Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, março 31, 2014

Os meus livros, as minhas estantes, a minha bonecada - em suma, a minha casa


No post abaixo falei de elos que inesperadamente se ligam, falei de fraternidade e de liberdade. Falei de Luanda, filha de Alípio que foi cantado por Zeca e que agora canta Zeca. Muitos anos separam os gestos de afecto e isso ainda os torna mais emocionantes.

Mas isso é no post abaixo.


Coming home, por favor





Aqui falo-vos da minha casa. 

De facto, a minha casa não é uma, mas duas. Complementam-se. Falo da minha casa como se fosse uma única porque para mim é como se fossem duas partes da mesma casa mas, quem por aqui me visita, sabe que são duas e que por elas me divido.

Numa vivo na cidade, perto do rio, levanto-me e tenho o Tejo na minha janela. Espreito o amplo espaço à minha frente e vejo as gaivotas e os veleiros cruzando o azul. Assim começo os meus dias e assim os acabo quando aqui estou.

Na outra, vivo no meio do campo, um vale verde à minha frente e logo uma imensa montanha azul ao longe. Os ventos atravessam o espaço e as árvores e os pássaros são presenças amigas que contemplo e escuto com cuidado e devoção.

Em ambas as casas os livros. Mais do que qualquer outra coisa, é dos livros que eu mais dependo.

Quando estou no campo, in heaven, os livros vão ficando. 

Uns vieram para o fim de semana ou para as férias, outros ainda não foram concluidos, outros parece que ali fizeram o ninho. São avulsos, não seguem qualquer lógica. Acomodaram-se uns aos outros e foram ficando. 

Transbordaram das estantes de portas de vidro que estão escavadas na parede do corredor (em tempos falei aqui dessa peripécia que, por sorte, não me deitou a casa abaixo e que ainda me arrepia só de nela pensar) e, por isso, agora na sala da televisão, onde temos a salamandra, vou pondo pequenas prateleiras brancas na parede. No outro dia, quando chegámos estavam vários livros no chão. Uma destas pequenas prateleiras tinha dado de si e, na queda, fez cair a de baixo. 

De cada vez que quero colocar outra, tenho a resistência do meu marido pela frente, que não quer estar a esburacar ainda mais a parede e que as pequenas prateleiras, assim, com o que lhes ponho em cima, ficam instáveis. 

Estive, portanto, a aliviá-las. Agora as prateleiras de cima têm pouco peso a ver se não há novo desastre.. 

Tenho outra prateleira para colocar, já lá deve estar há uns dois meses, mas já sei que, primeiro que o meu marido se convença, tenho que ir esperando pacientemente.

Na cidade, onde estou neste momento que vos escrevo, a coisa é mais dramática. Tenho móveis com livros em vários locais da casa. A maior parte concentra-se aqui nesta sala mas há também no corredor, no hall, numa outra sala, nos quartos. E depois há os montes, os que estão nesta mesa, os que estão nos cestos, os que estão ao lado dos sofás.

A maior parte das minhas estantes tem portas de vidro e algumas foram desenhadas por mim e mandadas fazer em marcenarias do Norte. Outras foram compradas (modelos clássicos, quase sempre em nogueira mas algumas também em mogno) e, recentemente, rendi-me aos preços baixos e à versatilidade e, portanto, tenho várias do Ikea. Mais: agora, por baixo das janelas, até tenho estantes abertas, coisa impensável até há pouco tempo a esta parte.

Mas nas estantes fechadas, como as prateleiras são largas, aproveito para as encher de objectos. À frente dos livros e dado que as portas de vidro sempre protegem um bocado do pó, aproveito para lá colocar as minhas caixinhas de música, as minhas ampulhetas, os meus bonecos.

Sou toda dada a pequenos objectos, objectos que me acompanham e a que me afeiçoo. Copinhos de vidro pintados à mão, relógios em miniatura, colherinhas de prata, saleiros de porcelana, lupas, um leque antigo em madeira. Há de tudo.



Não há uma lógica, um pressuposto. É tudo do mais variado que há: desde coisas que me oferecem até coisas que vou trazendo dos sítios por onde passo.

Claro que o meu marido, quando me vê a querer trazer bonecada e caixas e caixinhas, tenta demover-me, que já chega de tralha, que não me ponha a gastar dinheiro em porcarias que não servem para nada e sei lá que mais. Mas é escusado. É mais forte do que eu.

Aqui à direita poderão ver uma que trouxe do passeio maravilhoso à Normandia (não sei se já vos falei do passeio que fizemos às praias do desembarque). É tão mimosa, a bonequinha, gosto de passar a mão pela roupa, é uma porcelana macia como seda bordada à mão.


Mas depois, se algumas foram presentes e outras são recuerdos de viagens ou peças especiais, há outras que são apenas bonequinhos que vi e achei bonitos mas que pouco valor material têm.

Estas aqui à esquerda são anjinhas de louça para pendurar na árvore de natal. Achei-as uma ternura e mal empregadas para estarem guardadas à espera da época natalícia e, por isso, agora aqui estão ao pé dos livros de escritores orientais.

Imagine-se se tudo isto não estivesse fechado dentro de estantes com portas. Os pimentinhas haveriam de lhes tratar logo da saúde. No outro dia, o bebé, lesto, abriu uma porta e tentou tirar de lá qualquer coisa. Felizmente, o mais crescidinho também foi rápido e puxou-o logo pelo braço, dizendo esta coisa surpreendente: 'Aí não se mexe que aí é o museu da Tá'. Claro que o bebé ficou a olhar, muito admirado. Museu é conceito que ainda não atinge. Mas achei o máximo. O meu museu. Pois. De facto, é como se fosse. Um museu de memórias, de afectos - e de boas companhias para os meus livros.


***

A bela música lá em cima é Coming home de Lizz Wright


***

Relembro: se descerem um pouco mais poderão ler e ouvir sobre uma história tocante, uma história que ilustra bem o espírito de Abril.

***

Muito gostaria ainda de vos convidar a visitarem-me também no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje tenho poesia de Carlos Drummond de Andrade dita por Fernanda Torres. A propósito das desilusões de amor falo de um tema que me é mais caro: as ilusões de amor.

***

E, com isto, por aqui me fico por agora. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda feira.


Alípio de Freitas, Luanda Cozetti, José Afonso. O generoso laço da fraternidade. A liberdade que nunca deveremos calar no nosso peito. Estamos quase em Abril.



O 25 de Abril por Vieira da Silva


Aproxima-se Abril e a generosidade que tantas vezes salta fronteiras e se aproxima dos que combatem pela liberdade ou, apenas, por um futuro digno, começa a ser mais assiduamente evocada. 

Pode haver gente ignorante ou miserável que despreza a história ou os outros e que vive fechada na sua pequena caixa de tweets, agarrada ao seu mural de facebook ou presa a coisa nenhuma que não a sua maldade mascarada de eficiência - mas a esses devemos ter a sabedoria de desprezar (tanto mais que, empoleirados na sua pesporrência, geralmente, não aceitam ensinamentos alheios ou gestos de comiseração).



Mural pintado pelos alunos da Escola de Arte de Lagoa



Pelo contrário, deveremos deixar que o nosso coração se encha de solidariedade, de vontade de lutar pelos outros, pelos que já não têm força para isso e pelos que parecem não encontrar espaço para se desenvolverem.

(Estou a escrever isto e sinto que as estas palavras quase soam a banalidade, a conversa fiada - mas é inabilidade literária minha pois sei bem que não é banalidade, sei bem que a solidariedade e a energia para lutar são bandeiras que bovinamente trazemos enroladas, esquecidas na passividade em que nos deixamos adormecer)

Abril é, por excelência, o mês da primavera, do renascimento, o mês limpo de que falava Sophia, falando do dia em que Portugal renasceu em festa.
Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo.

E, por falar em Abril...


... Eu era menina e estava numa casa de grande pé direito, de soalho de madeira, e, às vezes, abria-se a porta da divisão onde eu estava e via a cara de José Afonso a espreitar. Depois a porta fechava-se e eu não sabia para onde ia ele.

Quando era o 1º de Maio, sabia-se de prisões, e falava-se de José Afonso, mas não se sabia se era verdade ou não. Eu não sabia, era menina ainda. Mas nunca se sabia bem de nada, havia um clima de medo, falava-se das coisas à boca pequena. Talvez os mais crescidos soubessem melhor mas tenho ideia de que, se sabiam, falavam disso às escondidas.

Depois, já mais tarde, eu tinha um namorado cantor - e que bem ele cantava - e tocava e cantava de tudo e, entre esse tudo, Joan Baez e José Afonso. 

A seguir um outro namorado. Não tocava viola nem tinha o vozeirão do outro mas, embora fosse de poucas palavras, sabia de cor todas as canções de José Afonso (tal como sabia dizer de cor parte dos Lusíadas e outros poemas).

Aqui em minha casa tenho os discos todos de José Afonso (em vinyl, claro). Se toca ou se vem à conversa alguma canção do Zeca, o meu marido ainda a canta de fio a pavio.

Uma das canções de que nunca conheci a história para além do que José Afonso lá diz é Alípio de Freitas

Leio agora:

José Afonso tinha feito, depois do 25 de Abril, uma canção dedicada a um padre transmontano que no Brasil se tornara guerrilheiro e ali fora preso. Dizia assim: “Baía da Guanabara/ Santa Cruz na fortaleza/ Está preso Alípio de Freitas/ Homem de grande firmeza// Em Maio de mil setenta/ Numa casa clandestina/ Co’a companheira e a filha/ Caiu nas garras da CIA.” 





Muitos outros, desde então, têm recriado as canções de José Afonso. Uma das mulheres que o fazem com entrega é a improvável Luanda Cozetti, uma brasileira, que, com Norton Daiello, seu companheiro na vida e na música, formou o duo Couple Coffee, que várias vezes já divulguei no Ginjal & Lisboa. A última vez que o fiz foi justamente com a sua interpretação de Alípio de Freitas.


Pois qual não é o meu espanto quando hoje leio que Luana é nem mais nem menos que filha de ... Alípio de Freitas, justamente a filha de quem o Zeca falava na canção. Fiquei pasmada.



Leio também agora:

Passados sete anos, já com o Couple Coffee bem instalado no meio musical português, resolveram relançar o disco. E arriscar essas duas canções, com uma curiosa abordagem. Traz outro amigo também conta com a voz do próprio Alípio de Freitas que, nascido em Vinhais, em 1929, deixa ali impresso o seu sotaque transmontano e altivo. 


Luanda conta, agora, como correu a experiência:

“Pôr o meu pai a cantar não foi nada difícil. Há uns dois anos que estávamos com essa ideia, mas fomos enrolando. Estas duas músicas tinham ficado de fora do disco. Alípio de Freitas por aqueles motivos todos e Traz outro amigo também porque foi uma música em que eu não queria mexer. Porque, para mim, ‘aqueles que ficaram’ são os que ficaram pelo caminho. Estou cercada de defuntos, enfim. Mas achei que agora era a hora dessa canção, propus ao meu pai e ele foi profissionalíssimo, 40 minutos de estúdio e gravou tudo, cantando, falando deu uma alegria, uma dignidade à canção. Quisemos deixar a forma como ele fala, o timbre muito transmontano, ficou muito lindo assim.”



Traz outro amigo também pelos Couple Coffee (com Alípio de Freitas)






Enquanto estou a escrever, estou a ouvir a voz de Alípio de Freitas e estou emocionada. O mundo dá muitas voltas e às vezes há ciclos que se fecham mas fecham-se como um laço de espanto e afecto, um abraço. Alípio de Freitas, o próprio, interpreta agora José Afonso e fá-lo pela mão da sua filha, a menina que vivia numa casa clandestina quando ele, homem de grande firmeza, foi preso.


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domingo, março 30, 2014

O risco dos Blind Dates (Hugh Jackman e Kate Winslet mostram o que pode acontecer). Os meus Leitores mais sensíveis NÃO DEVEM ver o vídeo.


Muda a hora, muda o visual do Um Jeito Manso. Quem por aqui costuma passar sabe bem que sou avessa à monotonia, a pasmaceira fatiga-me. Se não posso mudar o mundo, mudo a minha janela para o mundo. E mudarei tantas vezes quantas me ocorra um pretexto ou até por pretexto nenhum. Nem sei quantas vezes já terei mudado. Comecei com a menina má de Balthus e muitos outros caminhos já percorri. Para mim, bom é caminhar, não tanto o lugar onde chego. Posso até nunca chegar mas vou andando, procurando, descobrindo, desfrutando com prazer a caminhada (e estou a lembrar-me das palavras de José Tolentino Mendonça no outro dia).

Em cima, junto ao título do blogue, aparecerá sempre uma mulher e tem que ser uma mulher com cuja atitude me identifique. E pode ser uma pintura ou uma fotografia.

Hoje tenho Edita Vilkevičiūtė fotografada por Alexi Lubomirski e só porque é tarde e a mudança de hora já me roubou um bocado de noite é que não falo dele, do fotógrafo. Um dia destes falarei, terá mesmo que ser.

No post abaixo, falei-vos de um filme de amor, um filme especial baseado numa novela muito pouco convencional e, mais abaixo ainda, mostro-vos como ficam belos os homens envoltos em azul e mistério.

Aqui, agora, a coisa é diferente. Um Leitor, a quem muito agradeço, enviou-me, por mail, um vídeo cheio de 'espero não ter sido indelicado' e de cuidados não fosse eu ficar chocada.

E fiquei. Tanto quanto a Kate Winslet. Chocadas, eu e ela. Credo: que coisa.

Nunca fui numa de blind dates e receio bem que nunca vá. Primeiro porque não à ando à pesca; segundo, acho que não me arriscaria a que me aparecesse um homem com um metro e vinte ou um homem com capachinho (a propósito: então não é que no outro dia me cruzei com um conhecido poeta e vi que tem um capachinho...? Como é que agora vou conseguir continuar a ler os poemas dele?).

É um risco. 

O filme abaixo mostra a Kate Winslet a ir encontrar-se com um homem, Hugh Jackman, justamente num encontro às cegas. Ela ousada, até comprava coisas pela internet, tudo na boa, etc e tal, até que ele tira o cachecol. Aí ela fica para morrer. E eu também.

Advirto de novo:

  • quem queira continuar a imaginar-me muito bem comportada, não deve ver o vídeo. 
  • quem tenha sensibilidade gástrica a testículos (especialmente aos que estão excessivamente visíveis) não deve ver o vídeo.

Ao Leitor que o enviou, digo: fico chocada, bolas, quem é que não fica...?, que impressão me fez o raio do homem - mas o que me diverti... Obrigada! E até me apetece escrever: LOL, porque soltei mesmo umas gargalhadas.



Movie 43 - O homem dos testículos


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Relembro: por aí abaixo há filmes muito bons, um regalo para os sentidos.

*   *   *

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.


'Duas mães' (ou 'mães perfeitas'). Ou 'adoração'. Ou 'paixões proibidas'.


No post mais abaixo mostro-vos um homem muito belo filmado com mestria por Scorsese a propósito de Bleu.

Aqui, agora, continuo numa onda de filmes.


Mas este de que aqui vos mostro um pouco não é um filme qualquer. Este é um filme baseado numa novela de Doris Lessing e só por isso já ficamos en garde. Não é de banalidades que aqui se vai tratar. E não trata mesmo. O que temos são duas amigas, vizinhas muito amigas, que, por vicissitudes da respectiva vida, criam os filhos sozinhos e, dada a proximidade, quase tratam o filho uma da outra como se seu próprio filho fosse. 

Mas os rapazes crescem. E um dia há um olhar que se crava no olhar indevido.

Pelo olhar se começa a sedução. Pelo olhar começam os romances mais perigosos. Devem evitar os olhares interditos, aqueles que não queiram tombar em perigosos abismos.

E o que não podia acontecer, aconteceu.

Por zanga, vingança ou porque, quando se ultrapassa uma certa linha, todos os perigos se desmandam, o filho ultrajado paga da mesma moeda. 

Demónios à solta. Mas, vendo bem as coisas, não são demónios: são anjos. Anjos belos à solta no paraíso.

E, para além de amores interditos e intensos, há a amizade entre duas mulheres. Os afectos podem tomar formas não convencionais e, nem por isso, menos belas.

Anne Fontaine é a realizadora e as duas mães são Robin Wright (de quem sou franca admiradora) e Naomi Watts. Um pouco do ambiente, no trailer aqui abaixo, para que percebam aquilo de que vos estou a falar.

Na ausência do filme ('Paixões proibidas', Two mothers', 'Perfect mothers', 'Adore' ou 'Adoration') sugiro a leitura da novela 'As avós' de Doris Lessing ('avós' já que a relação vai durar até ambas serem avós).








Roz e Lil são amigas inseparáveis desde a infância. Cresceram, casaram, tiveram filhos, e vivem na paradisíaca bacia de Baxter, um lugar cercado de rochas por todos os lados. O ambiente protegido, "bocejante", além do qual o "verdadeiro oceano rugia e roncava", é o cenário ideal para uma relação cada vez mais simbiótica. Morando em casas vizinhas, elas criam os filhos por conta própria - e eles se tornam adolescentes encantadores. Tão encantadores e próximos, que Roz e Lil não tardam a se envolver uma com o filho da outra. 

Num efeito ambíguo e desconcertante, típico da grande literatura, o que poderia parecer repulsivo é tratado com naturalidade e bom-humor, fazendo a quebra de tabus soar como regra, e não como dramática exceção. Temas como amizade, maternidade e sexualidade ganham novos contornos enquanto Doris Lessing esmiúça as complexidades e armadilhas da forte ligação entre essas duas mulheres, e retrata a força com que elas confrontam as convenções familiares e sociais de sua época.


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E, por favor, desçam até ao post seguinte para agora mergulharem no Bleu de Chanel.

sábado, março 29, 2014

Um azul lindo de morrer


Eu devia ter acções da Casa Chanel tanta a publicidade que aqui lhe faço mas, hélas, não tenho. Sou simplesmente admiradora do bom gosto dos criadores contratados para alimentar o glamour de tão distinta Casa,

Gaspard Ulliel, lindo, lindo, aqui é filmado sob a batuta de Martin Scorsese. E eu não sei se é do filme, se é dos olhos de Gaspard, se é da sugestão de romance e, sobretudo, da sua rebeldia, que gosto mais. Mas gosto. 

Acho que tenho que ver se gosto também do perfume. O meu marido é, desde há muitos anos, Acqua di Gio e nunca quis trocar mas, às tantas, faz mal.


BLEU de CHANEL






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Relógios de família, outros relógios e beleza em branco (e em branco e preto). Omega, Chanel e Eikoh Hosoe


Depois de, no post abaixo, ter apelado ao aumento da natalidade, apresentando medidas concretas para o seu estímulo, aqui, agora, retiro-me de cena e cedo espaço a um momento de beleza em branco. E depois a outro e, de caminho, falo de outras coisas.

[Estou pouco explícita, eu sei. Deve ser do adiantado da hora. Cada vez chego mais tarde a casa e, a esta hora, já pouco mais do que isto consigo dizer.]




Ora, então, vamos lá.

Apesar de ser Chanel, não sou apreciadora do J12 White. Mas o anúncio é de uma elegância que me seduz. E, estivesse eu com o corpo descansado, e aqui pronunciaria umas palavras tentativamente à altura ou, em alternativa, prudentemente, socorrer-me-ia das palavras dos poetas. Mas não consigo e, portanto, limito-me, em silêncio, a deixar-vos com a beleza em branco. A publicidade Chanel é sempre muito requintada.






Eu, em relógios, não pendo nem um bocadinho para os Chanel. Sou de fidelidades em relação a meia dúzia de coisas, talvez nem tanto, e uma delas é o meu relógio. Em relação a relógios, uso um, apenas um. Já me ofereceram outros mas não tem resultado: regresso sempre ao mesmo. Tenho que sentir aquele peso certo no pulso, aquela forma de se ajustar ao pulso. Falo de um Omega. O meu é Constellation mas não cronómetro.

Aqui há algum tempo ficou com a pilha fraca. O ponteiro dos minutos estava certo mas o das horas ia atrasando. Chegava a andar 5 horas atrasado. Depois eu, manualmente, lá rodava a rodinha para puxar o ponteiro. Ao fim de pouco tempo já ia, outra vez, com horas de atraso. Pois bem: nem assim deixei de o usar. Devo ter andado mais de um mês nisto, nunca arranjava tempo para ir à ourivesaria substituir a pilha.


E estou com esta conversa não para me armar mas porque vi o anúncio do relógio Chanel e achei-o uma maravilha e agora fui à procura de um para o meu Omega e encontrei este que vos vou mostrar e o filme também é perfeito.


[O meu pai também tinha um. Agora que já quase não sai de casa, meteu na cabeça dar o relógio ao meu filho.
Não queríamos, parecia que estava a desistir de um objecto de que gostava tanto por estar a desistir da ideia de fazer sentido voltar a usá-lo. 
Mas não o conseguimos demover. Um bocado emocionado, lá passou o testemunho. Ele gostava de dizer que no Omega tudo o que luz é ouro (porque é verdade) e disse-o quando deu o relógio ao neto. O meu filho é um rapaz moderno, não se está a ver com um relógio de um modelo tão clássico, nem queria aceitá-lo, que o avô o conservasse. Mas o meu pai quis mesmo e o meu filho, agradecido e percebendo o simbolismo da coisa, gostou de o receber. São relógios intemporais. São actos intemporais].




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As fotografias são do fotógrafo japonês Eikoh Hosoe.

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Para conhecerem uma campanha de tipo Factura da Sorte para estimular a natalidade é favor descerem até ao post seguinte.

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E, por agora, por aqui me fico. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo fim de semana apesar de o tempo estar uma seca. 
(Uma seca é como quem diz: uma seca fria e molhada).

Como estimular a natalidade - alô, alô! Já que ninguém se chega à frente para propor medidas concretas, aqui está o Um Jeito Manso a dizer como é. E, mesmo que não esteja para aí virado, faça-o por Portugal!


Uma vez que não há ministros neste (des)Governo que tenham sapiência suficiente para desarrincar uma medida que se aproveite, aqui vos deixo, meus Caros Leitores, um anúncio que vos pode indicar algumas pistas.

Sabido como é preocupante a tendência demográfica em Portugal, alguma coisa tem que ser feita para que os portugueses não sejam vistos daqui por uns anos como uma variante longínqua dos dinossauros, espécie que se extinguiu e virou boneco de crianças.

Talvez não tão dramática mas, ainda assim, também a merecer alguma atenção, é também a questão na Dinamarca. Talvez por isso, a coisa que vos vou mostrar nasceu lá; mas está na hora de o Governo português, em vez de sortear carros topo de gama a quem pedir factura, sortear uma casa cheia de fraldas a quem provar que concebeu uma criancinha.

No entanto, se, como no filme se diz, os meus Caros já tenham cumprido a vossa missão ou mesmo que não haja hipótese de daí sair um bebé, que não seja por isso. Vale tudo pelo prazer da participação (no concurso, claro). E por Portugal, claro.


sexta-feira, março 28, 2014

Alexandra Lencastre e Fernando Alvim têm um caso? Namoram? Têm encontros secretos num hotel? São apenas amigos? Negam tudo? --- Não sei. Só espero que se divirtam e sejam felizes.


Bem, meus Caros, por aí abaixo poderão encontrar posts para todos os gostos: vídeos emocionados com artistas e escritores, testemunhos de afecto, opiniões a ouvir com atenção, um Nobel a falar de dívida e austeridade, carros de luxo, parabéns a quem acabou de ganhar eleições.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, aligeiro, torno-me levezinha. Faço-me, pois, eco da fofoca de momento.


I'm Confessin' diz Lizz Wright




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Por estes dias, no meio das confusões e convulsões causadas pelo Governo, eis que as revistas aparecem com um improvável casal na capa. Pasmei. E sorri. Mal dá para acreditar mas, vendo bem, talvez estejam bem um para o outro.


A atriz Alexandra Lencastre, de 48 anos, e o humorista Fernando Alvim, de 39, estarão a viver um romance secreto, com encontros pontuais num hotel da zona de Paço de Arcos.


A notícia é avançada pela revista “TV 7 Dias” desta semana, a quem Alvim, alegre animador de rádio e escritor, terá confidenciado que mantém um romance com uma mulher “famosa, loira e bombástica” e que se a relação viesse a público seria “um escândalo”.




Mas eis que o próprio Fernando Alvim, esse maluco, o desmente:



Humorista diz que "infelizmente não é verdade" que esteja a viver um romance com a atriz. E brinca com o assunto: "seria o casamento do ano"


Fernando Alvim não esconde que mantém uma amizade com Alexandra Lencastre. "Ela é uma mulher muito bonita e interessante. Já saímos algumas vezes. Só que não somos namorados e nem temos qualquer esconderijo", afirma Alvim ao nosso jornal.


Não sei nem tenho nada a ver com isso.

A ser verdade, imagino que se fartem de rir quando estão juntos. Casal animado e inesperado. Teria graça e talvez, juntos, fossem felizes. Talvez ela serenasse. Talvez se apoiassem e fossem cúmplices na vida (vida que, por vezes, quase parece andar nos limites da border line). 

Apesar de alguns excessos, são simpáticos e, acho eu, boas pessoas. Merecem ser felizes. Aliás, toda a gente merece ser feliz.

E nada mais tenho a dizer sobre o badalado assunto.


***

A música lá em cima é I'm confessin' de Lizz Wright


***

E, se me permitem, volto a recordar: se continuarem a descer, há mais uns quatro posts. Acho que são quatro mas não garanto. São muitos e variados.

E eu agora vou dormir. Tem razão a Leitora que me avisa: tenho que dormir mais antes que me dê alguma. Por isso nem vou rever nada do que escrevi. Tomara que esteja tudo mais ou menos direitinho.

***

Desejo-vos, meus Caros Leitores, um POETS day muito feliz 
(apesar deste tempo que não dá tréguas: frio e chuva outra vez, que chatice)


"Amo-te tanto que não te sei amar" - o emocionado testemunho de Maria Rueff sobre o pai e sobre o seu médico, António Lobo Antunes, o escritor-psiquiatra


Abaixo poderão ler vários posts, 

  • um sobre a conversa de treta que é isto do passo em falso que terá sido o briefing das Finanças com a Comunicação Social - e que, para dizer verdade, mais me parece uma manobra de diversão para irem passando informação que revoltaria as hostes, mas de uma maneira que as hostes nem se apercebam bem disso, concentradas que estão na barraquinha armada ou encenada
  • outro sobre Stieglitz e Rentes de Carvalho (a dívida, a austeridade e a ostentação)
  • e, finalmente, um sobre a reeleição de António Saraiva à frente da CIP


Mas isso é a seguir. Aqui, agora, quero deixar-vos com um vídeo que não pode deixar de nos tocar. 

No Dia António Lobo Antunes (ALA) no Centro Cultural de Belém, o escritor foi 'visto' pelos seus leitores, entre os quais Maria Rueff.


Falou ela do seu pai, à data do relatado, internado no Miguel Bombarda onde ALA era médico, falou da gentileza do médico a cuja porta bateu, falou do médico que era giro todos os dias, falou do livro que tantas vezes a salvou. 

Assim é o poder das pessoas que trabalham com palavras - e não me refiro apenas a ALA mas também a Maria Rueff que é uma artista ímpar e que usa as palavras com uma vibração e contenção notáveis. Diz que controla a sua esquizofrenia com metáforas em vez de lítio. Mulher inteligente e com quem não se pode deixar de sentir uma imediata empatia.

No vídeo não se ouve António Lobo Antunes. Parece um pouco ausente e isso deixa-me um bocado inquieta. Mas talvez seja por alguma timidez.



***

Continuem a descer, por favor.


Ninguém sabia da mexida na fórmula das pensões? Passos, Poiares Maduro, Paulo Portas, Mota Guedes e outros não sabiam do briefing das Finanças? ... Irrelevante. Poeira. Manobre de diversão. Importante é que os cortes supostamente provisórios nas pensões passam a definitivos. Importante é a insegurança como modo de vida que este Governo impõe, importante é a pulhice desta gente que se está nas tintas para os cidadãos, em especial, para os mais velhos. Importante são as canalhices levadas a cabo com frieza e insensibilidade pelo Governo de Passos Coelho e Paulo Portas


No post a seguir a este falo da opinião do Nobel Stielglitz sobre a necessidade de se reestruturar a dívida pública portuguesa, falo da opinião de Rentes de Carvalho sobre a incoerência deste Governo de calcinhas (como lhes chama, e bem, Daniel Oliveira) ao sortear carros topo de gama entre uma população em que cerca de dois milhões de pessoas vivem no limiar da pobreza.

A seguir falo de António Saraiva que acaba de ganhar, com mérito, as eleições à presidência da CIP.

Mas, aqui, agora, falo da polémica do momento.

*


Com o primeiro-ministro em Maputo e a ministra das Finanças em Washington, Miguel Poiares Maduro, o ministro adjunto e responsável pela comunicação do Governo, não foi informado do encontro que quarta-feira decorreu nas Finanças com jornalistas de seis orgãos de comunicação social. "O Governo no seu todo foi surpreendido", confirmou ao Expresso fonte oficial.


e ainda:

José Leite Martins,
o Secretário de Estado da Administração Pública
de quem se diz ter estado na origem da bronca


Não sei se é bronca
ou se é apenas uma torpe manobra de diversão

seja o que for, tudo isto cheira mal de mais

E, a propósito:
porque é que são as Finanças
a tratar de matéria que é do foro da Segurança Social?

As notícias sobre os cortes permanentes nas pensões, que estão a ser estudados para entrarem em vigor no próximo ano, causaram embaraço dentro do Governo e na maioria. Passos Coelho foi o primeiro a reagir. A partir de Moçambique, o primeiro-ministro classificou como “especulação” as notícias que dão conta de um corte permanente nas pensões, tendo por base indicadores económicos e demográficos, e de caminho deixou, de forma indirecta, um recado ao Ministério das Finanças. Mais tarde foi o ministro da Presidência, Luís Marques Guedes, que, sem nunca desmentir a informação, repetiu que o Governo ainda não tomou uma decisão sobre as alternativas à Contribuição Extraordinária de Solidariedade (CES).


As reacções surgem depois de o PÚBLICO e outros órgãos de comunicação social terem avançado que o Governo pondera substituir a CES por um mecanismo permanente que permita ajustar o valor das pensões à evolução de vários indicadores económicos e demográficos. Na quarta-feira, num encontro informal com jornalistas, fonte oficial do Ministério das Finanças explicou que a reforma dos sistemas de pensões terá dois momentos. Numa primeira fase, o grupo de trabalho encarregue desta matéria está a efectuar várias simulações para definir as medidas que garantam “a redução na despesa no imediato” e que devem vigorar já no próximo ano. “O objectivo das reformas a aplicar no curto prazo é que não sejam apenas um corte, mas um ajustamento que tem de ter em conta a evolução do factor económico e demográfico e que possa estar indexado a um mix de indicadores”, acrescentou a mesma fonte. O trabalho final “mais de fundo” foi remetido para depois de 2015.


*

Passos Coelho e Paulo Portas
unidos na destruição de Portugal
Estou-me nas tintas para estas bagunças de gente intelectualmente indigente.

Mais do que descoordenação, do que uma incompetência desconcertante, o que esta gente mostra é que não apenas não percebe nada de coisa nenhuma como tem um desprezo pela população sobre quem balança permanentemente uma espada ameaçadora.

Mas se me estou nas tintas para esta gente, não me estou nas tintas para o clima de insegurança que esta gente gera na população, na pobreza que causa, na angústia que gera.


É gente má, perigosa. Detesto-os e temo-os. Quero ver-me livre deles. Nas eleições legislativas calhou-nos estas favas mas, caramba, não vai sendo altura de as cuspirmos para bem longe das nossas vidas?



*

Relembro: por aí abaixo há material para reflexão.


Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia, defende profunda reestruturação da Dívida Pública portuguesa. Interessante também é a opinião de J. Rentes de Carvalho sobre a ostentação bacoca do Governo-Topo-de-Gama-da-Austeridade que alicia os contribuintes com carros de luxo, cujos custos mensais, segundo o Expresso, ultrapassarão os 300 euros


Depois de, no post abaixo, ter falado da reeleição de António Saraiva à frente da CIP, agora falo de um outro assunto.


Transcrevo parte de um artigo do Expresso: Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia em 2001, defendeu hoje, em Macau, uma reestruturação "profunda" da dívida de Portugal e teceu duras críticas às políticas de austeridade impostas pela 'troika' na Europa.


Um crescimento que, em países europeus como Portugal, pode figurar como ilusão, segundo Joseph Stiglitz: "Quando falo com pessoas de governos de países como Espanha ou Portugal eles dizem: 'As coisas estão a melhorar. A crise acabou'. E, em certo sentido [estão]: Eles estavam a cair de um precipício e deixaram de cair e começaram a crescer".

Contudo, como sustentou o Nobel da Economia, "o crescimento é tão lento que, a este ritmo, nunca mais vão voltar à normalidade. Mas, mesmo se começassem a crescer rapidamente ia demorar anos e anos". "Penso que as políticas que têm sido impostas pela 'troika' são contrárias às políticas sustentáveis. São políticas que farão com que o crescimento seja mais difícil no futuro", defendeu. "O preço que estes países estão a pagar, particularmente os jovens, é enorme", defendeu o economista que, na intervenção que proferiu na abertura do MIECF, já tinha estabelecido um paralelismo entre a atual crise na Europa e a Grande Depressão.


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Permito-me, em contraponto, transcrever o post intitulado Topo de Gama do blogue Tempo Contado de J. Rentes de Carvalho:



Um governo digno, consciente dos seus deveres, respeita e educa os cidadãos, não os insulta nem alicia com brindes. É falta de vergonha tratá-los como débeis mentais, querer  agradar-lhes com lotarias, acenar-lhes com luxo quando a realidade em que o povo vive é a da miséria. 

Infelizmente, e para mal de todos, na nossa desgraçada pátria não o são apenas os carros do burlesco sorteio, topo de gama é também a bacoquice governamental.


Nem mais.


O Expresso fez as contas aos gastos com os carros que o Governo vai sortear e diz:

O Expresso pediu uma estimativa dos custos mensais de utilização dos modelos em causa (52 modelos A4 2.0 TDI 136cv e dois modelos A6 2.0 TDI 177cv, ambos com caixa manual, pintura metalizada e nível de equipamento base) à consultora 4Fleet, que representa a FleetData no mercado nacional e elabora análises de custos de utilização dos diferentes modelos à venda em Portugal.

Dentro da grelha habitual de análise da referida consultora (horizonte de 48 meses, 2.500 quilómetros percorridos em média por mês, manutenção/revisões, gasto de dois jogos completos de pneus e consumos de combustível segundo os valores do fabricante), chega-se a valores de 315 euros por mês para o Audi A4 e de 365 euros para o modelo superior. Estes valores incluem IVA e têm em conta o custo mensal do seguro obrigatório contra terceiros. Se em vez deste seguro básico o proprietário optar por um seguro contra todos os riscos, os encargos respetivos aumentarão pelo menos quatro vezes.


Há muitos contribuintes que, nos tempos que correm, possam dispor de verbas desta ordem para suportar um carro? De quem foi esta estúpida ideia? Que gente parva, inconsciente, irresponsável, insensível, desprezível é esta, senhores?!

A Caritas alerta para a alimentação cada vez mais deficiente de grande parte da população, todas as estatísticas apontam para um empobrecimento assustador, e esta gentinha descerebrada - ao mesmo tempo que continua com a conversa parola e desinformada de que antes vivíamos acima das nossa possibilidades -vai sortear carros topo de gama? E ninguém consegue pôr cobro a estes atentados à inteligência de um povo?


quinta-feira, março 27, 2014

António Saraiva foi reeleito presidente da CIP com 81% dos votos - e esta é a vigorosa resposta aos três 'patrões do antigamente' que tentaram acabar com António Saraiva, esse homem corajoso, na sequência da sua assinatura do Manifesto a favor da Reestruturação da Dívida



Devo dizer que fico contente com a resposta que os patrões deram, votando em força em António Saraiva, esse homem corajoso, moderado e progressista.

Transcrevo: "Esta é a melhor resposta que podia dar às acusações de que existia uma divisão interna", disse António Saraiva ao Expresso. A larga maioria de votos e de votantes é, segundo o líder da CIP, "prova da coesão" e serve de resposta às críticas feitas por três antigos dirigentes da organização, segundo os quais o facto de Saraiva ter subscrito o manifesto dos 70 comprometia a "memória histórica" da CIP.


Diz também António Saraiva que tem como objectivo para o próximo triénio a união do movimento associativo patronal e a promoção do crescimento económico, apesar das previsíveis dificuldades, contribuindo com propostas de medidas para a reforma do país.


Desejo-lhe sucesso neste seu novo mandato. Bem o merece, bem merece ser apoiado e estimado.

Otelo Saraiva de Carvalho está pronto para outra revolução. Nisto, como nas mulheres, Otelo parece gostar delas aos pares (deve ser quase como o marialva da Porta dos Fundos que pede autorização prévia à mulher para 'transar' com a Xuxa).


No post abaixo já vos falei das saudades que já sinto do Mário Crespo a quem a SIC Notícias não renovou o contrato, agora que ele meteu os papéis para a reforma.

[Quem me diria a mim que iria, um dia, dizer isto? Ele há coisas...]

 Mas, enfim, isso é a seguir.

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Que entrem os Filhos da Nação



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Agora, aqui, falo de outro ganda maluco: Otelo Saraiva de Carvalho. Quando lhe cheira a reviralho, sente logo o pezinho a pular-lhe para a paródia. Quando era puto pequeno ou adolescente, volta e meia devia andar metido em confusões, na pancadaria - vê-se que não é homem de virar as costas a uma bela briga. Toda a sua intervenção no 25 de Abril e no que se lhe seguiu revela o lado lúdico da coisa. Cá para mim, o que ele gostava mesmo era de aventura, coboiada.

E não lhe passa. Mantém, aparentemente intacta, a capacidade de ferver em pouca água e de, à primeira, ter vontade de mandar avançar as tropas.


Otelo Saraiva de Carvalho considera que a recuperação do Movimento das Forças Armadas (MFA) pode ser positiva, para travar «outras guerras» que não a colonial, e mostra-se disponível a participar numa «mudança de regime que valha a pena».


O agora coronel na reforma gostava de «participar numa qualquer mudança efectiva do país» e até já propôs a reconstituição do MFA.


Havia de ter graça. Mas uma coisa vos digo: este governo anda a cutucar a onça com vara curta. Agora anda a mexer no fundo de pensões dos militares, coisa que anda a chatear à brava aquele pessoal.

Imagino o formigueiro que tudo isto anda a provocar em Otelo. Não é por ter feito uma revolução que vai dar-se por satisfeito. O que é isso para um bígamo assumido? Nada.

Já agora, sobre a sua extraordinária arte em conciliar a vida conjugal com duas mulheres, relembro:

Otelo e as suas duas mulheres - uma família feliz

Na obra ‘Otelo, o Revolucionário’, assinada pelo jornalista Paulo Moura, a importante figura militar do PREC assume que tem duas mulheres na sua vida: Dina, com quem casou em 1960 e da qual tem dois filhos, e Filomena, que conheceu em 1984 quando esteve detido em Caxias, onde ela era funcionária. Da segunda mulher adoptou uma filha. Com Dina vive de segunda a quinta-feira e com Filomena de sexta-feira a Domingo, revela a Visão.


A revista cita mesmo uma passagem do livro em que o jornalista revela a faceta transgressora de Otelo no amor: «Sente-se bem em família. Tanto, que tem duas. Casou cedo, com uma colega de liceu. Mais tarde, na prisão, teve outro amor. Não foi capaz de abandonar a primeira mulher, nem a segunda. (…) Otelo assume as suas duas mulheres. Aparece em público com elas, não mente a nenhuma, trata-as por igual».


E, portanto, é caso para levar a sério a sua conversa de uma segunda revolução. Já provou que é homem para isso e para muito mais. A Dina e a Mena que o digam.


E, já agora, um mau conselho às bem e mal casadas: nada como haver compreensão e mente aberta (e, os limites para cada coisa, cada casal que os estabeleça). Que o diga o casal da Porta dos Fundos em que o marido, no supermercado, deu de caras com a Xuxa e, imagine-se, logo ali rolou um climinha. Contudo, antes de passar aos actos, foi a casa avisar a mulher do que se ia seguir. Ela primeiro ficou incomodada mas, logo a seguir, pensando na hipótese George Clooney para si própria, deu permissão ao maridão. Desde que ele, na volta, trouxesse do supermercado uma coisa que estava a fazer falta.


Xuxuxu Xáxáxá - na Porta dos Fundos





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Os Filhos da Nação, lá em cima, vieram pela mão dos Quinta do Bill.

Relembro que, sobre o Mário Crespo e a sua emocionada despedida, é descer, por favor, até ao post seguinte.


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A noite passada dormi mal. Acordei a meio da noite cheia de calor (o meu marido é friorento e eu encalorada - já vêem o tratado de tordesilhas que temos que traçar na cama; só que nem sempre funciona; aliás, raramente funciona) e depois comecei a pensar na reunião que tinha de manhã. Acho que só voltei a pegar no sono pouco antes de readormecer. Depois, tive mais um dia do caraças e só cheguei a casa por volta das 9 da noite. Amanhã é outra vez non stop, nem sei se vou chegar viva ao fim do dia. Mas tenho que chegar porque na sexta feira a cegada continua. Por isso, agora estou a escrever e já a cabecear (literalmente). Assim sendo, vou pegar num livro dos novos e vou já andando para a caminha. Não devo passar da primeira linha mas isso é pormenor.

(E se, meus Caros Leitores, detectarem gralhas, omissões, vírgulas fora do sítio e etc, queiram, por favor, relevar, está bem?)

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta feira!

Mário Crespo reforma-se e a SIC não renova o contrato com ele - ouvi a despedida e fiquei com pena. Logo agora que eu estava a ficar fã dele, é que ele se vai embora...? Quem é que agora vai fazer oposição a sério ao gang encabeçado por Passos & Portas....? Convido-vos a verem o vídeo com a emocionada despedida de Mário Crespo e, também, uma entrevista de Mário Crespo a António Lobo Antunes.


Andava eu agora sempre a ver quem é que o Crespo levava para se desbocar contra o Governo, já um bocado cansada da Constança que fala a uma velocidade estonteante e, portanto, a virar para a SIC Notícias e a ficar surpreendida com a assertividade e acutilância do Crespo, e eis que hoje sou surpreendida com as despedidas emocionadas que entendeu por bem fazer em directo, evocando os primórdios da sua profissão e alguns entrevistados que o marcaram.

Não se faz.





Não era antes pessoa que me cativasse mas a verdade é que se tornou uma bandeira contra este governo desgraçado. Estava a tornar-se um must.


SIC não renova contrato com SIC

Li agora que Mário Crespo, tendo atingido os 66 anos (pensei que fosse mais novo - está bem conservado!), tinha metido os papéis para a reforma e que, na sequência disso, a SIC N não renovou o contrato.


Pode ser que alguma outra televisão o contrate.

Entretanto, porque António Lobo Antunes foi um dos convidados que ficará na memória de Mário Crespo (referiu-o na despedida como um dos que gostaria de voltar a entrevistar) - e porque eu própria gosto de ver o escritor-psiquiatra a falar, blasé, nonchalant - aqui vos deixo com uma das entrevistas que este lhe fez no final do ano passado.


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António Lobo Antunes no Jornal das 9 SIC Notícias com Mário Crespo



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quarta-feira, março 26, 2014

Crónica dos dias desgastantes de uma mulher que não tem diamantes nas solas dos sapatos. E, apesar de não vir a propósito, aqui deixo exercício físico recomendado para machões


Música, por favor, que a esta hora isto já só lá vai com música e da animada. 

Diamonds On The Soles Of Her Shoes




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Vou já dizendo: não é que eu ache elegante ou sexy dizer que ando cansada ou com sono. Não acho. Aliás, para dizer a verdade, não acho isso nem o contrário. Mas é um facto: estou mesmo cansada. Felizmente esta pancada só me dá a esta hora da noite e, portanto, não há testemunhas para além de vós, meus Caros. Melhor: ter testemunhas até tenho, tenho uma, mas essa já não estranha nada em mim (embora bem tente chamar-me à razão, que deixe isto, que vá dormir cedo, que descanse, etc).

A questão é que tenho tido uns dias do além. Dias? Semanas! Nem dá para acreditar. Uma canseira permanente, reuniões desgastantes, duras, complicadas, umas atrás de outras, e gente que me aparece pela frente e que não devia aparecer, só me atazanam o juízo, e, parece que é de propósito: as coisas não são no mesmo sítio, e aí ando eu a atravessar Lisboa.

E hoje as operações stop que vi... Nem sei o que era aquilo, se era caça ao excesso de velocidade, se era outra coisa qualquer.

Felizmente não me mandaram parar, nunca atino com os documentos, tiro papéis do tablier, reviro a carteira, nunca me aparece o que é suposto, os polícias já com ar desconfiado e eu a ficar ainda mais enervada, parece que fico com medo que me prendam, nem sei, que me exijam milhares de euros de multa. No fim, lá consigo reunir os documentos mas, ó sorte macaca, quando me afasto até vou a tremer. O que vale é que ao fim de cinco minutos já me passou. Mas não, hoje não me mandaram parar. A 50 km à hora e a ter que estar a horas aqui e ali, é um stress. Quando eu comecei a trabalhar, os directores e administradores tinham motorista. Onde é que isso já vai. Era um disparate mas poupava a vida aos que podiam andar de cuzinho tremido, sem terem que se ralar com o trânsito ou com estacionamento.

Para mim o pior de tudo é mesmo a porcaria do estacionamento em parques apertados, em que os sensores do carro apitam para a frente, para trás, para os lados. Tudo à justa e em que qualquer falta de atenção dá cabo do carro. Odeio. Estes edifícios novos, para rentabilizarem o espaço, só não desenham os lugares de estacionamento ainda mais à justa, de preferência para os carros ficarem ao colo uns dos outros, porque não descobriram forma de o fazer sem se esborrachar o de baixo.

Vale-me, nas minhas viagens, a Antena 2 ou a Smooth FM. Às vezes quase consigo abstrair-me da dureza de onde saí ou para onde vou e quase parece que ando a passear. 

Hoje regressei ao escritório já eram seis da tarde e, quando pensava que ia poder responder aos mails, sossegada, e despachar umas coisas, qual quê? Gente a aparecer-me no gabinete, telefonemas, e eu a querer despachar-me; mas como...?

Palavra que isto não está fácil.

E amanhã a cena continua, começo o dia logo com uma que eu, se fosse atilada, estava aqui a pensar como conduzir aquele lindo molho de brócolos (mas não tenho paciência, será de improviso) e até ao final da semana continuo no mesmo ritmo. O que me vale é que a experiência já me leva a que um briefing de poucos minutos me dá para ir para as reuniões como se me tivesse preparado durante um mês. Não consigo tempo para grandes preparativos (e já nem tenho pachorra para isso, diga-se em abono da verdade).

Ai, minha mãezinha.

Bem queria ter tempo para responder aos mails dos meus Leitores... há umas duas semanas que não consigo responder a um único e se tenho alguns que requerem resposta atenta. Há um, então, que me está aqui atravessado, queria ter tido logo tempo para responder. Peço desculpa. A ver se um destes dias consigo tempo. Não gosto de responder à pressa, chapa 4. Não, gosto de o fazer com cuidado e atenção, como se estivesse a tomar um chá com um amigo.

E é isto. Vinha, já tarde, a caminho de casa e a pensar que talvez hoje escolhesse uns trechos de alguns dos livros, que talvez usasse parte da entrevista a Dulce Maria Cardoso ou a Teolinda Gersão (Jornal de Letras); mas não consegui energias para me pôr aqui a fazer cópias, os olhos a quererem fechar-se.

Aliás, o que eu devia ter feito, quando cheguei a casa, era ter enchido a banheira, meter-me lá dentro, ligar a hidromassagem. Mas nunca ligo, aquilo faz barulho como um paquete em alto mar. E não tenho paciência para estar à espera que a banheira encha.

Bem.

A esta hora, cansada como estou, isto já não dá para mais nada.

Tenho estado a ouvir a televisão enquanto escrevo e nada me inspira: as trapalhices habituais do lado do PSD, cortes e contra-cortes e o Montenegro a ver se disfarça, uma gente desqualificada. Não tenho paciência para gente assim. Do Portas nem se ouve falar - por onde andará ele? Que era vice e mais não sei o quê e, afinal, não se dá por ele. O Mário Soares escreveu que ou ele anda sossegadinho ou o Passos dá cabo dele e as cenas dos submarinos e outras vêm para a ribalta. Talvez seja isso. A minha mãe no outro dia saíu-se com uma boa a propósito do vice-Portas- mas não dá para contar aqui, são coisas ditas em família.

Também li há pouco que aqueles sacanas do Zoo de Copenhaga, os que tinham abatido a girafa Marius, agora abateram quatro leões saudáveis. Dizem que foi para bem deles. Filhos da mãe. 


Parece que meio mundo anda a passar-se da cabeça, bolas para isto.

Enfim.

Pode ser que amanhã consiga chegar a casa a horas mais decentes e tenha mais cabeça para escrever alguma coisa que se aproveite.

Hoje fico-me por aqui.

Mas antes, para não darem a visita por perdida (e nada de pensamentos ambíguos: isto não vem a propósito de nada do que acima escrevi), aqui vos deixo um vídeo onde alguns dos meus Leitores poderão aprender uma lenga-lenga para dizerem enquanto fazem exercício. Caso achem apropriado, também poderão encaminhar para alguns amigos e conhecidos, deputados, ministros, cabeleireiros, assessores do governo, etc.


Exercício na Porta dos Fundos




O que esta gente me faz rir!


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Muito gostaria ainda de vos convidar a visitarem o meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, onde hoje tenho uma conversa sobre bobos que até mete Chagall, imagine-se. É Clarice Lispector no seu melhor. Uma graça.

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As imagens mostram fotografias de moda para mulheres executivas. A mulher das pernas compridas é Karlie Kloss fotografada para a Vogue UK. A outra, em cuja forma de se vestir me revejo, mostra a moda de Elie Tahari. A última imagem mostra Kate Moss fotografada por Tim Walker no Hôtel Ritz Paris.

Paul Simon interpreta Diamonds On The Soles Of Her Shoes


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E, assim sendo, por aqui me fico por agora.

Tenham, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira que eu tentarei que a minha também o seja.


terça-feira, março 25, 2014

Teolinda Gersão, João Bigotte Chorão, Dulce Maria Cardoso e outros (fazedores de livros que tão boa companhia me fazem) e Sylvie Guillem, la Mademoiselle Non - 'Force Of Nature'. Ou um corpo que é a arte ao dispor da mulher que o possui. Ou uma bailarina e uma mulher admirável. [Luís Filipe Castro Mendes junta-se a nós e faz ele muito bem.]


Nos dois posts abaixo falo do ataque cerrado e traiçoeiro quee José Rodrigues dos Santos fez a José Sócrates durante o seu espaço usual de comentário semanal na RTP 1. Foi deselegante e não foi jornalismo o que ele fez, foi uma entrevista à má fila. Mas, ainda que involuntariamente, acabou por fazer um favor a Sócrates pois deu-lhe a oportunidade perfeita para que este pudesse defender-se de todos os ataques (grande parte injustos e irracionais) que lhe fazem.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Muito diferente.

*

Apetece-me falar de coisas de um outro mundo. Tenho aqui um post quase feito, que ontem tinha começado a escrever e que interrompi por causa do que acima referi, mas agora estou na dúvida. Apetece-me, antes, falar de livros.

Não sou dada a medos mas há alguns que tenho. De alguns não quero nem falar, tenho medo de atrair. De coisas más quero distância. Mas falo de um deles pois refere-se a algo de que já aqui falei mil vezes: tenho pavor a que alguma desgraça me aconteça e que me impeça de poder comprar livros.
Por vezes, sabendo da dificuldade em que vive grande parte das pessoas do meu país (ainda esta segunda feira se soube que uma em cada cinco pessoas vive no limiar da pobreza), tenho até vergonha de aqui confessar a facilidade com que compro livros.
Os livros hoje são um luxo. Cada livro custa cerca de 15 euros, senão mais. Comprar quatro ou cinco livros significa gastar entre 60 a 70 euros. Poderei então confessar aqui que comprei mais uns quantos? Não estarei a ser ostensiva perante quem tanto gostaria de poder comprar um ou dois e não tem como?
Se o for, peço que me desculpem.
Mas, apesar de agora não ter tempo para ler tudo o que tenho, assalta-me frequentemente este medo: e se, um dia, quiser ler um livro e não tiver dinheiro para o comprar? Se me faltarem os livros para ler? Sei que é um receio absurdo (acho que tenho livros para ler enquanto viver, mesmo que viva até aos 200 anos como conto viver) mas tenho este medo. Então tenho vontade de os ir amealhando para o caso de um dia precisar.

Ainda hoje. A minha mãe faz anos e eu já tinha comprado o último livro da Rita Ferro para lhe dar e tencionava que fosse o complemento de uma qualquer outra coisa. Contudo, disse-me que não quer mais nada, só livros. Quase me implora que não lhe ofereça mais écharpes, mais molduras, mais roupa, mais colares, que não precisa, que não quer, que já lhe falta espaço para guardar essas coisas. Só livros. Lá fui, então, à FNAC. Ia para comprar livros só para ela e na minha cabeça convencia-me a não olhar para nada que a ela não interessasse, ia mesmo decidida a não me deixar cair em tentação.

Mas qual quê...? Para além dos que comprei para ela, trouxe mais uma braçada deles para mim. Sempre a mesma coisa.

E agora aqui estou toda contente, espreitando-os, lendo aqui e ali, passando a mão pela capa, sentindo-lhes o cheiro.

Mostro-vos, então, os que comprei para mim.

Juntei na fotografia dois brasileiros (assinalados com *) que já aqui tinha mas que acho que não vos tinha mostrado ainda.


  • A noite roda de Alexandra Lucas Coelho - da Tinta da China
  • Tudo são histórias de amor de Dulce Maria Cardoso - da Tinta da China
  • Além da literatura de João Bigotte Chorão (que dedica o livro, que tem uma bela capa, a Maria José, sua mulher, e ao Pedro, o filho Pedro Mexia)  - da Quetzal
  • Resumo, a poesia em 2013 - da Documenta
  • * A cidade ilhada de Milton Hatoum - da Livros Cotovia
  • * Malagueta, Perus e Bacanaço de João Antônio - da Livros Cotovia
  • A Porta para a Liberdade de Pedro Prostes da Fonseca - da Matéria Prima
  • Passagens de Teolinda Gersão - da Sextante Editora


(fotografei-os em cima de um maple, com uma écharpe de cada lado - tento sempre encontrar uma forma bonita de os mostrar mas, com as pressas, acaba por ser vira o disco e toca o mesmo). 


A ver se um dia destes se proporciona ocasião para transcrever um pouco de cada para que vos possa dar ideia do que é. Do que já espreitei, estou desejando ler o livro de João Bigotte Chorão. Livros sobre livros ou escritores ou sobre as circunstâncias que envolvem a literatura atraem-me muito: é a decantação mais pura da vida.

Mas hoje, dado o adiantado da hora (e dado que amanhã me espera uma daquelas que requereria que eu antes estivesse uma semana num spa a ganhar forças para o embate que se adivinha), vou então completar o post sobre uma mulher pássaro.

*

Como forma de me abstrair de tudo o que é mediano ou medíocre, penso noutras coisas - no cheiro da maresia nestas noites junto ao rio, em que caminho cheia de frio; no voo livre das gaivotas que atravessam o Tejo; na sabedoria tranquila dos gatos indiferentes perante a beleza imensa de Lisboa. E imagino-me a voar ou a dançar.

Volta e meia penso que seria bom se pudesse elevar-me como a Sylvie Guillem. Tivesse eu pernas assim e braços longos como asas e, com a minha alma de pássaro livre que é irmã gémea da dela, voaria para bem alto, bem, bem alto.



Deixa que a escuridão se instale completamente sobre a terra
e acende só então o pequeno candeeiro
para que a tua sombra encontre a noite do mundo.



  Esperanças de um maior contentamento
na areia dos dias que se espraiam
Sylvie Guillem tem agora 49 anos. Na altura do documentário que abaixo vos mostro, tinha 48 e um corpo extraordinário: leve, flexível, voador. 

O seu sentido artístico é notável. 

E tem fibra, uma personalidade forte.

E é uma mulher comprometida com a realidade que a rodeia, sendo também uma convicta ambientalista.

Se estou a fazer o que os outros querem, estarei a viver a vida deles e não a minha, diz Sylvie.

De vez em quando volto a Sylvie como se fosse uma amiga da qual tenho saudades.

Gosto de a ver a dançar, gosto de a ver a ensaiar ou, simplesmente, a falar. Gosto de saber o que anda ela a fazer. 

Contra a mediania que tudo transforma em nulidade, as televisões inundadas de lixo, os jornais quase só divulgando banalidades ou ruínas, as pessoas desfiando ódios imaturos e irracionais, abençoada internet que traz até mim imagens que me levam a voar.

Vamos Sylvie, vamos voar, vamos conversar.








*

O primeiro poema é  '1. Incipit' - de 'Glosas à Esperança'. 

O segundo poema é 'A noite do mundo'.


Ambos fazem parte do fantástico 'A Misericórdia dos Mercados' de Luís Filipe Castro Mendes


*

Relembro: abaixo poderão ver um post escrito como reacção aos vibrantes comentários de alguns Leitores a quem muito agradeço e que escreveram, encalorados, acerca de Sócrates e Rodrigues dos Santos. Que este seja um espaço de partilha de opiniões é algo que me traz alegria. 


*

E, assim sendo, por aqui me fico por agora. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira. 
Be happy!


José Rodrigues dos Santos no espaço de "opinião de José Sócrates", ou quando o moderador resolveu armar-se em protagonista (não em jornalista) no espaço destinado ao convidado: esclarecimento junto de alguns dos Leitores do Um Jeito Manso que comentaram o post abaixo e que, ao que me parece, não o compreenderam.


Tem graça isto. Sócrates divide as águas, disso não haja dúvidas. Ontem escrevi um texto sobre o que se passou na RTP (o ataque à má fila que José Rodrigues dos Santos lhe desferiu), e as visitas ao UJM não param e os comentários agitam-se.





Os ânimos exaltam-se de cada vez que o tema Sócrates vem à baila e há pessoas que perdem a tramontana. Odeiam o homem e, muito sinceramente, não percebo porquê. Não sei o que tem ele que esfrangalha tão facilmente a racionalidade de alguns (a menos que a dita racionalidade já seja, de si, escassa).

Tenho a dizer-vos, meus Caros, que não sou das áreas da metafísica, do jornalismo, ou de outras áreas dadas à efabulação. Não. A minha formação académica anda pelas áreas das ciências exactas e toda a minha (longa) vida profissional gira à volta de áreas exactas, números, resultados, gestão. 

Pelos frutos os conhecemos, disse o apóstolo e por isso me guio. Mas não analiso resultados independentemente do contexto. Invoco de novo a minha formação (académica e pós-académica) e toda a minha (longa) vida profissional para vos dizer que sei bem identificar as variáveis, as restrições, as relações de contexto, as tendências, as causas e as consequências, etc, etc.

Olho para as peças que mostram o desempenho de uma organização e interpreto-as e interpreto-as não em ambiente asséptico mas inseridas no contexto. E analiso-as com racionalidade, não com emoção, muito menos com paixão.

Tenho também experiência em negociação. Digo-vos: não é qualquer um que consegue dar-me a volta. Diz de mim quem me conhece bem: como adversária ela é temível.

Por isso, quando defendo Sócrates não o faço por paixão, por pancada, por pulsão irracional. Não. Louvo-o no que acho que é de louvar, critico-o quando é de criticar. Várias vezes o fiz durante a sua governação. Por exemplo, quando aumentou os ordenados dos funcionários públicos em 2009, muito o critiquei. Não havia, na altura, razões nem condições para o fazer. Também, quando aceitou cumprir cegamente alguns regulamentos europeus (made in Alemanha) nas obras do Parque Escolar, critiquei-o. Não o critiquei por melhorar as escolas, por gerar emprego local e não só, não o critiquei por apoiar a arquitectura nacional, a engenharia nacional, as empresas locais, etc. Critiquei-o, sim, por, obedecendo a regulamentos europeus, ter aceitado importar equipamento térmico inadequado para o País, fazendo o frete aos alemães - coisa de pormenor, no entanto, face à dimensão dos aspectos positivos. 

Mas elogiei-o quando o vi (e vi mesmo - read my lips) a apoiar a reindustrialização do País, quando o vi a puxar pelo ensino e pela investigação, quando o vi a tentar vender os produtos do país por esse mundo fora, quando o vi, in extremis, a lutar por uma economia que ameaçava parar. Cada um dos processos não terá sido isento de erros. Mas isenção de erros é coisa que não existe em lado nenhum. Há é que fazer o balanço e identificar a linha de rumo e, não tenho dúvidas, caminhava-se, então, no bom sentido.

Analiso os resultados da governação Sócrates e separo os exercícios, não observando da mesma maneira o período 2005-2008 e o seguinte, em que estava em minoria, dependente da aprovação de uma maioria hostil, e pior, com o País a sofrer as vicissitudes de um mundo ocidental em crise e de uma UE a mandar, primeiro, avançar uma política expansionista (como forma de evitar a retracção decorrente da crise financeira internacional) e, logo a seguir, a mandar retroceder a todo o vapor.

Sei distinguir as boas decisões e as menos boas, fruto de algum voluntarismo inflaccionado por se sentir acossado face a uma maioria hostil.

Sócrates é um lutador e quer o bem do País. Sócrates ama Portugal e os Portugueses e disso eu não tenho dúvidas. Sócrates quer que Portugal seja um País desenvolvido, com gente instruída, capaz de encarar o futuro com orgulho. Disso não tenho dúvida. E nisso estou do seu lado.

Sei também que Sócrates, sabendo que a economia flui em função da confiança, lutou até ao último pingo das suas forças para escamotear o estado periclitante em que a crise internacional e a maioria hostil estavam a deixar o País - pois sabia que, quando baqueasse, os mercados fariam ajoelhar o País e que uma intervenção externa seria inevitável. Contra isso lutou até ao limite do razoável. Não considero que escamotear a situação do País para tentar evitar o que já se adivinhava como irremediável seja uma mentira mas sim uma forma (extrema) de lutar.

Acho que Sócrates, se não estivesse em minoria (com um Parlamento cheio de hienas ansiosas por avançar para a carniça - e refiro-me a um Passos Coelho impreparado e perigoso, a um Portas, ambicioso e bailarino e que, curiosamente, contavam com o apoio de um Louçã a querer afirmar o BE e de um Jerónimo sempre do contra), teria lutado de outra forma e Portugal não estaria como está hoje. 

Uma vez que tinha o apoio da UE e da própria Merkel, teria conseguido aguentar a pressão dos abutres até que a Europa e o BCE erguessem o escudo protector.

Mas, quando ganhou as segundas eleições sem a maioria absoluta, cometeu um erro, Sócrates. Aceitou formar governo sozinho. Deveria saber que Cavaco não é flor que se cheire e deveria ter percebido que hienas como Passos Coelho e Portas não tardariam a atirar-se ao pescoço do País.

E isto é o que eu penso de Sócrates e do período em que foi Primeiro-Ministro.

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Quanto ao que José Rodrigues dos Santos fez ontem na RTP, volto a dizer que acho que foi deselegante, mal educado, inconveniente. Repito: aquilo é um espaço destinado à opinião de Sócrates. A que propósito desatou a fazer-lhe uma entrevista relativa ao passado?





Aqui há algum tempo, fui convidada para ir dar uma aula livre mas sobre um determinado tema a uma universidade.

Quem me convidou acompanhou-me ao anfiteatro, apresentou-me e deu-me a palavra. No final, deixei espaço para perguntas e respostas e a pessoa que me tinha convidado, para desbloquear a normal inibição, colocou-me a primeira pergunta. Imagine-se se essa pessoa, ao invés, ao apanhar-me ali no palco, perante um anfiteatro pejado de alunos e de alguns professores, resolvia começar a fazer-me perguntas a ver se me apanhava em falso, ali à frente daquela gente que se tinha juntado para ouvir a minha opinião sobre um determinado tema. 

Era só o que me faltava. Eu aceder a ir ali e, sem mais nem ontem, quando dava por mim estava a ser interrogada por alguém que parecia querer ver-me ali estendida ao comprido. Das duas uma: ou perguntava a essa pessoa se estava com os copos ou se estava a gozar comigo. E, se a pessoa persistisse, levantava-me e ia-me embora. Claro.

Uma coisa bem diferente seria se me tivessem convidado para ser entrevistada sobre um determinado tema. Se aceitasse, sabia ao que ia, sabia que, quem vai à guerra, dá e leva, sabia ao que me estava a sujeitar.

Se José Rodrigues dos Santos queria fazer uma entrevista sobre a governação de José Sócrates deveria convidá-lo para isso - e estou certa que Sócrates ia de boa vontade. Não o apanhava à má fila, como fez neste domingo.


Rodrigues dos Santos não fez jornalismo, não deve ter sido isto que aprendeu na BBC, não foi acutilante, não foi a Oriana Fallacci dos pobrezinhos: foi simplesmente despropositado e malcriado. Quis o protagonismo para si como, de resto, sempre quer.





Mas volto a dizer: em boa hora o fez. Sócrates não se irritou, não se desnorteou. Manteve a calma, manteve a cabeça no lugar, respondeu a tudo e respondeu bem. José Rodrigues dos Santos, de facto, deu a oportunidade de que Sócrates gosta para o combate político, para afirmar as suas convicções.


Espero agora ter sido mais clara para que os Leitores não venham tresler o que eu escrevi, tirando conclusões de pernas para o ar.

Mas, meus Caros, caso queiram, contem comigo para isto. Não viro costas a uma boa divergência. 


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NB: A quem aterrou agora aqui, lembro que, descendo um pouco mais, encontrará o texto da polémica, o que ontem escrevi e que já recebeu (até à hora em que escrevo) para cima de 2.700 visitas.