Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, fevereiro 29, 2012

Acho que a propósito da avaliação da Troika, o Vítor Gaspar, cada vez mais de-va-ga-ri-nho, a dizer coisas redondas (ou seja, sem ponta por onde se lhes pegue); o Álvaro Santos Pereira desta vez foi aos autoclismos; e os chineses adoram pechinchas e vale tudo (e tudo para ajudarem a desenvolver este pobre país). 來自葡萄牙的美妙青少年歡迎您!que é como quem diz, bem vindos ao maravilhoso Portugal dos pequenitos!


Há pouco vi na televisão algumas notícias. De vez em quando, aqui em casa, há alguém que se enfurece e faz zapping e, portanto, raramente consigo ver uma notícia do princípio ao fim. Por isso, se calhar fico com uma percepção errada da realidade. Mas passo a relatar o que vi.

Primeiro vi dois tristes numa mesa - quase uma cena de filme mudo. Presumo que falavam da apreciação da troika. O Vítor Gaspar falava mui-to mais len-ta-men-te do que é costume e, olheirento e ar vagamente apalermado (mas talvez fosse apenas sono), dizia coisas re-don-das mui-to de-va-ga-ri-nho. Que aus-te-ri-da-de ti-nha que ser e que tal-vez não hou-ves-se mais, ex-cep-to se fos-se ne-ces-sá-rio. E que esta é das boas, das domesticadas, pior era se fosse austeridade selvagem. Ai este Vitinho...

A fotografia é de outro momento mas os dois artistas são os mesmos

Ao lado um pequenito sorria embevecido. Era o Carlitos Moedas, engenheiro civil promovido a fiscalista. Não o ouvi falar, apenas sorrir.

Zapping

A seguir vejo o Alvarito, sorridente, lustroso; a vida de ministro está a fazer-lhe bem, anda com melhores cores, bem alimentado, e então, desde que prescindiu dos óculos, dá gosto ver este Alvarito com ar tão saudável, bem melhor do que era quando apenas era um professor numa escola do Canadá.

Outro pândego, este Álvaro

Pois lá andava, rindo, metendo conversa com as pessoas que trabalhavam, distraindo aquela gente responsável. Ali andava ele, saltitão, folião e eu sem perceber por onde é que ele andava - não era numa fábrica de padres, não era numa fábrica de pastéis de nata, muito menos numa fábrica de nando's, os frangos; então onde seria? 

Eis senão quando o jornalista desvenda o mistério. Estava numa fábrica de autoclismos. Juro.

... Neste momento alguém carregou no botão e lá se foi o Álvaro...


SIC Notícias agora. O brincalhão Crespo entrevista uma senhora, Rita Santos, do Fórum Macau. 

Rita Santos do Fórum Macau

Crespo perguntava-lhe como era vista lá longe, na China, a crise aqui em Portugal. Sempre com uma segurança extraordinária e uma franqueza estonteante, Rita Santos explicou que os chineses têm uma maneira diferente de ver as coisas, que, para eles, um país em crise é um país bom para se fazerem compras. Que agora trouxe cá uma série de empresários para verem onde poderiam investir e que há tanta coisa. Imobiliário era uma boa. Adegas também, que compravam o terreno, a vivenda e a actividade dos vinhos - e assim foi continuando neste registo. Pragmática, directa.

Portugal, um bom sítio para os chineses virem comprar barato. Claro. 

E explicava qual o papel estratégico de Macau como uma plataforma chinesa para os países de língua portuguesa; e ali, de seguida, desfiou todo um cardápio de actividades concretas. E explicou ainda, com aquele sentido prático que caracteriza as mulheres, que queria ainda dizer que os chineses não querem apenas comprar por comprar barato, não: querem ajudar a desenvolver os países que estão com dificuldades. Claro.

Conclusão?

Os portugueses continuam os totós de sempre. Colonizaram, foram uns valentões, e vieram-se embora, não sabendo tirar partido de coisa nenhuma, nem aprendendo nada. Macau podia agora ser usado como plataforma de Portugal para a China (já que, pelo que Rita Santos diz, estão disponíveis para isso) mas está a ser usado ao contrário, como plataforma da China para vir por aí fora comprando tudo o que houver para comprar (aqui onde há tanta coisa barata e tanta gente a precisar de ajuda, em Angola, no Brasil, Cavo Verde, Timor, etc - Rita Santos citou os países um por um).

Na minha rua, grande parte das lojas já são chinesas, no meu prédio, como já aqui o disse, dois andares já foram comprados por chineses, avenida acima há restaurantes de sushi que são chineses e lojas que parecem de moda e que são chinesas e assim poderia continuar percorrendo o País de lés a lés - até chegar à cherry on the cake, a electricidade e a sua distribuição que já estão nas mãos de chineses.

Tem isto algum mal?

Pois já nem sei o que vos diga. Entre, de um lado, o Vi-ti-nho, o Álvaro dos autoclismos, o Relvas que manda cartas para os jornais dirigidas às Autarquias, o Passos que é um dos espécimes amestrados pela Merkel e, do outro, uns quantos chineses, venha alguém mais esperto que eu e escolha. 

Olhem, pelo menos os meus vizinhos aqui do prédio são uns queridos, amorosos, as crianças uma doçura, todos de uma educação e de uma simpatia que me deixam enternecida. E que bem que já falam português. 

我的中國朋友都非常歡迎這個博客馴服單程


(Queria eu dizer na minha: 'Sejam, meus Amigos Chineses, bem vindos a este blogue de seu nome Um Jeito Manso' - mas agora, para me certificar, ao fazer a retroversão no tradutor do Google, saíu-me isto: 'Meus amigos chineses são muito bem-vindo a este blog para domar uma forma'  - portanto tomara que amanhã um destes meus novos vizinhos não se vire a mim de chicote a tentar domar-me....)

美麗的中國音樂
Beautiful Chinese Music


[Pois, Caros Leitores, dado o adiantado da hora, e dado que estou perdida de sono, peço-vos de novo as minhas desculpas mas vou deixar o resto da cena que descrevi ontem para amanhã. Vinha muito bem intencionada, a sério que vinha, decidida a fazê-lo, mas as notícias que vi foram responsáveis por esta mudança de rota. Mas amanhã será. E, olhem, não querem ir ali à minha outra casa, ao Ginjal e Lisboa, a love affair,  ver o textozito de hoje feito a propósito de um poema muito bonito de um autor que eu desconhecia, José Alexandre Caldas Ribeiro?]

(:)


E tenham, meus Caros, uma bela Quarta feira. Divirtam-se à grande que a vida é curta e o tempo foge!


Traduzindo para chinês: 一個美麗星期天今天我親愛的享受高壽命短期和長期
Traduzindo em sentido inverso para me certificar que a coisa fez sentido: E hoje um belo domingo, minha querida. Aproveite a vida elevado é curto e longo prazo!


Está certo. Mas divirtam-se na mesma.



terça-feira, fevereiro 28, 2012

O sms do meu amigo e uma nova surpresa em casa dele - aquela sua doce mulher não pára de me deixar atarantada...


Estou a começar a escrever já muito tarde, quase 1 da manhã. Cheguei tarde a casa e, depois de ter escrito no Ginjal (hoje sobre poema de Inês Fonseca Santos), quando cheguei aqui ao UJM vi-me forçada a escrever um pequeno apontamento sobre as palavras de Paul Krugman (post aí já a seguir). Por isso, é já perdida de sono que aqui estou a dar-vos conta das minhas andanças.

Música, por favor
Katie Melua - The closest thing to crazy


Não está a ser fácil conciliar a minha vida normal, com as suas rotinas e compromissos, com as solicitações que agora me surgem quase todos os dias dos lados dos meus amigos. E, no entanto, é compreensível face ao que tenho andado a escrever aqui. E, tenho que reconhecer que gente que bebe muito chá em pequenina é assim mesmo, tolerante, simpática, enorme poder de encaixe, porque, fossem outros, e esta brincadeira já tinha dado para o torto.

Adiante.

Hoje logo de manhãzinha um sms do meu amigo, ‘Estás a ver? Tu consegues. Quando queres até consegues portar-te bem. Não conheço esse livro do JLB, é novo? PS: Em contrapartida portaste-me muito mal com a brincadeira da bicha. Tens sorte é que nem a minha mulher nem a amiga me espetaram uma faca nas costas’. Ou seja, desta vez gostou do que leu e não levou excessivamente a mal aquela minha brincadeira do outro dia ao revelar o telefonema em que ele se expressou como um homofóbico homem das cavernas. Felizmente… (porque andei um bocado receosa, confesso…)

À hora de almoço foi a vez da mulher, desta vez ao telefone, toda divertida, ‘o meu marido é muito parvo, não é? Meteu na cabeça que o diseur – gostei dessa designação que a tua leitora lhe atribuíu, é mesmo a cara dele (e ele também gostou)…- mas dizia-te eu, meteu na cabeça que ele é maricas e agora é sempre ‘então hoje foste beber chazinho com a tua amiga?’ ou então, se ouve o telefone, ‘vai lá a correr, não faças esperar a menina…’ Parvo. Não ligo nenhuma. Olha, quando saíres daí passa por cá, gostava de te falar numa ideia’.

Logo hoje que não me dava jeito nenhum. Mas tanto insistiu que eu lá disse que sim, numa rapidinha.

E assim foi. Saí do trabalho e lá fui até casa deles.

De óculos no alto da cabeça, jeans justinhos, blusinha já com as cores desta primavera, sabrinas, toda juvenil e bem disposta, abriu-me a porta.

‘Óculos? Não sabia, nunca tos tinha visto. Ora põe lá a ver como te ficam.’ Coquette, lá os pôs, ajeitando o cabelo. ‘Comecei a semana passada, é para ler e escrever, já me estava a custar. Mas gostas de ver?’

‘Claro, ficam-te bem, dão-te um ar de charme qualificado’. Riu-se, ’Ainda bem, seja lá o que isso quiser dizer’. Depois voltou a pô-los no alto da cabeça, atirou-se para o grande sofá, bateu com a mão no assento e ordenou-me, ‘senta-te, temos que conversar’ e o ar já era outro, sério.

‘Uuupsss… lá vem chatice’, temi intimamente. ‘O que será?’

E então disse, alto, lá para dentro: ‘Podes vir’  e eu senti que alguém vinha na direcção da sala. O diseur? O que é que estes dois andarão a tramar?, interroguei-me.

Mas qual não é a minha surpresa quando vejo surgir uma mulher de máscara veneziana… Felizmente estava sentada. Confesso que até me assustei ligeiramente, que maluquice… !

Com máscara

Mas elas, as duas, desataram-se a rir. Passado aquele instante de perplexidade, voltei a mim, ‘... A advogada…?’.

Ela arrancou a máscara.

Sem máscara


Cabelos compridos revoltos, vistosa, talvez pelos quarenta e tal, cinquenta e poucos, calças pretas justas, blusa estampada em tons de azul, brincos de água marinha, uma bonita gargantilha talvez de ouro branco, uma écharpe em volta do pescoço, sapatos azuis escuros, tudo muito bem e a condizer com uns olhos muito azuis.  Nitidamente aquilo a que os gabarolas gostam de chamar MILF (= Mothers I'd like to fuck).

No meio do espanto pela insólita situação, ainda consegui pensar ‘ felizmente hoje trouxe esta roupa, também não estou mal’, que isto, em qualquer circunstância, uma mulher estabelece logo rivalidade a nível de apresentação com qualquer outra que lhe apareça pela frente.

A minha amiga observava-me, ‘Admirada?’ e eu: ‘O que é que achas?’ e a outra ria-se ‘É que você não sabe a coincidência… adoro máscaras de Veneza, tenho várias, não apenas as trago de cada vez que lá vou, como os meus amigos, quando lá vão, fazem questão de me trazer. Imagine só. E no entanto você não sabia quem eu era, muito menos deste pormenor, pois não? Imagine a coincidência… ‘

E eu, que ultimamente sou sistematicamente deixada em estado de estupor catatónico pela minha ex-conservadora amiga (que eu, com estas peripécias, já não consigo achá-la nem doce nem conservadora), outra vez quase sem saber o que dizer, ‘Claro que eu não sabia de nada, nem sei ainda.’

E a aminha amiga, oportuna, ‘Então deixa que te apresente: é, obviamente, a minha advogada.’.

Estando já sentada, só me apeteceu atirar-me ao comprido, deitar-me, esconder a cabeça debaixo de uma almofada, sair dali para fora coladinha às paredes.

A advogada dela? Então foi a advogada dela que lhe atirou a ele papéis pela janela do carro, deixando-o infeliz e prostrado…? Tem um caso com o marido da cliente e a cliente não desconfia de nada? É demais, vou-me embora, apeteceu-me dizer. Mas, atordoada que estava, nenhum som saíu da minha boca.

E acrescentou ainda, para me baralhar mais: ‘Minha advogada e minha amiga’. E riram, divertidas, giras, bem dispostas. 

Lá consegui dizer, numa tentativa de parecer também bem disposta, de dizer alguma gracinha: ‘só falta aqui a bicha de serviço…’. Elas desataram-se a rir e a advogada, enquanto brincava com a máscara, disse ‘é verdade, podias ter dito para ele estar cá. Aliás foi ele o grande mentor’ e a minha amiga aquiesceu: ‘E achas que não lhe disse? Mas hoje anda em roteiro ou lá o que é, parece que agora andam todos, o Cavaco, o Seguro e até ele, imagina’.

‘Mentor de…?’, perguntei.

‘Então, vá, agora vamos falar a sério’, disse a minha bela amiga, pôs os óculos, abriu um dossier que tinha na mesa ao lado do sofá; a advogada puxou de uma banqueta e sentou-se à nossa frente e eu reconheci, à beira de me sentir despeitada, ‘Nº 5. Então a flausina  também usa Chanel…’

E, compenetradas, começaram a contar-me. 
........

Mas, dado o adiantado da hora, vou pedir que me desculpem - o resto tem que ficar para amanhã. Mal consigo escrever, estou mesmo perdida de sono.

Tenham, meus caros, uma bela terça feira. Está sol e uma temperatura agradável. Não chove mas, ao menos, sabe bem assim.
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E, já agora, não esqueçam: se não forem dados a folhetins e estiverem mortinhos por saber o que acho das palavras que Paul Krugman proferiu sobre austeridade e sobre ordenados, deixem-se escorregar até ao post abaixo.
   

Paul Krugman: chega de austeridade! (... e, diz ele, os ordenados se calhar têm que baixar). E, claro, como sou opiniosa, a minha opinião.


Paul Krugman - um homem que fala com clareza
(... e, pasme-se: é economista...!)

Paul Krugman, Prémio Nobel da Economia, chegou, foi homenageado, doutorado e disse. Sobretudo, disse que chega de austeridade, que austeridade a mais é contraproducente, que, se as medidas que estão a ser seguidas não resultarem, se deve evitar tentar resolvê-las com mais austeridade.

Disse que Portugal está numa armadilha, que não tem margem de manobra, que tem pena mas que é assim mesmo. Não tem moeda, não tem economia forte, não tem poder de decisão (acrescenta: quem o tem está em Berlim, em Munique, por aí)

E que o desemprego é um drama. E um grande problema.

E disse que os custos portugueses deveriam baixar face aos custos alemães. Que isso seria possível se a Alemanha aceitasse ter uma inflação razoável. Mas que como a Alemanha é férrea na contenção da inflação, o que resta aos portugueses é verem os seus custos depreciados.

E agora entro eu: do que conheço, o grande problema das empresas portuguesas não tem a ver com os ordenados mas com a produtividade e isto não tem a ver com o que se trabalha - porque se trabalha muito. Trabalha-se é mal. Má gestão. E maus empresários. E é sabido: grande parte dos empresários tem pouca formação académica, uma formação inferior à da formação média dos seus empregados.

E tanto assim é que, como sabemos, a Autoeuropa tem custos competitivos e com bons ordenados - mas é bem gerida...

O que acontece é que a realidade é o que é e não se consegue mudar por artes mágicas. E, assim sendo, a solução mais fácil (e mais injusta) será a de baixar os ordenados. Uma pena. Pior: não vai resolver nada, porque o défice de gestão vai muito para além disso. 

Governo que se prezasse e que fosse constituído por gente capaz, competente e conhecedor do mundo real dos negócios, o que devia fazer era investir em força na formação da classe empresarial (empresários e gestores). Aí reside o grande problema. 

A grande aposta deveria ser no ensino, na formação profissional. É a única saída para este país - que, um dia destes, volte a haver conhecimento e competência em abundância.

Desinvestir no ensino, na formação intermédia e profissional, e mandar embora jovens formados é estar a comprometer muito seriamente o futuro do País.

É que o grande problema deste País é este: as elites são fracas, tão fracas. Por todo o lado: na política, nas empresas, por todo o lado. E é aí e só aí que está o problema. A mediocridade foi alastrando como uma mancha que mata a vida que tenta sobreviver por debaixo. É isso que se tem que combater - não os ordenados de uma classe trabalhadora que já ganha tão pouco e que está sempre disponível para trabalhar e para sofrer mais.  
  

segunda-feira, fevereiro 27, 2012

O Livro da Matemática de Clifford A. Pickover e o Livro da Areia de Jorge Luis Borges (com o Ponto de Luz de Sara Tavares e Déjà Vu segundo Hans van Manen) - a oferta do meu amigo e a minha retribuição num dia de sonhos e labirintos


Música, por favor


Ponto de luz  -  Sara Tavares

Meu amigo,

Hoje sem gracinhas, hoje na primeira pessoa, o meu sincero agradecimento. Quando há pouco por aqui passaste, numa corrida, para me deixares o livro de que falaste no outro dia, nem quiseste esperar que eu o tirasse do envelope de papel. Estavas cheio de pressa, nem entraste.

Logo que te foste, abri com curiosidade. Já o fotografei. Queria que a imagem mostrasse a capa, bonita, e alguma das páginas de dentro. Por isso, retirei a sobrecapa e ajeitei-a numa cadeira, junto ao livro aberto, para aqui o poder mostrar.

O Livro da Matemática de Clifford A. Pickover
(De Pitágoras À 57ª dimensão - 250 marcos da história da matemática)

O livro, numa bela encadernação, é da editora Librero (holandesa, se bem percebi), distribuída em Portugal pela Ilus Books (de Espanha) e foi impresso na China. Ou seja, um produto dos nossos tempos globais.

E, no entanto, este livro é um objecto cheio de beleza. Cada 'evento' da história da matemática ocupa duas páginas. A página par descreve a descoberta, o seu interesse histórico e os factos correlacionados. A página ímpar tem uma imagem que ilustra ou interpreta ou embeleza o facto em si. E é nesta selecção que o livro marca a diferença. Há pinturas, há representações abstractas, fotografias e a escolha revela sensibilidade e bom gosto.

Que não se espere grandes descrições científicas, linguagem hermética para o grande público. Não. Pelo contrário, tudo é apresentado de forma apelativa, como se as grandes descobertas da matemática quase estivessem ao alcance de qualquer um. E, ao mostrar, factos que decorrem num arco temporal que vai de c. 150 milhões a.C. ('O Odómetro das Formigas') até 2007 ('A resolução do Jogo de Damas'; 'A Procura do Grupo de Lie, E8' e ' A Teoria Matemática do Universo'), de uma forma leve e cronológica, consegue perceber-se como estas matérias desde sempre exerceram grande fascínio em algumas mentes.

Multi-dimensional, geométrica,  silenciosa
 - matemática em movimento, beleza abstracta e pura, arte

Logo na abertura do livro, podem ler-se algumas citações das quais transcrevo duas:

'A matemática, encarada de forma correcta, possui não só verdade, mas também beleza suprema - uma beleza fria e austera, como a de uma escultura.' - Bertrand Russell, 'Mysticism and Logic', 1918

'A matemática é uma disciplina maravilhosa, louca, cheia de imaginação, fantasia e criatividade que não está limitada pela miudeza dos pormenores do mundo físico, mas apenas pela força da nossa luz interior' - Gregory Chaitin, 'Less Proof, More truth', New Scientist, 2007

Fractal (belo e imaterial como são geralmente os fractais),
emanação puríssima da abstração lógica, da contemplação devota do mundo

Termino com Max Tegmark, a propósito da sua Teoria Matemática do Universo: 'todos nós vivemos num objecto matemático gigante, e provavelmente mais complexo do que os objectos com nomes intimidantes como os múltiplos de Calabi-Yau, os múltiplos tensores e os espaços de Hilbert, que aparecem nas teorias actuais mais avançadas. Tudo no nosso mundo é puramente matemático - incluindo você!'.

Ah, adoro esta loucura poética dos matemáticos.

Por isso, meu amigo, agora não estou na brincadeira, agora não estou a provocar a ira dos deuses, não. Agora, meu Amigo, estou apenas a dizer-te que apreciei muito que, ao veres o livro, te tenhas lembrado de que eu iria gostar. Gostarei de o ler, de o folhear. Vou lê-lo com cuidado. Muito obrigada.

.&.

Gosto de retribuir. Estive a pensar o que poderia oferecer-te que, de certeza absoluta, te agradasse. Preso que andas a compromissos maçadores, agendas apertadas, lutas aqui e um pouco por todo o mundo, um peso enorme em cima de ti, não podes falhar. Sempre eficiente, assertivo, sempre a criar valor para o accionista, neo liberal, sorridente e bem vestido, convidado estrela em congressos, seminários, mesas-redondas, mal tens tempo para seres tu, muito menos, claro, tempo para ler.

O labirinto do Minotauro

Por isso, meu Amigo, como agradecimento, aqui te deixo um excerto de um pequeno livro de um autor de quem gostas particularmente, Jorge Luis Borges. Lembras-te como, antes, gostavas de discorrer sobre o que ias lendo deste argentino que tanto admiravas?

De 'O livro de Areia', da Quetzal, com tradução de António Sabler, pequeno excerto de 'O outro':

Se esta manhã e este encontro são sonhos, cada um dos dois tem de pensar que o sonhador é ele. Talvez deixemos de sonhar, talvez não. A nossa evidente obrigação, entretanto, é aceitar o sonho, como temos aceitado o universo e ter sido engendrados e ver com os olhos e respirar.
(...)

Respondi que o sobrenatural, se ocorre duas vezes, deixa de ser aterrador. Propus-lhe que nos víssemos no dia seguinte, nesse mesmo banco que está em dois tempos e em dois sítios.

Anuiu de imediato e disse-me, sem olhar para o relógio, que se fazia tarde para ele. Mentíamos os dois e cada qual sabia que o seu interlocutor estava a mentir. 
(...)

Despedimo-nos sem nos termos tocado. No dia seguinte não fui. O outro também não terá ido.

Reflecti muito sobre este encontro, que não contei a ninguém. Creio ter descoberto a chave. O encontro foi real, mas o outro conversou comigo num sonho e foi assim que pôde esquecer-me; eu conversei acordado e ainda me atormenta a lembrança.

O outro sonhou-me, mas não me sonhou rigorosamente.

Labirintos, tantos labirintos - como podemos não nos perder?

Espero que gostes, meu Amigo. Um dia talvez voltes a poder ser simultaneamente tu e o outro, um mesmo, tu próprio - como um dia foste.

Talvez voltes a ter tempo para ler Jorge Luis Borges, talvez voltes a surpreender-nos dizendo longas passagens, talvez voltes a levar os que te ouvem para os labirintos em que gostavas de te perder.

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E vocês, meus Caros Leitores - como hoje o texto foi escrito especialmente para o meu amigo - para que não dêem o tempo por perdido, aqui vos tento compensar com um belo bailado.


Déjà Vu, coreografia de Hans van Manen, Nederlands Dans Theater


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E tenham, meus Caros, uma boa semana - para já, uma boa segunda feira!


PS: Já sabem: para ler de carreirinha as 'cenas' com o meu amigo, família e apêndices, é ir ali ao lado, mais para baixo, e escolher Folhetim (se bem que não sei se hoje devo encaixar o texto no dito folhetim).

E, já agora, se quiserem dar uma espreitadela, hoje no meu Ginjal e Lisboa, a love affair, começo a semana dedicada a Brahms e acompanho com Camões sobre as manchas e tropeços dos amores (im)perfeitos Nem mais.

domingo, fevereiro 26, 2012

Digo: "Lisboa" quando atravesso - vinda do sul - o rio; e a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse; enquanto o largo mar a ocidente se dilata, Lisboa oscila como uma grande barca; Lisboa ; digo o nome da cidade - digo para ver


Poesia, por favor

'Chamo-te' de Sohia de Mello Breyner Andresen lido por Hugo Moura Vieira


Passámos rente ao rio e lembrámo-nos de subir as ruas íngremes por detrás do belo edifício cor de céu de Santa Apolónia. Apetecia-me rever a Graça, aí onde Lisboa é mais feminina. 

Muita gente, muitos turistas, muitos casais, namorados beijando-se indiferentes a quem se senta ao lado, duas raparigas de mãos dadas, felizes, muitos jovens ruidosos, uma mulher que gritava pelo cão, crianças brincando, uma mulher jovem num banco de jardim lendo um livro, um homem de mãos nos bolsos passeando, outros sossegados ao sol, pessoas de idade conversando, e esta tranquilidade das belas tardes de um inverno que parece verão.

Miradouro da Graça, um sítio onde o tempo se detém

Entrei na Igreja, linda, aquela frescura dos ambientes tranquilos, os tectos pintados, as figuras religiosas em poses piedosas, aquela luz coada que nos transmite uma religiosidade natural e digna, e eu por ali andando, olhando e sentindo a paz que vem daquelas pedras, e, então, um coro suave - vozes que se elevam e enchem aquele espaço tão tranquilo - parece nascer dos recantos habitados pela Virgem, por Cristo. A música do órgão, as vozes que ensaiam os cânticos, a luz das velas, as pessoas recolhidas em oração, o silêncio -  aqui é Lisboa, cheia de graça.

Uma das pequenas capelinhas, recantos de pura devoção,
na bela Igreja da Graça

É verão e o branco de Lisboa não se cansa
da brancura, o céu de um azul
pálido e constante, na sombra da esplanada.
(...)

'Lisboa com suas casas de várias cores' (Álvaro de Campos),
e o Tejo sempre presente

(...)
Os pedreiros falam alto, num português bruto,
os estrangeiros, que nunca leram Cesário,
louvam o encanto da lota, as raparigas passam,
melhores que qualquer cidade.
enquanto o vento tempera o calor

lembrando que existe um rio.
Mas a sombra é um parêntesis, a brancura
um parêntesis, o próprio vento e as raparigas
uma suspensão no quotidiano
que teima em desintegrar-se,
em resistir à superfície da escrita.
Nessa cidade que tranquilamente
se deixa ficar nas colinas, quem sabe
se à espera, quem pode saber.


['Lisboa, Cerca Moura', de Pedro Mexia in 'Menos por menos']

Ler um livro ao sol, num banco de jardim,
junto a um chafariz, com pombos em volta

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
um movimento
inteiro, unido, adormecido
como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
entre países sem nome flutuam
(...)


E, neste local mágico, encontrei Sophia,
Sophia de frente para Lisboa que se estende rendida,  bela e luminosa

(...)

Imagens tão mudas
que ao olhá-las me pareça
que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber


['Um dia branco' de Sophia de Mello Breyner]

Sophia, bela, orgulhosa, inteira, guardada pela Igreja da Lapa

Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga


['Os troncos das árvores' de Sophia]

Sophia, de perfil, bela como o belo tronco da árvore, bela como as pedras
 intemporais da parede na qual se grava um seu poema a Lisboa

Poema gravado na pedra sobre as pedras da parede junto à Igreja no Miradouro da Graça

E a este belo, belo, mágico, íntimo lugar, chamaram Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen, porque na imensa beleza e na paz sossegada deste espaço se acolhe com ternura e graça o espírito de Sophia, Mulher Poeta.

Miradouro Sophia de Mello Breyner Andresen, Poeta, 1919-2004
A mais bela homenagem que se poderia ter feito

Mais poesia, por favor

'Pirata' de Sophia de Mello Breyner Andresen lido por Jacinto Correia


Lisboa, meu amor

Joaquim Pessoa e Carlos Mendes


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E tenham, meus Caros, um belo domingo.
Cherchez la beauté.
  

sábado, fevereiro 25, 2012

A insustentável leveza da minha amiga, os disparates preconceituosos do marido - e eu já sem saber o que pensar desta gente toda...!


Estive ocupada todo o dia, sem receber telefonemas. À hora de almoço vi que tinha, entre as chamadas não atendidas, duas da minha amiga, duas do marido. Contudo não deu para ligar de volta.

Apenas ao fim da tarde pude devolver algumas e comecei por ela – estava cheia de curiosidade, eu. Esta minha brincadeira tem perigos vários e nem toda a gente tem estômago para digerir a gracinha. 

Música, por favor

Para Elisa - Beethoven


Mas ela continuava no mesmo registo, solta, inocente, ‘então ontem gostaste do sítio. É giro, não é?’. E eu pensei cá para mim, ‘mas querem lá ver que agora deu em pomba-lesa..? Então, depois do que eu relatei, aquilo a que ela prestou mais atenção foi à descrição do local…? Mamma mia…!’.

Mas entrei no registo, ‘há quanto tempo está aquilo ali, que eu nunca tinha ouvido falar?’, que ‘está muito agradável’, que ‘as bolachinhas com sementes estavam uma delícia’, 'as de gengibre também, tens razão', que ‘o chá era muito bom’, que ‘nunca tinha experimentado aquela mistura’ (lembro-me lá eu que chá é que bebi!) e ‘quem são as donas daquilo?’, e contou-me que eu as conheço (e eu sei lá de quem é que ela estava a falar!) mas, enfim, converseta simpática de fim de tarde. Até que, finalmente, a voz fica outra, quase adolescente, e me diz ‘O que achaste dele? Já sei que achas giro, que achas que cheira bem, que achas que é um sedutor, que achas que a voz é boa para dizer poesia, já li isso tudo… mas, de resto, conta lá…’.

Fiz uma pausa, respirei, o que havia eu de dizer? Mas, enfim, ‘olha, não tinha esta ideia dele, costumo vê-lo na televisão a invectivar o capitalismo selvagem, a apresentar propostas num tom sempre super engagé, não me passaria pela cabeça que afinal houvesse ali uma alma de poeta, sei lá, olha, fiquei muito admirada, que queres que te diga…?’. E ela: ‘Pois, já viste, quem vê caras não vê corações, não é? Ao princípio também fiquei admiradíssima. Um espanto. E tenho aprendido imenso com ele, tem uma cultura fantástica, e tem-me incentivado como tu nem imaginas’ e a voz era de devoção.

‘Incentivado como?’, perguntei, ‘incentivado a fazer o quê?’

‘Mas, olha, é que nem ias acreditar!’ e riu. Depois, sem pausa, mudando de assunto: 'Não pode com o meu marido; aliás, quando se refere a ele é o vendido do teu marido, o chinês, o botões de punho. Farto-me de rir’ e eu outra vez sem saber o que dizer. Do outro lado, ela ria. Quando eu ia começar a tentar perceber ‘…mas olha lá, afinal…’, interrompeu-me, ‘olha, linda, vou ter que desligar… adivinha quem me está a ligar…?’

Beijinho, beijinho.

A meio do telefonema tinha-me levantado e tinha falado a olhar pela janela. Quando a chamada acabou, deixei-me cair na cadeira. ‘What the hell…!?’, interroguei-me.

Bebi água, respirei, olhei lá para fora e liguei então para o chinês (esta é boa…!)

Muito seco: ’Sim, diz’ e eu ‘digo nada. Estou apenas a responder às tuas chamadas’.

Como se acordasse, ouvi-o a respirar fundo, pausa, pausa, como se estivesse a ganhar fôlego, e então ouvi-o a cantar:


A Nau Catrineta - Fausto

[‘Lá vem a nau Catrineta/ que tem muito que contar/ouvide, agora, Senhores/ uma história de pasmar. Passava mais de ano e dia/ que iam na volta do mar/ Já não tinham que comer / já não tinham que manjar’ (...)]


Desatei-me a rir: ‘Engraçadinho..! Fausto? Almeida Garrett? Mas que bem...’ e ele a rir também: ‘Já que ficaste derretida com o diseur... eu faço ainda melhor, até canto…! Mas olha lá, por falar em não ter que papar, então ontem foste conhecer a bicha?’

‘O quê?!’, quase gritei.

‘Ouviste bem. Queres ver que não percebeste…, a bicha, a grande amiga da minha mulher. Andam sempre as duas a fazer programinhas juntas, ele é leituras de poesia, ele é concertos de fim de tarde, ele é bailados, acho que a bicha gosta muito de ballet, já para não falar nas longas conversas ao telefone às tantas da noite…, nem sei até se não vão ao cabeleireiro juntas…’

‘Estás parvo. Só pode. Bicha?! Não estás bom da cabeça’, respondi-lhe.

Conheço-lhes os tiques. Para começar, dão-nos sempre uma espreitadela corpinho abaixo, não com ar de quem está interessado mas para verem o que a gente traz vestido. Bicha?! Nem pensar.

Mas ele ria-se, ‘Estou a dizer: bicha, bicha. Aliás, aquilo lá está cheio delas.’

Aquilo lá…?! De que é que estás a falar?, eu sem perceber.

‘Sim, mais do que uma organização política aquilo lá é o braço esquerdo da ILGA,  ou da LGBT ou lá como eles chamam àquilo, elas umas sapatonas, eles uma bicheza, intelectuais,  reivindicativas, azedas.’

‘Estás parvo, credo. Conservador, preconceituoso, que horror, cada vez estás pior, agora até homofóbico, que coisa...!’, e rematei:  ‘Nem sei como é que a tua mulher ainda tem paciência para te aturar’.

Riu-se: ‘Nem eu. E, olha, tomara que não...’

‘Não percebi. Tomara que não o quê?’, perguntei-lhe. Esta gente tem o condão de falar por meias palavras, que chatos.

Mas já ele mudava de conversa: ‘Olha, ontem tive um jantar e depois os tipos não quiseram ir logo para o hotel, quiseram dar uma volta a pé. Entrámos numa livraria e vi um livro de que vais gostar. Amanhã ou depois passo por tua casa para o deixar. Pode ser?’

‘Podes. O que é?’

‘Nada de mais, logo vês’. E depois, voz sisuda: 'Escuta. Esta conversa não pode, obviamente, ser reproduzida. Estás a ouvir? Senão ainda me aparece aqui, na companhia, a bicha a desafiar para um duelo. Ouviste? Estou a falar a sério. Acho que já chega de te armares em menina má. Desta vez, por favor, não o faças, estás a ouvir? Mas olha, se te queres meter com as duas, põe lá um clip com aqueles gajos que dançam ballet vestidos de mulheres.'

Beijinho, beijinho. Fim de chamada.

E eu fiquei ali a rebobinar o filme de ontem e de todas as vezes que vi o caviar gauche na televisão. Bicha?

No way. Deve ter sido ela que inventou esta para o despistar. Só pode. 

!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

E, portanto, para te fazer a vontade, meu amigo, aqui deixo a oferta, em teu nome, para a tua mulher e para o sedutor e interessante diseur (qual bicha, qual carapuça!)

Lago dos Cisnes - Les Ballets du Trockadero 


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(E, já sabem, estas peripécias encontram-se arrumadas no separador 'Folhetim' que, caso queiram ler de seguida, poderão seleccionar aí ao lado à direita, lá para baixo)

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Tenham, meus Caros, um belo sábado. E divirtam-se, está bem?

sexta-feira, fevereiro 24, 2012

Um chá com a minha amiga e ... uma surpresa...! (e La Dispute e Alexandre O'Neill e Mariza, tudo para vos dar uma ideia do ambiente)


Música, por favor
La dispute de Yann Tiersen (do filme Amélie)


Coisas do além, é o que é.

Hoje de manhã nem telefonemas, nem mails, nada, silêncio. 

Mas, à hora de almoço, liga-me a minha amiga e, para minha surpresa, muito calma e bem disposta.

Quando eu já me preparava para lhe dizer que isto é uma ficção sem qualquer aderência à realidade, eis que me conta com toda a naturalidade que o marido lhe ligou todo enervado, pedindo-lhe para ler o que eu tenho vindo a escrever. E continuou relatando que assim tinha feito, que até tinha achado muita graça, que estava fiel à realidade, que tinha gostado de ler a forma como eu os descrevia. Apenas tinha ficado um bocado incomodada com a cena da empregada mas que, até nisso, estava um retrato correcto, que a dita cuja já se tinha, efectivamente, despedido e que estava um bocado farta de aturar empregadas, que se armam em donas da casa, que agora ia antes contratar uma empresa que lá iria apenas umas horitas por dia, que chegava e sobrava. 

Quanto ao resto gostava de conversar com mais calma e que, se eu pudesse, podíamos encontrar-nos ao fim da tarde numa casa de chá ali para os lados dela, perto mar. Muito bem, disse, 'desde que não dê para tarde' e ela que também não queria ir muito tarde para casa, que tinha ficado de falar via skype com os miúdos que estão fora. 

Portanto, avisei que ia chegar mais tarde a casa e lá fui e, tenho que confessar, ia não tanto admirada como um bocado inquieta pois ela poderia aborrecer-se a sério com a história, embora nada no que eu tenho escrito aponte para ninguém em concreto. CEOs, caviar gauches e donas de casa doces e conservadoras é o que mais há por aí.

Não conhecia o sítio mas, com a morada posta no gps do carro, lá fui dar. Era uma espécie de cabana de madeira, engraçada e, lá dentro, um ambiente caseiro, lareira acesa, bom gosto, cortinas, flores, um ambiente quase rústico, um toque de decoração britânica. Acolhedor, mesmo.


Ao abrir a porta e olhar em volta a ver, fiquei encantada com o ambiente. Algumas pessoas, casais maioritariamente mas também, perto de uma espécie de varanda, uma mesa animada com um grupo de amigas que conversavam como se estivessem em casa. 

Eu procurava-a a ela mas, naquele relance, não tinha visto nenhuma mulher sozinha; de repente, quase me caíu o coração aos pés. Num recanto, numa mesa com um bule, chávenas, bolachinhas e uma vela ao meio, quem é que eu vejo? Ela e o dito amigo gauche. Ambos sorrindo na minha direcção e eu quase sem conseguir dar passo. Ele, cortês, pôs-se logo de pé, ela apresentou-mo, sorrindo, como se fosse a coisa mais natural do mundo, ele simpatiquíssimo, um charme, uma voz que não vos digo nada, um olhar e um sorriso como não se imagina, e ela toda encantada ao ver o efeito produzido.


Uma coisa é certa: tal como eu, ela gosta de homens bonitos.

A mim não me ocorria nada, estava – como se costuma dizer – apardalada. Mas ela nasceu para fazer conversa social e sorrindo como se fossemos os três amigos de longa data, desatou a palrar que ‘já sabia... mas que ao ler o teu blogue vi mesmo que tens o coração à esquerda' e eu que sim e ela acrescentando, com naturalidade, 'achei que ias gostar de conhecê-lo’ e olhava, orgulhosa, para ele. 

E então contou que o tinha conhecido numa sessão de poesia, que tinham falado, se tinham ‘amigado’ no facebook, que desde então às vezes vão juntos a essas sessões ou concertos de fim de tarde, que ele adora poesia ‘é como tu’, e sorria, o rosto de lado, feminina e inocente, parecia bem mais nova, luminosa, cara lavada, simples.


E ele sorria que sim, que gostava de poesia e que ‘ela contou-me que também gosta e eu já vi que sim, podíamos combinar e vinha também connosco, numa próxima vez’ e eu, banzada, pensava ‘mas o que é isto, senhores…?’

Com um jeito naturalmente sedutor, cabeça inclinada levemente, contou-me que, um bocado à pressa, tinha espreitado o Um Jeito Manso e também o Ginjal e Lisboa e que tinha que lá voltar com calma, que tinha achado graça ao verso que eu tinha colocado como subtítulo e eu, sinceramente, estava tão aparvalhada que nem percebi a que é que ele se estava a referir.

E então, enquanto eu pensava, raciocínio embotado, ouço-o numa voz grave e quente, baixo, começar a dizer o poema do O’Neill,


Luís Gaspar lê o poema 'Há palavras que nos beijam'

e ela pegava numas partes e dizia ela e ele continuava, e olhavam um para o outro em absoluta sintonia e eu passada, nem queria acreditar, sabiam os dois o poema de cor, disseram-no de uma forma tocante.

No fim, só me ocorreu: ‘mas sabem o poema de cor…’ e eles riram. 'Sabemos este e muitos outros, às vezes dá-nos para isto', responderam-me a rir.

E, enquanto tentava refazer-me, pensei cá para mim:  'de facto, um homem que sabe dizer poesia é outra coisa...'.

Bebi chá, beberam chá, comi bolachas para disfarçar a falta de assunto.

Virei-me, então, quase a medo para ela: ‘não te sabia tão amante de poesia…’. Ela riu ‘há tantas coisas que não sabes’, irónica, marota.

Eu puxava pela cabeça para ver se me ocorria alguma coisa esperta para dizer mas apenas me ocorreu isto: 'Conhecem a versão da Marisa?'. Desataram-se a rir. 'Uma private joke, é isso?', e eu já atrapalhada, provavelmente tinha dito algum disparate. Mas não, eles já esclareciam e um começava a frase e o outra acabava-a: 'Não, é que a fomos ver juntos e não era suposto...' e riam-se e eu olhava para um e para outro e nem sabia o que dizer. 'Ah...', foi o único som que consegui produzir.

Ainda me ocorreu perguntar-lhe se o marido também tinha ido mas achei melhor não, ia estragar o climinha.

Depois, a sentir-me estupidamente insegura, ainda pensei puxar o assunto da política, falar do Álvaro, fazer alguma piada com os pastéis de nata, referir o trágico valor da recessão hoje anunciado, enfim, qualquer coisa de inteligente mas nada, nada me parecia oportuno, tudo me parecia deslocado. Sentia-me a mais no meio daqueles dois. Felizmente, passado um bocado, tocou-me o telemóvel, não atendi mas, olhando para o mostrador como se fosse uma chamada premente, disse-lhes que tinha que me ir embora.

Sorriram, educados, 'Já? ainda mal conversámos...' mas eu levantei-me, ele levantou-se imediatamente, beijinho, beijinho e que bem que ele cheirava, senhores.

E ainda não estou em mim. Mas o que foi aquilo que presenciei? Alguém me diz?

????????

Bom, para não acabarmos assim, neste intangível e imenso ponto de interrogação, deixo-vos com a Marisa.



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(Relembro que, se quiserem ler esta história do início, podem ir aos separador que diz Folhetim aí do lado direito, lá mais para baixo.

E se quiserem ler o poema Sem que soubesses |de A musa irregular| do Assis Pacheco e umas palavritas minhas a propos, podem dar uma saltada ali ao meu Ginjal e Lisboa)

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E tenham, meus Caros, uma bela sexta feira! Divirtam-se, aproveitem as coisas boas desta vida.

quinta-feira, fevereiro 23, 2012

A misteriosa advogada volta a dar notícias; o meu amigo está à beira de um ataque de nervos; a mulher dele tem um surpreendente amigo no facebook - e eu cada vez percebo menos disto...!


Música, por favor
Natalie Merchant - My Skin

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Hoje, logo de manhã, antes de sair de casa, numa corrida, não resisti a espreitar a inbox e, na mouche: novo mail, agora de um novo endereço que invoca o carnaval de Veneza (e até me apetecia aqui reproduzi-lo, pelo sentido de humor que demonstra – mas não o faço, claro). Contudo, transcrevo o mail.

Será a misteriosa advogada...?

Anda a brincar. Transcreveu o meu mail. Não percebo que brincadeira é esta mas já me tinham avisado que isto podia acontecer pelo que, quando fui ver o seu blogue, não fiquei surpreendida e até gostei da ideia das máscaras de veneza. Mas recomendo que mantenha a coisa no registo da brincadeira, não exagere. Provavelmente vai também transcrever este mail e aproveito para informá-la que eu também gosto de brincar.”

Quando vi o mail também não fiquei surpreendida e confesso que até apreciei o fair play. Não acrescenta nada tal como o mail de ontem mas sugere que pode ser uma coisa diferente do que parece. Isto começa a ter alguma graça.

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Entretanto, a meio da manhã, estava eu com pessoas no gabinete, quando recebo um telefonema do meu amigo, todo arreliado, ‘mas qual é a tua? Explica que eu sou capaz de fazer um esforço para perceber.’ Fiz-me desentendida, também não queria que as pessoas que estavam na mesa de reuniões percebessem a conversa, ‘estás a falar de quê? E, olha, fala mais devagarinho, pau-sa-da-men-te, como o ministro de que tanto gostas.’

Reagiu com maus modos, que não tinha tempo nem paciência para brincadeiras. Ri-me ‘Que mau feitio, credo. Jet leg, my friend? Conta lá, meu amigo, o que te aflige, conta lá que eu já vejo se te posso ajudar’. Ouvi-o suspirar alto do outro lado, furioso. ‘Pára com essa brincadeira ridícula, não estou para ter problemas com isto.’ Presumi que estivesse a referir-se ao facto de eu ter publicado ontem, aqui, o mail que, com esta fúria, concluo que é mesmo da amiga, da advogada.

Respondi-lhe, no gozo, ‘Está bem, fica descansado que vou ver como é que te posso ajudar nessa aflição.’ Depois, como ele se preparasse para desligar, chamei-o ‘Olha, espera, não desligues: à vinda da China, paraste em Veneza para tratar de negócios, não foi? Podias ter trazido uma máscara para ofereceres à tua mulher…ou à tua advogada….’. Respondeu, fulo: ‘vou desligar, tenho mais que fazer. E pára com a brincadeira!’.

[]


Entretanto, há pouco, depois de ter escrito o texto abaixo sobre a desgraça anunciada que era a política de transportes deste governo (a dos transportes e todas as outras, diga-se), lembrei-me de ir espreitar a página da minha amiga no facebook.

Lá vi já uma das fotografias que lhe tirei e, claro, vários dedos espetados, muitos elogios à a sua beleza, outros simpáticos a dizerem que quase parece a filha (de facto, a mais nova é a cara dela), outros a perguntarem quem foi o fotógrafo (vá lá...!), comentários engraçados, mas qualquer coisa me dizia que, entre os seus amigos de facebook, poderia estar alguma resposta à minha curiosidade. Claro que vários amigos dela são também meus conhecidos e outros são conhecidos de conhecidos, gente de quem se ouve falar, gente que aparece por aí. E os filhos e sobrinhos e mais alguma família e até a minha filha. No entanto, para minha surpresa, uma boa meia dúzia não apenas me é totalmente estranha como até tem um ar vagamente alternativo, ar talvez de designers, publicitários, investigadores de biotecnologia, não sei, por aí (para não me atrasar muito, senão isto ia dar para tarde demais, não quis perder tempo a espreitar a página deles para perceber de que se ocupam; amanhã pergunto à minha filha se sabe quem são).


E, para minha ainda maior surpresa, no meio de todo aquele grupo de jet set polvilhado com alternativos, não é que vejo uma pessoa muito conhecida, muito ligada a causas de esquerda etc e tal ....? (e mais não digo porque, como me avisou a advogada veneziana, não devo exagerar).

Dali saltei para a página dele, milhares de amigos, um séquito. O exército caviar gauche todo perfilado. E, ali no meio, destacada pela diferença, a minha bela amiga, a doce e conservadora mulher do CEO* mais elogiado da nossa praça. Ele há coisas…

E, aqui estou, pois, a escrever-vos isto e sem perceber qual a liaison entre aqueles dois. Qualquer coisa me diz que foi dali que partiu a recomendação do livro do Chomsky para o neo liberal marido.

Começo a estar deveras intrigada com os meus amigos que eu achava que conhecia tão bem.

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Não quererá você, misteriosa mulher da máscara veneziana, escrever-me mais um mail, desta vez com algumas pistas (pode ser até uma coisa do tipo caça ao tesouro, para deixar o seu amigo ainda mais nervoso…)?

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Nota 1: Se estiver já perdido no meio do enredo, pode colocar os textos todos de carreirinha se for ali ao lado direito e, nas etiquetas, escolher a que diz 'folhetim'. Aparecer-lhe-ão apenas os posts que se referem a estas peripécias.


* CEO = Chief Executive Officer, isto é, Presidente da Comissão Executiva 


Nota 2: Mas se lhe apetecer antes saber o que penso da política de transportes de Passos Coelho, ou da minha experiência com os jogos de gestão e de como era útil que estes aprendizes de governação os praticassem ou, ainda, o que penso da carta dos 12 primeiros ministros (entre os quais não se encontra Passos Coelho!) relativamente ao relançamento económico da Europa, então siga, por favor, até ao post abaixo.


Nota 3: Escuso de dizer que, se lhe apetecer, antes, desafogar o espírito com uma coisa mais aluada, o convido a deslocar-se até ao Ginjal e Lisboa, hoje com Helga Moreira et al (... não atino com aquelas cores - escolho-as num computador e ficam todas bonitinhas, vejo noutro e estão uma coisa despropositada. Só tenho coisas que me ralem...)

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E, claro está, desejo-vos uma bela quinta-feira!
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quarta-feira, fevereiro 22, 2012

Quando não se sabe o que se anda a fazer o resultado é o permanente disparate - onde se fala das medidas tomadas no sector dos transportes e dos resultados que já estão à vista. E onde também se fala da Carta pró desenvolvimento e pró relançamento da economia assinada pelo Reino Unido, Itália, Holanda, Espanha, Irlanda, Suécia, Finlândia, etc,... e que deixou Portugal de fora!



Já participei em jogos de simulação de gestão, de mais do que um tipo e proveniência. São, no entanto, do mesmo género (pelo menos os que conheço). É como se cada equipa fosse o corpo de gestão de uma empresa. Todas as equipas recebem o mesmo briefing no qual é descrito o meio em que a empresa vai operar, com numerosos elementos de toda a espécie e feitio.

Como são jogos de equipa, as decisões são tomadas colegialmente. Os desafios variam e, de jogada para jogada, as equipas vão reagindo ao evoluir dos resultados. Ou seja, uma jogada que pode parecer perfeita, acaba muitas vezes por ser um desastre face às jogadas das outras equipas em competição.

Geralmente a cada semana reuníamo-nos e tínhamos acesas discussões, ensaiávamos, discutíamos, uns a defenderem uma estratégia de diferenciação, outros de massificação, sempre olhando as jogadas anteriores das outras empresas e os resultados obtidos. 

O jogo consiste, pois, em simular o mercado relativo a um determinado bem (por exemplo, fabrico e venda de automóveis) e, depois de todas as equipas terem feito a sua jogada, um programa informático ‘corre’, apurando os resultados de cada empresa: quanto é que vendeu de cada produto, que custos teve, se teve produtos estragados, com que quantidades ficou em stock, qual a quota de mercado que alcançou, a sua posição em bancos, a demonstração de resultados e o balanço, estudos de mercado que demonstram como é que os produtos e a empresa são percepcionados, estudos de satisfação interna junto dos colaboradores, a cotação em bolsa.

Cada equipa tem que tomar decisões a vários níveis, desde as que se relacionam com estratégias comerciais (que produtos e que quantidades vendidas de cada um é que se  pretende alcançar, quais os respectivos preços de venda, que campanhas de marketing, de que montante, para que produto, dimensionamento das estruturas comerciais, etc, tudo com óbvias implicações em custos e proveitos), decisões de produção (quantidades a produzir, organização e dimensionamento das equipas, aposta forte ou não na investigação ou na qualidade, etc, com implicação directa nos custos operacionais), estratégias de recursos humanos (quantos trabalhadores vai ter e de que níveis, se vai seguir uma política de baixos salários ou, ao contrário, de salários fantásticos, ou, ainda, apostar numa base fixa alta ou numa baixa mas com bónus variáveis, ter ou não custos consideráveis de formação, etc, e tudo, claro, também com óbvias consequências em termos de resultados), políticas financeiras (resolvendo se se vai actuar essencialmente com base em capitais próprios ou, pelo contrário, com elevada alavancagem, naturalmente com implicações directas no volume de investimento mas, também, no serviço da dívida), etc - ou seja, todos os items sobre os quais, numa empresa a sério, os responsáveis têm que decidir.

Participar nestes jogos de simulação é uma prática educativa a todos níveis.

Eu, geralmente, das vezes em que joguei, tendia a preferir uma estratégia de diferenciação, com trabalhadores bem remunerados, apostando em produtos especiais, diferentes, em que a própria oferta gera a procura, em que há uma forte aposta na investigação, na qualidade e no marketing, não se vendendo grandes quantidades mas em que se podem praticar preços elevados.

Mas há quem defenda a estratégia oposta: vender de tudo, em grandes quantidades, aliviar na investigação, qualidade e marketing, ter custos baixos, vender barato, praticar grandes descontos.

Pode haver também estratégias híbridas, ou seja, ter produtos de combate, baratos, e ter um ou outro produto especial que se destine a nichos de mercado; e ter trabalhadores indiferenciados numas áreas  e outros, noutros sectores, altamente remunerados. Ou seja, tudo é possível – e tudo tem implicações.

De todas as vezes em que joguei, constatei que havia um traço comum: as equipas inexperientes atiram-se ao jogo como gato a bofe. Baixam ordenados a eito, contratam trabalhadores indiferenciados a quem pagam tuta e meia, aumentam preços de venda e, na sua cabecinha de quem da vida nada conhece, imaginam que, assim, infalivelmente aumentam os lucros e que ganham logo o jogo. 

Geralmente a decepção não se faz esperar pois, em regra, começam a ter problemas logo à primeira jogada. Como os preços de venda estão muito altos, os clientes mudam-se para a concorrência ou deixam de consumir e, dado que ficam insatisfeitos por terem salários baixos e não terem formação ou outros incentivos, os trabalhadores fazem greve e perdem-se dias de produção e os mais qualificados mudam-se para a concorrência. Geralmente são estas as equipas, de pretensos jovens turcos, que se estampam de tal maneira que já não conseguem recuperar, acabando em último lugar.

Este é o Álvaro, o desaparecido ministro da economia, transportes, etc
Agora, para relançar o emprego jovem, avançou o omnipresente Relvas,
deixando o Álvaro a relançar a indústria de padres e pasteis de nata

Lembrei-me disto ao ouvir o mau desempenho que as empresas de transportes vêm apresentando desde que este extraordinário governo começou a tomar medidas. O número de utentes está a baixar de tal maneira que as receitas tiveram quebras acentuadas e os resultados pioraram (já para não falar no descontentamento dos trabalhadores do sector).

Aconselho a leitura do artigo da autoria de Jorge Silvestre do Expresso online que explica bem a situação.

O problema dos transportes resolve-se quando se estudarem os transportes de uma forma integrada (analisando toda a procura, toda a oferta, conduzindo uma racionalização articulada, analisando todas as envolventes – incluindo  as regalias exageradas que os trabalhadores, ex-trabalhadores e colaterais têm e de que os media vêm fazendo eco, embora presuma que isso tem um impacto marginal se bem que muito mediatizado). 

Sérgio Monteiro, Secretário de Estado dos Transportes que,
vá lá, ao menos dá a cara. Faz tudo ao contrário mas existe
e defende as suas ideias enquanto o chefe, o Álvaro, nem aparece


Agora fazer o que este governo fez, que passou por aumentar destravadamente os preços dos transportes sem olhar a mais nada, tem o efeito que acima descrevi quando referi as típicas jogadas imaturas dos jovens turcos de trazer por casa (sem ofensa para os verdadeiros jovens turcos…) - e já nem refiro as dificuldades acrescidas sobre os pobres dos utentes. Ou seja, uma desgraça.

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Mark Rutto e David Cameron

Uma palavra também para a Carta que doze primeiro-ministros europeus enviaram a Van Rompuy e a Durão Barroso alertando para a necessidade de mudar o foco da estratégia europeia, deixando de insistir na política de austeridade em cima de austeridade, e, pelo contrário relançar a economia e a confiança, avançando com medidas concretas nesse sentido (e que passam, por exemplo, por criar estímulos à empregabilidade de jovens e mulheres). A carta seguiu em nome de Cameron (Reino Unido), Mario Monti (Itália) e Mark Rutt (Holanda) e foi também assinada, entre outros, pelos primeiro ministro espanhol, irlandês, finlandês, sueco, finlandês, polaco.

Segundo Cameron nem contactaram Passos Coelho porque todos sabem que não está alinhado com esta estratégia, sabem-no colado à política recessionista da dupla Merkozy. 

Uma vergonha, uma tristeza, uma desgraça para nós, vítimas do posicionamento absurdo de Passos Coelho.

Mas isto um dia muda, ah muda.