Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, agosto 31, 2012

'Estive a pensar que afinal acho que não são três histórias, são quatro...!'. Histórias infantis para adormecer (quem as conta). E continuo, portanto, com os meus amorzinhos pequeninos em nova noite de lua cheia


This light holds so many colours


Rodrigo Leão

*

Já aqui hoje o referi na resposta a comentários. Começo a contar histórias para adormecer, sussurrando, e, passados uns minutos, já estou a bocejar, perdida de sono, eu. Ou, então, é-me pedido que dê continuação a uma história anterior e sei lá já eu que história inventei antes...!

Ou, então, as histórias dão vontade de rir e em vez de ficar com sono, ele fica é perdido de riso.

Hoje queria a do comboio. Não fui lá de maneira nenhuma. Ou não é essa...! ou mas essa não é continuação da outra...! E, então, inventei uma história de outro comboio, a do comboio maluco que não obedecia ao senhor condutor e mal este se distraía, saía dos carris e ia para onde lhe apetecia, causando a maior confusão em todo o lado. O senhor lá ia conseguindo mantê-lo obediente mas, quando chegava aos túneis e às serras, o comboio maluco, todo ele se ria e começava a trepar a serra, andava pelos caminhos de terra, no meio das árvores, ou então começava a andar às voltas, feito doido, e andava tão depressa, tão depressa e sempre à volta, que se elevava no ar como se fosse um helicóptero. As pessoas que iam lá dentro ficavam todas atordoadas, todos com os cabelos no ar e os olhos em bico. O senhor condutor teve que o pôr de castigo para ver se ele ganhava juízo.

E depois havia um cão também muito maroto que não obedecia ao dono. O dono dizia sempre para ele não se meter nas poças de água da rua mas ele não ligava e metia-se mesmo. Um dia, numa grande poça de água ao pé de uma escola, resolveu ir tomar um banho e rebolou-se naquela poça de água. Quando chegou ao jardim e foi para o pé dos amigos cães, estes, em vez de ladrarem, desataram a rir e a rebolar à gargalhada, relva abaixo. O cãozinho não percebia o que se passava mas eles nem conseguiam ladrar para lhe explicar, só riam.  No dia seguinte o cão maroto fez a mesma coisa, foi tomar banho na água da poça ao pé da escola e depois foi para o jardim. Os amigos cãezinhos tiveram a mesma reacção, até choravam a rir, com as patas agarradas à barriga de tanto rir. Até que apareceu um gato sisudo e lhe explicou. Tu vais tomar banho ao pé do sítio onde os meninos da escola lavam os pincéis sujos de tinta e, por isso, ontem apareceste aqui todo amarelo com riscas azuis e hoje estás cor de rosa às bolinhas verdes...

Quando cheguei à terceira já estava com tanto sono que só disse, Era uma vez um gato chinês que tocava piano e falava francês. Era uma vez uma galinha chinesa que tocava guitarra e julgava que era francesa. 

Ele riu-se mas quando viu que eu, perdida de sono, já estava a bater em retirada, protestou, mas isso não é uma história... 

Lá lhe expliquei que já sabia que a terceira história tinha que ser pequenina para ele ficar a pensar em como haveria de lhe dar continuação.

Passado um bocado, eu a pensar que ele já dormia e, afinal, a chamar-de de novo, voz já um pouco ensonada: Estive a pensar que afinal acho que não são três histórias, são quatro... Por isso ainda falta uma!

Achei que mais valia ser eu a capitular e lá saíu a do coelho branco com uma orelha preta.

Depois, já perto das onze e meia, chamou-me de novo, Eu estou um bocadinho triste porque hoje o dia não correu lá muito bem... Eu há bocado queria falar mais com a mãe e tu tiraste-me o telemóvel... Lá lhe expliquei que só foi para dar um recado à mãe e que depois devolvi logo. E ele disse Então está bem. Gosto muito de ti. Boa noite e dei-lhe mais um beijinho e lá caíu, finalmente, a dormir o sono dos justos. Tinha dormido, à tarde, uma longa sesta pelo que agora à noite ainda estava sem sono.

Foi outra vez um dia e tanto que meteu cinquenta mil coisas, uma alegria, e de tarde, a seguir à sesta, de novo com os primos. 

A prima está cada vez mais orgulhosa, mais temperamental e, pior, toda dramática. Quando contrariada, fica ofendida, toda ela numas poses de grande desgosto, tragédia grega. Hoje queria comer sozinha um iogurte mas estava de pé, com o iogurte numa mão e a colher noutra e, ao segurar nele, inclinava-o e quase o entornava. Na melhor das boas intenções, tirei-lho da mão para a convencer a sentar-se para ter mais estabilidade. Ficou ofendida, tapou a cara como se nem suportasse a coisa, toda ela lavada em lágrimas, grande drama, e depois recusou-se a voltar a pegar no iogurte, deixou de me falar, ignorava-me, eu falava com ela e ela ficava como se nem me ouvisse. Até que, mais tarde, às escondidas e com a promessa da mãe que ninguém ia saber que estava a comer o iogurte, lá o comeu. 

É ultra feminina, faz umas poses muito femininas, gosta de roupas, de malas, de sapatos (e gosta de livros! e gosta de histórias! e gosta de números! - ou seja, e explico para os que ainda não perceberam: pode ser-se muito feminina e, ainda assim, não se ser desprovida de neurónios).

E tem uns olhos lindos, lindos, lindos.



.                                                                                                                                                                                                                   .



O mais crescido e a sua prima simpatizam muito um com o outro. Há bocado ela queria sair da cadeirinha onde estava a comer. E dizia 'meu pé, meu pé' porque estava com o pé preso. Mas o primo percebeu que ela queria era ver o bebé. E então, mal ela saíu da cadeirinha, foram os dois para onde o bebé estava no berço. Passado um instante tempo o meu filho foi ver o que estavam a fazer e já estava o primo a pegar nela para a pôr em cima duma cadeira para ela poder espreitar o bebé. Tudo se passa sempre no espaço de instantes.

O bebé (faz esta sexta-feira 4 semanas), felizmente, por enquanto, ainda é muito bem comportado (excepto se lhe dá a fome ou alguma dor de barriga). 

Hoje o ex-bebé, e que é o pior de todos, não esteve cá. Esse, ontem à noite, quando viu frango assado, marimbou-se para a sua comida, mas completamente, e até dava saltos para pedir frango. Pus-lhe arroz, tomate e frango assado e comeu como se não houvesse amanhã, até fazia barulhos de prazer, parecia arrulhar, tamanha era a alegria. No fim até levava o prato à boca para lamber os últimos bagos de arroz. Não tem maneiras. Mas como é completamente independente e só quer comer sozinho e ainda nem ano e meio tem, é difícil ensiná-lo já a ter bons modos à mesa. 

Mas que não fiquem vocês a pensar que são sempre uns pimentinhas terroristas. Nada disso: também têm os seus momentos de curtição musical e recolhimento literário.




Estivemos juntos até à noite, e, aí, estiveram na varanda a ver o rio, os navios iluminados, e o que são as luzinhas brilhantes? referindo-se às luzes do lado de lá e depois, com binóculos, ele a ver se descobria onde estava o Saturno e ela, numa excitação, e a lua, a lua, a lua!

E à noite o rio fica negro mas, onde se reflecte a lua, fica um rasto de luz branca. 




E o céu estava também negro e a lua, a lua!, a lua!, era um círculo branco, prateado, com pequenos pontos de luz e eu, maravilhada, fotografei-a uma vez mais e tudo, nestas alturas, é mágico, tudo parece um cenário feliz de conto infantil.

*

Tenham, meus Caros Leitores, uma sexta feira muito feliz. 
Agosto está a chegar ao fim. Aproxima-se um mês que costuma ser doce - e tomara que este Governo, feito de gente que cada vez mais se revela incapaz e desqualificada, não o torne amargo.

quinta-feira, agosto 30, 2012

Os meus meninos foram ver a arte xávega na Costa da Caparica... mas a coisa não correu como previsto. Não fez mal: a brincadeira foi uma maravilha e nem acharam que a água estivesse gelada


Uma gaivota nas mãos das crianças



Coro Infantil de Carcavelos - Gaivota


*

Hoje apenas consegui começar a olhar para o blogue depois de ter deitado e contado uma história ao meu menino mais crescido. 

Contei-lhe uma história de um menino que quis conhecer um barco por dentro e que, então, foi percorrendo corredores, descendo escadas, até que chegou a casas dentro do barco que eram quase como fábricas, com as máquinas que fazem andar o barco, e grandes cozinhas e grandes despensas porque quando o navio anda no mar é preciso fazer comida para as pessoas que estão a bordo. E fui contando.

Depois quis mais uma história e eu contei-lhe a história de uma gaivota que era amiga de um pescador e que, quando ele ia para o mar, ela ia no barco com ele, voando à volta, e ele escolhia sempre peixinhos pequeninos como ela gostava para lhe oferecer ('pequeninos porque ela não tem dentes, não é...?') e, quando ele voltava para casa, ela ficava no muro à espera dele, toda a noite ali à espera, até que ele voltasse ao mar. 

Quando me levantei, ele perguntou 'Mas a história é só assim?' e eu disse que não mas que agora ele é que ia ficar a pensar em como poderia ser o resto da história. E saí do quarto.

Passado uns minutinhos fui lá espreitar e já dormia o sono dos justos.

Antes tínhamos estado na praia, ao fim do dia. Eu tinha querido mostrar-lhes os tractores na água, os peixes.

Mas claro que estas coisas nunca saem como a gente as prevê. O mar estava agitado, grandes ondas, vento. E, talvez por isso, os tractores estavam à beira de água mas não puxavam as redes.

O tempo a esfriar e nada. E manter sossegados três pestinhas à beira de água é obra...

Chegaram vestidos, agasalhados.




Mas a tentação da água e da brincadeira era muita. E cada um a correr para o seu lado. Era eu, a minha filha e o meu filho, três adultos, portanto, e as três crianças.  E eu pensava, mas oh senhores, será  que três adultos não dão conta de três crianças...? Claro que damos mas eu ainda não estou muito veloz e isso, naquelas circunstâncias, é uma séria limitação. Claro que aproveito as minhas limitações para tirar fotografias. 




E fazia um vento frio... e nada de peixe, nada de pescarias, nada de gaivotas a quererem comer o peixe porque o peixe continuava na água. Oh senhores, mas se todos os dias tenho visto os pescadores a tirarem as redes porque é que logo hoje, nada...?

E as crianças desassossegadas, a correrem, à solta, felizes.




Até que, claro, o previsível aconteceu. O mais crescido meteu-se na água... e os outros, gatinhos copiões, na maior risota, quiseram logo fazer o mesmo. Por fim, já estavam todos molhados para desespero da mãe dos dois rapazes que tem medo que se se constipem, que andaram com tosse e que com este frio... Mas como? Querem lá eles saber de cuidados? Querem é brincar.

A solução, claro, foi despi-los para ver se não andavam com as calças e os casacos ensopados. Mas tirá-los da água...? Impossível, só à força, só levá-los em pranto. Não era caso para isso. E a brincadeira estava tão boa... Corriam atrás uns dos outros, caíam, riam, brincavam.




A maré estava vazia e tinha deixado piscinas, rios, e remoinhos, não é?, perguntava o mais crescido, contente por saber palavras difíceis.




E até apareceu no saco da mãe, que é um autêntico bazar chinês, um tractor para pôr na água, já que os de verdade estavam parados.

E vendo as fotografias até parece que estava uma quente tarde de verão mas a verdade é que era quase oito da tarde e estava um vento frio que vocês não imaginam.

Por fim, já era tarde demais, era preciso ir para casa, tomar banho, jantar.

E quando estávamos nas manobras de retirada eis que, então, reparamos que os pescadores começam a retirar as redes do mar. Parecia de propósito... só para chatear. Mas vimos de longe, paciência. Outro dia logo fazemos outra tentativa para ver lá mesmo ao lado.




Puxadas a braços, as redes começam, então, a aparecer.




Já estávamos a sair da praia, as fotografias foram feitas de longe. Vejo agora que vêm pesadas as redes, carregadas de peixe.

Cá fora vimos as redes estendidas para que os pescadores as remendem, e as bóias. Estive, então, a explicar para que serve a rede e como, assim, se apanha o peixe que, depois, se vende e se come.

E então reparei que, ao longo de toda a praia, em cada um dos altíssimos candeeiros (penso que sejam candeeiros) estava uma gaivota, como se estivessem a guardar o mar. Ou talvez cada uma tivesse um pescador por amigo e estivesse à espera que ele saísse do mar para o acompanhar até a casa, para ficar à sua espera em cima do muro da sua casa, toda a noite, toda a noite à espera..




**

E é isto, meus Caros Leitores. Tenham uma boa quinta feira. Acho que a temperatura vai subir. Por isso, se puderem, procurem também a beira do mar ou de um rio ou de um lago (ou de uma piscina ou..., enfim, de um repuxo, o que puder ser)

quarta-feira, agosto 29, 2012

Quem sou eu? Sou o que vocês pensam que sou? Sou o que oculto? Sou o que desvendo?


Love me like a river does
Melody Gardot

*



A mulher vira-se de frente, a cabeça coberta por uma espécie de véu, olha nos olhos os que, incrédulos, a olham. Sem maquilhagens, a cara lavada, os olhos bem abertos, é, um rosto talvez carente que ali se mostra. 

Por baixo da capa branca que lhe serve de véu está nua e, no entanto, olhando-a, é uma nudez virginal, imaculada, que ninguém se atreve a desejar, de tão ausente parece ser esta mulher.

A mulher tem um rosto de criança mas os lábios revelam que gostará, um dia, de beijar. Bastará apenas que experimente, que saiba como é irresistível o sabor húmido de uma outra boca aberta em desejo. 

O olhar da mulher parece puro, descoberto, parece branco como o véu que a cobre. Não terá segredos nem ocultos desejos, nem pensamentos indecentes, nem invejas a esconder. Apenas bondade, inocência.

As outras mulheres têm vontade de a proteger dos perigos desta vida, os homens têm vontade de lhe dizer que tenha cuidado, que se cubra mais, que outros há que não a compreenderão, vai menina, vai para casa enquanto é dia, vai menina cobre o corpo, baixa os olhos, sela os lábios.

E a mulher a todos ouve, com atenção e abandono, olhar puro, toda ela inocência.

Depois roda devagar, retira-se. Vai cautelosa, segue os conselhos. 

Os homens e as mulheres sorriem, piedosos, recompensados. Ainda há mulheres capazes. E tão ingénua que esta ainda é, tomara que ninguém a faça sofrer. E acenam com a cabeça, concordam, tomara, tomara, tem ar de ser tão boa moça. Pois é e sorriem, ainda há quem dê ouvidos à voz da experiência. Pois é, e sorriem, superiores, sabedores.

Quando chega a casa, a mulher olha-se ao espelho e tenta perceber a reacção dos outros. Tenta ver-se com os olhos dos outros. O que viram eles? Esforça-se. Semicerra os olhos, olha-se bem de frente. Tenta , tenta perceber. Mas não consegue.

Olha-se nos olhos e vê malícia, olha-se na boca e vê sedução, olha-se nas narinas abertas e vê cio, olha-se na simulação de véu nupcial e vê desafio, olha-se na nudez descarada de tão oculta e vê paixão, mas uma paixão tão ardente, que não percebe o que viram os outros.

Retira a capa de renda branca e fica nua perante si própria.

Esta sou eu.

Mas quem sou eu? A mulher ingénua e carente que os outros vêem ou a predadora que me conheço?

Veste-se, então, com folhos, com jóias, toda ela brilhantes, enfeites, toda ela um excesso, um foco de atenção. Poderia ser uma jovem vestida com um qualquer fato regional ou uma noiva, ou podia estar vestida para uma festa. Incomum.

E volta a sair à rua. Apesar do rosto lavado, sem uma única pintura, apesar do corpo coberto, sente-se provocante, e sabe que o seu olhar é o de um felino e sabe que os lábios se arqueiam prontos para uma qualquer palavra molhada, para um qualquer beijo acidental. E anda como se escolhesse a presa e, enquanto anda, sente o corpo a impacientar-se, na urgência de qualquer coisa.




Mas quem por ela passa não a vê, quem ela olha nem repara no laço que é o seu olhar. Ela avança, lenta nos passos, coração acelerado, olhos em fogo, e todo o corpo num frémito. Mas ninguém se vira para a olhar ou, se o fazem, é com a estranheza de quem vê alguém desrespeitando o dress code.

E, de novo, chega até onde estão as mulheres e os homens e, de novo, os olha de frente. E, de novo, nota neles um contentamento incompreensível. Ah, assim sim, assim já está mais tapadinha, assim está mais bonita. E olham como quem olha uma criança com um lindo vestidinho.

Ela sustém o olhar. Força-se a pensar que entre aquelas pessoas de olhar beatificado está o homem que quer conquistar. Quer que ele a ame com a simplicidade de que gosta: palavras francas, sorriso aberto, boca desperta para os sentidos, olhar descarado, mãos silenciosas e meigas, rápido no gatilho. Mas ele é um dos que a olham sem a verem.

Insiste no olhar que trazia e que viu no espelho antes de sair. Sabe que é um olhar que é um poço de tentações, sabe, sabe. 

E, no entanto, as velhas comentam umas com as outras que sai à mãe, é bonita como a mãe e outras, caridosas, acrescentam que tomara que tenha mais sorte que a mãe. E os velhos sorriem matreiros e dizem baixinho a mãe era mais cheia, tinha curvas, um corpo que apetecia ver. E outros, entredentes, ver e mexer... E as mulheres mais novas perguntam-se, agora, onde será que ela arranjou aquele vestido? E as jóias? Serão coisas da mãe? E os homens mais novos, entre os quais aquele que ela queria para si, sorriem, é bonita, mas falta-lhe qualquer coisa, é muito pãozinho sem sal, falta-lhe maldade

Até que a mulher não consegue manter por mais tempo a expressão e a determinação e, devagar, vencida, volta para casa.

E, de novo, se vê ao espelho. Quem sou eu? Quem sou eu, senhores...?

E, então, despe também esta indumentária, retira-se até ao recanto mais sombrio da sua casa, funde-se com a parede, fecha os olhos, fecha as mãos, baixa os braços, e as lágrimas caem. Sem que ninguém a veja, escondida até de si própria, ela desiste de si própria, sem saber como unir os bocados de que se julgava feita.

Depois, num desespero, vai até ao quarto, vai até ao espelho e pinta-se, pinta-se toda, os olhos, muita sombra à volta dos olhos, as maçãs do rosto cobertas de rouge, os lábios de um encarnado quase negro, e uma cruz na testa e flores e véus negros e veste-se toda de negro, veste-se com uma renda aberta em negro, toda ela sombras, escuridão. Olha-se ao espelho e não se reconhece. Tenta captar o olhar mas o seu próprio olhar foge-lhe. Há um negrume em torno de si que desconhece. Tenta abrir os lábios mas não consegue, estão colados, incapazes de um sorriso. Quem ficar com ela, terá uma mulher desconhecida.




E sai de novo. 

Quando vai a chegar perto daqueles homens e daquelas mulheres que antes não a reconheceram tal como ela ela se via, vai aflita, sem saber como se comportar. Sente que perdeu espontaneidade, que perdeu a sua habitual joie de vivre. Já não sabe se quer aquele homem, ou qualquer outro, ou sequer que olhem para ela. E, baixinho, um nó na garganta, interroga-se Quem é esta mulher dentro do meu corpo? Serei ainda eu, esta agora que quer ser vista como antes me sentia? 

Mas agora já não se me sente a mesma. 


*

As fotografias são respectivamente de Mario Sorrenti, Annie Leibovitz e Mert And Marcus e a mulher é sempre Kate Moss.

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E, se ainda tiverem um pouco mais de paciência para me aturar, teria todo o gosto em que me visitassem também no meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras soltam-se das estátuas feitas de distância e de segredos para voarem em volta de um poema de Natália Correia. A música é de Shostakovich interpretada pelo Quarteto Lopes Graça com Olga Prats.

*

Tenham, Caros Leitores, um belo dia (...e, se possível, sem grandes problemas de identidade).

terça-feira, agosto 28, 2012

Quando eu era pequena e ia para a escola da minha mãe, uma escola mesmo em cima do mar


A noite, o amor



Rachmaninov - Suite No.1 op.5 arr. para Harpa e Piano, Yana Tratsevskaya (Piano), Alexander Boldachev (Harp)

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Quando eu era pequena, talvez até ir para a primária, a minha mãe dava aulas num hospital. Depois mudou de escola, foi para uma escola 'normal' mas é dessa primeira escola, tão diferente, que eu guardo melhores recordações. Quando eu estava de férias da escola infantil e a minha mãe ainda andava com exames ou com reuniões, não sei bem, talvez as minhas férias começassem antes das dela, eu pedia para ela me levar. O  meu pai não gostava, tinha sempre medo de algum contágio, não queria que a minha mãe fosse lá para as actividades dela e que eu ficasse por ali. Mas eu nunca ficava bem por ali porque, enquanto a minha mãe desaparecia por aqueles enormes corredores, eu ficava sempre entregue aos cuidados de alguém.

Esse hospital era mesmo em cima do mar, mesmo, mesmo em cima. Lembro-me dele como se estivesse dentro do mar. Quando a minha mãe chegava, juntava-se com as colegas na sala das professoras; eram todas mulheres. Tinham lá as batas e, sempre no meio de conversa, risota ou segredos, contavam peripécias, proezas dos alunos, falavam das freiras que geriam o hospital e que por vezes eram pouco humanas ou falavam das vidas delas próprias, dos maridos, de projectos, de mudarem de escola, por exemplo. Sentavam-se viradas umas para as outras e esqueciam-se de mim e eu ficava a espreitar o mar enquanto as ouvia, curiosa e cúmplice. Antes de irem à sua actividade, vestiam a bata. Se estava muito calor, elas viravam-se de costas umas para as outras e despiam a roupa toda, excepto a roupa interior, e vestiam a bata sobre o corpo. Furtivamente eu reparava que algumas tinham as pernas gordas ou soutiens à velha.

Essa sala ficava num dos ângulos do edifício e tinha janelas a toda a volta que davam para o mar e espreitar o mar tão de perto era uma maravilha para mim, adorava ver as ondas a baterem com força nas rochas, adorava ouvir aquele rugido. Alguns pilares do grande e belo edifício de pedra estavam dentro de água, cravados nas rochas dentro de água. Era como se fosse um grande barco cravado nas rochas.

De um dos lados do edifício eram as grandes lavandarias. Havia sempre grandes alguidares (chamavam-lhes selhas) cheias de roupa em sabão e muita roupa branca estendida ao sol. Havia muitas mulheres sempre dobradas sobre a roupa. Para aí a minha mãe nunca queria que eu fosse, apenas via de longe, em especial da janela lá dessa sala. E era também por ali a cozinha. Desse lado, nas rochas viam-se frequentemente ratazanas, grandes. Não me fazia impressão, era assim.

Mas, do outro lado, o que dava para a secretaria e para as instalações hospitalares, ali por baixo era a praia, e era uma praia muito limpa, com rochas cobertas de limos e mexilhões e onde andavam caranguejos e havia muitas algas verdes, macias, e era aí que os meninos com problemas ósseos e que conseguiam andar apanhavam sol e tomavam banho. O meu pai avisava estritamente a minha mãe que não me queria ali mas a minha mãe não tinha medo e deixava-me ir. No entanto, eu percebia que ela não quereria que eu falasse nisso ao meu pai, pelo menos que não contasse que lá tinha estado ao mesmo tempo que eles e, apesar de muito pequena, eu tinha esse cuidado.



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Nas grandes galerias viradas a sul e ao sol, de tarde, as camas dos meninos que não podiam andar eram levadas para apanharem sol e eu também gostava de por ali andar, vendo aquelas crianças acamadas e que, com curiosidade, olhavam para mim, a filha da professora.

A minha mãe sempre foi muito dedicada e carinhosa com os alunos e desenvolvia grandes laços de afecto com essas crianças, grande parte delas oriundas do norte, de aldeias frias, sombrias e húmidas, onde havia pouco sol. As crianças tinham raquitismo ou, mesmo, tuberculose óssea. E estavam longe das famílias. Muitas vezes eram famílias pobres que não podiam visitar os meninos com frequência e a minha mãe tinha muita pena. Contava sempre muitas histórias deles e, sobretudo, relatava com orgulho os progressos que iam fazendo quer a nível da aprendizagem, quer a nível clínico. 



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Um dos meninos de quem ela mais falava, tinha também uma ligeira deficiência mental, tinha sido filho tardio, e a minha mãe falava dele com a ternura com que se fala de um filho especial. Esse não era de famílias pobres. Se bem me lembro, o pai ou um dos irmãos mais velhos era presidente de uma Câmara ou tinham uma fábrica de lanifícios, ou as duas coisas, não me lembro bem. Quando lá iam, levavam queijo da serra para oferecerem à minha mãe e uma vez levaram um cobertor de uma lã muito grossa e pesada, verde, chamavam-lhe cobertor de papa, e também uma mantinha de xadrez para pôr nas pernas. Enquanto vivi em casa dos meus pais, lembro-me de ver esse cobertor na cama deles quando era inverno e a mantinha era também muito usada quando, no inverno, se via televisão. Era a forma que tinham de agradecer à minha mãe os cuidados que ela tinha com o menino. Mas a minha mãe não precisava de agradecimentos pois estava no coração dela ser assim.

Outro dos sítios que fazia as minhas delícias e que era uma das grandes razões para eu lá querer ir, era a Secretaria. Era uma sala imensa, com um chão de soalho sempre muito encerado e reluzente. Tinha à volta grandes secretárias de madeira, com cadeiras de madeira que giravam, e cada secretária tinha uma máquina de escrever. E havia carimbos e almofadas para carimbos. Todos os funcionários estavam sempre muito concentrados a trabalhar. Num dos extremos havia uma divisória e era lá que estava o Chefe. Davam-se todos muito bem com a minha mãe e gostavam de mim, achavam-me graça. Eu era muito extrovertida, falava sem timidez e queria logo escrever à máquina. E escrevia. Punham-me, então, em frente de uma máquina linda, grande, antiga, com teclas redondas e douradas. Provavelmente era uma máquina antiga que já não usavam. E deixavam-me usar papel químico e eu escrevia textos em mais do que uma via. Como por essa altura já lia e escrevia, aquilo para mim era um sonho, escrever à máquina, os espaços, o manípulo para mudar de linha, as maiúsculas, andar para trás; depois soltar e puxar as folhas, depois assinar à mão, pôr carimbos. Depois davam-me um sobrescrito e ajudavam-me a dobrar as folhas com cuidado. Quando a minha mãe, à hora do lanche, me vinha ver já eu, cheia de orgulho, tinha obra para mostrar. E, quando chegava a casa, que importante me sentia, com tantas coisas escritas à máquina para mostrar ao meu pai.



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Depois havia o Senhor Director, um homem alto, de porte nobre, educadíssimo, um cavalheiro distinto. A esta distância tenho ideia que seria homem de alguma idade. Era seguramente mais velho que a minha mãe que era, nessa altura, muito nova. Alta, muito loura, de cabelo solto pelo ombro, olhos muito azuis e bata branca: é assim que me lembro da minha mãe nas galerias, no terraço ou na praia, sempre banhada de luz. O Senhor Director tinha um cão, um setter irlandês, de pêlo ruivo, longo, macio. O cão, quando me via, fazia uma festa e eu a ele. O Senhor Director levava-me para o grande terraço sobre o mar e ali ficava a ver-me brincar com o cão. Havia sempre gaivotas e o cão corria atrás delas e eu atrás deles. Muitas vezes, da sua sala de aulas que era, creio, uma espécie de enfermaria com muitas camas à volta, a minha mãe via-me no terraço com o Senhor Director e vinha de lá de propósito para me advertir que não devia estar a fazê-lo perder tempo ou a incomodá-lo. Mas ele dizia que não incomodava nada e ficavam a conversar um bocado. Lembro-me deles ali a conversar junto à balaustrada e eu a brincar com o cão e ele com as gaivotas, ou eu a espreitar o mar através dos balaústres de pedra ou a ver as gaivotas a voarem para longe, ou a espreitar os navios que, de vez em quando, passavam ao largo, longe, longe, quase irreais.

Aquele hospital imenso, de pedra, com longos corredores, com silenciosas freiras (e um dia ainda falarei de algumas de quem a minha mãe era amiga e que iam em missão cuidar de leprosos), grandes varandas cheias de sol e terraços e uma praia cheia de rochas, com intenso cheiro a iodo, com gaivotas sempre por perto, era, para mim, um local absolutamente mágico. Recordo-me muitas vezes destes dias maravilhosos e sempre tive o sonho de ter uma casa assim, em cima do mar.

....



.                                                                                                                                                                                                                  .

Hoje fui de novo ver a noite a cair sobre o mar. E, enquanto a tardinha, em todo o seu exuberante  fulgor, se ia transformando em noite, fui fotografando a praia, as crianças brincando, o sol a pôr-se, a luz a tingir a maresia. E lembrei-me disto que acabei de vos contar, recordações da menina que fui (e que ainda sou), sempre tão amiga de brincar na praia, de ver gaivotas, de respirar o ar puro que há junto ao mar.

Quando estava a vir-me embora reparei na lua, quase cheia, branca, feita de sonhos e de silêncio. Tão perto e tão longe quanto as nossas recordações, quanto o que fomos e ainda somos. Estendi a minha mão e trouxe-a para vocês.



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No mar passa de onda em onda repetido
o meu nome fantástico e secreto
que só os anjos do vento reconhecem
quando os encontro e perco de repente.


*

O poema no final é uma vez mais de Sophia.

As fotografias, incluindo a da lua, foram feitas esta segunda feira numa praia da Costa da Caparica. 
Uma vez mais tive o cuidado de ocultar rostos mas retirarei qualquer delas se tal me for solicitado.

*

Desejo-vos, Caros Leitores, um dia muito bem passado. 
E desejo também que acarinhem a criança que ainda existe em vós.

segunda-feira, agosto 27, 2012

Este é o amor das palavras demoradas. O amor em cujo amor me eternizei. Dia de afectos, dia de festa, dia de sorrisos - e, claro, de muita desarrumação (mas não faz mal até porque ainda é Natal). E uma artista dá os seus primeiros passos.


Um bocado de paz


Peace piece - Bill Evans

*

E então, depois, há a terra, a que me recebe nos seus recantos de sombra, a que, bravia e arisca, se deixa amar.



.                                                                                                                                                                                                                   .


Nos dias de calor, longe do mar e do rio, aqui in heaven, procuro as dobras de frescura, os lugares em que o cheiro das árvores, a caruma dourada, os langores de verão, se deitam na mesma cama, aqui onde uma outra mulher, uma mulher azul, se reclina, olhos fechados, apaziguada. Ou lê, silenciosa como eu, para que os pássaros não parem de cantar.

Percorro, depois, os caminhos de terra e pedra enquanto as cigarras cantam, ignorando quem passa. Vou sempre em silêncio, muitas vezes descalça. Se é ao fim da tarde, quase ao lusco-fusco, quase me assusto pois, de dentro dos arbustos ouço ruídos, parece alguém que se esconde, passos que correm. Mas olho e apenas vejo os ramos a agitarem-se. Penso que são coelhos. Outras vezes os ramos agitam-se com força, parece alguém a querer desembaraçar-se e fico em suspenso mas, depois, vejo que são os pássaros a soltar-se, erguendo-se num rompante em direcção ao céu.

Sigo então. A grande figueira está carregada. Os figos este ano estão miúdos, parece que o calor forte de há dias atrás os amadureceu precocemente. Mesmo os que agora vejo ainda rijinhos, pequenos, para a semana estarão já muito maduros, senão até caídos.


Uma constante este ano. Mas na natureza nada se perde, tudo se transforma, e as formigas têm tanto direito a eles como nós


Mas a figueira não dá só suculentos figos. Dá sombra e tem um cheiro delicioso. Não há melhor do que ler um livro debaixo de uma figueira sentindo o delicioso cheiro do leite e do mel que escorre dos figos.



Este é o amor das palavras demoradas/ moradas habitadas/ Nelas mora/ em memória e demora/ o nosso breve encontro com a vida



Este é um lugar habitado por poetas. Quem aqui costuma vir já os conhece. Muitos dos poetas que amo estão aqui presentes. É ao lado deles que me sento e são as suas palavras que me acompanham. A poesia não é só para ler nos livros ou nos computadores. É também para mexer e tanto que eu gosto de passar as minhas mãos por estes poemas, e é para cheirar pois não há poema que soe melhor do que os que cheiram a figos, a pinheiros, ou a erva molhada. Dentro de mim os poemas têm voz, sabor, cheiro, conheço-lhes a pele, sei como sol incide neles, conheço-lhes as consoantes em que a sombra se resguarda.

O alfazema também já está maduro e hoje apanhei alguns ramos para casa e para oferecer.

O perfume do alfazema maduro é doce, limpo, macio. 

Tenho um bule muito antigo, que era de uma avó do meu marido. É de esmalte lilás e tem amores-perfeitos pintados. Todos os anos apanho alfazema e ponho-o lá. Perfuma a sala e a cor das espigas condiz com a sua cor suave.


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Está na parte mais alta de uma estante, quase junto ao tecto.
É a única maneira do ganguezinho da desarrumação não esfarelar as espigas pois,
 vá lá saber porquê, adoram tirar-lhes as sementes.


E, por falar em ganguezinho, hoje voltou a haver festa e, como de costume, não fica pedra sobre pedra. Brincam, descobrem, desafiam-se, ajudam-se, protestam, riem, riem, riem, brincam. 




O ex-bebé apareceu ao pé de mim com uma coisa que eu nem percebia o que era. Ele levou-nos ao local: tinha retirado uma peça de uma bicicleta de ginástica que está lá num canto. E, muito compenetrado, concentrado, ali esteve a tentar colocá-la de volta. Temos engenheiro. (Oxalá a tenha deixado no sítio).




A bonequinha mais linda não pára. Espreita em todo o lado, tira do sítio, quer perceber o que é, vai mostrar, volta a arrumar mas onde ela acha mais conveniente, sempre decidida, sempre atarefada. Os primos adoram-na. O mais crescido mostra-lhe o funcionamento das coisas, explica tudo e ela ouve com a atenção que se dedica aos crescidos. Afinal ele tem quase mais dois anos que ela...!

O ex-bebé, então, acha-lhe uma graça especial e só quer mexer-lhe, fazer-lhe festas; ela quer brincar, não percebe aquela 'melguice' e sacode-o incomodada, sem paciência para bebés. Afinal tem mais sete meses que ele...!




O menino grande da família (sim, grande, já fez 4 anos, já vai para a sala dos grandes) tem o papel de explicar as coisas aos pequeninos. 

Aqui, enquanto o irmão, o ex-bebé, não pára um minuto, a prima está intrigada por já ser Natal. Ele talvez lhe esteja a explicar que não é 'já', que é 'ainda'. 

De facto, duas pequenas árvores de Natal estão ainda aqui, lado a lado. Eles acham-lhes tanta graça que não tenho coragem de as desmanchar ou retirar (ou é por isso, ou é por preguiça, não sei bem). A mais estilizada já muito depauperada pois é local habitual de recolha de estrelinhas e bolinhas. Anda sempre algum deles com um desses maravilhosos objectos coloridos e brilhantes na mão e eu descubro estrelinhas destas em todo o lado.

E depois há o bebé, o que nasceu há três semanas e que, por enquanto, ainda não desarruma nada. Mas já por aqui anda, participando na festa embora, para já, durma a maior parte do tempo. A maior barulheira, a maior confusão, luzes acesas, toda a gente a falar e a rir à volta dele, e ele, sossegado, na maior das tranquilidades.




Há sempre uma mão que lhe faz uma festa; uma ou mais, que o carinho é muito. Há sempre um sorriso ao olhar para o mais novinho da família, há sempre um gesto de ternura. 

A maninha espreita-o, protectora, e os primos espreitam-no curiosos. O ex-bebé, então, pelas expressões de admiração que faz, dá ideia de não saber o que pensar de uma coisa tão pequenina. Olha para ele com ar intrigado e depois olha para nós como se esperasse uma explicação para aquele fenómeno. Como não obtém explicações satisfatórias como que encolhe os ombros, desiste e parte para outra. 

E depois há o fascínio da bonequinha mais linda pela fotografia. Quem sai aos seus... Pega na minha máquina, que é grande e pesada mas que ela manipula com uma facilidade espantosa, tira a tampa da objectiva, liga-a, aponta maravilhada para cada pequena coisa e dispara. Muitas vezes chama-nos, encantada com os pormenores que vê - e pode ser um livro, a lareira, uma cadeira- : 'Olha!', diz-nos ela, aponta e dispara. Agora aprendeu também a fazer zoom e faz grandes planos. Outras vezes aponta na nossa direcção, diz 'Cu-cu...!' e, quando nós olhamos, dispara. Outras vezes não sabemos para onde apontou mas o resultado são peças abstractas com uma cor e um movimento que nos encantam.



Uma das muitas surpreendentes imagens da mais jovem fotógrafa que conheço.
Com dois anos acabados de fazer, máquina ao pescoço, lá anda ela vai captando o mundo tal e qual o vê, com cor, luz, movimento. E ri, orgulhosa, feliz.

*

Aqui sou eu em tudo quanto amei.
Não pelo meu ser que só atravessei,
não pelo meu rumor que só perdi,
não pelos incertos actos que vivi,

Mas por tudo de quanto ressoei
e em cujo amor de amor me eternizei.



*

Em itálico, no fim, o excerto de um poema de Sohia, senhora de muitas sábias palavras. As 'palavras demoradas' que se ouvem sob a figueira são também dela.

*

A todos vós, Caros leitores, desejo que o vosso encontro com a vida seja feliz, demorado. E que esta segunda feira seja um dia muito bom.

domingo, agosto 26, 2012

A Arte Xávega e os seus corajosos artesãos. E, em dia de caravelas portuguesas, o Rei dos Mares, a Rainha dos Mares, a Menina do Mar, os meninos da beira-mar e os solitários que precisam do mar. E o grande cargueiro que veio até à minha janela. (Post revisto e acrescentado: 'Retorno para o segredo do mar e flutuo')


Sereias, sirènes - no mar de Debussy



Ouvi depois à noite, na televisão, que algumas daquelas praias tinham sido visitadas por caravelas portuguesas e que, por isso, estiveram interditas a pessoas.

Não são embarcações, estas caravelas portuguesas, mas sim seres muito belos, de uma beleza imaterial, irreal, seres feitos de véus transparentes, feitos de quase nada, apenas quase só luz, quase só irresistível veneno.



Physalia physalis



Retiro da wikipedia que as caravelas portuguesas têm uma cor azulada e não têm movimento próprio - flutuam à superfície das águas, empurradas pelo vento, com os seus tentáculos por baixo, sempre prontos a envolver um peixe para a sua alimentação. Os seus tentáculos (que são urticantes) podem chegar a alguns metros mas ela mesma mede em media 30 cm.

A caravela portuguesa é normalmente identificada como uma medusa, mas na verdade é uma colónia de quatro tipos de pólipos. São eles:
  • Um pneumatóforo transformado numa vesícula cheia de ar;
  • Os dactilozoóides que formam os tentáculos;
  • Os gastrozoóides que formam os "estômagos" da colónia; e
  • Os gonozoóides que produzem os gâmetas para a reprodução.

Mas a Praia dos Pescadores não foi visitada por estes belos seres perigosos (como são geralmente perigosos os seres excessivamente belos). E, mesmo das outras praias, ouvi que as caravelas já seguiram para outros mares, certamente levadas pela aragem para mares mais a sul onde as águas são mais quentes.


Hoje o meu filho, referindo-se ao meu post anterior, disse-me que foi pena eu não ter falado na arte xávega, o nome deste tipo de pesca, e que é uma arte que corre risco de extinção. Referiu-me também que era pena que eu não tivesse fotografias de pescadores mais velhos.

Aqui estou hoje, portanto, para tentar reparar as duas omissões de ontem.



Preparando o barco, o Rei dos Mares,  com as cordas, antes de se fazer ao mar


Encontro na internet a seguinte definição: 

A arte Xávega é uma pesca de arrasto em que o barco sai de terra, deixando já uma corda que lhe está sempre ligada, dando a volta a alguma distância da praia deixando a rede que cerca o peixe. 

A rede puxada por pessoas, auxiliadas por tractores, é arrastada até à praia trazendo o peixe que pelo caminho encontra.



O Rei dos Mares, seguramente capaz de enfrentar caravelas portuguesas, cavalos marinhos, lobos do mar, adamastores, gigantes sem nome


E se ontem vos mostrei o jovem pescador, o 'menino do mar' (seguindo a sugestão deixada num comentário), hoje o que vos trago são aqueles que o mar marcou, aqueles que conhecem a voz das ondas, que adivinham as intenções da noite pela cor das águas. 

Mais do que a beleza escultórica dos corpos jovens, impressionam-me as marcas do tempo nos corpos fortes, corajosos, de quem já viveu muitas noites de susto, de quem já se embraveceu contra os gigantes que pela calada da noite se levantam para assombrar os homens perdidos no meio do mar, de quem já se orgulhou com as cargas de peixe trazidas do ventre das águas longínquas.



.                                                                                                                                                                                                                   .


Estive a olhá-los, estes homens que têm força, coragem e os olhos cheios de mar, os que ficam a vigiar os barcos que se afastam da costa, entrando na lonjura onde é quase noite. Ou os que caminham curvados, tanta força os corpos já fizeram, tantas cordas puxaram, tantas redes enredadas, tantas redes grávidas de tantas vidas, homens que caminham dentro de água como se caminhassem num campo florido.



.                                                                                                                                                                                                                   .


Olho com ternura estes homens valentes, sem frio, sem calor, todos e só bravura e fraternidade porque nesta lida têm que ser todos por um e um por todos que os riscos são muitos e os proveitos demasiado pequenos.

Quando compro peixe prefiro os peixes de mar, os que trazem ainda nas guelras um pouco do esforço dos homens que os pescaram, aqueles que correm riscos e cortam as mãos e vergam o corpo e rasgam os músculos, e que trazem os olhos cheios de mar e as rugas cheias de sal e a pele brilhante de escamas.

Depois, enquanto andava à beira da praia, fui reparando nas poucas pessoas que resistiam ao frescor da noite que ia caindo. São os solitários, os poetas, os que precisam do som das ondas enfrentando o silêncio do fim do dia, os que precisam de asas junto de si para que os seus pensamentos vão com elas, na liberdade dos grandes espaços.


O mar, o homem, o cão, as gaivotas e, lá bem ao fundo, o grande cargueiro que se prepara para atravessar o pôr do sol a caminho do Tejo


Pudesse eu também ficar por ali, correr à beira da água, misturar-me nos braços das caravelas portuguesas, ir para bem longe, talvez para a linha de horizonte, talvez voar com as gaivotas para respirar o ar ainda mais frio, ainda mais puro, ainda mais azul.

Mas eis que o silêncio do marulhar é interrompido por vozes juvenis que cantam e umas palmas batucadas marcam o ritmo. Vou andando. E vejo, então, uma roda de meninos e meninas. Cantam, dançam e no centro da roda dois meninos fazem capoeira, revolteiam, fazem acrobacias, o cabelo comprido de um quase parecendo tentáculos negros de uma medusa, esvoaçando ao som da música. Esvoaçam, pois, os meninos que cantam e dançam na beira da praia. 

Fotografo-os uma e outra vez. Mas já há pouca luz e eles não param, a vida dança dentro deles. Poucas fotografias ficam nítidas e, sobretudo, são só imagem, não têm o som e a alegria deste fim de tarde cantado junto às ondas.



Capoeira: a alegria exuberante dos corpos dos meninos da beira mar


Caminho. Mais à frente, sentada sozinha nas rochas, de frente para a imensidão do oceano, uma jovem olha. 

Quando chego já lá está, vou até ao fundo da praia e, quando regresso, ela ainda ali está. Talvez espere alguém que se atrasou, talvez espere alguém que não virá, talvez esteja apenas a perceber o sentido da vida, talvez apenas a descansar, talvez apenas a respirar o silêncio. Talvez apenas a purificar-se antes de um encontro especial, quando a noite apagar as luzes dos olhares alheios. Ou talvez apenas a sonhar poesias feitas de mar.



A mulher, o mar e a vida pela frente. Mais adiante um pescador e a sua bicicleta. Ao fundo, quase invisível, avança o grande cargueiro


No ponto onde o silêncio e a solidão
se cruzam com a noite e com o frio,
esperei como quem espera em vão,
tão nítido e preciso era o vazio.


Quando finalmente sou encontrada e levada de volta a casa, olho para cima. No parque de estacionamento, sobre um grande candeeiro, uma gaivota domina o espaço com o seu porte altivo e olhar vigilante. É quase noite, forço os limites da abertura da máquina para conseguir apanhá-la assim, orgulhosa, cabeça erguida. É a Rainha dos Mares.



Gaivota como eu


Hoje de manhã, logo que acordei, abri a janela da sala como faço todos os dias. Vejo o Tejo, vejo a Lisboa ribeirinha que se eleva do Terreiro de Paço até ao Castelo de S. Jorge, a Lisboa de cores suaves que se estende até aos cais de Santa Apolónia. Mas hoje tinha uma curiosidade suplementar.

E eis que, ali mesmo, à minha frente, enorme, esguio, pousado no Tejo, lá estava ele, o grande cargueiro.  

Estava seguramente à espera de maré para acostar, que o Tejo tem baixios que só os pilotos experientes conhecem. 


Grande cargueiro recém chegado à minha janela - e repare-se em como, perto dele, parece pequeno o outro navio mais à frente.
Ao fundo a bela cercadura da Ponte Vasco da Gama


E assim, depois de o azul do Tejo me entrar na sala, depois dos navios me entrarem pela janela, a casa arejada, o olhar varrido de névoas, pude, então, começar o meu dia.

Deixai-me limpo
o ar dos quartos
e liso
o branco das paredes

Deixai-me com as coisas
fundadas no silêncio



Voando no espaço imenso e intemporal onde eu e vocês nos encontramos


E agora, que escrevo, livre e limpa, penso nos que me estão a ler, nos que tantas vezes me acompanham aí desse lado, dos que sabem que os poemas que leio e as palavras que digo são as asas de que preciso para voar e que a noite é a pele de que me visto para mergulhar no fundo do mar. E penso que não estou sozinha, que vos tenho aqui comigo, que juntos estamos a deslizar no tempo, construindo uma memória cheia de enigmas e sonhos pintados de luz. E,

Retorno para o segredo do mar e flutuo
nas águas frias do oceano.
Sou peixe a dançar na melodia das águas
e suspiro pela música das ondas
ao bater na rocha íngreme da pele.

Ao longe, deslizam veleiros, brancas muralhas
contra a altivez anil do céu.
Mais perto, barcos vindos da pesca
e alcateias de gaivotas, suspensas dos ares,
aguardam tardias o banquete.

Perdido na selva azul, avisto o sol,
uma promessa silenciosa desenhada
nas encostas verdes da praia.
As águas vão e vêm
ao ritmo breve da respiração.

Se a tarde se inclina e escorrega para o mar
o sol entrega-se à solidão do poente
e os dias de infância caem sobre mim,
cheios de barcos e castelos de areia,
orquestra flamejante no concerto da memória.


*

Os dois primeiros poemas são de Sophia, a eterna Menina do Mar, e o último, belíssimo, belíssimo, chama-se Retorno para o segredo do mar e flutuo e é o 338º Poema do Viandante do Homo Viator, um blogue onde nascem poemas muito raros.

*

E, por hoje, nada mais, apenas desejar-vos um domingo muito feliz.

sábado, agosto 25, 2012

Entardecer na Praia dos Pescadores ou o prazer do que é genuíno (o mar, as gaivotas, o peixe, os pescadores, o pôr do sol, o amor)


O mar, por favor - o vento e as ondas
(o som, as imagens)

Debussy, La Mer, 3º mov.
Chicago Symphony Orchestra conduzida por Sir Georg Solti

*

O meu filho tinha-me dito que, se eu fosse ao fim do dia à Praia dos Pescadores na Costa de Caparica, poderia ver o movimento dos pescadores e a venda do peixe. Com a vontade com que ando de respirar o ar do mar, foi música para os meus ouvidos.

Assim, já era quase 8 da noite quando me vi no passeio à beira da praia. Um ar fresco, húmido, agradável, muitas gaivotas. Esta é sempre a melhor hora para se estar junto ao mar. Há uma quietude que me agrada, o tempo suspende-se até que o sol mergulhe nas águas. 

Ia na disposição de mergulhar também eu, gosto tanto da água salgada e fresca, mas perdi-me com as fotografias e, no fim, já era praticamente de noite, já estava frio. Fui arrastada, quase enfiada à força no carro. Fica para outro dia.

Quando lá cheguei, ia sequiosa. O meu primeiro olhar foi, claro, para o mar. Forte, um mar imenso, azul, denso. 

E uma imagem de pura magia: uma figura caminhava sobre as águas.



.                                                                                                                                                                                                                  .


Olhando melhor, vi que era uma mulher. Uma mulher no meio do azul, rodeada por gaivotas. Uma imagem muito bela. O que se sente quando se caminha assim, sobre as águas, cercada de belas aves que gritam, felizes e livres? Solidão? Superação? Êxtase?

Mais ao fundo, reparei depois, havia pequenos pontos brancos, muitos pontos brancos pousados nas águas. Eram gaivotas. O oceano transformado num belo lago de gaivotas. Depois levantavam voo e dançavam junto à mulher, depois pousavam e logo vinham outras. 

O que é isto? Um sonho? A felicidade mais límpida e abstracta?

A seguir, dirigi-me para a Praia dos Pescadores. Um ajuntamento colorido no areal. Barcos, pescadores, veraneantes, e peixe, muito peixe. 



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Pescadores de várias idades. Reparo agora que este pescador da fotografia, aqui, pelo físico e pela posição, parecia estar a posar (*). Mas não, tinha estado a arrumar o peixe, levantando-se para aliviar as costas e para avaliar talvez quantas mais caixas o peixe ocuparia. Dividiam o peixe pelas caixas, organizavam por espécies, e vendiam e tudo aquilo formava uma mancha muito colorida, muito vibrante. 

O cheiro do peixe fresco é muito bom. 

Quando eu era pequena, o meu avô gostava de pescar. Ia de bicicleta, com a cana a tiracolo, com uma grande cesta de verga. E regressava carregado de peixe. O meu pai, durante um período, também pescou. Eu gostava de ir com ele, especialmente quando ele ia à noite para os cais mal iluminados por umas luzes amarelas, umas luzes que eram apenas uma presença íntima naquele ambiente silencioso e mágico dos cais à noite. Mas o meu pai odiava que eu fosse, só lá havia homens, não era sítio para uma menina. Era sempre uma batalha para conseguir que ele me levasse. Eu gostava de andar por ali, gostava do cheiro, do barulho das ondas nos pilares do cais, gostava daquela luz que mais escondia do que mostrava, e gostava de sentir o peixe a 'picar', e ficava contente quando via o orgulho do meu pai quando pescava um peixe grande.

E, quando não ia, gostava, quando eles chegavam, de ver o que tinham pescado e gostava de amanhar o peixe. Como a minha avó e a minha mãe até ficavam arreliadas quando eles vinham carregados porque ficavam fartas de tanto peixe para amanhar, até agradeciam este meu estranho gosto. Gostava de escamar e sobretudo de os limpar, meter a mão pelas guelras e puxar as entranhas ensanguentadas ou de os abrir e aproveitar o fígado, se tivesse tamanho que o justificasse, ou as ovas se as houvesse e que eu sempre adorei. E ainda gosto de o fazer. Ontem comprei uma marmota e trouxe-a inteira. Em casa amanhei-a, cortei-a. Depois cozi duas postas com batatas e feijão verde fresco (e congelei a posta que sobrou). Temperei com azeite e sumo de limão. Comi a posta da cabeça que é a que prefiro, gosto de tudo o que tenha espinhas. Deixo o prato limpo como se fosse uma gata.

O cheiro do peixe fresco sempre foi, portanto, um cheiro de que gostei muito. É um cheiro que transporta o cheiro da vida no mar.



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Portanto, por ali andei, turista acidental, fotografando, cheirando, apreciando. As cavalas reluzentes, estas lulas grandes, viscosas, com uns grandes olhos, com reflexos do pôr do sol. Barcos, pescadores, pescado, mar, redes. A vida plena de cores e com forte cheiro a maresia, que coisa mais boa.

Depois, os barcos voltaram a preparar-se para se fazer ao mar. E, aí, novas atraentes imagens.



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Os tractores aqui não lavram a terra, lavram as águas. Entram pela água e arrastam os barcos até entrarem na água. 

Depois os pescadores juntam-se e, sempre em trabalho de equipa, ajudam o barco a fazer-se ao mar.



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Nessa altura alguns pescadores seguem, outros ficam em terra. Penso que uns vão deitar as redes ao largo e, depois, regressarão. Pela madrugada, irão todos recolhê-las e regressarão pela manhã ou pela tarde. Julgo que é isso.



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O jovem pescador de há pouco, com o seu corpo tisnado, forte, tatuado, foi um dos que, depois de ajudar o barco a entrar na água, ficou em terra, voltando para a separação do peixe. Mas, enquanto andava, olhava o mar, olhava, não sei se distraído, se sonhador. Talvez, em vez de estar ali na areia a separar peixe, a atender clientes e turistas, preferisse estar também a caminhar sobre as ondas, rodeado de gaivotas. Talvez pudessem andar os dois, a mulher e ele, os dois, livres, fortes e vencedores, andando sobre as águas, abençoados pelo voo generoso, quase nupcial, das gaivotas.

Talvez.

O entardecer avançava. Esta é a melhor hora. As gaivotas ficam donas da praia, o vento fica parado no ar.

E as gaivotas dançavam, voavam, namoravam. Namoravam. Em terra, no areal húmido, lavado, neste anoitecer fresco, tranquilo, as gaivotas andavam felizes como eu, namorando (porque namorar é das melhores coisas desta vida: andar em liberdade, namorar).



.                                                                                                                                                                                                                   . 


E não eram só as gaivotas. Um casal resistia ao entardecer, ao cair da noitinha, e amava-se, feliz, na maior intimidade como se a praia fosse o seu quarto. E pode o amor ser melhor do que quando os beijos sabem a maresia e quando a música é a do mar e quando os seres vivos mais próximos são as discretas gaivotas? 

Onde ficam os problemas do mundo, a mediocridade que teima em invadir as nossas praças, onde fica a prepotência das pequenas mentes que nos governam? 

Em lado nenhum. Desaparecem. Tudo desaparece em momentos assim, de plena fruição e felicidade.



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Fotografei-os tendo o cuidado de que não se visse os seus rostos, e com vontade de voltar para lhes oferecer a fotografia, e de lhes desejar toda a felicidade do mundo, e para lhes dizer que, para sempre, deveriam ser capazes de preservar a vontade de se amar nas areias, junto ao mar, quando o sol se põe. 


O sol estava quase a entrar no mar. É um momento que merece ser vivido em recolhimento e devoção.

Olhei a linha de água, do lado de Lisboa, Cascais, Sintra. Havia nuvens mas as nuvens estavam em fogo.



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Um cargueiro passava ao fundo, ao largo do Bugio, ia entrar a barra, mais logo vê-lo-ia da janela da minha casa. Estes belos cargueiros, imensos, lentos, avançam com uma grande dignidade. Cruzam os mares e, depois, suavemente, amansam e deslizam no rio, aproximam-se, com um vagar respeitoso, da bela e luminosa cidade.

Fiquei ali, feliz, mas tão feliz, desligada do resto do mundo, suspensa também eu, até que o sol mergulhou num mar quase dourado, até que desapareceu. Mas só por umas horas, felizmente.


Quando eu morrer voltarei para buscar
os instantes que não vivi junto do mar

Com certeza!

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Estes versos em itálico são da autoria de Sophia de Mello Breyner Andresen.

(*) Ao contrário do que costumo fazer, no caso da fotografia do pescador, aqui mostro o seu rosto. Contudo, vi tanta gente a fotografar que, de certeza absoluta, a esta hora já ele aparece nas fotografias de muita gente. E reparei que os pescadores convivem bem com o facto de ser fotografados. Além disso, acho que a fotografia não desmerece o jovem pescador. Contudo se o próprio vier a ter conhecimento e me pedir que a retire, fá-lo-ei de imediato.

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E, por hoje, é isto, meus Caros Leitores. 
E desejo que o vosso fim de semana seja glorioso e que, se puderem, procurem o mar e o amor.