Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, agosto 31, 2015

Todos os rostos e nenhum


Não é a primeira vez que aqui falo dela. Ninguém sabe quem ela é. E digo 'ela' porque assim se apresenta e admite-se que, ao menos isso, seja verdade mas, volta e meia, surgem hipóteses dadas como prováveis que a dão como sendo um outro muito conhecido escritor, homem. Não se sabe. 

O que se sabe é que é uma das escritoras mais conceituadas da actualidade. Dão-na como italiana, supostamente napolitana - já que ela o refere. Falo de Elena Ferrante que, naturalmente, também não se chama Elena Ferrante.


Desde que publicou o seu primeiro livro, em 1992, que a sua opção foi esta: o que havia de valer seriam as suas palavras e as histórias dos seus livros, não o seu rosto nem a sua própria história.

Claro que este anonimato tem concitado toda a espécie de curiosidade mas a autora não desarma: não, não e não. Não se mostra, não diz quem é. Responde por escrito a entrevistas, a algumas entrevistas, poucas - e é se querem.

Escuso de dizer que acho muito bem pois é essa justamente a minha atitude perante os livros: gosto do que leio sem querer saber da vida de quem o escreveu. Posso até dizer que não gosto muito de ver os escritores a exporem-se em feiras ou a darem entrevistas em que se desvendam como se esse strip-tease valorizasse a sua obra. 
Ou melhor: não é bem isso, não estou a ser rigorosa. Até gosto de ler entrevistas a escritores mas falando da sua actividade de escritores; ou até gosto de ler entrevistas, em geral, a pessoas interessantes -- mas não gosto de ver essa exposição ser posta ao serviço do marketing dos livros escritos pelos entrevistados até porque, nesse caso, geralmente, são entrevistas fúteis, irrelevantes. 
Não sei se me faço entender mas deixem, são coisas minhas que acho que os escritores devem recuar perante os seus livros. E devem fazê-lo até por humildade já que os livros, se forem bons, perdurarão e o corpo de quem os escreveu não. Mas o que eu penso aqui, agora, não vem ao caso.

Vem isto a propósito de uma entrevista que Elena Ferrante concedeu à Vanity Fair: Elena Ferrante Explains Why, for the Last Time, You Don’t Need to Know Her Name



[Permitam que traduza um excerto pois acho o tema interessante.
Anonimato, clandestinidade, segredos - e, no entanto, não nos esqueçamos:
les plus grands secrets se cachent dans la lumière.]



O motivo, nada a fazer..., é o lançamento do seu último livro, The story of the lost child.

.....

Romance


......


De facto, onde é que trabalha, em que local?

Onde o possa fazer. O importante é ter algures um pequeno recanto. Ou seja, um pequeno espaço.

O que faz para descontrair?

Dedico-me a tarefas domésticas maçadoras.

É interessante que você -- escolhendo manter secretos alguns detalhes sobre a sua identidade -- em certo sentido, se tenha apagado a si própria. Poderia escrever tão honestamente se fosse uma figura pública? Ou isso não interessa para nada?

Não, se uma pessoa escreve e publica dificilmente se apaga a si própria. De facto, eu tenho a minha vida privada e pública completamente representadas nos meus livros. A minha escolha foi, de certa forma, diferente. Eu simplesmente decidi de uma vez por todas, há 20 anos, libertar-me da ansiedade da notoriedade e da necessidade de fazer parte do círculo das pessoas bem sucedidas, aquelas que acreditam que ganharam sabe-se lá o quê. Isso foi um passo importante para mim. Hoje sinto, graças a esta decisão, que ganhei um espaço próprio, um espaço gratuito (ou livre), onde me sinto activa e presente. Ceder face a esta decisão seria muito doloroso.

No entanto, ainda me sinto curiosa sobre o que leva um autor - especialmente uma autora tão bem sucedida e tão aclamada pela crítica - a escolher manter-se anónima?

Eu não escolhi o anonimato. Os meus livros são assinados. O que se passa é que me retirei dos rituais onde os escritores são mais ou menos obrigados a representar de forma a apoiar o seu livro emprestando-lhe a sua dispensável imagem. E tem funcionado bem até aqui. Os meus livros demonstram cada vez mais a sua independência pelo que não vejo razão para mudar a minha posição. Seria deploravelmente incongruente. 

O escritor nunca quer que o leitor sinta a sua presença, nunca quer chamar a atenção para si próprio, e, no entanto, um leitor atento saberá detectar aqui e ali algumas das impressões digitais do criador. Que direcções poderia indicar aos leitores desesperados de forma a que pudessem encontrá-la a si no seu trabalho (para além de os mandar dar uma volta?)

Tanto quanto sei, os meus leitores não desesperam de todo. recebo cartas de apoio a favor desta minha pequena batalha pela centralidade do meu trabalho. Evidentemente, para os que amam literatura, os livros bastam.
.....

Nem mais.

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  • As fotografias que usei para acompanhar o texto mostram mulheres que se expuseram perante Steve McCurry, da série Retratos.

Portraits reveal a desire for human connection;
a desire so strong that people who know they will never see me again
open themselves to the camera,  all in the hope that at the other end
someone will be watching, 
someone who will laugh or suffer with them.

A primeira foi feita em Itália, a segunda na África do Sul, a terceira na Etiópia, a quarta no Brasil e a última na Indonésia. 
  • O Romance de Liszt é interpretado por Lang Lang.
  • O artigo completo com a entrevista de Elena Ferrante pode ser lido aqui.
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E permitam que vos convide a descer até aos dois posts abaixo: aos Mirós deixados à beira-mar e aos veleiros deslizando sobre um rio de luz. 

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela, belíssima semana, a começar já por esta segunda-feira.

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Miró à beira-mar


De manhã fui caminhar na praia. Para mim, cada vez mais, estar na praia é sinónimo de caminhar junto à orla do mar. Excepto quando em grupo, que aí é certo que terei que pousar, a praia para mim é lonjura, andar na areia molhada, sentir o espraiar das ondas, andar, andar.

Ao longo da caminhada vou reparando nas pessoas, vou reparando no que fazem, vou lamentando não poder fotografá-las, tantas tatuagens, os corpos todos pintados, e corpos ginasticados, o corpo como um instrumento passivo da vaidade, ou corpos vencidos pela vida, ou corpos nus, lisos, sem pêlos, quase estranhos, ou corpos torrados pelo sol, ou gente solitária, caminhando também ou simplesmente olhando o mar, ou casais, ou encontros clandestinos esgueirando-se pelas dunas. Disfarço, finjo que não reparo. E, assim, vou deixando que o olhar vá ao longo do horizonte, para longe, longe, o areal só uma linha clara ao longe, perdido entre a neblina do mar, ao longe.

Depois, à vinda, já mais cansada, venho mais devagar, e vou atentando nos despojos do mar - conchas, penas, limos, cores suaves, lavadas - e, então, começo a fotografar estas pequenas composições que as águas aleatoriamente desenham no areal.


Há muitos, muitos anos, vi uma exposição de Miró. Por essa altura ainda eu sentia alguma estranheza perante o que não me era evidente. Olhava as telas pintadas com pontos de cor, sinais inocentes, incompreensíveis signos, pequenos nadas, e interrogava-me sobre o sentido de tanto inusitado. Não sabia ainda que o que eu via reflectia o desconhecimento que eu, então, tinha sobre o não-explicado de que a vida é feita.

Com o tempo, fui sentindo que era do estranho e inesperado que o meu gosto se ia aproximando. Aos poucos, o não-explícito passou a ser o que o meu olhar e a minha mente melhor reconhecia.

Depois dessa vez, várias outras vi Miró.

Uma estrela azul, um sol branco, uma lua laranja, uma bailarina, uma nuvem com coração, um sonho a voar, uma chama, uma sombra, um olhar aberto, um avião perdido, um pássaro nunca visto.

Deixei de estranhar porque há muito percebi que o melhor da vida é o que não tem explicação. Há muito que aprendi que o maior prazer vem daquilo que o pensamento não tenta domesticar.

O efémero, o aleatório, o imprevisto, o inexplicável - é daí que hoje vem o que verdadeiramente me emociona.



Assim as pequenas composições que o mar deixou na orla da água e que eu fotografei para vos mostrar.









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Jeux d'eau


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E, aceitem o meu convite e desçam, por favor, até ao Tejo.

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Vers la flamme


Quem assiste a tamanha beleza não pode fazer de conta que não viu. 

Toca-me a beleza o coração, a pele, os nervos, a alma. Toca-me e fica, por instantes, presa a mim.

Fecho os olhos e revejo, dentro de mim, o que o olhar me trouxe de fora. Tanta, tanta beleza.




O Tejo, os cargueiros ao longe, os elegantes veleiros, Lisboa, suave, suave, o sol que se põe, a luz dourada que se encosta às águas. Fecho os olhos e tudo se mistura ternamente com os meus pensamentos.

Fecho os olhos e vejo um céu navegando nas águas de um rio dourado, lembranças de outros dias, sonhos esfumados, poalhas de luz trazidas pela toada doce que escuto dentro de mim. 




Depois a luz dourada desaparece, agora há um brilho metálico, e os barquinhos não parecem de verdade. Talvez lá vão pessoas de verdade mas eu quase não as vejo. 

As águas parecem estremecer ao de leve sob esta luz prateada.

Noto, então: um veleiro vai, afasta-se de mim, segue o seu caminho rumo a um outro horizonte. E outro vem, aproxima-se, pára. E então reparo em alguém que lá vem. Alguém. Alguém trazido pela luz, sobre as águas, braços abertos, talvez o coração também aberto, respirando a beleza infinita a que eu também assisto.

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Grigorij Sokolov interpreta "Vers la flamme" de Alexander Scriabin 

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domingo, agosto 30, 2015

Judite e Marcelo, mais próximos do que nunca...?! Mas quê? Namoram...?! Estão de caso...? E o amigo inseparável de Ronaldo também deixou a namorada...?! Mas onde é que eu andei que não sabia de nada destes mexericos...? E isto é para aumentar a popularidade ou é mesmo a sério? [E o Rangelito, de camisa preta a la Portas, na universidade dos pequenitos, passou-se ou nunca foi bom da cabeça...?]. Ai que não posso virar costas durante dois ou três dias que é logo isto...


Judite Sousa e Marcelo Rebelo de Sousa muito próximos

Judite Sousa e Marcelo Rebelo de Sousa:
o casalinho do Verão 2015?
Pombinhos...? Pré-noivinhos...?

What...?!

Estou afastada da cidade durante três ou quatro dias e é isto...? 

Mal viro costas e logo a Judite Sousa se põe nestes preparos, armada em sexy girl, sorriso deleitoso, olhar tentador, haste dos óculos na boca, toda derretida...? E, por trás, ar de conquistador, o Professor Marcelo de Sousa...? E que estão mais próximos do que nunca...? Mas quão próximos, virgem santíssima...?


E, leio na capa, que ele faz questão de lhe dizer que ela está muito bonita. 

Sério?! Uau...! O prof até já solta a franga...? Piropinhos fofinhos e tudo...?

O que será que se segue? Piscar-lhe o olho à descarada enquanto fala com ela em frente às câmaras, na missa dominical na TVI? Quiçá, mesmo, trepar o pé pelas pernas dela acima...? Ui.

Bem. A verdade é que, na maneira como aparecem ali na capa da revista, ou aquilo é montagem, ou então, de facto, dá ideia de que, se ainda não pintou, pelo menos já rolou... 

Outra notícia da capa da Flash! que me fez espécie é aquela do CR7, o machão que papava todas, modelos nacionais e internacionais, tudo, tudo. Então não é que a fotografia o mostra com um barbudo, supostamente numa selfie, a dizer que são inseparáveis e que o outro também deixou a namorada. Mas o que quer isto dizer...? Que o Ronaldo, mais dia menos dia, vai sair do armário? Mas o moço não era um garanhão encartado...?


Ai minha nossa. Ou:
  • isto são os vulgares epifenómenos da silly season; ou 
  • já vale tudo para vender revistas; ou 
  • eu devo ter estado em Marte enquanto esta gente saíu da casca. 
Alguma das três deve ser.

Ou será que há uma quarta? Será que esta do Marcelo é a versão presidencial do mergulho no rio aquando das eleições para a Câmara de Lisboa?

Mas e aquilo do Ronaldo, senhores...? Trocou a Irina por um urso barbudo? Pode lá ser uma coisa destas...?

Bem, bem... 

Sempre quero ver o que vai acontecer durante a próxima semana.

(A Marilú aparecer às cavalitas do Poiares Maduro, em brincadeirinhas marotas? E a seguir o maridão mauzão partir os dentes à Poiazita? A ministra Anabela aparecer a passar revista às tropas de shorts esfiapados e botim pelo meio da perna? O misericordioso Santana aparecer com a santinha Maria de Belém ao colo? O treinador Jesus aparecer numa selfie comprometedora com o Bê de Carvalho?

Pergunto. Porque dizer, dizer, eu já não digo nada)

....

(Ai! Olha outra...! Ai. Quem me acode?

Então não é que, agora enquanto escrevo, estou a ver na televisão o Rangelito, acho que na universidade dos pequenitos, camisa preta, um look a la Portas, a dizer parvoíces à força toda, bolsando maluquices sem tamanho...? Sandices que metem a justiça, o Sócrates... se bem percebo, diz ele, todo inflamadão, que a Justiça está refém do poder político... A dieta fez-lhe mal à cabeça? Ou foi o sol? Ou terá sido a camisa a la Portas que o contagiou? Ou é o estar no meio das pequenas laranjas que o transtorna?... Ai...

Mas o que é isto, senhores? O que deu nesta gente?)

Sócrates, afinal, está a ser investigado porque o PSD está no Governo...?

Sócrates, afinal, é um preso político...?

(Parece que sim, a julgar pelo que diz o Litinho aos jotinhas).
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Está tudo grosso ou quê?



Anda tudo a fazer pouco da gente. 
Este país perdeu o tino. 
Está tudo grosso, está tudo grosso.

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Permitam, agora, que vos convide a irem até ao meu outro blog, o Ginjal e Lisboa, a love affair. Catarina Nunes de Almeida e Borodin, levaram-me pela mão, bailando na minha imaginação.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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sábado, agosto 29, 2015

De que fogem estas hordas de imigrantes, de refugiados, de invasores esfaimados e aflitos que um dia poderemos ter à nossa porta?


Há dias em que tenho uma em mente mas que me custa tanto que faço de tudo para a evitar. Sei que não conseguirei o tom adequado, sei que posso parecer fútil, leviana, sei que há coisas para as quais não há palavras. Por isso, este é o quarto post de hoje e já andei pelo sex-appeal, pelo humor, pela poesia, pelo amor - tudo para resolver se fujo ao assunto ou se tento abordá-lo. E aqui estou a hesitar. Não sei como mostrar o que penso sem correr o risco de, emocionada que estou, me mostrar lamechas; também não quero parecer panfletária. Ou vulgar.

E, no entanto, já falei algumas vezes disto. Vou falando. Mas acho que me fico sempre pela rama.

Centenas de milhares de pessoas de todas as idades, condições sociais e raças e de ambos os sexos têm vindo a deixar as suas casas e, correndo todos os riscos e sofrendo todos os horrores possíveis e imaginários, põem-se a caminho, morrendo, deixando familiares mortos para trás, em busca de um mundo em que possam viver com dignidade e esperança. Para isso, entregando todas as suas economias e pertences, colocam-se nas mãos de contrabandistas e bandidos e, procurando a Europa - que julgam ser um bom destino - metem-se dentro de barcos ou camiões onde muitos nem respirar podem, ou põem-se a caminho, crianças e velhos ao colo. Imagens que não parecem deste mundo chegam-nos a casa dia após dia, uma sucessão infindável de horrores. O sofrimento daquela gente parece não ter fim. Todos os dias mais dezenas ou centenas de mortos. Afogados, asfixiados. E as estradas cheias, cheias de gente. E comboios pejados de gente assustada, suja, exausta. E acampamentos a deitar por fora. E muros que se erguem. E arame farpado que dilacera os corpos e as almas. 

Andou a civilização a fazer-se, o mundo a desenvolver-se, a ciência e a tecnologia a superarem-se para que tantas centenas de milhares de pessoas passem por isto, como animais fugindo do fogo, como cães esfomeados percorrendo as ruas.

A cambada que ajudou a desestabilizar os países de onde esta gente foge não é agora capaz de ir para lá garantir um mínimo de ordem de modo a que as pessoas não tenham que fugir espavoridas, deixando as raízes para trás, correndo riscos de vida, pondo a vida dos filhos em risco. Ficam-se pelas palavras balofas e de circunstância. Quando foi para decidir ou apoiar as guerras ou os movimentos que provocaram isto, souberam tomar decisões. Agora que o inferno está lá instalado, lavam as mãos e entretêm o mundo com pífias considerações. Um asco de gente.

Não é com conversa que alguma coisa se fará: é indo para lá. Já lá deveriam estar tropas, Capacetes Azuis, não sei - gente que ajude a pôr cobro ao desatino e à crueldade sem rei nem roque que por lá impera.

Não sou capaz de dizer mais que isto porque me faltam as palavras e porque o peito se me enche de angústia. Vou, pois, ficar-me apenas pelas imagens.


De que foge esta gente?



Un drama con rostro

En la imagen, una mujer mira cómo la policía bloquea a un grupo de refugiados que hacen la ruta Macedonia-Grecia. El primero de estos países declaró el Estado de Emergencia el 20 de agosto, abrumado por el número de inmigrantes que llegaban a su país, y movilizó a su Ejército para que vigilara la frontera.


(ROBERT ATANASOVSKI (AFP))


Jugarse la vida

En la imagen, un inmigrante escondido debajo de un tren intenta colarse en él para dirigirse a Serbia, en la estación de Gevgelija (Macedonia). En los últimos días, más de 120 cadáveres de inmigrantes han sido descubiertos en vehículos que se dirigían a Europa y en los que los refugiados viajaban escondidos.


(BORIS GRDANOSKI (AP))


Miles de niños entre los refugiados

Inmigrantes sirios duermen en un parque de Belgrado, Serbia. Son más de 10.000 los refugiados que han cruzado con sus bebés y niños pequeños la frontera de Serbia en los últimos días.


(MARKO DROBNJAKOVIC (AP))

Estado de emergencia

La policía macedonia trata de bloquear a los inmigrantes que intentan entrar en su país. Alrededor de 39.000 personas, la mayoría de origen sirio, han sido registradas a su paso por Macedonia en el último mes. La cantidad abrumó al Gobierno macedonio, que declaró el Estado de emergencia.


(VLATKO PERKOVSKI (AP))


El miedo como compañero de viaje

Reacción de un inmigrante que sostiene a un niño mientras es detenido por las autoridades de Macedonia. Alemania espera este año la llegada de 800.000 refugiados a Europa, “el mayor reto al que se enfrenta nuestro país desde la unificación”, advirtió Sigmar Gabriel, líder socialdemócrata, partido en coalición con los conservadores de Ángela Merkel.


(DARKO VOJINOVIC (AP))


Un hogar en cualquier lugar

Rashina viene de Kobani, Siria. Tiene cuatro años y ha bajado por medio mundo para llegar hasta Europa. En la imagen, descansa en una cama improvisada mientras espera un tren en la frontera macedonia que les lleve a otros puntos de Europa en busca de un lugar donde establecerse.


(OGNEN TEOFILOVSKI (REUTERS))



Fogem de situações como estas, na Síria 




Uma criança síria (Hudea, 4 anos) teria levantado as mãos ao confundir uma câmara fotográfica com uma arma.

(Foto: Osman Sargili)


Homem sírio chora enquanto segura o corpo de seu filho perto de Dar El Shifa hospital em Aleppo , Síria. O menino foi morto pelo exército sírio.

(Foto: Manu Brabo)


Uma mulher ferida, ainda em choque, deixa o hospital Dar El Shifa em Aleppo, Síria em 20 de setembro de 2012, após um bombardeio da artilharia das forças do governo sírio na cidade, no norte da Síria.

(Foto: Manu Brabo)


Uma mulher chamada Aida chora enquanto se recupera de ferimentos graves após o exército sírio bombardear sua casa em Idlib, norte da Síria em 10 de março de 2012. O marido de Aida e seus dois filhos foram mortos no ataque.

(Foto: Rodrigo Abd)


Um menino chamado Ahmed lamenta a morte do pai (Abdulaziz Abu Ahmed Khrer, que foi morto por um atirador de elite do exército sírio) durante seu funeral em Ibid, norte da Síria.

(Foto: Rodrigo Abd)
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A favor da Síria, pela mão atenta e amorosa de Banksy


[Graffiti artist Banksy has reworked his Young Girl piece for the With Syria campaign, to mark three years since the crisis began. The campaign is a coalition of 115 humanitarian and human rights groups from 24 countries, including Save the Children, Oxfam and Amnesty International. According to the coalition their aim is to ensure this is the last anniversary of the Syrian crisis. At the Zaatari camp in Jordan 100 young refugees lit candle and released red balloons, inspired by Banksy to carry messages of hope to Syrians. Report by Genelle Aldred.]

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Obtive as primeiras fotografias, as que têm legenda em espanhol, no El País.
Obtive as últimas fotografias, da Síria, na Obvious

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Por indicação do Leitor ECD em comentário aqui abaixo fui ler e, de tal forma, me revejo no que ali está escrito que me permito transcrever o artigo quase na íntegra.

Os campos, novamente


ANTÓNIO GUERREIRO in Público


Os campos, sob a forma de centros e lugares de retenção, voltaram à Europa e disseminaram-se por toda a fronteira do Sul da União Europeia. São espaços geridos pela polícia, subtraídos à ordem jurídica normal, que funcionam como diques para reter o enorme caudal dos “fluxos migratórios”. A situação está fora de controlo e assemelha-se àquela “explosão” que se deu no coração do continente europeu entre as duas guerras mundiais, assim descrita por Hannah Arendt em O Imperialismo, num capítulo em que a filósofa analisa o declínio do Estado-nação e o fim dos direitos do homem: “[As guerras civis] desencadearam a emigração de grupos que, menos felizes do que os seus predecessores das guerras de religião, não foram acolhidos em nenhum sítio. Tendo fugido da sua pátria, viram-se sem pátria; tendo abandonado o seu Estado, tornaram-se apátridas; tendo sido privados dos direitos que a sua humanidade lhes conferia, ficaram desprovidos de direitos”. E num artigo de 1943, We Refugees, escrito para um jornal judeu de língua inglesa, Arendt terminava em tom de exaltação, como se tivesse acabado de identificar um novo sujeito da história: “Os refugiados representam a vanguarda dos seus povos”. Mas o refugiado que Arendt definiu a partir do modelo do apátrida — produto de uma dissociação entre as fronteiras administrativas do Estado e a realidade política dos homens — implicava, como o nome indica, a ideia de refúgio, tanto geográfico como jurídico: os refugiados judeus que, no início da Segunda Guerra Mundial, conseguiram embarcar para a América tinham um destino que os orientava à partida e contavam com a vontade política de uma protecção. Os actuais “migrantes” que se lançam ao mar para alcançarem o território europeu são, pura e simplesmente, “deslocados”, fogem da guerra e da miséria, na esperança de conseguirem encontrar um lugar, uma direcção, um sentido. Verdadeiros refugiados na Europa, no sentido jurídico da Convenção de Genebra de 1951, são uma ínfima parte deste fluxo de forçados migrantes que, mal entram em território europeu, são ainda menos do que párias: são uma massa incontrolada de indesejáveis estrangeiros, assaltantes contra os quais a fortaleza europeia não consegue erguer muros eficazes nem fazer valer as suas armas de dissuasão. À nossa frente, está a passar-se algo que não queremos olhar: o regresso a formas de brutalização e barbárie, a instauração de espaços anómicos onde, novamente, “tudo é possível”. Sem conseguirmos vislumbrar soluções para o problema, desistimos também de uma vigilância capaz de nos lançar este alerta: os campos que regressaram à Europa, em grande número e por todo o lado, muito embora não sejam regidos pelo regime de excepção que presidiu à tanatopolítica — à política da morte — dos regimes totalitários, não nos dão garantias de que nenhum descarrilamento terá lugar e nenhuma inclinação criminosa latente poderá seguir o seu curso. Não podemos hoje ignorar que há uma lógica terrível imanente ao campo como figura: ele acaba por desenvolver uma zona cinzenta onde todas as situações-limite, à margem de todos os direitos, se tornam possíveis.  (...)

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Permitam que vos informe que a seguir há mais três posts, leves, levezinhos
(uma tentativa de aliviar a consciência)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom sábado.

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Palavras nuas que beijas quando a noite perde o rosto


Depois de, nos dois posts abaixo, ter partilhado convosco dois anúncios espectaculares, aqui, agora, mudo-me para um outro registo: o do prazer maior, o que nos chega através das palavras.

Há palavras que nos beijam 
como se tivessem boca. 
Palavras de amor, de esperança, 
de imenso amor, de esperança louca. 




Palavras nuas que beijas 
quando a noite perde o rosto; 
palavras que se recusam 
aos muros do teu desgosto. 




(O nome de quem se ama 
letra a letra revelado 
no mármore distraído 
no papel abandonado) 



Palavras que nos transportam
aonde a noite é mais forte, 

ao silêncio dos amantes 

abraçados contra a morte
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O poema é de Alexandre O'Neill. Quem o canta no vídeo é a Mariza. 
As fotografias foram feitas in heaven

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E desçam até aos posts seguintes, por favor, que não darão o tempo por perdido
(digo eu - que não sou a autora das habilidades).

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Slurp! - ou: por favor, não faça barulho no cinema, não sorva a Coca Cola nem coma pipocas de boca aberta. Ora veja este delicioso anúncio...!


Depois das valquírias pára-quedistas do post abaixo que só os adultos devem ver, continuo numa de publicidade de alto gabarito e mostro-vos um anúncio fantástico. Trata-se de um anúncio Coca-Cola que tem como pretexto um apelo a que os espectadores de cinema não façam barulho enquanto estão na sala a ver o filme. A ideia é deliciosa e o efeito ainda mais.



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E desçam, por favor.

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Valquírias pára-quedistas (para adultos)


Recebido por mail de um Leitor a quem agradeço, limito-me a transcrever:





Cruzando a fronteira norte da Alemanha, já na Dinamarca, existe um gigantesco supermercado chamado Fleggaard, onde se pode comprar tudo que se pode imaginar, desde bichos de pelúcia até caixas fechadas de vinhos, passando por sabão industrial, tudo com um desconto de 30% sôbre o seu preço regular. Trata-se de "Costco", uma empresa dinamarquesa criada, precisamente, para burlar o fisco alemão. 





Participaram deste comercial mais de 100 mulheres paraquedistas que, em acrobática queda livre, se dão as mãos  para formar uma imagem em que se lê "Máquinas de Lavar roupa Siemens a sómente 269 euros". No final, o comercial diz "Just over the border" (em óbvia alusão à fronteira com a Alemanha.)



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sexta-feira, agosto 28, 2015

Em especial para a Rosa Pinto, que gosta de fotografias de casas, e para a GG, que descobre soluções giríssimas de decoração, aqui mostro três fotografias da minha casa in heaven.


No post abaixo falei-vos de um amigo silencioso que agora aparece por aqui, do lado de fora, a espiar-me com ar circunspecto, e de uma inovação no transporte de caruma e folhas secas.




Aqui, agora, continuo mais ou menos no mesmo comprimento de onda. Tenho andado em limpezas. Hoje foi dia de aplicar restaurador nos móveis de madeiras. Aplico em grandes quantidades para as madeiras absorvem e ficarem hidratadas, com ar feliz. Claro que, nos primeiros momentos, fica tudo húmido, molhado mesmo, reluzente. Mas, depois, a madeira bebe o líquido e fica macia, bonita.

Numa vez em que um senhor da aldeia me arranjou uns móveis, pôs-lhes cera de abelha e as madeiras ficaram lindas mas eu aqui não a tenho e, de qualquer maneira, deve ser mais difícil aplicar cera do que este produto. Gosto imenso de fazer este género de coisas, gosto de ver tudo com ar de novo, limpinho, cheiroso. Amanhã vou aplicar cera líquida nas tijoleiras do chão. Tenho é que escolher uma altura em que tenha a certeza de que o meu marido não vai entrar pois é certo e sabido que, mal acabo de lavar o chão ou encerar, ele há-de aparecer e, se não o intercepto a tempo, fica-me o chão todo espezinhado. É uma luta que travo há anos. Ele diz que é porque eu demoro tempo demais e que, inevitavelmente, a meio, ele há-de precisar de alguma coisa cá de casa. Não sei, o que sei é que não se ensaia nada para pisar o chão molhado; e depois diz que nem reparou.

Mas andava eu nas minhas limpezas interiores, antes de me deslocar para os trabalhos no exterior, quando me lembrei de fotografar algumas coisas para mostrar às Leitoras Rosa Pinto e GG. É capaz de parecer presunção da minha parte isto de achar que vão gostar de ver até porque já antes tenho mostrado imagens cá de casa, mas, enfim, é como se as estivesse a convidar para entrarem, virem ver, virem cá lanchar comigo.

Mas sei que não é nada de especial, é apenas a minha casa - e eu não tenho pretensões a ser grande decoradora mas, enfim, sinto-me bem aqui e as pessoas que cá vêm também costumam gostar. Tem muita luz, muita cor e umas peças antigas que herdámos ou recebemos de presente e de que gosto muito.

Na fotografia abaixo, em primeiro plano, está a mesa depois de lhe ter aplicado o dito produto. Ao fundo, no aparador, debaixo do espelho grande, ao meio, está uma balança das antigas, de pratos (de latão?), com pesos, que era do avós do meu marido e que, dos avós, passou para umas tias e das tias para o meu sogro e, do meu sogro, para nós.

As louças são do Espaço Fortuna, de Azeitão, oferecidas pela minha mãe. A taça grande ao meio da mesa foi comprada por mim em Sagres




Abaixo mostro parte da lareira. Na parede por cima, tenho um quadro que não é um quadro, é um tabuleiro antigo a que foram retiradas as pegas, em que entre a madeira do fundo e o vidro, tem uma seda bordada com desenho e ponto das colchas de Castelo Branco, uma peça muito antiga, feita pela mãe de uma senhora amiga. Essa senhora minha amiga é da idade da minha mãe e a mãe dela fez isto quando era nova, ainda solteira. Por isso, imagine-se quantos anos tem isto. Por tudo e pela sua beleza própria, é das peças cá de casa de que muito gosto.

Na madeira da lareira podem ver-se três peças de artesanato. Uma menina pernalta, peça de artesanato urbano, um Santo António e um copo de barro alentejano, ambos de artesanato mais tradicional. O copo faz parte de um conjunto de jarro e meia dúzia de copos e meia dúzia de pratos que o meu avô, quando eu era miúda, me ofereceu uma vez que fomos passear ao Alentejo. Lembro-me dele, nesse passeio, me querer oferecer alguma coisa e, para surpresa de todos, eu ter escolhido isto. Entretanto, já se partiram alguns pratos e copos. Mas ainda subsistem alguns, memória do gosto que o meu avô fez em me oferecer uma coisa que eu, há tantos anos, já achei tão bonita.

Os livros, como se vê, estão a transbordar da prateleira de tijoleira que ladeia a lareira. Terão que sofrer uma intervenção arrumadora, também eles. Talvez faça um banquinho como aquele que a GG mostrou no outro dia, num comentário que deixou lá mais abaixo.




Aqui em baixo, um conjunto de peças (tralha, diria o meu marido) que tenho mesmo aqui à minha frente, neste momento. Estão no móvel onde está a televisão e o leitor de DVDs. Eu agora estou sentada no sofá em frente, enquanto vejo a RTP 2.

Há uma mulher (ou uma santa?) em madeira, uma galinha, um xilofone, uma ovelha que é uma vela e um buda e ainda há um cubo aberto, dourado, que tem uma vela lá dentro e que praticamente não se vê na fotografia. Na parede por cima tenho um painel de azulejos. Nada disto tem muito a ver uma coisa com a outra mas acho que há nas cores e nesta aleatoriedade algo que tem muito a ver comigo. 




Não parece mesmo que o badocha gordalhufo está no gozo a olhar para a galinha que se pôs ali a tirar o protagonismo à santa? Acho o máximo. Vou variando o que está na sua mira porque me dá vontade de rir a expressão de gozo dele.

Enfim. Maluqueiras minhas.
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Tinha em mente ainda transcrever uns textos divertidos sobre João César Monteiro, um louco encartado, mas acho que por hoje já chega, não vos maço mais. 

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Relembro que, abaixo, poderão saber quem é o agente secreto cujo olhar parece ter vindo do frio e que anda a espiar as minhas andanças campestres.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira. 
Divirtam-se, descansem, sejam felizes - está bem?

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Escuro, olhar fixo e transparente


Enquanto me dedico às limpezas fora de casa - apanhando a caruma, as folhas secas, limpando árvores, cortando pernadas desgarradas e rebentos ladrões - noto que sou olhada. 

Ao contrário do que a maioria das pessoas da aldeia fará, eu faço este tipo de tarefas de fato de banho. Não é que o tempo esteja especialmente quente: eu é que fico cheia de calor com estes trabalhos pesados e, portanto, visto-me à fresca. Conto com o facto de que, por onde ando, não sou vista do exterior (nem tenho visto drones filmadores por aqui). E, se calha estar junto à vedação que dá para a rua e ouvir passar algum carro, o que é raro, desvio-me e escondo-me atrás de algum arbusto.

Por isso, andando eu por ali feita veraneante dada à lavoura, foi com estranheza que me senti observada. Olhei e vi, de facto, um par de olhos claros espreitando.

Como ando sempre munida com a minha máquina fotográfica, aproximei-me. De cada vez que me aproximava, ele saltava e fugia.

Deixei então que voltasse para o seu posto de vigia e continuei a minha lida. Depois, de longe, fotografei-o.




Por fim, já deixava que eu me aproximasse e fixava-me de uma forma que me causava estranheza, um olhar fixo, transparente. 




É um cão muito bonito. Não sei de que raça é, talvez seja rafeiro. O meu marido diz que ainda é novinho. Não sei. Sei que é castanho escuro, pelo sedoso, e tem uns olhos transparentes, atentos.




Gostava de saber o que pensa ele enquanto assim me olha, mas isso ele ainda não me disse. Talvez o faça quando confie mais nesta mulher que por aqui anda de podão, serrote e ancinho (e vestida de fato de banho).
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Já agora deixem que vos conte de uma grande melhoria nas condições de trabalho por estas bandas; descobrimos no Leroy este big balde com rodas. Agora já não tenho que carregar com o contentor pesadão. Com rodinhas, é uma limpeza. 


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quinta-feira, agosto 27, 2015

A difícil vida das pessoas verdadeiramente ricas. Ralações, ralações, ralações.


No post abaixo falei de árvores maduras, de mulheres maduras, de beleza, de um filme sobre um fotógrafo que sabe captar a beleza das mulheres independentemente da sua idade. Peter Lidbergh reuniu seis mulheres que eram lindas nos anos 90 - e que, agora, são ainda mais bonitas.

E estava eu nisto, numa de frescuras e assuntos levezinhos próprios para a estivalidade mental de que me apetece estar imbuída, quando um artigo despertou a minha compaixão. Explico como lá cheguei.




  • Já tinha feito vista grossa, e a muito custo o faço, aos milhares de pobres coitados que fogem da guerra e da miséria, vindo com a roupa do corpo e os filhos ao colo, quando não no ventre, em barcos sobrelotados ou a pé ao longo de estradas e fronteiras;
  • já tinha feito vista grossa às palavras do cherne Barroso que, depois de andar a alinhar em guerras e guerriúnculas que muito contribuíram para a instabilidade e desgraça nos países de onde provêm os imigrantes, anda agora rançosamente armado em moralista;
  • já tinha igualmente feito vista grossa face a Guterres que, centenas de milhares de imigrantes e muitos milhares de mortos depois, resolveu lembrar-se que é Alto Comissário para os Refugiados e acordar e sair à cena, dizendo as vacuidades sensatas e redondas em que ao longo da vida se especializou;
  • já tinha também feito vista grossa face ao que se está a passar na Hungria, uma vergonha, um pesadelo - é que se é certo que a Europa, exangue, desguarnecida e sem liderança, não tem capacidade para absorver ilimitadamente estes muitos milhares de imigrantes (só na Alemanha, este, ano, estima-se que sejam 800.000), não menos certo é que não é fechando fronteiras, erguendo muros ou desatando ao tiro aos desgraçados que se resolve uma crise desta monta;

mas não podia ficar insensível perante a alegria que finalmente parece estar a sossegar o espírito de uns quantos infelizes. É que, nos últimos dias, tinha sido tristeza a mais, aquela tristeza que vem envolta em incompreensão e sentido de injustiça. Refiro-me, claro, à tristeza resultante das desastrosas perdas que os grandes jogadores de roleta, os big capitalistas de casino, os verdadeiros donos do mundo, averbaram perante o descalabro bolsista desencadeado pelo bater de asas da borboleta chinesa - mas que, felizmente (para eles), parece estar a acalmar. 



Além disso, não nos esqueçamos daquela de que nada se perde, tudo se transforma: é quequando alguém muito perde, outro alguém muito ganha. Se Bill Gates, o mais rico dos ricos, andava tristinho por ter dito adeus a $3.2 milhares de milhões no início da semana, já Amancio Ortega, o dono da Inditex (Zara e etc.), ganhou $2.6 milhares de milhões num único dia. 
Milhares de milhões que se ganham ou se perdem apenas porque sim, por nada, por especulação, por desfastio, por sorte ou azar. Zeros que crescem ou diminuem na conta dos verdadeiramente riscos e que valem mais, muitas mil vezes mais, do que as vidas anónimas que tudo arriscam na dolorosa procura por um futuro melhor, num El Dorado que não existe.

Por preguiça, pela qual me penitencio, vou transcrever, tal e qual, o artigo de Emily Jane Fox para a Vanity Fair.

Finally, Some Good News for Billionaires



Investors across the world have been biting their nails over the last week, as global markets careened off a cliff on fears of a slowdown in China.

The bleeding seems to have slowed for now, and no one is happier about that than billionaires.

After days of shaving hundreds of billions of dollars off their collective fortunes, the world’s richest people saw a quick 180. In fact, the top 200 billionaires added $10 billion to their pile of money on Tuesday, according to Bloomberg’s Billionaires Index.

The index measures the wealthiest people across the globe each day based on market and economic changes, and updates net-worth figures, gains, and losses for the billionaires every evening.

This return to raking in the dough is a swift, and likely welcomed, change, though it still doesn’t begin to make up for the agony over the last few days. Just on Monday, Bloomberg reported the world’s 400 richest people lost a combined $124 billion, with 24 billionaires seeing their wealth fall by more than 10 figures. Bill Gates, the richest of the rich, said good-bye to $3.2 billion and Amazon's Jeff Bezos lost $2.6 billion at the start of the week, according to the index. Mexico's Carlos Slim’s wealth toppled to its lowest level since the index started charting wealth three years ago.

This is after these billionaires lost $182 billion last week, which, at the time, was the largest weekly drop in the index’s history.

But at long last, Tuesday brought good news to many rich men. Amancio Ortega, owner of the world’s largest clothing retailer Inditex, added $2.6 billion to his fortune in one day, while LVMH chairman Bernard Arnault tacked on $1.3 billion.

Many American billionaires weren’t so lucky. Sheldon Adelson, Warren Buffett, and Larry Ellison each shed nearly $600 million Tuesday. The Koch brothers both lost $450 million, and for Gates, another $430 million, the Index showed.

This has been a public-service announcement to hug your local billionaire.

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Nem de propósito, o Luís M. Jorge, autor do Vida Breve, com quem em tempos muito discordei mas que sigo por nele reconhecer aquela forma de inteligência desabrida que me agrada, mostrou um vídeo onde a Mariana Mortágua* não passa ao lado desta finança de roleta que vem dando cabo do mundo sem que ninguém consiga encontrar um travão eficaz.

Mas que, ao menos, vamos ganhando alguma consciência para que não sejamos tão facilmente manipulados. Pela oportunidade, coloco também aqui esse vídeo:


Mariana Mortágua: lições do crash




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* Uma pergunta: porque é que os senhores do PS não arranjam alguém que fale da mesma forma cristalina que a Mariana Mortágua e não aparece assim perante o eleitorado, com sentido de oportunidade, com capacidade de desmontagem de embustes e de alerta para os riscos do liberalismo desregulado? É que isto é eficaz, é sóbrio, é útil - e o eleitorado agradece.


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Relembro: abaixo há um vídeo com 6 mulheres muito belas - as que, nos anos 90, eram consideradas das mais belas da indústria da moda.  Peter Lindbergh mostra como agora são mais belas, mais interessantes.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira. 
Saúde, sorte, alegria, leituras, sorrisos, cor, luz, amor e dinheiro para os trocos - é o que vos desejo.

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A beleza das mulheres maduras. Peter Lindbergh reuniu 6 beldades dos anos 90 e mostra-nos agora como agora estão ainda mais bonitas




Se o amor ou o sexo ou a paixão ou essas coisas são coisas mentais, tenho a certeza que também a beleza o é. Quem o feio ama, bonito lhe parece. Mas não precisa, sequer, de ser isto. É que mesmo quem é belo pode parecer feio ou desinteressante aos olhos de quem não está nem aí. Os olhos de quem vê contam muito nisto da beleza.

Olho as minhas árvores secas, adultas, ramos cinzentos, troncos rugosos e cobertos de peles caídas e acho-as belas, extremamente belas.

Com a idade pode a carnadura ganhar alguma flacidez, pode a pele ganhar rugas, pode o cabelo branquear ou enfraquecer, pode a capacidade de visão erodir-se um pouco, pode tudo isso - que a beleza dos rostos ou corpos de quem é olhado com admiração ou carinho manter-se-á intacta ou, até, ganhará uma textura de suavidade.

E isto vale para homens ou mulheres. Há muitos homens que são muito mais interessantes na idade madura do que em jovens; e há homens que eram bonitos em novos e que, com mais ou menos cabelo, mais ou menos barriga, serão sempre lindos aos olhos de quem os ama.




Cindy Crawford, Helena Christiansen, Eva Herzigova, Karen Alexander, Nadja Auermann, and Tatjana Patitz juntaram-se e Peter Lindbergh olhou-as, enternecido, agradecido. E mostra-as maduras, belas como sempre. The Reunion




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quarta-feira, agosto 26, 2015

Uma cabana in heaven, um espaço para pensar (e para ler e para fotografar... e para varrer, limpar, lavar, desbastar...)


No post abaixo falei de três professoras por recordá-las como jovens ou sem idade, em contraponto com as outras que recordo antiquadas, quando não velhas. E, a propósito de viver de acordo com a idade que se sente e não com a que o Cartão de Cidadão indica, mostrei um filme com piada.

Aqui, agora, continuo numa boa. 

Comecei as minhas férias e estou confiante de que vou conseguir ter, de facto, uns dias de descanso. A nível familiar (e, em particular, a nível clínico) tudo parece estar agora relativamente tranquilo e, até à próxima consulta, que é no início da próxima semana, conto ter um período de acalmia, isenta de compromissos, afazeres, combinações. Cheguei a esta altura do ano a precisar mesmo de desligar, de dormir. E se tenho dormido... Hoje estou in heaven e, para começar, já deitei mão ao que se impunha: limpezas a preceito. Varrer, lavar, arrumar, limpar, regar. Amanhã a empreitada continuará porque isto estava mesmo a precisar de uma barrela valente. Curiosamente, este trabalho não me cansa. Pelo contrário, gosto imenso de deitar mão a estes trabalhos braçais. Levantei-me tarde e passei o dia nisto e, pelo meio, estive a ler, deitada, a luz coada a entrar pela sala. 

Para onde quer que olhe, vejo coisas que precisam de arrumação ou reorganização. Por exemplo, os livros aqui na sala em que escrevo estão sem rei nem roque. Nas estantes do corredor, umas que tenho embutidas no meio da parede, os livros estão por autores ou por colecções. Mas estes aqui são os que vou trazendo para o fim de semana ou para as férias e que, por aqui, vão ficando. Estava a limpar o chão e olhei para eles, sem saber o que lhes fazer. Ou os levo de volta para a outra casa, para ficarem junto dos respectivos pares, ou tento encontrar uma ordem lógica para os ter aqui. Assim, parecem-me a prova provada do caos que é o meu gosto literário. 












A ver se amanhã me inspiro e vejo se dou um jeito nesta anarquia. Entretanto, para estes dias em que andarei entre cá e lá, mas tentando arranjar um tempo para ler em sossego, trouxe mais uns quantos. Tenho esta coisa de ler de forma picada, de ler um bocado de um, saltar para outro, encantar-me com a surpresa da linguagem, voltar onde me maravilhei, reler uma passagem, e partir para nova busca.

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Everywhere we go


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Hoje estive com Os Cães de Tessalónica que trouxe mas, pelo meio, com La Cabana de Heidegger, un espacio para pensar, que encontrei caído atrás de um sofá e de que já uma vez aqui tinha falado.


(A Cabana de Heidegger em cima de uns tapetes que tinha estado a sacudir)


Como me identifico com a forte ligação entre o nosso eu mais profundo e um lugar de que se fala neste livrinho tão interessante... Também eu ando pelo meio das árvores a ver como o sol as deixa brilhantes e macias sob a luz dourada, também eu olho o vento nas ramagens, também eu afago com o olhar as suaves montanhas ao longe.

E vejo os traços do tempo nas paredes e, em vez de ter vontade de as pintar, vou é a correr buscar a máquina para as fotografar. Acho-as lindas, a sua beleza evoluindo com o passar do tempo, desenhos de cor que os líquenes inscrevem nos rastos da água da chuva que escorre das telhas. E as folhas caídas, e as sombras das árvores sobre os bancos, sobre os muros, tudo , tudo me encanta. 

Transcrevo alguns excertos do que ele escreveu sobre o lugar que amava de uma forma intensa e que, de certa forma, influenciou a sua obra e intercalo com fotografias feitas hoje, in heaven.




Cuando la luz de la aurora crece en silencio sobre las montañas...

Cuando al comenzar el verano se abre una solitaria flor de narciso en la pradera y una rosa de las rocas brilla bajo el arce...




Cuando el viento, al cambiar de repente, murmura en las vigas de la cabaña y el tiempo amenaza con volverse desagradable...




Cuando en un dia de verano la mariposa se posa en una flor y, con las alas cerradas, se balancea con ella en la brisa...




Cuando la luz de la tarde, inclinándose en algún lugar del bosque, baña de oro los troncos de los árboles.




Cuando el arroyo de montaña en el silencio de la noche cuenta su caída sobre las piedras...


Uma lua transparente que apareceu no meu céu para me fazer sonhar
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E, caso vos apeteça ver um vídeo muito bem disposto e ler alguma coisa sobre a memória que guardo de três das minhas professoras, queira, por favor, deslizar até ao post seguinte.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.
Muitas felicidades a todos.

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