Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, abril 30, 2012

Ginjal com chocos e gaivotas, Chiado, Livraria Bertrand, Santa Catarina, o Elevador da Bica e Adamastor no miradouro, Belém com veleiros e gaivotas, Skapinakis no CCB em dia de música - ao som de Marta Dias e António Chainho; e ainda um poema dito de António Ramos Rosa


Música, por favor

Marta Dias com António Chainho interpreta Fadinho Simples


Quando eu era pequena gostava muito de andar no campo, de correr. Havia entre a casa da avó - onde ficava quando saía da escola e até chegar a hora de ir para casa dos meus pais - e a escola uma ladeira muito íngreme. O que eu gostava de vir desde lá de cima a correr...! Ganhava balanço, a velocidade ia aumentando e eu sentia que, se quisesse parar, não o conseguiria. Sentia que quase voava.

Ainda hoje tenho nos joelhos marcas das quedas que ali dei. 

Na parte de cima da casa dessa minha avó, havia campo, muitas árvores, montes, pedras. Era também para aí que eu gostava de ir brincar. Via os pássaros, adorava andar à procura de ninhos, para espreitar os ovos. Pouco parava dentro de casa. 

Também, por essa altura, perto da casa dos meus pais havia campo. Agora já pouco há, quase só casas. Mas na altura havia largueza, um ar muito puro, e era também à solta que eu mais gostava de andar.

Quando comecei a namorar, novinha, dava grandes passeios com o meu namorado. Jardins, beira mar e, também, livrarias. Mais tarde, por alturas da faculdade, assim me mantive, jardins, parques, praia, beira-rio  e, por essa altura, para além de livrarias, também museus.

Ainda hoje sou assim. Por força das circunstâncias obrigada a trabalhar, fechada, em ambiente de escritório, logo que posso é a andar ao ar livre, a passear, a calcorrear livrarias e museus que eu me sinto melhor.

Temo maçar-vos com a descrição recorrente destes meus passeios mas, gostando tanto de os fazer, gosto também de partilhar convosco este gosto.

Por isso, com as minhas antecipadas desculpas pelo déjà vu, aqui vos dou conta do dia de hoje, um dia que, para mim, foi uma maravilha.

Eu, caminhante, qual ave em terra, lá fui. E, claro, vocês já me conhecem, lá fui fotografando tudo.




Comecei, claro, pela beira do rio.



Hoje as gaivotas voavam alto, muito alto, voos largos, uma fantástica dança aérea.

Gosto de fotografar os pescadores. São pessoas que se encontram envoltas em azul, no meio de vastos horizontes, no meio da beleza, numa tranquilidade expectante. Quando são em sucedidos nas suas pescarias, sinto que gostam que eu registe o fruto do seu sucesso.

Hoje um apanhou um belo choco.



Colocou-o no chão, creio que de propósito para eu o fotografar. Reluzente, o choco agitava-se na calçada. Vejo agora na fotografia que até ficou com uma pena de gaivota presa na viscosidade da sua pele. E um belo cheiro a maresia sempre presente.

De tarde, depois de almoço na zona do Chiado, novo passeio.



Início no Largo do S. Carlos, junto à estátua de Fernando Pessoa, não a da Brasileira mas esta, de um Pessoa com um livro no lugar da cabeça.

A seguir, visita a um local de recordações, a Bertrand do Chiado, uma livraria linda, em que se vai de sala em sala e dentro da qual tanto tempo passei, tantos livros comprei.



Quando eu andava na faculdade e havia os saldos da Bertrand eu gastava todo o dinheiro que tinha e não tinha, era uma perdição.

Junto ao Teatro São Luíz, carrinhas das estações de televisão e muitas pessoas, algumas conhecidas, que iam recordar a pessoa feliz e boa que era Miguel Portas. Vi agora na televisão que foi um ambiente de ternura que, de forma muito digna e tocante, envolveu a sua memória. Os seus pais sentiram, certamente, muito orgulho no filho que ficará para sempre no coração de toda a gente; e os filhos, tão bonitos, meiguinhos, sentiram também, com certeza, que o seu pai foi um homem muito especial.

A seguir o passeio dirigiu-se a um dos vários miradouros da cidade, desta vez a Sta. Catarina.



Um local belíssimo, cheio de tradição, mas no qual encontrei uma frequência algo duvidosa. Não é que eu as receie mas uma excessiva profusão de rastas, cerveja a litro, cigarros e cheiros algo suspeitos tornam o local muito pouco ecológico.



Mas, enfim, bonito na mesma, o Adamastor imponente a desafiar todas as rastas deste mundo.

A seguir, de novo em direcção ao rio. Àquela hora da tarde, o rio estava platinado, brilhante, de uma beleza quase insuperável.


Naquelas gradações de prata brilhante do Tejo, os veleiros ficavam quase abstractos contra a luz. E as gaivotas sempre presentes, sempre belíssimas.

A nossa ideia era ir ver a World Press Photo no Museu da Electricidade mas a grande fila cá fora dissuadiu-nos, pelo que nos pusemos a caminho do Centro Cultural de Belém. Em dia de festa da música, uma numerosa multidão animava o espaço. Aliás, desde o restaurante até ao Chiado, à beira do rio e ao CCB a presença de turistas era assinalável. 



Acabámos por ir ver a BES Photo 2012 e a retrospectiva 'Nikias Skapinakis, presente e passado, 2012-1950' ao Museu Berardo.

Na altura havia jazz no ar, vindo de um concerto que devia decorrer num pavilhão pois o som era bem audível, uma maravilha.

Muito mais gente do que é costume, na maior parte estrangeiros. Não interessa. O que interessa é que hoje encontrei um museu vivo, com gente a falar ou a ver em silêncio, a fotografar, a rir com algumas peças - ou seja, um museu como os museus devem ser, um local onde é bom estar.

Destaco em especial a exposição de Skapinakis. Muito completa, muito apelativa, um gosto.



Novos, velhos, crianças, toda a gente apreciava com alegria a imaginação fértil, o sentido de humor e o equilíbrio da obra de Skapinakis.




Termino porque vocês, meus queridos Leitores, já devem estar maçados com estes meus passeios na cidade. Mas eu gosto tanto de me deleitar com a beleza natural que nos rodeia e com as diversas manifestações da arte que fico a sentir-me quase na obrigação de vos dar testemunho da alegria e prazer que é percorrer estes caminhos.

Já agora: não custa dinheiro. A entrada no Museu Berardo é gratuita; a rua, os miradouros, o rio, as gaivotas, os veleiros, também o são... (e não me alongo não vá o Gaspar ter alguma ideia infeliz). 

*

Ouçam, agora, por favor, um poema de António Ramos Rosa


*

[Já agora, antes de me ir: não querem dar uma espreitadela lá ao meu Ginjal e Lisboa? Hoje temos palavras em volta de um belo poema de Maria do Rosário Pedreira. E esta semana continuamos com a grande música e as grandes vozes: Puccini. Serão muito bem vindos por aquelas minhas bandas.]

*

E tenham, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar por esta segunda feira. 

E sejam muito felizes, está bem?

domingo, abril 29, 2012

De cinzenta a luminosa: uma manhã de sábado no Ginjal. E Maria João Pires. E Rachel Leahcar e La vie en Rose e, ainda, o charmoso e convincente Obama no Late Night with Jimmy Fallon. A vida continua.


Música, por favor


Chopin - Maria João Pires com Pavel Gomsiakov, Estudo Nº 19



Agora que escrevo, a chuva cai com força, ouço-a na janela ao meu lado. Hoje o dia esteve assim. Começou logo cinzento. De manhã a paisagem pintava-se em tons de cinzento e o céu pesava.



Mas, durante um bocado, aos poucos, o céu foi abrindo, o sol foi aparecendo e, por instantes, o verde ficou luminoso, o azul ficou inocente.

Entrei no jardim da beira do rio. Os pés quase se afundavam na relva molhada. Reentrei, pois, no meu mundo mágico, perto dos meus amigos filósofos.

Em primeiro lugar, o meu amigo pássaro preto de bico amarelo. Olhou-me e não posso dizer que tenha sorrido mas eu acho que teve vontade disso. Como de costume, deixou-me entrar no seu espaço. Depois virou-se e foi andando. De vez em quando certificava-se de que eu ia atrás dele. E eu ia.

Depois deixou-se ficar em meditação, olhando o rio. Dizia-me, certamente, que eu devia fazer o mesmo.




Claro que obedeci. A vida de pouco valerá se não soubermos louvar o que nos rodeia: o verde, o azul, o rio que corre, as grandes pedras que ficam, a vegetação que muda, o tempo que passa.




Por entre flores cor de rosa avistei um veleiro de vela negra, belíssimo. Queria ir naquele veleiro de asas negras. Junto dele, as velas brancas de outros pequenos barcos à vela pareciam plumas inocentes, pequenos fios de branco. O rio, nessa altura deslizava entre tons de azul e a Torre de Belém parecia um edifício de brincar, tão bonito, tão bem feitinho, tão pequeno parecia. 

... Sonho que vejo isto ou coisas assim, tão belas, existem de verdade? Por vezes, não sei. Mas talvez existam mesmo, acho que estou acordada quando vejo estas aparições.

Mais à frente, encontro outro dos meus amigos filósofos. Hoje meditava sobre o rio. Começava, entretanto, a levantar-se o vento e uma das suas orelhas quase se transformava em asa.



Olhei-o e ele olhou-me e esse olhar foi o nosso cumprimento. Conhecemo-nos de longa data. Tenho até estima por ele. Gosto muito de cães, não sei se já vos disse. 

Depois voltou aos seus pensamentos. Contempla o rio enquanto pensa, é como eu.

Mas, instantes depois eis que levanta a cabeça, admirado. Sigo os seus movimentos, sigo o seu olhar. 



Um enorme veleiro sem velas, só mastros, aproximava-se vindo do oceano. O meu amigo estava extasiado e eu também. Por muito rio que tenhamos dentro do nosso olhar, ninguém está preparado para uma coisa assim. Que beleza, que elegância, que dignidade. Já vos falei antes da dignidade destes navios que atravessam o Tejo, não falei? São silenciosos, elegantes, lentos, dignos, estes barcos que pisam as águas largas do Tejo, passando majestosos, mas quase como se o fizessem em homenagem a Lisboa, a bela.

Ou é isto, meus Amigos, ou então sou eu que vejo a vida cor-de-rosa, que é como quem diz, la vie en rose. 

*

(A propósito: fizeram o teste 'Você sente-se feliz' que vem na capa da Revista do Expresso? Eu fiz. Obtive o resultado de 5.5 o que, conforme lá se desvenda, significa que sou Muito feliz. (Felizmente não me deu 6 que isso significaria que seria Demasiado feliz o que, conforme lá se explica, ser demasiado feliz não é grande coisa...)

*

Mas, então, voltando onde íamos: vamos mas é ver a vida em rosa.


Rachel Leahcar, uma menina cega com uma voz ímpar, aqui interpretando La vie en rose no programa 'The voice' na Austrália.

*

E, por coisas extraordinárias, vejam, por favor, os meus Amigos, a grande diferença entre um Presidente cinzento, que não acrescenta valor, que oscila entre não dizer nada e tecer observações despropositadas (como é o caso de Cavaco Silva) e um que diz de forma clara aquilo que defende, que tem à vontade e auto-segurança para poder dar-se ao luxo de ser irreverente (como é o caso de Obama).


Slow Jam The News  with The Roots - Barak Obama no Late Night with Jimmy Fallon


*


E tenham, meus Amigos, um belo domingo!

sábado, abril 28, 2012

As palavras de Sophia para um admirável Coração Independente


Música, por favor

Ravel - Pavane pour une infante défunte
                                  
                                 

                                                           Assim os claros filhos do mar largo
                                                           atingidos no sonho mais secreto
                                                           caíram de um só golpe sobre a terra
                                                           e foram possuídos pela morte.

Num dia que quase anoitece, avião atravessa os céus. Alguém que vai chegar. Alguém que partiu. 


                                    O sol e o dia brilham mas sem ti
                                    Talvez não sejam mais o sol e o dia.
                                    O sol e o dia agora
                                    estão lá onde o teu sorriso mora
                                    e não aqui.

                                    Como quem colhe flores tu sereno
                                    vais colhendo sem chorar a nossa pena
                                    Olhas por nós sem mágoa nem saudade
                                    e o céu azul, a luz, as Primaveras
                                    habitam na perfeita claridade
                                    em que nos esperas.


Hoje mais uma flor: uma rosa in heaven para a valorosa dona de um grande Coração Independente, uma corajosa mãe a quem todos muito admiramos e estimamos



                                             O que eu queria dizer-te nesta tarde
                                              nada tem de comum com as gaivotas.


Pequena gaivota ensaia um primeiro voo, estuda o desconhecido mar.  Porque, apesar de tudo, a vida continua. Vai-se uma parte, uma parte boa, e o meu coração de mãe acha que é natural porque os filhos não devem ir sozinhos para o grande desconhecido, mas outras partes, igualmente boas, ficarão porque há, por cá, quem também precise de amparo de mãe e avó  - e há todos os outros, os que estamos aqui, pequenos pontos de luz acarinhando de longe, em silêncio, retribuindo o imenso abraço


sexta-feira, abril 27, 2012

A curiosa alegria dos cubanos, Pedro Juan Gutierrez um cubano livre, Matthieu Ricard, o homem mais feliz do mundo e os seus Habits of Hapiness e as flores de Sophia in heaven


Música, por favor

 Lágrimas Negras
(cena do documentário Cuba Feliz realizado por Karim Dridi)



Devo ser uma das únicas portuguesas à superfície da terra que nunca foi fazer férias para Cuba.

E nem posso dizer que não me desperte curiosidade, porque desperta.

Toda a gente que conheço relata o que lá viu, mostra fotografias. O meu filho também lá esteve, trouxe imensas fotografias e eu pude ver aquilo que é visível. As ruas pobres, as casas degradadas, as lojas vazias, os carros muito antigos… e as pessoas na maior alegria.

E é isso que me espanta e que desperta a minha curiosidade. Vivendo há tantos anos com tantas dificuldades como é possível parecerem todos tão felizes?




Das fotografias que o meu filho lá fez, imprimi em A4 algumas delas e encontram-se, em vidro, numa das paredes da escada. São fotografias com um colorido incrível e em que as pessoas que lá aparecem, um homem de blusa de alças à janela, um grupo de miúdos na maior galhofa numa rua, um casamento com os noivos e os convidados quase a correrem rua fora, uma mulher muito gorda e muito sorridente mal cabendo num atrelado de uma motoreta, revelam uma fantástica boa disposição.




Sabendo-se as condições em que vivem, pergunto-me como é isto possível?

Gostaria, pois, não de ver o que toda a gente vê, as praias, as ruas, mas, sim, as casas por dentro, gostaria de conversar com cubanos mas não na rua, nas suas casas, perguntar-lhes quais os seus principais valores para que mostrem ser tão alegres quando não têm o que comprar nem mesmo para comer decentemente, perceber mesmo como é, qual o segredo - mas como não vejo como seria isto possível numa viagem de dias e sem conhecer lá alguém, ponho de parte a ideia de lá ir.




Esta minha curiosidade sobre a natureza dos cubanos foi relativamente satisfeita com a leitura dos livros de Pedro Juan Gutierrez. Trata-se de uma escrita que, para as almas mais sensíveis pode ser chocante. Considerado um escritor de culto por uns, é também olhado como excessivo, de um realismo absoluto, quase folclore, por outros.




Da sua série Ciclo de Centro Habana li todos os livros e é, sem dúvida, um relato cru da vida difícil, de casas sem água, sem luz, de cheiro a esgotos, de esquemas para arranjar um bocado de carne ou de rum,  de calor, de miséria e de sexo, muito sexo. E uma escrita sobre a escrita na casa com varanda para o Malecón, e sobre os cheiros do Malecón, e sobre a boémia decadente no Malecón e sobre a miséria mais desconcertante e resistente nos muros do Malecón. 




Grande parte dos livros é marcadamente autobiográfica. Por vezes os feitos sexuais são tão extravagantes que chegamos a duvidar que os factos não estejam a ser polvilhados de whisful thinking. Mas maratonas ou piruetas sexuais à parte, a escrita de Pedro Juan revela o lado invisível a olho nu do temperamento cubano. Optimistas, pragmáticos, sensuais, os cubanos habituaram-se a encontrar a felicidade no ser e não no ter.

Um dia destes volto a Pedro Juan Gutierrez pois é um homem interessante e os seus livros também.

*

Mas hoje lembrei-me disto ao ler a entrevista a Matthieu Ricard, o homem que os cientistas que estudaram o seu cérebro consideraram o homem mais feliz do mundo.



Francês, doutorado em biologia molecular, com 65 anos, Matthieu Ricard é o braço direito do Dalai Lama.   É tradutor, faz fotografia, escreve e desenvolve trabalho humanitário.

Quando lhe perguntam qual a chave para se alcançar a felicidade a resposta aponta para coisas simples: querer ser feliz é o mais importante; perceber que a felicidade é uma forma de estar na vida; não viver fechado em si mesmo, educar-se para pôr de parte sentimentos negativos como egoísmo, arrogância, agressividade; gostar dos outros (mas gostar, também, de si próprio); reconhecer que o essencial é estar-se em paz, é a amizade, o sentir o coração cheio, é sentir a sensação de que a vida vale a pena ser vivida; perceber que a felicidade não está relacionada com o que se tem a nível material.

Para quem tenha tempo (20 minutos), aqui deixo o vídeo da intervenção de Matthieu Ricard, 'Habits of Hapiness', nas conferências TED.



*

Era preciso agradecer às flores
terem guardado em si,
límpida e pura,
aquela promessa antiga
de uma manhã futura.

*

Flores que guardam, límpida e pura, a promessa de uma manhã futura - in heaven


*
O poema é: 'As flores' e é de Sophia de Mello Breyner Andresen in 'No tempo dividido'

E, por falar em flores e em poesia, hoje lá para as bandas do meu Ginjal e Lisboa, a love affair, as minhas palavras valsam em torno de uma rosa de Ana Marques Gastão e, claro, ao som de Bellini. Se estiverem para isso, gostaria de vos ter por lá.

*

E, meus Caros, tenham uma bela sexta feira e, já agora, sejam muito felizes!

quinta-feira, abril 26, 2012

Onde é que eu estava no dia 25 de Abril...? Em relação a 1974, logo conto. Em relação a 2012, conto-vos aqui.


Música, por favor


Pedra filosofal (letra de António Gedeão), interpretação de Manuel Freire

*

Comecei o dia com uma caminhada matinal. Frio, com um vento inóspito, a acinzentar-se este dia de 25 de Abril.

No local onde poucas horas antes estava um palco iluminado, de onde saíam os sons que animavam uma Praça cheia de gente a cantar e dançar, estava agora apenas uma grande estrutura metálica nua onde quatro homens pareciam pequenas figuras animadas que se aproximavam perigosamente do céu.




Mais abaixo, os festejos municipais: freguesias em luta contra a extinção, gente com cravos, balões, bombeiros, marchas pela banda filarmónica, gente com cravos. Muitos cravos. Cravos nas mãos, cravos nas lapelas, cravos a enfeitar carrinhos de bebés, cravos nas coleiras dos cães.




Depois o caminho levou-me inevitavelmente até à beira do rio. Aqui de novo gente a trabalhar. Agora aparentemente tapando fendas nos edifícios em risco de derrocada (pensos rápidos em corpos fracturados...?),  e eu só pensei que tomara que não vão descaracterizar o meu belo palácio a céu aberto.




Numa precária ponte de ferro, estreita e enferrujada, um pescador, indiferente aos festejos ou às efervescências partidárias, esperava tranquilamente o peixe, suspenso num ambiente hoje de beleza discreta e suave.




Um pouco mais à frente, um homem solitário, com um ar de serena sabedoria, enfrentava o horizonte meditando longamente, indiferente à fria ventania que fazia voar o seu sobretudo.




Mas o 25 de Abril é dia de alegria e convívio e eis que, para escapar à chuva, ao frio, ao vento, nos deslocámos em bando até ao CAM, um lugar muito nosso, repleto de memórias e vivências. 

Curiosamente, hoje o CAM (Centro de Arte Moderna da Gulbenkian) estava quase deserto. Um privilégio quase privado, uma maravilha. Um imenso espaço para as crianças poderem brincar, correr à vontade.

E se você, Leitor, foi um dos poucos que hoje, por acaso, almoçou no restaurante do CAM e viu umas mesas juntas, perto da grande parede de vidro encostada ao frondoso jardim, com um grupo muito divertido, com crianças irrequietas, brincalhonas, então saiba que eu estava lá.

Há tão poucos dias tinha lá estado (quando fui à exposição de Fernando Pessoa) e tinha visitado uma das temporárias, uma de nome A kills B. Nesse dia, entrei, espreitei e saí sem perceber qual a ideia. Pareceu-me uma bizarria sem história. E nem mais me lembrei daquilo.




Pois hoje, meus Amigos, pude constatar, uma vez mais, que as coisas são aquilo que a gente faz com elas. 

O que ali se passou hoje não poderei dar-vos conta por exceder o que se pode transmitir com palavras rápidas. Mostrar-vos-ei, contudo, algumas imagens para que fiquem com uma ideia da brincadeira que ali se passou, com o que as crianças deliraram, descobrindo cada recanto, subindo, descendo, olhando, perguntando, rindo, brincando. Uma festa, meus Amigos, uma festa!

A exposição em si é o que poderão ver - mas a festa que as crianças fizeram a partir dela ou dentro dela fizeram-me pensar que o autor gostaria, certamente, de saber a felicidade extraordinária que proporcionou a quem lá brincou e a quem os viu assim, livres, inocentes, descobridores.




Uma coisa que não identifico mas que parece um motor fez as delícias do mais crescidinho que, felizmente, contou com as explicações sempre pacientes do tio que ele adora.

Mal chegou depois a casa, tentou simular com os carros e com outros brinquedos o dito motor que o tinha deixado maravilhado e, falando sozinho, explicava ele o que era, repetindo as explicações técnicas que tinha ouvido ao tio.




A princezinha, de início reticente, depois intrigada, por fim, toda decidida, subia e descia os degraus, andava de compartimento em compartimento, abrindo e fechando as portas, risonha, radiante. Não parava.



E eu, que queria tirar uma fotografia de grupo tive que esperar, esperar, porque segurá-los era tarefa impossível. Tiveram que ser agarrados e levados ao colo. Aqui a princesinha, bem encostadinha ao irmãozinho que, não tarda, está aí para ajudar à festa.

(Quando suo as estopinhas para tirar uma fotografia em que estejam todos e é uma eternidade até que se juntem e não comecem a desistir os que, em primeiro lugar, alinharam - e, em que depois de tanto esforço, lá se juntam, mas fica sempre um a fugir, outro a olhar para trás, outro a esgueirar-se colo abaixo e os mais velhos todos torcidos a ver se evitam a fuga dos pequenos - interrogo-me sobre qual o estratagema que as famílias reais e as famílias surreais (do jetset, por exemplo) usam para conseguir  aquelas fotografias em que aparecem todos muito arranjadinhos, muito sossegados, todos a olharem para a câmara. Será que as crianças estão sedadas?)




Se o Leitor vir a primeira fotografia desta série relativa à exposição, verificará que existe um guarda-fatos à esquerda. Esse roupeiro tem uma abertura nas costas e esse buraco dá para o estrado que pode ser visto nas restantes fotografias.

Pois até o bebé, que só há pouco começou a andar, andava doido com aquilo, era vê-lo a enfiar-se por ali adentro, sempre em riscos de cair do buraco abaixo. Não parou, irrequieto e feliz, e a pobre da mãe (ainda com as calças molhadas depois de um passeio no parque, junto de pombos e patos, que acabou mais cedo dada a intensidade da chuva que, entretanto, tinha começado a cair) não sossegou um minuto.

Moral da história?

Bem, já a formulei: qualquer coisa, por estranha que pareça, por desnecessária que pareça, pode tornar-se uma festa. Bastará que a imaginação, o sincero desejo de fruição, a disponibilidade para a alegria, sejam postas em acção.

*

Ao cair da noite, já em casa, preenchemos a declaração do IRS e isso só não me estragou o dia, que tinha sido tão bom, dada a minha resiliência. Roubo, roubo, roubo. Mas é feio falar de dinheiro pelo que vou passar à frente. E passo à frente para me despedir.

*

Terei muito gosto em receber-vos lá na minha outra casa, junto ao rio. No Ginjal e Lisboa, hoje as minhas palavras são quase uma prece em torno de um poema de José Tolentino Mendonça. A música, belíssima, é Bellini.

*

E, meus Caros, espero que o vosso 25 de Abril também tenha sido bom e recordo-vos que amanhã não é segunda feira. Parece mas não é: amanhã, meus Caros, já é quinta feira - e que seja uma bela quinta feira é o que vos desejo.

quarta-feira, abril 25, 2012

25 de Abril de 2012, um dia ainda de democracia e liberdade. E cravos vermelhos para Miguel Portas e flores from heaven para Helena (e, Helena, You must belive in spring)



Música por favor

José Afonso - Filhos da Madrugada


Neste dia 25 de Abril, cravos vermelhos para Miguel Portas, um Homem cujo sorriso de menino não esqueceremos

 ***

Ao primeiro-ministro que governa Portugal em Abril de 2012 faltam várias competências técnicas e comportamentais para ser um primeiro-ministro que fique para a história por bons motivos.

Se tiver tempo para isso, ficará seguramente pelos piores motivos.

Não vou fundamentar o que digo pois os pontos que não abonam a favor de Pedro Passos Coelho e seu grupo de amigos são demais e hoje não quero ocupar esta página com quem não o merece. Poderia apenas tecer alguns comentários sobre a sua última falta de respeito ao dizer que os militares de Abril ou Mário Soares querem é protagonismo. Mas nem isso vou fazer.

Vou referir um facto familiar relacionado com a vida antes do 25 de Abril.

Uma das minhas avós tinha um irmão de quem eu ouvia falar à boca pequena. Em boa verdade, na altura, eu não percebia que ele era irmão da minha avó. Quando alguém da família se referia a ele dizia que era o tio mas o nome que vinha a seguir e que era um apelido não tinha nada a ver com os apelidos da família.

Vi-o pouquíssimas vezes. Tenho ideia de uma vez aparecer imprevistamente em casa da minha avó (tenho ideia de que era de noite mas não o garanto) e de nós irmos lá para o ver. Era um homem bonito e eu achava-o diferente. Lembro-me que se falava em voz baixa como se não se quisesse acordar alguém do quarto ao lado, só que não estava mais ninguém lá em casa senão nós que estávamos todos juntos.

Outra vez, eu e a minha mãe estávamos às compras e cruzámo-nos com ele. Eu era muito miúda mas lembro-me que qualquer coisa ali parecia não bater muito certo. Os cumprimentos que me pareceram efusivos no início, já eram furtivos passados uns instantes.

Vim a saber algum tempo depois que esse meu tio-avô vivia na clandestinidade. Durante grande parte da sua vida viveu preso ou deportado em S. Tomé.

Para desgosto da minha avó, o irmão morreu um pouco antes do 25 de Abril. Bateu-se tanto pela liberdade e não chegou a assistir ao derrube do regime contra o qual tanto lutou. Essa minha avó, pessoa informada, que lia muito, sempre foi também uma grande defensora dos mais puros princípios democráticos.

Como esse meu tio misterioso, muitas pessoas sacrificaram a sua vida, lutando para que Portugal passasse a ser um país evoluído, desenvolvido, democrático.

Quando comecei a trabalhar, conheci um homem, que pouco tempo depois se viria a reformar, e que contava o que era o trabalho em algumas fábricas antes do 25 de Abril nas quais tinha trabalhado antes. Havia o regime chamado de ‘o balão’, nome que se dava ao trabalho sazonal. Quando era necessário, admitiam-se pessoas que se juntavam em magotes junto aos portões. Eram os mais fortes que eram escolhidos pois o trabalho era muito pesado. Quando deixavam de fazer falta, eram postos fora. Contava eles que muitos nunca chegavam a entrar e que para ali andavam a arrastar-se junto aos portões, gente muito pobres, com fome, sem quaisquer direitos.

Durante estes 38 anos que, entretanto, decorreram desde o 25 de Abril muito se fez. Portugal deixou de ser o país atrasado que era, um país de gente maioritariamente soturna, analfabeta, mal alimentada.

Claro que foram cometidos alguns excessos mas grande parte deles resultaram de políticas europeias que nos empurraram para o consumo do que é produzido noutros países e para o endividamento para fazermos face a esse consumo. Resultaram também de nem sempre termos tido políticos que percebessem o alcance dessas cedências e, nesse grupo, incluo muito claramente Cavaco Silva que, durante os seus governos ,deixou que se destruísse a agricultura, a indústria e as pescas.

Penso, no entanto, que apesar da fraca qualidade de alguns outros governantes portugueses, nunca nenhuns foram tão maus como os actuais. O que estão a fazer ao País é perigoso pois há caminhos sem retorno. Fazer com que os jovens mais válidos saiam do País é mau sob todos os pontos de vista (incluindo o de contribuir para o rombo nas contas da segurança social uma vez que passam a fazer descontos noutro país) e vai ter sérias consequências no desenvolvimento de Portugal; vender as grandes e mais estratégicas empresas (e ainda por cima vendê-las a estrangeiros e, ainda pior, vendê-las a empresas estatais de países que não primam pelo respeito pelos direitos humanos tal como nós o entendemos) é gravíssimo, gravíssimo, e temo que seja irreversível.

Um País que não tem lugar para os mais novos, para os mais válidos, um País que não respeita compromissos assumidos com os seus concidadãos, em que a principal prioridade não é o desenvolvimento e o respeito pelas pessoas não é um País sustentável e não é seguramente o País que os que deram a vida por ele tanto sonharam.

Soube-se hoje através das estatísticas do Eurostat que em Portugal o custo horário do trabalho em Portugal é menos de metade da média da zona euro - um indicador que nos deveria envergonhar. Esse valor em Portugal é de apenas 12.1 €/h enquanto a média da zona euro é 27.6€/h. Apenas em 3 países (Estónia, Eslováquia e Malta) o valor é inferior. Em contrapartida, na Bélgica o valor é 39.3 €/h. Na Irlanda, por exemplo, é 27.4 ou seja mais do dobro do que é em Portugal. E apesar desta disparidade que nos deveria querer fazer convergir em direcção à média do grupo onde nos inserimos é justamente contra trabalhadores tão miseravelmente pagos que este Governo dirige a sua sanha destrutiva, alegando que ganham muito, que têm direitos a mais.

Poderá dizer-se que esta miséria franciscana é compensada (no mau sentido) pela fraca produtividade portuguesa. Não é assim exactamente pois o drama do factor trabalho em Portugal não é a qualidade dos trabalhadores mas, sim, a má qualidade dos gestores. Sempre que as empresas são bem geridas, a produtividade é igual ou superior à das congéneres internacionais. E aqui entronca de novo a necessidade absoluta de apostar fortemente na qualidade do ensino e da formação profissional e na necessidade também absoluta de fixar os jovens formados, integrando-os no tecido empresarial português (o que é o oposto da política e dos conselhos deste governo). 

Com uma população mal paga em que os mais novos e os mais evoluídos saem do País, com a agricultura, as pescas e a indústria quase inexistentes, com as principais empresas estratégicas vendidas a quem quer que aqui apareça com um punhado de moedas, com uma população envelhecida, a viver momentos de insegurança, com uma classe média empobrecida e abúlica, este não é o País sonhado em Abril.

Por isso, se, por um lado, aqui quero louvar o espírito livre e democrático subjacente ao 25 de Abril, quero também deixar bem marcado o meu profundo desagrado e a minha preocupação pela situação actual de desgoverno que Portugal atravessa e que me leva a temer pelo futuro dos portugueses.

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E, agora, para a querida Helena Sacadura Cabral, senhora de um grande coração independente, um sentido abraço e flores do campo from heaven; e hoje, mais que nunca, Helena, You must believe in spring. 




(Não consegui colocar apenas o trio de Bill Evans, apenas esta versão que conta também com a participação de Tony Bennett)


Lágrimas sobre lírios do campo in heaven 

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No Ginjal e Lisboa, claro, também se fala de Abril e hoje as minhas palavras estão de cravo na mão em volta da poesia de Natália Correia. Bellini, como é sabido, acompanha-nos.

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E tenham, meus Caros Amigos, um belo 25 de Abril!

terça-feira, abril 24, 2012

As paisagens urbanas silenciosas nas quais pessoas silenciosas esperam alguém que não virá - é o ambiente solitário de Edward Hopper (ao som do Adagietto de Mahler); e Saburo Teshigawara mostra-nos a sua Obsession


Música, por favor

Gustav Mahler - Sinfonia Nº5 Adagietto



Se De Chirico é o pintor das desoladas paisagens urbanas nas quais o género humano se rarefez, se Chagall é o pintor do sonho e da joie de vivre, já Edward Hopper será talvez um pintor a meio caminho entre ambos.



Hopper pinta essencialmente paisagens urbanas habitadas, mas paisagens estáticas habitadas por personagens humanas também estáticas. Há nas pinturas de Hopper um estranho imobilismo.




São quase sempre mulheres que olham através da janela e diríamos que nada vêem, que se encontram em puro estado de introspecção, ou que se sentam abandonadas a si próprias, desiludidas, entediadas.




Numa mesa de restaurante, na beira de uma cama, de pé a olhar a janela vazia, são geralmente mulheres  -solitárias, corpos sem vitalidade, corpos já não acariciados, seios que, face à situação, quase parecem inúteis, ventres desaproveitados, rostos sem esperança - que Hopper pinta.




E, se pinta a rua, a estação de serviço, o balcão de um bar, um motel, uma mesa de restaurante, é para nos mostrar um ambiente inerte, excessivamente neutro, parece que a vida não passa por ali. Quem ali está parece estar suspenso no tempo, à espera de coisa nenhuma.




Acontece, por vezes, as cores serem fortes, contrastantes mas, contudo, parecem artificiais, como se a cor tivesse sido saturada apenas para disfarçar a ausência de luz natural.

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Pintor americano, de Nova Iorque, Edward Hopper nasceu em 1882 numa família com algumas posses e viveu até 1967, 84 anos de vida, portanto. Morreu no estúdio.

Foi pintor de óleos, aguarelista e fez também gravuras. Como free lancer fez também muitas ilustrações.

O ambiente em que cresceu foi marcadamente matriarcal, e as presenças da mãe, da avó, da irmã, as criadas eram dominantes. Talvez isso explique a quase omnipresença de mulheres nas suas pinturas.

Edward Hopper (que poderemos ver abaixo, num auto-retrato) era um homem alto, magro, calado, introspectivo, tímido, com um sentido de humor contido e social e politicamente conservador.




Não era, pois, um impulsivo, muito pelo contrário. Passava largos períodos algo deprimido, sem inspiração, sem saber que motivos escolher para pintar, invadido pela inércia. Talvez sejam, justamente, esses os estados de espírito que a sua obra mais nos transmite.

Tinha já 42 anos quando se casou com uma mulher que era o seu oposto. 



Oriunda de uma família de uma classe mais baixa, extrovertida, sociável, liberal, Josephine Nivision (Jo, que pode ser vista no retrato acima) era também pintora mas, no entanto, na prática abdicou da sua carreira para se dedicar quase exclusivamente à do marido. Foi a sua companhia, a sua modelo, a sua gestora (geria as entrevistas, a venda de quadros, escolhia os títulos das pinturas, e até, por vezes, inspirava os motivos das pinturas a partir de motivos usados por si enquanto pintora).

Viveram juntos quatro décadas e apenas sobreviveu 10 meses a Edward Hopper. Contudo, ficou a saber-se através dos diários que manteve que o seu relacionamento atravessou fases bastante conturbadas, havendo brigas e até agressões.

No entanto, sempre pareceram levar uma vida normal (e, se calhar, era normal até porque as ‘anormalidades’ geralmente não se vêem de fora).

Uma vida normal e simples, foi, portanto, o que sempre pareceu. Iam vivendo de acordo com o produto do seu trabalho. À medida que iam vendendo pinturas por maior valor (coisa de que Jo se ocupava), iam adquirindo aquilo que poderia ser considerado com bens secundários, isto é, que denotavam já sinais de maior desafogo. Assim, em 1927 compraram um carro, em 1934 compraram uma casa de férias.

Edward era um homem culto, lia muito (aliás, talvez por isso, é frequente na sua pintura aparecerem pessoas com livros) e era uma pessoa que pensava maduramente antes de começar cada obra. Pensava, fazia esboços e nada era fruto do acaso, nem a disposição dos elementos figurativos, nem a luz, nada.




Dava grande ênfase à geometria da composição, aos ângulos. Aliás o efeito da luz num dos cantos da casa é recorrente na sua pintura. Mas, independentemente até da geometria, a luz e a sombra foram elementos indispensáveis nas composições, usadas para criar os efeitos expressivos, os estados de espírito.




A pintura de Edward Hopper mostra-nos com frequência personagens que nos parecem perdidas no meio do espaço que ocupam. Diz-se que Hopper retratava o minuto antes ou o minuto depois de ter acontecido o clímax da cena.




Mulheres que receberam uma má notícia, ou abandonadas, à espera de alguém que está para aparecer ou que não apareceu, ou sem esperança face a uma janela de onde nada se vê ou afogadas em tédio e inércia.

António Lobo Antunes dizia que um dos seus livros tinha nascido da ideia de solidão nas casas às 3 da tarde. Assim são as casas de Edward Hopper: silenciosas, vazias, tristes.




Hopper, conservador, nunca se deixou tentar pelo cubismo, pelo impressionismo. As suas pinturas retratam a realidade urbana da época que viveu e retratam a solidão das pessoas perdidas de si próprias, perdidas dos outros. Talvez retrate ainda estes tempos em que vivemos, tempos de uma inquietação inerte, de um vazio suspenso, sem objectivos estruturados, sem uma esperança com contornos definidos. 

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Saburo Teshigawara e Rihoko Sato da companhia Karas - Obsession


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Hoje no Ginjal e Lisboa as minhas palavras (molhadas) voam em volta da poesia de Assis Pacheco e, de novo, ao som de Bellini, belíssimo.
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E tenham, meus Caros, uma boa terça feira!

segunda-feira, abril 23, 2012

O Mundo dos Vivos e Levantar o Céu, os labirintos da sabedoria - os novos livros de Pedro Mexia e de José Mattoso (ao som dos Divino Sospiro e de Violeta Parra); e ainda, de bónus, Jacque Fresco que aqui vem explicar porque é que 'esta merda tem que acabar'


Geralmente sento-me aqui, página em branco pela frente, e, sem pensar, começo a escrever. As palavras descem até ao teclado através de uma ligação directa entre o cérebro e os dedos (isto é, sem preparação mental prévia e, depois, sem moderação, sem filtros, sem censura interna).

Hoje isso não está a acontecer e, sendo coisa inédita, disso vos dou conta.

A razão deste bloqueio é dupla. A primeira é que acho que deveria, antes, falar das eleições francesas. Apesar de François Hollande ser uma criatura pouco carismática, quero porque quero que ele ganhe, especialmente  para ver se alguém desequilibra a preponderância alemã que anda a inquinar toda a Europa. Deveria - mas estou com outra ideia na cabeça. A segunda razão prende-se, justamente, com essa ideia:  quero falar de dois livros que adquiri a semana passada. Na minha cabeça os autores têm personalidades que, em alguns pontos, se tocam mas, depois, se tentar fundamentar com um mínimo de racionalidade, não encontro justificação cabal. Pego nos dois livros, tento encontra-lhes pontos de intersecção que o demonstrem e o escasso tempo de que disponho não me permite desenvolver um estudo aturado que possa dar razão à minha ideia.

Talvez a ideia se baseie apenas na minha intuição, coisa que uso em abundância e que desculpo depois de ter estudado que a intuição é apenas uma antecipação do raciocínio lógico, um short cut.

Bom, mas vamos aos factos.

Música, por favor


Divino Sospiro - A quel leggiadro volto (ou molto?) de F. A. de Almeyda


O Mundo dos Vivos de Pedro Mexia e Levantar o Céu de José Mattoso
(sobre algumas das minhas écharpes primaveris -
- e não torçam o nariz se faz favor porque não é pecado gostar muito de écharpes... )


Pedro Mexia e José Mattoso. Têm tudo a ver um com o outro? Pelo menos, alguma coisa? E o que poderei invocar para defender esta tese...? Ou será mais prudente nem tocar nisso e passar directamente aos dois livros...?

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Pedro Mexia (n. 1972) é licenciado em Direito, é jornalista, crítico literário, escritor de crónicas e poesias (mas também teatro, letra de música, etc), autor de blogues conceituados, um dos quais tem presença aí ao lado sob o cognome que lhe atribuí de 'A labiríntica biblioteca, isto é, a vida' e que se refere a Lei Seca (ultimamente em onda minimalista), é participante em programas de rádio, televisão, é figura muito presente em encontros, debates de cariz literário, etc. 


As suas intervenções revelam sempre competência, estudo, maturação sobre o tema sobre o qual se pronuncia. 

E a sua escrita demonstra uma permanente busca pela honestidade em estado puro, uma compreensão total da verdade que se imagina imaculada, frequentemente tendo implícita uma decepção, um desencanto, uma melancolia.

Apetece dizer-lhe mil vezes que não há verdades absolutas, que não há honestidades imaculadas, que não há afectos impolutos - que busca, pois, o inexistente. Mas isso seria uma intrusão na sua intimidade e não é isso que aqui pretendo fazer. 

Mas o que acho é que na sua escrita está implícita uma procura pela pureza, pela limpidez, pela verdade e, nisso, acho que há em Pedro Mexia uma ascese que se lhe tornou intrínseca. Uma ascese talvez laica, não faço ideia, nem isso é relevante. Mas não me custaria nada imaginá-lo em isolamento, estudando, escrevendo, meditando.

Este livro, 'O mundo dos vivos' tem prefácio de outro escritor que muito admiro e que tem assento permanente aqui no Um jeito manso, Manuel António Pina.

Diz Manuel António Pina que se aprende com Pedro Mexia acerca de vários assuntos, entre os quais da conturbada e incansável arte da vida, da complexa, e não raro sórdida, natureza dos homens e das sociedades humanas. E acrescenta: e aprende-se com inesperado prazer.

Assim é, de facto. 

Este livro é uma edição Tinta da China (como sempre, uma bela edição) e reúne crónicas publicadas originalmente no suplemento P2 do Público entre Abril de 2007 e Dezembro de 2010 e no suplemento Actual do Expresso entre Maio de 2011 e Março de 2012.

Os temas são, pois, o mais variados possível, desde episódios ou referências a Lindsay Lohan, a Dominique Strauss-Kahn, passando por Leonard Cohen, Milan Kundera ou Kate McCann.

Penso que é notória a evolução, cada vez o acho mais introspectivo. E cada vez mais a análise melancólica, racional, pura.

Pela oportunidade do tema, transcrevo alguns excertos da crónica Sarko: É bom que Sarkozy tenha ultrapassado a hipocrisia habitual dos políticos franceses, mas não considero um avanço civilizacional ver um presidente da França que discute o tema da 'felicidade' com os jornalistas, como se fosse uma costureirinha. Gosto de o ver acompanhado daquela mulher esbelta, altiva, enigmática, de feições salientes e olhos azuis felinos, mas preferia um pouco mais de contenção.


(...) Outsider pelo percurso político, Sarkozy é também um outsider pelo feitio. Enérgico e frenético, chama-lhe Speedy Sarko. A própria mãe admitiu: 'Nicolas é um fox-terrier que corre por todo o lado a ladrar'. Mas essa hiperactividade só é interessante quando resulta em acções concretas. E Sarkozy tem estado mais virado para a necessidade de agradar do que para a urgência de decidir. Tornou-se titubeante e inconsistente e ninguém o elegeu para isso.

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Se a música do Divino Sospiro já acabou, então, esta agora, por favor

Violeta Parra - Gracias a la vida


Passo agora para José Mattoso.



José Mattoso (1933) é historiador, professor e investigador especializado em história medieval portuguesa.

Foi monge durante 22 anos, Frei José de Santa Escolástica Mattoso, vivendo na Abadia de Singeverga. Em 1970 voltou à vida laica. Casou duas vezes. Tem numerosa obra publicada, sempre de irrepreensível qualidade. Alguns dos livros conheceram inusitados êxitos editoriais. Recebeu já vários prémios e distinções, entre as quais o Prémio Pessoa. 

As suas intervenções são sempre claras, lúcidas, inequívocas. Tem uma voz própria, uma opinião que se faz ouvir sempre que a ocasião o justifique.

Ouvi-o há dias numa entrevista. Dizia que agora quer, sobretudo, reflectir, meditar. O mundo mundano, as vozes ruidosas e vazias incomodam-no. O fluxo dos seus pensamentos requer a quietude.

O livro de que estou aqui hoje a falar, 'Levantar o céu', saíu agora, e é uma edição Temas e Debates/Círculo de Leitores, com uma capa muito bonita, contendo uma iluminura da autoria da monja e mística alemã Hildegarda de Bingen.

Na introdução, José Mattoso explica o título. Levantar o céu é o nome que os mestres de chi kung (uma variante de tai chi) dão a um dos seus principais exercícios. Consiste, fisicamente, em levantar os braços em arco com as palmas das mãos apontadas uma para a outra e viradas para cima, isto é, para o 'Céu'. (...) Na cultura chinesa, Céu (yiang) designa aquilo que vem do alto, que dá força e energia, que constitui o princípio activo da vida, que anima a realidade espiritual da existência. Opõe-se à Terra (yin), isto é, àquilo que vem de baixo, que resiste à força e à acção, que constitui o princípio passivo da vida, que representa a realidade material da existência.

Mais à frente, José Mattoso continua: A harmonia e a paz são, é claro, situações precárias, vulneráveis, provisórias. Na nossa época parecem mais ameaçadas que nunca. Muitos fenómenos do mundo actual produzem efeitos que, se não forem corrigidos por acções de sentido contrário, ameaçam a sobrevivência da humanidade. Os mais graves resultam, em última análise, do excesso de poder nas mãos de uma pequena minoria de homens. Directa ou indirectamente, comandam as técnicas e utilizam-nas para acumular mais poder, indiferentes às consequências descontroladas do seu uso irracional.


Ao preparar-se para agradecer aos mestres e companheiros espirituais com quem aprendeu a meditar sobre o mistério da Humanidade, José Mattoso recorda a canção de acção de graças à Vida que ouviu pela primeira a Joan Baez mas que, refere, pertence a Violeta Parra. E acrescenta: agora, cada vez mais perto do fim da minha caminhada na vida, só posso, olhando para trás, dar graças por tudo o que ela me deu, ou que Deus me deu por seu intermédio.

Bem, não vou continuar porque todo o livro é muito interessante. Transcrevo de novo as palavras do autor, para apresentar o seu conteúdo: Os textos aqui reunidos foram escritos ao sabor de solicitações variadas, a que tentei responder na medida das minhas possibilidades e segundo as minhas convicções pessoais. Uns são mais 'cívicos', outros mais espirituais; uns inspirados no senso comum, outros na mensagem evangélica; uns recorrem à História, outros a princípios intemporais. Qualquer que seja a linguagem e o pensamento que os inspira, pretendem todos contribuir em alguma coisa para 'levantar o céu'.


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Em tempos de fogos fátuos, Pedro Mexia ou José Mattoso são duas pessoas que pensam em profundidade e que não se limitam a papaguear o que a vox populi espera. Com percursos de vida muito diferentes, com obras muito distintas, e, obviamente, em estágios de maturidade distantes, são contudo pessoas para quem a honestidade e a verdade são conceitos concretos e inalienáveis e isso reflecte-se nas palavras que pronunciam.

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E muito a propósito das palavras de José Mattoso, um vídeo interessantíssimo que, em boa hora, um Leitor me enviou e a quem daqui agradeço a simpatia

Jacque Fresco, lider do projecto Venus

Esta merda tem que acabar  (pardon my french...)

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Hoje lá no meu Ginjal e Lisboa as minhas palavras vestem-se de gaivotas e voam em torno de um poema de Sophia, ao som de Renée Fleming interpretando a Casta Diva que, assim, abre a semana dedicada a Bellini. Gostava de vos ver por lá.

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E tenham, meus Caros, uma belíssima semana!