Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, março 31, 2015

Livros junto ao peito, a nova moda nesta saison. E o rio ao anoitecer, belo e tranquilo. E o Bebedor Nocturno. E Mirleos.


Depois de no post abaixo ter mostrado cuecas adequadas a homens elegantes e a badochas fofos e de, mais abaixo ainda, ter mostrado uma fotografia que Leitor, a quem muito agradeço, me enviou sobre o wi-fi alentejano, aqui, agora, parto para outra.

À hora de almoço fui aos livros. Nada de mais. Vou para ver se há alguma coisa de novo, convencida a só trazer mesmo aquilo sem o que não vou conseguir passar. Mas, quando dou por mim, já estou a folhear sem me conseguir vir embora sem um, sem outro. Ainda hesito, tento controlar-me, mas é irresistível, coisa mesmo mais forte que eu.

Quando fui pagar, a empregada perguntou se queria um saco e disse-me o preço.

Lembrei-me, então, que no outro dia vi, salvo erro na Vogue, que o último grito da moda é usar livros ou revistas apertados contra o peito ou na mão, como se fosse uma clutch ou, na provável ausência de livros, uma clutch em forma de livro.

Na altura achei que aquela parvoíce era mesmo a última coca-cola do deserto, a ideia mais estapafúrdia que alguém podia ter tido. É o disparate completo: as modelos, todas fashion, a andarem todas produzidas e com um livro como se fosse uma carteira. É que não sei se estão a ver: a ideia não é ler o livro ou sequer parecer que se tem um livro, é apenas ter um ar sartorialist, street fashion, uma coisa nessa base.

Pois bem, naquele instante em que a empregada me informou sobre o preço do saco, pensei que isto, de facto, mais vale uma pessoa não se pôr a cuspir para o ar, que é como quem diz: nem mais, não levo saco, poupo os 60 cêntimos e ainda vou toda fashion. E assim vim, uma erudição em quatro volumes junto ao peito, toda eu com aquele ar saison que dá uma alegria primaveril de dar gosto.

Cheguei a casa e vi que um estava repetido (coisa que, de resto, já temia) e, portanto, pouca sorte, lá tenho que o ir trocar. Melhor: agora que estou a escrever, lembrei-me que não o vou trocar coisa nenhuma, fica é para os meus filhos.

Estive aqui a fotografá-los, já sem o repetido, e juntei os que comprei a semana passada. Claro que isto é sobretudo mais uma dose de frustração pois quando é que eu tenho vagar para me pôr de perna estendida a ler como deve ser...? 

Enfim, tristezas não pagam dívidas e, portanto, a alegria é estar rodeada de livros e poder ir espreitando, lendo aqui e ali (e fazer planos para os ler com tempo daqui por uns anos).


E vamos mas é com música para irmos melhor


Shostakovich interpreta o seu Concerto No 2 para Piano 





Do livro do Mia Couto, do Cem Poemas para salvar a nossa Vida e de mais um do Robert Mapplethorpe já aqui deixei alguns apontamentos ao longo da última semana.


Dos de hoje, já aqui estive de namoro com o Mirleos do João Miguel Fernandes Jorge e está a parecer-me um namoro promissor.

Transcrevo o poema Maria Madalena

Requebros do manto vencem o andar
perde-se a folha
onde escreveu o seu saber - ave, que não, o
simples mundo serpenteante

 - Querem mesmo saber de mim?
Os cabelos repousam na clareira dos ombros.
Ela estendeu a mão para que não lhe tocasse.
A meio caminho da cidade, do pântano, o zumbido dos
mosquitos o coaxar das rãs o grito do milhafre
erva queimada, as presas maceram ao sol.
Ele estendeu a mão - É verdade, somos imorais.



Quando saí do trabalho ainda era de dia. Com a mudança da hora, os dias trazem a duração que prenuncia o verão, o sul. 



Belo deslizava o rio no seu leito, e melhor seria
nele mergulhar a boca do que mergulhá-la numa boca de mulher.


[Início de 'O rio' de Ben Jafacha, numa tradução de Herberto Helder in O Bebedor Nocturno]



Peguei na máquina e quase tinha vontade de voar para a beira do rio. O meu marido teme estas minhas alegrias de máquina na mão, já sabe que a caminhada não vai ser a limpeza do costume. Ele vai andando e eu fico-me perdida na beleza do pôr-do-sol sobre o rio. E ele, para não me deixar abandonada, anda em frente, depois volta para me resgatar, depois segue e assim sucessivamente - já farto, claro está, e a avisar-me que eu nem pense que vai ser isto daqui para a frente. A ver vamos (como diz o ceguinho).



O vento batia nos ramos, ondulava o ouro do
crepúsculo sobre a prata da água.

Enquanto na margem eu distribuía vinho dourado
cujo reflexo mordia as mãos dos convivas.


[Final de 'O rio' de Ben Jafacha, numa tradução de Herberto Helder in O Bebedor Nocturno]



Depois, aos poucos, o dia foi caindo, uma beleza sem igual, uma paz imensa, silêncio, apenas o som ligeiro das águas que, aos poucos, vão absorvendo a falta de luz, escurecendo devagar.

E as luzes da cidade foram-se acendendo, aos poucos também, e eu podia ficar ali durante horas a fotografar a serenidade que envolve o rio, o céu, a cidade bela, e sentindo a serenidade macia que me cobre como um véu afável e transparente.



     As mãos da Primavera edificaram, no cimo dos caules, os castelos de açucena;
    castelos com ameias de prata onde, em volta do Príncipe, os guerreiros empunham espadas de oiro.


['A açucena' de Ben Darreach Al-Qastalli, numa tradução de Herberto Helder in O Bebedor Nocturno]



E depois a lua escondeu-se numa casa em ruínas e espreitou-me de uma janela aberta como devem ser todas as janelas - mas eu apanhei-a para vos mostrar.



A lua é um espelho empanado pelo hálito das raparigas.
E a noite veste-se com o seu brilho como a negra tinta se veste com o papel branco


['A lua' de Ben Burd El Nieto, numa tradução de Herberto Helder in O Bebedor Nocturno]



E então, já noite, vim para casa, feliz da vida, ligeira, leve, despida das preocupações que, ao longo do dia, se vão depositando sobre mim.


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E, para espantar qualquer resto de preocupação ou tristeza que vos cubra, desçam, por favor, até aos dois post seguintes. O humor é um remédio eficaz para qualquer mal.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela e serena terça-feira. 

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Homens em cuecas - ou quando o humor é mais sexy que o corpinho deles.


Um é elegante, badaladésimo, tudo no sítio, tatuado até dizer chega. Outro é um fofo, divertidíssimo, adorável, uma graça. A escolha não é fácil.



David Beckham and James Corden's New Underwear Line


(Ouçam, por favor, o que é dito que tem graça)


 

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E sigam, por favor, até ao post seguinte para saberem como é o wifi no Alentejo

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Wi-Fi à moda do Alentejo


Aqui na temes wi-fi. 

Falem uns com uns outros.





Nem mais.

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segunda-feira, março 30, 2015

A felicidade











Muitas vezes me tenho já aqui interrogado sobre o que é a felicidade.


Numa altura em que há mil livros de auto-ajuda - qual deles o mais estúpido - e numa altura em que proliferam os negócios em torno da leveza, do sorriso permanente, da juventude eterna, em que o sucesso continua a ser principescamente remunerado (ainda agora li que a Google Inc. aceitou pagar à nova directora financeira, Ruth Porat, 64,2 milhões de euros até 2019. O valor em causa inclui um bónus de 4,6 milhões de euros que a directora vai receber 30 dias depois de começar a trabalhar na empresa), acho que o verdadeiro segredo para alcançar a felicidade continua a ser pouco digno de atenção quando o natural seria que fosse a conquista maior que a humanidade deveria perseguir.

Mas faço um parêntesis para falar da indecente Ruth e do seu absurdo ordenado: a mim aquele valor parece-me obsceno, tal como sempre me pareceu obsceno que alguns gestores com funções normais recebam tanto de ordenado base como de bónus – e espanta-me que isso ainda aconteça nos dias de hoje apesar de estar provado à saciedade o que isto implica no desempenho dos gestores, levando-os a fazer de tudo no curto prazo mesmo que isso comprometa o médio/longo prazo ou mesmo que implique fechar os olhos a alguns alertas que a sua consciência faça soar, e, ainda, apesar de a sociedade começar, finalmente, a estar desperta para a fractura social que se agrava de cada vez que alguém aceita ser remunerado com valores que são várias vezes o que ganha o comum dos mortais.



Conheço pessoas ricas, que se acham talvez mais felizes por serem tão ricas, mas eu, do que lhes conheço, não vejo razão para grandes felicidades, tanto mais que parte significativa da sua vida é usada, afadigadamente, a tentar aplicar eficazmente tanta riqueza.  E conheço pessoas que, por muito terem, se desabituaram de gerir o que têm e, com o tempo, vão perdendo o que tinham e acabam num sufoco. E conheço pessoas que acham que a felicidade é coisa de pobres de espírito, que inteligente e sábio que se preze sabe bem que felicidade é coisa que não faz sentido e, portanto, cultivam a amargura, o desencanto. E conheço muitas pessoas simples, que não têm muitos bens materiais nem uma cultura por aí além mas que cultivam os afectos e uma vida vivida com equilíbrio e a quem vejo, com frequência, sorrisos de realização e felicidade.

Podia continuar a enumerar casos, tipos, situações, mas a conclusão seria sempre a mesma. Não sei a receita que assegura a felicidade. Mas sei que me sinto frequentemente feliz  e sei que, na maior parte das vezes, isso está associado a coisas do mais simples que há.




Ao contrário de colegas meus que metem na cabeça progredir na carreira custe o que custar e que transformam a sua vida numa luta permanente, arranjando inimizades, sempre num stress, a sentirem que, a todo a hora do dia, têm que mostrar serviço porque, a toda a hora do dia estão a ser avaliados, eu nunca me dei a esse trabalho. Também sempre fiz questão de que ficasse claro para toda a gente que o trabalho é parte importante na minha vida mas não a mais importante.  No trabalho tento dar de mim o máximo mas gerindo essa dedicação de forma a que ela não prejudique o meu tempo vital, que é o tempo que me reservo para o usar da forma que me dá mais prazer, com a família, amigos, comigo própria.

Tenho em mim a vontade de aprender, sempre a tive e tomara que sempre a mantenha. Mas não tenho a preocupação de mostrar o que sei, não tenho a preocupação de saber tudo o que há para saber,  não tenho a preocupação de memorizar o que sei. Portanto, retenho do acto de aprender o lado lúdico. Não me importo que, no que se refere ao conhecimento, achem que há em mim superficialidade ou leviandade pois não sinto nisto, como em praticamente nada da vida, que tenho que provar alguma coisa a alguém. Cada um que ache o que quiser.




Também, este meu lado de não me importar grandemente com o que os outros pensam sobre mim, dá-me uma descontracção natural.

Comprei no sábado uns sapatos para usar ao fim de semana, uma espécie de ténis compensados, de uma espécie de pele branca pintalgada. São super macios e confortáveis. Mas o meu filho, quando os viu, ficou espantado, que não eram sapatos para a minha idade, que lhe parecia mais coisa de adolescente. Como não obteve coro por parte da irmã, virou-se para a minha mãe ‘Vó, diz lá, achas que são apropriados para a mãe…?’. A minha mãe riu, encolheu os ombros e disse, ‘sei lá, já lhe vi tanta coisa, já estou tão habituada a tudo nela que já tudo me parece normal’.  Achei graça. Mas, de facto, quando faço escolhas, seja a que nível for, penso no que me agrada ou no que agrada às pessoas envolvidas mas não me deixo tolher pelo receio da opinião alheia (a bem dizer nem me lembro de tal coisa).

Mas, portanto, se alivio de sobre mim a carga do que de certeza não contribui para a felicidade (a ambição permanente, o receio da censura alheia, etc), por outro também me afeiçoo sobretudo a coisas simples. Não querer ser mais ou melhor que os outros, não fazer juízos precipitados, ser tolerante. Ou olhar o rio ou as árvores ou um quadro - quando os olho não penso em mais nada senão no que me é dado contemplar e isso traz-me uma paz enorme. Também me traz felicidade ler um livro que esteja bem escrito e onde eu leia coisas que me interessam, ou um poema. Ou ouvir uma música que me transporte para outra dimensão. Ou ser generosa para com os outros. Ou comer um petisco bom (e pode até ser batatas cozidas temperadas com azeite, coisa de que muito gosto). Ou fotografar e achar que consigo apanhar aquele movimento, ou a luz ou ocasião que são belos, raros ou especiais. Ou mostrar o prazer que alguém me proporciona. Ou, claro, receber e retribuir afagos, abraços e beijos em relação a quem mais amo, estar com eles, saber deles, apoiá-los, mostrar-lhes como são importantes para mim. Coisas assim.




Li que Jorge Bergoglio, Francisco I, o Papa tão próximo da vida real, quando falava na homilia da missa do Domingo de Ramos, que inicia a Semana Santa, disse que "o estilo" dos cristãos deve ser o da humildade e não o da "vaidade, do orgulho e do êxito”


E é isso.

Também vi no outro dia uma reportagem no Bored Panda sobre uma tribo a que chamam os ciganos do mar. Vejo as fotografias e invejo a felicidade que se adivinha em quem ali vive. O despojamento, a alegria do contacto com a natureza, a partilha de afectos, a simplicidade - tudo isso traz certamente a felicidade.

Transcrevo:

Traditionally, the Bajau resided in small boats, sailing day and night with the currents, counting only on their fishing gear to make a living. This is how they earned the title of the “sea gipsies”. Others used to live in hiding and many still live nowadays in the middle of nowhere, on floating villages built on the coral reefs. Today, many have come ashore to live on small islands, but continue to develop their perfect knowledge of the oceans, whilst selling their fish on a small scale.


Réhahn, a french photographer, spent a few days with these sea gipsies. He will keep forever in the depths of his heart the feeling of peace and serenity that emerges from these places, of these people who have nothing in common with our lives and who live only for and by the water.




A paz, a serenidade, a alegria das coisas simples.

A felicidade.

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A música é de Ennio Morricone - On Earth as it is in Heaven (da banda sonora do filme The Mission)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma semana muito feliz a começar já por esta segunda-feira.

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domingo, março 29, 2015

A Crónica H de Pedro Santos Guerreiro. O Eixo do Mal com sentida homenagem a Herberto Helder. As marcas em nós de um Poeta maior num dia de sol junto ao rio.





De repente, depois de uns dias frios em que as noites junto ao rio se apresentavam envoltas num vento cortante, eis que chegou o calor, o céu limpo, o rio espelhado ao pôr do sol. 

Há uma doçura no ar, a doçura que vem com a promessa da natureza a renascer, com a temperatura que trará a pele para o contacto do sol. As cores estão suaves, limpas, e as pessoas passeiam devagar, namoram ao sol, conversam olhando os barcos que passam.




E para lá fomos, portanto, e lá foram ter os que tinham ido buscar quem chegou do norte. Os meninos gostam de brincar, correm, escondem-se atrás das árvores, jogam à bola, atiram o disco. Hoje o disco foi para ao rio. Vimo-lo a afastar-se. Um deles disse: não faz mal, é só um prato.

Aquele a quem eu chamava ex-bebé e a quem já não poderei chamar isso, uma vez que está prestes a fazer quatro anos, um rapaz divertido e corajoso a quem os primos tratam por Kokokas, subiu ao pequeno farol, e, destemido, queria ir mesmo até lá acima, queria ver a luz. 




Não o deixámos, claro, mas, ainda acima, ficou perto da lua. Aliás, quando viu a lua a esboçar-se naquele céu tão limpo, ficou intrigado e disse que se calhar já ia ficar de noite.

Depois o sol começou a pôr-se, esfriou. A luz coalhou-se nas águas, os barquinhos pareciam querer ir para lá do horizonte, mergulhar no oceano que vai para o outro lado do mundo.




Dali seguimos para um lanche, uma mesa grande, e os dez em volta da mesa, sempre aquela animação, as crianças riem, nós rimo-nos a olhar para elas. Quando cheguei a casa, já anoitecia e estava frio.




Estive, então, a ler o Expresso e, para começar, folheei a revista, vi as fotografias de Herberto Helder, depois li os vários textos, senti a emoção de quem os escrevia deixando transparecer a admiração profunda por este poeta maior. 


Depois passei para o jornal principal e, como sempre, fui para a crónica de Pedro Santos Guerreiro. E, aí tenho que confessar, comovi-me. Não estava à espera, não falava de economia, bancos, crises financeiras, do mal do País. Não, Pedro Santos Guerreiro falava com o Poeta.  Chamou-lhe Crónica H.



Estou acordado. Fala-me de ti. Hoje não há espadas trespassando os cometas da semana, Herberto Helder morreu e eu vou escrever uma crónica. Não é um texto de opinião, não é um editorial, não é sequer uma coluna, são apenas quatro quartos de coluna, é uma crónica, é fogo daqui em diante, a saída de emergência é já aqui. Saia.

Fique.

(…)

Este texto é meu e não vim cá hoje para ver nem para ler, vim para estar. E ir. Afinal, isto é uma crónica e é a minha forma de expressar não o amor por ele mas o amor pelo amor que ele nos revelou. Herberto, o que quero eu? É apenas uma crónica, não preciso de vencer. Só quero dizer: Herberto é para ler todo e serve para ler tudo. E para nos vermos a nós depois dele, no nosso mundo depois daquele, que são o mesmo, mas nós diferentes.

Sim, estou acordado. Fala-me outra vez.


[A Crónica H completa, de Pedro Santos Guerreiro, pode ser vista aqui]



Também especialmente comovente a parte final do Eixo do Mal.

Clara Ferreira Alves, emocionada, mas solid as a rock, falou não tanto da obra, imensa na sua imensa beleza, mas sobretudo do homem, uma catedral, um homem grande neste tempo de homens pequenos. Contida, a voz arrancada palavra a palavra, disse palavras justas e marcantes sobre o pai do homem que, em sua frente, a escutava. Também contido embora comovido, Aurélio Gomes passou a palavra a Pedro Marques Lopes que, olhos marejados, voz emocionada, disse que apenas diria que era o poeta da vida dele e o pai de um grande amigo. Luís Pedro Nunes não quis falar e eu compreendi. Finalmente falou o filho. Daniel Oliveira disse que nunca tinha querido falar do pai e agora falava apenas para pedir que não façam agora ao pai aquilo que ele não quis em vida: dar o seu nome a uma rua ou praça, fazer um busto, coisas assim. Não o disse mas deve ter pensado que era a primeira vez que o pai não o estaria a ver como sempre costumava fazer. Mas sabemos lá nós se não o estaria mesmo a ver.





A seguir, emocionado, Aurélio Gomes passou Fernando Alves a dizer um poema de Herberto Helder, enquanto mostravam fotografias do poeta. No fim, estavam todos comovidos e eu também. Ninguém gosta de pensar que os poetas também precisam de descansar.


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O poema de Herberto Helder que Fernando Alves diz no vídeo do Cine Povero é As manhãs começam logo com a morte das mães.


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No post a seguir falo das Testemunhas de Darwin e de outras.

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Desejo-vos,meus Caros Leitores, um radioso dia de domingo.

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Os evangelistas. Ou os pregadores. Ou os meninos. Ou as Testemunhas de Darwin.



Quando vou caminhar de manhã ou quando ando a pé pela cidade em horário de movimento, vejo-os quase sempre. Andam aos pares quando não aos três. Os homens têm umas pastas, as mulheres seguram umas pastinhas finas debaixo do braço. Conversam uns com os outros. Estão sempre a conversar. Que eu repare, raramente interceptam quem passa. Estão entretidos na conversa. Agora adoptaram uma técnica. Montam nos passeios uns estreitos escaparates em cartão onde colocam folhetos. Por isso, já não têm sequer que distribuir a palavra impressa aos incréus.

Nunca vejo ninguém lá ir levantar nenhum folheto nem eles fazem nada por isso.

Não faço ideia qual a religião que professam nem qual a palavra que querem espalhar. Testemunhas de Jeová? Daquelas Igrejas Evangelistas que proliferam nas cidades? Não sei.

Há também aqueles Meninos de Deus ou Elder, nunca sei. São altos, louros, andam de fato cinzento antracite, camisa branca, no verão andam em mangas de camisa mas semmpre com aquele ar aperaltadinho, também aos pares, e sempre também conversando uns com os outros. Já não é a primeira vez que os vejo quando caminho rente ao rio, em lugar de ruínas e ninguém. Lá vão, indiferentes à paisagem, a um ou outro pescador de linha, aos gatos, às mulheres que se empenham na engorda dos gatos, aos turistas que por ali passam em tempo de calores. E também já não é a primeira vez que tocam à campainha do portão in heaven, local de pássaros, coelhos, pedras e árvores. Muitas vezes fazemos de conta que não ouvimos ou dizemos que não estamos interessados e eles lá vão, indiferentes, como se aliviados por não terem que interromper aquela conversa lá entre eles.



TESTEMUNHA DE DARWIN  na Porta dos Fundos


O que pode ser melhor que um cara aleatório tocando sua campainha do nada, pra te falar uma porrada de coisa religiosa que você não sabia, que você tem que abdicar de bebida e sexo, pedindo uma doação, enquanto você fica na porta de cueca, com sono, sem entender nada? Um cara que faz isso tudo pra te levar umas verdades




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sábado, março 28, 2015

Samba, um filme a não perder - num cinema perto de si


Ao lado da casa de uma das minhas avós, já o contei, vivia uma senhora de porte imponente, que tinha um atelier de costura, com muitas 'raparigas', costureiras. Ela, a patroa, era a modista e nós, em casa, chamávamos-lhe 'a vizinha modista'. A vizinha tinha dois netos, uma das quais uma rapariga muito independente que quis fazer a universidade no estrangeiro. Vinha de férias e ela própria já vinha com modos de estrangeira. Até que um dia apareceu com um namorado que era o dobro dela. Ela era baixinha e miudinha e ele era um gigante. Negro. Preto retinto. Aquilo foi um choque para toda a gente. Estrangeiro e preto. Toda a gente ficou como que com pena. Lembro-me de a minha mãe se fartar de rir com uma coisa que a vizinha modista disse à minha avó. 'parece ser um bom rapaz apesar de ser preto'. Aquilo, para mim, ainda por cima acentuado pelo riso da minha mãe, soava-me a disparate de alto calibre. Lembro-me que na altura se discutia o assunto e de os meus pais se interrogarem como reagiriam se eu, mais tarde, viesse a arranjar um namorado preto. Por acaso não calhou, os meus namorados foram todos brancos. Mas na escolha em definitivo pelo último pesou bastante o facto de ser bem moreno e de, quando apanha sol, ficar com ar de marroquino.

Adiante.




O filme que fui ver tem a ver com uma inesperada relação afectuosa entre uma mulher branca (bela actriz, a Charlotte Gainsbourg, a menina de seus pais), e um homem negro, Omar Sy (um homem negro lindo). 

Mas o filme não é sobretudo sobre isso. Tem muito a ver com uma realidade terrível, uma realidade invisível. Quando penso em dramas humanos nas sociedades ditas modernas e civilizadas penso sobretudo no drama dos imigrantes. É gente que veio sem nada de países em guerra ou que vivem afogados na pobreza mais absoluta, que vem em busca de um sonho, mas que tem que se anular, quase esquecer a sua identidade, viver num mundo oculto, sem direitos, explorados, acossados. Quando vejo aqueles barcos em Lampedusa, carregados de gente esfaimada, sedenta, desidratada, enrolados em plásticos como um desgraçados, muitos sendo recambiados sem compaixão, dá-me tanta, mas tanta pena. Gente igual a nós, com afectos, com laços, com ambições e que, no entanto, vive na penumbra do mundo.

Não vou contar o filme mas, independentemente da tristeza pungente que por vezes transparece, tudo é mostrado com humor, com uma grande ternura. Ri-me imenso, ri-me de gosto, devo ter sorrido grande parte do filme, uma ironia, uma graça. E uma música. Há uma cena deliciosa de uma festa, uma alegria, tudo uma boa onda que dá gosto. E é um filme francês e eu gosto tanto da língua francesa, soa-me bem.




Não encontrei o trailer legendado em português. Apenas o encontro no cinecartaz mas não o consigo colocar aqui, apenas posso deixar o link.

Coloco com legendas em inglês pois sei que muitas pessoas não sabem francês.



Excerto da sinopse do Cinecartaz do Público:

Samba Cissé (Omar Sy) é um imigrante senegalês que sonha fazer carreira como "chef" de cozinha. Contudo, apesar de viver em Paris há mais de dez anos, nunca conseguiu a autorização de residência de que tanto precisa para atingir os seus objectivos. Durante este tempo, foi sobrevivendo com pequenos trabalhos mal remunerados, tentando sempre regularizar a sua situação. Um dia, é apanhado pela polícia e encaminhado para o serviço de estrangeiros e fronteiras para ser deportado. É então que conhece Alice (Charlotte Gainsbourg), uma mulher que há anos luta contra uma depressão e que trabalha como voluntária numa organização de apoio a imigrantes ilegais. Apesar de saberem que deveriam manter a distância para não se envolverem emocionalmente, Samba e Alice vão encontrar um no outro aquilo de que tanto necessitam para avançar com as suas vidas.

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Se puderem, não deixem de ver que, de certezinha, vão gostar.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom sábado. 

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sexta-feira, março 27, 2015

It takes two to tango. E não importam as cores porque o amor é colorido.


Eu capricho na conquista
no fogo da sedução

Sou Dama da minha vida
deixo nela a minha pista

Senhora de meu desejo
de meu prazer e paixão




Ele é intermediário
como os anjos
entre o símbolo e o olhar

a realidade e a magia

Entre quem vê e quem sente
quem ilumina e cativa

Quem imagina e quem mente




Vê a ninfa
sair do bosque

Identidade intacta
como tem a rosa

O ruído e as palavras
tropeçam-lhe na língua

E no seu corpo desliza
o insaciável desejo




Serás o                                   Serás o       
noviço                                             desvelo?

Serás o                                   Cordeiro
       novelo?                                  no aprisco?

Serás o                                   Algidez
meu vício                                    sem apelo?



Yo te quiero siempre





Ernesto Lecuona / Grupo Corpo


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Os poemas fazem parte do belíssimo livro A Dama e o Unicórnio de Maria Teresa Horta. O primeiro chama-se Conquista, o segundo Intermediário, o terceiro Ninfa e o último Desvelo.

As fotografias fazem parte de uma campanha denominada Love is Colorful (patrocinada por Zim Colored Powder) que pretende chamar a atenção para que amor é amor, sejam quais forem as inclinações sexuais, e tive conhecimento dela através do Bored Banda.

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Sobre a  estranha queda do avião alemão e sobre as suspeitas de que teria sido o co-piloto a provocar deliberadamente o acidente, falo já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira, com saúde, sorte e amor.

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Das 150 pessoas a bordo, apenas Andreas Lubitz soube que iam morrer





Eu desejo estar só. Não busco companhia.
Quero só o silêncio. Não me agrada murmúrio
nenhum à minha beira.





Jogo a minha vida, troco a minha vida.
De qualquer maneira
ela está perdida...





Tragédia nos Alpes. Passageiros só se aperceberam do desastre no último momento



É apenas nos últimos segundos da gravação retirada da caixa negra que se ouvem gritos dos passageiros que iam a bordo do Airbus A320 da companhia de baixo custo Germanwings. Este facto leva o procurador-geral de Marselha, Brice Robin, a concluir que os tripulantes apenas se aperceberam que o avião ia colidir no último momento.    


"A morte foi imediata, o avião explodiu ao colidir com a montanha" a uma velocidade de 700 km/h, acrescentou esta quinta-feira Brice Robin, em conferência de imprensa com os familiares das vítimas. O avião perdeu progressivamente altitude ao longo de oito minutos, antes de se despenhar - nesse período, e segundo os investigadores, o copiloto não deixou o piloto entrar na cabine. O comandante tinha-se ausentado momentaneamente.

Além dos gritos dos passageiros, a gravação revela ainda que, momentos antes da colisão, a respiração do copiloto, o alemão Andreas Güenter Lubitz, se mantinha calma, o que mostrava que o copiloto estava vivo e consciente - invalidando a tese de um problema de saúde repentino.   


Brice Robin anunciou esta quinta-feira que o copiloto alemão, de 28 anos, destruiu o avião intencionalmente, bloqueando a porta da cabine de pilotagem após o comandante Patrick Sonderheimer ter saído momentaneamente.   

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Apesar de se falar numa anterior depressão penso que ainda será prematuro adiantar explicações para um drama tão impressionante.

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  • O bailado é Falling Angels, coreografia de Jiří Kylián, pelo Bałtycki Teatr Tańca
  • A primeira imagem é parte de L'ange déchu e a segunda é um estudo para a mesma obra de Alexandre Cabanel.
  • Os pequenos excertos fazem parte respectivamente de Admonição aos impertinentes e Relato de Sergio Stepansky de León de Greiff.

quinta-feira, março 26, 2015

Cate Blanchett, a propósito da sua intervenção no filme Cinderela, mostra como se deve lidar com entrevistadores que fazem perguntas estúpidas: 'É essa a sua pergunta?', 'That’s your question? That’s your fucking question?' Então, 'nice to meet you'. Nem mais.


A bela Cinderela e a sua malvada madrasta
Lily James e Cate Blanchett


Vai uma mulher como Cate Blanchett prestar-se a conceder uma entrevista a propósito da sua intervenção no novo Cinderela, quando o entrevistador lhe faz uma perguntinha sobre o gato. 


Talvez uma qualquer princesinha se derretesse em sorrisinhos, contando, com pormenor, como se tinha dado com o doce felino e tal e coisa. Mas Cate Blanchett não é uma princesinha, nem uma pipoquinha saltitona. Cate Blanchett sabe ao que anda e tem mais que fazer do que aturar gente idiota. E, então, vai daí, com educação e deixando o entrevistador sem saber bem o que lhe tinha acontecido, espantou-se, riu-se e despediu-se. Nem mais.

Um exemplo a seguir por cá já que o que mais se vê são entrevistadores a cansarem a nossa inteligência com perguntas parvas umas atrás de outras.



Mais sobre o assunto na Vanity Fair.


E, já agora, let's look at the trailer do Cinderela (que tem um guarda-roupa sumptuoso).



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Sobre a beleza pura das imagens perfeitas, do bailado, da poesia e da voz que a diz, é descer, por favor, até ao post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.

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Robert Mapplethorpe, a perfeição, a beleza. Jiří Kylián, a Bella Figura. Pablo Neruda, se tu me esqueceres




Procuro a perfeição da forma. Nos retratos. Nos sexos. Nas flores.




Se eu tivesse nascido há cem ou duzentos anos, teria sido sem dúvida escultor mas a fotografia é uma maneira rápida de olhar, de criar uma escultura.




De facto, sou obcecado pela beleza. Quero que tudo seja perfeito.




Eu mergulho completamente nesta flor. 




Eu adoro as minhas fotografias de flores. Prefiro-as mesmo às flores reais.




Lisa Lyon faz-me lembrar os modelos de Miguel Ângelo que esculpiu mulheres musculosas.




O sexo é mágico. Se for bem carnalizado, há mais energia no sexo do que na arte...

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Bella Figura, uma coreografia de Jiri Kylian pelo Nederlands Dans Theater 




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If You Forget Me de Pablo Neruda (lido por Tom O'Bedlam)



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quarta-feira, março 25, 2015

Aurélio Agostinho e Flória Emília. Confissões. A vida é breve.


No post abaixo, falei de Herberto Helder. Não gosto de despedidas pelo que não sabia bem como falar dele sem me tornar vulgar. Por ter tido uma pena muito grande não quis deixar de referir a sua morte mas, confesso, foi com dificuldade e alguma relutância que o fiz.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Comprei uma edição muito bonita das Confissões de Santo Agostinho com prefácio de Eduardo Lourenço, um livrinho que parece um missal. 


Infelizmente o meu tempo é sempre curto e, por isso, o que aqui vou transcrever resulta de não mais do que abrir, ler, folhear, ler, deter-me aqui e ali, aquela leitura picada que me agrada mas que, em alguns casos, me deixa frustrada pois o que me apetecia era reclinar-me debaixo de uma árvore e ler devagar, devagar, pensar nas palavras lidas, talvez lê-las em voz alta para ouvir a sua toada ou sentir-me mais próxima de quem as escreveu. Mas um dia será.

Escolhi um pequeno excerto do capítulo 30, Tríplice Tentação, do Livro Décimo apenas para poder fazer contraponto com um excerto de um outro livro, A Vida é Breve, no qual Jostein Gaarder ficciona a carta de Flória Emília, 'a mulher com quem Santo Agostinho viveu antes de escolher afastar-se do amor humano para conquistar o amor divino'.





Há no interior do homem tanta inquietude que não está ao alcance de nenhum Deus - nem de nenhuma mulher - poder apaziguá-la. 
George Bataille - (no prefácio) 



Mandais-me, sem dúvida, que me abstenha da concupiscência da carne, da concupiscência do mundo. Ordenaste-me que me abstivesse das relações luxuriosas. Quanto ao matrimónio, apesar de o permitirdes, ensinaste-me que havia outro estado melhor. E porque mo concedestes, abracei-o antes de ser nomeado dispensador do vosso Sacramento.

Mas na minha memória, de que longamente falei, vivem ainda as imagens das obscenidades que o hábito inveterado lá fixou. Quando, acordado, me vêm à mente, não têm força. Porém, durante o sono, não só me arrastam para o deleite, mas até à aparência do consentimento e da acção. A ilusão da imagem possui tanto poder na minha alma e na minha carne que, enquanto durmo, falsos fantasmas me persuadem a acções a que, acordado, nem sequer as realidades me podem persuadir.

Meu Deus e Senhor, não sou eu o mesmo nestas ocasiões? Apesar disso, que diferença tão grande vai de mim a mim mesmo, desde o momento que ingresso no sono até àquele tempo em que de lá volto!


(in 'Confissões' de Santo Agostinho)

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Baseada nesta confissão concluo que ainda não te deixaste castrar. Sentes a minha falta de vez em quando? Não serão as minhas recordações e os nossos antigos 'hábitos' que te visitam nos sonhos? Espero que não te tenhas deixado castrar ainda, Aurélio, tu que fostes outrora tão vigoroso no meu leito. Podias ter arrancado os olhos, como fez Édipo ou cortado a língua, se não o fizeste até agora, é porque ainda desejas os meus beijos.

O teu sexo era também um órgão sensual. Ou estarei enganada, Aurélio? Falas constantemente do 'prazer sensual' mesmo quando te referes ao deleite do amor.

Crês tu por acaso que os teus olhos ou os teus ouvidos são uma criação divina superior ao teu sexo? Pensas a sério que algumas partes do corpo humano são, perante Deus, menos dignas que outras? 

(in 'Vita Brevis' de Jostein Gaarder)
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A música é Only The Winds - Ólafur Arnalds 

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Relembro que sobre as palavras de Herberto Helder - que parecem vindas do interior da terra, do ventre húmido das mulheres que ele amou ou das patas das que correm na noite como éguas abertas - tenho um post já aqui abaixo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quarta-feira. Com serenidade. E amor.

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Herberto Helder, um homem que corre pelo orvalho dentro.



Cheguei a casa e deu-me para juntar algumas pequenas peças de que gosto (um leque com mais de cem anos cheio de poemas e florzinhas pintadas, uma ampulheta, uma caixinha de música, caixinhas que acho bonitas) e colocá-las junto aos poemas de Herberto Helder. Já não é a primeira vez que o faço. Vendo a fotografia, parecem-me oferendas infantis. E, in heaven, a poesia de Herberto Helder está em azulejos que revestem canteiros mais altos que eu onde crescem vigorosos cedros ou escrita à mão em muros junto a bancos de pedra. Não sei bem explicar isto pelo que não me vou pôr com explicações mas é como se fosse a minha forma de mostrar como, desde sempre, a poesia de Herberto Helder é importante para mim.
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A meio do dia recebi um mail com o poema que abaixo transcrevo, enviado por um Leitor que assim quis partilhar comigo talvez já a saudade de Herberto Helder. Não me lembrava ou não conhecia o poema e li-o com comoção, pois tinha acabado de saber da morte do Poeta que me acompanha de perto como se fosse a respiração da terra.


Não sei como dizer-te que minha voz te procura
e a atenção começa a florir, quando sucede a noite
esplêndida e vasta.
Não sei o que dizer, quando longamente teus pulsos
se enchem de um brilho precioso
e estremeces como um pensamento chegado. Quando,
iniciado o campo, o centeio imaturo ondula tocado
pelo pressentir de um tempo distante,
e na terra crescida os homens entoam a vindima
— eu não sei como dizer-te que cem ideias,
dentro de mim, te procuram.

Quando as folhas da melancolia arrefecem com astros
ao lado do espaço
e o coração é uma semente inventada
em seu escuro fundo e em seu turbilhão de um dia,
tu arrebatas os caminhos da minha solidão
como se toda a casa ardesse pousada na noite.
— E então não sei o que dizer
junto à taça de pedra do teu tão jovem silêncio.
Quando as crianças acordam nas luas espantadas
que às vezes se despenham no meio do tempo
— não sei como dizer-te que a pureza,
dentro de mim, te procura.

Durante a primavera inteira aprendo
os trevos, a água sobrenatural, o leve e abstracto
correr do espaço —
e penso que vou dizer algo cheio de razão,
mas quando a sombra cai da curva sôfrega
dos meus lábios, sinto que me faltam
um girassol, uma pedra, uma ave — qualquer
coisa extraordinária.
Porque não sei como dizer-te sem milagres
que dentro de mim é o sol, o fruto,
a criança, a água, o deus, o leite, a mãe,
o amor,

que te procuram.


(excerto do poema «Tríptico», publicado em A Colher na Boca, 1961

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  • Os vídeos são da autoria de Cine Povero que tão bem divulga a poesia portuguesa.  
  • O primeiro vídeo é Herberto Helder :: Minha cabeça estremece / Música de Rodrigo Leão & Gabriel Gomes
  • O segundo vídeo é Herberto Helder :: Havia um homem que corria pelo orvalho dentro

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terça-feira, março 24, 2015

O PS de António Costa está a ir no bom caminho?


No post abaixo falo de quatro artistas portugueses que estão entre os melhores do mundo na sua área. Chame-se graffiti, street art ou o que for, eles trazem a arte para a rua e eu gosto deles. E, para aqui lhes fazer boa companhia, mostro um vídeo com obras de Banksy.

Mais abaixo falo e mostro um povoador (para não dizer cobridor) como não há igual: 43 mulheres e 152 filhos. Parece mentira mas é verdade e tudo na maior leveza, na desportiva, na boazinha, tudo na maior alegria.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Hesitei, mas lá vai disto. Com flores e música da boa - para custar menos.






Um estimado Leitor chamou-me a atenção para uma entrevista concedida por Porfírio Silva, do PS, ao Público. Não a tinha lido, fui ler.


Há ali uma limpeza argumentativa que se lê de gosto. Sendo influente no PS, sendo (entre outras coisas) filósofo e poeta, e, já agora, também blogger, uma pessoa sente algum alívio por saber António Costa bem acompanhado.

Contudo.

Contudo, e sendo eu geralmente votante no PS (pelo menos a nível das Legislativas), e tendo eu andado esperançada de que António Costa trouxesse ao País um suplemento de ânimo de que tanto se estava necessitando, tenho que admitir que é com um certo desalento que tenho visto o desempenho deste novo PS. Tenho evitado falar nisso pois acho que esta maralha que se aboletou no governo e arredores é tão, mas tão, má que é até disparate desperdiçar energias a criticar o PS.

Mas o mail desse Leitor deu-me vontade de aqui dizer qualquer coisa. E, assim sendo, vamos lá.

Se bem interpreto o sentimento geral das pessoas (ou, talvez seja mais humilde da minha parte dizer: ‘falando por mim’) o sentimento que há no ar é que a classe política, por incompetência, estupidez ou oportunismo tem vindo a trair aqueles que deveriam representar e que isso gera nas pessoas um sentimento de se ter sido enganado por aqueles que nos deveriam ser leais.

Aprendemos em crianças que somos um país, uma nação, aprendemos que devemos fazer o bem, olhar pelos outros, que não deveremos mentir, e todos esses preceitos e mandamentos e, afinal, quando olhamos o comportamento dos governantes e de muitos deputados o que vemos é que agem de forma contrária a isto.

O que eu quero, enquanto eleitora ou enquanto cidadã, é que nas estruturas de poder do meu país ou de instâncias internacionais em representação do meu país, estejam pessoas que honrem o bom nome de Portugal e que tudo façam por ele - e, note-se, quando falo de Portugal não falo como falam as vãs criaturas que acham que Portugal é uma entidade abstracta que nada tem a ver com os Portugueses. Não quero nesses lugares cobardolas, aldrabões, moscas-mortas, fala-baratos, vendidos, avençados, papagaios, relapsos a representarem-me nem a mim nem ao meu Pais, em geral.

E o que, de modo geral, temos vindo a assistir é que, por todo o lado, o que tem vindo a pulular e a ocupar cargos aqui e ali é gente que geralmente encaixa nessas categorias. E não é só cá.

Parece que a Europa, depois de umas décadas em que se assistiu a um sopro de modernidade e dignidade, esmoreceu, os bons ficaram bons de mais para fazer concessões e os medíocres, quais larvas, ganharam terreno e desataram a reproduzir-se.

Face a este estertor da democracia tal como se idealizava, pura e justa, face ao desencanto perante o desajuste entre os ideais do modelo europeu e a confusão organizativa que o emprenhou, o tecido partidário esboroa-se. 

Os partidos tradicionais, presas de ideais antiquados, de jogos de interesse, sofrendo de cansaço ou desmotivação, não se tendo conseguido renovar convenientemente, parecem não ser capazes de perceber o devir dos tempos.

E nascem novos movimentos ou partidos, muitos germinando no caldo do descontentamento orgânico, do ressabiamento, do infortúnio, da revolta.

O que começou por ser um fenómeno de franjas, alarga-se e é já um fenómeno central que engloba descontentes e revoltados de todas as classes sociais, de todas as idades, de todos os credos e ideologias.

Li a entrevista concedida por Marine Le Pen ao Expresso. Percebo porque é que há tanta gente a apoiá-la. Mais depressa o comum dos mortais se revê naquela linguagem directa, sem meias palavras, em que se percebe uma defesa da soberania e dos interesses franceses, do que na conversa oca da maior parte dos políticos de hoje (políticos de hoje que mais parecem de antanho).

Claro que, por crescerem de forma orgânica e congregando inúmeras motivações controversas ou mesmo contraditórias, estes partidos albergam toda a espécie de correlegionários, muitos dos quais de susto, perigosos.

Mas não vale a pena combater os ultras ou radicas, sem que haja uma alternativa de facto. A solução, em meu entender, passa por os partidos mais estruturados e com princípios de base mais sólidos serem capazes de verdadeiramente se renovar. Mas renovar mesmo. Renovar não é ir buscar pessoas de tendências antes desaproveitadas mas, ainda assim, presas a lógicas do passado.

Penso que o actual PS não está a ver isto. Está a rodear-se de pessoas do tempo pré-Seguro. Serão pessoas honorabilíssimas mas, ainda assim, pessoas que me parecem estar demasiado presas às décadas anteriores, querendo projectar num futuro que se antevê caótico uma lógica estruturada em moldes antigos.  Não dá.

Lamento dizer mas não é com Ferro Rodrigues, pessoa decente e honrada mas carregando um pesado lastro - ainda por cima, com aquele seu ar permanentemente cansado - que o PS deveria aparecer numa primeira linha na bancada parlamentar. Nem deveria ter António Vitorino, símbolo da livre circulação entre administrações e escritórios de advogados, no grupo de reflexão ou de apoio ao desenho do programa do futuro governo ou lá o que é.


António Costa está, maioritariamente, rodeado de rostos que o país associa demasiado ao passado. A alguns eu vejo grandes mais valias na sua presença pois são áreas em que a experiência é vital e que, além do mais, têm mostrado ser pessoas de cabeça aberta e refiro, por exemplo, Seixas da Costa. Mas, na maioria, o que eu vejo em volta de António Costa são rostos com anos e anos de lastro, que congregam sobre si, como pára-raios, as culpas por todas as ineficiências de anteriores governações socialistas.

Não conheço o suficiente dos meandros socialistas para me pôr para aqui a dar palpites de nomes mas acho que o PS terá que fazer um esforço sério para se revitalizar, para incorporar gente que veja com outros olhos os novos tempos, gente de verbo fluido, de cabeça erguida, gente capaz de rupturas, gente que avance destemidamente contra interesses e ideias feitas, que quebre tabus e teias.

Não vão buscar novos que falem com as cautelas dos velhos, não vão buscar gente com a preocupação do politicamente correcto, gente que mais parece nascida nos corredores dos aparelhos partidários do que no meio do país real. Têm que aparecer mais mulheres, têm que aparecer mais pessoas fora da caixa, gente disruptiva, gente que não tenha medo de dar o corpo às balas. Realizem eventos criativos, organizem iniciativas de rua, façam o que quiserem mas mostrem que estão vivos e atentos ao mundo.

E não pode ser um ou dois senão imediatamente serão sacrificados pelo sempiterno coro de virgens e beatas: terão que ser muitos, uma carga de cavalaria a fazer um fogo cerrado de modernidade e ruptura. 

O que interessa é mobilizar o país, é devolver a cidadania aos cidadãos, dar-lhes esperança, dar vontade de construir um país melhor, com futuro, um país que respeite todos, que integre as diferenças, um país que seja um pólo de modernidade e que atraia a modernidade de outros países, para captar investimento especialmente na área da indústria, para fazer renascer a cultura que, em si, também atrai turismo de qualidade. É necessário que o PS apareça com energia, com alegria, capaz de integrar o destempero, um PS que levante o País da indignidade e do marasmo em que se encontra mergulhado, um PS que transporte um desejo de mudança, de futuro e, porque não dizê-lo?, de felicidade.



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A música é A Máquina Triste de Rodrigo Leão (e, uma vez mais, os meus agradecimentos ao Leitor que ma deu a conhecer).

As flores foram fotografadas por Phoney Traveller

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Muito gostaria que me visitassem também no meu Ginjal e Lisboa onde hoje tenho Fernando Guimarães e uma bachiana brasileira para envolverem segredos escondidos numa mão que se fecha dentro de outra. Rêveries, portanto.
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Relembro que já a seguir há mais dois posts, um com arte de rua e da boa e, outro, com um rival do Futre.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.