso homem, cheio de arranhões,  hematomas e quase despido.

O milionário aproxima-se, dá-lhe os parabéns e pergunta:
Onde quer que lhe entregue os carros e os aviões?
- Obrigado, mas não quero os seus carros e os seus aviões.

Estranhando a reacção do homem, o milionário pergunta:
E as mansões?
- Eu tenho uma bela casa, não preciso das suas. Pode ficar com elas. Não quero nada que é seu.

Impressionado, o milionário pergunta:
Mas se você não quer nada do que ofereci, o que quer então?
Ao que o homem respondeu, irritado:

- Achar o filho da puta que me empurrou para a piscina!

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Moral da história?

Somos capazes de realizar muitas coisas que por vezes nós mesmos não acreditamos, basta um empurrãozinho. Um filho da puta, em certos casos, é útil na nossa vida.

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Cá para mim, a Maria Luís com esta revelação dos números maquilhados, até é capaz de nos ser útil. Talvez assim as pessoas saltem para a piscina e votem capazmente, contra os PàFs.

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E já agora, meus Caros, desçam até ao post seguinte, para cantarmos em uníssono
'Salta, coelhinho, salta' já que o animal (em pessoa) está, neste momento, à beira do precipício. 

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Salta coelhinho, salta
E uma montagem que mostra bem o que é o coelho em acção, uma coisa do além


No post abaixo, com uma interessante conversa sobre amor, vida e morte, esgotei a minha quota diária de matérias atiladas. 

A partir de agora é sempre a abrir e não é que seja na base do 'salta, macaquinho' - porque os macaquinhos até são inteligentes - mas, sim, face às circunstâncias, do 'salta, coelhinho'.

Sabido que é que os láparos não são bicheza dada ao intelecto, não é de espantar que, pensando com as patas, não meçam o alcance das ditas e se disponham a dar saltos que não estão ao seu alcance.

Se querem alcandorar-se a mais altos voos, estatelam-se no chão (vide os números alcançados: a dívida nos lindos níveis que está, o desemprego upa-upa, o défice nem com maquilhagem, a emigração uma vergonha, etc).

É certo que a corte de comentadores e lava-rabos que rodeia o láparo em questão dirá que os saltos foram fantásticos, coisa nunca vista, um verdadeiro atleta olímpico (e os gregos que ponham os olhos nisto, feitos assim nunca antes alguém os viu).

Mas nós, que não somos parvos, o que vemos é um láparo, que nunca deveria ter saído do coelhil (como é mesmo que se chamam os lugares onde se guardam os láparos?), armado em carapau de corrida.

Contudo, a mesma falta de inteligência do animal se verifica quando à beira do precipício. Mas aí será da mais elementar caridade (em especial para com as suas vítimas) que o incentivemos a exibir as suas proezas e, portanto, vamos lá, meus amigos, vamos lá incentivar o artista: 'e salta, coelho, e salta, coelho...'. 

E ele, gabarolas e destituído, saltará. E nós aplaudiremos e nunca mais teremos que nos importar com a sua indigente actuação.

E, sobre coelhos aos saltos, já disse. 
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Não, afinal não disse.

Recebi agora por mail um vídeo que parece de hoje mas que já tem tempo só que, curiosamente, agora é que ainda dá para melhor ser apreciado, um verdadeiro vintage.


Senhor 1ºMinistro termine as minhas frases


Nilton / 5 Para a Meia Noite


 

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Meus Caros, caso não gostem de pêlo de coelho e, portanto, não queiram dar o tempo por perdido, desçam, por favor, que no post a seguir o registo é outro e vale muito a pena: conversa gostosa, que nos põe a pensar. Gente inteligente é outra coisa.

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O que é o amor à primeira vista? Uma ilusão ou uma profunda e transcendente ligação a outra pessoa? - Esta e outras perguntas sobre a Ars Poetica, a Vida, o Amor e a Morte numa interessante entrevista de Jiří Kylián


Sou dada a amores à primeira vista, acho que não há outros que sejam tão fortes como os inexplicáveis, os que resultam de uma misteriosa atracção.




Na interessante entrevista cujo vídeo aqui partilho convosco, o coreógrafo Jiří Kylián (de quem no Um Jeito Manso já coloquei imensos bailados) diz ao bailarino Istvan Simon - todo ele simplicidade e sensibilidade - que, nisto do amor à primeira vista, por vezes, é a própria pessoa que está vulnerável, disponível para ser atraída, mas que, depois, há situações únicas em que talvez o que aconteça seja o reconhecimento de uma compatibilidade de carismas. 
O carisma é qualquer coisa de indefinível que enforma a maneira de ser de uma pessoa (um misto de personalidade, de carácter, de forma de reagir às circunstâncias - não sei). 
O que sei é que uma pessoa sente que ali está outra que se conjuga connosco (sente - ou seja, não é forçoso que a vejamos), que nos completa, que nos desafia, que nos foge sem que a gente queira que ela se perca de nós, que queremos conhecer sem que consigamos explicar a razão da curiosidade. E, tal como Jiří Kylián o refere, também eu penso que isto não acontece apenas a nível amoroso: pode ser uma curiosidade intelectual, uma estima desobrigada, uma afinidade estética.
Mas não é apenas de amor que conversam aqui, é de muito mais - e até de barbas. O vídeo não está legendado mas a fala é pausada e a dicção é clara - e a conversa um prazer.



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terça-feira, setembro 29, 2015

Eleições Legislativas 2015 - "Ensaio sobre a Cegueira" remixed? [Ou as sondagens estão todas maradas...?]






A consciência moral, que tantos insensatos têm ofendido e muitos mais renegado, é coisa que existe e existiu sempre, não foi uma invenção dos filósofos do Quaternário, quando a alma mal passava ainda de um projecto confuso. Com o andar dos tempos, mais as actividades da convivência e as trocas genéticas, acabámos por meter a consciência na cor do sangue e no sal das lágrimas, e, como se tanto fosse pouco, fizemos dos olhos uma espécie de espelhos virados para dentro, com o resultado, muitas vezes, de mostrarem eles sem reserva o que estávamos tratando de negar com a boca. Acresce a isto, que é geral, a circunstância particular de que, em espíritos simples, o remorso causado por um mal feito se confunde frequentemente com medos ancestrais de todo o tipo, donde resulta que o castigo do prevaricador acaba por ser, sem pau nem pedra, duas vezes o merecido.




Má para toda a gente, a situação, para os cegos, era catastrófica, uma vez que, segundo a expressão corrente, não podiam ver aonde iam nem onde punham os pés. Dava lástima vê-los a esbarrar nos carros abandonados, um após outro, esfolando as canelas, alguns caíam e choravam, Está aí alguém que me ajude a levantar, mas também os havia, brutos de desespero ou por natureza, que praguejavam e repeliam a mão benemérita que acudira a auxiliá-los, Deixe lá que a sua vez também lhe há-de chegar, então a compassiva pessoa assustava-se, fugia, perdia-se na espessura do nevoeiro branco, subitamente consciente do risco em que a sua bondade a tinha feito incorrer, quem sabe se para ir cegar uns metros adiante.





Diz-se a um cego, Estás livre, abre-se-lhe a porta que o separava do mundo, Vai, estás livre, tornamos a dizer-lhe, e ele não vai, ficou ali parado no meio da rua, ele e os outros, estão assustados, não sabem para onde ir, é que não há comparação entre viver num labirinto racional, como é, por definição, um manicómio, e aventurar-se, sem mão de guia nem trela de cão, no labirinto dementado da cidade, onde a memória para nada servirá, pois apenas será capaz de mostrar a imagem dos lugares e não os caminhos para lá chegar. Postados diante do edifício que já arde de uma ponta à outra, os cegos sentem na cara as ondas vivas do calor do incêndio, recebem-nas como algo de certo modo os resguarda, tal como as paredes tinham sido antes, ao mesmo tempo, prisão e segurança. 




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  • O texto é composto por três excertos não sequenciais de Ensaio sobre a Cegueira de José Saramago
  • As três primeiras imagens pertencem à Parábola dos Cegos ou Cegos conduzindo os cegos, obra datada de 1568 de  Pieter Bruegel the Elder
  • A última imagem é da autoria de Roberta Coni
  • Dame Kiri Te Kanawa interpreta "Vocalise" de Rachmaninoff
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Sobre a minha excentricidade, queiram, por favor, descer até ao post seguinte onde o meu irmão gémeo Raul mostra que é tal e qualzinho eu.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.
E desejo outra coisa: que não se encontrem entre os cegos que não sabem para onde ir, que quase preferem ficar aprisionados - e desejo isso para que, no próximo dia 4, consigam escolher o vosso próprio caminho, um caminho alternativo.

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Sou das excêntricas. Negar para quê? Sou excêntrica mesmo.


Hoje ao almoço, junto a nós, numas mesas unidas, estava um grupo de raparigas. Talvez tivessem uns 16 ou 17 anos, ou mesmo 18. Por aí. Talvez fossem 8 ou 10, não as contei, mas, revendo a cena, penso que também seria por aí.

Pois, durante toda uma hora, aquelas santas moças, munidas de um pau de selfie onde se encavalitava um telemóvel, se auto-fotografaram. Segurava uma naquilo e todas as outras se ajeitavam, cabeças encostadas umas às outras, sorrindo, a fazerem poses; depois era outra e todas as demais se reajeitavam, se punham outra vez a rir para o telemóvel. Quando o pau de selfie mudava de mãos, invariavelmente, a que o segurava, enquanto as outras se realinhavam, punha-se a auto-fotografar-se, pescoço no ar, a rir para o telemóvel lá em cima, encarrapitado no dito apetrecho, abrindo a boca, pondo a cabeça de lado - uma coisa do além.

Às tantas, o telemóvel deve ter empancado porque nunca mais disparava e elas, enquanto protestavam, mantinham o sorriso. Uma cena surreal. Ia a dizer deprimente mas não consigo já, sequer, ajuizar sobre estes comportamentos que são cada vez mais frequentes.

Um grupo de bacanos a gozar com as selfies das mulheres


No sábado, enquanto passeávamos passando por esplanadas, talvez metade das pessoas estava na mesma, a tirar selfies.

O meu marido no domingo à tarde, enquanto estava lá no meio de um bosque cerrado na Gulbenkian, a evitar que os pimentolas (que estão a ficar uns reguilas) trepassem às árvores ou se escapulissem pelo meio dos canaviais, diz que deu com um casal em que o homem queria tirar uma fotografia. Pois bem, respondeu-lhe a mulher: 'Para quê? Tu nem as queres pôr no Face..'.

Selfies não para consumo próprio mas para serem partilhadas em tempo real nas redes sociais.

Instagram, facebook, twitter, linkedin... é como se o mundo já só exista se passar por aqui.

É certo que tenho isto dos blogs mas, para mim que sempre gostei de escrever, isto é, sobretudo, um sítio onde o posso fazer. Em vez de escrever em word, nuns ficheiros que ficavam só para mim, escrevo aqui e quem gostar, gosta, quem não gostar, não gosta. Não faço nada para agradar porque este, para mim, é um espaço de liberdade e não de auto-promoção. Mas, enfim, cada um é como é. Agora o que ainda não consegui perceber é a ânsia de as pessoas se mostrarem ao mundo, enquanto comem (até já há a selfie spoon, valham-me todas as santinhas!), enquanto estão à mesa, enquanto estão a apanhar banhos de sol, enquanto estão a ver as vistas. É que isto já nem me parece ser apenas narcisismo, já me parece doença. 

A nível profissional, todos os dias recebo mails para me juntar ao linkedin, para conhecer este aquele e o outro. Pois não quero, quero conhecer quem eu quiser conhecer e não quem se quer dar a conhecer. Se preciso de escolher alguém para trabalhar comigo, quero ver um CV normal e quero conhecer as pessoas ao vivo. E, se me aparece alguém muito auto-convencido, cheio de respostas na ponta da língua, com sorrisinho de selfie, e, pior ainda, se começar a tratar-me directamente pelo meu nome próprio na maior das intimidades, pois é mais que certo que vai de carrinho. 

Também ainda não me rendi aos e-books. Nem sou do género de ir para reuniões toda agarrada, a mandar mails, a consultar tudo a toda a hora.

Mas eu sei, o problema está em mim. Sou antiga, pré-histórica. Sou vintage. Sou uma excêntrica, é o que é.
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O excêntrico - Porta dos Fundos


Existem certas pessoas com hábitos muito particulares as quais chamamos de excêntricas. Elas andam por aí, com suas características bizarras intrigando a todos que encontram. É muito fácil encontrar um: eles geralmente carregam um Nextel, assistem programas com horário marcado na TV, mandam SMS e perguntam pelo orelhão mais próximo. Vai entender...


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segunda-feira, setembro 28, 2015

Acasos, casualties, estilos






O ponto de viragem na vida do professor de filosofia Abe Lucas, o homem irracional, dá-se quando, acidentalmente, num restaurante, ouve uma conversa entre pessoas que se sentavam noutra mesa. A partir daí ocorreu-lhe intervir na situação ali falada, imaginando que não correria quaisquer riscos já que nada o ligava àquelas pessoas.

Hoje almocei num restaurante no Chiado, um belo almoço à base de mexilhões e com fresquíssimas ostras como entrada. Noutra mesa estava uma conhecida figura pública que encabeça uma lista de um certo partido. Imaginando que estaria a falar da situação política, tive vontade de ouvir a sua conversa mas, sendo eu bem educada, obviamente não o fiz.

Depois de termos flanado, a seguir, por aquele que é um dos meus locais de eleição em Lisboa, fomos buscar a minha mãe e juntámo-nos a parte da família na Gulbenkian (belíssima exposição de Charrua - a ver se ainda falo dela). Para rematar, fomos lanchar ao self do CAM. Eu estava ainda cheia do almoço, pelo que me limitei a beber aquele delicioso cup de frutas que é um dos seus ex libris. Contudo, mal o bebi, senti que me tinha caído mal. Daí a sentir-me mesmo mal foram minutos. Não tenho ideia de uma cena daquelas. Mal, mal, inclusivamente à beira de desmaiar, transpirando em bica, mal me podendo mexer. Imaginei que o sumo frio me tinha parado a digestão e, apesar do estado em que me encontrava, não valorizei. Queria chegar a casa, deitar-me de pernas para o ar a ver se a tensão me subia, esperar que o estômago atinasse ou pelo menos que se esvaziasse de vez. O diabo foi o facto de a minha mãe assistir ao filme. E aí foi o drama: que uma vizinha morreu por causa de mexilhões com umas bactérias, que se tinha também sentido mal e que foi um ar que lhe deu. E ai, ai... olha como tu estás, ai... ai... A minha filha, por outro lado, tinha dito antes que, nuns almoços lá nuns eventos em que se juntavam vários médicos, a única coisa que não comiam era ostras porque se comem praticamente cruas e, se têm uma tal bactéria, é trigo limpo farinha amparo. E a minha mãe num desatino, eu é que estava mal e ela é que gemia. E eu, de facto quase a perder os sentidos, mais para lá do que para cá, ouvia a conversa delas e percebia que já me viam morta e enterrada. E que eu fosse ao hospital e que tinha que ir e que o meu marido me levasse, quisesse eu ou não. Eu, mal falava, piorava de novo, mal mexia a cabeça ficava a transpirar em bica e a ver tudo sem cor, pelo que bem tentei oferecer resistência mas, qual quê, não consegui evitar. Lá me levaram para o hospital, numa viagem surreal tal o estado em que eu estava. Aí a chatice do costume: análises e logo posta a soro, um garrafão que nunca mais acabava, e antes, na veia, um protector para o estômago e um outro para parar as náuseas. Para cima de duas horas nisto, nas urgências. 

Mas uma coisa destas não teria história nenhuma não fosse dar-se o caso de, na cadeira ao meu lado, nas urgências, estar uma outra doente, toda boas famílias, a telefonar, para familiares e amigos a dar a notícia que o Manel tinha acabado de morrer e que não sabia ainda se a vida tinha terminado para ele ou se ele lhe tinha posto termo, que, para ela, seria a segunda hipótese, que seria o mesmo que da outra vez, mas que não dizia nada, não queria alimentar especulações. A questão é que ela não dizia apenas Manel, dizia também o apelido. Quando pronunciava o nome, baixava o tom de voz. Mas eu estava apenas a soro, não estava inconsciente: ouvia tudo. E, mais tarde, dizia também onde seria o velório e o dia do enterro. Ora a ser quem eu penso, será pessoa muito conhecida e, a ter sido a causa da morte a que ela dava a entender, será coisa com uma carga dramática considerável (aliás, carga dramática tem sempre uma morte provocada só que, neste caso, a ser quem me pareceu que fosse, terá uma dimensão pública considerável).

Entretanto, chegou o marido, preocupado com o estado de saúde dela, mas ela deu-lhe logo a notícia e ficaram a conversar, em voz baixa mas, para mim, audível, que a última vez que tinham estado juntos, eles e o falecido, tinha sido na festa de anos de fulano de tal, e que quem, há minutos, lhe tinha pedido para ser ela a dar a notícia tinha sido beltrana, e que não podia ser beltrana a avisar os amigos porque tinha sido namorada dele e o marido é um ciumento que não se pode, e ficaria furioso se soubesse que ela estava a informar amigos, etc, que o outro tinha morrido e que, coitada, senão, ela é que ainda acabava a pagar as favas. E, uma vez mais, disse o nome da dita namorada e eu, uma vez mais, reconheci o apelido.

Enquanto ali estava naquele aparato, a soro, feita inválida - mas já bem disposta (aquele chuto na veia tirou-me mesmo as náuseas e as dores no estômago) -  peguei no telemóvel e googlei a ver se já havia notícia. Não havia. 

Mas fiquei a pensar: acidentalmente podem gerar-se situações complicadas que, potenciadas por estas tecnologias ubíquas, se podem transformar em bolas de neve difíceis de parar. 

Imagine-se que eu era pessoa sem escrúpulos e, tendo ouvido toda aquela conversa, enviava logo dali informação para algum jornal online ou a publicava eu aqui no Um Jeito Manso ou a enviava para alguém com facebook badalado. Às tantas, poderia estar montes de gente a saber de uma situação dramática que a família deve querer gerir com pinças, sem que ninguém soubesse como é que, na hora, a notícia tinha extravasado. Ou imagine-se que há mais pessoas com aquele nome e que ainda punha um boato sinistro a circular, dando por morto alguém cheio de vida.

Entretanto, estava eu ali sossegada, preferindo não estar a ouvir toda aquela conversa, quando chegaram os resultados das minhas análises: so far, so good. Se havia bactéria, tal não se via no sangue. Portanto, deve mesmo ter sido uma paragem de digestão. Vim para casa com uma receita para começar a tomar ainda hoje e durante três dias. Mas tão saturada saí de lá que me marimbei para ainda ir à farmácia.

Não jantei nem tenho fome mas sinto-me como se nada me tivesse acontecido.

E, entretanto, já me ocupei das minhas tarefas de dona de casa: já fiz uma panela de sopa para os estes próximos dias, já fiz umas costeletas grelhadas para que amanhã o jantar já esteja pronto, já fiz uma máquina de roupa e já a estendi, já fiz arrumações, etc. 

Agora é quase uma da manhã, estou com sono - mas para aqui estou ainda a pensar nisto de uma pessoa sem querer ouvir uma conversa alheia que, aparentemente, nos revela uma situação horrível. Pelo que percebi, esta irá deixar consternada toda a gente que conhecia o dito Manel (talvez devesse dizer malogrado Manel). Não tivesse eu educação, sensibilidade e bom senso, poderia agora estar aqui a divulgar tudo o que ouvi e vocês todos, meus Caros Leitores, a tomarem conhecimento. Há um lado perverso nisto das novas tecnologias: sem querer, as palavras podem chegar até nós e nós, sem pensarmos bem, poderemos mesmo deixar que elas nos fujam das mãos, escapem ao nosso controlo, a qualquer controlo.

Deveria mesmo haver um livro de estilo para isto tudo.



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As pinturas são, uma vez mais de Juan Lecuona. Ryuichi Sakamoto interpreta Aqua

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Hoje não vou escrever mais nada. Tinha fotografias de umas peças de artesanato que gostava de vos mostrar (um galinho e um crucifixo), fotografias do Chiado e fotografias da exposição do Charrua no CAM. Mas, dado o adiantado da hora e o sono que tenho, não vai poder ser. Outro dia, talvez.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. 
Saúde, alegria e beleza em vossa volta é o que vos desejo.

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domingo, setembro 27, 2015

Alô, alô, senhores do PS! Onde é que andam as figuras públicas que apoiam o PS? Não perceberam, ó senhores do PS, que está na hora de tocar a reunir? Por delicadeza vão deixar-se morrer, ó apoiantes do PS? Vamos lá a acordar e a dar o corpo ao manifesto, caraças!


No post abaixo falei do Homem Irracional, o último filme de Woody Allen, e nas ténues fronteiras que separam conceitos morais como os do bem ou do mal.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, com vossa licença, volto à vaca fria: as eleições do próximo domingo.

Mas como há pouco, ao chegar a casa, me encantei com a beleza de noite que estava - uma noite azul, um céu limpo e estrelado, uma lua quase dourada, escandalosa - é com Noche Azul que vos convido a virem comigo.






Não é só aqui em casa, é um pouco por todo o lado onde se respira algum gosto pela democracia de verdade e vontade de avançar no sentido do futuro, que sinto algum desânimo, como se uma doença contagiosa estivesse a alastrar, deixando todos um pouco prostrados. Teme-se que a praga Passos Coelho e Paulo Portas continue a invadir as nossas vidas. Começo a sentir em alguns quase a convicção de que este é o destino dos portugueses: não ser felizes.

A evidência é que viver desune
o tecido da esperança: não viemos

ser felizes neste lugar que é tempo
nem sabemos se um dia acreditámos

no que dissemos quando mergulhados
no mar interrompido pelos nossos braços

sem o saber nadámos
para nenhuma água ou para um cais deserto




Nos últimos dias tenho-me envolvido em acesas discussões com amigos, colegas e familiares, sobre a situação política actual. 

Embora profissionalmente me mova num meio muito conservador, não encontro uma única pessoa que manifeste ponta de simpatia pela coligação PSD+CDS. Toda a gente que conheço, mesmo os que sempre foram simpatizantes de partidos de direita, fala deles com algum desdém.

Um votante fiel ao CDS agora diz-me que acredita, e di-lo com um toque de esperança, que acha que o PS é que vai ganhar. Pelo meio aponta críticas ao PS, desenterra conversas do passado, fala-me de escritórios de advogados ligados ao regime, mas eu equilibro com os escritórios ligados aos pafs que têm ganho fortunas com as privatizações a eito da era Passos Coelho. Ele concorda. Para minha surpresa, penso que, pela primeira vez na vida, vai votar no PS.

Encontro também gente que descrê do PS por achar que o aparelho está minado pelos interesses que corroem o Estado e que, em geral, os partidos portugueses anquilosaram e que verdadeiramente não têm sabido adaptar-se aos tempos. Esses, embora sejam pessoas que se esperaria que fossem mais ligados à direita do que à esquerda (um deles até já esteve ligado a um governo PSD), mostram-se decididos a votar no Bloco de Esquerda ou no Livre. Com estes, confesso que fico parva. Afirmam que a democracia tem que se regenerar e que, para isso, é preciso que o PaF perca as eleições e que o PS leve um abanão. Falo-lhes no desperdício de votos quando se vota em pequenos partidos que, pelo método de Hondt, não atingem o mínimo para eleger deputados e que, na prática, são votos deitados para o lixo, mas dizem-me que, votando em Lisboa, os votos no BE ou no Livre não são desperdiçados.

Depois há os que sempre votaram PCP e que, haja o que houver, se mantêm fiéis. Claro que a gente pode perguntar-lhes onde têm andado a Avoila, o Mário Nogueira, o Arménio e toda essa gente que, durante os governos do PS, não se calou por um segundo e que, agora - durante, todo este tempo de descalabro da governação Passos Coelho em que se assistiu a um sistemático e violento ataque aos trabalhadores - tem andado tão comprometedoramente calada. Nunca perceberei a bipolaridade do PCP que, defendendo o bem do povo, sistematicamente se une à direita para dar cabo do PS. 

Mas, depois, o que eu encontro, e em larga maioria, é gente que, apesar de algumas críticas ao PS, acredita que António Costa, sendo um homem inteligente e sério, será melhor primeiro-ministro do que Passos Coelho. 

Por isso, não consigo acreditar no que as sondagens dizem. Vejo as capas dos jornais e o que vejo é a propagação de mentiras, balelas, ligo a televisão e vejo o Marques Mendes em prime time e o que diz são balelas, uma reconstrução da história recente, tretas, balelas, e ao domingo é o Marcelo, e a comunicação social, toda ou quase toda ela, está atulhada de avençados manipuladores. E eu, vendo isto, interrogo-me se toda a gente andará tão adormecida ou embriagada que engula tanta balela. E acho que não.




Pelo contrário, acho que há todas as condições para que o PS consiga uma vitória inquestionável. Acho.

Mas o que me anda a fazer uma grande confusão é não ver gente conhecida, gente prestigiada, personalidades públicas, artistas, gente da televisão, desportistas (que já vi a Rosa Mota, mas queria ver mais) a apoiar publicamente o PS. 
Onde anda essa gente? 
Tudo colado aos sofás a praguejar contra os PàFs? 
A pregar contra a direita mas sem levantar o rabo do bem-bom? 
Será possível que nem perante uma ameaça destas - de Portugal continuar a retroceder, de ter uma posição cada vez mais marginal na Europa, de lambe-botas da Alemanha, de continuar na senda da venda ao desbarato do País e na senda do empobrecimento dos portugueses - os socialistas, os filiados e os apoiantes, vão continuar maria-ameliamente incapazes de ir para a rua, de darem as mãos numa luta que impõe mobilização a sério?
Caraças. Os direitolas todos unidos, em peso nas televisões, nas capas dos jornais, tudo a aldrabar, a prometer mundos e fundos, a espalhar atoardas e embustes... e os apoiantes do PS, armados em meninas, a chorarem pelos cantos? Caraças.
Por isso, só espero que acordem rapidamente. Já só têm uma semana. Apareçam, chamem a comunicação social, dêem entrevistas, mostrem força, convicção.

E, depois, quando tiverem a vitória nas mãos, façam uma gestão acertada dela, não desperdicem a confiança dos apoiantes, pensem com os olhos no futuro, sem concessões a interesses espúrios, sem provincianismos interesseiros, sem mediocridade mas, sim, com competência, humanismo e grandeza. 

Mas isso é depois. Agora o que é preciso é ir buscar a vitória. Fazem, portanto, o favor de se despacharem e mostrarem que não têm sangue de baratas. Derrotem os PàFs. Mas derrotem à séria. 



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  • As pinturas em azul (que acho lindas) são do pintor argentino Juan Lecuona. 
  • Noche Azul é da autoria do compositor cubano Ernesto Lecuona e é interpretada no piano por Thomas Tirino. O vídeo mostra imagens de La Habana à noite
  • O poema "Não viemos aqui para ser felizes" é de Gastão Cruz in Óxido
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E agora, se estiverem para aí virados, desçam até ao post seguinte onde falo do inquietante novo filme de Woody Allen.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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O homem irracional - ou como pode ser perturbante não se conseguir identificar com exactidão o ponto em que se atravessa a fronteira entre o bem e o mal


Estava in the mood para ver um filme romântico, até podia ser uma coisa na base da comédia soft-depressive. 


Fui, pois, ver o Homem Irracional. Um Woody Allen que se preze terá sempre alguma pancada a polvilhar o charme discreto da burguesia, bons ambientes, decorações agradáveis, um romancezinho bem gramaticado.


Mas este filme não foi bem isso. Nadinha. Sim, tem romance, sim tem bons ambientes, tem academia, boas casas (e casas com livros), gente com aquele desequilíbrio que tem os seus laivos de sedução - mas depois tem aquele elemento de casualidade (e aqui a palavra casualidade derrapa perigosamente para o sentido da palavra quase homónima em língua inglesa) que, aos poucos, vai introduzindo ansiedade no argumento.

Claro que não vou falar na história mas, para mim, mais perturbador talvez que tudo tenha sido a ideia que me passou pela cabeça quando saí de lá. Comecei por calá-la. Mas depois verbalizei-a, mas verbalizei-a com má consciência - até porque me estava a referir a uma pessoa muito conhecida e muito na ordem do dia cá no burgo. Quem me ouviu, acenou que sim.
E quase parecia que sim, que há casos em que parece plausível que a alguém ocorra fazer uma coisa assim com um pretexto moral. 
Temas em que é difícil pensar, estes.

O personagem principal, desempenhado por Joaquin Phoenix (uma vez mais uma interpretação low profile mas, como sempre, também a pisar o limiar da inquietação), é um professor de filosofia e, portanto, há referências filosóficas ao longo de todo o filme. Hannah Arendt, claro, vem à baila. Mas nem é bem a banalidade do mal: é mais a indefinição moral do mal que pode levar a que, por um bom motivo, se enverede pelos movediços caminhos do mal. 

O bem e o mal, o crime e o castigo, o amor e o dever, a felicidade e a angústia - tudo isto anda de mãos dadas e a questão está em saber discernir onde se encontra a linha ténue (e móvel) que separa os opostos.

Perturbante.




Mais informação aqui.

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sábado, setembro 26, 2015

Entre a sombra e a alma




Passa, e muito, das duas da manhã e agora é que aqui estou. Nem devia estar mas tenho isto de não querer deixar passar um dia sem vos deixar uma palavra minha (parece que me acho importante mas que hei-de eu fazer?, é uma mania ou um hábito, não sei, capaz de ser vício, sei lá). As sextas-feiras têm disto: ou por programas meus ou alheios, acabo por ter ocupações extra que dão nisto.

Tenho sono, muito, e não consigo ter ânimo para falar de sondagens, eleições, o que quer que seja. De resto nem sei se aconteceu alguma coisa de jeito neste nosso paísinho. Presumo que não.

Já fui saber se me tinha saído o euromilhões mas tive uma má notícia: saíu, sim senhor, mas foi para o Reino Unido. Bolas, o jeito que me dava.

Ao dar um rápido giro pela net, vi que os sexólogos afirmam que existe o ponto G dos homens, acho que se chama ponto P. Mas tão perdida de sono estou que agora, minutos depois de ter lido, já não encontro o artigo. Bolas. Mas, pronto, ao menos lembro-me que tem a ver com a estimulação prostática. Se estivesse acordada, isto dar-me-ia pano para mangas mas, a dormir como estou, só me ocorrem inconveniências. Por isso, deixa-me mas é ficar caladinha para não atentar contra a moral e os bons costumes.

Enquanto escrevo (e vocês, seus preguiçosos, todos a dormirem), estou a ver uma moça, na televisão, na SIC Mulher, com voz de betinha, toda habilidosa, a fazer quadros, caixas, individuais. Acho que o programa se chama O mundo de Sofia. Como gosto de fazer trabalhos manuais até me apetecia prestar-lhe atenção mas, se me ponho a aprender aquilo, ainda me passa o sono e eu quero ir daqui direitinha para a caminha.

Portanto, pedindo-vos desculpa por isto hoje não ter uma linha de rumo, deixo-vos com um poema que andava a ondular na minha cabeça.
Não sei que é isto comigo, em vez de me portar como uma avozinha, ando sempre toda por aqui dada aos amores, aos romantismos. De tarde, ou melhor: ao cair da noite, ao vir no carro com dois dos meus pimentinhas, vinha a ouvir a música habitual. Diz-me o mais velho, 'Ó Tá, põe lá outra coisa, não me apetece continuar com essas tuas músicas românticas'. Fartei-me de rir. Vinha a ouvir música sacra.
Há bocado, ao deitá-los, o mais novo foi chamar-me à sala dizendo que não conseguia dormir. Lá fui com ele até ao quarto. Disse o mais velho 'Ó Tá, é que ele não gosta do escuro e eu já não sei o que lhe hei-de dizer mais. Já lhe disse para fechar os olhos e pensar em azul, porque ele gosta tanto de azul. Mas ele não é capaz, diz que, quando fecha os olhos, só vê preto. Eu não, eu como gosto de verde, fecho os olhos, penso em verde e, pouco tempo depois, já tenho a cabeça cheia de verde'. Fiquei encantada com esta conversa. Não dei troco porque estava era a ver se adormeciam, que era tardíssimo e eles só na palheta mas esta, em condições normais, daria para mil devaneios, mil voos entre cores, flores, recortes de luz.


Bem. Não vos maço mais com esta minha converseta que não leva a lado nenhum. Deixo-vos, então, com o tal poema  - aqui na versão inglesa - e dito pela voz mais cansada e poluída da história dos diseurs e que, por isso mesmo, é uma voz capaz de me levar por maus caminhos. 


Soneto 17 (dos 100 Sonetos de Amor) - Pablo Neruda - dito por Tom O'Bedlam

I do not love you as if you were salt-rose 
(No te amo como si fueras rosa de sal, topacio )




No te amo como si fueras rosa de sal, topacio 
o flecha de claveles que propagan el fuego: 
te amo como se aman ciertas cosas oscuras, 
secretamente, entre la sombra y el alma. 

Te amo como la planta que no florece y lleva 
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores, 
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo 
el apretado aroma que ascendió de la tierra.

Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde, 
te amo directamente sin problemas ni orgullo: 
así te amo porque no sé amar de otra manera, 

sino así de este modo en que no soy ni eres, 
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía, 
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.
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Quanto ao mais: se a coligação de PàFs ganhar o País ficará de vez em cacos e eu acharei que mais valia era que os portugueses emigrassem todos de vez para ver se vinham para cá outros com mais tino, capazes de votar em quem os defenda.


Enfim.
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A fotografia lá em cima mostra a quarentona Kate Moss fotografada para a Vogue Paris pela dupla Mert Alas & Marcus Piggott

Não sei quem pintou aquelas cores tão bonitas do mural ali acima - mas é uma graça, não é? 

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado. 
A ver se durmo até tarde para ver se mais logo consigo escrever alguma coisa que se aproveite -- o que, como é sabido, não é fácil para criaturas de miolo fraco como esta que aqui tendes perante vós. 
Adiante.

Quanto ao mais: se a coligação de PàFs ganhar o País ficará de vez em cacos e eu acharei que mais valia era que os portugueses emigrassem todos de vez para ver se vinham para cá outros com mais tino, capazes de votar em quem os defenda.

Enfim.
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Portas e Passos sem vergonha na cara, parece que estão a gozar com os portugueses. A minoria que apoia o Governo que tão mal tem feito ao País. A maioria que não quer mais este Governo. Os indecisos e descrentes que podem trazer esperança ao País. E Sócrates e os segredinhos e truques de que os juízes dizem que ele foi vítima.
Um pouco mais de sol - eu era brasa, Um pouco mais de azul - eu era além.
Quase - nove vídeo do Cine Povero


Depois do mano a mano que colou corpo com corpo no post abaixo, é com algum esforço que desperto para a triste realidade. Mas, enfim, noblesse oblige (que é como quem diz). Vamos lá, então.


Um pouco mais de sol - e fora brasa, 
Um pouco mais de azul - e fora além. 
Para atingir, faltou-me um golpe de asa... 
Se ao menos eu permanecesse aquém...




Por vezes aqui há um País onde parece ser bom viver. Aqui a terra é muito bela, há muito mar, as serras são verdes e trazem rios no regaço, os campos florescem de amarelo, azul, lilás. Aqui as pessoas são afáveis, acolhedoras, serenas. Por vezes, aqui crê-se que pode ser bom viver. 

Nessas alturas as crianças nascem mais, os teatros animam-se, há festas, há alegrias, os cientistas vêm de todo o mundo para estudar ao sol, as empresas crescem, há mais trabalho, os velhos não temem a pobreza, os filhos não se vão embora para longe dos pais, os irmãos não se separam, os maridos não vão trabalhar para longe das mulheres e dos filhos, os doentes não precisam de escolher a doença a que se vão tratar.

Nem sempre este País é assim. Mas já tem sido.

Mas, por vezes, os portugueses enganam-se e deixam que os medíocres invadam os corredores do poder, se sentem onde lhes cheire a mando e a dinheiro. Nessas alturas, a vergonha alastra entre os habitantes deste País. Percebem que, sem querer, elegeram mentirosos, gente que os engana, que vende o país ao desbarato, que rouba aos mais pobres para pagar aos escritórios de advogados ligados a ministros e deputados, que rouba os desempregados e doentes para pagar aos consultores que os aconselham a facilitar a vida aos mercados. 


De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quasi, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se enlaçou mas não voou...


Mas é um País de gente boa, este. Gente tolerante, a do meu País.

Vêem que a Justiça prende sem que formule uma acusação, prende para devastar a vida de quem quer, prende a estimula intrigas deixando que mentiras passem para os jornais, vêem os tribunais paralisados durante meses e os processos a acumularem-se durante anos. Vêem hospitais cheios de macas, doentes em fila na rua para um exame médico, vêem as investigações científicas desapoiadas, o ensino de adultos suspenso, a regeneração dos espaços públicos das cidades paralisada, vêem o investimento parado, a indústria anémica, vêem os jovens a partir, vêem os ministros a mentir-lhes, vêem a dívida a subir, vêem que todos os sacrifícios foram em vão - vêem isto tudo e, apesar de tudo, ainda há alguns que acreditam nas mentiras e ignoram o que os seus olhos lhes mostram. Paciência. Haverá sempre quem goste de ser escravo, de ser explorado, de ser manietado. Haverá sempre quem não sonhe, quem se acomode a uma vida sem sentido.

E há aqueles que desacreditam. A minha mãe agora está assim, diz que se calhar são todos uns mentirosos como estes, fala de Passos e Portas com desprezo, chama-lhes aldrabões. Mas receia que os de outros partidos se transformem também em gente má. Peço-lhe que não diga isso, que dê uma hipótese, peço-lhe que, se tem tanta raiva, como tem, a estes que agora estão no Governo, pois que vote contra eles, que não queira que um dia os netos tenham que emigrar. Quando lhe digo isto, assusta-se. Tem tido a sorte de ter a família inteira em seu redor, nunca pensou que não é apenas aos outros que acontece terem que ir para longe.


Momentos d'alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar...
Ânsias que foram mas que não fixei...


Mas eu acredito que, nestes últimos dias, os que se deixaram cair em desânimo nestes malditos quatro anos em que fomos tratados como se a nossa dignidade não merecesse respeito, irão reagir e mostrar que não mais se deixarão pisar. Acredito que a esperança falará mais forte. Acredito que sairão de casa e irão mostrar, com o seu voto, que não querem mais que a gente deste governo continue a vender o País e a maltratar os portugueses.

Num ímpeto difuso de quebranto, 
Tudo encetei e nada possuí... 
Hoje, de mim, só resta o desencanto 
Das coisas que beijei mas não vivi... 

Acredito que os novos que ainda não viram que o destino do seu País está também nas suas mãos e que os velhos que pensam que já não vale a pena lutar irão largar quebrantos, desânimos e desencantos e irão votar contra este Governo e escolher outra gente.

Acredito que o dia 4 de Outubro vai ser um dia feliz para Portugal e espero que, nessa noite, eu esteja aqui a festejar convosco, meus Caros Leitores. E vocês também comigo. Que nos sintamos, de novo, esperançados no futuro deste nosso País, tão belo, tão bom.



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Uma vez mais, uma palavra sobre Sócrates. Muitas vezes aqui o disse: Sócrates ainda não foi acusado de nada. Com a decisão do Tribunal da Relação de Lisboa começa a temer-se que este caso venha a ser, afinal, apenas uma mancha na honra da Justiça portuguesa. Finalmente Sócrates vai poder conhecer quais os segredos que lhe estavam vedados, vai poder defender-se. Desejo que de nada haja que o acusem e, se o acusarem, que de nada seja culpado. Desejo isso porque me custaria muito perceber como poderia uma pessoa como ele cometer actos ilegais. Mas também o tenho dito: se a Justiça o vier a julgar -- e a julgar com decência -- e se vier a provar-se que uma condenação lhe é devida, descrerei da minha capacidade de avaliar os outros e aplaudirei a sua punição. Mas, enquanto isso não acontecer, acho que, como qualquer cidadã livre e justa, não o julgarei eu -- e alegrar-me-ei de cada vez que a Justiça funcionar, como foi agora o caso.

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Ouçamos e vejamos o poema

Mário de Sá-Carneiro :: Quase / Dito por Carmen Dolores


Um vídeo do CINE POVERO



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  • As fotografias que mostram edifícios decadentes são da autoria de Christian Richter. A última, da jovem com um balão, é de  Nemanja Milenkovic
  • Dado o adiantado da hora, não levem a mal que me limite a transcrever a ficha técnica da música:
"Great Ektenia" from Liturgy of Saint John Chrysostom, Op. 31 (Sergei Rachmaninov)  from "Sacred Treasures: Choral Masterpieces From Russia" (Hearts of Space Records)
Performed by The Russian State Symphony Capella, directed by Valery Polyansky
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Gostei muito de escrever o post que se segue: um tango em palavras, ao som de uma música e com o acompanhamento do fabuloso tango do Al Pacino, nos braços de quem qualquer mulher gostaria, certamente, de deslizar.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.

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sexta-feira, setembro 25, 2015

Vem, vamos dançar um tango







Aí onde estás, amor meu, não me vês. Eu estou aqui, estou a falar contido - mas tu não me vês. Fecha os olhos, faz de conta que és cego. Poderás ouvir as minhas palavras, inventar o calor o meu corpo, imaginar o perfume que se desprende dos meus cabelos - apenas não me poderás ver. Aguça, pois, todos os teus outros sentidos, incluindo o da paixão.

Não serás de danças, eu sei. Gostarás de ouvir a música, imagino-te talvez deitado no chão, talvez de olhos fechados, talvez sentindo a vibração que liga a terra, o teu coração, os teus pulmões, todo o teu corpo inquieto ligado à paixão de quem a compôs. Os acordes farão vibrar as cordas da tua emoção, imagino.

Mas hoje não. Hoje quero-te de pé, disponível para mim.

Deixa que eu te ensine, da dança, o sabor do tango; da vida, o enleio da paixão. 

Para começar, meu querido, pensa que nada tens a provar. Quero-te como se tivesses nascido hoje vindo directamente para os meus braços. Quero-te sem nada saberes, sem nada temeres.

Vem. Dá-me a mão, deixa que te leve para o canto mais escuro da rua, lá onde não há janelas de onde nos vejam, nem sombras, nem sustos. Vem. Somos só nós dois, nós e o tango que nos chama.

Aproxima-te. A partir de agora entrega a tua vontade nas minhas mãos. Não penses em nada, deixa-te apenas levar pelo desejo de me conquistares.

Não receies o meu corpo nem o que eu vou fazer com ele. A cada passo teu, o meu corpo ampliará a emoção e rodopiará entre os teus braços, eu toda entregue ao prazer de te conquistar. Nada faças, acompanha-me apenas.

Sente o meu perfume, sente a minha pele, sente como o meu coração bate junto ao teu. Abraça-me, a tua mão deslizando nas minhas costas nuas. Encosta os teus lábios ao meu pescoço. Deixa que a minha perna rodeie a tua, deixa que a tua se aventure entre as minhas, faz-me rodar até que uma vertigem me atire ainda mais para os teus braços.




Mas espera. Espera. Espera. 

Simula que me rejeitas. Simula. Farei o mesmo. Rebelde, afastar-me-ei. Rejeito-te, eu. Mas não demores, não deixes que me tome de amores por outro. Sou tua, és meu. Procura-me, pois, persegue-me, rapta-me, envolve-me, encosta o teu corpo ao meu, deixa que o meu peito sinta a tua face, o calor dos teus lábios frementes. Domina-me, desequilibra-me, faz com que apenas os teus braços me sustenham. Não me deixes cair, estou nas tuas mãos. Cuida de mim, acarinha-me.

Mas.

Não te iludas.

Deixa que te engane, quero que penses que nada sou sem ti, quero que te entregues ao engano da posse. Toma-me que eu vou deixar-te tomar-me, quase, quase. Depois vou mostrar-te que não tenho dono, que me dou a mon seul désir, que me deixo embalar e conquistar apenas para me dar prazer. E a ti. E a ti, que te quero dar prazer. Conquistas-me e eu conquisto-te, eu e tu, corpo a corpo, o meu coração nas tuas mãos, o teu corpo à minha disposição, meu, meu, pour mon seul plaisir.

Não, não acredites. Para meu só, não. Para nosso prazer, dos dois, dos dois. Amor.

E, agora, chega. Respira. Respira, amor meu. Respira. Respira devagar.

E descansa, que os teus braços me envolvam, que o meu amor te sossegue. Te sossegue, mas não muito. Mas não muito. Mas não muito, amor meu.

A lua desceu o olhar. Ama-me de olhos fechados, cego ao mundo, e acende bem vivo o fogo silencioso da tua paixão. Ama-me. Ama-me.




quinta-feira, setembro 24, 2015

Nesta imperfeita madrugada em que as línguas dos homens e dos anjos se confundem


Desenho no ar uma história. De aproximações e recuos se faz uma vida, de danças e contradanças, de medos e coragens. Desenho com palavras, com sonhos. 





Um homem atravessa os campos, os ventos, as neblinas, os tempos, e na sua cabeça traz poemas e nas mãos quase nada. Mas caminha apressadamente, como se conhecesse o seu destino.
Uma mulher vem pelos campos floridos, atravessa as ervas que ondulam ao vento, bebe água de um regato, senta-se com vagar a sentir os cheiros. Não traz nada nos bolsos nem nas mãos mas o coração vem cheio de afectos. 
O homem pouco fala, ouve, e diz poemas como se falasse. Ninguém o ouve, di-los para si próprio. Ou talvez tenha dito a outras mulheres, noutras vidas. 
A mulher não o conhece. A mulher não espera nada, passeia pela vida com a leveza das mulheres muito amadas.



Os tempos escurecem, chove. O tempo passa. O homem não conhece a mulher, não conhece muito de amores vividos ao ar livre, sob a copa das árvores, não conhece a pele nua das mulheres dormindo ao sol. Mas conhece tantos livros, tantos poemas, tantas músicas. 
A mulher abre livros sem tino, lê poemas como se apanhasse folhas douradas no chão, ao acaso, não sabe um poema de cor, não reconhece as músicas que ouve. Flutua na vida, atrás de si não ficam sombras, não transporta memórias.
O homem vem de outros tempos, por vezes os olhos carregados de sombras, por vezes em silêncio. Outras vezes, abrem-se à luz, esperam uma palavra.
A mulher ouve os pássaros que a chamam, sente o perfume das flores, e arrisca. Atreve-se ao caminho, cruza o portão, entra no labirinto.
O homem teme, não conhece da vida as asas, das mulheres os risos francos. Mas arrisca. Abre a porta. Espera no labirinto.




Alguém diz, então:
como dizer aos meus olhos que se afastem
do incêndio que lavra a oriente do teu sangue
rasgando a minha fome

e me protejam nesta imperfeita madrugada
em que as línguas dos homens e dos anjos
se confundem

Desconhecidos, em frente um do outro, olham-se com estranheza: quem disse estas palavras? 

A mulher respondeu: eu ouvi as palavras. Foste tu que as disseste.

E o homem: eu também ouvi. Foste tu.

Mas não acreditaram. Aproximaram-se, ele transportando os seus poemas infinitos, ela transportando o seu coração cheio de afectos. Não se conheciam mas era como se soubessem que jamais se poderiam separar. Abraçaram-se como se toda a vida tivessem caminhado na direcção um do outro.

ou seja:
o primeiro homem olhando a primeira mulher




Depois a mulher perguntou: quem deu o primeiro passo?
O homem disse: fui eu.
A mulher disse: eu achava que tinha sido eu.

Sorriram. Abraçaram-se de novo. Pensaram que nunca mais se poderiam separar. Depois beijaram-se. A seguir, de mãos dadas, seguiram pela estrada, contando coisas um ao outro.

subitamente as palavras romperam de nós
com uma fúria que não lhes conhecíamos

contou mais tarde a mulher. 

e a verdade é que nunca terei outra história
para além da que nos aconteceu
e que ficamos à espera de um dia perceber melhor
porque nunca ninguém se prepara convenientemente
para a chegada do amor.

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E aqui acaba o sonho construído em cima de um beijo inventado.

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As fotografias são de Takashi Yasui

Louis Armstrong interpreta "A Kiss to Build a Dream On"

Os excertos de poemas são de Alice Vieira in "Dois corpos tombando na água"

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E, antes de me despedir, convido-vos a descerem até ao post seguinte onde explico que é devido a uma bexiga sempre a deitar por fora que Passos Coelho e Paulo Portas mentem a toda a hora. Um artigo científico suporta esta afirmação.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quinta-feira muito feliz. 

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Passos Coelho e Paulo Portas andam sempre com a bexiga cheia. Mais vale mesmo ninguém se aproximar muito deles, senão, nalgum momento de aperto, ainda se arrisca a apanhar com uma mijadela em cima.


O irrevogável Portas diz que isto de o défice de 2014 afinal ser muito superior ao contabilizado não é drama, qual o mal?, até é tranquilizador, diz ele. 



Sobre o défice de 2015 ser, certamente, bem superior ao anunciado, mostram que também não é coisa que lhes tire o sono. Se lhes perguntam, sorriem, arzinho superior, e desvalorizam como se nem percebessem o interesse da questão.

Passos Coelho ri-se e, com ar gabarola, diz que, com isto de não conseguirem vender o Novo Banco, o Estado até está a ganhar juros (escamoteando mil coisas e distorcendo outras tantas). Com aquele ar de quem não tem vergonha na cara, ri-se, parece que tudo o que é mau, para ele e para os portugueses até é bom.


Nada lhes faz mossa. Quanto mais se descobre a desgraça que tem sido a governação, mais eles se riem e dizem que foi um sucesso. 

Tomaram-lhe o gosto. Perceberam que, quanto mais mentem, mais as sondagens lhes são favoráveis.

E ou o País é um redil de mansarrões que, quanto mais os tratadores lhes batem e roubam, mais se lhes afeiçoam, ou as pessoas que estão a responder às sondagens andam sempre com os copos - ou eu já não percebo nada disto.

De resto, o que tenho a dizer é que, passeando aqui pelos jornais online, acabo de descobrir que a dupla de cabecilhas dos PàFs anda sempre com a bexiga a rebentar, um balão prestes a esguichar.

Transcrevo:

Mente melhor quem mente de bexiga cheia


Um truque improvável! Que a ciência confirma.



Um grupo de investigadores acaba de revelar um truque improvável para contar uma boa mentira: ter a bexiga cheia. Um estudo realizado na Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, mostrou que o auto-controlo e inibição necessários para aguentar antes de uma ida urgente à casa-de-banho acabam por aplicar-se a outras tarefas realizadas quando se está nesse estado, incluindo, por exemplo, mentir.(...)

O estudo mostrou que aqueles que tinham bebido mais água contavam mentiras muito mais convincentes, com respostas mais complexas e menos sinais físicos de estarem a mentir. De acordo com a principal investigadora, Iris Blandón-Gitlin, o resultado justifica-se com a ativação dos mecanismos cerebrais para controlo de impulsos que acontece quando é preciso aguentar a vontade ir à casa-de-banho.(...)

O jornalista da revista New Scientist sublinha que a técnica já era usada pelo primeiro-ministro David Cameron, que dizia que aguentar a urina antes de discursos importantes ou reuniões de negociação, visto que a vontade de urinar o obrigava a estar mais concentrado e a falar de forma mais convincente.


[Artigo completo no DN]