Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, abril 30, 2014

Lisboa by night em noite de amores, sombras, recantos


No post abaixo já vos dei conta do regresso da Lovely Lídia que vem com a pedalada toda, imparável, indomável. Se, no final deste, descerem até ao post seguinte verão porque vos digo isto.

Agora, aqui, muito rapidamente - porque cheguei a casa bem depois da meia noite e porque ainda me deu para fazer uma mudança de look no Um Jeito Manso - dou-vos conta de que não são 20 anos, já são mais, mas que foi esta música que me veio à cabeça quando acordei.

[Ainda não parecemos o casal de capa do vídeo abaixo mas tomara que, quando tivermos a idade deles, ainda estejamos juntos; e mais vinte e mais vinte e sempre juntos. Tomara.]



Palabras - 20º aniversário




Somos tão diferentes mas tão complementares. Ele diurno, eu nocturna, ele disciplinado, eu anarca, ele planificador, eu intuitiva. Mas respeitamos as nossas diferenças e, quando não as suportamos, paciência, adiante que para a frente é que é caminho. Duas peças iguais encaixam? Não. Terão que ser complementares, peças de um puzzle que vai evoluindo à medida que o tempo passa.

como a sentir a tua cara rente
à minha e as tuas mãos nas minhas, ou
como se a dança amarguradamente
nos desse nesta noite ainda um slow

levado a medo, apenas a ternura
a conduzir de leve os nossos passos
e o corpo estremecendo-te à procura
do seu lugar na grade dos meus braços

e a luz, fina película de vidros
por entre a frialdade de janeiro,
a trespassar os corações partidos
estranhamente, e o meu sendo o primeiro,

como se não doesse o que doía
na própria dor tingida de alegria.


Depois do trabalho, fomos ao cinema e depois jantar num dos restaurantes do Avillez, ali ao S. Carlos e, depois, passear. 




Lisboa, bela, bela, ó meu deus, que bela estava Lisboa esta noite.

Há agora, em edifícios para tal restaurados, muitos pequenos hotéis, e boutique hotéis e hostels e há muitos estrangeiros, e muitos jovens,  e há uma miscigenação nas ruas, nas vozes. Estávamos no passeio no meio de um grupo de que não conseguimos perceber a língua, uma língua estranhíssima. Mais estrangeiros que portugueses. Um ambiente engraçado, múltiplo.

A noite amena, as luzes a envolverem em mistério e romance as casas, as árvores cinéfilas, escadas luminosas cruzando as paredes, e nós dois passeando pela cidade, turistas também, descobridores de maravilhas.




Cá em cima a Pensão do Amor cheia, muita gente na rua, sentada nos muros e, lá em baixo, S. Paulo de novo cheia. Finda Abril, adivinha-se um maduro Maio e Lisboa abre-se ao verão, ao sul, ao azul meridional. E as noites, mais do que vagabundas, são românticas, pedem abraços, malícias suaves, brincadeiras de namorados. 

é uma porção de terra rodeada
de amor por todos os lados?
uma porção de amor rodeada
de terra por todos os lados?
rodeada de água?
rodeada?
ah todo o amor é árduo a humano trato
e se interroga e ninguém
é uma ilha
onde se caça. apenas
se conhece asperamente
seu rodeado mapa de coral. apenas
contra a morte
a ilha, a redondilha.

Cidade de espantos, tascas, tabernas, azulejos, moda, design, barbearias, alternativos, castiços, casais típicos e atípicos, vadios, vadias, gente colorida, modernidade e becos, caminhos antigos e hábitos novos. Lisboa está tão diferente mas sempre tão igual, única, magnífica, cidade de recantos, de segredos, de amores clandestinos, ou antigos como o nosso.




E depois regressamos, jazz na rádio, um cansaço breve e bom.

Depois ainda aqui quis vir. Parece que o dia não estaria completo sem esta minha conversa aqui convosco. Não vos vejo mas sei que estão aí desse lado e a vossa presença chega até mim, sinto-vos, quase sinto como respiram.

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Já agora, antes de me ir deitar, a ficha técnica. Para mim: 

Couvert: Manteiga trufada; espuma de tomate perfumada, azeitonas marinadas
Entrada: Brusqueta de pancetta com alho e alecrim, 
Prato principal: Risotto de vitela e couve lombarda, 
Sobremesa: Ananás em forno de lenha com sorvete de limão e manjericão. 

Excelente e preços acessíveis. Recomendo. Pizzaria Lisboa do Chef José Avillez.


(Não me achem egocêntrica por só dizer o que eu comi mas é que já mal me aguento acordada, já não consigo relatar mais nada)

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A música lá em cima é Palabras, 20º Aniversário, Patxi Andión


Os poema são, respectivamente, 'como a sentir a tua cara rente' e 'o atol dos amores' de Vasco Graça Moura in Poesia Reunida


As fotografias foram feitas esta terça feira à noite na zona do Chiado em Lisboa.

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  • Relembro: desçam, por favor, para matarem saudades da Lovely Lídia.
  • Informo: continua animadíssima a troca de comentários sobre as motivações, as virtudes e outras adjacências inerentes ao 25 de Abril. A não perder: aqui

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.

...

Atenção! Atenção! Lovely Lídia is back e vem com a corda toda...! Aos abrigos!


Já aqui há tempo, Leitor atento me perguntava, em mail, que teria sido feito da fantástica Lídia. Que era mulher de muitas guerras e que estaria em missão noutra terra (ou noutro planeta, sabe-se lá), sosseguei-o eu.

Mas eis que a caixa de correio me volta a transbordar com as munições da guerrilheira Lovely Lídia. Não há outra como ela. As rajadas de fogo cruzado já se fazem ouvir.

Ora ele é o Pires de Lima, ora é o paizinho de estimação do dito, ora é o nouvel Conde de Farrobo, ora é o director de programação da RTP. Veio armada até aos dentes e danadinha para a briga. Cuidado com ela!

De entre o que recebi, permito-me transcrever o texto abaixo e, uma vez mais, informo que o que a Lovely Lidia, mulher maior e vacinada, diz é da responsabilidade dela pelo que elogios, aplausos, reclamações ou ralhetes é a ela que devem ser dirigidos que ela, seguramente, dará resposta à altura.


Atenção: abram alas para a Erva Venenosa





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Mulher voltei e a luta continua. 

Lindos temas no blog, mudança de imagem maravilhosa. 

Parabéns o relato do 25 de ABRIL a que não assisti. Foi-me relatado por si e é como se  eu lá tivesse estado. Só ouvir Joan Baez cantar GRANDOLA VILA MORENA. já me encheu as medidas.

Ainda nada disse sobre o despedimento do meu amigo risonho, o Senhor CAO GUANGJING. da THREE GORGES, que foi deportado para os confins da China, por ter caído em tentação com o Catroga e seus muchachos

Conheci-o antes de partir, na Torre 3 das Amoreiras, pois tinha ligações com mon grand patron, que me encarregou de falar com ele. 


Soube que estava em negociações com o Horribilis Braga de Macedo para concessionar o Jardim Tropical nas traseiras do Palácio de Belém, (não sei se for concretizado!); até lhe sugeri ele concessionar o Palácio e ter como prémio o  casal MARIANI e o seu séquito. 

Entretanto o casal MARIANI que marcou a viagem para a China para 11 de Maio, por 10 dias, para a Maria comprar uns recuerdos e ver a Grande muralha do Camarada MAO do Durão. 

Os MARIANI devem ir lá desatar os nós das luvas. 

Je vous embrasse.

Colagem da autoria de Lídia, a Guerrilheira


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Ora bem.

E seja bem vinda Lídia. A sua irreverência contém oxigénio.

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terça-feira, abril 29, 2014

Ainda o 25 de Abril, as suas virtudes e algum rasto de perplexidade deixado sobretudo em quem não o viveu - a palavra, uma vez mais, aos Leitores. E, como forma de agradecimento, o Grupo Corpo dança um espectacular 'Yo te quiero siempre'. E, na despedida, um poema desse grande sedutor, Vasco Graça Moura: 'vai-se a lasciva mão', que acompanha a nudez de Kate Moss


Gracias a la vida



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Palavra puxa palavra e assim se nutre uma boa polémica.

Um dia que me saia o euromilhões hei-de ter uma casa grande sobre o rio, um big loft, só vidros e cortinas e recantos, sofás confortáveis, cadeirões ao relento, candeeiros, lareiras, pinturas e esculturas, boa comida e boa bebida, e quem quiser que se chegue e diga poesia ou cante ou dance e que todos os dias se junte um grupo de amigos ou inimigos e se desencadeie uma boa e saudável polémica.

Nada estimula mais a mente do que uma bela discussão, papo saboroso, animado, diz tu, digo eu, diz ele, e não é nada disso, ora ouçam o que eu acho, e vá, calma. Seja sobre política, seja sobre arte, seja sobre o que quisessem. Uns a defenderem o Valtinho, eu a atirar achas para a fogueira, e outros o José Luís Peixoto e o que eu gostava de ter a Ana Cristina Leonardo, polemista residente a desancar neles e, sobretudo, no Pitta, que ela vira fera quando lhe dá o cheiro a ele. Ou uns a defenderem que, para a próxima, quem devia entrevistar o Láparo era o Ó-Dr.Medina e outros dizerem que a culpa disto tudo é da falta que os lombinha-briefings estão a fazer.

E todos bem vindos. Só não haveria de querer era violência física, agressões, isso nem pensar, ou insultos rasteiros como cala-te aí ó careca badocha, ou sabes lá tu, ó sapatona, vai mas é deixar crescer a franja ou palerma de aviário arraçado de maçães, não estejas para aí armado em alemão, ó piu-piu. Isso, não. Só decência, elevação e argumentos inteligentes. Claro que havia de ter à porta uns calmeirões, tipo Marques Mendes ou Liberato, para expulsar os primeiros que pisem o risco.

Esta terça feira vou jogar, que parece que há joker e eu tinha tão bons destinos para ele.

Bem, mas vem isto a propósito de um comentário que a Leitora JV aqui deixou sobre um texto que já era uma resposta minha a um outro comentário de um Leitor anónimo, e a um mail que o P. Rufino me enviou porque gostaria de escrever um comentário ao que a JV escreveu e a prosa não lhe cabia na quadrícula castradora mente pequena dos comentários.

E, portanto, cá está. Refresquem as gargantas, apurem os sentidos, que a conversa vai começar e quem quiser que diga de sua justiça.

A palavra ao Leitor P. Rufino:


Minha cara JV,

Permita-me um comentário ao seu, que não é crítico, mas de outro tipo. Há duas formas de saber descrever acontecimentos históricos: um é conhecer a História, estudando-a (como, por exemplo, se queremos falar sobre as Guerras Napoleónicas, ou a Antiguidade Clássica, ou a guerra travada entre os Absolutistas de D.Miguel e os Constitucionalistas/Liberais de D.Pedro, etc) e a outra é tê-la vivido, ou seja, ter vivido nessa época, por ocasião desses acontecimentos históricos, como foi o caso do 25 de Abril. Que eu vivi, assim como, ao que presumo, a autora deste Blogue. Mas, que não foi o seu, por ser mais jovem. Acontece. Meus filhos também não a viveram. No seu relato, simples e sem complexos, notam-se, todavia, algumas imprecisões sobre a verdade dos factos. Devo dizer-lhe que você está muitos furos acima dos meus jovens familiares, sobrinhos, filhos e primos, que seriam incapaz de semelhante relato, visto pouco ou nada se interessarem e quererem saber do 25 de Abril, como outro dia aqui referi. Quanto às imprecisões, convém não confundir a nuvem por Juno, como fazem alguns, por exemplo, quando dão excessiva relevância a situações que não constituiram a razão de fundo para o desencadear do 25 de Abril pelos militares, como seja a supostas rivalidade entre oficiais do Quadro e milicianos (que não eram requisitados, mas chamados a cumprir o serviço militar, obrigatório). O 25 de Abril não se deve a motivos profissionais de militares do Quadro (ou de carreira, como diz). Assentou noutras razões muito mais profundas, como, entre outras, a vontade dos militares, que faziam eco de uma boa parte da sociedade civil, em querer, de facto, acabar com a Ditadura, em querer um regime Democrático (com tudo o que isso implicaria), em querer o fim da Guerra Colonial, que eles sabiam que não seria ganha, nem política, nem militarmente, dadas as circunstâncias de isolamento político internacional em que Portugal então se encontrava, etc. E não foi um Golpe de Estado em sentido típico, ou seja, como nos ensinam os livros de Ciência Política. Na medida em que, desde o início, os militares de Abril tenham estado em contacto directo com as populações, contando com o seu espontâneo apoio e tendo posteriormente entregue o poder ao povo através de uma Assembleia Constituinte, não pode, jamais, ser considerado um Golpe de Estado (pasmo como pessoas que deveriam ter consciência disto, como Maria Filomena Mónica, fazem estas confusões!). Golpe de Estado foi o que Pinochet fez no Chile, em Setembro de 1993, ao derrubar um governo eleito democraticamente e instituir uma Ditadura (sangrenta). Os militares de Abril, pelo contrário, derrubaram uma Ditadura de 40 anos para devolver ao povo uma Democracia. Sejamos claros. Quanto aos presos políticos, foram muitos, inúmeros, ao longo do período da Ditadura. Todo o que contestava abertamente a Ditadura sofria a prisão, ou o degredo. Ou perdia o emprego (no Estado, etc). Intelectuais, trabalhadores, democratas, socialistas, comunistas, etc, encheram as prisões políticas da Ditadura. Eram presos políticos porque punham em causa, de uma forma ou outra, essa Ditadura. Que nunca se desvalorize isto. Por mim, conheci um ou outro caso, infelizmente. Houve excessos? Concerteza. Como em todo este tipo de situações. Aqui há tempos referi isso mesmo num episódio que nos sucedeu na família e ninguém ficou por isso traumatizado. Para terminar, os militares de Abril, ao derrubarem a Ditadura, permitiram que o País desse um salto qualitativamente enorme no Ensino, na Saúde, no Desenvolvimento, na Cultura, na distribuição de recursos e riqueza, do ponto de vista Social, no fim do isolamento do Interior, na Alfabetização, até mesmo na diferença que havia entre a Cidade e a Província (ainda me lembro-me bem como eram as aldeias do interior e o atraso das suas gentes antes do 25 de Abril). Isto tudo estava, de algum modo, inscrito no Programa do MFA, como um dos seus objectivos. Foi o programa possível. Daí para a frente foi o que sabemos. Elegeu-se uma Assembleia Constituinte, tivemos uma nova Constituição, democrática, seguindo-se, até aos dias de hoje, governos, parlamentos e Presidentes eleitos democraticamente. Só por tudo isto e é já imenso (!) estarei, para sempre, grato aos militares de Abril. Recordo-me ainda de um dia, em viagem de férias na Holanda (jovem estudante), pouco antes de 1974, ao mostrar o meu passaporte num pequeno hotel onde me instalei e ali ouvir: “Portugal, país fascista, hem?”. Serve isto para exemplificar que, para além daquilo que atrás mencionei, os militares de Abril deixaram-nos outra coisa – excepcional: a Dignidade de um povo. Devolveram a um povo cuja Ditadura desprezava (ou não fosse uma Ditadura, retirando-nos Direitos que só uma Democracia assegura), essa mesma Dignidade, que a Ditadura manchava há 40 anos!

Minha cara JV, não considere este arrazoado uma qualquer lição. De forma nenhuma, apenas um pequeno aditamento ao que referiu. Deixo-lhe um sincero abraço cordial!



E este foi o comentário da Leitora JV:


Olá, UJM,


Também me faz confusão ouvir pessoas dizer que antes do 25 de abril estávamos melhor do que agora e que com o Salazar é que isto funcionava bem. O 25 de abril pôs termo a um regime ditatorial que mantinha o país numa bolha isolada do resto do mundo, um país subdesenvolvido, com gente triste e feia. É claro que em 1970, o país era mais desenvolvido do que em 1926: os meus avós têm 80 anos e posso garantir-lhe que a qualidade de vida deles foi sempre em crescendo. A minha mãe foi a 3ª e última filha e a única não só a ir para a faculdade, mas a estudar para lá do 4º ano. Só que isso é pouco. Muito pouco.

O 25 de abril foi uma coisa boa, disso não se pode ter dúvidas. E parece-me normal o PREC, as nacionalizações, o que se passou antes do 25 de novembro: vivíamos um período transitório, com diferentes fações a querer tomar o poder, é normal que um período desses traga dissabores a algumas pessoas. O meu pai, que se lembra bem do medo que a família dele teve de se calhar não conseguir passar a fronteira para Espanha em 75 e chegou a pertencer às juventudes nacionalistas do regime franquista (embora cedo se tenha libertado de vários condicionamentos educacionais, desde os extremismos de direita à religião), dizia no outro dia que em casa dele parecia que a Revolução Francesa ainda era algo que tinha acontecido há pouco tempo, como se tivesse sido há 20 anos e não há 150, e que se gostava era dos ingleses por serem contra ela. De facto, antes do 25 de abril vivíamos ainda no Antigo Regime.

Agora outra coisa é dizer que o 25 de abril foi uma revolução popular, do povo. Não foi. Foi a tomada do poder por maia dúzia de capitães que estavam zangados porque, como havia falta de militares para enviar para a guerra, se promoviam a oficiais pessoas requisitadas civilmente, com uma formação de um ano, e não de 3 anos como os militares de carreira, aos quais eram, desta forma, equiparados. Não sou eu que sou cética; diz isto o Mário Tomé e dizia um militar no outro dia no programa "A 5ª essência" da antena 2. O 25 de abril deve-se a motivos profissionais dos militares de carreira.
É claro que, no meio dos militares, havia algumas ideologias, uns tipos radicais, comunistas, e antes do 25 de abril já se tinha pensado no golpe como forma de mudar de regime: basta ler o programa do MFA. Mas a razão principal é a que disse antes.
Se tivessem sido os estudantes, dos quais falou, a despoletar uma revolução, ou os comunistas, ou os liberais... mas não foram.
E digo-lhe mais: os exilados, os que pertenciam a células comunistas, os poetas... eram "meia dúzia de líricos", já dizia Zé Mário Branco - homem insuspeito (quem nunca ouviu o FMI, deve mesmo ir ouvir!). Esses milhares de presos políticos de que falou, na sua grande maioria, não eram "verdadeiros" presos políticos: eram pessoas comuns, sem qualquer tipo de relação com movimentos anti-regime, que eram presas por "motivos políticos", tal como se caçavam "bruxas" durante a Inquisição.

Boa semana,
JV
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Dá gosto ouvir gente interessante, com ideias, com garra. Aprende-se, fica-se a pensar, apetece responder, acrescentar uma observação. Dá vontade de agora servir uns scones quentinhos, um doce de frutos vermelhos, um chá, ou uma bebida fresca e uns pastelinhos de qualquer coisa, ou, vá lá, até umas amêndoas salgadas torradas, qualquer petite chose. Tudo isto para reter a clientela, para que se deixem estar por aqui a discutir e a manter viva a chama da polémica.

Não podendo fazer isso e como forma de agradecimento, vou chamar os bailarinos. Espero que se sintam bem aqui nesta vossa casa e, se quiserem, saltem para a pista de dança e juntem-se a nós.


Yo te quiero siempre - Ernesto Lecuona, numa espectacular interpretação do Grupo Corpo






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vai-se a lasciva mão devagarinho
no biquinho do peito modelando
como nuns versos conhecidos quando
uma mulher a meio do caminho
 
era de vento e nuvens, sombras, vinho,
e sonoras risadas como um bando.
os dedos lestos vão desenredando
roupa,cabelos, fitas, desalinho.

a noite desce e a nudez define-a
por contrastes de luz e de negrume
ponto por ponto, alínea por alínea.

memória e amor e música e ciúme
transformados nos cachos da glicínia,
macerando no verão sombra e perfume.   





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A música no começo era Gracias a la vida interpretado por Joan Baez & Mercedes Sosa Gracias

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A mulher quase desnuda da fotografia é Kate Moss em homenagem a Vasco Graça Moura, esse sedutor, que tão bem cantou a nudez feminina.


O poema é 'vai-se a lasciva mão' da série Sonetos Familiares in Poesia Reunida de Vasco Graça Moura.


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E, por agora, por aqui me fico. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira. 

E é viver a vida enquanto se pode, é o que vos digo.

segunda-feira, abril 28, 2014

Otelo Saraiva de Carvalho e Salgueiro Maia, dois dos bravos do pelotão, no dia 25 de Abril de 1974. Um filme...!








O Salgueiro Maia, quando lhe dei a missão, avisou-me de que os soldados só tinham uma semana de recruta, não sabiam dar tiros. Disse-lhe, não faz mal, a tua coluna vai ser a coluna isco, traz a maior quantidade de material de combate que puderes, Chaimites, M47, Panhares, MBR, os soldados de capacete, metralhadoras e espingardas automáticas, munições, tudo. Quem vai opor-se a uma coluna dessas? Ninguém sabe que os soldados não sabem disparar. Vais à 2ª Circular, fazes o Campo Grande, Pequeno, Avenida da República, Saldanha, Marquês, Restauradores, Rossio, e montas o arraial todo no Terreiro do Paço. Ficas à espera. Se por acaso estiver o ministro do Exército no gabinete, vais prendê-lo. E vão lá todos ter contigo, a GNR, a PSP, a PIDE, a Legião, e a Cavalaria 7 e Lanceiros 2, se não apanharmos os oficiais antes.

Arriscado. E corajoso, ser o isco.

O Movimento correu riscos muito grandes. eu não tinha bem a noção do inimigo, não tinha sido feito nenhum estudo de situação. A GNR tinha acabado de receber 25 viaturas-choque.

A que horas é que o Marcello soube que estava apanhado?

(...) O Silva Pais diz-lhe que (...) o melhor é ir para o comando da GNR no Carmo. Fiquei a saber onde estava o Marcello. Às 5h30, o Salgueiro Maia diz-me, via rádio, que precisa de um oficial superior lá. Porque o ministro do Exército está no gabinete, tudo isto em código. Óptimo, vai prendê-lo. E ele diz-me, não posso, porque o Regulamento Militar diz que um oficial-general só pode ser detido por uma patente mínima de major e eu sou capitão. Que raio, no meio de uma revolução vem-me com isto. Mandei-lhe o tenente-coronel Correia de Campos. 

O Jaime Neves estava no posto de comando com missões não cumpridas e pediu-me para ir também. Quando lá chegaram, o general Andrade e Silva já se tinha pirado pelo buraco que tinha mandado abrir pela Polícia Militar, que lhe fazia a segurança. Abriram o buraco com as lanças expostas no museu. Piraram-se numa viatura civil para a Calçada da Ajuda, Lanceiros 2.

Às 11 da manhã, o Salgueiro Maia pede-me outra missão porque o Terreiro do Paço estava cheio de gente que subia pelos carros de combate, perdia-se o controlo. Disse-lhe, Charlie 8 reorganiza a coluna e abandona a missão, sobe ao Carmo e cerca o comando-geral da GNR porque o coelho está na toca. O indicativo do Marcello era Coelho.  

Com o cerco montado, às 12h30 resolvo fazer um ultimato ao comandante da GNR, Ângelo Ferrari, que tinha sido meu professor na Academia Militar. Digo-lhe que falo do Posto de Comando do Movimento das Forças Armadas. Ele chama-me camarada e eu digo que não me chame isso porque não somos camaradas. Estamos em trincheiras opostas. Dou-lhe 15 minutos para abrir o portão do Largo do Carmo e deixar sair o Marcello. Ele diz que o Marcello não está lá. 


Desliguei e contactei o Salgueiro Maia. Charlie 8, fiz um ultimato. Se não acontecer nada dentro de 15 minutos, preparas as metralhadoras e vais partir os vidros das janelas do 1º andar. 

E o Salgueiro Maia diz-me, isso é despesa, depois quem é que paga isso? Não te preocupes, alguém há-de pagar. 

Passado um quarto de hora, ele hesita ainda. 

E eu, quero ouvir essa rajada, quero ouvir os vidros a partir, vamos embora! 

Até que ouvi estralejar, os vidros a partirem. 

Hoje sei, através de um livro do major Nuno Andrade, oficial da GNR que estava lá, que aquilo foi decisivo para a rendição do Marcello. 

Antes já havia uma tensão monstra, com o megafone do Salgueiro Maia e o aparato. O Marcello telefona para casa do Spínola para se render. 

Os únicos tiros disparados por nós foram esses. 

Quando o Spínola me pergunta o que fazer com o Professor Marcello Caetano, disse-lhe para combinar com o Salgueiro Maia, tínhamos um Dakota no aeroporto para o levar, com o Tomás, para a Madeira.


(...)

No 25 de Abril, os militares procuraram ter um comportamento cavalheiresco. E tiveram. Para o povo, o 25 de Abril foi uma nova vida.


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Na altura, Salgueiro Maia tinha 29 anos e Otelo Saraiva de Carvalho 37.


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Salgueiro Maia fala sobre a rendição de Marcello Caetano





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Primus inter pares


                             
                                    não perguntes se estas
                                    são as vias
                                    da perfeição da alma,
                                    as concordâncias

                                    duma arte de viver;
                                    o tempo é excessivo nos vestígios: as
                                    antiguidades de roma, as histórias
                                    da morte no ocidente.

                                    súbito um perfume
                                    de remos no rio (audíveis?)
                                    e vento nas conchas resguardadas:
                                    guardam o coração e as suas

                                    certezas ferozes, a sombra
                                    resguardando a luz.
                                 
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O texto é parte da interessante entrevista concedida por Otelo Saraiva de Carvalho a Clara Ferreira Alves na Revista do Expresso deste sábado. Aliás, esta Revista é um número de antologia no que se refere ao 25 de Abril


O poema é 'nó cego, o regresso, XIII' de Vasco Graça Moura (Porto, 3 de Janeiro de 1942 — Lisboa, 27 de Abril 2014) in Poesia Reunida.


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Muito gostaria ainda de vos convidar a visitarem o meu Ginjal e Lisboa. Hoje tenho, uma vez mais, uma visita frequente daquele espaço: Vasco Graça Moura. Sendo ele o ser múltiplo que conhecemos, vem sob várias formas: em entrevista escrita, falada, em poesia dita, em fado.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira.

...

domingo, abril 27, 2014

Rodrigo Leão, nesta noite de sábado, nas escadarias da Assembleia da República. Lisboa na rua. Uma contagiante energia no ar. [Ou é apenas impressão minha...?]


Depois de, no post abaixo, ter respondido ao comentário de um Leitor que menospreza o 25 de Abril em detrimento do 25 de Novembro, falo agora da minha noite de sábado.


A minha filha falou-me num concerto de Rodrigo Leão nas escadarias da Assembleia da República e pareceu-me muito bem. O meu filho já tinha programa - Quatro Metades no Teatro da Trindade - pelo que fomos apenas com ela (e com os pimentinhas!).


Transcrevo do que se anunciava, no âmbito dos festejos do 25 de Abril:


Neste concerto, Rodrigo Leão e seu ensemble são acompanhados pela Orquestra Sinfonietta de Lisboa, dirigida pelo maestro Vasco Pierce de Azevedo. O espetáculo tem como convidados o fadista Camané e o Grupo de Percussões de Lisboa, e ainda o Coro Infantil da Fundação Musical dos Amigos das Crianças.


Quando lá chegámos ficámos espantados. Pejado. gente, gente, gente. As escadarias repletas, uma coisa impressionante, um mar humano.

Ficámos no relvado, os dois rapazinhos todos contentes.

Claro que à medida que o tempo ia avançando, eles iam ficando mais irrequietos, moches um ao outro, barulho, rebolarem, etc. Felizmente a minha filha levou bolachas e, portanto, lá os foi atafulhando a ver se ficavam entretidos e, enquanto comiam, não armavam baderna. Não resultou completamente mas, enfim, atenuou.

O concerto muito bom e o espaço muito bonito, uma ideia feliz.

No Eixo do Mal ouvi a Helena Roseta a queixar-se dos transtornos, já que mora por ali e o trânsito tem estado cortado por causa do grande palco. Imagino.

Mas que o concerto ao ar livre naquele local foi muito agradável, é um facto.

A música de Rodrigo Leão com a Sinfonietta é uma conjugação perfeita, tal como perfeita também é a voz de Camané interpretando aquelas canções.

Gostava de ter filmado mas não o fiz.


Celina da Piedade, o seu acordeão e a sua voz, e a limpidez do coro infantil foram outros momentos muito bons.

Todo o espectáculo teve ainda um encantamento suplementar: as luzes que percorriam o espaço, iluminavam as casas do bairro e se projectavam na Assembleia. Muito bonito.

Se não passasse já das 3 da manhã e eu não estivesse tão cheia de sono, contava melhor mas, assim, não dá.

Fico-me por aqui.

Conto apenas que, dali, ainda fomos fazer um giro até à zona do rio. Passámos pela zona hardcore do Cais do Sodré. Em alguns passeios, especialmente nas ruelas perpendiculares, ainda há prostitutas a aliciar clientes, tal como ainda ali estão as boites, bares de striptease e lap dance


Mas toda aquela zona de S. Paulo está na moda e as tascas agora saem para o passeio e as esplanadas estão cheias de gente nova. Uma animação engraçada.

A 24 de Julho estava cheia, sem lugares de estacionamento e, sobretudo, muita gente a pé a caminho do Cais Sodré e Bairro Alto.

Agora uma coisa me choca e podem, à vontade, chamar-me marreta: tantas miúdas novinhas de copo na mão e a fumar. Todas bonitas, todas produzidas, e a darem cabo da saúde daquela maneira.  
Eu, que fumei dos 18 até há uns seis ou sete anos, sei bem o disparate que isso é e custa-me ver as miúdas a fumarem cigarro atrás de cigarro e a consumirem álcool como se a isso estivessem mais do que habituadas.  
Claro que o sentimento é quase o mesmo em relação a rapazes mas, apesar de tudo, a coisa é ainda mais nefasta nas mulheres pelo perigo, em particular, se tomarem a pílula.

Mas, enfim, Lisboa está mesmo uma festa. Seja de dia ou de noite, que bom é andar pela cidade. Que esplêndida energia tenho sentido nestes últimos dias.

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Descobri agora um vídeo no youtube. A qualidade do som não é espectacular mas, enfim, quem dá o que pode a mais não é obrigado. Coloco-o aqui apenas para que possam ficar com um cheirinho.
Camané com Rodrigo Leão e a Orquestra Sinfonietta de Lisboa




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Relembro: no post abaixo respondo a um Leitor sobre o que acho do 25 de Abril e da incrível revolução que, depois dessa data memorável se operou no País, e do que acho papel de Otelo Saraiva de Carvalho e, enfim, de mais uma ou outra coisa.

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E, assim sendo, e quase às 4 da manhã, por aqui me despeço porque o domingo já aí está. 
Desejo-vos um belo dia, meus Caros Leitores.

A propósito de um comentário que recebi no outro dia, eis o que eu acho do 25 de Abril de 74, o portal do tempo que os portugueses transpuseram numa manhã pura e limpa. E do 25 de Novembro. E também da intervenção de um dos seus grandes responsáveis, Otelo Saraiva de Carvalho.


Por estes dias tenho pegado no computador depois da meia noite, bem depois, e portanto não tenho conseguido tempo para responder aos comentários ou para falar de tudo aquilo de que gostaria de falar. Este sábado à noite, então, para além do adiantado da hora, ainda estive a ver o Eixo do Mal e o Downton Abbey, pelo que tenho mesmo que encurtar caminho, deixar de lado os agradecimentos aos Leitores ou alguns temas que bem mereciam a minha atenção, e resignar-me a falar apenas do inevitável.

E um comentário houve, que transcrevo, e que penso que não deve ficar sem resposta. Transcrevo o comentário:

O 25 de Abril marca a queda de um regime ditatorial e totalitário, regime este que não caiu do céu aos trambolhões, mas que surgiu dos escombros da anarquia e desgoverno total da falida primeira república. Não desejo nem um nem outro para o nosso querido país, embora receie que nos estejamos perigosamente a aproximar novamente do segundo.
A liberdade e democracia que vivemos só a devemos ao 25 de Novembro.
Acho que seria muito importante também não esquecer o que sucedeu após o 25 de Abril, as nacionalizações, os saneamentos, uma autentica caça à bruxas em que milhares de portugueses tiveram de fugir do país.
Já para não falar da organização terrorista das FP 25 liderada por quem…….
É bom não esquecer… ou saber a história….

I


A democracia é preciosa e tanto que toda a gente tem direito a expressar a sua opinião. Antes do 25 de Abril isso não acontecia.

Ontem à noite vi o Expresso da Meia-Noite no qual estavam quatro mulheres: Maria José Morgado, Joana Amaral Dias, Maria de Sousa e Hélia Correia.

Como sempre, gostei imenso de ouvir a Hélia Correia. Foi a que menos falou mas o que disse é sempre intenso. Dizia ela que quando alguém acha que se vivia melhor antes do 25 de Abril ela fica sem palavras, não consegue dizer nada porque acha que, quem diz isso, só pode ser ignorante ou estar de má fé, é alguém que se quer pôr do lado do mal, alguém em quem vive como que uma malignidade. Comigo também acontece isso. Custa-me rebater alguém que não gosta do 25 de Abril. 

Mas vou esforçar-me para que não fique a ideia de que o tema me é indiferente. Não é. Acho que há coisas que devem ser defendidas e eu defenderei sempre a liberdade e a democracia e o desenvolvimento porque é esse o País que quero para os meus filhos, netos, bisnetos, trinetos e por aí fora. E espero que eles sempre o defendam também. Só numa sociedade livre e desenvolvida a vida faz sentido.

Antes do 25 de Abril, o País era vergonhosamente antiquado, os outros países olhavam para Portugal como um país pobre e atrasado no qual vigorava uma incompreensível ditadura.

Li um texto de Rita Veloso, alguém que sofreu na pele o que era a vida das crianças cujos pais, por quererem lutar por um mundo melhor, eram perseguidos e ou eram presos, torturados, ou fugiam do país ou viviam na clandestinidade. 

Transcrevo uma parte:


Já por várias vezes escrevi textos com as minhas memórias do período da ditadura e da revolução. Neles, adoto sempre uma perspetiva feliz, dada pelos olhos da criança que era. O Sol e o mar de Peniche, as brincadeiras nas visitas ao meu pai, as ingenuidades de uma criança que tinha de lidar com termos confusos, como clandestinidade ou preso político. Afinal, se não guardarmos da infância memórias felizes, de quando guardaremos?
No entanto, é óbvio que essa perspetiva resulta de um filtro aplicado a uma realidade bem diferente.
Além de todas as misérias que afetavam a generalidade das crianças no período da ditadura – a subnutrição e a fome, o analfabetismo, o trabalho de sol a sol, as doenças vorazes – e que contrastavam brutalmente com as regalias das elites, havia as dificuldades específicas dos miúdos que nasciam em famílias de quem se atrevia a combater o regime, as quais se podiam somar ou não às anteriores.
Crescer na clandestinidade implicava estar-se privado de qualquer sociabilização fora do universo da família nuclear, à exceção de idas fugazes ao médico ou às compras de rotina. Não se usufruía de mimos e ensinamentos dos avós ou dos tios, não havia as brincadeiras com primos ou amigos, aspetos essenciais ao pleno desenvolvimento da personalidade do indivíduo, que se quer num ambiente seguro, carinhoso e estimulante, que questione o intrigante mundo dos outros. Em contrapartida, convivia-se vinte e quatro horas por dia com pais e irmãos. Desenganem-se os que pensam que isso era um privilégio: a tensão em que estas famílias viviam, resultante não só da situação de foragidos como também do convívio forçado e anatural, era sufocante e repercutia-se inevitavelmente nas suas crianças. Vivia-se numa bolha hiperprotegida e asfixiante. A isso juntava-se a instabilidade da contínua troca de casa, com mudanças feitas à pressa, que deixavam para trás as nossas referências físicas afetivas.
 Quando chegava a idade escolar, o mais tardar, tudo mudava inexplicavelmente. Com mais ou menos conversas incompreensíveis, as crianças eram subitamente entregues a alguém da família, para poderem ir à escola sem levantar suspeitas e de forma estável. Não é preciso explicar o quão dolorosa era para pais e filhos esta separação. Em muitos casos, o contacto só foi reestabelecido na idade adulta, resultando, geralmente, em mágoas e acusações imperdoáveis. Muitos filhos questionaram o direito dos seus pais a constituir família naquelas condições, agravando ainda mais a dor que os pais já sentiam com o afastamento forçado.
O que levava tantos homens e tantas mulheres a optar por uma forma de vida que, de previsível, só tinha o dinheiro contado, a insegurança, a prisão e a tortura, o isolamento da família? Não seria, certamente, a sede de protagonismo, nem se tratava de semideuses ou heróis.
Serão, porém, seres com um profundo sentido de justiça e uma imensa capacidade de abnegação; indivíduos para quem o bem-estar próprio ou dos filhos vale tanto quanto o bem-estar de todos e para quem o primeiro não existe sem o segundo. Nem sequer se trata de abdicar de uma vida tranquila em prol dos outros; são indivíduos para quem a vida não é tranquila enquanto não houver justiça, igualdade e liberdade.

Tempos sombrios. Pessoas que, por quererem um país livre e melhor, se viam privados de toda a liberdade, incluindo da liberdade de poder acompanhar o crescimento dos filhos.

Em 48 anos de ditadura, cerca de 29.000 pessoas foram presas por motivos políticos. Uma vergonha que nunca deveremos esquecer.

Não há números exactos para o número de pessoas que tiveram que fugir do país para não serem presas mas foram milhares. Li no Expresso que, por alturas de Abril de 74, estariam exilados cerca de 100.000 jovens que queriam escapar à guerra colonial, essa guerra absurda, condenada à derrota e que tantas vidas estropiou.

A vida antes de Abril de 74 era boa para a minoria que se adaptava bem ao regime medieval, classista e iníquo que então imperava mas era insuportável para as pessoas que tinham alguns interesses intelectuais, que prezavam a liberdade de expressão, os valores democráticos, o desenvolvimento, o direito à igualdade de oportunidades, à justiça, à saúde, à educação e que queriam viver num País moderno e não numa ditadura ultramontana. 


II


Até que, numa madrugada, aconteceu o que todos (ou melhor: quase todos) esperavam. Depois de 48 anos de repressão o que se esperava? Destape-se uma panela cheia de pressão...

Pois bem, apesar de alguns excessos, a revolução em Portugal nem foi bem uma revolução. Os portugueses são gentis, afáveis, tratam bem mesmo os inimigos. Um ou outro excesso? Claro que sim. Seria impossível pretender que um povo estava a viver reprimido e que, pouco escolarizado e pouco informado, de repente se tornasse culto, informado, preparado para regras democráticas que nunca tinha conhecido.

Mas tudo se passava em festa, movimentos para escolarizar um povo analfabeto, médicos enviados para as aldeias onde antes nunca tinha havido cuidados de saúde, comissões de trabalhadores, comissões de moradores, uma euforia, uma alegria. Em pouco tempo tentava-se recuperar todo o atraso. Claro, as nacionalizações, claro algumas injustiças, claro. Gente que foi presa injustificadamente. Mas ninguém lhes fez mal e foi por pouco tempo. Mas claro que não devia ter acontecido. Mas são as imperfeições da natureza humana. Houve depois as famílias mais abastadas, algumas, as que tiveram medo e fugiram, colocando os seus bens fora do país, saindo com a família. Se foi por medo ou prudência, não sei. Mas terão sido uma minoria, minoria essa que depois voltou e encontrou os seus bens intactos.

Houve saneamentos? Houve. Alguns justos, outros injustos. 

Mas os excessos regulam-se e, de facto, regularam-se. No ano seguinte já as coisas estavam mais calmas, a democracia em moldes europeias começou a desenhar-se, a constituição ganhou forma, as eleições corriam normalmente e, assim, o 25 de Abril provou ser essencialmente uma revolução romântica, em que a população dava cravos que os soldados punham na ponta das armas, que atraíu intelectuais do mundo inteiro, toda a gente queria ver este povo saindo de 48 anos de repressão e de atraso.


III


Quanto a Otelo. Otelo foi o grande organizador das operações militares e o mérito da contenção e precisão da operação cabe-lhe a ele tal como cabe a Salgueiro Maia a coragem para servir de isco, pondo-se a caminho, por estrada, de Santarém a Lisboa. O País deve a Otelo, a Salgueiro Maia e a tantos outros a libertação. Como dizia a Hélia Correia, o 25 de Abril foi como um portal através do qual as pessoas saíam do passado e entravam directamente num outro tempo, num tempo prenhe de esperança, no futuro.

Otelo quis depois afastar-se, voltar às suas anteriores funções-  mas Otelo é um líder. As tropas gostavam dele, quiseram-no por mais algum tempo. Espírito truculento, um enfant terrible, formação militar, habituado a decisões rápidas em tempo de guerra, nesse período eufórico e intenso logo a seguir ao 25 de Abril, perdeu a mão em relação a mandados que assinava em branco e outros disparates. Foram meses, talvez, em que durou algum desse desatino mas que apenas alguns o sentiam, os pides sobretudo, informadores, gente de quem se dizia ter colaborado com o regime salazarista.

Depois os militares saíram de cena, voluntariamente o fizerem, oficiais e cavalheiros.

De entre os que se retiraram, um manteve-se activo. Otelo, claro. Concorreu à Presidência da República. Depois deixou-se envolver por um movimento extremista. A justiça julgou-o por pertencer a um movimento terrorista, esteve preso, pagou pelo que fez. Continua a dizer que não esteve envolvido nas mortes.

Mas o facto de um dos principais agentes do 25 de Abril, anos depois, ter dado um mau passo, não deve esbater a grandiosidade do que foi o movimento que derrubou um regime obscurantista.

Apenas para que o Leitor que escreveu o comentário perceba melhor o que digo, deixe-me tentar ficcionar uma situação com algum paralelismo embora, claro, em escalas de importância completamente díspares.

Imagine que o Caro Leitor - sendo um excelente profissional, responsável por um projecto fantástico com benefícios para toda a organização - um dia, tempos depois, tem um deslize e se envolve com uma outra mulher que não a sua, negligenciando a sua própria mulher e filhos. Seria justo que, sempre que alguém louvasse a sua intervenção no projecto fantástico em que esteve envolvido, viesse outra pessoa dizer: convém não esquecer a forma como ele descurava a família quando andava de cabeça virada do avesso...?

Não seria justo, pois não? 

IV


Em minha opinião o dia luminoso a celebrar é o 25 de Abril de 74 e o 25 de Novembro foi o travão que veio refrear alguns ímpetos mais afobados.

Mas quero ainda exprimir em números uma pequena parte do muito que devemos ao 25 de Abril (e vou citar parte dos números que Daniel Oliveira refere no Expresso desta semana):
  • Em 1970 apenas 15.000 crianças frequentavam o ensino pré-escolar. Em 1990 já eram 161.000
  • Em 1970 25,7% da população era analfabeta. Em 1990 já era apenas 11% e hoje o número já desceu para 5%
  • Em 1970 a mortalidade infantil era 77.5%. Em 1990 já era 10,9%
  • Em 1970 apenas 47,4% das casas tinham água canalizada. Em 1990 já eram 86,8%
Uma verdadeira revolução. Tranquilamente Portugal transformou-se por dentro, modernizou-se, tornou-se digno.

Por muito que façamos, nunca agradeceremos suficientemente aos Capitães que ajudaram Portugal a transpor o portal do tempo de que Hélia Correia fala. 

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As fotografias foram feitas no dia 25 de Abril em Lisboa

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sábado, abril 26, 2014

25 de Abril de 2014 junto ao Convento do Carmo. E, depois, passeio por Lisboa, a bela, colorida e luminosa cidade que esteve todo o dia em festa. Esta é a minha reportagem fotográfica.







Na manhã de 25 de Abril de 2014 parecia que todos os rios iam desaguar ao Carmo. Lisboa linda como sempre, solar, amena. E aquele movimento que a anima, gente diferente, gente de outras terras que se junta à festa, cravos na mão, sorrisos, expectativas. 

O Largo do Carmo transbordante. As ruas que o alimentam cheias.

Comecei na Rua Nova da Trindade que já estava cheia mas quis ir mesmo lá abaixo. 

Que não, que não, impossível, não se vai conseguir arranjar sítio. Mas eu queria mesmo era circular. Difícil, de facto...

Um aperto: o Largo do Carmo cheio, cheio, não cabia nem mais um ovo. Mas lá consegui ir circulando, a custo, muito a custo. Depois subimos pela Travessa do Carmo e voltámos à Rua da Trindade, o meu marido sem perceber esta minha vontade de ver tudo, de testemunhar, de registar. Digo-lhe que é a minha veia de repórter. Responde-me, és maluca, é o que é. Talvez.

Quem lá esteve sabe do que falo. Muita gente.

Tirei uma fotografia panorâmica com o telemóvel e enviei aos meus filhos e aos meus pais. A minha filha perguntou de volta: 'Só cotas?'. respondi que não. Todas as idades. Crianças. Mas sim, muitos cotas. 

Gente com bom ar. 

O que eu vejo nestas manifestações é que quem lá está é essencialmente classe média ou média alta, senão alta mesmo. Os muito pobres, os abandonados pela sociedade não se manifestam, nem isso fazem. Estarão cansados, infelizes, descrentes. 

Vê-se muito do que terá sido a geração estudantil em 74 ou os que passaram pelas crises académicas de final dos anos 60, e que hoje se revoltam porque vêem o País agora entregue a gente desclassificada.

Vêem-se pessoas de idade, muitos cabelos brancos, gente que não suporta a ideia de se ver tratada como se de um grupo de parasitas se tratasse.

Mas, pela primeira vez, vi muitos casais jovens, gente que se vem chegando talvez com curiosidade, talvez com vontade de exercer os seus direitos, talvez sentindo que viver não é sinónimo de aceitar mas de lutar. 

Mas há um tal ambiente de festa que todos se sentem inevitavelmente bem vindos, acolhidos num ambiente de fraternidade.

Não sei se é da luz de Lisboa, se é dos cravos, tantos cravos, se é do espírito que Abril induz nas pessoas, a verdade é que as pessoas estavam bonitas, garbosas, joviais.

Nestes momentos a emoção toma um pouco conta de mim. 

Um povo que se vê espoliado, insultado, os seus sonhos roubados e que, depois, reage assim, vindo pacificamente para a rua, como se viesse para uma festa. Há uma forma tranquila, uma resiliência, uma superioridade moral que é tocante.

E Vasco Lourenço falou e foi muito aplaudido. Disse da sua revolta e da forma como estes desgovernantes destratam as pessoas, esquecendo-se delas, desgovernando para agradar aos mercados custe o que custar e não para as pessoas. Disse também que a União Europeia está a impor regras que atentam contra a liberdade soberana do País e que, se isto continua assim, deveremos pensar sair dela. Nesta parte não aplaudi embora não discorde totalmente, não sei.

Estou plenamente de acordo com o ideal europeu mas a UE encontra-se de tal maneira manietada por burocratas ou por políticos que os países rejeitam para uso doméstico e exportam para lá como refugo que aquilo acaba por se tornar um caldo amorfo, sem líderes. A UE anda à deriva e toque de caixa por uma Merkel que manda mais do que todos os organismos atafulhados por milhares de seres cinzentos, meio descerebrados. Mas sair de lá e ficarmos entregues apenas a nós próprios, sabendo a fragilidade do regime português e a debilidade (mental e não só) de grande parte dos políticos, não sei não.

Também não me revejo no derrube forçado do Governo. Ou deveria ser destituído por Cavaco Silva ou deveria demitir-se se o resultado das europeias lhe for muito mau. Por norma, não sou adepta de golpes de estado. Pelo contrário, sou totalmente adepta de regimes democráticos e só em casos extremos, como era o caso do regime antes do 25 de Abril de há 40 anos, me revejo na forma como o derrube então aconteceu.

A referência de Vasco Lourenço ao actual Presidente da República mereceu a maior vaia, uma monumental assobiadela, e gritos como Ladrão!, Grande filho da...1, É o pior de todos!, ouviram-se de entre uma multidão revoltada.


Depois, no final, ele propôs que cantássemos o Grândola e depois o Hino Nacional.

Nesta altura comovo-me sempre. Milhares de pessoas a cantarem em uníssono a Grândola, todos ali junto uns aos outros, aquele frémito quase material que percorre os corpos - e a mim as lágrimas correm pela cara, não as consigo controlar.

E a seguir o Hino. A energia do cantar da Portuguesa foi formidável. No final, a parte da luta pela pátria e contra os canhões marchar, marchar, foi cantada a plenos pulmões, com raiva, com muita energia, com uma força que trespassaria qualquer palerma armado em governante de pacotilha que, naquela altura, por ali passasse.

E depois o grito de ordem O povo unido jamais será vencido. O povo unido jamais será vencido. O povo unido jamais será vencido.

Poderia soar  quase como um grito de guerra mas, na boca afável dos portugueses, soa apenas a um aviso, mais a um alerta para que não esgotem a sua paciência. O povo unido jamais será vencido. E a mim soa-me como um grito de união e a mim a união expressa desta forma uníssona emociona-me sempre.

Vi várias figuras públicas conhecidas e fotografei algumas. Contudo, agora que estava a escolher, de entre as centenas que fiz, algumas para aqui vos mostrar, achei que não deveria colocar fotografias de pessoas públicas mas que, certamente, ali estavam a título pessoal. E, por isso, apenas aqui divulgo fotografias de pessoas que não conheço.
Como sempre o digo, se alguma das pessoas retratadas o não permitir, bastará que me contacte e solicite que retire a fotografia que logo o farei.
Continuando. Dali seguimos para o Chiado. Em festa também, tanta a gente, tanta a luz, tanta a música que envolve quem passa. Os Capitães de Abril andam também por ali. Bela homenagem esta a de espalhar fotografias do dia inicial, puro, limpo, que há 40 anos fechou o ciclo obscurantista que impedia o desenvolvimento do País.














Sei que muitos dos meus Leitores não são de Lisboa. É a pensar neles e, em especial, aos que terão mais dificuldades em vir até cá nos próximos tempos que mostro todas estas fotografias.

Há tanto movimento, tanta cor, que a cidade parece ainda mais bonita. Há imensos turistas.

O trabalho de António Costa à frente da autarquia tem sido inteligente e meritório. Atrai as pessoas para o uso da cidade. Também senti isso quando estive, há uns meses, no Porto.

No entanto, Lisboa é mais meridional, mais desinibida.

Pelo menos, a mim parece-me.

E dali fomos até ao rio. Inevitável, o Tejo.

As esplanadas cheias, cheias, gente a apanhar sol, o rio perfumado, imenso.

Acostado, o cacilheiro Trafaria que era apresentado com direito a cocktail.

Podia mostrar-vos muito mais - como a surreal sessão fotográfica a que assisti e que registei, com uma produção bem exigente, modelos femininos de cabelos e vestidos ao vento e cães felpudos - ou a elegância das mulheres que passeia em Lisboa. Mas isto ficaria longo demais e não quero maçar-vos indecorosamente.

Mas deixem que vos mostre a alegria dos meus pimentinhas que se nos juntaram na parte da tarde no Terreiro do Paço para verem as viaturas militares. Ela não ligou patavina, claro. Material de guerra não é a praia dela. Mas os rapazes deliraram. Boys will be boys, disse a minha filha quando os viu todos num entusiasmo com os canhões, os mísseis, os equipamentos com antenas e sei lá que mais. Até o bebé se interessou, já para não falar no pai dele que se pôs a fazer pontaria com uma G3.

Mas não é tudo material de guerra como os soldados lhes foram explicando. Há veículos de salvamento ou patrulhamento ou para actuar em situações de emergência. O mais crescido fez perguntas e mais perguntas e o ex-bebé ria de felicidade, aos comandos daquela maquinaria toda.

Depois ficámos mais um pouco por ali à espera de ouvir a Banda da Armada. Na altura ainda não havia muita gente e eu podia fazer uma reportagem completa só com as pessoas curiosas que iam aparecendo, com as mulheres elegantes, com os homens patuscos, ou com a graciosidade florida das raparigas.

Depois, então, começaram os marinheiros aventureiros.

Numa altura em que já ninguém fazia tropa e sendo a minha filha já nascida, um dia, ao chegarmos a casa, o meu marido tinha um postal à sua espera na caixa do correio. Não percebíamos o que era aquilo, nem nos ocorreu o que pudesse ser. Era a incorporação na tropa. De todos nossos amigos e ex-colegas de curso, ele foi o único que foi mobilizado, uma coisa incompreensível. Foi ser professor numa das Escolas da Armada, parece que precisavam, na altura, de professores para as cadeiras que ele foi dar. Na altura foi um choque brutal para nós. Estava a trabalhar, claro, e foi ganhar muito menos. E ele era (e é) todo anti-militarista e ver-se a fazer tropa foi uma contrariedade muito grande. Mas eu acabei por achar graça àquilo. Ele ficava lindo com a farda. No inverno, a farda era azul escura; no verão, era branca. E havia umas mordomias agradáveis. Ainda lá esteve 26 meses. 

E ainda mantém alguma ligação à Marinha. Era um ambiente bom, uma camaradagem agradável. Por isso, ficámos ali a ver e ouvir a banda no Terreiro do Paço.

Entretanto, o Terreiro do Paço tinha-se enchido. Havia provas de ginástica, e muita gente, muita luz. A bateria da máquina estava a chegar ao fim mas há coisas a que não se consegue resistir.

Esta cadelinha estava produzida a rigor, uma autêntica Portuguesa.

É o que vos digo: os portugueses são afáveis, boa gente, com um sentido de humor notável.

Apesar da desgraça que lhes caíu em cima com o governo mais incompetente de que há memória, os portugueses enchem-se de cravos, cravos nas mãos, nos chapéus, no cabelo, na lapela (eu usei o meu atrás da orelha, preso com os óculos de sol), sorriem, apanham sol, vivem. Não perderam a força, não perderam o ânimo. Gostei de ver os meus conterrâneos. Ainda não morreram. Ainda estamos vivos.

Já estávamos cansados pelo que apenas espreitámos os Restauradores, não tivemos energia para a Avenida da Liberdade. Por pouco não apanhámos a chuva de cravos. Acabámos a jornada deitados ao sol, rente, rente ao Tejo, naquela rampa que desce do passeio ribeirinho até ao rio. Quando estávamos a ir para lá, cruzámo-nos com Manuel Salgado, o arquitecto de Lisboa, que tem imaginado os espaços públicos da cidade e que a tem devolvido às pessoas.

Um belo, belo dia. 25 de Abril sempre. Claro que não ouvi o que é que o Cavaco disse na Assembleia da República nem estou interessada em saber se enviou recados ou alfinetadas ou as banalidades do costume. Há mais vida para além de gente como ele.

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Nobre povo, Nação valente



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São 3 da manhã e isto saíu-me tão extenso e estou com tanto sono que não consigo rever o que escrevi. Por isso, se detectarem gralhas, por favor relevem, imaginem que são gaivotas e não gralhas... A menos que sejam calinadas imperdoáveis, caso em que vos peço que, por favor, me avisem.

Não consigo responder aos comentários do post anterior mas a ver se amanhã respondo a um deles que acho que não deve passar sem resposta. Todos têm direito à sua opinião mas custa ouvir defender o regime anterior ao 25 de Abril, um regime que mantinha o Pais amordaçado, atrasado, inculto, um país que era uma vergonha.

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Já agora dou a ficha completa da jornada. Almoçámos no Restaurante Pessoa na Rua dos Douradores, um dos bons restaurantes tradicionais da cidade. Os comes repartiram-se entre ovas de pescada cozidas com batatas e feijão verde e lulas grelhadas com o mesmo acompanhamento, as sobremesas entre torta da casa e ananás. Ambiente do mais tranquilo que há, comida da boa, preços muito acessíveis. Uma dose custa à volta de 9 euros e dá para 2 pessoas. As meias doses são individuais mas muito bem servidas e custam 7 euros. Recomendo.

De resto, no que se refere à música deste post:
  • A Grândola, Vila Morena, é cantada pela Joan Baez e pelas pessoas que assistem
  • O Hino de Portugal aqui é cantado pelo Coro Infantil da EB1/PE Marinheira no dia Eco-Escolas
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

sexta-feira, abril 25, 2014

25 de Abril de 2014 - quarenta anos depois da madrugada que tanto esperámos, aquele dia inicial inteiro e limpo onde emergimos da noite e do silêncio. Agora que, livres, habitamos a substância do tempo, não deixemos que noite escura e fria nos volte a enterrar em vida.


Já aqui contei sobre o meu tio-avô que vivia na clandestinidade e que aparecia e desaparecia misteriosamente e que, para desgosto da minha avó, sua irmã, não teve a felicidade de ver chegar a madrugada limpa pela qual tantos tanto esperaram. 

Quem vive como vivemos agora, em liberdade, dificilmente imagina o que eram os tempos sombrios antes do 25 de Abril de 1974. Os jovens que hoje não se interessam pela política não sabem da espada sobre o pescoço que era a guerra ultramarina para a qual eram mobilizados a não ser que fugissem do país e vivessem exilados. Tive colegas que, por defenderem a melhoria das condições de ensino, o direito à liberdade de expressão e o fim da guerra, foram expulsos da universidade.

E queria-se livros e não os havia, pois a censura impedia a sua distribuição, ou queria ver-se alguns filmes de que se ouvia falar e cuja divulgação em Portugal era proibida, e, se a vontade de os ver era muita, ia-se a Badajoz.

Coisas cuja importância é relativizada por quem não as sentiu na pele ou não conheceu pessoas que relatem na primeira pessoa esses tempos que não devem ser esquecidos para que não deixemos que regressem. Coisas de somenos. Ou talvez não. 

Os meus filhos são relativamente politizados mas a minha filha disse-me ontem uma coisa que me deixou tão surpreendida que nem reagi. Dizia-lhe eu que tencionava ir para a rua, para o Largo do Carmo, e responde-me ela que, se não fossem os miúdos, ia também porque deve ser giro, uma cena revivalista.

Ou seja, mesmo para uma pessoa informada e que cresceu a ouvir falar de política, andar na rua no 25 de Abril, o Movimento dos Capitães, o Largo do Carmo, tudo isso é visto como uma cena revivalista, uma coisa gira, retro.


Mas não interessa: que seja por convicção, que seja por reinvenção da forma de valorizar a liberdade e o direito à igualdade de oportunidades, que seja por que for, seria bom que os jovens não tomassem a democracia como um bem adquirido mas, sim, como algo de precioso pelo qual vale a pena lutar, estar atento para que não aconteçam retrocessos. E seria bom que reconhecessem a rua como o lugar de cidadania no qual todas as vontades devem ser manifestadas.

A vida de um País é naturalmente cheia de períodos bons e de outros para esquecer. O período que estamos a atravessar é destes últimos: para esquecer. Um período negro, em que os actuais governantes, parecem possuídos por uma doentia sanha destruidora relativamente a tudo o que o Abril de há 40 anos nos trouxe. Sem dó nem piedade esta gente ataca o ensino público, a saúde pública, o direito à dignidade, o respeito pelos direitos acordados com as pessoas, destrói o caminho do desenvolvimento e do conhecimento, afasta os jovens e afronta os velhos.

Fogo de Artifício às 0 horas do dia 25 de Abril de 2014

Os portugueses são naturalmente dóceis (naturalmente ou fruto do jugo férreo do tempo do salazarismo que os habituou a não protestar, a tudo aceitar com humildade, com mansidão) e, por isso, este bando de amadores (rodeados de uma garotagem arrogante, insuportável, em grande parte igualmente néscia, que os assessora) tem conseguido tão facilmente arrasar o País e dar cabo da vida dos portugueses.

Mas há-de haver o dia em que os portugueses vão acordar, pôr-se de pé e lutar pelo direito a um futuro construído sobre um terreno de esperança.

Abril é um bom mês para renascer. 

Que a esperança renasça, que a vontade de lutar renasça, que a força renasça - até porque nossos são todos os caminhos.


Grande painel com o rosto de Salgueiro Maia sob o Arco da Rua Augusta


Bravos homens estes que se puseram a caminho desde Santarém para virem resgatar a capital
de um regime opressivo, atrasado, provinciano
Bravo homem este com um rosto doce que revela simplicidade, generosidade

Nunca lhes agradecermos o suficiente
por virem de madrugada devolver-nos a inteireza pela qual tanto esperámos.

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Esta é a madrugada que eu esperava 
O dia inicial inteiro e limpo 
Onde emergimos da noite e do silêncio 
E livres habitamos a substância do tempo.

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Fragata no Tejo (em frente a Sta Apolónia) e a caminho do Terreiro de Paço em Abril de 2014

(tal como na manhã de 1974 quando se preparava para interceptar as forças revoltosas mas, felizmente, não o fazendo e permitindo uma entrada 'limpa' dos tanques e chaimites no terreiro do Paço)



A minha nora enviou-me o link para um artigo do Público que fiquei com vontade de transcrever, da autoria de Tiago Matos Silva que é antropólogo, doutorando e investigador. Penso que traduz bem o que tentei dizer acima. Ilustro com fotografias da exposição alusiva ao 40º Aniversário da Revolução que está patente no Terreiro do Paço.



25 de Abril: o meu é, obviamente, o próximo


O meu 25 de Abril é um problema. É um problema porque eu nasci dois anos depois da revolução dos cravos e o meu 25 de Abril é feito de imagens de arquivo, cortejos apaziguados Avenida da Liberdade abaixo e histórias fragmentadas de família.

O 25 de Abril é dos meus pais como o fascismo foi dos meus avós: Salazar não me sugere nem rigor financeiro duma casa bem gerida nem cultura de excelência no ensino; Salazar para mim é a sardinha dividida por seis irmãos da minha avó Adília, é o meu avô Artur em Jacarepaguá durante 20 anos, é a escrita insólita de quem nunca foi à escola da minha avó Belandina, é a cama sempre quente que o meu avô Diamantino partilhava com outros trolhas beirões num quarto em Lisboa, é o meu tio António João em Angola a defender um Portugal de Minho a Timor (de que não conhecia o Minho, quanto mais Timor), é a rede que separava rapazes e raparigas no liceu da minha mãe, é o meu pai a comprar livros e discos proibidos por debaixo da bandeja e a descer aos saltos as Escadinhas do Duque para fugir à polícia que reprimia um 1º de Maio ainda ilegal.

Salgueiro Maia comovido,
mordendo o lábio para não chorar,
depois de ver que podia avançar com as tropas sobre o Terreiro do Paço

Maia Loureiro fazendo o sinal de vitória

(fotografia de Eduardo Gageiro)

Mesmo o 25 de Abril e o PREC, se extirpado da história que li, desagua no meu pai a tentar ver-se na multidão a preto e branco das imagens do Carmo, no meu avô a explicar ao piquete que vai caçar e não apoiar o Spínola no 28 de Setembro, na minha mãe à varanda a ver passar os caças do 11 de Março; são entusiasmos e aflições deles, foi e é a vida deles: dos que estiveram no Carmo e no primeiro 1º de Maio, dos que foram à Fonte Luminosa “defender a democracia”, passando pelos que tentaram “educar a classe operária” e se viram ultrapassados pelo 25 de Novembro.










Em casa houve de tudo

Carro de combate e militares aguardando no Terreiro do Paço

(fotografia de Alfredo Cunha)

Lá em casa houve de tudo: democratas e saudosistas do salazarismo, católicos progressistas e crentes na “primavera” marcelista, retornados e marxistas-leninistas; e às vezes a mesma tia foi à vez, em momentos diferentes, coisas que nos parecem inconciliáveis. E se isto é História tal como o saudoso Le Goff a definia: “Lá onde está a carne humana é onde está a nossa caça”, não deixa de ser um longínquo país estrangeiro para a minha geração, alimentada a música pop e aspirações europeístas, que cresceu sem perceber muito bem as diatribes raivosas que despertavam Soares ou Rosa Coutinho, a confundir o Salgueiro Maia com o Otelo, sem perceber exactamente quem era o Barreto da Reforma Agrária dos murais descascados, perdida entre vinte cincos de Novembro, onzes de Março, vinte e oitos de Setembro e vinte e oitos de Maio.

E no entanto, quanto mais se explora este passado exótico, mais próximo ele nos aparece do nosso presente; numa oposição paralela da mensagem dos espelhos dos carros: em vez do “objects in mirror are closer than they appear” o que aprendemos é que os objectos estão bem mais próximos do que parecem.

E estão mais próximos não só porque é a vida dos nossos pais e dos nossos avós, não só porque “Abril não se cumpriu” ou porque as continuidades com o antigo regime às vezes assustam, ou porque os portugueses, novamente aflitos, recomeçam a cantar a “Grândola”. 

Estão mais próximos porque a tensão basilar que animava os resistentes de ontem: a tensão entre os que vêem no "status quo" o melhor dos mundos possíveis e os que acreditam na humanidade como algo para além da soma do medo e da ganância dos humanos, se mantém. 


Estrelas luminosas num céu ao rubro
Cravos para Abril


E é por tudo isto que o meu 25 de Abril é, obviamente, o próximo.


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Venham e tragam outro amigo também


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Os Filhos da Madrugada e Traz outro amigo também são da autoria e interpretados pelo Zeca Afonso.

O poema (em itálico) é de Sophia de Mello Breyner Andresen

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um excelente dia 25 de Abril.