Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, dezembro 21, 2015

História de Natal à moda de Um Jeito Manso





Há, num lugar recôndito, uma cidade perdida, engolida pela natureza. Ninguém lá vive agora.

Durante uns anos uma mulher sozinha lutou contra as raízes das árvores que lhe entravam dentro de casa, contra as heras que lhe entravam pelas janelas, contra o musgo que tudo cobria, contra a humidade que subia do chão, contra a chuva que entrava pelas janelas sem vidros. 

Nesses longos anos, a mulher não viu ninguém, só bichos. Os lobos rondavam-lhe a casa, os cavalos selvagens desciam vagarosamente as encostas e quedavam-se olhando aquela mulher de longos cabelos, calças e camisolas largas no inverno, com vestidos soltos ou nua no verão. Quando se deslocava ao rio, a mulher reparava que os animais já não levantavam a cabeça para a olharem, já não estranhavam a sua presença. Quando estava calor, mergulhava, lavava-se, deixava-se estar. No inverno, usava a água do poço que aquecia para se lavar dentro de casa. Apanhava lenha, usava-a para o fogão e para se aquecer. Pensava que, em boa hora, tinha guardado tantos fósforos e que, enquanto sobrasse algum, ela se manteria a defender aquele lugar (os fósforos, e o sabão, as velas - essas coisas que tinha aprovisionado ao perceber que tudo ia ficar ao abandono e que passou a usar com parcimónia).

Tinham, pois, partido todos: uns porque tinham morrido, outros porque tinham ido em busca de uma vida melhor. Ela não. Meio mulher, meio bicho, era ali que se sentia bem, à solta, à larga, dona e senhora de si, com a terra, as árvores, os animais, o sol, a chuva, as flores e as nuvens por companhia.

Tinha ainda galinhas e patos de quem cuidava mas apenas comia os ovos. Quando chegava a altura de nascerem novos pintos, ela aconchegava as galinhas, aquecia-as, tratava-as como se trata de uma amiga parturiente. E gostava de ir pelos caminhos, a descobrir onde tinham as patas posto os ovos, Também já se habituara a pescar. E cuidava da horta, se é que ainda se podia chamar horta àquele bocado de terra sempre invadido por ervas e mato. Mas ela lutava, sentindo que, se um dia lhe faltassem as forças e os alimentos, não teria como sair daquele lugar que se tornara ermo, isolado de tudo.

Durante esses anos não recebeu nenhuma visita. Pensava que se tinham esquecido dela, que talvez pensassem que já não vivia lá e que pensassem não ter como a contactar. Não se importava, desculpava os outros. Todos quantos saíram de lá, saíram como se abandonassem o inferno, a desolação mais profunda, como se já não tivessem forças para lutar contra a força indómita da natureza. Quase todos tinham nascido ali, ali tinham andado na escola, ali tinham as raízes - e, no entanto, cansaram-se e, ao desistirem, parece terem querido cortar quaisquer laços. Qualquer dia não haveria casas, a todas a natureza devorará.

Só ela, que não era de lá, resistia, presa à liberdade com que tanto tinha sonhado. Vinda da cidade, tinha chegado um dia para ocupar uma casa que comprara apenas através da descrição e de fotografias. Tinha trazido as suas ferramentas, alguns móveis, roupas, louças, um grande espelho, alguns objectos pessoais -- e um piano.

Todos os dias, mesmo quando já era a única a viver naquela terra sem dono, a mulher levantava-se, lavava-se, vestia-se, comia frutos que na véspera tinha trazido para casa, e depois, sentava-se a trabalhar a madeira. Esculpia troncos, juntava cascas que embutia na madeira, e dali nasciam estranhas figuras, corpos, movimentos. Ao longo do dia ensaiava os efeitos da luz nas peças em que trabalhava. Acontecia, já depois de julgar que a peça estava acabada, ir escavar um pouco mais alguma parte para que a luz desenhasse uma sombra, ou abandonar a meio uma peça apenas porque a luz parecia não querer nada com ela. Depois cozia batatas, cenouras, fazia purés, comia-os com ovos, peixes, frutos. Dantes dormia ao princípio da tarde e ficava acordada noite fora. Depois, sem electricidade, passou a aproveitar todas as horas do sol.

Até uma certa altura, ao longe, ela ouvia os sinos. Tocavam quando começava a entardecer. Nessa altura, como se fosse um chamamento, ela largava o que estivesse a fazer e ia sentar-se ao piano. Tocava as músicas que desde sempre a tinham acompanhado. Depois, os sinos deixaram de tocar. Ela pensou que, dessa outra terra, também a última pessoa teria partido. Passou, então, a tocar à hora a que imaginava ouvir os sinos.

Para combater a solidão e para manter o sentido da voz humana, habituou-se a falar sozinha. Falava com os animais, com as árvores, com os troncos que esculpia, com a sua imagem ao espelho, quando andava pelo que antes tinham sido ruas e que, então, eram rios verdes, junto aos quais paredes arruinadas desistiam de lutar e se entregavam ao abraço mortal da natureza. Nos meses de fim de outono e de inverno, tudo ficava molhado, o verde acentuava-se, as brumas envolviam as grandes árvores, os restos das casas. Ouviam-se os sons da natureza selvagem, cantos de pássaros, o rugido do vento, ramos que se partiam, animais em liberdade. Por entre essas neblinas e frios, caminhava ela dizendo poemas, ou apenas leves toadas, conversando com alguém cuja alma tivesse ficado para trás, ensaiando diálogos, provocando o interlocutor inventado e, em imaginação, ouvindo a réplica. Nunca lhe ocorreu sentir-se triste, nunca chorou. Temia, isso sim, que um dia não conseguisse mais viver assim e tivesse que se aventurar pelos caminhos perdidos de onde todos os homens tinham fugido. Pensava que seguiria a velha linha de comboio, uma linha já quase envolvida pelo verde que tudo sugava, pensava que iria por ela pois, certamente, levaria a alguma outra terra.


Mas um dia, num daqueles momentos em que se entregava ao piano, inventando músicas, tentando reproduzir o silêncio ou a carícia do vento nas ramagens altas, pareceu-lhe ouvir um barulho estranho. Escondeu-se.

Depois o barulho parou. Sabia que era o motor de um carro. Deixou-se ficar imóvel, tremia. Sentiu-se um bicho solitário, acossado. Não sabia se o carro se teria ido embora, se tinha parado e ficado por lá. Durante muito tempo quase não se mexeu. Depois, como nenhum som se ouvisse, devagar, muito devagar, tentando que não se ouvissem os rangidos, abriu a porta, saíu pé ante pé, deu um ou dois passos na rua. Olhou em volta, assustada, sentia muito medo, sentia uma temível intuição, sentia-se ameaçada e, pior, sem defesa. O coração batia-lhe, descompassado. Quase em surdina, arrepiada, perguntou: 'Quem está aí?' Nada, silêncio. Baixinho, repetiu: 'O que quer?'. Nada. Tremia. Pensou pedir 'Não me faça mal' mas nada disse, o coração descontrolado, pensou também dizer: 'Não me tire daqui' mas a voz estava presa, com medo, muito medo. Nem um som, apenas um tremor aflito ao longo do corpo.

Fechou então os olhos, tentando apurar o ouvido, tentando perceber se ouvia passos, ou respirar.

Nada. Silêncio. Então abriu os olhos. À sua frente estava um homem. Olhava para ela em silêncio. As lágrimas escorriam-lhe pela face. Ela sentiu que as forças quase a abandonavam. Depois sentiu que, também a ela, as lágrimas lhe caíam pesadamente. Quando ele começou a andar na sua direcção, ela teve vontade de se deixar cair, teve vontade de deixar que o corpo todo estremecesse, teve vontade que, de repente, anoitecesse.

Quando ele a abraçou, ela deixou-se abraçar, deixou que ele pegasse nela ao colo, deixou que ele a levasse para dentro de casa, deixou que ele a embalasse, deixou que a cobrisse de beijos. Durante muito tempo nada disseram. Choravam em silêncio. Depois ele afagou-lhe o longo cabelo, o rosto, depois ela segurou o rosto dele entre as mãos, olhou-o bem nos olhos, encostou o seu rosto ao dele, segurou-lhe nas mãos e beijou-as e ele as dela. Quando anoiteceu ainda estavam naquilo, a reconhecerem-se, a abraçarem-se, em silêncio, parecia que não conseguiam falar, como se não houvesse palavras, como se os sentidos bastassem para exprimir e compreender o que se tinha passado desde aquele dia longínquo em que ele tinha partido, dizendo que voltava, e aquele momento em que voltavam a estar nos braços um do outro.

Mais tarde, apenas muito mais tarde, falaram: ele levá-la-ia para a cidade e, todos os meses, voltariam ali, tentando manter vivo o espírito daquele lugar abandonado. Ela corrigiu-o 'Abençoado'. Ele repetiu, 'O teu lugar abençoado'.

E assim foi. Vivem agora na grande cidade. Mas, desde então, todos dias, quando anoitece, a mulher fecha os olhos e imagina-se vestida pela noite limpa e profunda, as estrelas brilhando no seu cabelo, ao longe o som dos pássaros da noite.

Nessas alturas, ele afasta-se, deixa-a estar sozinha. Sabe que, nesses momentos, ela sonha com a lua azul que, lá longe, brilha sobre o verde sedoso, quase negro, do arvoredo, sonha com os gritos dos animais nocturnos, com a água do rio deslizando sobre o seu corpo feminino e bravio, sonha com os caminhos que percorria enquanto entoava poemas, toadas, saudades.

Depois, vai de mansinho, abraça-a, desprende-lhe os longos cabelos, colhe as estrelas e solta-as no céu. A seguir beija-lhe as pálpebras, as faces, os lábios. E diz-lhe baixinho, uma e outra vez, todos os dias, como se dissesse um segredo, devagar, ciciando: Meu amor, meu amor que vieste do princípio dos tempos, meu amor que nunca mais vou perder, meu amor, meu amor. 


E ela sorri. É feliz como sempre foi, talvez agora ainda mais.
E pensa : 'Não tenho explicação para este amor'

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Lá em cima Antony and the Johnsons interpretam, uma vez mais, Bird Gerhl. Agora aqui no fim Ella Fitzgerald interpreta Blue Moon. A última imagem é um desenho de Hajin Bae. As fotografias mostrando lugares tragados pela natureza foram obtidas na net, não correspondendo todas ao mesmo lugar. Não me importava que a mulher da história fosse eu mas não é, a minha vida é bem mais banal do que a da mulher livre que aqui imaginei. Cá para mim, o reencontro aconteceu a uns dias de ser Natal.
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Muito gostaria ainda que me visitassem também no meu outro blog, o Ginjal, onde hoje, em dia de azuis intensos e doces imagiações, vou pela mão de Pedro Tamen, ao som de Bach.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma grande semana a começar já por esta segunda-feira.

E que este período festivo seja, para todos vós, o melhor possível.

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6 comentários:

Pôr do Sol disse...

Cada uma á sua maneira todas as mulheres são corajosas.

Mais uma bonita historia de Um Jeito Manso. Historias de Natal trazem-nos sempre a esperança de um tempo melhor.

Os melhores votos de um Natal cheio de calor, paz, saúde, risos, vontade e força para fazermos um Mundo melhor.

Num terno abraço, um obrigada pela partilha deste espaço.

RP disse...

Dá uma olhada no meu blogue de contos http://www.o-devir-da-escrita.blogspot.pt/

Anónimo disse...

Gostei de ler este seu conto. Como já em tempos lhe disse, você devia dedicar-se um dia, mesmo que ocasionalmente, à escrita.
Já que refere esta época especial, aproveito para lhe desejar, a si e aos seus, um Feliz Natal, com Paz e Saúde.
P.Rufino

Mar Arável disse...

Tudo pelo melhor

Bj

Um Jeito Manso disse...

A Todos,

Muito obrigada. A vossa companhia aí desse lado é muito importante para mim.

Desejo-vos, também, uns dias muito felizes, vividos com saúde, paz e afecto.

Um sentido abraço.

Anónimo disse...

Writers: the Villa départementale Marguerite Yourcenar - Nord (France) welcomes applications for 1-2 months ‪funded‬ residencies in 2017. Deadline: 1 January 2016.
Three (European) ‪‎writers‬ can be accommodated at the same time on the site of the former family property of the writer Marguerite Yourcenar (1903-1987).