Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, junho 30, 2012

Para a Margarida


Assim de repente, Margarida, foi o que consegui arranjar. Espero que goste.



Começo com umas delicadas arrecadas.


Ourivesaria bem portuguesa



Mas pérolas são fundamentais, levam a luz até ao olhar. Estas conjugam-se com ouro branco.


Pérola, ouro branco, brilhantes - tudo bons amigos de qualquer mulher



Mas, claro, há também os coloridos e artesanais, joviais, como estes que me parecem também muito indicados para acompanhar roupa leve e clara, de verão.


Flores, borboletas, brilhos femininos, cores suaves



Be pretty, be happy!

sexta-feira, junho 29, 2012

Sobre etiqueta à mesa...? Não, claro que não! Um americano, dois marroquinos e um holandês no Japão: três breves e irrelevantes histórias num dia verão


Música, por favor

Banda sonora de Miss Potter

*


Chegam os calores de verão e, apesar da Europa estar cada vez mais próxima do colapso, apesar da agonia que são estas repetitivas cimeiras em que se empatam uns aos outros, apesar da derrota da Alemanha no Euro,  apesar de tanto tema escaldante, só me apetece frescura.

Por isso, cá vou então, uma vez mais, deslocar-me por uma vereda tranquila, resguardando-me de calores e de escaldões. 



Mesa posta com um certo requinte



Hoje o tema tem a ver com momentos à mesa. Mas não sou especialista em etiqueta à mesa. Não sou especialista, aliás, em etiquetas de espécie alguma. Para ser, até, mais precisa, acho que nem especialista sou no que quer que seja.

Por isso, não é, pois, de etiqueta à mesa que vou falar pois é tema que, para falar francamente, não me desperta especial interesse. Prefiro uma mesa agradável, gente em sintonia, uma conversa agradável, do que gente muito composta mas com frieza, arrogância ou distanciamento na atitude.


De resto, são coisas que têm, essencialmente que ver com a cultura e com as circunstâncias. Vou antes falar de duas ou três situações que agora, preguiçosamente escapando-me do putativo programa de desenvolvimento que para lá andam a embrulhar na cimeira, me ocorreram.


. 1 .

Uma vez recebemos para almoço um consultor americano, com uma posição de topo na respectiva empresa, uma grande multinacional.

Tinham-me falado na informalidade dos americanos à mesa pelo que não estranhei. A mesa estava posta com os devidos preceitos. Pessoa com muito mundo, resolveu as coisas à sua maneira.



O típico americano à mesa


Começou por usar a artilharia ao lado dos pratos com todo o preceito europeu (digamos assim) mas, depois, à medida que o ambiente se ia descontraindo, com elegância a naturalidade foi deixando de usar a faca - até porque a refeição facilmente a dispensava – usando apenas o garfo, conversando animadamente, todo ele apoiado na mesa, quase debruçado sobre o prato (violando vários mandamentos: nunca apoiar os cotovelos na mesa, levar a comida à boca e não o contrário, etc).

Perante aquela informalidade, difícil, difícil foi, para os restantes, prosseguirem de cotovelos no ar.


. 2 .

Outra vez, na empresa, para últimos acertos negociais e fecho de contrato, recebemos uns marroquinos, um vice-presidente e um director comercial. Um era primo do rei (o rei tem muitos primos, acho eu). Tratando-se de negócio importante, todo o dia foi preparado com cuidado, incluindo almoço no último piso no restaurante da empresa. O restaurante tinha uma vista espectacular e era, à data, considerado um dos sítios de Lisboa onde melhor se almoçava. Todas as etiquetas possíveis e imaginárias eram ali seguidas à risca e devidamente adaptadas a cada circunstância.



Mesa posta num ambiente mais formal


Falei com a governanta que fazia do funcionamento daquele pequeno e privado restaurante a sua verdadeira existência, coordenando com eficiência e gentileza a cozinha e o serviço de mesa. Informei-a pessoalmente da proveniência dos convidados e dos cuidados a ter. Tranquilizou-me, colocando a mão no meu braço e dizendo que não era a primeira vez que lá tinha marroquinos. Sugeriu-me uma ementa, dizendo-me que o prato de carne podia ser arroz de pato, que era opção que, pela banalidade, geralmente não era servida mas que, dados os constrangimentos, talvez fosse uma opção segura. Pareceu-me bem.

No dia aprazado lá tivemos a reunião, ofereceram-me uma capa para documentos, em pele gravada a dourado e a verde, que ainda hoje, muitos anos depois, cheira a animal mas que é lindíssima.

À hora de almoço lá subimos, os marroquinos simpatiquíssimos, um deles verdadeiramente charmoso, tendo vivido muitos anos na Europa onde se tinha formado.



Encontrei a fotografia deste senhor na internet, acho que é presidente de uma empresa no Dubai
 mas, os que aqui refiro, eram bem este género



Falavam ambos muito baixinho, tínhamos que estar sempre muito atentos, insinuantes na negociação, afáveis, matreiros.

Tudo ia correndo na perfeição até que chegou a senhora que segurava na bandeja com o arroz de pato para que cada um, à vez, se servisse. Qualquer coisa no gesto do primeiro marroquino me fez perceber que algo de constrangedor se passava. Mas o outro continuava a falar e havia que dar atenção à conversa. Quando chegou a vez desse, percebi também o olhar hesitante.

Mas serviram-se. No entanto olhavam para o prato e, com os talheres quase como pinças, afastavam com muito cuidado, qualquer coisa. Então percebi. Era bacon! Porco, portanto. Ia-me caindo o coração aos pés. Pedi imensa desculpa e disse que ia pedir para recolher. Corteses, disseram que não. Tinham afastado os bocados de bacon sem lhes tocarem, arrastando grandes bocados de arroz. E lá petiscaram ao de leve, sorridentes e afáveis até ao fim.

Quando perguntei à governanta que distracção tinha sido aquela, ficou também para morrer. Tinha sido a ajudante cozinheira que, antes de colocar a travessa no forno, tinha achado que alguém se tinha esquecido do bacon e, então, por sua alta recriação, tinha tido a iniciativa, à última, de enfeitar o tabuleiro com tiras de bacon. E do forno seguiu para a mesa, enquanto a governante acompanhava a preparação da taça do doce e a fruta.

Lá expliquei aos senhores para que percebessem que não tinha sido falta de respeito ou desleixo. Com muita compreensão, disseram que não me preocupasse mais. Felizmente fechámos negócio.


.  3  .

Agora é muito frequente haver restaurantes de comida japonesa. Desde as melhores (Estado Líquido, Bica do Sapato, etc) até às mais populares, passando pelo take.away, comida japonesa é o que não falta. Mas há uma dúzia de anos ou mais não era usual.

Em tempos trabalhei durante algum tempo com um consultor holandês simpatiquíssimo. Era solteiro e gostava de conhecer destinos longínquos pelo que, antes de estar em Lisboa, tinha estado na Argentina, nos Estados Unidos, etc, e vários anos antes, no Japão.

E gostava de aceitar trabalhos que lhe permitiam viver um ou dois anos em cada local para ficar a conhecer razoavelmente o país.

Contava histórias engraçadas, variadas, era uma pessoa interessante, um contador de histórias.

Mas agora, como estou numa de histórias à mesa, conto o que ele contou que lhe aconteceu, quando chegou ao Japão.

Chegou lá e começou a trabalhar com um japonês, homem novo, simpático que, para o ajudar na integração no País, o convidou a ir almoçar a casa dele para conhecer a família.

Quando ele lá chegou estava a família inteira à espera dele, a mulher, irmãos, primos, pais e até o filho bebé. Todos sorridentes à espera do grande holandês louro e bem disposto. Uma hospitalidade que ele não esperava.


Claro que esta não é a família aqui referida, esta é imperialmente conhecida
mas, presumo, o espírito seria o mesmo


Depois foram para a mesa, aquele ritual conhecido. E ele viu-se perante uma mesa cheia de tacinhas, tacinhas com coisinhas, rolinhos, montinhos de uma coisa que lhe pareceu peixe cru, rodelinhas que pareciam flores e nem percebia se aquilo era para comer, ou como é que se comia, ou se devia servir-se de uma coisinha de cada. Não sabia. E a família inteira olhava para ele, sorridente, expectante.



Comida japonesa
(adoro!)


Então viu uma tacinha com uma coisa que lhe pareceu mais segura e foi a essa que, corajosamente, deitou a mão.

Gargalhada geral: era a papa do bebé.


**

Bem. Se não estão ainda cheios de fome e estiverem para isso, gostaria de vos convidar a visitar-me também lá no meu Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje as minhas palavras despem-se, quase obscenas, junto à Torre de Belém junto de um poema do novíssimo livro de Nuno Júdice, Fórmulas de uma luz inexplicável - ao som, claro, de Heitor Villa-Lobos.

**

E, meus Caros Leitores, tenham um belo dia. É sexta feira!

quinta-feira, junho 28, 2012

As vizinhas


Música, por favor

Osvaldinho da Cuíca - Minha vizinha



Na rua onde moram os meus pais, moram ainda muitos dos vizinhos da minha infância.

A maior parte são, pelos restantes, referidos pelos nomes. Apenas uma via o seu nome antecedido pelo seu inegável estatuto: vizinha. Era a Vizinha Beatriz. Quando eu era pequena, ela vivia com um segundo marido, um homem apagado a quem apenas me lembro de ver sorrir, não de falar, e com um filho que era uns bons anos mais velho que eu. Ao filho nunca me lembro de ver comportamentos típicos de rapaz, irrequietudes de qualquer espécie. Era, também, uma simpática sombra silenciosa. Depois empregou-se, a seguir casou-se como uma jovem mulher franzina e sorridente. Mais tarde o padrasto morreu e, tempos depois, foi a vez da mãe, a Vizinha Beatriz. Filho único, herdou a moradia e é lá que ainda vive, simpático, prestável, calado, ele e a sua mulher igual a ele.

É a antítese do que era a Vizinha Beatriz. Enquanto lá vivi e quando lá voltava de visita aos meus pais, sempre a conheci igual. Miudinha, ensimesmada. Sabia tudo o que se passava na rua. Pelo que se percebia quando falava e nisso revelava não ser muito inteligente, quando não estava no jardim, estava por dentro das janelas a ver o que se passava na rua. Quando o ângulo não o permitia, quando lhe parecia ser pitéu especial, ela não resistia e, de regador na mão ou vassoura, vinha para o jardim ver ou ouvir melhor o que se passava e, tão vidrada fixava, que até se esquecia de disfarçar, parada e atenta de regador ou vassoura no ar. 





Não é a Vizinha Beatriz, em velha, mas quase podia ser. Trata-se, de facto, de uma Fotografia de Rua
da autoria de uma mulher cujo legado muito admiro: Vivian Maier, (1926-2009)
fotógrafa amadora americana



Ao cumprimentar a vizinhança, frequentemente arranjava maneira de meter conversa e então era um tal desfiar de críticas, censuras primeiro veladas, depois acirradas. Tudo o que os outros diziam ou faziam estava mal, via falta de educação ou quebra de etiqueta ou falta de interesse em toda a gente. Tudo o que qualquer um fizesse era merecedor de reparos azedos, sempre uma expressão de acinte, colocando-se, a ela própria, sempre num plano superior.

E, no entanto, pobre coitada, sempre amarga, sempre consumida, nunca dali saía, debruçada sobre si própria e sobre o que via apenas a partir da sua casa.

Todos falavam dela com uma certa comiseração, coitada, tão metediça, sempre azeda, armada em superior, mas superior em quê, coitada? mas, por consideração, nunca deixaram que ela se sentisse inferiorizada.

Lá se foi, convencida que era melhor que todos os outros.Foi-se mas deixou uma herdeira.

Em frente da casa da minha mãe há uma moradia onde mora desde sempre uma senhora muito simpática, sem idade, ar jovem, igual há décadas, cabelo louro platinado pelas costas, calças justas, túnicas coloridas, carro desportivo. Não teve filhos, enviuvou cedo, voltou a arranjar companheiro que, pela sua actividade, de vez em quando se ausenta. Tem, há muitos anos, também uma pequena caniche de pelo preto ondulado que passa grande parte do tempo à janela. Acho que não é caniche, se calhar é uma terrier. Eu chamo-lhe caniche porque é pequena, nervosa, peluda, sempre muito arranjadinha.




Não é a herdeira da Vizinha Beatriz mas quase podia ser se tivesse o pêlo preto e levemente ondulado


A caniche chama-se Lili e ladra sempre que alguém passa na rua, especialmente se não é presença assídua. Quando a minha boxer de pêlo dourado, grande e meiga, ia connosco visitar os meus pais a Lili passava-se. Ladrava num histerismo agudo. A minha ignorava-a. A outra num desmando descontrolado e a minha como se nem desse por isso. A dona assomava à janela, cumprimentava-nos, sorria como que desculpando-se dos vinagres daquela meia leca irritadiça e zangava-se com ela ‘cala-te Lili, mas para que é isso?’ mas a Lili não conseguia conter-se, era mais forte que ela. 

Há agora um cão grande claro, um labrador, alegre, doce, que, quando nos vê, sai do jardim dos donos para nos vir cumprimentar efusivamente, dando ao rabo. Aventura-se pela rua, chega-se a nós, fazemos-lhe festas e ele derrete-se, falamos com ele e os seus olhos cor de mel todos se riem. Enquanto isso, aquela pequena vizinha, sombria e azeda, lá está à janela, a ladrar freneticamente, numa irritação incompreensível. Quando abre a porta, a minha mãe queixa-se, 'aquela Lili não tem remédio, sempre zangada com o mundo'.

Mas é assim, numa rua pequena, seja ela real, seja virtual, parece ter sempre que haver uma vizinha.

Felizmente, onde vivo, é coisa por cuja existência nunca dei. Ontem, ainda em casa, no cativeiro, todo o santo dia ouvi um barulho estranho vindo da rua. Ia à janela e não via nada que o justificasse. Até que, intrigada, me debrucei mesmo e vi uns andares abaixo uma rampa metálica por onde subia mobília a partir de um carro de mudanças encostado ao prédio. Não faço ideia para que andar, deve ser gente nova, não dei por que estivesse algum andar à venda. E se alguém entra, é porque alguém saíu. Pois não faço ideia de quem tenha sido, não conheço a maior parte das pessoas. Aqui, haver alguém a olhar para o que os outros dizem ou fazem é coisa que não existe. Felizmente.

No local onde trabalho é a mesma coisa. Nunca vou no elevador com as mesmas pessoas, cumprimentamo-nos sem fazer ideia de quem seja. Cruzo-me com gente que parece saída da capa de uma revista, ou executivos de primeiríssima água, ou gente excêntrica, ou gente que parece estar dentro de uma telenovela, portugueses, estrangeiros. Tudo natural. Conheço, claro, as pessoas que habitam o  espaço mais circunscrito onde me encontro mas é tudo gente que tem mais que fazer do que olhar para os outros.








E, se ainda fumasse, coisa que, em boa hora, deixei há uma meia dúzia de anos, seria assim, numa varanda
como esta, que eu estaria
 - e estou certa que ninguém se daria ao trabalho de criticar
(A fotografia, como é bom de ver, é de Helmut Newton)




Moral da história? Não há, não gosto de moralidades.

Mas, está bem, uma conclusãozinha: se bem que eu  seja imune a manifestações desse género, para quem o não seja e tenha a pouca sorte de cair num meio pequeno, reconheço que é uma coisa maçadora uma pessoa estar sempre a ser observada e criticada por uma qualquer vizinha, chame-se ela Beatriz, Lili ou outra coisa qualquer.

*

Saíu longo o texto, outra vez. Desculpem-me, começo a escrever e distraio-me.

Mas, enfim, se depois desta vizinhança toda ainda estiverem para isso, muito gostaria de vos ter lá no meu Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje as minhas palavras olham-se ao espelho questionando-se sobre o tempo que passa depois de ler um poema de Frederico Lourenço. A música que, se me permitem a sugestão, deverão pôr a tocar antes, é um Choro de Heitor Villa-Lobos.

*

E, claro, desejo-vos a todos uma bela quarta feira. Haja alegria e saúde!

quarta-feira, junho 27, 2012

Flores, mulheres, fotografia, poesia, música ('artistas convidados': June Tabor, Irving Penn, Herberto Hélder)


Música, por favor

June Tabor - Where are you tonight



Flores. A efémera beleza das flores. A fragilidade das flores. O colorido puro das flores. O perfume natural das flores. A natureza feminina das flores. A natureza substantiva das flores. Das mulheres.





Uma flor. Aparentemente frágil. Forte. Transparente às vezes. Uma flor de seda. Uma mulher coberta de seda, ou de flores. Ou de pudor. Ou de desafios disfarçados de pudor. As pétalas da verdade que apenas se sugere, as dobras da paixão.





Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.


E então a mulher, vinda da noite, a mulher despe-se, sorriso velado, seios impúdicos, olhar destemido, a mulher avança devagar. 


Sou flor, sou efémera, sou carne, atravessei as águas, a noite, as raízes, passei pelas chamas que ainda trago em mim. Cheira-me. Cheiro a terra, a flores, a leite. Olha como entreabro os meus lábios. Escuta as minhas palavras ditas com o silêncio dos meus olhos. Percebe o meu corpo.




Não me olhes. Os segredos são meus. Quero ver-te sem que me vejas, quero possuir-te sem que me possuas. Sou bicho da noite, saí da floresta mais ancestral, daquela em que os bichos correm como loucos, acasalam, uivam e gemem e riem, sou ave livre, sou louca, serei tua. Quando eu quiser serei tua. Não me obedeças. Olha-me.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza.


Esta é a minha substantiva natureza e nada mais posso dizer. As palavras voam em minha volta como aves, como plumas, não as retenho. Toma-as para ti. Banha-te nelas, mostra as minhas palavras nas tuas mãos, mostra-me como se aninham junto ao teu corpo.




Sou flor, sou bicho, sou água, sou espírito e ventre e seios e boca. Talvez mais. Ou não. Não quero saber. Sei pouco. Gosto de pensar que tenho tudo para saber. Não quero saber das regras da semântica, dos preceitos da moral. Não quero saber. Sinto o meu sangue, as minhas sementes, as minhas pétalas, as minhas penas negras e macias. Escondo-me, mostro-me, olho ao longe, chamo-te. Não me ouves? Que gesto é este meu? Não percebes? Vá, escuta-me, sente-me, aprende-me.

Anda devagar, sobe o degrau de seda, desfolha-me, cheira-me, colhe-me. Venho de dentro do mar, de dentro das árvores, sacudo a terra, sacudo as sombras, solto a exuberância de ser mulher. Vou receber-te.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo. 


Meu amor. 


*

As fotografias são de Irving Penn (1917-2009), americano, grande fotógrafo de flores e de mulheres. Os textos em itálico são excertos esparsos do poema O amor em visita de Herberto Hélder.

Se ainda vos apetecer, gostaria muito de vos ter também lá no meu Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje as minhas palavras descobrem-se por momentos em volta de um poema de João Miguel Henriques. Se lá forem, permitam que vos sugira que coloquem logo a tocar a música, belíssima, de Heitor Villa-Lobos.

*

Tenham, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira!

terça-feira, junho 26, 2012

Este calor africano levou-me de volta a Angola e depois, para me refrescar, fui até Paris e depois fui visitar os Castelos do Reno - de comboio, que é mais romântico


Música, por favor (e, já agora, atenção às imagens, lindas)

Duo Ouro Negro - Amanhã


*

Aqui a casa, chegam-me notícias do calor. Para o confirmar, desloco-me até à janela, abro o vidro e entra-me um calor africano. Há uma neblina quente sobre o rio que hoje esteve quase sempre em tons cinza, levemente verde patine, embora, à noite, um tom levemente rosado tenha aflorado às faces do céu, nas margens. A cidade parece parada, o rio parado, as cidades do outro lado são manchas envoltas numa nuvem de ar quente, imóvel.

Fez-me lembrar o mês que, há alguns anos, passei em Angola. 



A Baía de Luanda


Sem quaisquer laços familiares que me liguem a esse País e sem antes ter estado em África, foi com espanto e empatia que viajei por várias cidades, grande parte delas encostadas à água, por estradas imensas de terra no meio da qual árvores imensas, escultóricas, se elevavam no meio do pó e do calor. 



As belíssimas árvores de Angola - imagens que nunca vou esquecer


O tempo estava sempre quente, húmido, denso, o meu cabelo ficava empastado e, durante todo o dia, eu ansiava por me sentir debaixo de água. Quando finalmente o conseguia, nunca me parecia o suficiente, aquele calor parecia ter-se impregnado na minha pele, no meu cabelo que se colava às minhas costas.

Mas uma coisa também é certa: uma terra quente é uma terra cujo calor liberta os corpos. Via-se isso nas ruas, nas esplanadas, nas praias e senti-o eu própria. Qualquer roupa parece excessiva e os olhares tentam facilmente a aproximação.

Imagino a diferença tremenda que, em tempos, os chamados retornados sentiram quando, vindos de países imensos, quentes, de hábitos permissivos, chegaram a esta acanhada nesga, temperada, maioritariamente moralista.

Habituo-me facilmente a cada nova realidade mas, apesar de ter gostado imenso da minha curta estadia em Angola, devo dizer que tempo tão quente, tão húmido, tão pesadamente abafado, me causa algum desconforto.

*

Música, de novo, por favor

Carla Bruni - Quelqu'un m'a dit



E, ao pensar nisto, veio-me à memória um outro passeio, outros locais, outros meios de transporte, outras temperaturas.

Há algum tempo, por motivos profissionais, o meu marido tinha que ir frequentemente a Paris e, sempre que possível, eu acompanhava-o. 



Avenue des Champs Élysées - as noites iluminadas da altura do Natal



É cidade de que apenas não gosto muito nos meses de verão em que a cidade me parece algo estranha, parece que perde a graça, grande parte do que é a vida típica de Paris parece esvair-se, não se vêem parisienses, apenas imigrantes e turistas. De resto, seja nos meses de frio agudo e neve, seja no período iluminado e festivo que antecede o Natal, seja na primavera, Paris é uma cidade maravilhosa onde me sinto muito bem.

Uma das vezes em que íamos, defrontámo-nos com uma greve de controladores aéreos, não me lembro se de cá, se de lá. A viagem de carro estava fora de questão pois, pelos dias de que dispúnhamos, teria que ser feita de seguida, o que seria muito cansativo. O meu marido teve então a ideia de irmos de comboio, de Wagon Lit. 



O conhecido símbolo dos Wagons-Lits



De início, a ideia pareceu-me insólita mas, depois, comecei a achar uma ideia fantástica. E foi.

Para quem já tenha tido a experiência, saberá do que falo. É uma viagem confortável, tranquila, idílica. A ideia de romance pode ser associada, mesmo sem recurso a grandes imaginações literárias, a uma viagem a dois a bordo de um comboio que disponha de todas as condições de conforto.



Para os distraídos: claro que não somos nós,
claro que é Catherine Deneuce e Roger Van Hool, o casal apaixonado do filme La chamade



É um conforto em casinha de brincar, é o convite à intimidade em viagem, é a partilha das visões que se vão desenhando através da janela, a paisagem como um filme variado visto com a noção da velocidade, a beleza mais breve, mais efémera que nunca, e a beleza aparece-nos com as suas consecutivas mutações, o norte de Espanha, os túneis, os bosques frescos de cedros imponentes e o maravilhoso País Basco, França luminosa a descobrir-se a seguir. Lembro-me do meu encantamento à noite e lembro-me do meu marido me acordar para ver o nascer do sol no meio de um campo florido. 

Tínhamos a cama com janela, tínhamos casa de banho, tínhamos sofá (provavelmente era a cama, antes de estar montada como tal mas não estou certa), e ler um livro naquele cenário sabe tão bem. E havia um restaurante simpatiquíssimo, o serviço até com um certo requinte. Tudo mesmo muito bom.



Wagons-Lits - O restaurante 


Uma das viagens mais interessantes que já fiz. Mais tarde viríamos a repeti-la num percurso mais curto e o encantamento foi o mesmo. 

Uma outra vez fiz o percurso entre Düsseldorf e Frankfurt também de comboio. É uma viagem linda que abrange a zona dos Castelos do Reno, e todo o percurso nas margens do Reno é de um lirismo, de uma harmonia, com descobertas de mais imagens fascinantes a cada suave curva em que se entra... E depois passa-se por Colónia, vê-se a extraordinária catedral. Que beleza tudo aquilo, que bom é viajar calmamente de comboio por sítios assim. 

Penso que não é a primeira vez que aqui o refiro: as viagens de comboio proporcionam passeios maravilhosos. Avessa a cruzeiros, a excursões de qualquer tipo, desinteressada por praias paradisíacas ou destinos turísticos badalados, o meu ideal de férias perfeitas passa muito por coisas como estas que referi. Ou isso, ou simplesmente andar de carro, parando, passeando, sem pressa. 


*

Caso ainda tenham disposição para isso, gostaria muito de vos ter de visita lá ao meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras saem do rio para murmurarem junto a um belo poema do novo livro de Casimiro de Brito. Será bem melhor se for ao som da maravilhosa música de Heitor Villa-Lobos.


*

Apesar da canícula, tenham, meus Caros leitores, uma bela terça feira.

segunda-feira, junho 25, 2012

Eu, no alto da minha torre, rodeada de azul, recebendo a visita das gaivotas


Música, por favor

Heitor Villa-Lobos, 5ª Bachiana Brasileira - Amel Brahim Djelloul, soprano e Gautier Capuçon, violoncelo

*

Impedida que, neste momento, estou de sair de passeio dando largas ao meu lado de gata vadia que gosta de andar pelas margens do rio, olhando as larguezas e os navios que passam, ouvindo o lancinante  lamento das correntes dos barcos atracados, aspirando a maresia cheirosa e fresca, levanto-me de vez em quando para, da janela, olhar o grande espaço que se desdobra perante mim.

Podia já estar habituada a tanta beleza mas não estou. 

Abro a janela, sinto o ar do exterior e olho a toda a volta. Se o céu está limpo, os horizontes expandem-se e o meu olhar vai até muito longe.

Como posso eu alguma vez prender-me a minudências se o meu olhar está habituado a ver longe, tão longe?

Ontem eu estava encantada porque o rio estava provocantemente azul, porque o céu reflectia o rio.






A rive gauche e, no rio, azul, azul, um veleiro tão elegante, tão belo, com umas velas tão brancas.
E reparem no pequeno ponto escuro no canto superior esquerdo



Gosto de ver os veleiros, gosto de ver como as velas se arqueiam, se dobram e desdobram e se enchem de vento. Quando o vento está de feição, num instante os veleiros atravessam o rio, atravessam prédios e eu, se estou com a máquina a fotografar, tenho que esperar que saiam de trás dos telhados e apareçam de novo, garbosos, ligeiros.






Um outro veleiro se junta ao primeiro e ao fundo há outros pequenos veleiros brancos e há as serras,
subtis, esbatendo-se para não roubar protagonismo ao Tejo, destacando-se a de Palmela



Por vezes passam navios de passageiros e deixam um rasto de espuma branca. À pressa, fotografo esses rastos efémeros que atravessam o rio. As velas brancas, as casas brancas do lado de lá e os rastos brancos são breves pontos de luz que brilham neste vasto espaço azul.

Logo a seguir passam três apressadas figurinhas, três graças, três senhoritas atrasadas para a missa.






Com que pressa atravessaram estes barcos o Tejo, alinhados e eficientes, indiferentes à beleza  da paisagem



São os pequenos rebocadores que ajudam a acostagem e as manobras dos grandes navios. Estes já tinham cumprido a sua missão, estavam de regresso a casa e assim percebi a pressa que levavam.

Olhei então na direcção do Barreiro e do Lavradio. Onde antes havia fábricas, chaminés mostrando a laboração, há agora armazéns, centros comerciais, casas. Subsiste apenas uma ou outra unidade que ainda resiste teimosa. Mas nada, nada que se compare à actividade de anos atrás. Ali funcionava o núcleo histórico da indústria portuguesa, o núcleo duro da cintura industrial.






Grande cargueiro, certamente à espera de vez para acostar. Por trás a zona anteriormente industrializada
do Barreiro/Lavradio



Visto de longe, agora vêem-se apenas os grandes tanques de líquidos, combustíveis, óleos, etc. Pode pensar-se que não haver fumo é bom para a paisagem e para o ambiente. Mas sabemos o que isso também significa: não apenas milhares de postos de trabalho a menos mas, sobretudo, uma quase total dependência das importações. (Além disso, nos últimos anos, grande parte das vezes o fumo que se vê nas instalações fabris é apenas vapor de água).

Mas, se repararam no pequeno ponto escuro na primeira fotografia, digo-vos agora: ao longo de todo este tempo, eu estava a seguir o voo da gaivota que ali andava, volteando, dançando como uma louca. Seguia os veleiros, rodopiava, vinha até à margem, voltava ao rio. E eu a segui-la, as fotografais desfocadas tal a rapidez com que ela, gaivota livre, deslizava no ar.







Ei-la, a gaivota de longas asas, voando na minha direcção, belíssima, belíssima, deslizando livre, livre


Até que, num instante, num brevíssimo instante, voou para cá e maravilhou-me durante largos instantes aqui, à minha frente, tão rápida, tão perto. E eu que, naquele momento, não esperava tão inesperada visita, senti-me  agradecida, emocionada, obrigada, obrigada, e era como se eu voasse com ela, bailarina intangível, ser magnífico, ser alado com uma alma igual à minha.

Depois deu meia volta e regressou ao Tejo. Fechei então a janela e regressei também ao meu poiso.

*

Se estiverem para aí virados, teria todo o gosto em receber-vos também lá no meu Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras pousam num ombro, como um sonho, em volta de um poema de Inês Dias. E dou início à semana dedicada ao compositor Heitor Villa-Lobos, uma maravilha.

*

Finalmente, os meus votos: tenham, Caros Leitores, uma semana muito boa, começando já esta segunda feira. 
Que se rodeiem de beleza e de graça e que se sintam abençoados é o que vos desejo.


domingo, junho 24, 2012

Eu e o futebol. Jogadores a destacar no Euro 2012 (para além de Cristiano Ronaldo, no que se refere a marcar golos): Bruno Alves na Selecção Portuguesa e Samaras na Selecção Grega e, a propósito, lembrança de Zinédine Zidane. E, em adenda, duas proezas, uma a cargo de Passos Coelho e outra de Paulo Portas.


Música, por favor

Sérgio Godinho - Espectáculo



Bem, agora que já é conhecido o adversário de Portugal nas meias-finais, acho que devo falar no Euro-2012 a fim de tecer considerações importantíssimas sobre a temática e a fim de publicar os meus votos para os resultados. Qual saudoso polvo Paul, poderia também dizer que talvez ganhemos o próximo jogo por um golo a nosso favor e também por um o seguinte, mas deixo isso para bichos mais videntes (ou visionários?) que eu.



A minha relação com o futebol é digna de ser relatada agora, no dealbar da silly season

Não consegui ainda entender quando é que um jogador está fora de jogo, nem quando é que o que fazem dá direito a livre ou a coisas do género. Se pergunto dizem-me, desdenhosos: 'Esquece, desiste. Nunca vais conseguir perceber' e eu desisto porque o interesse na matéria esmorece facilmente.

Mas, quando a nossa Selecção participa em campeonatos como este, fico interessada durante os jogos em que participa. Fico interessada é uma forma generalista de falar porque, verdade, verdadinha, o que acontece é que me distraio permanentemente e, por isso, tenho sempre outra actividade entre mãos. Mas, mal na sala se ouve uma respiração agitada, gritos, impropérios, ou se, pela toada dos comentadores, percebo que há risco ou golo em perspectiva, então desperto e empolgo-me e, se Portugal mete golo, fico toda contente.

Tirando isso, durante os outros jogos, dou uma espreitadela displicente a ver se há algum motivo de interesse.

Já agora: na nossa selecção também há mas vocês, se lêem com atenção o que aqui escrevo, já devem ter percebido que me refiro ao Bruno Alves. 



Bruno Alves em campo - uma presença que se impõe 


Em tempos, se a França jogava eu prestava atenção ao que se passava em campo: passava-se o Zidane. 



Zinédine Zidane, que entretanto já completou 40 anos


Eu achava-o (e agora ainda o acho mais!) um homem interessantíssimo. Por essas alturas foi feito um inquérito internacional e ele aparecia como o homem mais sexy do mundo. Pois claro. Nestas coisas, os meus gostos alinham pelo gostos das maiorias.

Pois este ano descobri outro que, na actualidade, é capaz de destronar o Bruno Alves. Trata-se do Giórgos Samarás (e só não me arrisco a escrever aqui o nome em grego com receio de trocar as mãos e ainda me sair alguma inconveniência), é grego e é um rapaz de 27 anos e 1,89 m de altura. 



Samaras - dá gosto vê-lo em acção. Pena que já não jogue mais no Euro 2012 .


Marcou o golo da  Grécia contra a Alemanha e mostrou uma raça cheia de graça. Ainda não destrona o Zidane porque lhe falta aquela sagesse que adquirirá com o tempo, já que ainda é muito novinho, mas eu acho que tem potencial, tem, tem. 

E sobre este campeonato não me ocorre mais nada a não ser que era bom que batêssemos a Espanha e que  a seguir fossemos mostrar à Merkel que, afinal, em Portugal não somos todos uns lambe-botas (podia usar outra palavra que não botas mas não sou uma mulher do norte, pelo que só estou habituada a usar linguagem de salão). Ou seja, reformulando: gostava que ganhássemos o Euro 2012, claro, e teria um saborzinho gourmet se a vitória fosse contra a Alemanha.

+ + +

Adenda: enquanto escrevo estou a ver o telejornal e acabo de ouvir duas coisas fantásticas. 

A primeira foi Passos Coelho já a admitir mais medidas de austeridade - mas não é a isso que me referia pois ele não sabe fazer mais nada senão aumentar impostos ou cortar ordenados pelo que, tendo implementado medidas que deram para o torto é natural que, esperto como é, opte por voltar a fazer o mesmo. Não: o meu espanto foi ele ter usado a palavra quaisquer, usando-a correctamente como plural de qualquer. Fiquei espantada. 



Paulo Portas e Passos Coelho - os líderes dos dois partidos do Governo,  ou seja,
os dois principais responsáveis pela Governação e pelo estado da Nação



A segunda foi ter ouvido alguém a falar um espanhol perfeito, cheio de eloquência, até usando inflexões guturais como um genuíno espanhol ou um mexicano - dizendo que se quisessem vir para Portugal com os bolsos cheios ganhariam logo um visto permanente ou coisa do género e gabando-se de estar sob tutoria como se fosse uma coisa boa, a mesma que fez os anfitriões tirarem o pé da lama - parecendo-me ser a voz de Paulo Portas. Olhei e era mesmo. Acho que estava na Colômbia. Então não é bom estarmos aqui a mando da troika, hombre? Por supuesto! 

*

E é isto.
Tenham, meus Caros, um domingo muito bom!

sábado, junho 23, 2012

Vítor Gaspar assume derrapagem mas, pelo que disse, acho que ainda não percebeu porquê. A Popota Merkel , agora em versão hooligan, começa a virar o bico ao prego e já apoia o desenvolvimento (e ainda bem!). E Joana de Vasconcelos, a nossa Princesa em Versailles, enche-nos a todos de orgulho.


Música, por favor


Vira do Minho - Vira e torna a virar




Vitor Gaspar, o homem que não atina com os números: a realidade teima em não se comportar
 como os  modelos que ele engendrou, o que não admira pois, para fazer modelos económicos,
é preciso ter conhecimentos teóricos e práticos, não apenas teóricos


Com ar maçador e sem pitada de graça, ficando a milhas da piada de Manuel Marques quando o imita, o ministro-que-não-acerta-uma, Vítor Gaspar de seu nome, lá apareceu outra vez a confirmar aquilo que toda a gente com dois dedos de testa, toda a gente menos ele, já tinha adivinhado há muito tempo: que, apesar da espoliação aos contribuintes, os valores das receitas fiscais estão aquém do que estava à espera, que o défice está em risco, que a autonomia financeira do país está em risco na data prevista e que os nossos parceiros da Europa nos irão ajudar quando precisarmos.

Ou seja, um fiasco em toda a linha. Nem mais: as políticas de Passos Coelho a conduzirem o País à miséria, ao desemprego, à ruína, às falências em cadeia... e para nada.

Desde o início que aqui tenho dito - mas não é esperteza privativa minha pois, por todo mundo, muitas e muitas vozes, incluindo prémios Nobel da Economia e os próprios gestores do FMI, têm alertado para o mesmo - esta política absurda de cortes em cima de cortes, sem qualquer incentivo do lado do investimento, gera um tal desequilíbrio estrutural que só podia mesmo gerar recessão em espiral, em que a austeridade gera recessão que, se for combatida com mais austeridade mais recessão vai gerar e assim sucessivamente. O vazio a atrair a realidade a uma velocidade vertiginosa. 



Quanto mais a desgraça alastra mais Passos Coelho se ri com as graçolas do Vítor Gaspar
Penso que julga que este é um humorista, que o que diz são piadolas, acho que o confunde com  o
Manuel Marques - e também ainda não percebeu que o Manuel Marques é bom demais para se meter
nestas cegadas


Com excepção de uns happy few que sabem viver sempre a bom recato dos males que afectam o comum dos mortais, toda uma população está mais pobre, mais insegura, todo o tecido económico está mais frágil, o sistema de saúde está uma desgraça, já se rateiam os tratamentos, os mais pobres já não se tratam, a cada dia mais famílias perdem a casa, os mais jovens abandonam o país em massa, as melhores empresas do país são vendidas ao estrangeiro, não fica pedra sobre pedra - e, para surpresa do Gaspar-que-não-percebe-nada-da-vida-real, isto não conduziu ao eldorado que ele, rapaz que se tem por inteligente, imaginava. Pelo contrário, a dívida aumentou, o défice não vai ser cumprido e alguém terá que nos estender, de novo, a mão. Mas nestes negócios ninguém estende a mão com bons propósitos. Os juros são altos, as condições insuportáveis, os honorários das comissões que nos vigiam são exorbitantes e, não menos importante, continuaremos a ser geridos por burocratas que de vez em quando aí aparecem e que são tratados pelo Governo como se fossem nossos donos. Uma desgraça e uma humilhação.

*


Angela Merkel - Isto foi noutro jogo porque no jogo de ontem estava de verde - mas o jeito marcial era o mesmo


Enquanto isso, a guru Merkel, antes de ir disfarçar-se de hooligan no jogo da Alemanha com a Grécia, reuniu-se com o Hollande, o Monti e o Rajoy e, marimbando-se para o Durão Barroso, Van Rompuy e outros inúteis, foi dizer como é - que desenvolvimento é essencial e que um programa europeu para relançamento da economia vai ser posto em marcha. É a reviravolta a começar a operar-se e em boa hora isso acontece; e tomara que muitas mais piruetas ocorram nos próximos tempos pois, caso contrário, não há  salvação possível para o euro e para a Europa que cairá no caos em três tempos. Claro que ainda não se sabe como, quando, controlado por quem, mas é um bom sinal. Não é caso para euforias, mas é um sinal.

Não imagino é como é que Passos Coelho e o Gaspar vão reagir perante isto. Provavelmente não vão perceber. E o homem da Goldman Sachs, o António Borges que por aí anda, à rédea solta, a tratar dos negócios, vendendo as nossas empresas estratégicas segundo critérios lá muito dele, pessoa esta que acha que a legislação laboral deveria ser mais flexível e que o abaixamento de salários é uma inevitabilidade, o que dirá ele? Se calhar vai acelerar na sua actividade antes que se faça tarde. 


*

Música, de novo, por favor

Juliette Greco - Sous le ciel de Paris



E, para terminar, porque gosto de terminar em beleza, uma notícia mesmo boa, que a todos nos enche de orgulho.



Joana Vasconcelos, uma Princesa Portuguesa em Versaillles


A grandiosa Joana Vasconcelos está a arrasar em Versailles. A sua obra é tão imprevista como colossal.



Le dauphin et la dauphine - fainaças Rafael Bordalo Pinheiro vestidas a crochet



Com crochet, tricot, peças de arte popular ou utensílios domésticos (que, por aquelas bandas, a etiqueta realesca não adimitiu os utensílios íntimos), Joana recria, reinventa, imagina, ousa (e, de caminho dá trabalho a uma vasta de equipa de pessoas que ajudam a dar corpo a esta imaginação fantástica).


Pavillon é - em ferro forjado


Joana d' Arte

Joana vale tudo o que pesa e pesa tanto
de tachos faz sapatinhos de cristal
e as supostas filigranas se enredam no olhar

até o impensável garrafão brilha na relva
a provocar a provocar...

porque nas mãos de Joana tudo acontece
a mente de Joana é um palácio sem fim
e até os lustres são intimidade
na alma de Joana
Portugal é um país imenso
no coração de Joana
do passado se faz presente

e se constrói futuro
com fios e rendas de saudade



[Poema da autoria da Leitora 'Era uma Vez', a quem agradeço a generosidade, num comentário ao post de dia 19 deste mês]



Marilyn - tachos, panelas e tampas em inox


Muitos parabéns à Princesa Joana, a Lúcida, uma mulher empreendedora, arrojada, que honra a alma e a arte popular portuguesa.

*

Se vos apetecer, gostaria de também vos ter lá no meu Ginjal e Lisboa
Hoje as minhas palavras entregam-se a um olhar sensual em torno da Lúbrica de Cesário Verde. 
A música é ainda de Shostakovich.

*

E tenham, meus Caros Leitores, um belo sábado!

sexta-feira, junho 22, 2012

Onde se fala livremente (e ao de leve) da vida, de livros em geral e de best sellers em particular e onde, apesar de ser sexta feira, se vos oferece um pouco de 'Às terças com Morrie'


Música, por favor


Shostakovich - a Segunda Valsa pela Orquestra Filarmónica de Berlim




(Tantas acrobacias fiz no post anterior que agora estou assim) - Foto by Helmut Newton

[Mas nada de parar de dançar - e hoje proponho nada mais, nada menos que uma valsa]

*

Depois de dois dias sem escrever nada volto hoje, mas volto devagar. 

Antes de continuar, é melhor fazer já aqui um statement: nunca li nenhum livro do tipo auto-ajuda. Por vezes, apenas para confirmar que a minha suspeita se mantém válida, folheio um ou outro numa livraria. Não dura mais que escassos segundos a confirmação. Banalidades, lugares comuns, xaropes, placebos - geralmente com uma idílica capa azul.

Nada disso faz o meu género. Impossível eu ser capaz de gastar o meu tempo a ler frases soltas que não aquecem nem arrefecem.  Mas sou assim com isto e com tudo a que me cheire vagamente a best seller. Já aqui o disse algumas vezes e que não me levem a mal os que lêem e gostam: não consigo nem sequer pegar num livro embrulhado em tule, ou que meta anjos, demónios, vampiros. Passo pelas estantes de romances históricos, ficção científica, sucessos internacionais e também sigo sem me deter. Só aquelas capas cheias de bonecada, fotografias vulgares, letras às cores, um ruído assustador, me fazem fugir a sete pés. Por exemplo, também nunca li 'O Alquimista' nem nenhum outro livro de Paulo Coelho apesar de ter recebido mil recomendações nesse sentido; mas só o facto de pessoas a quem não reconheço particular exigência me dizerem com ar convicto 'tens que ler', me leva, de imediato a dar dois passos atrás. Nunca li também nenhum livro da Margarida Pinto Correia ou que tais. Mas o meu elitismo vai ao ponto de nem sequer ter lido nenhum dos best sellers do Miguel Sousa Tavares (li o 'Não te deixarei morrer David Croquett' de que gostei) apesar de os ter cá em casa e apesar de pessoas cuja opinião respeito, me terem dito que são livros que se 'lêem bem'. Há talvez muito preconceito nisto, reconheço, mas a questão é que a minha vida é finita e os livros são infinitos. Acho, por isso, que tenho que ser criteriosa, e ler livros que se lêem bem para mim é curto.

Voltando aos cândidos livros azulinhos de auto-ajuda: apesar dessa minha posição, passo a vida a dizer que me sinto agradecida pelo que vejo, pelo afecto que recebo, pelo que sinto, pelo que tenho. Cada pequena coisa de que goste é apreciada como se fora uma refinada e rara preciosidade mesmo que se tratem de coisas mil vezes ditas ou ouvidas ou sentidas.

E gosto de me rir e de estar junto a pessoas que se riem, que não se tomam muito a sério, que gostam de aprender e trocar opiniões. Gosto de viver e gosto de apreciar esse raro dom que é estar estar viva e com saúde, rodeada por aqueles que amo.

E, se a saúde por um momento se ressente, ainda mais sinto isso. Tudo é efémero e tudo deve ser apreciado no preciso instante enquanto dura.

E vocês, Caros Leitores, ao lerem isto, já devem estar com sorrisinho jocoso ao canto do lábio...ah, se isso   não é converseta de tipo pastilha de auto ajuda, então é o quê...?

Pois não sei que vos diga. Julguem vocês. 

E a propósito disto, ou por coincidência, o Caro Leitor dbo a quem aqui, de novo, agradeço, referiu no comentário que escreveu sobre o meu texto anterior, um livro que está a ler, Às terças com Morrie de Mitch Albom. Nunca tinha ouvido falar e, portanto, fui pesquisar. 

O autor encaixaria, talvez, no género best seller e, no entanto, este livro, um pequeno livro, começou por uma tímida edição até que foi fazendo paulatinamente o seu caminho e se tornou algum tempo depois um incrível sucesso tendo, depois, conforme li, sido adaptado a filme com a participação de Jack Lemmon - e, então, fui à procura e encontrei este excerto que me tocou e que resolvi partilhar convosco. Não é sobre a morte, não é triste. É sobre a vida. Sem mais, aqui vos deixo com Morrie.




Uma vida longa e feliz a todos, cheia de momentos bons, infinitos enquanto duram!

*

A ver se amanhã durante o dia actualizo o meu Ginjal que já sinto falta de pôr as minhas palavras a voarem em volta de poemas.

*

E tenham, meus Caros Leitores, um dia muito feliz!

terça-feira, junho 19, 2012

A minha horrível transição do liceu para a faculdade


Hoje uma música diferente do registo habitual
(mas recomendo que baixem o volume...)

Peter Gabriel - Don't give up


Eu vinha de um ambiente de festas, tardes dançantes, namoro no horário das aulas, fora do horário, passeios à beira rio, tardes na esplanada, idas ao cinema, idas em grupo à praia. O meu namorado era todo de esquerda, com intervenções públicas de esquerda, uma pessoa ligada às artes, amigo dos artistas mais conhecidos da arte de esquerda (e, na altura, a arte era quase toda de esquerda). Eu não o acompanhava nessas andanças nem era tão engagée pois, na altura, tinha, sobretudo um sentido lúdico da vida. Mas partilhava a preparação das suas intervenções, e tudo aquilo, e toda a minha vida, na altura, era uma festa, uma fantástica e permanente festa.




Já, em tempos, aqui o referi.

Na altura não havia tanta informação como há hoje, nem sei se havia testes vocacionais, nem eu tinha nenhuma vocação bem definida, nem procurei ajuda para me ajudar a decidir. Lembro-me de ter ido com a minha mãe falar com dois amigos dela, uma que era professora, directora de um estabelecimento de ensino e com outro que, na altura era presidente da Câmara (ou que viria a ser, não me lembro se a conversa foi antes ou depois dele ser Presidente da Câmara). Não adiantaram muito, mas ele disse que eu era boa aluna a matemática, que havia um curso versátil, que talvez fosse bom para mim, que facilmente podia ir trabalhar para um banco, uma seguradora, uma empresa. Achei que talvez, mas sem grande convicção.

Na altura o que eu pensava era que gostaria de ser psiquiatra mas, para isso, tinha que tirar medicina o que estava fora de questão já que as doenças e, sobretudo, a morte me incomodavam, para não dizer que me apavoravam. Depois pensei em psicologia mas o curso não tinha, na altura, grande reconhecimento oficial.

Hoje penso que gostaria de ter feito arquitectura mas, na altura, isso não me ocorreu. 

Os cursos que eu achava que davam, geralmente, apenas para leccionar tais como biologia, química, pareciam-me restritivos pois, tinha a ideia de que, quando acabasse o curso, não me quereria ver limitada. E assim fui excluindo. Até que fiquei naquele que fiz, o que o outro tinha sugerido. 




Quando cheguei à faculdade tive um enorme choque. Choque. Choque a sério. Apenas por ser pessoa de não desistir (e porque, se desistisse, não sabia qual a alternativa) não me vim embora.

Foi horrível. Toda aquela gente estava ali apenas para estudar. Os chamados marrões com quem eu nunca me tinha dado no liceu parece que estavam ali todos. Escreviam apontamentos compulsivamente, ficavam numa excitação a colocar dúvidas e mais dúvidas, no fim da aula corriam para junto do professor, para pedir ajuda para coisas do arco da velha, faziam trabalhos em casa, nos intervalos tiravam dúvidas uns com os outros e, no fim, iam todos para casa. Uma coisa inimaginável.

O meu namorado andava noutra faculdade, noutro extremo da cidade, e tinha as suas actividades culturais, e, algum tempo depois, começou a dar aulas.

E eu via-me, de repente, sem os meus amigos que se tinham dispersado por outras faculdades, sem a presença assídua do meu namorado e no meio de gente baça, sisuda, marrona, chata.




Em relação à matéria, eu achava que não percebia nada daquilo, nunca tive paciência para tirar apontamentos, nem conseguia ter uma única dúvida, achava tudo aquilo uma maçadoria. Claro que estudava mas não muito, tanto mais que me começava a convencer que estava a cometer um erro tremendo. Nem aqueles assuntos, nem aqueles estranhos professores, nem aqueles colegas chatos e limitados me pareciam talhados para mim.

Tentava retomar um pouco do meu estilo de vida anterior, queria arranjar companhia para passear, ir ao cinema, ao teatro, ir até à Linha, à praia mas ninguém, ninguém estava nem aí. 

Eu estava a viver lá durante a semana e ao fim de semana ia para casa. Tanto que eu tinha sonhado com aquela liberdade e afinal não encontrava ninguém que a quisesse partilhar comigo.

Um dia, encontrei-me à tarde com a minha mãe e, pela primeira vez, ela viu-me triste, infeliz, com vontade de desistir. Eu via a minha mãe preocupada por me ver assim e tentei manter-me sem chorar mas, mal ela virou costas para ir para casa, eu desatei a chorar. Nunca antes me tinha acontecido nada assim.

Foram uns meses de desenquadramento e aflição, sem saber como lidar com aquele tão grande desapontamento. À medida que o semestre ia avançando, eu ia confirmando que a matéria parecia ser, toda ela, complexa, hermética, inútil, estupidamente incompreensível.





Nunca fui pessoa de estudar muito; nunca, em toda a minha vida, fiz uma directa para estudar. O que percebia à primeira, entrava, ficava. O que tinha que ser lido, relido, treslido e fixado era uma desgraça, não tinha paciência, sempre odiei gastar muito tempo com a mesma coisa, a menos que o faça por prazer. Por isso nunca fui aluna de jeito a história, a geografia, a botânica, a mineralogia. Em contrapartida, a matemática, física, filosofia, português, era muito boa aluna.

Agora ali era matéria a jorros, a jorros mesmo, matéria que era chinês, rodeada de gente que nem queria saber de nada que não apenas estudar e eu não sabia viver assim.

Eu tinha entrado para a faculdade sem ter feito um único exame, com excepção do exame da 4ª classe e da admissão ao liceu que eram obrigatórios. A partir daí dispensei sempre. Não sabia o que era fazer um exame nem escrito, muito menos oral.





Quando começaram as frequências eu pensei que era o fim. Salas enormes cheias de gente, tudo a fazer aquelas provas horrorosas. Pensei que ia chumbar. Pensei que ia passar das dispensas de exame às reprovações.

No entanto, para minha grande surpresa, grande parte daqueles alunos que andavam sempre de volta dos professores e que não faziam mais nada senão estudar e bajular os professores, chumbou e eu, para minha ainda maior surpresa, embora não muito à larga em duas das disciplinas, lá passei e até dispensando da oral a todas. A todas menos a uma. É que, para enorme meu espanto, numa das pautas que estava cheia de Reprovado escritas a encarnado de alto a baixo, vi, à frente do meu nome, um 19 e uma data para prova oral. Pensei que era engano, que se calhar era 9. Fui à secretaria. Informaram-me que não, que era 19 e que tinha que ir defender a nota. Pensei que o professor me iria fazer umas perguntas, se calhar para perceber se eu tinha copiado. Como praticamente não me dava com ninguém, não me informei.





E assim, uns dias depois, sem saber bem ao que ia, sozinha, entrei numa sala cheia de gente, com um júri numa mesa ao fundo e uma cadeira em frente. Estavam à minha espera. Eu tinha andado perdida lá dentro do edifício, sem dar com aquela sala, era a sala nobre. Quando vi aquela gente toda, senti um calafrio. Eu não tinha estudado, ainda não me tinha habituado a estudar, ainda tinha os meus hábitos de festa e boa vida dos tempos de liceu. Lembro-me que, à medida que atravessava a sala cheia de gente e me ia sentar em frente da mesa com três professores, pensava ' Estou feita... Mas o que é isto, senhores...?!?! E agora, como é que saio desta? Bolas para isto...!'.

A partir daí acho que entrei em piloto automático, não faço ideia do que me perguntaram. Mantive o 19 e sei que recebi palmas. Foi esta a minha primeira prova oral. Sozinha. Saí dali sem perceber bem o que me tinha acontecido e sem que ninguém meu conhecido tivesse assistido para me explicar que experiência extra-sensorial tinha sido aquela. Fui sozinha, rua fora; e nada daquilo me soube a coisa alguma.




Mas, por coincidência, a partir daí a minha vida levou uma grande volta. O curso passou para segundo plano, a vida voltou a estar em primeiríssimo lugar. Voltei a ser eu. Até hoje.


*
As fotografias são de Lois Greenfield.

Já agora, e não querendo monopolizar a vossa atenção, gostaria ainda de vos convidar a visitar-me lá no meu Ginjal e Lisboa. A música hoje é linda, Shostakovich. E as minhas palavras emergem junto a um rochedo ao encontro de um belo poema do novíssimo livro de Armando Silva Carvalho, 'De amore'.


E tenham, meus Caros leitores, uma terça feira muito boa, um dia muito feliz!