Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, julho 31, 2013

A insegurança das mulheres sozinhas


No post abaixo já me fiz eco da perfídia que levou Vítor Gaspar, na saída, a dar um tiro de misericórdia na sustentabilidade do sistema que assegura o pagamento das pensões. Penso que é um caso que deve ser conhecido e que deve merecer a firme manifestação da nossa rejeição. Velhaquices destas não devem passar despercebidas.

Mas isso é no post abaixo

Aqui, porque me apetece acabar o dia com um tema diferente, a conversa é outra.

Trata-se de um pequeno apontamento. Será do verão, do calor que regressa, não me interessa: quero dizer isto e não vejo porque não fazê-lo.

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Vou falar sobre mulheres que vivem sozinhas. Não é a primeira vez e talvez não seja a última. 
Solteiras, divorciadas, viúvas, tanto faz.


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Música, por favor - e podem rir-se à vontade, não apenas pelo tema escrito como pelo tema musical.

Soa lamechas? Quero lá saber. Foi a música que me ocorreu quando me ocorreu falar disto.

Beautiful girl 



(interpretação a cargo de Paulo Ricardo)




Nem todas as mulheres sozinhas serão iguais. Aliás não o são seguramente. Há as que estão a fazer o luto, luto pela perda, seja que tipo de perda for. Há as que estão a dar um tempo, a desfrutar da liberdade enquanto não caem noutra. E há as que andam a tentar deixar de o ser e que o tentam activamente. Há locais em que se vêem facilmente mulheres que estão à caça. Não disfarçam, são ousadas. No entanto, se me permitem a opinião, até acho que são frequentemente as mulheres casadas que mais ousam, que mais evidentemente mostram que estão disponíveis para uma pulada de cerca ou para um flirtzito inofensivo. 

As mulheres acompanhadas, especialmente as bem acompanhadas, são frequentemente mulheres seguras - e a segurança, na sedução como em tudo o resto, é uma arma geralmente infalível.


Ora segurança é o que, em regra, falta às mulheres sozinhas. E aqui falo essencialmente das que estão sozinhas, seja por que motivo for, mas gostariam de o não estar. A segurança vem não apenas da consciência de si própria, do que se vê quando se olha ao espelho (em sentido literal e figurado), mas também do que os outros nos transmitem. Se eu tiver um companheiro que me aprecia, que me acha bonita, ou que gosta da minha malandrice, que me acha uma boa companhia, que acha graça à minha conversa, que gosta de me ver com um certo vestido, etc, já me sinto mais tranquila, já penso que, se aquele pensa assim, talvez outros o achem também.

Ora uma mulher sozinha não tem, geralmente, essa opinião que lhe dê segurança. Pelo contrário, teme que os outros a achem um caso perdido, um falhanço, uma mulherzinha complicada ou azarada, alguém que carrega sombras. E, já com esse receio em cima, essa mulher que, noutras circunstâncias, pisaria a calçada como uma vencedora, vai parecer um passarinho perdido.

Dou um exemplo recente.

A semana passada tive que ir a uma farmácia. Estou de férias e além disso sou naturalmente descontraída. Vesti uma roupa simples, apanhei o cabelo, e lá fui à cidade. Lá chegada, o meu marido ficou no carro. Não me vi ao espelho ao entrar na farmácia mas devo ter entrado na maior descontração. Ora, ao mesmo tempo que eu, entrou uma outra mulher que era o meu oposto. Não apenas fisicamente mas toda ela. Morena, cabelo bem penteado, um bonito vestido num padrão discreto em tons de azul escuro, carteira carmim, sapatos abertos de salto alto igualmente em carmim, não reparei nas unhas mas imagino que estariam pintadas da mesma cor. Bonita, elegante. E, no entanto, parecia um passarinho perdido. Parecia pisar o chão como se receasse fazer alguma coisa mal feita, olhou em volta como que para ter a certeza que não tirava a vez a ninguém, toda ela insegurança. Claro que me posso ter enganado mas pareceu-me logo tratar-se de uma mulher sozinha. Se algum homem a tivesse olhado mais demoradamente, certamente ter-se-ia sentido inibida, com medo que estivessem a olhar para algum defeito no vestido, alguma coisa no cabelo.

Quando a chamaram para ser atendida, lá foi, mas quase parecia que não pisava o chão, como que receosa. E eu pensei: mas porquê tanta insegurança?

Essa insegurança, esses receios, são o principal óbice à disponibilidade para descobrir a companhia certa. Uma pessoa com inibições, medos, inseguranças, é geralmente uma pessoa que se fecha aos outros, desconfiada, um coração que se fecha, uma pessoa que mascara a solidão com pretextos, com ilusões, com agasturas e angústias.

Claro que a ter a atitude contrária não vem por decreto nem se aprende facilmente. Mas perceber isto é meio caminho andado para a disponibilidade para a partilha, e a partilha é meio caminho andado para um encontro feliz. Não sei se a ordem dos factores é esta, nem sei se os termos que usei são os mais ajustados. (É muito tarde, estou com sono e com pressa para me ir deitar a ver se descanso alguma coisa. Mas a ideia é esta, mais coisa, menos coisa).

Se você que me lê, Leitora, é um destes passarinhos inseguros, sempre com receio de não ser aprovada, com medo que censurem, que falem, que não gostem, etc, tente não ser assim. Sinta-se bem consigo própria, sinta-se gira, apetecível, sinta-se conquistadora, sinta-se uma mulher de corpo inteiro. E marimbe-se para o resto.


Se eu tivesse entrado naquela farmácia vestida daquela maneira, sentir-me-ia vestida para matar. Ou melhor dressed to impress. Ora não...! Nem era por nada: é que, simplesmente, seria um desperdício estar ali assim, toda giraça, e apresentar-me com ar de passarinho amedrontado.

Por isso, seja ou não uma estampa, minha Cara Leitora, sinta-se uma beautiful girl. Pise a calçada com segurança, olhe de frente, não tenha medo, vá em frente se for caso disso (porque, se verificar que não é caso disso, pode sempre recuar). Apeteça-lhe ser feliz.


[Nota para quem esteja geralmente de pé atrás: o uso do imperativo, aqui, não é - obviamente! - uma ordem: é um conselho, uma sugestão. Relax, be cool...]




Kate Moss, capa da Esquire Set/2013, fotografada por Craig McDean


Uma mulher muito pouco insegura



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Bom. Eu sei que este foi um tema muito estival mas estamos no estio, que hei-de eu fazer? No entanto, para temas mais sérios, é descer até ao post seguinte. E se ele é sério...!

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira.
E boas conquistas!

Este governo faz coisas perigosas, muito perigosas mesmo. Tenham medo deste governo. A título de exemplo, saibam, por favor, como no último dia como ministro das Finanças, Vítor Gaspar assinou um decreto que pode liquidar a vida de, pelo menos, 3 milhões de portugueses. Fernando Dacosta chamou-lhe "Tiro de Misericórdia" e chamou bem. É o Governo de Passos Coelho em acção. Enquanto distrai a populaça com tiros de pólvora seca, vai destruindo paulatinamente Portugal.


Aqui há umas semanas o Nicolau Santos escreveu no jornal de Economia do Expresso uma coisa que me deixou siderada. 


Mas, pelo meio, meteu-se uma tal avalancha de disparates, que acabei por não falar disso. Foi o chilique irrevogável do Portas, um homem sem palavra que por aí anda há anos a espalhar demagogia, depois foi a ideia luminosa do Cavaco, a seguir foi a cagarrada fatal da ideia de Cavaco, agora é o desgoverno em segundas núpcias requentadas, é a cena das aldrabices da pinóquia albuquerque sobre os swaps (uma vergonha), eu sei lá. Não há dia em que nova porcaria não nos entre pela casa através das notícias.


No meio de tal enxurrada, a notícia de que Nicolau Santos dava conta, passou-me.

Este fim de semana voltei a ser alertada.

Mas quando se está de férias com crianças em casa  - e toda essa rotina de horas de fazer a papa, horas de dar a papa, horas de mudar a fralda, horas de dormir, horas de levantar, horas de dar a papa do lanche, horas de ir, horas de vir, e cada um come sua papa e cada um tem sua especificidade, em particular agora o bebé, o que está a caminho de fazer 1 ano, que é um reguila irrequieto, mas irrequieto senhores..., capaz de ultrapassar o ex-bebé que já tinha ultrapassado o 'mano velho' - o mundo muda de configuração.

Deixa de haver qualquer remanescente de hábitos anteriores.

Por isso, os horários agora são outros, quase não se vê televisão, jornais nem pó e, as nossas melhores intenções são ultrapassadas pela força dos acontecimentos domésticos que se sucedem a um ritmo imparável.

Nada de que me queixe. Adoro os meus meninos, adoro, adoro vê-los, tê-los perto de mim, são a vida em toda a sua maravilha, são uma felicidade, são tudo o que pode haver de melhor.

Mas isso é um facto e outro, inegável, é que uma pessoa fica com poucas probabilidades de fazer alguma coisa das que vagamente tinha em mente. 



Hoje na praia, um coelho

(Se repararem na mãozinha repararão que diz:
mais coelho, não, não queremos mais, o coelho é mau, pleaaseeee, tirem-me o coelho daqui, medo...., medo...!)



Por isso, o assunto de que acima falei ia outra vez passar sem uma referência aqui no Um Jeito Manso. Contudo, em boa hora, um Leitor atento e a quem agradeço a generosidade de me ir enviando alguma informação preciosa, deixou-me hoje o texto que transcrevo. Trata-se da crónica de Fernado Dacosta publicada no Jornal i de 25 de Julho intitulada:




Vítor Gaspar, um homem perigoso até ao último dia


Mas ele não era o 1º responsável.
O primeiro responsável chama-se Pedro Passos Coelho e ainda chefia o desGoverno de Portugal


TIRO DE MISERICÓRDIA



No último dia como ministro das Finanças, Vítor Gaspar assinou um decreto que pode liquidar a vida de, pelo menos, 3 milhões de portugueses. Esse decreto determina que o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social (que geria uma carteira de 10 mil milhões de euros) "terá de adquirir 4,5 mil milhões de euros de dívida soberana".


Sabendo-se que o referido fundo foi criado como reserva para assegurar, em caso de colapso do Estado, os direitos dos reformados, pensionistas, desempregados e afins durante dois anos (segundo o articulado de lei de bases), o golpe em perspectiva representa o risco de uma descomunal tragédia entre nós.

Lembremos que dos rendimentos dos seniores vivem hoje gerações de filhos e netos seus, sem emprego, sem recursos, sem amparo, sem futuro. Lembremos ainda que os últimos governos têm sido useiros no desvio de verbas da Segurança Social para pagamentos de despesas correntes - "o que qualquer medíocre gestor de fundos sabe que não se deve fazer", comenta, a propósito, Nicolau Santos no "Expresso".


Em 2010, dos 223,4 milhões de euros que deviam ser transferidos para o fundo em causa, o executivo apenas entregou 1,3 milhões.

Após ter semidestruído Portugal economicamente, socialmente, familiarmente, psicologicamente, com total impunidade e arrogância, Vítor Gaspar deixa, ao escapar-se, apontado um tiro de misericórdia aos idosos (e não só), depois de os ter desgraçado com o seu implacável autismo governamental. Sindicatos, partidos, oposições, igrejas, comentadores, economistas, intelectuais meteram, por sua vez, a viola no saco ante mais esta infâmia - entretanto, os papagaios de serviço aterrorizam as populações com a insustentabilidade da Segurança Social.


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Isto é muito, muito grave. Não sei se toda a gente que me lê consegue perceber a enormidade da desgraça que se pode estar a desenhar. E coisas como esta passam-se no silêncio dos gabinetes sem que transpareça para a comunicação social... É assustador. E outro dos dramas é que são raros os jornalistas atentos e lúcidos. Geralmente limitam-se a andar por aqui e por ali a papaguear o que os assessores de Passos Coelho & Amigos passam para os media como fontes

No entanto, felizmente ainda há alguns. Nicolau Santos e Fernando Dacosta merecem, pois, uma palavra de apreço.


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A ver se ainda cá volto hoje.

terça-feira, julho 30, 2013

O dia em que comi um bocado do estádio de Alvalade, em que decifrei o mistério dos Anjos e Demónios tombados na minha sala, o dia em que andei com um coelho ao colo, e em que, às tantas da noite, já não atinava com as letras do abecedário. Mais uma página do meu diário, é claro. (E uma boa notícia: não vi televisão, não sei das troca-tintas do Passos Coelho e sua tropa fandanga, nada.)


Depois de um dia mais do que preenchido com meninos e menininhos e mais uma festa de anos e, para coroar, uma ida às compras às tantas da noite (porque se aproximam mais dois aniversários), é tarde e más horas - e mais morta que viva - que aqui aporto. 




A festa meteu Mickey, danças, marchas, coreografias e, ainda por cima, multiplicou-se por dois locais, em cada qual seu bolo, parabéns a você, velas, presentes, beijinhos dos amigos e família e tudo o que agora já nem me lembro.

O que sei é que de pequenino é que se torce o pequenino e, portanto, um dos bolo foi, nem mais nem menos, o estádio do Sporting.




Aqui já a mãe lhe tinha retirado a pala para melhor o conseguir cortar. Do ângulo em que o apanhei nem dá bem para se ver o pormenor das cores da bancada, nos lados. Mas o que vosso assegurar é que era quase uma autêntica maquete. Por dentro era de chocolate e tudo aquilo era muito bom. Já posso dizer que comi um bocado do estádio de Alvalade - e que não parti nenhum dente.

O tio é do Benfica e a mãe, quando era solteira, e quando ambos queriam ser rebeldes em relação ao pai e restante família, também era. Agora, como casou também com um sportinguista de uma família de sportinguistas, acho que já se rendeu aos verdes.

Só o tio é que ainda resiste. De resto, o aniversariante já fala com um entusiasmo do Sporting que dá gosto.

A propósito do tio.

Hoje, de manhã, quando vi o comentário de um Leitor sobre o livro do Dan Brown nem percebi. Depois é que vi na fotografia que lá estava. Fui ao chão da sala para confirmar não fosse ser alguma aparição. Com o Dan Brown podia acontecer um mistério assim.

Mas a verdade é que lá estava ele. Não era o Inferno mas, sim, o Anjos e Demónios. Fiquei muito admirada. Estive a revirá-lo para ver se me lembrava. Tem uma etiqueta de uma livraria que nunca frequento. Afinal o mistério está decifrado. O livro é de 2005 e foi um presente que o meu filho recebeu in illo tempore. Depois, como a tudo o que não lhe interessou levar para casa dele, deixou cá ficar. 

Volta e meia aparece a perguntar onde estão as coisas mais mirabolantes, de cuja existência eu nem faço ideia. A última, que me lembre, era a bomba de encher os pneus da bicicleta. Ou isso ou uma coisa qualquer de quando fazia paint ball. Objectos que nem sei bem identificar e nos quais ele é que mexia. Coisas do bodyboard, da bicicleta, nem sei bem, só sei que tudo isso tem a sua mística e os seus apetrechos. A dada altura passei a achar natural todas as coisas que via. Uma vez apareceu num canto da casa de banho mais pequena uma garrafa estranha, alta, quase parecia uma bilha de gás mas mais estreita e mais alta. A irmã quando viu aquilo perguntou-me o que era e eu não sabia. Ela ficou muito espantada por eu não achar estranho uma coisa daquelas na casa de banho mas a verdade é que não achei. Explicou ele depois que era um gás qualquer ou ar comprimido, não faço ideia, lá para aquelas brincadeiras do paint ball. Acho mas já não garanto.

Ela também deixou imensas coisas, especialmente roupa. Ainda uso algumas dessas coisas, especialmente para trazer por casa. As coisas estão boas, não vou deitá-las fora.

Em contrapartida, ele deixou ténis e blusões e coisas também boas e o meu marido não as usas, acha uma estupidez estar a usar coisas que são do filho. Mas a verdade é que, volta e meia, quando cá está, vai dar uma espreitadela e reaproveita algumas coisas. Ainda no outro fim de semana levou uns óculos de sol que na altura deve ter achado fora de moda. 

Enfim. Hoje, tão pouco tempo depois, ainda o quarto está igual, já foram os meninos dele que dormiram a sesta no quarto do pai. E lá tive que ir buscar o Chicão, o coelhinho branco que era dele (isto aconteceu na altura eu ainda não tinha aversão aos coelhos) e com o qual a minha menina Plim-Plim agora gosta de dormir quando cá está. 

Dormiram eles e eu. Ou melhor, deitei-me no meio dos dois para pararem de mexer um no outro na brincadeira e na risota e, passado um bocado, senti mesmo que estava eu já a adormecer. Mas foi sol de pouca dura pois tive que me levantar logo a seguir já que tinha ainda coisas para fazer porque daí a nada tínhamos que sair para a dita festa do primo.



Dos afectos partilhados


Pormenor ds três mais pequeninos:
o ex-bebé com o bebé ao colo, sob vigilância de duas meninas: a mana e a tia do bebé
(Entretanto, o mais crescido andava com o seu T-Rex e outros seres pouco comuns)



Bom. E agora vou-me mas é deitar que já passa das 2 da manhã e daqui a nada já cá os tenho outra vez para o dia inteiro, com praia e tudo.

Claro que ainda não consegui arrumar os livros todos. Já estava cansada, já me custava a raciocinar e isto de pôr os livros por ordem alfabética depois de um dia destes tem que se lhe diga, Catherine, Christopher, Christiane F. (já nem me lembrava; devo ter lido Os Filhos da Droga quando andava no liceu, nem sei, há tanto tempo), etc, etc. Parei por aí. Já estava a desatinar com a ordem das letras. Acho que os que me faltam são os da prateleira do meio que foram arrastados, os Ds acho eu. Amanhã, antes deles chegarem, a ver se tenho tempo de arrumar o resto.

Nesta estante estão os indiferenciados de língua estrangeira (excepto os de língua espanhola, os japoneses e os russos, que estão noutras estantes ou os que têm obra completa e que, por isso, estão à parte). Agora peguei em alguns que não via há muito tempo e de que me lembro de ter gostado demais. O Ofício de Viver do Cesare Pavese é um deles. A ver se o leio outra vez, pelo menos em parte.


[Não vou reler, estou mesmo cansada. Já sabem: por favor relevem a pontuação fora do sítio ou letras trocadas. Mas, se forem coisas de bradar aos céus, por favor, mandem um alerta, ok? Obrigada!]

**

E com isto me vou. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma terça feira mesmo boa.


segunda-feira, julho 29, 2013

O susto que hoje apanhei quando cheguei a casa: portas da estante abertas, livros pelo chão... Mas, enfim, devem ter sido eles que resolveram brincar uns com os outros na minha ausência. Nada que afectasse a gorda. Continuou a fazer tricot como se não fosse nada com ela. Mas, por via das dúvidas, já está um Sto. António lá ao pé a ver se estes endiabrados não aprontam outra.


Hoje à noite, quando chegámos a casa, depois de termos estado nos meus pais, tínhamos uma surpresa. E não era das boas. Aliás, à primeira vista, ainda nos assustámos. Livros pelo chão, as portas da estante abertas, uma coisa estranha. 




Depois lá percebemos que tinha sido 'causa natural': deve ter sido a prateleira de cima que se inclinou, uns espigões de madeira onde se apoiava à frente parece que cederam. E, com a força, abriram-se as portas e, na queda dos livros e com a inclinação sobre a prateleira de baixo, caíram também livros das outras prateleiras.

Se tem sido de noite, que susto do caraças que apanhávamos...

Agora a prateleira já está no sítio, mas a ver se amanhã arranjamos uma solução mais estável antes de lá voltarmos a pôr os livros.




Uma vez descobri esta estante na cave, que funcionava como armazém, da casa de móveis que havia junto à minha casa e onde eu me abastecia. Fiquei encantada, é toda de nogueira, com as portas em raiz de nogueira. Mas era cara e aquelas portas de vidro redondo metiam medo. Se se partissem, onde as substituiríamos? A senhora da loja de móveis contou-nos que o dono gostava muito dela e por isso não a mostrava, nunca a tinha posto em exposição na loja, tinha pena de a vender. 


Mede cerca de três metros de comprido o que, vezes três, daria quase nove metros de livros, nada mau, e, além disso, as portas em baixo também dariam um algum jeito. Durante muito tempo, de vez em quando, ia namorá-la. Até que não lhe resisti (guardado estava o bocado...). 

A estante das ondas tornou-se um ex-líbris aqui em casa, toda a gente que aqui vem pela primeira vez encanta-se com ela. 

Um dia um dos vidros rachou. A loja dos móveis já tinha fechado, eram móveis que hoje já se vendem pouco. Abasteciam sobretudo embaixadas mas, mesmo essas, parece que já não precisavam de mais móveis. Falámos, então, com vários vidreiros. Difícil. Vidros em redondo só para a indústria automóvel e com moldes. Lá houve um que se afoitou mas limitou-se a pôr-lhe uma cola transparente para vidros. Mas, vá lá, tem-se aguentado. 

Mas a estante é frágil. Deve ter sido concebida mais para expôr objectos do que livros. A prateleira de baixo também já está presa por umas madeiras (mal jeitosas) que o meu marido lá colocou (mas que ficam disfarçadas no meio dos livros) mas, por via das dúvidas, pus uns livros por cima dos outros, a ver se a sustêm. É que as prateleiras não têm apoios intermédios.

Em tempos comprei uma pequena estatueta de uma mulher gorda, sentada numa cadeira, a fazer tricot. Nessa altura ainda tínhamos connosco a nossa querida cadelinha, uma amiga de que nunca nos vamos esquecer.


Um dia acordámos com ela a ladrar freneticamente, daquele ladrar que ela fazia quando cercava um gato. Levantámo-nos. Estava ela, naquela posição de ataque e desafio, patas da frente abertas, cabeça baixa, a ladrar furiosa, a 'enquadrar' a pobre gorda.

Lá lhe explicámos que era amiga, fiz festinhas à inofensiva e paciente tricotadeira para a nossa fera ver que não era uma inimiga que ali tinha aterrado durante a noite. Mas custou-lhe a suportar aquela intrusa. Durante algum tempo, quando passava perto, olhava-a de lado, chegava a saltar, rosnava, ladrava, desafiava. Mas a gorda manteve-se na dela, a fazer tricot, e resistiu.

Agora, com os meus pimentinhas à solta, a coisa fia mais fino. Por via das dúvidas, pu-la num recanto, a ver se escapa incólume. Está entre a estante das ondas e um sofá, mesmo encostada à parede do fundo.




Pois bem, ali estava hoje, de lado, rodopiou com o impacto, no meio dos livros mas inteira e ainda a tricotar. As mulheres de trabalho são umas resistentes.

Gosto muito de artesanato. Tenho algumas peças deste género. A ver se um dia destes me lembro de vos mostrar.

Agora, ao fotografar esta, lembrei-me de fotografar também uma acabadinha de instalar. 

Esta nova peça está numa estante ao lado da acidentada e trouxe-a do Algarve. Foi feita pelo artesão João Gonçalves Ferreira, tem um certificado passado pela adereminho e enquadra-se no chamado Figurado de Barcelos. É um Santo António.




Santo António e menino, de João Gonçalves Ferreira, descansando junto ao Eça de Queirós

- e estou a dizer a origem com este pormenor, não por mim
mas para divulgar o artesanato português,
especialmente aquele que começa a organizar-se e comercializar-se de forma estruturada -




Penso que já uma vez vos tinha mostrado um outro Santo António, a que também acho muita graça. Já se sabe: sempre pouco convencionais. 


(Santinhos bem comportadinhos não é comigo. Aliás, basta ver o que acho do Tozé Seguro.)





E com esta conversa toda, até parece que sou devota de Sto António, não é? Se calhar sou. Sei lá. Sou devota de tantas coisas: de árvores, de rios, da luz, do cheiro a terra molhada e morna como estava este domingo, um cheiro íntimo como o cheiro do corpo de uma mulher, e sou devota de palavras e de quem as escreve e diz e canta, e sou devota de música, e de sorrisos, de mãos que fazem nascer figuras ou cores, e devota de crianças e de quem as faz, tanta coisa.


E, para terminar, música por favor.

Maria Bethânia interpreta Santo Antônio.





Pensando melhor, será que eu encararia melhor algumas coisas, alguns indigentes infra-pensamentos de estado,  se, tal como Bethânia, eu tivesse fé em Antônio? Vou pensar nisso.


***

Antes de me ir, informo que, se quiserem ter uma ideia do que pode fazer uma mulher feliz no local de trabalho (e um homem também...!) é descerem até ao post abaixo. 

***

E, por agora, nada mais - quero apenas desejar-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira!

Como agradar a uma mulher no local de trabalho? Umas dicas. Sushi? Check. Cabeleireiro ou massagem? Check. Yoga? Check. Mas note-se: quem diz mulheres diz também homens. [O caso da Blip WebEngineers, uma empresa do Porto]


Trabalho num grupo de empresas cuja gestão está maioritariamente entregue a homens. E toda a mão de obra, em geral, é também predominantemente masculina. Contudo, a nível  de escritórios, há algum equilíbrio embora mais a nível de execução e não de direcção que, aí, também é quase exclusivamente masculina.

Os homens são pouco dados a frescuras. Não estão nem aí para pensar em coisas que acham acessórias. São capazes de, nas calmas, contratarem estudos de avaliação para saber o clima organizacional ou consultoria em avaliação de desempenho e outras coisas que não contribuem em nada para a felicidade de ninguém e riem-se, superiores, se uma pessoa lhes fala em sushi ou yoga no local de trabalho.

Um ou outro lá é mais sensível mas, receando ser olhado pelos colegas como um flausino dado a modas e sujeito a influências, disfarça muito bem.

Conheço algumas das empresas que são consideradas, em Portugal, das melhores para se trabalhar e há uma marca comum: facilitam a vida às pessoas e trazem algum bem estar para o local de trabalho. Algumas fazem coisas parecidas com o que a empresa abaixo referida faz. 

Aquela coisa (que pode parecer uma moda absurda), a da felicidade no trabalho, é para mim algo a que sou muito sensível. Acho que todos devemos fazer de tudo para que, quem está à nossa volta, se sinta bem, feliz se possível. E isso, no trabalho, não é difícil. Aliás, difícil é percebermos como é fácil.


Concordo plenamente com a liberdade de movimentos dada às pessoas, acho que os resultados se obtêm pela motivação e não pelo controlo ou por métodos um bocado infantilizados, como os estupidamente chamados 'do chicote e da cenoura'. As minhas equipas são sempre das mais motivadas (comprovado através dos ditos estudos e inquéritos) e eu sou tudo menos controladora segundo os métodos tradicionais. Delego imenso, atiro-os para a frente do touro, desafio-os (porque essa é também uma forma de me desafiar a mim mesma), incentivo-os a descobrirem, a aprenderem, a irem à procura, a partilharem conhecimentos com colegas e, inclusivamente, com pessoas de outras empresas. E, se precisam de chegar tarde ou sair cedo ou ficar em casa, ficam. E se durante o dia conversam uns com os outros, se estão na paródia a verem filmes engraçados ou a contarem anedotas, o que faço, quando posso, é juntar-me a eles.

E, por alta recreação e porque são altamente responsáveis, se precisam de trabalhar de noite ou ao fim de semana, fazem-no sem me pedirem opinião. Digo sempre que na minha equipa não quero estrelas: quero, sim, gente que goste de trabalhar em equipa, gente que perceba as dificuldades dos outros e que esteja disponível para aprender e para ensinar e, sobretudo, gente responsável e exigente.

Claro que luto pelos direitos deles. Nos 'grandes direitos', aqueles que têm que ser decididos a nível global, bato-me por eles; nos 'pequenos' faço o que posso. Precisam de ir à festa na escola dos filhos? Que vão. Precisam de ficar com a filha do marido? Que fiquem. Precisam de ir ao médico com a mãe? Que vão. Precisam de ir à garagem ou fazer não sei o quê? Que vão.

E já defendi que houvesse um circuito de manutenção em volta dos escritórios ou um campo de ténis ou uma sala com máquinas (passadeiras, pesos, etc). Não foi aceite, que não teria adesão, ou que poderia alguém sentir-se mal, ou isto ou aquilo. Os homens gostam de complicar, é sabido: vêem dificuldades em tudo, têm medos.

Também, em tempos, no âmbito de uma reorganização maior, calhou ter que olhar para um dos refeitórios. Arranjei maneira de haver um menu light ou um menu low cost, pois é normal as pessoas de ordenados mais baixos, para pouparem o dinheiro do subsídio de almoço ou do refeitório, levarem o almoço de casa e comerem na copa. Ora, providenciando um menu composto de sopa, um prato que pudessem compor a partir de várias opções pouco dispendiosas, uma peça de fruta, talvez aderissem. E aderiram mas apenas ao fim de algum tempo. E arranjei maneira de fazer com que tivesse uma esplanada, que era agradável, um deck sobre um jardim. Meteu arquitecto e arquitecto paisagista. Eu própria acompanhei a escolha das árvores e das flores (...ora não? para mim, tratar de uma coisa destas foi um pitéu...!). Estranhamente levou muito tempo para que as pessoas aderissem, parece que tinham pudor. E os outros olhavam com desconfiança as pessoas que iam tomar o pequeno almoço ou o lanche na esplanada. Quando se lida com miudagem saída da universidade, tudo é fácil. Quando as idades e a cultura e a experiência anterior são outras é diferente.

Um Leitor, a quem muito agradeço, enviou-me um mail com o filme que vos mostro aqui abaixo. 

Women Friendly. Uma empresa no Porto, a Blip WebEngineers. Claro que é uma empresa tecnológica, em que a média de idades é baixa e isso faz a diferença. Mas, seja como for, é um caso a ver: uma reportagem conduzida por Steve Clarck.





*

A ver se ainda cá volto.

domingo, julho 28, 2013

Diário (com auto-retrato): um dia in heaven entre orégãos, cedros que parecem misteriosos homens dos bosques, pedras que parecem folhas, troncos que deitam ouro brilhante ou se cobrem das cores com que me cubro, folhas de árvore que se põem iguais às dos painéis de azulejos. Lição a retirar daqui? Simples, meus caros Leitores: Les + grands secrets se cachent dans la lumière.


No post abaixo já disse o que tinha a dizer de Paulo Portas, aquele a quem a TVI chamou histérico por tão ufano estar na tomada de posse dos Secretários de Estado. Mostrei-vos o vídeo para que confirmassem o seu incompreensível estado de exuberante euforia, e desabafei, contando-vos o meu veredicto sobre ele depois de tudo o que se passou.

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Mas agora parto para outra. Não gosto de ficar com travo amargo na boca. Gosto de estar bem disposta, gosto de falar do que gosto, gosto de vos convidar para junto do que gosto.

[Aviso para alinharmos expectativas: já sabem que gosto de coisas simples, por isso não esperem grandes coisas, está bem? São apenas as minhas pequenas coisas do costume]


Música, por favor, Katie Melua.

 Thank you, stars




Continuo in heaven e os dias continuam a deslizar tranquilamente. Deito-me tarde, levanto-me tarde, faço uma caminhada, várias voltas ao meu quintal (e, aqui, vejam um sorriso como cumprimento ao Leitor que ontem se desculpou por chamar quintal aqui ao meu pedaço - nada a desculpar-se, é mesmo o meu quintal, o meu jardim, o meu bocadinho de paraíso aqui na terra e por aqui já muito brincou a minha grande amiga que há uns anos nos deixou, uma boxer de pêlo cor de mel, meiga e brincalhona), ando até perfazer quase cinco quilómetros, varro, limpo o mato, podo árvores, faço limpezas dentro e fora de casa (este domingo vou fazer uma valente faxina dentro de portas), faço as refeições, leio, fotografo. Pouco mais. Um doce remanso.

Hoje, para além do resto, andei a apanhar orégãos. Este domingo vou a casa dos meus pais e todos os anos, por estas alturas, lhes levo umas braçadas deles. A minha mãe há-de secá-los na varanda, depois há-de distribui-los por frasquinhos que oferece aos meus tios, primos, por mim e por toda a tropa associada e talvez por mais alguém. Também fica com alguns, claro. Não os dispensamos a temperar a salada. Fica mais saborosa, mais fresca, com o sabor do mediterrâneo. Por vezes também os salpico pelos pratos de forno, por cima, para lhes abrir o sabor. Ou isso ou alecrim (nos pratos de forno, não nas saladas).



Um dos molhos de orégãos, floridos, cheirosos, mesmo no ponto, nem verdes, nem secos.


(Está em cima de uma mesa debaixo do telheiro onde se fazem os grelhados.
Reparem como há lenha por todo o lado: estão a ver na bancada, também?
Não me agrada nada mas onde pô-la se todos os locais destinados a ela estão ocupados...?)



No outro dia, um senhor aqui da terra, mostrou-me um ramo e perguntou-me se eu sabia o que era. Disse-lhe que sim, que eram orégãos. Ele sorriu e disse, 'pois, oregos', como se tivesse que ensinar à senhora da cidade que não é orégão que se diz mas, sim, orego. Daí para a frente a conversa continuou, eu a dizer orégãos e ele, convicto, oregos.

Deve ter pensado que eu não 'captei'. 

Acontece-me também isto quando às vezes estou com alguém que me pergunta se não li uma pepineira qualquer, daquelas muito em voga. Se eu digo que não, a pessoa faz um ar vagamente superior, conta-me a maravilha que é, e depois pergunta-me se li um outro e eu também não li e, depois de mais uma ou outra tentativa, a pessoa desiste, deve achar que bruta mais bruta não há. Fazer o quê? Não me vou pôr a dar lições de literatura, não é? Quem sou eu para isso? Prefiro passar por burra. Olha, paciência.

E, por falar em lenha, hoje, ao passar por mais um monte dela, reparei que um tronco brilhava, enfeitado de ouro. Aproximei-me. Gotinhas brilhantes, a seiva parecia ainda viva. Fui buscar a máquina fotográfica, quero guardar a imagem. Dá pena pensar que vou queimar esta lenha. Tão bonita e ainda tão cheia de vida. E reparem no tronco que está ao lado. A madeira é macia, passo a mão por ela, tão macia, suave, e tem uma cor linda, um camel de veludo, e vem de lá um perfume tão bom.



Troncos das minhas árvores que caíram com o vendaval.
De um sai uma resina brilhante, cheia de luz.



Tenho verdadeira devoção por árvores. Hoje fiz várias fotografias a um dos cedros, um que plantei com poucos centímetros e que agora está gigante, belíssimo. O seu tronco é uma maravilha, rendilhado, franjas de prata, é um mundo, faz-me lembrar as imagens que associamos aos bosques misteriosos.



Tronco de cedro



Quando passo por lá ao fim do dia, quase lusco-fusco - naquela hora em que os bichos pensam que a terra é já só deles e que se podem acomodar no mato ou dentro das árvores porque ninguém os virá importunar - à medida que passo ouço um restolhar, bichos que fogem, pássaros que batem as asas. Faz alguma impressão.

Uma prima minha há tempos, ao andar por ali comigo, e já pouco se via, escureceu enquanto por lá andávamos, ia agarrada a mim e perguntava 'ouve lá, tu tens mesmo a certeza que são só bichos...?' e eu sosseguei-a, que sim, que eram só bichos. Como se ser só bicho garantisse a inocência de alguém. Mas enfim. Nos momentos de susto a gente agarra-se a qualquer ilusão. No entanto, sei lá se este cedro de noite não se transforma num velho com umas barbas cinzentas, grandes, tão grandes que lhe cobrem as peles do corpo velho e não anda por ali, a ver se descobre mulheres que se tenham perdido no meio da noite?

Mas de dia, com a luz do sol, tudo resplandece. Não estou a exagerar. 




Talvez porque eu gosto de cor, para fazer pendant com os meus chinelos, o tronco de algumas árvores está como pintado de amarelo, preciosas manchas luminosas. 

(E esta é a fotografia que justifica que eu tenha dito, no título, que hoje o diário vinha com auto-retrato. Vou-me mostrando aos poucos, sou muito tímida)







Se eu fosse habilidosa, colocaria as fotografias ao lado uma da outra para melhor comprovar o que digo. Assim, tem que ser uma por baixo da outra.

Mas já viram como estão lindos os troncos das aroeiras? E os amarelos não são iguais?

(Espero que isto sejam líquenes, coisa benigna, e que seja normal que se formem assim, que não seja sinal de nenhuma maleita. Mas não há-de ser, com esta beleza exuberante tem que ser uma coisa boa)







E, já agora, por falar em mimetismo: por aqui, todo o mundo imita todo o mundo, uma alegria, como se toda a gente fizesse coro, quisesse pertencer à mesma equipa. E estou a falar em gente mas, claro, estou a ser abrangente, tratando por gente as folhas, os troncos, as pedras.

Vou mostrar-vos para que não pensem que estou doida. 



Pedra sobre terra com folhas secas e esteva com florzinhas secas



Repararam como tudo parece querer ficar parecido? Sobre aquela rocha e outras como ela (grande parte do terreno é assim, rochas a brotarem do chão) vão aparecendo manchinhas das mesmas cores que as pequenas folhas secas que as rodeiam. Não é engraçado? Uma pessoa pensa que são apenas os animais (alguns) que se transfiguram para ficarem parecidos com o meio onde se encontram; mas não: encontro isso aqui na terra, a todo o momento.

Fotografei também um tronco que está cinzento e que tem manchas cinzentas e brancas e que está ao pé de um muro branco que está com manchas cinzentas. Iguais. Mas poupo-vos, não vou maçar-vos para além da conta.

No entanto, só mais umas coisa. Reparem para não dizerem que sou uma exagerada.





Uma conjugação que acho perfeita é a deste painel de azulejos que está sobre um muro branco.

Quando o sol está sobre as árvores, perpassa por entre a folhagem uma luz dourada, entrecortada de sombras. Fica lindo. Poderia viver ali encostada, tanto que me encanto com isto.



Por trás desse muro está um cedro, um cipreste e um choupo.

E as folhas do choupo ficam umas verdes e outras douradas, tal e qual as do painel.

Quando ali pus este painel ainda as árvores eram bebés e nunca me ocorreu que um dia o efeito fosse este. Parece de propósito, tão bonito que fica. 

Às vezes, a posteriori, até parece que fui guiada.



Les + (plus) grands secrets se cachent dans la lumière


(Está escrito neste painel que aqui não se vê todo.
Para os que não sabem francês, traduzo:
Os maiores segredos escondem-se à luz
que é como quem diz: estão à vista, para quem os quiser ver)




Assim é a beleza. Se cache dans la lumière. À vista de todos. Mas apenas para os que a querem ver.

E por aqui me fico, que isto está longo, longo, e para mim tudo isto é um encantamento mas, para vocês, temo que seja uma seca das valentes. 

Para tentar desculpar-me, mostro-vos outra coisa, desta vez uma que eu gostava de saber fazer. Se em vez de andar a apanhar orégãos ou a fotografar pedras, me aplicasse a fazer ginástica a sério talvez viesse um dia a conseguir fazer alguma coisa vagamente parecida (enfim, não digo que suspensa, nem digo que de pernas para o ar... mas, vá lá, uma outra gracinha...). Assim, limito-me a ver, com admiração.





É Elena Gatilova, também conhecida por Lucky Moon. Foi Campeã Mundial de ginástica ritmítica e participou durante 5 anos no Cirque du Soleil. 


A sua elasticidade e graciosidades são surpreendentes, não são? Olho-a e imagino que sou eu que assim me movo por entre as árvores, escondendo-me entre as sombras, ou procurando a luz.


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Se quiserem agora ver um outro filme, o de Paulo Portas e a sua amiga Pinóquia na tomada de posse do bruninho que assim se vem juntar ao lombinha e à vaninha, é descerem até ao post a seguir a este. Mas, confesso, não sei se é boa ideia.

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E com isto me vou. Tenham, meus caros leitores, um bom domingo. 
Alegria é que é preciso. E outras coisas também, claro.

sábado, julho 27, 2013

Afinal Paulo Portas estava ou não 'histérico' na tomada de posse dos novos Secretários de Estado? Pergunto isto porque a TVI 24/ IOL mudou o título do vídeo no qual Paulo Portas está que nem lhe cabe um feijãozinho (ele e sua grande amiga, aquela a quem toda a gente chama mentirosa e pinóquia, a tal de Maria Luís Albuquerque). Onde antes se lia 'histérico' passou agora a ler-se efusivo. Seja como for, uma coisa pergunto eu: porque é que aqueles dois e todos os outros estão tão felizes? Riem de quê? - E, de caminho, aqui deixo um statement sobre o novo vice-primeiro-ministro Paulo Portas.


Inicialmente a TVI24/ IOL intitulou o vídeo como:

Paulo Portas 'histérico' na tomada de posse dos novos Secretários de Estado (cito de memória).


E cito de memória porque, como acima referi, a TVI 24/IOL mudou o título. Agora o que lá aparece é:

Os cumprimentos efusivos de Paulo Portas


Vice-primeiro-ministro muito satisfeito na cerimónia de tomada de posse dos secretários de Estado



Percebe-se. Chamar histérico a um vice-primeiro ministro pode não cair lá muito bem. 

Mas chame-se-lhe histérico, efusivo, radiante, para o caso vai tudo dar ao mesmo. 

O que eu pasmo é com a falta de vergonha desta gente. Há uns dias Paulo Portas demitia-se irrevogavelmente do governo de Passos Coelho, dizendo que ficar no governo seria uma dissimulação. Pelo que ele dizia, a causa da birra teria sido a escolha da pinókia albukerke para ministra da austeridade.



paulo portas e passos coelho apadrinhados por cavaco silva

Paulo Portas, Passos Coelho e Cavaco Silva,
 a união nacional em versão cagarra


Passados uns dias, o outro com quem ele não podia nem com ervilhas, deu-lhe mais poleiro e eis Paulo Portas todo emproado, numa agitação frenética, íntimo da pinókia, todo ele sorrisos, todo na maior abertura e felicidade.

E ela, contradições em cima de contradições, todas desmascaradas, as provas da mentira por todo o lado - e ela, sonsa, descarada, como se não fosse nada com ela.



A Pinokia Albukerka, fez um swap entre a verdade e a mentira
e agora já não as distingue
Ora isto é mesmo o que uma Ministra das Finanças deve ser: pouco credível


Esta gente não tem vergonha. Enquanto eles riem, satisfeitos por enganarem (ou pensarem que enganam) mais uns quantos, mais umas quantas pessoas ficam desempregadas, mais uns quantos jovens emigram, mais uns quantos velhos não têm dinheiro para aviar os remédios na farmácia.


Por isso, riem de quê?



Paulo Portas aparentemente chefia o Pântano
e, vá lá saber-se porquê,
em vez de chorar, ri-se, ri-se muito, quase salta de tão feliz que anda


E tenho aqui que dizer uma coisa. Já aqui disse algumas vezes que tinha como que uns mixed feelings em relação a Paulo Portas. Achava-o um político errático, um artista que dizia o que lhe vinha à cabeça conforme o contexto em que estava, pouco credível, portanto. Mas achava que, lá no fundo, ele nem deveria ser má pessoa, que deveria ser uma boa companhia, inteligente, com sentido de humor. Politicamente sempre o zurzi mas, já como pessoa, custava-me fazê-lo. Os meus amigos censuravam-me, diziam que eu misturava a simpatia que sinto pela mãe dele com alguma vontade de não a magoar, que isso adoçava o que, por vezes, dizia dele. Não sei, talvez fosse. Pela mãe e pelo pai. Custa-me aceitar que duas boas pessoas tenham um filho tão diferente deles. Ou custa-me dizer mal do filho de uma pessoa, quando simpatizo com os pais. Mas não sei se era isso. 



Paulo Portas, o Revogável, o Dissimulado, o Homem-sem-Palavra


O que sei é que, face às últimas peripécias a que assistimos, tenho que dizer de forma muito clara que, depois disto, acho que Paulo Portas não tem desculpa. Não presta como político, não presta mesmo. Pessoas assim jamais deveriam poder ocupar lugares de relevo nos órgãos institucionais do país.


Posso perdoar muita coisa mas não perdoo a falta de palavra, a falta de carácter.


Paulo Portas agora, a meus olhos, está ao nível do Relvas, do Passos Coelho e de outros seres que deveriam ser banidos da política a bem da moral, da ética, da honradez - e da higiene social.


Ah, é verdade, se quiserem ver a performance de Paulo Portas e de Maria Luís Albuquerque na tomada de posse de algumas de mais umas quantas alimárias (e com isto não digo que todos o sejam, já que não tenho elementos para ajuizar), é clicarem aqui

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As imagens são, uma vez mais do inspirado blog We Have Kaos in the Garden.

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Em princípio ainda cá volto hoje.

Até já.

Nestes tempos de inclemência, proponho um intervalo - Amor e desamor entre duas mulheres; amor e desamor entre um homem e uma mulher. Mortal loucura: os corpos, as coreografias do desejo, do amor, do desespero. [Ongotô, Grupo Corpo]


Não gosto de tiradas a 'armar' mas, porque é o que me ocorre depois de dar uma vista de olhos pelos jornais online, apetece-me começar este post assim: a poluição política e social começa a ser insuportável. A moral, a ética, a honorabilidade, o sentido de dever, a verdade, a generosidade, a solidariedade - tudo valores que a baixa política, de tão baixa que é, vai corroendo. Sobra uma lassidão, uma vontade de desistir, uma sensação de descrença, de desesperança, de inutilidade.

Sinto isso à minha volta, nos que me rodeiam, no medo que vai tomando conta das pessoas, na angústia que se apodera de nós quando o desemprego começa a bater à porta dos que nos são muito próximos. Muita desgraça por motivo nenhum, apenas por ignorância, incompetência e - começo finalmente a acreditar - por má fé. 

Há nos que, perplexos, assistem a isto uma revolta que não encontra forma útil de se manifestar. Um lodo infecto que vai cobrindo as vontades, impedindo-as de se manifestarem.

Contei-vos, no post abaixo, a minha incredulidade perante mais uma nomeação para o desgoverno inqualificável de Paulo Portas e Passos Coelho, esses dois desavergonhados que tomaram conta do País. Vivemos o tempo do amadorismo, do oportunismo, da gente sem cabeça, sem coração, sem alma: corpos vazios, instrumentos, marionetas.


Mas a verdade é que eu não sou de carpir. Mesmo quando, como agora, não vejo como haveremos de travar a insanidade reinante, a gestão danosa, os crimes de lesa pátria, não me dá para o desânimo.

Em alturas assim, apetece-me subir para uma rocha no cimo de uma escarpa, atirar-me e voar. Ou perder-me num jardim sem regras, feito de árvores, rios, flores e palavras. Ou mergulhar num mar profundo, quase verde de tão fresco e tão fundo. 

Ou aninhar-me nos braços do meu amor. 

Ou dançar.




  • O bailado chama-se Ongotô e é interpretado pela companhia de dança contemporânea brasileira Grupo Corpo
  • A coreografia é de Rodrigo Pederneiras
  • A música é de Caetano Veloso e José Miguel Wisnik
  • A cenografia e iluminação são de Paulo Pederneiras e os figurinos de Freusa Zechmeister


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E com isto me despeço por agora, desejando-vos, meus Caros leitores, um sábado em grande!

sexta-feira, julho 26, 2013

Bruno Maçães, Secretário de Estado dos Assuntos Europeus...? Mais um que vai dos blogues para o Governo. Mas com que curriculum, senhores...? Ou o CV já não conta para nada? Estiquem daí o vosso braço para ver se chega até aqui e belisquem-me, se faz favor... Ou melhor: digam-me que isto é apenas uma anedota...! Pleeaaase...


Eu não quero parecer implicativa mas, ó senhores, isto é mais uma brincandeira, certo?


Bruno Maçães, mais um bruninho neste governo de amadores, aprendizes e faz-de-conta
(fotografia obtida no Expresso onde o dito era blogger)


Pode lá ser que este tal de Bruno Maçães seja Secretário de Estado...? E dos Assuntos Europeus...? 


Dá para acreditar? 

Eu não digo que ninguém me poupa, senhores...?

Mais um jovem advogado, aparentemente sem outra experiência de vida que não seja fazer o mestrado e doutorar-se, dar umas aulas, escrever num blog e, pasme-se, ser assessor político de Passos Coelho - e ei-zio (está escrito assim de propósito que só me apetece asneirar), como se tivesse saltado de um obscuro trampolim, em Secretário de Estado. Assim é este desGoverno.

Aliás, ver a biografia (nos casos em que está disponível) dos Secretários de Estado deste desGoverno dá bem a medida do desastre que quotidianamente acontece neste País desde que Passos Coelho se aboletou no desGoverno.


Como poderia ser diferente, como poderíamos esperar alguma coisa de jeito, com gente destas?!?!

A propósito desta escolha dos Secretários de Estado, escreveu alguém que, seguramente, sabe mais do assunto do que eu: Pacheco Pereira.

Mas a remodelação é particularmente significativa do take over partidário mais rudimentar e brutal. Os principais controleiros do aparelho, os que distribuem empregos, benesses, subsídios, pelos “seus”, estão no governo, junto com alguns outros de uma incompetência e ignorância abissal. E quando digo abissal é mesmo abissal. 


Incompetência e ignorância abissal. E a toda esta gente Cavaco Silva dá posse? 

Não haverá maneira de travar isto? Pergunto.

Estou in heaven. Já varri que só visto e ainda tenho muito mais que varrer. E muito que me encantar: a grevílea renascida continua a crescer, a ave do paraíso prepara-se para um sono reparador antes de voltar a renascer. E uma mulher, por vezes, senta-se enquanto uma gaivota a sobrevoa e, outras, ergue-se, face erguida, inteira onde os outros se dividem. Sejam bem vindos.


Depois de ter escrito sobre a entrevista de Clara de Sousa à ministra Maria Luís Albuquerque (sobre quem, na altura, a minha mãe, quando comentei com ela quem era a nova Ministra das Finanças, me perguntou: 'Quem? Aquela mentirosa?'), e de, a seguir, ter aqui trazido excertos de Rumor Civil, um livro de Nuno Brederode Santos (que reúne crónicas dos tempos em que ele escrevia inspiradas e extraordinárias crónicas no Expresso, que se revelam bastante actuais), tinha-vos dito que ainda cá voltava para vos contar o que andei a fazer hoje de tarde.

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E o prometido é devido. Cá estou.

Da praia para o campo. Estou in heaven.

O tempo por cá hoje esteve brando, um daqueles dias suaves que parece prenunciar o outono. Nem muito calor, nem muito vento. Uma aragem macia, um calor tépido que me sabe bem sobre a pele, uma luz dourada.

A nossa grevílea renascida continua a crescer. O meu marido continua a regá-la mal chega, o que é surpreendente porque ele defende que aqui só devemos ter o que se criar por si só. Mas desenvolveu uma estima por esta pequena árvore que demos por morta, que ele serrou pela base muito tempo depois dela se ter partido com o vento, quando assumimos que não havia nada a fazer - e que, no ano seguinte, nos emocionou quando a vimos a renascer.




Encanto-me com ela. À tarde, a serra que nos envolve devora o sol mas, antes disso acontecer, a luz começa a dourar-se e eu, aqui da sala onde estou, vejo como a grevílea começa a ficar iluminada, a luz brilhando entre o rendilhado das suas folhas. Nem sei quantas fotografias já fiz para fixar este momento que para vocês que me lêem pode ser banal mas que, para mim, é encantatório. (Tenho uma certa pancada, vocês já sabem).

O céu estava um pouco nublado e, antes do entardecer, a serra, ao longe, estava azulada. Aliás, quando aqui não estou e, de cabeça, revivo as imagens da serra, é assim que a recordo, curvas suaves, um azul subtil, um veludo macio. E no entanto, eu sei, é quase toda feita de pedra.




Esta imagem foi feita com zoom pois, de facto, não estou tão perto da grande serra como aqui parece. Tenho-a a quase toda a volta, mas longínqua, bela, quase inventada, por vezes mal se distingue das nuvens, outras parece uma sombra distante, transparente. Depois, ao fim do dia, no verão, o céu fica avermelhado e o sol entrega-se a ela, mergulha dentro dela. E eu fico a vê-los. É o meu lado voyeur.

Mas, enfim, não é só rêverie. Não temos cá ninguém a trabalhar, somos só nós dois quando cá estamos. E a natureza tem uma força brutal. 

Agora estamos na fase das folhas secas. Na zona das azinheiras aqui ao pé de casa, o chão está coberto daquelas pequenas folhas que crepitam quando as pisamos. Fica bonito e propicia um andar macio. Mas temos que as apanhar pois, senão, quando chover, apodrecem; escorregaríamos.

Mas não me queixo porque gosto de varrer. 



Na parede, sob as ramagens de um grande e perfumado cedro,
um painel de azulejos que reproduz uma pintura de Guilherme Parente

Reparem: uma mulher está sentada enquanto no céu voa uma grande gaivota


Claro que teremos também que cobrir toda a lenha que está a descoberto e todos os ramos secos. Este ano não teremos que comprar lenha. Infelizmente temos muita. Das árvores que caíram quando foi o vendaval fiz banquinhos, muitos banquinhos que agora estão sob a copa de algumas árvores. Mas ainda sobrou muita lenha. Quando, no inverno, me aquecer ao calor dela vou tentar não me lembrar de como era bom sentar-me sob a sua sombra ou aspirar o ar perfumado junto a elas.

É a vida, eu sei.




O meu marido puxou e apanhou a caruma com um ancinho enquanto eu apanhei as folhas das azinheiras. Enchi muitos baldes (balde não: este baldão cinzento que, quando está cheio, fica bem pesado...) que transportei para sítios onde o terreno é quase só pedra. Assim, a matéria orgânica inútil tornar-se-á alimento útil para outras árvores.

Amanhã tenho ainda muito chão para varrer do outro lado da casa. Claro que há mil outras coisas que deveriam ser feitas mas para as quais nunca sobra tempo.



Eis aquela que parou em frente/ Das altas noites puras e suspensas.// Eis aquela que soube na paisagem/ Adivinhar a unidade prometida:/ Coração atento ao rosto das imagens,/ Face erguida,/ Vontade transparente/ Inteira onde os outros se dividem

[Sophia de Mello Breyner]



Há muitas paredes que deveriam ser lavadas antes que o tempo as cubra de marcas que um dia serão difíceis de tirar. Mas não apenas, como disse, o tempo não chega pois seria empreitada para muitos dias como, por estranho que vos possa parecer, gosto de as ver assim. Gosto de ver o efeito do tempo sobre as coisas. Tal como sobre as pessoas.

Tal como sobre as flores.

No início de Maio passado maravilhei-me, uma vez mais, com a minha estrelícia, uma ave caprichosa e bela, e partilhei esse maravilhamento convosco. Talvez se recordem : chamei-lhe, então, A bird in heaven.

Agora, aquela que foi uma exuberante, quase escandalosa, ave do paraíso, está toda ela outra, peles caídas, secas. Efémera é a beleza, poder-se-ia pensar. Mas eu não. Julgam que a corto?




Qual quê...? Fotografo-a com ternura. Acho-a belíssima na mesma, abstracta, elegante. E sei que na próxima primavera me surpreenderá de novo com a sua eternidade.

Belas e eternas são as coisas que muito amamos. As coisas e as pessoas. E os lugares.


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Recordo que abaixo poderão encontrar excertos curiosamente muito actuais do Rumor Civil de Nuno Brederode Santos e que, mais abaixo ainda, um texto que escrevi depois de ter visto a entrevista na SIC com a Maria Luís Albuquerque, uma mulherzinha que me incomoda. 

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E, por agora, mais nada. 
Apenas quero desejar-vos ainda uma sexta feita muito feliz!
(Já é sexta feira? Bolas! O tempo passa a correr.)


Rumor Civil. O Leitor no Umbral. [O ornitorrinco. O cavaco. E outras coisas]. E a mestria, o humor, a inteligência (e também outras coisas) de Nuno Brederode Santos.


Cansam-me, que é como quem diz fatigam-me, que é também como quem diz chateiam-me, algumas das crónicas habituais do Expresso. 

Como durante a semana não tenho tempo para ler jornais diários, desforro-me, ao sábado, com o Expresso. Não sei dizer se é uma necessidade se é um hábito. A questão é que posso pôr-lhe defeitos, posso achar que alguns dos cronistas são pouco dotados, pouco perspicazes, seguidistas, ou fúteis, ou que não acrescentam coisa nenhuma que, nem por isso, deixo de o ler. 

Claro que também reconheço alguns cronistas de qualidade e já aqui os tenho referido (por exemplo, o mais recente, o Padre Tolentino de Mendonça, tem sido uma agradável surpresa) - senão seria masoquista, coisa para que não tenho qualquer vocação.

Mas, de cada vez que me esforço por ler o que dizem pessoas como o Ricardo Costa (que já mal consigo ler tal a vacuidade), o Henrique Monteiro, ou outros, recordo com alguma saudade aqueles que, antes, lia sempre com expectativa elevada e nunca defraudada. Um deles era o Nuno Brederode Santos.





Hoje dediquei-me a ler o Rumor Civil da Relógio d'Água, edição já com algum tempo que reúne crónicas desses tempos. 


Uma delícia. Mas uma delícia, senhores. Há lá coisa melhor que a gente ler gente inteligente? 

(Bem, é capaz de haver mais uma ou duas mas que não são para aqui chamadas).

Vou transcrever algumas passagens para que vejam se não é verdade o que digo.

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Antes de começar, Nuno Brederode Santos deixa logo uma Advertência

Do autor ao Editor

"Outrora, os livros eram escritos por homens de letras e lidos pelo público. Hoje em dia, os livros são escritos pelo público e não são lidos por ninguém". 

Oscar Wilde

()

Seguidamente, à laia de introdução, as devidas explicações das quais transcrevo pequenos excertos.

O Leitor no Umbral


Eu não sou um analista isento, pela boa e dupla razão de não ser nem analista nem isento. Exibo-o até, às vezes, provocatoriamente; escancaro essa verdade no que escrevo; grito-o com todo o pulmão de que disponho. Não cavo esconderijos nem trincheiras. Disparo de pé, à vista de quem olhar. E duvido que haja leitor a quem tal escape.

Julgo encontrar nesta postura a minha fundamental honestidade.

É mais seguro tê-la assim - cronicando a eito, do caprichoso ao fútil e até ao mais óbvio empenhamento - do que se me armasse em analista.Podia sê-lo? Teria para isso os necessários instrumentos, como a formação, a experiência e a capacidade de violentar as minhas afectividades? Não sei. Mas claro que o podia ser aqui, neste simpático baldio que nós tão ternamente descuramos. 

Por cá é analista quem quer ou como tal se proclama, mesmo não dispondo de nenhum dos instrumentos que citei e que são a caixinha de primeiros socorros de qualquer profissional de tão santo ofício. E, se olharmos em volta, verificamos que, com um punhado de excepções, os analistas políticos não dispõem da caixinha e apenas ocultam que, tal como eu, servem solidariedades. É batota. E é essa a sua fundamental desonestidade.

(...)

(Sobre as suas crónicas) São tiros de espingarda de rolha com guita para puxar. Não fazem estrondo. Não vão além de um rumor civil.

()


E, a seguir, vêm então uma série de crónicas, praticamente todas publicadas no Expresso.

Vou limitar-me a transcrever frases soltas. Há tanta matéria interessante, actual, genial, bem humorada, bem escrita que seria impossível reproduzir aqui tudo. Tem que ser assim, em doses curtes, como se fossem uns amuse-bouche, talvez para vos dar vontade de tentarem ainda descobrir a preciosidade que é este livro.


(Sobre o extinto PRD) Não vale a pena fazer partidos para gente boa porque é atrás da gente boa que sempre anda a gente má.

(Sobre o CDS) Traz nas vísceras a ténia paciente que é o PSD (uma ténia que corrói e debilita com lenta persistência, mas que, em caso de morte, se converte num necrófago voraz e fulminante).

(Sobre nada em especial) Se Aristóteles está acima da camada de ozono, pode colocar-se a questão, desde que se ultrapasse um dilema essencial e se vença um labirinto político. Paradoxalmente, o pior labirinto é o mais simples, que é precisamente o dilema.




(Sobre um dos governos de Cavaco Silva) A manter-se tudo isto, não vai lá. Porque o eleitorado é caprichoso, mas de parvo não tem nada. O golpe de rins necessário ao PSD é o de se capacitar que não se fazem governos com técnicos, nem lacaios. (...) Que a demagogia supõe estar a gozar o povo, mas ao fim de pouco tempo é motivo de gozo para o povo. Que, moral à parte, a verdade é uma arma política excelente.

Poderá Cavaco Silva mudar tanto e tão depressa? (...) Porque ele é rápido a aprender, mas na condição de gastarem muito tempo a ensiná-lo.

(...)




Foi fácil tirar o homem de boliqueime, mas agora não conseguem tirar boliqueime do homem.

(...) 

Encaixa com rigor milimétrico num imorredouro retrato traçado por Oscar Wilde: sabe tudo sobre preços e nada sobre valores.

Há políticos europeus que, nos intervalos da governação mal sucedida, são pescadores de álibis.  Mas não conheço nenhum que esgote a governação na pesca de álibis. Cavaco é único: até pode governar sem ministros, mas nunca sem álibis  Ele nunca pode fazer o que quer, nem cumprir o que promete - porque a oposição não deixa, porque a Assembleia não deixa. A organização democrática do Estado é um sabbat demoníaco concebido expressamente para lhe deitar mau olhado e o impedir de governar.

(...)

Cá por mim, o pouco que escrevo sobre Cavaco tem, à míngua de talento, o mérito subjectivo de uma intenção pedagógica.

Só? Não. Há coisas na vida sem preço. Não me venham pedir que banalize em flácidas cortesias civis uma tão estimulante animosidade política.

(...)



(Sobre o ornitorrinco) Tratou a glória por tu. Triunfou mais do que Pompeu. Interpôs-se entre Deus e a Natureza.

Hoje é o último. Resiste ao tempo. E está uma ruína, um destroço, um cavaco.

(...)



Por tosca que seja a sua aparência e pese embora ao mito do berço humilde, o cavaco é oriundo de muito boas famílias. Ele é um Scyllarides Latus (Latreille). (...) O cavaco será tosco ou menos grácil e brioso. Custar-nos-á que não tenha nenhum sentido épico do destino, contentando-se com a duvidosa tentativa de autopertpetuação pela desova grossista. Mas é uma criatura de Deus, um animal do nosso mundo e está em vias de extinção. Os senhores deputados, que já salvaram o lince da Malcata e o lobo ibérico, não poderão fazer nada para salvar o cavaco?

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E por aqui me fico. Custa-me parar porque acho delicioso tudo o que leio. Mas os blogues não são sítios para grandes textos, não é?

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Caso queiram ler sobre um outro espécime de uma raça que parece que agora está a dar, a raça da gente cuja palavra vale menos que zero, é descerem até ao post abaixo. Maria Luís Albuquerque é desmascarada em directo por Clara de Sousa - e fica imperturbável, como se não fosse nada com ela.

A ver se ainda cá volto hoje para vos mostrar o que fiz hoje de tarde.