Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, maio 30, 2012

Hoje o Um Jeito Manso está em blackout

Meus Caros Leitores, uma explicação: por razões de ordem vária, hoje não me é possível fazer aquilo que tanto gosto de fazer,  responder aos comentários e dizer de minha justiça, actualizando o blogue.

Li os comentários, que muito agradeço, e, se me for possível, amanhã farei o que faço geralmente de forma diária. Se o voltar a não conseguir, as minhas desculpas. Voltarei brevemente. Obrigada.

Passos Coelho vai explicar tudo sobre espionagem na Assembleia da República. Miguel Relvas e Jorge Silva Carvalho devem estar com as velas todas acesas a rezar para que a coisa não pegue fogo de vez. Vamos ver é se não vai homem ao rio como os amigos de Cristiano Ronaldo fizeram com Gonçalo Teixeira por causa da Carolina Fernandes. Já a Cynthia Nixon deu mesmo o nó com a Marinoni e assim se prova que há gostos para tudo


Música, por favor

Mika - Billy Brown



Bom, talvez seja porque o meu cérebro a esta hora ainda quer festa, vou escrever um pouco, começando por falar de mim...

É quase uma da manhã. Só consegui pegar no computador lá para as 11 e tal, já fiz uma das coisas que mais gosto de fazer que é 'falar' um pouco com os meus prezados leitores que aqui me deixam os seus comentários,  já escolhi uma música e um poema e uma fotografia e já escrevi uma 'cena' lá no Ginjal e agora, já cansada (que hoje não foi fácil), aqui estou.

Pronto, já falei. Agora coisas mais interessantes do que eu.

Ao sentar-me aqui veio-me uma ideia mas carecia de um tempo de que não disponho. 

Assim, opto por falar apenas de espuma.

*

Digo-vos apenas que toda esta história de espionagem me parece coisa do além. Se tudo isto for verdade, estaremos perante uma anedota nacional. Mas o medonho é que gente assim se dá ao desplante de investigar pessoas com o objectivo de lhes descobrir pontos fracos para poderem ser usados quando necessário (coisa que, toda ela, diria eu que não sou das leis, é capaz de ser crime). E a proximidade disto tudo com a baixa política, com a maçonaria, com negócios que ninguém percebe bem quais são, parece-me mesmo uma coisa infecta.

E depois há ainda a cara deles que não augura nada de bom.





Eu teria medo de me ver rodeada pelo Relvas e pelo Silva Carvalho. Estarei a ser preconceituosa...? Se vocês se vissem cercados por estes dois, num dia à noite, numa rua escura, sentir-se-iam tranquilos? Olhem-lhes bem os fácies... Ui... medo...

E, às tantas, ainda tinham recolhido informações a meu respeito, ainda me ameaçavam de divulgar na internet que eu vivo com um homem que não gosta do rapaz de Massamá e que o meu verdadeiro nome não é Um Jeito Manso. Cruzes, vade-retro...!

Estou curiosa para ver o que o Passos Coelho, esta quarta feira, vai dizer na Assembleia da República.




Cá para mim, para ver se safa o amigo, ainda é capaz de ir dizer que estava ao corrente de tudo, que foi ele mesmo que mandou investigar o Ricardo Costa e que em boa hora o fez, que tinha recebido informação que os manos Costa estavam a tramar um atentado contra a Tozé Seguro que é rapaz da criação dele, Passos, e, ainda por cima, afilhado ou padrinho ou lá o que é do Relvas e que, assim como assim, na oposição sempre é melhor o Tozé que o mano Costa, irmão do dito Ricardo. E que também sabia do Relatório Balsemão e que acha muito bem, porque ele tem andado a ser mauzinho para o afilhado Nuno Vasconcellos e que este se tinha queixado ao Branquinho e ao Rato e eles se tinham queixado ao Jorge e que ele, Passos, tinha achado por bem ver esclarecido o assunto, e que também sabia da investigação à Leonete Botelho e que achava muito bem porque uma pessoa que se chama Leonete é capaz de não ser de cá e, se não é de cá, sabe-se lá quem é e o que anda a tramar por aí, ainda por cima a viver com um sujeito que é da oposição, e que, quanto àqueles sms do Jorge ao vice do bancada do PSD ou do próprio PSD, sobre a Teresa Morais ser uma chata, também sabia e que concordava, que ela tem mesmo ar de ser chata, para além de dar passagem aos homens como se fosse ela o homem da cena e que todos se queixavam que, ao pé dela, se sentiam verdadeiras meninas. E, se calhar, também vai dizer que deviam era investigar mais pessoas para ver se se descobre quem foi que assaltou a pobre da tia Helena à porta de casa. 

Mas, enfim, isto sou eu a especular e não me apetece falar mais de tais coisas, vou esperar por notícias da Assembleia. Só espero é que filmem tudo muito bem filmadinho que é para a gente se rebolar a rir.

*

Mas agora também não sei que dizer mais sem parecer preconceituosa. É que me apetece armar-me em mulherzinha e pôr-me aqui na má língua... mas isso é coisa tão feia... E posso ser mal interpretada.

Mas, enfim, e não me levem a mal... Mas a mulher (ie, a esposa) da Cynthia Nixon, a Miranda de O Sexo e a Cidade, é tão mal jeitosa, senhores. A Cynthia é tão engraçadinha, como é que foi embeiçar-se por aquela Marinoni? Não é por nada mas parece que não têm nada a ver uma com a outra. Ora vejam lá se também não acham...



Olhem-me só este casal: Cynthia Nixon e Christine Marinoni, agora oficialmente casadas


Por mais que olhe, não consigo perceber, senhores. E, olhando para este par de jarras, soa-me tão estranho ler que tiveram um filho em conjunto. Não sou preconceituosa, não sou, mas este casal é do além, bolas.

*

Enfim. Continuando na fofoca (e que hei-de eu fazer...? se calhar é porque sou mesmo mulherzinha...ou, então, é porque há falta de assunto interessante, sei lá...), não é que aquele rapazinho tão jeitoso, o Gonçalo Teixeira, foi parar ao Tejo depois de um desaguisado com o Cristiano Ronaldo à porta da Urban Beach? 

O CR7 deiz que a namorada do modelo queria um autógrafo e mais não sei o quê e que o Gonçalo não gostou, tendo tido que ser acalmado no rio por amigos seus. O Gonçalo diz que foi o CR7 que queria tirar uma casquinha com a namorada e que ele não gostou nada disso, que ele fosse brincar com a Irina e mais não sei o quê e que, sem saber como, os amigos do CR7 o atiraram ao rio.


Carolina Fernandes, a rival de Irina Shayk?


Tudo por causa, portanto, dos lindos olhos da Carolina Fernandes. Percebe-se. Resta saber se a Srª D. Dolores e as manas Aveiro aprovariam a Carol mas isso agora não vem para aqui chamado.


Gonçalo Teixeira, Globo de Ouro para melhor Modelo Masculino


Quanto ao Gonçalo, diz quem o viu a sair das águas que até as rochas emergiram do fundo do rio para o fazer sobressair. Percebe-se. 

Assim como assim, a ter que me ver rodeada por desconhecidos numa noite escura, em vez do Silva Carvalho e do Relvas, sempre preferia o Gonçalo e, pensando melhor, não era preciso mais ninguém, bastava ele.

(E só espero que o homem da oposição com quem vivo não leia isto senão lá vai o Gonçalo parar outra vez ao Tejo).

***

Adiante que já não é cedo. Hoje é dia de 'cenas' lá no Ginjal em volta de um poema de Rita Taborda Duarte e ao som da voz borbulhante de uma Cecilia Bartoli entoando Händel. Passem por lá para verem.

***

E é isto: não me ocorre, por agora, mais nada.
E, portanto, tenham, Caríssimos Leitores, uma festiva quarta feira!

terça-feira, maio 29, 2012

As borboletas da alma iluminam-se da mesma forma caso falemos de nós próprios, comamos os melhores acepipes, nademos em dinheiro ou pratiquemos um gostoso sexo - quem assim o diz é Diana Tamir que dispõe de meios com que Ramon y Cajal nem sonhava


Música, por favor

Madame Butterfly - Puccini



Era uma embriaguez deliciosa, um encanto irresístivel. É que, de facto, e deixando de lado os afagos do amor próprio, o jardim da neurologia brinda o investigador com espectáculos cativantes e emoções artísticas incomparáveis. Nele, os meus instintos estéticos encontraram plena satisfação. Como o entomólogo à caça de borboletas de matizes vistosos, a minha atenção perseguia, no pomar da massa cinzenta, células de formas delicadas e elegantes, as misteriosas borboletas da alma (...) a admiração ingénua da forma celular constituía um dos meus prazeres mais gratos. Porque, até do ponto de vista plástico, o tecido nervoso encerra belezas incomparáveis. Há nos nossos parques alguma árvore mais elegante e mais frondosa que o corpúsculo de Purkinje do cerebelo (...)?



This drawing, taken from Ramón y Cajal's first publication on the central nervous system, illustrates the five classes of neuronal populations that exist in the cerebellum: Purkinje, stellate, basket, Golgi and granule cells. Also note the basket-cell axons terminating freely around the Purkinje cell bodies. A, Purkinje cell; D, stellate cell; F, Golgi cell; H, granule cell; S, basket cell axons. Reproduced, with permission, from the Instituto de Neurobiología "Ramón y Cajal", Madrid, Spain. 


Nasceu em 1852 e viveu até 1932 em Espanha o homem que escreveu aquele texto que faz parte do livro Recuerdos de mi Vida.

O homem que assim escrevia foi, pelo menos, pintor, ginasta, militar, barbeiro, professor e médico. Quando estudou foi rebelde, não aceitava autoritarismos, não aceitava limites à sua criatividade e vontade. Mais tarde casou, teve filhos, sete filhos. E foi ele que disse que um médico que só sabe medicina, nem medicina sabe. Em 1906 recebeu o Prémio Nobel da Medicina. Chamava-se Santiago Ramón y Cajal.



This cross-sectional microscopic drawing of the nerve cells in the retina was made by Santiago Ramon y Cajal, the greatest neuroanatomist of all time. From the top, where the slender rods and fatter cones are shown, to the bottom, where optic nerve fibers lead off to the right, the retina measures one-quarter millimeter.


Estudou o cérebro, dizendo que os neurónios eram as borboletas da alma e desenhou-o em figuras que nos chegam belas, tão belas. Deixo-vos aqui um pequeno clip de um documentário que apresenta Ramon y Cajal.




Lembrei-me de falar nele ao tomar hoje conhecimento (na secção de Neurociências do portal Ciência Hoje) de um estudo realizado por uma equipa de investigadores da Universidade de Harvard liderado por Diana Tamir que recorreram a ressonâncias magnéticas para comprovar as suas análises. Como Ramon y Cajal gostaria de ter tido todos estes instrumentos na altura em que, com poucos meios, se deitava a intuir o funcionamento do cérebro...

Pois o referido estudo,  conclui que entre 30 a 40% das conversas diárias, sejam faladas ou sejam escritas nas redes sociais, são sobre nós próprios. Conforme comprovaram através das ditas ressonâncias magnéticas, as zonas do cérebro activadas quando falamos de nós são as mesmas de quando obtemos satisfação através de outros meios habitualmente conhecidos pelo prazer que proporcionam.




A equipa de investigadores conduziu testes em laboratório e comprovou que a partilha de informação pessoal vem acompanhada por enorme actividade cerebral em determinadas regiões, resultante da dopamina libertada pelo sistema mesolímbico, o que está geralmente associado ao sentimento de recompensa e satisfação relacionado com comida, dinheiro ou sexo.


Deve ser por isso que grande parte dos blogues são intimistas, autobiográficos, e deve também ser isto que está na origem do êxito do Facebook, uma coisa fantástica em termos de crescimento, conforme se pode ver no clip abaixo:




Conforme já aqui o referi: não tenho conta no Facebook e, até hoje, não tinha conseguido descortinar o interesse em tal.  Hoje, ao ler as conclusões deste estudo, percebi-o. E não me espanta porque, de facto, é gostoso falar das nossas recordações, das nossas agruras ou alegrias.

O cérebro humano é uma parte misteriosa e fascinante de nós próprios. Uma parte secreta que, por vezes, se ilumina de cores diferentes consoante as borboletas da nossa alma voem mais alto, descrevam etéreos bailes ou desçam até às profundezas mais recônditas do nosso prazer.

***

Por falar em borboletas da alma: hoje, lá no meu Ginjal azul, as minhas voam em volta de um belo poema de Inês Dias e ao som de Händel que desce do céu pela voz de Renée Fleming (um luxo). Vão até lá, se vos apetecer, está bem?

***

E, meus amigos, por hoje é isto. Tenham uma bela terça feira. 
Que as borboletas da vossa alma hoje estejam numa animação, coloridas e luminosas que só visto!

segunda-feira, maio 28, 2012

Tal como o Prof. Marcelo na TVI, fazer o balanço de 1 ano de Governo? Falar de Passos Coelho, Miguel Relvas, Álvaro, Vítor Gaspar? Ou falar do ex-espião que tinha tudo escrito no telemóvel e deixou que lho tirassem...? - Ná... Prefiro o Manuel Marques, os Gato Fedorento, o Agente 86 e, até, o David Cameron chamando Muttering Idiot a Ed Balls!


O professor Marcelo Rebelo de Sousa hoje, na TVI, com a Judite de Sousa, fez o balanço do 1º ano de Governo. Não me tinha dado conta que já lá ia 1 ano mas se calhar é verdade. 

Pensei fazer também aqui um balanço mas é tudo tão mau que não me apetece gastar o meu tempo e sacrificar a vossa paciência com coisas de tão fraca qualidade.

Em vez disso, vou antes aconselhar-vos um vídeo que o blogue Aventar publicou em Outubro de 2011. Fala por si e vale a pena ser visto. Chama-se Pedro Passos Coelho - Best of 2010-2011. Vendo-o assim, em versão compacta, fica mais patente a sinceridade, a firmeza no cumprimento de propósitos e promessas,   enfim, a confiabilidade da figura. 

Adiante. Poderia aqui abrir uma excepção para vos falar de Miguel Relvas. Há quem ache que, com isto que se vai sabendo aos poucos, ele está a fritar o Governo em lume brando, que está a dar ainda mais cabo da já tão depauperada imagem do Governo, há quem defenda que deveria sair já do Governo. Pois eu acho que não, que está lá muito bem. Aliás, acho mesmo que deve lá continuar por mais algum tempo. As revelações não vão parar e sabe-se lá o que mais se vai saber. E talvez também haja outras coisas que se vão sabendo e o Professor Marcelo hoje já as aflorou. Portanto, é deixá-lo lá estar. Por um lado, enquanto estiver, paralisado como está, não vai provocar dano ao país e, quanto mais tempo lá estiver, mais claro vai ficar o material de que são feitos alguns dos amigos ou correligionários de Passos Coelho.

Bem, podia também abrir outra excepção, agora para vos falar do coisinho. Mas prefiro antes os Gato Fedorento. Ora vejam este debate sobre o coiso para perceberem quem são os gurus de Álvaro Santos Pereira:



Podia também falar daquele olheirento que não acerta uma e que nunca percebe porque é que não acertou. Mas também aqui prefiro o Manuel Marques:




No entanto, neste caso, pensando bem, não sei qual é a versão mais doida, se é a do fantástico Manuel Marques se é daquele rapaz que o imita, aquele cujo nome artístico parece que é Gato Gaspar. Ora vejam o GG em acção:




Podia também agora falar aqui um pouco de espiões mas não conheço nenhum a sério, só artistas, só anedotas. Por isso, mostro aqui aquele que eu prefiro (...e claro que não é o big bear Jorge Silva Carvalho):


Get Smart com os agentes 86 e 99

***

Portanto, desisto. Passo à frente e vou em busca de momentos de diversão noutro sítio. Mostro-vos outra figura curiosa, o primeiro ministro inglês, que tem fama de ter mau feitio, de ser indelicado, de partir a louça no Parlamento. Quando vejo estas imagens, todos em cima uns dos outros, acho uma coisa mesmo bizarra. E a forma como falam... parece uma representação cómica, uma divertida peça de teatro. Estes têm mesmo graça a sério, vê-se que estão ali para se divertirem como deve ser.

Vejam por favor a mais recente tirada de David Cameron...



E esta outra, anterior... Ri-se ele, riem os outros (afinal que é isso de fleuma inglesa...? Não senhor, aquilo ali é mesmo BritCom e da boa):





E mais não mostro que vocês já devem estar a pensar que têm mais que fazer do que estar para aqui a ver tesourinhos deprimentes e coisas cómicas. Se calhar hoje estão virados para coisas a sério e a mim só me está a dar para isto. Ficamos assim, portanto.

***

Assim sendo, resta-me convidar-vos a irem até ali ao lado, ao meu Ginjal e Lisboa, que por lá hoje falo a sério. Hoje falo de amor, o que é, o que não  é, como se usa para não fazer mal, etc. Deu-me para isto ao ler Nuno Júdice. E a música, meus senhores, é da boa. Abro hoje a semana Händel. 

***

Tenham, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira. Divirtam-se!

sábado, maio 26, 2012

Não desista, lute por aquilo em que acredita, ame a vida, seja feliz - mensagem com bolinha vermelha no canto

o
Música, por favor

Chariots of Fire, Vangelis - banda sonora 
(em português o filme tinha o nome de Momentos de Glória)



Algumas partes dos filmes abaixo podem impressionar, especialmente no primeiro e no terceiro. Contudo, está a apetecer-me partilhar convosco estas imagens. Estão em linha com a história de Helen Keller ou com o filme de ontem, em que três homens determinados avançam de peito feito e afastam um grupo de quinze leões esfaimados.

Não nos rendermos, lutarmos, defendermos as ideias em que acreditamos, vencermos a inércia e os nossos medos, querermos viver bem e querermos ser felizes - eis aquilo em que acredito e por que me bato. 

A felicidade não é aquele conceito infantil de que algumas pessoas desdenham, confundindo felicidade com patetice. Uma pessoa motivada, realizada, agradecida, feliz, não significa que é alguém com risinhos permanentes, palavrinhas patetas, fraqueza de espírito.

Querer (como contrário de 'deixar andar' ou 'ir andando'), querer manter sempre viva essa força que impulsiona o corpo e a mente, ir à luta, apreciar o que há de bom na vida, lutar por que muitos tenham o suficiente, lutar pelo desenvolvimento, dignidade e bem estar dos outros, apreciar a beleza em todas as suas formas e, na medida do possível, alegrar, animar e motivar os que nos rodeiam é aquilo por que acho que devemos pugnar cada dia da nossa vida.

Há tantas pessoas que deixam de perceber o sentido da vida e se entregam à tristeza, há tantas pessoas que, desanimadas com o rumo do país, com o rumo da sua vida, enfim, por mil motivos, se deixam cair na apatia, na indiferença, na infelicidade, na amargura. Não posso chegar a cada uma, nem as minhas palavras serão bem entendidas por todas e, provavelmente, também, pouco efeito produzirão. Achar-me-ão chata, limitada, parvinha, insistirão que felicidade é coisa que não existe, que nada vale a pena. E, enquanto isso, enquanto progressivamente mais pessoas vão desistindo, mais jovens vão abandonando o país, mais empresas vão sendo vendidas ao desbarato, mais endividado o país está, mais pessoas vão ficando desempregadas, mais famílias vão perdendo a casa.

Não pode ser. Temos que nos levantar e lutar. Temos que querer. Temos que ter amor próprio, temos que gostar uns dos outros, com generosidade e gentileza, temos que querer que viver valha a pena, temos que sentir que viver faz sentido, temos que querer ser felizes e que os outros o sejam também.

* * *

Bem, vou deixar de pregar. Vou deixar-vos ver os filmes. Provavelmente têm mais que fazer mas, quando puderem, gostava que os vissem. Ilustram muito bem aquilo em que acredito. Se calhar já os conhecem mas, ainda assim, arrisco colocá-los aqui. Acho que vale a pena ver (ou rever) - apesar da qualidade da imagem não ser fantástica e, sobretudo, apesar de poderem impressionar-vos.








***

Tenham, meus Caros leitores, um belíssimo domingo!

Don´t give up! Be happy!

O medo e a confiança. Os homens da tribo Dorobo e os leões. A superação do medo.


Música, por favor

The secret - Composição e interpretação de Adam Hurst



Esta sexta feira, o sol quase a pôr-se junto ao rio e a gaivota, quase a sépia, talvez hesitante, talvez orgulhosa



O medo é indispensável à sobrevivência, é o alarme que assinala o perigo. Sem medo, correríamos riscos impensáveis.

Mas o medo sem motivo é castrador, é destrutivo.

Contudo, não é da sensação de medo indefinido que invade a vida de algumas pessoas, levando-as a andarem sempre em estado de tensão e ansiedade, que vou agora falar.

Aquilo de que vos quero hoje falar é do medo que se consegue superar, ou de forma individual ou através do espírito de equipa e de suporte mútuo, adquirindo a confiança necessária para que se enfrente a situação que nos provoca medo. Perante o risco, perante o desconhecido, ser-se capaz de avançar como se não se tivesse medo, confiante de que se vai ser bem sucedido.

Falo-vos agora de mim. Não sou muito medrosa. A nível profissional, atraem-me as coisas novas, complexas, coisas que nunca fiz, que, à partida, não sei se vou ser capaz de fazer. Os meus colaboradores sentem, nessas situações, aquela adrenalina que é um misto de temor e de vontade de se superarem. Individualmente, cada um teme não ser capaz; mas juntos, sentindo que estão todos no mesmo barco e vendo que a chefe se está a atirar de cabeça, por solidariedade, companheirismo ou bom feitio, alinham - e lá vamos todos. Depois, pelo meio, há por vezes momentos de alguma apreensão, quando a coisa não corre bem, quando, no silêncio da minha consciência me interrogo, 'Oh caraças, mas para que me fui eu meter nisto se, ainda por cima, ninguém me estava a exigir este risco...?' mas, por fora, a minha posição é sempre esta: 'Vai correr bem: mais coisa, menos coisa, vamos conseguir. Tem que ser. Vamos lá ver o que é que não se está a conseguir e vamos ver como resolver e nada de pânico que isto não é morte de homem'. E, depois, todos juntos, motivados, confiantes, lá vamos.

Na minha vida pessoal há coisas em que sou um bocado assim. Por exemplo, tenho pavor de montanhas russas, pavor. Mas já por duas vezes me meti numa. Quando lá estava, aquilo a despenhar-se por todo o lado, de cabeça para baixo, a gritar como se me estivessem a matar, só pensava: 'Mas quem é que me mandou meter nisto? Bolas para mim!'

Outra coisa de que tenho medo é de alturas (mas não de andar de avião, só de andar em sítios altos, desprotegidos, parece que vou cair). Vertigens, medo. Uma coisa física, sinto os pés a ficarem trémulos, suados, e até fico assim só de pensar, agora já estou só de estar a escrever. Mas, uma vez, numa daquelas provas de outdoor que as empresas organizam para estimularem o espírito de equipa, vi-me, sem querer, metida numa coisa que era assim: estávamos divididos por equipas numa serra com um rio, um sítio lindo na Beira Alta, e tínhamos que fazer provas de orientação, uma de dia e outra de noite, e mais uma série de coisas que incluíam fazer uma jangada, andar nela, coisas assim, e, finalmente, uma prova que consistia em atravessar o rio numa ponte de corda, daquelas que ficam em arco, e que tinha duas cordas de tipo corrimão. Uma coisa assim, como a desta fotografia:



Quando vi aquilo, a minha primeira reacção foi dizer que não era capaz. Só que isso desclassificaria a equipa e os meus colegas de equipa, quatro homens competitivos, andavam todos picados com os das outras equipas, há dia e meio que andávamos naquela labuta, seria uma frustração para eles se eu desistisse. Então, aflita, aflita... mas lá fiz das tripas coração.

Não vos passa pela cabeça o meu pânico. O rio a correr lá em baixo e eu ali em cima da corda. Ia presa por uma corda (ou seja, se caísse ao rio, puxavam-me pela corda) mas isso não me dava conforto nenhum. 

Os meus colegas gritavam-me: 'Não olhes para baixo! Olha para a frente!' e eu, cheia de vertigens, nem imaginam, pé atrás de pé, lá ia, a olhar para a outra margem, tentando abstrair-me de onde estava. Só que, sei lá porquê, aquilo começou a balouçar, de um lado para o outro, parecia um balouço, e parece que quanto mais balouçava, mais balanço aquilo dava. Um pânico, um pânico. Até que, naquele balouçar, um pé me fugiu da corda e caí. Mas caí sentada na corda, uma perna de cada lado. E aquilo a balouçar violentamente. E eu ali, sem perceber como é que saía daquela situação. Os meus colegas gritavam-me 'Calma, não te assustes, calma, deixa a ponte estabilizar, não te levantes ainda' mas eu pensava que não havia maneira de sair dali, os braços levantados, agarrada às cordas e ali sentada, na corda, e com um rio a correr lá em baixo. Até que os organizadores disseram que me iam buscar. Mas eu pensei: 'Mas vêm-me buscar como? pegam-me ao colo? Como é que me levantam daqui? E como é que me levam?' e pensei que, se os rapazes se metessem a ir buscar-me, a barraquinha ainda ia ser maior.

Antes de mim já alguns colegas tinham ido parar ao rio, alguns, quando sentiam que iam cair, ainda tentavam virar-se para ver se entravam de mergulho apesar do rio ali ser baixo, a coisa seria menos 'vexante', mas geralmente caíam de borco e saíam de lá a pingar. Eram penalizados na prova mas, enfim, saíam da situação. Agora eu, estava ali sentada, uma perna de cada lado da corda, braços para cima, e senti-me ridícula, figura de totó. E, então, não me perguntem como, resolvi que ia conseguir. E consegui. Quando cheguei à margem, recebi uma ovação e ainda hoje, alguns anos depois, eles falam disto, dizem que se espantaram da minha coragem. Qual coragem?! Um medo...! Consegui foi vencer o medo, mas não foi por coragem, foi pelos meus colegas e pelo horror ao ridículo.



Esta sexta-feira, ao entardecer, naquele momento em que o sol doura a cidade antes de se pôr, gaivota resolve voar, e bela, livre, sem medo, atravessa o espaço -  e o dia, fica, de repente, mais luminoso

(O Tejo é, então, um espelho azul junto ao qual um Terreiro do Paço dourado quase se debruça)


Mas agora vou mostrar-vos um filme que ilustra melhor, muito, muito melhor, aquilo que quero dizer.

No Kénia, há uma comunidade que se alimenta de carne roubando a carne apanhada por outros predadores. O filme mostra como três homens, apenas três, enfrentam quinze, quinze!, leões esfomeados para lhes roubar a carne que eles estavam a comer. A confiança destes três homens é tudo. Têm medo mas os três, unidos, superam esse medo.

E eu acho que é isso que temos que fazer nos tempos que correm. Enfrentar o medo, ir à luta, desenhar o nosso futuro, construir um mundo melhor. Não sei como, não sei para fazer exactamente o quê mas, seja o que for, acho que primeiro temos que perder o medo. Confiantes uns nos outros, abrir as asas e voar. Sem medo.





****

E tenham, Caríssimos, um belo sábado.

sexta-feira, maio 25, 2012

'Nunca se deve gatinhar, quando o impulso é de voar', 'evitar o perigo não é, a longo prazo, mais seguro do que expor-se a ele', 'a vida é uma ousada aventura ou, então, não é nada' - palavras proferidas por quem não via, não ouvia, não falava. A fantástica história de uma mulher de fibra que nunca deixou de voar


Música, por favor

Bach - suite nº 1 para violoncelo, Mischa Maisky

*


Era uma menina que nasceu perfeita, saudável. Contudo, quando tinha 19 meses, adoeceu, talvez uma meningite, talvez escarlatina, difícil agora saber, tanto tempo depois.

Só que, na sequência dessa doença, uma desgraça aconteceu: a menina ficou cega, surda e muda. Incomunicável. Nada chegava até ela, nada chegava dela. Nem imagens, nem sons.



Helen fechada no seu mundo


Tornou-se uma criança difícil. As pessoas da família não percebiam o seu comportamento, as suas reacções, não sabiam como relacionar-se com ela, não sabiam mesmo.

Até que, quando tinha quase 7 anos, depois da mãe ter lido um livro de Dickens em que este relatava um caso de ensino de uma mulher também cega e surda, os pais de Helen contactaram médicos especializados e estes recomendaram uma aluna de 20 anos como professora. Anne Sullivan viria a tornar-se uma companhia, um apoio, até ao fim dos seus dias.



Helen à esquerda, com a sua boneca e com Anne Sullivan

Doll viria a ser a primeira palavra que aprendeu;
um mês depois Anne fê-la sentir a água e ensinou-lhe a palavra água e isso foi, para Helen, uma verdadeira revelação


E, aos poucos, o mundo desta criança que a vida aparentemente tinha votado ao isolamento mais profundo, começou a abrir-se. Essa criança, nascida nos EUA em 1880, era Helen Keller.

Convido-vos a verem agora o pequeno filme, feito muitos anos depois, no qual Anne explica como conseguiu estabelecer comunicação com a menina condenada a viver fechada dentro dela própria. No emocionante final vemos Helen a dizer 'I'm not dumb now' repetindo o que 'ouvia' a Anne.




*** *   *   * ***


Música, de novo, por favor



O Fortuna - Carmina Burana, Carl Orff, orquestra dirigida por Andre Rieu



Mas o que aconteceu depois da comunicação se ter estabelecido, prova bem que ninguém está condenado à partida, ninguém é verdadeiramente vítima das circunstâncias, ninguém deve dar-se por vencido antes do tempo.



Anne Sullivan lê para Helen


Anne ensinou a Helen a ver o mundo, a ler, a comunicar. E Helen estudou, formou-se. Aprendeu a falar.  Embora com dificuldade e com necessidade de intérprete, fazia discursos, dava aulas. Correspondia-se, gostava de escrever - até que os seus dotes literários foram reconhecidos. Escreveu 12 livros e publicou vários artigos.

Tornou-se uma cidadã comprometida com o mundo. Foi sufragista, pacifista. Movia-se por causas. Era socialista e uma socialista activa.



Helen, mulher do mundo e que viria a ser amiga, por exemplo, de Charlie Chaplin, Graham Bell, Mark Twain


Bateu-se pelo controlo da natividade, pelos direitos dos cegos, dos surdos, dos que tinham alguma forma de deficiência.

Formou a Fundação Helen Keller que se dedicava à investigação sobre a cegueira, à nutrição e à saúde em geral.

Mais tarde viria também a formar a American Civil Liberties Union e bateu-se contra o capitalismo que estrangulava o desenvolvimento de grande parte da população, bateu-se pelos direitos humanos onde quer que soubesse que estavam ameaçados. Escreveu numerosos manifestos contra a exploração dos trabalhadores, contra a discriminação. Percorreu cerca de 40 países, inclusivamente o Japão onde era muito querida.



Helen Keller - um exemplo para sempre


Viveu até 1968, até aos 88 anos. A sua vida continuará a ser, para todo o sempre, um extraordinário exemplo da força do querer.


  • Prefiro caminhar com um amigo no escuro, do que sozinha na claridade
  • Embora o mundo esteja cheio de sofrimento, está também cheio de situações em que o sofrimento é ultrapassado.
  • Aquilo que em tempos apreciámos e amámos profundamente, nunca se perde pois tudo o que amámos profundamente fica a fazer parte de nós.
  • As pessoas mais patéticas do mundo são as que têm vista mas não visão.
  • O mais importante na educação é o ensino da tolerância.
  • Aquilo de que eu estou à procura não está aí fora, está dentro de mim.
  • Quando uma porta da felicidade se fecha, outra se abre; mas geralmente ficamos tanto tempo a olhar para a porta fechada, que nem reparamos na que se abriu para nós.
  • A ciência pode ter acabado com a cura para a maior parte dos males; mas não encontrou o remédio para o pior de todos - a apatia dos seres humanos.
  • O optimismo é a fé que nos conduz até conseguimos o que queremos.

Palavras de Helen Keller, em tempos uma menina que não via, não ouvia, não falava - algumas das muitas palavras que proferiu ao longo da sua vida.

Que não as esqueçamos, que nunca esqueçamos a sua história - e que nos sirvam de exemplo quando nos sentirmos desalentados. Tudo se consegue: com esforço, com persistência, com determinação, com fé em nós próprios.

***

Nem sei se faz muito sentido, agora, convidar-vos a ir até ao meu Ginjal. Por lá o registo é outro: uma zaragata que só visto em volta de um novo poema de João Paulo Cotrim, que acompanha com o Falstaff e, claro, é ainda Verdi. Mas apareçam por lá, gosto de vos ter como companhia.

***

E tenham, meus Caros Leitores, uma excelente sexta feira. 

Enjoy! And smile!

quinta-feira, maio 24, 2012

O encantamento das palavras. A última miséria, a solidão mais absoluta. A nossa vida sexual coincide com o melhor do que somos. O médico de palavras. As nalgas e o osso da rabadilha. E, para acompanhar, o redondo vocábulo de Zeca Afonso e a louca inocência de Paul Klee


Música, por favor

José Afonso - Era um redondo vocábulo


.1.




Doutor, pode ser a qualquer hora, onde quer que esteja, com quem quer que seja. Olho para uma coisa e, sem  querer, começo a retirar-lhe uma a uma todas as ligações que ela tem com as outras coisas até ela acabar por se sumir. Uma pessoa está a falar comigo e, de repente, deixo de a entender porque fico encantado pelas palavras, sem cuidar do que dizem. Ou então estou a pensar numa coisa e começo a pensar no que será isso de pensar numa coisa e esqueço-me do que estava pensar. Coisas assim.


.2.




Aqui, pensou o médico, desagua a última miséria, a solidão absoluta, o que em nós próprios não aguentamos suportar, os mais escondidos e vergonhosos dos nossos sentimentos, o que nos outros chamamos de loucura que é afinal a nossa e da qual nos protegemos a etiquetá-la, a comprimi-la de grades, a alimentá-la de pastilhas e de gotas para que continue existindo, a conceder-lhe licença de saída ao fim de semana e a encaminhá-la na direcção de uma 'normalidade' que provavelmente consiste apenas no empalhar em vida. 

(...) Os que os procuram para se procurarem e arrastam de consultório em consultório a ansiedade da sua tristeza, como um coxo transporta a perna manca de endireita em endireita, em busca de um milagre impossível. Vestir as pessoas de diagnósticos, ouvi-las sem as escutar, ficar de fora delas como à beira de um rio de que se desconhecem os as correntes, os peixes e o côncavo de rocha de que nasce.


.3.




Estar doente é descobrir a existência autónoma do corpo, essa nossa outra identidade esquecida que anda connosco. Não somos donos da nossa mente, tão-pouco o somos do resto. Sim, o corpo escapa-nos tanto ou mais do que a memória, que também envelhece à nossa revelia: o corpo, esses, aguenta, reage, resiste, ou não, ele lá sabe! E nós assistimos, espectadores meio contrafeitos, a esta realidade situada fora de nós, embora sempre ao nosso lado. Que de nós, afinal, é indissociável. Estranha coisa.

Porque o nosso corpo, terra incognita, somos nós e não o somos, mas se ele morrer, morremos com ele. Pertencemos-lhe pois, mesmo contra nossa vontade.

Estar doente é passar a coexistir com um intruso. Um intruso vingativo.

A nossa vida sexual coincide com o melhor do que somos. É a expressão de uma sempre antiga fidelidade, íntimo júbilo reencontrado. De uma presença, em suma.

Ao invés, a doença é o pior do que somos, reflexo de uma íntima traição. Pior do que uma ausência, um esvaizamento.


.4.




Qual a sua profissão? perguntou um escritor a um crítico. Eu, sou médico de palavras. Médico de palavras? Tinha ido cortar o cabelo e achava-se desprovido de argumentos.


.5.



E ali fiquei, humilde, embrutecido, perante a comadre escura que me vigiava. Os olhos dela, vorazes, eram mais temíveis do que esse ventre desgastado de esforços vãos, do que a bacia estreita que se opunha à vida. Esperei minutos, horas, para me dispor àquilo que desde logo me pareceu indicado: uma intervenção com os medonhos ferros que são o pesadelo das parturientes e das famílias aldeãs. Até que a comadre, não suportando já as minhas hesitações, levou à frente das palavras um dedo sujo, antes que eu pudesse simular uma reacção, e enfiou-o nesse abismo insondável. E disse sem meias-tintas:

- Se quer fazer alguma coisa, Sr. Doutor, saiba que a criança está nas nalgas. Está presa presa no osso da rabadilha.

Aquela frase ficou inteira nas minhas recordações, ainda hoje me assusta os ouvidos.



****

A. Os autores dos textos são respectivamente:

1. Pedro Paixão

2. António Lobo Antunes

3. Marcello Duarte Mathias

4. Ana Hatherly

5. Fernando Namora


e são parte de textos maiores contidos no livro, já aqui referido,  'A caneta que escreve e a que prescreve' organizado por Clara Crabbé Rocha.


B. As imagens são pinturas de Paul Klee, pintor suiço naturalizado alemão (1879 - 1940) que é cá dos meus.

****

Se estiverem para isso, gostaria de vos ver lá pelo meu outro canto, o Ginjal e Lisboa. Hoje as minhas palavras mergulham em volta de um poema de Casimiro de Brito. Acompanham com vozes maravilhosas que continuam a semana Verdi.

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E tenham meus Caros uma belíssima quinta feira!

quarta-feira, maio 23, 2012

Miguel Relvas e a vida privada, Álvaro Santos Pereira e o coiso, Vítor Gaspar e os números ao lado, Passos Coelho e os desempregados e as inúmeras oportunidades. Stop. Mudança de cena. Stop. Agora coisas com interesse: Casimiro de Brito e 'Amar a Vida inteira'


Meus amigos, com as respostas aos comentários e com o que escrevi no Ginjal, estive até agora e já é quase 1 da manhã. Vou, portanto, tentar ser breve.

*
Música, por favor


Quim Barreiros e os Pêlos do Coelhinho

*


O Ministro de quem se fala, Miguel Relvas, aqui provavelmente
recebendo um clipping telefónico do seu amigo  maçon e ex-espião,
Jorge Silva Carvalho,
informaçõezinhas que, ao que parece e a ser verdade o que a direcção do Público diz e
que a ERC irá tentar apurar se é verdade, e segundo se comenta por todo o lado,
 são capazes de dar muito jeito quando quer intimidar alguém


Estava cheia de vontade de vir dizer que acho do além que um ministro ameace uma jornalista dizendo que vai publicar na internet dados da sua vida pessoal (onde os obteve ele?). Mas, tratando-se do nosso bem conhecido Miguel Relvas, essa distinta figura da nossa politiquice nacional, não me espanto.

*


Álvaro Santos Pereira, o ministro do Coiso, da Deseconomia e de outras 'coisas',
aqui a espremer uma borbulha enquanto pensa nos coisos


Estava também cheia de vontade de vir dizer que acho do além que o Ministro da Economia, do Emprego e mais não sei do quê, ao referir-se ao 'desemprego' não lhe ocorra a palavra e diga 'o coiso'. Mas tratando-se do nosso bem conhecido Álvaro, esse insigne ministro que tanto tem feito pelo rápido afundanço da economia e pelo descalabro no desemprego, não me espanto.

*


Vítor Gaspar, o ministro cuja carinha não engana e que até hoje ainda não acertou uma
(e que é o único que se espanta por serem todas ao lado), aqui num exercício de fala gestual,
provavelmente referindo-se ao coisinho


Estava também cheia de vontade de vir dizer que o Vítor Gaspar não acerta uma. Todas as estatísticas internacionais (como as da OCDE) e todos os relatórios (como os elaborados pelo Conselho das Finanças Públicas presidido pela insuspeita Teodora Cardoso) mostram que a trajectória que está a ser seguida pelo actual governo são um desastre, que é gente que não sabe sequer fazer projecções pelo que andam sistematicamente enganados e admirados pela desgraça que provocam. 


Passos Coelho e o seu Número 2, aqui, aparentemente,
um assoando-se à mão e o outro preparando-se para lhe  aplicar um justo  correctivo
ou, não sendo isso,
um fazendo um briefing a partir do clipping e outro fingindo que não ouve, tapando o nariz


Mas tratando-se do Governo do inteligente e sensível Passos Coelho que acha que estar desempregado é uma oportunidade (pois é: com tantas oportunidades que há, não é...?) e do governo de rapaziada como o Relvas e o Álvaro ou Gaspar, não me espanto.

E, portanto, assim sendo, não gasto a minha energia com gente que não me espanta e passo para temas mais interessantes.

**

Música, de novo, por favor

Banda sonora do filme O amante 
(baseado na obra homónima de Marguerite Duras)



Intercalando com fotografias tiradas na beira do Tejo e com Lisboa em pano de fundo, vou mostrar-vos três poemas de um livro que hoje adquiri e que é uma preciosidade. 'Amar a vida inteira' de Casimiro de Brito, que ele dedica assim: 'Para os meus filhos. Para as águas que me têm iluminado'. Não é uma dedicatória linda?

Acho que vêm mesmo a propósito depois do romance que começou entre Eva e Tomás.





Quem toca na espuma
mergulha no mar.
Assim comecei a amar-te.
Primeiro uma gota
invisível. Agora
no sexo que me abres
na saliva que me sacia
a terra toda e todos 
os seus rios.





Fui jovem nas danças quando nos teus braços
respirei, no doce vazio que me deixava 
entrar. E cantei. Não fales,
não digas nada se te resta algum segredo
na boca. Deixa-me ser triste,
a tristeza enrouquece-me e já não sei 
se o amor é possível ou já caído.
Fui jovem nas danças.
Não digas nada, se acaso te resta
algum sabor nas bocas mais íntimas
do corpo. Deixa-me respirar
a flor efémera que nada sabe
do seu mistério.




Deus
é o teu corpo
nu. Deusa
quando te dispo
e ajustas
ao meu corpo.
Mulher apenas:
água e vinho
quando te bebo e me
embriago.


***

E, por hoje, é isto. Espero que tenham gostado tanto como eu dos poemas. Acho-os belíssimos. 

E, por falar em poesia.... Bem hoje a coisa estava animada ali para os lados do meu Ginjal e as minhas palavras ajoelham e logo verão porquê em volta de um pouco inocente poema (vou já avisando...) de João Paulo Cotrim. A música é do melhor que há, a bella figlia dell' amore e continuamos, obviamente, com Verdi.

***

Tenham, Magníficos Leitores, uma bela quarta feira. E divirtam-se à grande, está bem?

terça-feira, maio 22, 2012

No final do passeio pelo Douro Superior, a seguir à visita ao Museu do Côa, Ana desnuda-se perante um Tomás que, na véspera, praticamente já se tinha desvendado perante Ana e a história chega ao fim - The End


Música, por favor

Música com sons da natureza



Tomás olhou para Ana, 'Deve estar a achar que isto está a parecer uma novela mexicana'. Ana sorriu. 'Que ideia... Não, Tomás, estou a ouvir com atenção e com curiosidade.' 

'Não gosto de falar nisto, nunca falei. Mas mil vezes tive, dentro de mim, a conversa que estou aqui a ter. Mil vezes relatei, em silêncio, a conversa que um dia teria com alguém a quem explicaria o que se passou. Mas, apesar de mil vezes ensaiado, agora que estou a falar a sério, tudo me parece pouco credível, tudo me parece exagerado ou destituído de lógica. 

Mas foram anos de cansaço, Ana, anos de trabalhar quase sem dormir, anos de querer sempre mais, mais clientes, mais horas, mais quadros, mais livros, mais carros, anos de muita pressão, ter relações no período fértil, exames médicos, frustrações, análises, mais exames, e as frustrações, as minhas, as dela, as depressões dela, as dores de cabeça dela, as indisposições e eu já não sabia se as indisposições eram físicas, se eram imaginadas, se eram fruto da depressão, tantos anos assim, tantos, eu sei que é difícil de perceber mas foram anos e anos, eu estava tão exausto, nem sabia quanto'.  E passou as mãos pelo cabelo.

'Mas, dito assim, parece uma tragédia vulgar, não gosto de me ouvir a dizer isto. Uma perda é uma coisa má mas uma perda envolta em culpa é uma coisa péssima. É uma garra no nosso peito, é uma angústia que não nos deixa respirar, nem viver. Nem falar, Ana'. E olhou-a como se fosse incapaz de dizer mais uma palavra que fosse.

Ana levantou-se e foi sentar-se ao lado dele, 'Não conte, Tomás, não quero ouvir. Mas conte como foi parar à vila.'

Tomás deu-lhe a mão, 'Larguei tudo, tudo. Andei por aí, por onde calhava, andei até gastar o dinheiro todo, anos a andar por aí, em acções humanitárias, por aí. Até que, quando se acabou o dinheiro, comecei a trabalhar, também onde calhava. Uma vez estava numa serração, apareceu o dono da carpintaria da vila para escolher umas madeiras. Gostou da forma como eu pegava ou cortava na madeira, precisava de um ajudante, fui com ele. E foi ali, a trabalhar a madeira e a aprender com ele que reencontrei o amor que antes tinha pelo corpo humano. Os veios da madeira, descobri-los, o corpo da madeira, a forma de transformar aspereza em suavidade, a forma certa de cortar sem ferir, a forma certa de tratar sem traumatizar. Fui ficando. Ali também ninguém me conhecia e ali poderia, finalmente, estar em paz sem ter que andar de um lado para o outro. Depois, há uns dois ou três anos ele parou, reformou-se e vendeu-me a carpintaria. Foi só isso, nada demais, afinal.'

Ana, fez-lhe uma festa no cabelo e ficaram um bocado em silêncio. Depois ela disse, 'É tarde, ficamos por aqui. Vamos jantar e falar de coisas divertidas. Bom, bom, seria se encontrássemos um sítio para dançar.'

Tomás levantou-se, 'Dançar!? Tudo menos isso. Por muito que lhe queira agradar, isso é que não, peça outra coisa mas isso não. E, além disso, agora é a sua vez de falar'.

Ana hesitou, 'Tomás, peça outra coisa... mas isso não, hoje não... tenho que ver se invento uma história credível para lhe contar porque a minha história verdadeira é escabrosa demais'. Ele olhou-a, espantado. Ana riu-se, 'Não, escabrosa também não será, mas é maçadora, tenho que ver se invento alguns pormenores picantes'.

Jantaram no hotel e depois, antes de irem dormir, ficaram um bocado a combinar o percurso do dia seguinte.


Freixo do Numão - a beleza  pura da simplicidade


De manhã foram até Numão, localidade encantadora onde passearam como turistas, vendo o castelinho, a vista do castelo, as casas. Uma mulher, ouvindo as vozes, veio espreitar à porta, depois recolheu-se. Passado um bocado, discretamente veio até à rua, devia querer ver bem aquele casal para depois poder reportar o evento. Ana deu o braço a Tomás e sorriu para ele, enternecida, até para a senhora poder acrescentar esse dado relevante.



Contentor do lixo em Numão


Tomás apontou a Ana o contentor do lixo. Ana fartou-se de rir e fotografou. 'Não colocar cinzas quentes', que coisa mais engraçada para se escrever num contentor do lixo. São as particularidades da vida na terra.

Dali partiram para Foz Côa.



O Douro Superior avistado pela última vez em Foz Côa - uma imagem que não se apaga da memória
Os montes que se vão tornando azuis à medida que se escondem atrás de outros montes e um rio
que reflecte o céu e que desliza ante os nossos olhos assombrados


Ana não conhecia o museu, ia céptica. Mas o cepticismo logo se esbateu. A vista era, como sempre, magnífica, com todo o esplendor que caracteriza toda esta zona.

E o edifício do museu é espectacular.



Entrada do Museu do Côa
O céu que se vai estreitando à medida que entramos na terra, isto é, no belo edifício


A entrada deixa logo antever que vamos entrar num espaço onde a luz entra por frinchas. E depois toda a organização do museu nos 'leva' aos espaços em que foram observadas as gravuras rupestres.



Interior de uma sala do museu do Côa


Avançamos por espaços pouco iluminados mas o suficiente para vermos o que nos é mostrado, os traços que alguém, muito antes de nós, nestes mesmos locais, vendo estas mesmas paisagens, e vivendo numa natureza fulgurantemente bela, foi desenhando nas rochas.


Outro aspecto de outra sala do belíssimo (e moderno!) Museu do Côa


O que vemos são réplicas, ou figuras iluminadas, ou peças descobertas, ou recriações de ambientes e há uma música suave que nos acompanha, sons da natureza, bichos, passos de gente nos rochedos ou de animais, pássaros, o vento na folhagem.


Ana andou feliz, descansada, o ambiente de museus deixa-a sempre assim, descontraída e bem disposta. Tudo ali a encantou.

Quando saíram, Ana deu a mão a Tomás, puxou por ele. 'Venha, vamos encontrar um recanto confortável, sossegado'. Abriu o saco que trazia ao ombro e mostrou-lhe pão, bolos, fruta, sumos. Tomás admirou-se: 'Mas de onde veio isto?'. Com ar gaiato, Ana confessou, '...Não diga nada... Trouxe do hotel, do pequeno almoço, bad, bad girl... vamos, vamos fazer um picnic'.



Se a música lá de cima ainda não acabou, por favor, parem-na, que a música agora é outra.

Damien Rice - I can´t take mey eyes off you
(Banda sonora do filme Clser)




Pormenor da paisagem do Douro Superior, Douro Vinhateiro, Reino Maravilhoso


Foi Tomás que descobriu o sítio ideal. Sentaram-se e, como se estivessem no ventre da terra, no meio do nada, ali estiveram comendo, rindo. Depois Ana, resoluta, avançou, 'Então, vá, vamos lá: agora eu!'

Tomás deu o mote: 'O que é que uma mulher como você tem a ver com aquele sujeito intragável que a foi visitar no outro dia... com flores?!'.

Ana riu, maliciosa, 'É intragável, é. Mas tem o seu lado tragável...'.

Como ele não se risse, ela continuou: 'Vá, agora a sério. Fomos colegas. Depois cada um seguiu o seu trajecto profissional mas a nossa amizade continuou. Sempre houve um ambiente de picardia entre nós e dali até haver uma chispazita era um ar. Uma adrenalina, uma atracção, nem sei bem dizer. Mas ele ultimamente está um convencido, um arrogante, um verdadeiro palerma, é verdade. A empresa onde ele estava, como sabe, foi comprada por chineses, eu na brincadeira até o trato por chinês. Sou amiga da mulher dele, não tem nada a ver. E gosto dele, apesar das parvoíces e vaidades. Em privado é divertido, é outro. Andou a querer divorciar-se, queria ficar comigo, uns dramas. Era escusado que eu nunca iria viver com ele mas, de qualquer maneira, a mulher também não aceitou o divórcio amigável e ele, com a exposição mediática que tem, nunca poderia ir para um litigioso. Continuámos amigos como antes, embora desde há algum tempo pouco nos encontremos'.

Ana estava com calor, tirou o casaco e apeteceu-lhe sentir a terra, tirou os sapatos. Continuou de olhos postos em Tomás: 'Mas, enfim, são coisas da vida. Mas o homem da minha vida não é ele. É outro, sempre foi. É o pai dos meus filhos.' Tomás abriu os olhos, com espanto. 'Sim, tenho filhos, Tomás.'

Tomás olhava-a, calado. Ana continuou: 'Que calor que se está a pôr. Não leve a mal, Tomás, mas vou tirar também a tshirt'. Despiu e ficou de calças e soutien. Tomás engoliu em seco, tentando não ser indiscreto, não ver os seios de Ana que eram bem visíveis com o soutien decotado.

Ana continuou sem conseguir tirar os olhos de Tomás: 'Mas o homem da minha vida, o ano passado recebeu um convite que achou que era irrecusável, ir arrancar com uma unidade no Brasil. Queria, naturalmente que eu fosse com ele. Claro que eu não ia, tenho cá a família, o trabalho, tudo. Depois meteu na cabeça que eu não queria ir por causa do 'chinês'. Nós, que antes sempre nos tínhamos dado tão bem, começámos a viver numa discussão permanente. Cenas de ciúmes permanentes, uma estupidez, queria que eu confessasse, cenas parvas, coisas pelas quais eu, nunca na minha vida!, quis passar, odeio ciúmes, odeio. Uma vez no meio da maior crise, farta das inquisições e ciumeiras, disse-lhe para se ir embora e para me deixar em paz, que eu, por muito que gostasse dele, não iria viver para longe dos meus filhos, nem dos meus pais e que fosse chatear outra e essas coisas que se dizem no calor das discussões. A verdade é que saíu porta fora e aceitou, finalmente, o convite. Depois arrependeu-se mas já era tarde demais. Furiosa, disse-lhe que escusava de me telefonar, que eu nunca mais queria pôr-lhe os olhos em cima. E, no dia em que ele embarcou, eu fiz o mesmo, saí de casa, avisei os meus filhos e os meus pais e fui parar à vila. Todos os dias lhes telefono e todos os fins de semana são sagrados mas a ele não, não lhe perdoo, e ele liga aos filhos, pede-lhes para eles me convencerem, uma chatice.'

Tomás olhava para o chão, inibido. Percebeu que Ana estava a despir as calças mas não levantou os olhos. 'Que bem que se está assim, Tomás, a sentir o sol na pele'. Tomás não disse nada.

Ana colocou-se bem na sua frente, assim, e continuou, olhando-o: 'Quis afastar-me, estava furiosa, furiosa comigo por ter esticado a corda até partir, furiosa com ele porque se foi embora, furiosa, triste, aborrecida. Uma vida inteira para acabar assim, estupidamente. Nem sei quem é que teve razão ou se alguém teve, nem isso me interessa. Tratei de tudo no trabalho para deixar de ter funções executivas, passei a tratar de tudo por mail ou por telefone ou em reuniões ao fim de semana. Era para ser um mês, dois meses, três meses. Mas comecei a arranjar a casa, comecei a interessar-me pela terra, por tudo e... pode alguém ser quem não é? Quando dei por mim já estava a dinamizar negócios, a motivar pessoas, enfim, aquilo que sempre fiz. E isto apesar de ter ido para lá para mudar de vida. De tal maneira que quando o dono da oficina me perguntou o meu nome, me saíu um nome que não o meu...'

Tomás olhou-a então de frente, como se sentisse enganado: 'Não?! Não se chama Ana? Então como é que se chama?"

Ela despiu então a última peça de roupa e assim, de frente para Tomás, deixando que ele a visse em toda a sua nudez, olhando-o nos olhos, respondeu: 'Eva'. 


***

Para o caso de alguém querer ler esta história do princípio até ao fim, poderá procurar a etiqueta 'Ana muda de vida' aí ao lado, mais lá para baixo.

E, para o caso, de haver algum resistente que, depois desta longuíssima história, ainda lhe apetecer ler mais qualquer coisa, convido-vos a visitarem-me lá na minha outra casa, o Ginjal e Lisboa, a love affair. Hoje as minhas palavras voam, mas hoje voam mesmo, em volta de um poema de Tatiana Faia. A música só poderia ser Va, pensieri, sull'ali dorate e, claro, é Verdi.

***

Cansada de tanto escrever, desejo-vos uma bela terça feira. 

E, se me permitem um conselho de ordem prática, não seria de jogarem o euromilhões? Parece que há um jackpot  jeitoso que talvez venha a calhar para uns devaneios. 

Seja como for, divirtam-se à grande, está bem? 

segunda-feira, maio 21, 2012

Do almoço em Ferradosa até ao deslumbramento no Alto de Vargelas - e eis que Tomás, finalmente, começa a contar a Ana a sua história


Música, por favor

Ennio Morricone - Banda sonora do filme 'A missão' 
(com Robert de Niro e Jeremy Irons)



Chegaram, pois, a Ferradosa, pequeno local abrigado na beira do rio.

Chegando ali, Ana pensou que lhe apeteceria sonhar, apetecer-lhe-ia pensar que seria possível morar para sempre num sítio assim e ali ficar na maior paz, no maior silêncio.

Tomás dirigiu-se a um restaurante com um pequeno cais, com uma varanda sobre o rio. Nessa varanda um homem magro, com um chapéu escuros de abas, com um cão enorme de pêlo curto, claro, que afagava enquanto lia, espantou-se ao ver Tomás. Depois levantou-se, abraçaram-se, quase sem falarem. Tomás apresentou-lhe Ana, apresentou Pedro a Ana, contou que tinham brincado muito quando eram pequenos, que muitas viagens de comboio tinham feito desde o Porto, mas depois não deu grande seguimento à conversa; parecia querer evitar perguntas pois, logo a seguir, fez tenção de ir ao que ali o trazia, ao almoço, e conduziu-a até uma mesa. O homem parecia ser pessoa calada e, coisa curiosa, era fisicamente bastante parecido com Tomás; não insistiu na conversa e, acto contínuo, retomou a sua leitura e as festas ao cão.

Ana notou que Tomás, apesar de se terem cumprimentado com notório afecto, parecia ter cortado laços com Pedro, mas não fez perguntas.

A sobriedade de Tomás afastava espontaneamente qualquer tentativa de intromissão mas, de qualquer maneira, Ana estava com  mixed feelings. Por um lado tinha curiosidade e ele próprio se tinha prontificado a falar mas, por outro, ainda tentava manter alguma distância - é que a proximidade estava a ser, para ela, uma tentação.



Elegante traço branco na paisagem verde: navio sai de Ferradosa e faz-se ao rio que não é só água,
é também um espelho  tranquilo


Um navio longo e branco que estava atracado mais à frente fez uma vagarosa curva e passou na frente deles, deslizando nas águas suaves. Por um momento Ana desejou ir ali com Tomás, como se tivessem nascido há pouco tempo, sem vidas para trás, como se pudessem começar juntos uma vida simples, sem explicações a dar. Mas logo se arrependeu da ideia pois a verdade é que não se arrependia da nada do que tinha feito até então e não trocava a vida que tivera por quimera nenhuma do mundo.

Escolheram o almoço. Tomás escolheu filetes e Ana uma jardineira que se veio a revelar deliciosa, caseira, apaladada, uma carne de vaca muito macia, um molhinho grosso, apurado, a puxar pela deliciosa broa. O vinho da região, tinto, excelente. E ali estiveram. Tomás não falou da sua vida e Ana também não puxou pelo assunto. Além do mais, ele dizia que depois de contar, esperava que ela fizesse o mesmo e ela, ao ter ido para a vila, era como se tivesse passado a usar uma burka, cobrindo a sua identidade perante todos. Não lhe apetecia falar na sua vida pois, ao fazê-lo, iria ver-se forçada a equacionar o seu futuro e não estava a conseguir raciocinar com isenção e objectividade.



O verde da Ponte mistura-se com o verde dos montes e atravessa com suavidade o rio 


Quando acabaram de almoçar já Pedro se tinha ido embora. Ana e Tomás ficaram ali, em silêncio, a olhar o rio, a pequena ponte verde, o barquinho que passava por baixo e parecia de brincar, os montes que pareciam desenhados e pintados às cores por uma mão inocente de criança. Ana pensou que, acontecesse o que acontecesse, nunca se iria esquecer destes locais tão belos que Tomás a tinha levado a ver. A inocência que parecia envolvê-la, provinha talvez, muito, deste local mágico.

A seguir ele disse, 'Vamos ali acima, quero mostrar-lhe outro miradouro, talvez aquele de onde a vista é mais bonita, o Alto de Vargelas. O miradouro em si não é um local acolhedor e arranjado como o S. Leonardo da Galafura ou S. Salvador do Mundo mas a vista é fantástica, vai ver. Fica junto à entrada da quinta onde o pai do Pedro era comissário, a Quinta das Vargellas'.



Avistado do Alto de Vargelas, o rio atravessa os montes que estão atrás dos montes,
que estão atrás dos montes, que estão atrás dos montes e nós, se pudéssemos,
afagá-los-íamos com as nossas mãos devotas e mergulharíamos as mãos nesta beleza imensa


Quando chegaram, Tomás ficou parado a olhar. 'Tantas vezes aqui vim ter com o Pedro. Tempos tão distantes. Nessa altura eu ainda não sabia o que seria a minha vida.'

Ana olhou em silêncio. Os montes sucediam-se e, à medida que se afastavam, iam-se tornando azuis, iam-se dissolvendo no céu e o rio era um longo leito brilhante que parecia vir de lá, do alto, talvez as nuvens feitas uma fita de água azul. Tudo tão belo, tão grandioso, uma escala que minimizava os pequenos dramas humanos. Mas Ana sentia que Tomás se debatia com o seu, sentia que ele queria falar.

Aproximou-se, então, de Tomás, deu-lhe o braço e encostou ao de leve a cabeça no seu ombro. 'Talvez aqui seja, então, o local para começarmos a nossa conversa, não?'

Tomás disse, 'Então deixe-me olhar mais uma vez e já vamos para o carro, falamos lá, enquanto andamos.'



A vista do Alto de Vargelas, uma paisagem abençoada:
a terra que deus e o homem moldaram com vagar, com minúcia e carinho,
a água que desliza em todo o seu esplendor, o ar puro e perfumado, e, sempre, na terra amanhada,
nas estradas que serpenteiam, o trabalho incansável do homem


Ana deixou-se estar ali, de braço dado com Tomás, calados, a olhar a imensidão do horizonte, o rio que se revelava e escondia, os montes belos, orgânicos.

Depois entraram no carro, estava frio lá fora. E Tomás começou a contar, pausadamente, silêncios entre frases, voz surda, por vezes mal se ouvia, mas Ana nunca o interrompeu, por respeito, por receio que ele se arrependesse: 'Nunca contei a ninguém. Eu sou médico, Ana. Ou melhor, eu era médico. Há muito tempo. Trabalhava muito. No hospital, e tinha um consultório. Fazia bancos e ia directamente dali para o consultório, quase não dormia. Era bem sucedido, consultório sempre cheio. Ganhava muito dinheiro. Tinha uma casa muito grande no Estoril, tinha um apartamento no Algarve, tinha três carros e uma mota. Pinturas. Esculturas no jardim. Tinha tudo o que me passava pela cabeça. E era casado. A minha mulher era professora. Dávamo-nos muito bem e ela tinha muita compreensão pelas minhas ausências, tinha dias de quase não a ver. Era uma mulher de mão cheia, muito boa pessoa, uma companheira. Mas tinha uma mágoa muito grande, tinha sempre aquela mágoa. Perante os outros tentava disfarçar mas, em casa, estava sempre muito triste. Durante muitos anos tentámos ter filhos. Mas em vão. Ainda engravidou duas vezes mas abortou logo. Fez tratamentos e mais tratamentos. Mas nada.'




Entretanto, chegaram ao hotel e Ana entrou directamente para o quarto de Tomás. Depois de um dia um pouco cansativo, apetecia-lhe pôr-se à vontade. Descalçou-se e deixou-se ficar a ouvir Tomás que continuava com a voz nervosa: 'Só quem passa por este processo é que sabe a expectativa que renasce para logo se gorar, a angústia, a ansiedade, e as pessoas todas a perguntarem quando é que encomendávamos um bebé, toda a gente a dizer que já estava na altura antes que fosse tarde demais, e os nossos pais sempre a quererem um netinho e nós aflitos, já quase sem esperança. Não falávamos disso aos outros, escondíamos como se fosse um defeito de que nos envergonhássemos, era um pudor, era uma defesa, nem sei. Foram anos de tentativas frustradas, de lágrimas, de ilusões que se transformavam em grandes desgostos, isso é que foi. Até que desistimos. O desgosto era mais dela que meu, que sempre a animei dizendo que podíamos adoptar mas só se convenceu a isso quando, depois de muitos anos, perdeu a esperança. Um dia, tínhamos dado entrada dos papeis para a adopção, estávamos emocionalmente exaustos e eu fisicamente cansado de tanto trabalhar, resolvemos ir de férias para um daqueles destinos longínquos, uma praia de sonho. Lá fomos, ela deprimida, mal disposta, quase nem queria sair do quarto de hotel. Eu, para espairecer, resolvi ir fazer um curso de mergulho, o primeiro dia era um dia inteiro, aulas teóricas, práticas.'

Aí parou, estava emocionado, tenso. Ana disse, 'Pare um bocadinho, Tomás. Venha até aqui à janela, respire fundo. Já continua. Mas só se quiser, Tomás, deixe'.


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Bom, se chegaram até aqui e vos apetecer também espairecer, hoje, lá no meu Ginjal as minhas palavras voam em volta de um poema de Soledade Santos e eu gostaria muito de vos ter por lá. Acompanha com La Traviata que, assim, abre a semana que vou dedicar a Verdi. Grande semana, portanto.

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E é isto. Mais uma semana que começa e que comece bem para que toda ela seja uma festa. Divirtam-se!