Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, dezembro 31, 2014

Isto é para si aí, longe, e, no entanto, tão próximo de mim. Não quero acabar 2014 nem aproximar-me de 2015 com palavras de pesar ou mágoa. Quero entrar em 2015 cercada de beleza e na vossa companhia.


No post abaixo falei ao de leve naquilo sobre o qual não queria debruçar-me: o BES. A televisão estava a transmitir as gravações do Conselho Superior do GES e, sem querer, dei por mim a ouvir parte da conversa entre aquelas vozes nuas, geladas de angústia. E, mais do que atentar na aflição que transparecia, senti vergonha por estar a ouvir conversas que deveriam ter permanecido reservadas. Quem pegou nas gravações e as ofereceu ou vendeu portou-se como um traidor e isso eu acho uma imperdoável baixeza moral, lama que parece alastrar sobre a frágil sociedade portuguesa.

Mas, enfim, disso falo no post seguinte.

Aqui, agora, a conversa é outra.

Vamos com música, se estiverem de acordo.







E que prossigam os momentos de beleza porque, apesar da compaixão que me merecem os que sofrem e aqueles que vêem sofrem pelos que amam, o ano não pode resumir-se aos que sucumbiram às garras da má sorte, aos que se viram destroçados ou aprisionados, aos que pereceram numa maca de um hospital sobrelotado como cães abandonados numa qualquer escura vereda, ou às estatísticas dos que morreram na estrada, ou aos que, em geral morreram em 2014 (por muita falta que todos os que partiram façam aos que ficaram), nem às falências, às guerras, conflitos, catástrofes naturais, forces majeures, acts of god.

No outro dia ouvi o director do DN, o respeitável André Macedo, a dizer que nesta altura do ano não há notícias pelo que as más notícias são boas notícias para os meios de comunicação social. E, de facto, por esta altura parece que, para consolo dos jornalistas, uma qualquer força centrípeta afasta da superfície da terra aviões e navios que desaparecem ou se incendeiam, ou tsunamis, tremores de terra, vagas de frio, cheias que tudo arrastam, coisas que devoram vidas sem dó nem piedade.

Mas se disso se ocupam ad nauseam os noticiários, não preciso de trazer esses temas para aqui. Não eu.




É que há o que não é notícia.

O que é belo não é notícia. As palavras cuidadosamente cerzidas na intimidade da noite ou ditadas por insones deuses, os acordes experimentados no silêncio dos sonhos, os gestos transformados em cor, os sorrisos e os movimentos fixados em imagens como se o tempo parasse para eternizar o momento, a liberdade dos corpos enquanto anjos de longas e esguias asas, as luminosas descobertas alcançadas depois de horas de intermináveis insucessos, as vozes que atravessam os imensos espaços com a intemporal poesia - nada disso é notícia ou, se o é, dirige-se a minorias. E, no entanto, nisso deveria estar a tónica, nisso e não no fracasso, nos aparentes e efémeros sucessos, na malvadez emergente, na doença sem dono, na morte, no fim da linha.


Tantas vezes aqui tenho vontade de me atirar aos chacais que invadem as ruas, às hienas que riem rodeadas de carniça, aos papagaios que repetem mentiras e ampliam perfídias. Muitas vezes cedo e nisso me desgasto como se das minhas denúncias e revoltas pudesse resultar alguma clarificação. Mas, quando me detenho, acho inútil. Pior: acho que faço mal. Melhor fora que desprezasse os que vivem do lado nefasto da vida e me entregasse ao louvor do que é belo e bom.




E me deixasse estar a escrever. Ou a transcrever as palavras lisas como elegantes linhas. Assim, por exemplo:

Escrevo como se corresse num jardim, ou num deserto iluminado de areias ____

____ escrevo
para que o romance não morra.
Escrevo, para que continue,
mesmo se, para tal, tenha de mudar de forma,
mesmo que se chegue a duvidar se ainda é ele,
mesmo que o faça atravessar territórios desconhecidos,
mesmo que o leve a contemplar paisagens que lhe são tão difíceis
de nomear


Sento-me num tronco nos limites da clareira, fechando os meus olhos fitos no seu centro, deixando que tudo corra, mesmo na sua imobilidade. E dou-me conta de que corre uma aragem pelas árvores da clareira, tal como um murmúrio, que me suscita a palavra murmuragem. A murmuragem das copas das árvores, como digo a murmuragem que sou.

o encontro inesperado do diverso
é assistir ao belo a comunicar com o silêncio;
a fraccionar a imagem nas suas diversas formas;
ajudá-las a levantar o véu para que se mostrem mutuamente
na beleza própria




era uma noite no meio da lavoura
e da tarde

amorosa como um punho fechado
amena como um estudo de noite.

era uma correnteza de aves fundas
a constituir família.
a palavra era branca como só o branco
e o molde dos insectos era branco como ela
o sangue no tear era branco como ela
o pão escuro o homem pela sombra
era branco como ela.

ela e ele brancos como só a palavra.




E tanta a beleza quando os corpos se entregam ao voo e ao aconchego do corpo do outro.


 

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E tanta a beleza quando as palavras nos chegam dirigidas a nós e nós, de coração, as entregamos àqueles que tão generosamente nos visitam.




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-  A música no início era Anna Prohaska interpretando 'Der Vollmond strahlt auf Bergeshöhn' (de 'Rosamunde', Franz Schubert), com Eric Schneider no piano

-  As fotografias retratam a beleza quase irreal de plantações de arroz e foram obtidas aqui.

-  O primeiro conjunto de poemas/palavras em itálico pertence a Maria Gabriela Llansol e foram extraídos do belo livro 'O encontro inesperado do diverso' com Ilda David e Duarte Belo

-  O segundo conjunto de poemas (2) pertence a 'Marsupial', um livro de Catarina Nunes de Almeida

-  A pintura é de Caravaggio (1602): A Sagrada Família com S. João Baptista

- O bailado mostra Polina Semionova e Vladimir Malakhov em CARAVAGGIO numa coreografia de Mauro Bigonzetti ao som de Prayer Of The Heart de John Tavener numa interpretação de Bjork.

-  Os poemas ditos pelo talentoso Benedict Cumberbatch, senhor de uma voz maravilhosa, são Words for You:
1. The Seven Ages Of Man (também conhecido por The World's A Stage) da peça As You Like It de William Shakespeare
2. Jabberwocky de Lewis Carroll
3. Divine Comedy de Dante Alighieri
4. Ode To A Nightingale de John Keats
5. Kubla Khan de Samuel Taylor Coleridge
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Permitam que relembre: sobre as gravações dos membros da família Espírito Santo e sobre a decadência moral mais do que financeira que rodeia tudo isto, falo no post já a seguir a este.

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E o que vos desejo, meus queridos Leitores, é o mesmo que desejo para mim e para os meus: que 2015 nos deixe crescer, nos deixe ter esperança, nos dê razões para nos sentirmos felizes e que nos deixe espaço para apreciarmos toda a beleza que nos rodeia.


E, claro está, também saúde, sorte e desafogo financeiro. 
E afecto seja lá de que forma for e venha ele de onde vier. 
E que nos vamos encontrando por aqui.

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As gravações do Conselho Superior do GES nas quais de ouve o que se passou naqueles dias de medo e horror que precederam a resolução do BES: o símbolo perfeito do que foi este ano de 2014.







Não quero falar do que de mau e estranho aconteceu em 2014, nem quero fazer balanços nem selecções. A minha memória não mo permite e a minha natureza não me puxa para o passado.

Mas sei que foi um ano estranho, em que a dissolução parece ter acometido parte da sociedade portuguesa. Prisões e julgamentos em catadupa e sempre aquela sombra de exagero, de judicialismo que assusta, um Estado que parece estar a ser tomado por dentro pelo que existe de mais medíocre, mais perigosamente moralista. Aquilo que eu tomava por borra parece ter-se alcandorado ao estatuto de nata. Uma nata feita de borra infecta.


Há pouco a televisão revelava as gravações das reuniões de Conselho do BES, a família ali toda representada, os Espírito Santo dos cinco ramos reunidos em torno de uma hecatombe que, qual tsunami, avançava na direcção deles, tudo derrubando à sua passagem. 


Ouvem-se vozes aflitas, sente-se o medo, um pavor gelado, um império a ruir sem que eles o pudessem conter. Está na hora de pôr o Moedas a trabalhar, diz um, e Ricardo Salgado liga-lhe e ouve-se a chamada. E a voz de Ricardo Salgado, o líder em quem os outros confiavam, sente-se quase trémula. Antes ele tinha contado de um processo que lhes estava a ser movido no Luxemburgo, diziam que podia ser o fim, ele dizia que eram más notícias, a voz mal escondia o medo. E, de novo, ele ao telefone, desta feita para Carlos Costa que nem sim, nem não, e sabemos agora que, sem o assumir, já estava a lavar as mãos. Na altura em que ali se reuniam sem saberem já como salvar o grupo e o seu bom nome, eram já, sem que o soubessem, um grupo de condenados.

E eu, enquanto os ouvia, senti vergonha. Vergonha por eles. Sinto a vergonha que devem sentir quando ouvem as suas conversas, o seu estertor, a ser difundido para o mundo inteiro, nas televisões. Que tenham gravado tudo para depois transcrever e melhor fazerem as actas ainda vá que não vá. Agora que alguém tenha pegado nisso e oferecido ou vendido às televisões e jornais parece-me abjecto. 

Penso com nojo no traidor que, tendo ali estado, vivendo por dentro aqueles momentos de pânico, foi a seguir vender ou oferecer esses momentos que deveriam ficar na intimidade de quem os viveu. Uma abjecção.

Que a TVI divulgue esse material acho menos grave já que reconheço que é matéria que, inegavelmente, tem interesse jornalístico. Mas há no acto de vender aquelas vozes uma indignidade, uma sujidade moral, que me incomoda. 

Todos quantos têm passado pela Comissão Parlamentar e confessado que não sabiam nada do que se passava não devem estar a faltar muito à verdade. Muita da alta gestão é feita assim, na ignorância, confiando que alguém há-de saber o que está a fazer. Até ao dia em que alguém não sabe ou age de má fé. E ninguém dá por nada porque não estão lá para ver balancetes, balanços, extractos, análises de pormenor. Estão lá para fazer lobby, para mover influências, para patrocinar, para socializar - não para trabalhar. E depois a nobreza, a legítima e a presumida, tem destas coisas, parece que todos os bens lhes são devidos e que são inesgotáveis. Não sabem acautelar, vigiar, prevenir. 

Receberam com quase indiferença os milhões que os contribuintes iam pagando a mais (dos submarinos e sabe-se lá de que mais) como se fossem prebendas que lhes fossem devidas, o povo a pagar aos nobres. Mas tudo feito desmazeladamente, com excesso de confiança. E não é de espantar, sabem que a justiça está a mando de outros igualmente desmazelados. 

Uma sociedade em que as elites são assim, desmazeladas, incultas (e temos ouvido como mal sabem falar) de vez em quando derrapa para o charco, é natural.

São as elites que temos, nada a fazer.

Até que se assista a um rigor maior a nível político (e não se confunda rigor com prepotência, e não se confunda competência com palavras soltas coladas com cuspo, e não se confunda determinação com cegueira), empresas com as do GES, incluindo o BES, ou a PT ou outras que ainda por aí andam, correm o risco de a todo o momento poderem estourar. 

Um regime politicamente avançado que potencie a boa estratégia, a saudável gestão, que impeça habilidades fiscais, que premeie o fogo de vista, saberá impulsionar a qualidade a todos os níveis e vigiar as que assentam em fogo de palha.

Agora isto... Traições, denúncias, sabujices, gáudio pelo mal alheio, invejas, intrigas. Tudo isso só revela uma sociedade doente. E disso eu não quero falar.

Prefiro continuar a acreditar que somos um país com muitos séculos de história, que da nossa ancestral raiz seremos capazes de descobrir o resto da seiva pura que nos há-de, um dia, fazer crescer com orgulho. Quero acreditar que, apesar de parecermos um país de velhos agarrados a uma história que parece nunca nos ter conseguido ensinar nada de frutuoso, temos ainda em nós a capacidade e a vontade de nos reinventarmos, temos em nós a sede de liberdade que nos há-de levar à nossa verdadeira independência e soberania.




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As fotografias são de Beth Moon e mostram árvores muito velhas e muito belas.


Interpretada pela orquestra Divino Sospiro e pela soprano Eduarda Melo, a música é um excerto do concerto “Jommelli, Gluck e Avondano: 300 anos do nascimento" 

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terça-feira, dezembro 30, 2014

"Aí está outra coisa: a idade. Tanto como o nome, ainda menos que o nome, também a idade não deveria ter grande importância. Mas tem. Oh, se tem!", disse David Mourão-Ferreira. E pergunta uma Leitora: "As grandes coisas "materiais" têm importância com a idade?"


O post abaixo é dedicado ao humor e mete uma mulher audaciosa e um cavalo marinho - e mais não digo.

A seguir, se não se importam.

Aqui, agora a conversa é outra. A Leitora Rosa Pinto perguntou se as grandes coisas 'materiais' são importantes com a idade.

Mas - uma vez mais o sugiro - vamos com música: Anna Prohaska interpretando Song to the moon de Dvořák, com Eric Schneider no piano. Um som quase divino.








A pergunta, da forma como é feita, é relativamente abrangente e permite-me, à laia de introdução, falar sobre a importância da idade em sentido lato.

Para começar, direi que, seja qual for a perspectiva, a idade importa mas, em minha opinião, não necessariamente no mau sentido. 

É claro que à medida que a idade avança, o corpo vai perdendo resistência e a flexibilidade, a pele vai perdendo a luminosidade, o cabelo vai perdendo a vitalidade. 




Mas em tudo isso pode ser vista beleza, a beleza de um corpo que se vai transformando, assimilando o tempo que passa.

Claro que há também, de vez em quando, o desconforto das articulações que perdem a lubrificação ideal, dores que surgem e custam a passar. Mas, para isso, há tratamentos e, aos poucos, o corpo também se vai habituando a conviver com essa nova realidade. E há a flacidez que não se cura com comprimidos mas que apenas significará decadência se a mente se sentir decadente.

E no amor?

No amor a idade traz maior exigência mas, por outro lado, maior tolerância. 




À medida que se vai conhecendo mais e melhor a vida, vai-se sendo capaz de relevar o que é insignificante e passageiro e vai-se percebendo que não se deve esperar por algo que, de tão perfeito, pode não existir, ou que não se deve contrariar a natureza e que, se o corpo pede uma coisa, deve-se satisfazê-lo sob risco de a oportunidade passar. Da mesma forma, há uma urgência que advém do contador que vai avançando e que impede que se continue a tolerar o que é intolerável.

E no sexo?

No sexo a idade traz um tempo, uma disponibilidade que antes havia em menor quantidade e qualidade e traz um maior conhecimento dos corpos, do próprio e do outro, e uma maior capacidade de entrega e partilha.

E nas grandes coisas materiais, como explicitamente a Leitora refere? 
Por exemplo (digo eu), conhecer grandes hotéis, frequentar os mais caros e luxuosos restaurantes, fazer grandes viagens e consumir sem limites, adquirir roupas de marca custem o que custarem, ter casas requintadamente decoradas com peças assustadoramente valiosas?
Penso que, à medida que a idade avança, tudo isso vai perdendo relevância. Claro que há aqueles para quem a vida apenas faz sentido em função do que conseguem possuir ou experiências exóticas e dispendiosas que conseguem averbar no curriculum - mas com esses eu não me identifico, pelo que por eles não falarei. 




De facto, a mim, isso pouco me diz e cada vez menos. Cada vez aspiro mais à simplicidade, ao valor intrínseco do que é genuíno - ou porque seja puramente natural ou porque resulte do trabalho amoroso de alguém. 

Fiz estas fotografias in heaven durante este fim de semana. O sentimento de deslumbramento que tenho
perante a perfeição de uma pequena flor que desponta no junquilho, 
ou perante os bocados do tronco do meu grande pinheiro que tombou num dia de vendaval e cuja memória preservo, contemplando a beleza da rugosidade que os cobre, 
ou perante a sumptuosidade efémera da flor do aloe vera 
ou, ainda, perante as cores suaves da rocha, entre o azul e o dourado, que se tornam ainda mais belas quando entrevistas numa tarde fria junto aos braços de um pinheiro que dança ao sabor de um vento vagaroso 
é um sentimento imenso, que me empolga, que me fascina. 

Fico perante as cores da rocha num estado de encantamento muito puro e inocente que não se compara ao prazer mundano de frequentar um bom hotel, toco a macieza da sua superfície humedecida e é-me bem mais agradável do que sentir uma cara caxemira, debruço-me e quase venero a perfeição quase intangível da pequena flor como não veneraria uma dispendiosa peça de joalharia.


D & G - 2015


Mas, dito isto, tenho que reconhecer que também não me é indiferente um confortável quarto de hotel com uma bela vista, uma obra de arte que me provoque ou um livro bem encadernado e ilustrado, uma peça de vestuário principescamente costurada - essas grandes coisas materiais.


D & G - 2015


Mas isso é uma coisa e outra é gastar fortunas ou decidir o que gosto ou não gosto em função de modas, de marcas, de prestígios exibicionistas.
[Por exemplo, alguns dos quadros que tenho aqui na sala onde agora estou, e dos que mais gosto, adquiri-os por poucos euros num pintor que vendia a sua arte na rua, mais concretamente na Plaza Mayor em Madrid.]
Importante é a alegria, o gosto pela vida, os afectos, os sorrisos, a beleza das palavras, o apelo de toda a arte, o desafio infinito do conhecimento, o conforto maternal que vem da natureza - e essa importância vai crescendo à medida que a idade nos vai dando a faculdade de melhor abrir o coração e a mente. E as mãos.

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A propósito de tudo isto e da beleza da idade e da importância das grandes coisas imateriais, deixem que vos mostre o vídeo com o novo anúncio Dolce & Gabbana (Verão 2015) - a sensualidade mediterrânica, o convívio entre os dois sexos, entre as várias idades (as mulheres de idade são maravilhosas), as influências de Espanha e Itália misturadas e em festa, tudo é magnífico.





E viva a vida, em qualquer idade!

...   ...

E, se é para glorificar coisas que verdadeiramente importam nesta vida, como a beleza e a partilha, e rir e mandar os preconceitos às urtigas, pois então que entre o Freedom Ballet: esta é uma das formas de honrar a beleza imaterial do movimento e da liberdade dos corpos

6&7





...   ...

E se é para deixar que as palavras nos levem no seu voo imaterial, que se chegue a nós o Pedro Lamares e diga "Metade" (Oswaldo Montenegro)

E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também





...   ...

E se é para ajoelharmos perante a beleza imaterial de seres que, de tão belos e intemporais, quase poderiam ser delicados anjos, pois que dancem para nós as medusas Água-viva-juba-de-leão, Cyanea capillata, a Urtiga preta do Mar, Chrysaora achlyos, a Medusa da Lua, Aurelia aurita e a Provocação do Mar, Chrysaora fuscescens. 


No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores


(in O fundo do mar de Sophia)




...   ...

Nunca quando eu era menina e jovem mulher pude deleitar-me tanto com a infinita vastidão da beleza que está agora ao meu alcance e com a qual antes mal conseguiria sequer sonhar. Menina deslumbrada perante a imensa beleza que me cerca sou eu agora.

Elegantes medusas, sublimes cantos, poemas, danças, sorrisos, palavras que chegam vindas não se sabe de onde, essas sim são as verdadeiras coisas que materialmente importam - e isso sei-o agora, agora que a idade vem deixando as suas marcas de beleza no meu corpo.

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Relembro: a divertida história da mulher que queria porque queria um cavalo marinho é já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

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Amor, eu quero um cavalo marinho...!




Ela -  Amor, eu quero um cavalo marinho...! Pode comprar um para mim na loja dos bichinhos...?

Ele -  Cê tá doida? É muito difícil conseguir isso. Qual é loja que vende isso? Nenhuma. Sem chance, esquece!

Ela -  Se trouxer um cavalo marinho ainda hoje, deixo tu dormir com minha prima e eu juntas.




Algumas horas depois...




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segunda-feira, dezembro 29, 2014

Grandes livros. Grandes Hotéis. Mais alguns dos meus livros de 2014 e locais onde eu não me importaria nada de os ter comigo. E, porque de castelos, palácios e hotéis vos vou também falar, quero estar em boa companhia: 'Uma noite com Kylián'


No post abaixo falei-vos do filme 3 Corações que fui ver este domingo, um bom filme que não encaixa nos filmes saison, apalermados e banais. 

Mais abaixo ainda, encontrarão dois post de humor, de um humor tristemente actual.

Mas tudo isto é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


Se ontem falei de livros que li em 2014 e os fiz acompanhar por magníficas bibliotecas, hoje continuo com leituras deste ano que está prestes a findar, mas mudo de cenário. Saio do labirinto infinito das bibliotecas para me entregar a outros tipos de prazeres: vou procurar locais onde eu gostaria de estar tranquilamente, vendo a paisagem, degustando o conforto, lendo um livro.

[Deixo informação de ordem prática para os happy few que se possam dar ao desfrute da verdadeira qualidade de vida (telefone, preços, etc) e poderão reparar que há para quase todas as bolsas - excepto, claro, para quem vive honestamente em Portugal mas, enfim, deixemos isso para lá, que isso é uma pieguice e estamos mais do que avisados de que devemos deixar de ser piegas].

Adiante, pois.

Mas, para começar, se não se importam, vamos com música. 

Acompanhar-nos-á o Peter Erskine Trio (John Taylor no piano) com Amber Waves 






Castello Di Santa Santa Eurasia, Italia
Colonnata - Lavender bedroom

When Evgeny Lebedev found this 12th-century castle in Umbria, he was determined to open a hotel here. The only problem? It was utterly dilapidated. Cue a restoration by the architect Domenico Minchilli and the interior designer Martyn Lawrence Bullard. They scoured the world for the finest Umbrian Renaissance art and furniture; local artisans produced ironwork to 17th-century designs. The result is like a time warp – open fires, rustic food and views over rolling hills towards Florence make for Medici levels of splendour. This is a place to escape the world: loll on your draped four-poster or wander across olive groves to a state-of-the-art pool, gym and hammam. [via Harpar's Bazaar]

(+39 075 857 0083), from about $5,400 a night for exclusive hire
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Apesar dos amigos, vivo isolada. Não estou feliz nem em paz, antes envolta numa dormência melhor do que todas as alternativas. É então que começo a aperceber-me das tentativas dos outros para se aproximarem, mas não posso corresponder-lhes sem trair o desfasamento brutal em que vivo. Não obstante, avançam. Vejo-os como inimigos que tentam acostar de todas as formas possíveis para me expor e sugar. Quando afugento os barcos aterram os helicópteros, quando despisto os aviões emergem os submarinos, numa marcação cerrada. Por fim, na impossibilidade de me livrar de todas as ameaças, cedo e sucumbo, oferecendo aos outros o espectáculo desta minha dificuldade. As ameaças são caricatas: é um filho a pedir apoio ou uma editora a lembrar-me um prazo ou alguém a desafiar-me para um cinema. Na minha mente alucinada, tudo é dramatizado como uma perseguição. Quando, finalmente, conseguem vencer a minha resistência, encontram-me bem, e há até quem se deixe contagiar pela minha energia arrebatadora. Na verdade, tenho tanto medo que descubram esta lama em que vivo que passo ao outro extremo.


Rita Ferro in Veneza pode esperar, Diário I


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Castello Di Santa Santa Eurasia, Italia
Collonatta- exterior
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Só se sentia liberta quando ficava sozinha,
sem o destino, a desgraça, o abismo dos outros pesando nos seus ombros de menina vulnerável, pequena sibila contra quem se volta sempre a lâmina afiada do próprio dom de adivinhar o impossível.
E eram as noites em claro que passava escutando os astros e as demoradas tardes de mar ou à beira do rio que a salvavam. Sentada nas suas pedras duras e escorregadias, quentes, lisas e macias, que lhe reequilibravam o corpo frágil de menina arredia, pés descalços que mergulhava até aos tornezelos fininhos, a molhar a bainha da saia e em seguida a ponta do bibe apertado na cintura,
por um laço de borboleta,
duro de goma seca pelo ferro de passar, que as mulheres abriam levantando a parte de cima, a fim de soprar as brasas que refulgiam como rubis por entre o cinzento vulcânico das cinzas.

 Maria Teresa Horta in Meninas


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Balfour Castle, Orkney islands

As temperatures plunge in the Highlands, where better to curl up by an open fire with a dram of sloe gin than the world’s most northerly castle hotel? Nestled on the Orkney island of Shapinsay – a private launch, Reggie, transports guests from the mainland – this 19th-century Baronial pile has Gothic turrets from which to survey the grounds and islands beyond. Its five-star rooms boast giant, cloud-like beds, and bathrooms lined with De Gournay painted silk. Chef Jean-Baptiste Bady makes clever use of the kitchen garden, surrounding shores and game-filled woods in his quest to win Orkney’s first Michelin star. Those who venture out can shoot, fish, birdwatch or hike across the wild beauty of the island, but with Balfour’s enchanted world offering a spa, billiards- and cinema-rooms, and even a golf simulator to hand, there’s really no need to leave.  [via Harpar's Bazaar]
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(01856 711282), from $6,700 a night for exclusive hire 
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Tive de passar seguramente várias vezes a borracha sobre as linhas suaves so seu rosto de mulher de vinte anos antes de redescobrir o rosto ácido, anguloso, ainda infantil de Carla, a adolescente que estivera na origem da nossa crise conjugal de havia uns anos. E decerto também, foi só depois de a reconhecer que, fulminada, reconheci os brincos que ela usava, os brincos da avó de Mario, os meus brincos.

Pendendo-lhe dos lobos das orelhas, realçavam-lhe a graça do pescoço, iluminavam-lhe o sorriso tornando-o mais brilhante ainda, enquanto o meu marido, diante da montra, a abraçava pela cintura com um gesto de proprietário feliz, ao mesmo tempo que ela lhe pousava nas costas um braço nu.

O tempo pareceu dilatar-se. Atravessei a rua com grandes passadas firmes, sem sentir a mais pequena vontade de chorar, de gritar ou de exigir explicações, mas apenas um desejo negro de destruição.


Elena Ferrante in Crónicas do Mal de Amor


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Cap Rocat, Espanha

Cut into the cliffs of a private peninsula on Majorca’s Bay of Palma, a golden castle-cum-hotel welcomes guests. The sandstone walls and crenellations of this former fortress teeter above more than a mile of secluded coastline. The castle opened to the public in 2010 after a refurbishment by Claudia Schiffer’s personal architect, Antonio Obrador. The 24 spacious and stylish bedrooms carry reminders of the building’s past: there are bullets for door handles, and gun carriages reworked as coffee tables; the original gunpowder bunker is now a magical events space. You’ll also find a glittering saltwater swimming pool overlooking the bay, along with an endless supply of fresh seafood..  [via Harpar's Bazaar]

(+34 971 747 878), from about  $535 a suite a night B&B.
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"De acordo, as nossas cidades e os seus princípios estão a tornar-se famosas no mundo - comentou o irmão - mais que não seja pelas orgias, os escândalos, as obscenidades,"

"Ah, há um pormenor de que me estava a esquecer", disse Lucrécia. "Na obra a que assistimos, quase no proscénio actuavam crianças que, no culminar das pantomimas grotescas mais grosseiras, se limitavam a olhar perturbadas. Depois puxavam, fazendo-a deslizar, a longa tela que fazia de pano de boca, quase a apagar aquele mundo obsceno e cruel que os actores tinham mostrado até então. Erguia-se de imediato um canto, quase de história infantil, e as crianças começavam a dançar, a abraçar-se e a fazer gestos afectuosos e puríssimos na sua ternura. E foi ali que nos revi a nós, em pequenos, quando vivíamos todos na mesma casa e brincávamos à família."


Dario Fo in A Filha do Papa


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China Tower, Devon

The Landmark Trust’s newly refurbished China Tower was built by Lady Louisa Rolle as a surprise birthday gift for her husband, the first Baron Rolle, in 1839. This octagonal Gothic revivalist folly stands among conifers atop a knoll with sweeping coastal views. On four storeys, China Tower sleeps four guests comfortably. Perfect for acting out your favourite folk-tale fantasy.  [via Harpar's Bazaar]

(01628 825925), from £265 for four nights mid-week; from $600 for three nights over a weekend.
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Uma noite com Kylián




COMPAÑÍA NACIONAL DE DANZA
Director Artístico: José Carlos Martínez
COREOGRAFÍA: Jiri Kylián

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Permitam que relembre: para saberem sobre o filme 3 Corações que vi este domingo e que recomendo, e para se rirem com duas piadas muito oportunas, deverão percorrer os três posts seguintes.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

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3 Corações


Os dois posts abaixo foram dedicados ao humor (e, desde já agradeço aos Leitores que tão amavelmente me fazem chegar piadas tão oportunas): um papagaio feliz da vida com o PSD e aqueles que, estando ainda em Belém, desmentem o Papa no que se refere às figurinhas do presépio.

A seguir, se não se importam.

Aqui, agora, a conversa é outra.


Na maior parte das vezes, os filmes que despertam a minha atenção não passam nos cinemas Lusomundo e, portanto, enquanto os vejo, não ouço sons mandibulares nem sinto o odor enjoativo das pipocas. E não é preconceito meu pois só o descubro depois de me ter interessado por eles. 

Explico. O meu processo de selecção é o seguinte: começo por consultar o cinecartaz para ver os filmes que estão em exibição. Em relação a alguns sinto a curiosidade que me leva a abrir a informação, e, então, leio o resumo. Se acho que algum tem probabilidade de me levar lá, vejo o trailer e só então vou saber em que salas está. 

Dantes, e reportando-me aos tempos mais recentes, o cinema onde mais ia era ao King, ali ao Maria Matos. Mas vai tudo fechando. Subsistem os Medeias. Não sei porquê nunca engracei muito com o Saldanha ou o Fonte Nova mas, paciência, é o que há. 

O filme 3 Coeurs (que quase poderia ser 3 Soeurs, tal a proximidade entre as 3 mulheres do filme, a mãe e as duas filhas) despertou o meu interesse. Gosto de cinema francês, o triunvirato feminino (Charlotte Gainsbourg, Chiara Mastroianni e Catherine Deneuve, mãe de Chiara) pareceu-me promissor e a história pareceu-me interessante.


Felizmente o meu marido já ultrapassou aquela barreira psicológica que teve até há algum tempo atrás (achava os filmes franceses chatos todos os dias) e, por isso, aceitou a minha proposta. 

Poderíamos ter ido ao Corte Inglês mas aquilo soa-nos sempre a barafunda e fugimos de barafundas como o diabo da cruz. Fomos, portanto, ao que funciona no ex-Monumental que, salvo erro, se designa por Medeia Saldanha. Não é fantástico: as cadeiras não são muito confortáveis, a inclinação da sala não é famosa (felizmente o senhor que estava à minha frente reclinou-se o suficiente para não me tapar a visão) e o espaço entre cadeiras é acanhado. Contudo, talvez porque o filme foi mesmo bastante interessante, acabei por nem dar pelas condições o que também deve significar que elas são piores na aparência do que na realidade.

O actor masculino é Benoît Poelvoorde, um comediante belga que me faz lembrar muito o nosso Eduardo Madeira (e que me deixou com vontade de ver como é que o Eduardo Madeira se sairia num desafio deste tipo). Apesar de comediante, Benoît tem aqui um desempenho surpreendente num papel dramático.


Quanto à dupla feminina: Chiara é parecidíssima com o pai Mastroianni embora com traços da mãe e a Charlotte mistura na perfeição os genes dos pais (Jane Birkin e Serge Gainsbourg).


Quanto ao filme em si, transcrevo a síntese do argumento tal como se lê no Cinecartaz do Público:
Marc (Benoît Poelvoorde) está na estação de uma aldeia de província. Perdeu o último comboio da noite, que o levaria de volta a Paris. Em compensação, é nesse momento que conhece Sylvie (Charlotte Gainsbourg), com quem sente uma empatia imediata. Acabam por ficar a conversar até à hora do primeiro comboio da manhã. Marc embarca, mas não sem antes combinar um reencontro, dias depois, no Jardim das Tulherias. Ela comparece. Ele, por causa de um enfarte, não. Sem nada que os ligue ou que lhes permita retomar o contacto, ambos regressam às suas vidas. 
Ele há-de conhecer – e marcar casamento com – outra mulher, Sophie (Chiara Mastroianni), para descobrir depois que ela é, afinal, irmã da fascinante desconhecida que nunca esqueceu. 
Apresentado na selecção oficial do Festival de Veneza e do Lisbon & Estoril Film Festival, um melodrama do realizador francês Benoît Jacquot ("Adeus, Minha Rainha"), sobre um triângulo revelador da complexidade das relações amorosas. No elenco, destaca-se ainda a presença de Catherine Deneuve, no papel de mãe das duas irmãs.

Pois devo dizer-vos que gostei bastante do filme. Tem aquele ambiente agradável que se encontra nos filmes europeus. Não há perseguições, crimes, não há pressas, não há barulho. O décor das casas dá gosto (a casa de família é linda), a história avança sem piruetas ou efeitos especiais, há uma representação cuidada, a caracterização das personagens é credível e sustentada, há uma tensão crescente que nos envolve e, portanto, nem damos pelo tempo. Quando o filme acaba não sentimos pressa nenhuma em levantar-nos e quase ficamos com mixed feelings em relação ao final (que, há que confessá-lo, era inevitável).


A única versão que encontrei do trailer já traduzido e disponível para incorporação no editor do blogger é este vídeo aqui abaixo que tem mais do que o simples trailer. Contudo, acho que não prejudica o objectivo de apresentar ao que o 3 Corações vem.




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Relembro: para humor é descer, por favor, até aos dois posts já a seguir.

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"Papa reafirma virgindade de Maria e diz que o burro e a vaca não estavam no presépio" - mas há quem faça uma rectificação.


No post abaixo já contei a anedota do papagaio feliz da vida com o PSD. Tem graça e não ofende.

A seguir, se não se importam.


Aqui, agora, transcrevo o conteúdo de um mail que acabei de receber.

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"Papa reafirma virgindade de Maria e diz que o burro e a vaca não estavam no presépio"

 A vaca não sei, mas Maria e o burro continuam em Belém.

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P... que os p....! Viva mas é o PSD, a alegria dos papagaios!


Em qualquer lugar de Portugal, um menino regressa da escola cansado por andar a pé uma grande distância. O governo subiu os preços e não há dinheiro para o passe.

Faminto, pergunta à mãe;

- Mãe, o que temos para comer?
- Nada, filho...
O menino olha para o papagaio que têm em casa e pergunta:

- Mamã, porque não comemos papagaio com arroz...?
- Não há arroz...
- E papagaio no forno...?
- Não há gás...
- E papagaio no grelhador eléctrico...?
- Não há electricidade...
- E papagaio frito...?
- Não há azeite, filho...
O papagaio suspirou de alívio e, felicíssimo, gritou: 

- P... que os pariu. Viva mas é o PSD...!!!


domingo, dezembro 28, 2014

Grandes Bibliotecas do Mundo, Grandes Escritores do Mundo. Alguns dos meus livros de 2014, algumas das bibliotecas onde gostava de me perder. E dancemos. Fica no singelo.


No post abaixo, partilhei um vídeo em que, em pouco mais de um minuto, se diz tudo o que de importante há a saber sobre o verdadeiro motor da dívida dos países: o lado sinistro da Banca descrito em meia dúzia de palavras.

Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra.

Bibliotecas, terra de perdição, memórias maravilhosas, sonhos longínquos, labirintos onde ainda quererei perder-me. Apenas algumas das mais belas.

E livros que me acompanham, aqui junto a mim, presenças materiais que toco e leio de quando em vez. Apenas alguns. 

Se estiverem de acordo, vamos com música, uma música muito límpida.


John Taylor - Middle Age Music




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Biblioteca Joanina, Coimbra




Portugal’s João the Magnanimous astonished the rector of the University of Coimbra by telling him that his request for help towards library facilities was too modest; the lavish result was financed with gold reserves that had been recently discovered in Brazil. - THE TELEGRAPH



E quando a professora afirmava, com indiscutível autoridade, "O nosso país tem tudo" ou "Salazar é a Grande Luz", eu e os outros, tenros de idade, facilmente impressionáveis, sentíamos uma satisfação igual à que sentem os ricos e os protegidos.

Por sobre essa grandeza do tamanho havia a da História, Portugal nascera do conselho que Deus, em boa disposição, dera num dia de 1139 a Afonso Henriques, o primeiro rei. E desde então, cada vez que, por descuido ou boa-fé, o país se encontrava à beira do desastre, a intervenção divina nunca se tinha feito esperar, o Senhor aparecendo pessoalmente aos reis ou, como em 1917, delegando Nossa Senhora de Fátima para proteger Portugal, e através dele o Mundo, contra o dragão comunista.


J. Rentes de Carvalho in A Flor e a Foice


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Biblioteca do Palácio de Mafra



Since its opening in 1771, the Mafra Palace Library has been home to a colony of tiny bats; they roost behind the cases in winter, and in the orchard outside in the summer, swooping in during the night to eat insects which would otherwise damage the books. - THE TELEGRAPH



Quando o leitor estiver a ler esta carta as favas já terão sido plantadas numa leira mesmo aqui ao lado. Fizemo-lo precipitadamente no final da semana passada porque a meteorologia anunciava chuvadas torrenciais e, ficando tudo empapado de água, o tractor não poderia arrastar a frese que misturava as favas de semente com a terra. É claro que as favas já deviam ter sido plantadas há um mês. Toda a gente sabe que a fava se planta "entre os Santos", quer dizer, entre o dia de Todos-os-Santos, 1 de Novembro, e o dia de S. Martinho, 11 desse mesmo mês. Toda a gente sabe mas já ninguém o faz. Todos procuram adiar o plantio tanto quanto possível porque "isto agora é assim", como dizem os mais velhos, ou seja, porque agora é frequente haver ainda geada sobre os campos na época tradicional de floração das favas, Abril, e a geada mataria as plantas. Foi a ameaça de chuva a cair durante vários dias que obrigou a plantar imediatamente.


Paulo Varela Gomes in Ouro e Cinza


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Library Parabola, a sala de leitura da British Library



Library Parabola is the reading room of the British Library and is said to be the birthplace of the Communist Manifesto - THE TELEGRAPH



Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequidos como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de uma prateleira e segurava-o um instante com as suas mãos grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, da capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os seus dedos hirtos virando as páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitados, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.

Stoner não tinha amigos e, pela primeira vez na vida, tomou consciência da solidão.


John Williams in Stoner


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The Theological Hall, Strahov Abbey, Praga, República Checa




The Rococo ceiling of the Theological Hall at Strahov Abbey was added 40 years after the room was initially completed; the masonry vaulting offered a degree of protection from fire – a huge problem in medieval and Renaissance libraries as coal or wood fires were used for heating.- THE TELEGRAPH



E entregara-se a ele, totalmente.

Dera-lhe tudo, de boa vontade e com pleno consentimento, sentindo a alegria de dar tudo o que se tem a quem se ama... Dar... e nunca mais ver o que tinha visto no primeiro encontro depois de ter voltado dos campos de batalha: um Olivier frágil, trémulo, como um cavalo doente; um Olivier esfomeado e sedento, um homem todo marcado pela morte e pela violência nos campos de batalha.

Madeleine era o pão. E disse para ele: "Come-me!" Entregara-se toda, o seu corpo como pão devorado por um homem esfomeado, sentindo os lábios a arder e o corpo todo aberto. 


Jean Giono in O grande rebanho

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Admont Abbey Library





The books in the abbey's original collection were rebound in white at enormous expense  to match the rest of the decorative scheme. The bronze sculptures are actually made from wood. - THE TELEGRAPH



O segredo tem, aqui, realmente o seu domínio activo. O potentado, que dele se serve, conhece-o exactamente e sabe muito bem avaliá-lo em função da sua importância no momento. Sabe aquilo que está espiando, quando quer obter alguma coisa, e sabe quem, entre os seus auxiliares, emprega para espiar. Tem muitos segredos, pois quer muita coisa, e reúne-os num sistema em que se acautelam uns aos outros. Confia a um isto, a outro, aquilo, e zela para que eles nunca se possam juntar.

Todo aquele que sabe alguma coisa é vigiado por um outro que nunca sabe, porém, aquilo que efectivamente vigia no outro.


Elias Canetti in Massa e Poder


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Rijksmuseum Research Library, Amsterdam





Livro a livro, dia a dia, verso a verso
se teceu de mais noite o que antes fora dia.
Mas antes de morrer olha o que foi disperso
de tudo o que amaste e que a ti te fazia.

Olha os dias de inverno quando eras tão novo
que nem frio nem morte se lembravam de ti.
As montanhas à roda e um grito de novo
a nascer do olhar e do amor que não vi.

O peso da memória? Não, antes leveza
de uma cidade viva só nesta glória
que chamo quem conheça a cantar na certeza
que vivemos os anos por detrás da História.


Luís Filipe Castro Mendes in A Misericórdia dos Mercados


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E a dança, os corpos em festa: Fica no Singelo de Clara Andermatt





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Permitam que relembre: já a seguir há um vídeo curtíssimo mas muito objectivo na descrição de quem está nos bastidores a provocar dívida e a controlar quem cai na armadilha.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.

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A verdadeira essência da Banca: controlar a Dívida


Não chega a dois minutos mas está lá tudo. A ouvir com atenção, a gravar na memória, a usar em caso de dúvida sobre qualquer situação que surja. A importância de uma grande dívida explicada em palavras cruas.

Ninguém é livre quando está em dívida. Portugal, por exemplo, tem uma dívida que quase atinge os 130% do PIB (enquanto a média dos países da UE anda por volta dos 90%) que estrangula o País, que é impossível de pagar, que absorve todos os parcos recursos disponíveis. Com uma dívida assim, o País está à mercê dos credores, é um País escravo. 


Se a isso se juntar um Governo fraco, teremos aquilo a que se tem vindo a assistir nos últimos tempos: uma quase total ausência de soberania, uma venda de todos os seus activos mais estratégicos, o êxodo dos seus jovens, a um desemprego desesperançado, a uma exploração como há uns anos se juraria impensável.


The essence of the Banking Industry




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sábado, dezembro 27, 2014

José Maria Ricciardi desmente e ataca Marcelo Rebelo de Sousa. Outra vez, e agora já envolvendo Rita Amaral Cabral, a companheira de Marcelo e ex-administradora do BES. O professor é tão esperto, tão esperto, e ainda não aprendeu que uma pessoa não se deve meter com um destravado como o primo 'Zé Maria'? --- E mais outra: António Arnault ofereceu livro a Sócrates mas, vá lá saber-se porquê, o livro não passou no crivo dos serviços de segurança da prisão de Évora e foi devolvido ao remetente. --- E para haver uma notícia boa: grande livro que me está a parecer que é o Stoner de John Williams.


No post abaixo já contei uma piada sobre louras
(que isto eles gostam é das louras mas, depois, para disfarçar, fingem que as acham burrinhas. Tá bem, abelha. 
Se bem que há louras que só dão mau nome à classe como aquela que agora tem andado tão caladinha.)

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Mas, se não se importam, vamos com música.


Yo-Yo Ma no violoncelo
com a Orquestra Sinfónica de Chicago conduzida por Daniel Barenboim
interpreta o Concerto para Violoncelo de Elgar



Hoje, depois de arrumações e de andar horas a mondar as carpetes e a garimpar o sub-solo debaixo de sofás e recantos insuspeitos, descobri vários sinais de trânsito e um pequeno polícia que andavam perdidos, descobri uma caneta de que a minha filha já me disse que levou a tampa e voltei a irmanar peças de lego, de puzzles e outras que andavam tresmalhadas. E revolvi pacotes e sacos a ver se não continham talões de troca ou restos de presentes para, em segurança, os ir colocar para reciclar. E pesquei almofadas transumantes para as devolver ao local onde harmoniosamente devem estar em repouso.

A seguir, devidamente possuída pelo espírito da dona de casa arrumadeira, ainda olhei várias vezes para a minha mesa, coitada, tão em risco de sucumbir, tão vergada ao peso do conhecimento - mas não me aventurei a encetar um processo arrumativo. 

Sempre que enveredo por uma coisa dessas, há uma altura em que a coisa ameaça correr mal. Faço montes no chão por temas, depois por autores, e, às tantas, está o chão pejado e o meu marido todo irritado que quase não há sítio para pôr um pé, depois há que reorganizar as estantes para onde os quero destinar e começo a tirar livros que disponho também em montes e, enfim, tudo se complica. 

Portanto, não deu, desisti dos meus putativos bons propósitos. Qualquer dia tenho que escrever no chão, enxotada por estes meus livros que tudo invadem sem dó nem compaixão e, nesse altura, o meu marido vingativo dir-me-á que é bem feita, que há séculos que me anda a avisar e que isto, aquilo e o outro. Paciência.

Resumindo, em vez de me atirar a essa guerra, resolvi, antes, pegar num livro que andava aqui a namorar: Stoner de John Williams. Reclinei-me no meu sofá, acendi a luzinha de leitura, porque gosto de ler assim, quase às escuras e com uma luz dirigida, e entre almofadas e com uma fofa mantinha cobrindo-me as pernas, iniciei a sua leitura. Ainda vou na página 53 mas, desde que lhe peguei até que agora interrompi, com um pequeno intervalo para um jantar rápido e para fazer o post das louras já acima referido, foi de seguida, tipo shot. E estou desejando ter tempo amanhã para o retomar, nem sei se não terei que acelerar o Expresso para me atirar ao William, William Stoner.


Que livro tão bem escrito, que belíssima caracterização de personagens, que forma fluida e despojada de nos levar pela mão, sem rodriguinhos, sem tiradas arrebatadas ou pseudo-existencialistas, tudo ali na maior limpeza. Que bom escritor aquele John Williams (1922-1994) de quem eu nunca tinha ouvido falar.

Li apenas um quinto do livro mas não hesito quanto a recomendá-lo. Caso tenham recebido de presente algum livro que já tenham, troquem-no pelo Stoner. Ou se tiverem recebido algum livro do Valter Hugo Mãe ou do José Rodrigues dos Santos, mesmo que ainda não os tenham, troquem-nos também, vão por mim. 

Bem. Mas com isto tudo tenho andado arredada das mundanidades. Aliás, das poucas vezes em que calhou conseguir ouvir o início das notícias, logo desisti de prosseguir. É um disparate: começam os noticiários com o número de pessoas que morreram em acidentes. Como se não houvesse nada mais relevante do que isso! Uma contabilidade sinistra que parece fazer as delícias de quem decide o alinhamento noticioso. Ou então meio mundo à volta das anormalidades daquele sujeito estranho que está à frente do Sporting, um tal Bruno de Carvalho, que ainda não percebi se anda sempre com uma laringite ou se é copofónico. Primeiro estava em blackout e agora parece que há um romance qualquer com o treinador, Marco qualquer coisa. Desisto, claro. Quero lá saber de coisas assim. Será que não acontece nada de verdadeiramente relevante no país ou no mundo?

Portanto, agora, querendo perceber a quantas anda o mundo para não vir para aqui fazer figurinhas de alienada, dei um rápido bordejo pelos jornais online e fui dar com uma notícia que me deixou capaz de ir atirar tomates à imaculada parede de entrada da prisão de Évora. Em que raio de país é que eu vivo, senhores?

Transcrevo, não sequencialmente, excertos da obscenidade em causa tal como a li descrita no Observador:

O Estabelecimento Prisional de Évora devolveu ao antigo ministro e ex-dirigente do PS António Arnaut o livro “Cavalos de vento” que ele tinha enviado a José Sócrates. A 10 de dezembro, António Arnaut enviou a Sócrates, por correio, um livro de sua autoria e esta sexta-feira foi “surpreendido” ao receber a encomenda de volta, com a indicação de que tinha sido “recusada pelo Estabelecimento Prisional de Évora”.


Lançado no início de novembro, o livro ‘Cavalos de vento’, que inclui textos de intervenção cívica, contos, ensaio e poesia, pretende assinalar os 60 anos da estreia literária do autor e os 35 anos do SNS.

A atitude da cadeia de Évora “é uma indignidade em democracia”, considerou o histórico socialista, salientando que nem no tempo da polícia política do Estado Novo (PIDE) lhe aconteceu “uma coisa assim, visto que enviava livros” a um seu “condiscípulo moçambicano detido em Caxias”.


Uma indignidade, de facto. Sócrates é alvo de notícias diárias, o segredo de justiça é violado todos os dias com vista a que haja pasto para alimentar a comunicação social, e ele ali tem que estar, em silêncio, sem poder responder, impossibilitado de poder exercer o contraditório, aprisionado, longe da família, a reputação arrasada. E agora isto! Que se chegue ao absurdo de nem lhe entregarem os livros que lhe enviam já me parece uma coisa troglodita, uma violência inadmissível. E que isto não provoque uma onda de indignação geral é o que me admira. 

Poderão dizer-me que poucas-vergonhas destas acontecem a torto e a direito, que é do mais normal que há que se prenda uma pessoa antes de ser julgada como se de assassino se trate, e que se impeça a pessoa de dar entrevistas e, até, de receber os livros que lhe enviam - e que só estou a protestar porque se trata de Sócrates. Aceito. Mas a verdade é que as suspeitas e as intrigas em torno dos outros presos preventivos não andam nas capas dos jornais e, portanto, é coisa que passa despercebida. Mas soubesse eu que você, Caro Leitor ou Leitora, estava sob suspeita de fugir ao fisco ou de ter recebido dinheiro não declarado e que, por isso, ia preso enquanto investigavam para ver se há razão para o julgarem e que, estando preso, via a sua vida devassada nos jornais, mentiras propagadas, e que não pudesse responder e que nem lhe entregassem os livros que os amigos lhe enviavam, a ver se eu não vinha também para aqui armar escarcéu. Claro que vinha! Isto é lá coisa que uma pessoa decente possa aceitar?


Já que falei no Sporting, uma foto do primo Ricciardi
na sua vertente de leão

E, de seguida, dei com outra. Ricciardi deu novo troco ao Marcelo e, uma vez mais, não foi meigo. Quando, no domingo passado, ouvi o Marcelo a responder ao primo Zé Maria armando-se em superior e a dar-lhe lições, pensei cá para mim: Ai levas, levas, que o primo não é de levar desaforo para casa e ainda te vais arrepender de andares, aqui na televisão, a provocá-lo

Disse o Prof. Marcelo que conhece bem o outro e que, portanto, não esperava estas reacções. Pois é. Marcelo já por mais do que uma vez mostrou que não é aquela inteligência que se pensa. Então se conhece bem o outro ainda não tinha percebido que mais valia não o cutucar com vara curta e logo aos ecrãs da televisão?


Transcrevo do Expresso (com destaques meus), excertos da looooonngaa carta que o advogado de José Maria Ricciardi enviou, prosseguindo o louvável e higiénico hábito de lavar roupa suja:


20.  É caso para dizer que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa só assimilou em 21 de Dezembro de 2014, tendo embora conhecimento directo da forma como a gestão era executada no Grupo Espírito Santo, aquilo que toda a gente, sem excepção, tinha apreendido pelo menos seis meses antes. 
21.  Esta situação é tanto mais inexplicável quanto é certo que a companheira do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, Dr.ª Rita Amaral Cabral, era administradora do Banco Espírito Santo e ainda integrava a Comissão de Partes Relacionadas, criada internamente pelo Banco de Portugal, para assegurar o "ring-fencing" entre o banco e as restantes empresas do grupo, cujo desempenho se encontra sob investigação.  
22.  Para além de administradora do Banco Espírito Santo, a referida companheira, ilustre advogada, prestava serviços jurídicos ao grupo, tendo até ditado para a acta na última sessão do Conselho de Administração ainda presidida pelo Dr. Ricardo Salgado, um rasgado elogio ao seu desempenho e deixado um registo da sua gratidão em ter servido tão ilustre personalidade. 
23.  Não admira que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa tenha apoiado com entusiamo e defendido no seu comentário, em Junho de 2014, a solução preconizada pelo Dr. Ricardo Salgado de integrar o Conselho Estratégico do BES e de designar como CEO o Dr. Moraes Pires, interveniente directo em graves operações financeiras que estão a ser objecto de investigação. 
24.  E não admira que também em comentário produzido no seu programa, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa haja declarado expressamente, na esteira do afastamento compulsivo do Dr. Ricardo Salgado, que nenhum membro da família Espírito Santo haveria de sobreviver ao colapso do grupo. 
25.  Fica assim por compreender, em função do relacionamento histórico e das múltiplas fontes de que dispunha, a reviravolta operada no espírito do Prof. Marcelo Rebelo de Sousa no domingo passado, sobre as responsabilidades do Dr. Ricardo Salgado, que não encontra explicação plausível, a não ser a resultante de mais uma habilidade destinada a demonstrar a sua súbita equidistância em relação ao personagem. 
26.  Por último, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa tem o desaforo de fazer recomendações públicas, com desajustado paternalismo, sobre qual devia ser o comportamento do Presidente de um banco, o que, não lhe tendo sido questionado, é pelo menos sinal de que se atribui a si próprio demasiada importância. 
27.  Ao meter a foice em seara alheia, o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa põe-se a jeito para receber a advertência de que não lhe fica bem desvalorizar ou diminuir os atributos que são exigíveis a um comentador, com capacidade para influenciar a opinião pública. 
28.  A verdade é que os factos expostos não deixam dúvidas de que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa não reúne as condições de imparcialidade, isenção e de objectividade que lhe permitam uma avaliação séria e ponderada das responsabilidades de quem está envolvido no colapso do Banco Espírito Santo. 
29.  A bem da credibilidade e do rigor, melhor fora que se abstivesse de comentar este tema, em que lhe sobra apenas a mágoa, como confessa, de não poder partilhar no Brasil a convivência com o seu grande amigo Dr. Ricardo Salgado.


A ver como reage agora o Marcelo. Melhor fará se ficar calado.

Pelo menos a ver se, para distrair as massas, não lhe dá para encenar mais um número como o da semana passada em que resolveu criar um facto para disfarçar o seu embaraço: pôs-se a chorar ao falar no Natal de Judite de Sousa, deixando-a, até, apalermada. Se aquilo era assunto para trazer para ali, à frente de toda a gente, mesmo um apelo primário à lamechice. Se queria recordá-la da perda do filho e da tristeza que ia ser o Natal dela, fazia-o em privado, não ali em público. Que o Marcelo é um artista já todos muito bem o sabemos. Mas, enfim, escusava de usar os sentimentos de uma mãe que perdeu um filho.
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Enfim, para acabar bem, deixem que partilhe convosco um pouco da leitura de Stoner.




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E, assim sendo, fico-me por aqui não sem antes vos desejar, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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