Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, janeiro 31, 2012

A inutilidade de mais uma Cimeira Europeia; a surpreendente Judite de Sousa; Lana del Rey, a curiosa nova grande voz; as fotografias de Mario Testino e a poesia de Ana Duarte


Cansada, mal dormida, hoje de nada me apetece escrever. As poucas notícias que ouvi em nada contribuem para me animar. Para lá andam a brincar às coisas impossíveis, às cimeiras europeias de que história que se preze alguma vez rezará. Estabelecer para todos os países, por decreto, limites inatingíveis é forçar alguns a saltarem fora. Merkel continua pôr e a dispor e toda a gente a balir atrás. Quase todos, melhor - porque parece que os dois rebeldes do costume disseram que não brincam às uniõezitas. Um défice de 0,5%. Quando? Em quantos anos? Quem é que consegue isto todos os anos? Olha, Portugal, até aqui acho que nunca oa conseguiu. 

A UE transformada numa turma da catequese. Não tenho paciência para isto.

Noemie Lenoir por Mario Testino

Quando há pouco cheguei a casa, deitei-me no sofá e instantaneamente caí num sono profundo; só acordei, e a custo, à força. Ora isso teve um lado bom: não tive a desagradável sensação de ouvir o Relvas ou o Passos Coelho, ao menos fui poupada a essa provação. 

E depois, do pouco que ouvi, é só desgraças, só gente a morrer sozinha, gente desempregada, empresas a fechar, e eu hoje não consigo ouvir mais falar disso, nem falar destes dramas. Não. Que apareça, por favor, gente divertida, gente maluca, que digam coisas imprevistas, que me façam rir, que me despertem, que me façam ficar boquiaberta com palavras nunca antes ditas.

por Mario Testino

Mas não, só banalidades, só coisas mil vezes repetidas, mil vezes irrelevantes. Neste momento, vejo o Prós e Contras e nada que se aproveite. Toda a gente reclama e muito justamente mas tantas vozes, tanto ruído e ninguém que saiba transformar as reclamações em concretizações válidas e justas. E a Fátima Campos Cunha tão excessivamente afirmativa, às vezes com um tom de voz tão chato, fala muito alto, cansa-me. Gente que fala muito ou que fala muito alto cansa-me.

E inquilinos e senhorios e todos se queixam e todos têm razão e a ministra Cristas, coitada, que culpa tem ela se a puseram em ministra?, sabe lá ela alguma coisa destas vidas complicadas?

Acho que a Arquitecta Helena Roseta é a única que diz coisa que se aproveite mas o que é uma voz no meio de tanta barafunda?

Mas estou para aqui a queixar-me e até nem é verdade que não me pareça uma alma que me deixe especada. Há pouco aconteceu, até peguei a correr na máquina.

Judite de Sousa na TVI 24

Judite de Sousa no seu programa com Medina Carreira a quem ela trata como se ele fosse um velhinho senil ou, outras vezes, como se estivesse deslumbrada e infantilizada perante um professor ancião, ou nem sei, nem consigo classificar aquele tom de voz suplicante, 'mas ó sô tôr ...mas então ó sô tôr...', mas, dizia eu, a Judite hoje deixou-me de boca aberta.

Com um penteado à Marie Antoinette, cheia de ganchos e travessões brilhantes, com uma pintura espectacular, com um vestido que tinha ao ombro umas fitas que não consegui compreender, unhas azuis e um cachucho brutal num dos dedos! Ali andei  de pé, de roda da televisão, a tentar perceber o que era aquilo. Mas até estava gira! Fica-lhe bem. Estas coisas espampanantes valorizam-lhe a assimetria.

E até gostei daquele tom de voz soava surreal, com aquela produção versailliana: tudo aquilo era uma coisa digna de ser vista e ouvida, uma performance improvável, mesmo como eu estava a pedir.

Claro que Medina Carreira, com um senhor bem informado de que não captei o nome (apanhei o programa já quase no fim), me deixaram um pouco mais preocupada pois concluíram que o mal de Portugal é a desindustrialização e a dependência energética, coisas estruturais e que não se ultrapassam de um dia para o outro. E que este é também o mal de grande parte da Europa. E é verdade. Nisto radica todo o mal profundo deste país. Desindustrializou-se, tornou-se dependente. Um drama só superável com uma grande visão e compreensão da dimensão real da tragédia, com gente culta, abnegada, experiente, bem preparada. Gente de outro mundo, portanto.

Mas, olhem, hoje não estou para isto. Deixem-me procurar imagens loucas, imprevistas, quero ser surpreendida.

Mario Testino para a Vogue

Está difícil. Não me aparecem sonhos materializados em pássaros coloridos e enormes, cantando e gritando aqui à minha frente, não descem dos céus bailarinos de fogo dançando em roda desta minha mesa cantares do fim da terra, batendo palmas e rindo, não me aparecem anjinhos dando cambalhotas nos ares enquanto entoam os violinos. Já dei tempo mais que suficiente para isso e nada. Nem a lua desceu do céu para vir bater no meu peito. Nada.

Não havendo nada disso, queria que me aparecesem aqui os homens que, à noite, saem das cavernas, cobertos de peles, meio despidos, sedentos, olhos suplicantes.

Fur Men por Mario Testino

Mas não. Talvez porque não tenho aqui uma fogueira para se virem aquecer, os homens das grutas hoje  passaram por aqui e logo seguiram. Queria que aqui se deixassem ficar, desfilando, lentos, carentes, belos, queria-os aqui em silêncio à volta desta minha mesa coberta de livros, mas nada. Foram em busca das raparigas de caras pintadas, vozes loucas, alegres, dançarinas frenéticas, mulheres livres que dançam com grandes pássaros emplumados.

Kate Moss por Mario Testino

Por isso, como a festa hoje se faz por outras paragens, vou-me embora. Talvez vá ver se descubro onde  andam esses cuja companhia hoje me apetece, que eu hoje só me apetecem coisas incomuns, gente com horror ao cinzento, quero luzes, cores, cantos, saltos, voos, risos, futuros.


Lana del Rey, grande voz - ouçam-na, por favor

[.]


E poemas?, perguntem-me lá vocês... Não podemos enfrentar o dia sem um poeminha - digam-me lá...

Ok, assim seja, então (um poeminha bom para as minhas leitoras decorarem e surpreenderem os seus compagnons de route quando eles menos esperarem, está bem? Mesmo as de fraca memória vão conseguir que ele é bem pequenino, vão ver):


Das tuas mãos saem
coisas maravilhosas
 - por exemplo,
os meus seios.



[ 'Das tuas mãos', poema de Ana Duarte em Criatura]

.&.

Pronto, é desta, vou-me deitar.

Tenham, meus Caros, uma bela terça-feira.
 E que viva a vida cheia de cor!

segunda-feira, janeiro 30, 2012

Vitor Gaspar, o engraçadinho que nem orçamentos sabe fazer; Paulo Portas, o líder do outro partido da coligação que deve andar a bater com a cabeça na parede; Cavaco Silva que deve ser deixado em paz (noblesse oblige); António Costa que é bom que comece a perceber que tem que avançar; Merkel que tomara que vá à vida dela ou que seja forçada a mudar de ideias; e nós todos que temos que deixar de ser passivos e acríticos..

. 1.


Quando se faz um orçamento, estimam-se as verbas que se vão gastar e as que se vão receber, rúbrica a rúbrica, departamento a departamento (digamos assim, para simplificar). Está-se em Setembro ou em Outubro e, com os dados conhecidos, com as projecções internacionais de que se dispõe, 'adivinha-se' o que vai acontecer - e isto para cada mês do ano seguinte. Não se conhece nada de realidade nenhuma pois está-se apenas a prever, uns meses antes de o 'período' ter início.

Vem esta prelecção a propósito de quê?

Pois bem, vem a propósito da incompetência do Vítor Gaspar. E, se não é incompetência, é má fé, ou dele ou de alguém por ele.

Ainda o ano mal tinha começado e já eles andavam a dizer que se previa uma derrapagem e davam como justificação que o desvio tinha a ver com a incorporação do fundo de pensões que, obviamente, implica o pagamento das ditas aos bancários reformados. E adiantavam ainda mais: que a incorporação foi perto do final do ano e que, quando fizeram o orçamento, ainda não sabiam a verba exacta.

Tamanha ignorância, tamanha incompetência e tamanha cara de pau é coisa nunca vista.

Não sabiam a verba exacta (e deviam saber! Então como é que fizeram o acordo?!) mas podiam estimar. Não sabiam que eram 400 e não sei quantos milhões, punham lá ma verba aproximada, arredondavam para 500, qualquer coisa.

Ora o que se passou é que Vitor Gaspar se esqueceu. Esqueceu-se de 500 milhões.

E de que é que se esqueceu mais? Ou, como não é bruxo e não sabe as verbas exactas de coisa nenhuma, porque são coisas que ainda não aconteceram, não as colocou no orçamento? Valham-nos todos os santinhos, que nunca vi coisa assim!

O que me quer parecer é que o orçamento está mesmo todo ensarilhado, todo engatado.

De facto, a semana que passou ouviu-se outra. Ainda Janeiro não chegou ao fim e já andam a dizer que vai haver desvios em três ministérios, entre os quais o do Negócios Estrangeiros!

Não é possível. O que é que aconteceu nestes primeiros dias do ano para já saberem que não vão cumprir o orçamento?!

O que aconteceu, com certeza, foi que se enganaram outra vez e em vez de assumirem que o Gaspar não atina, já andam a sacudir a água para cima de três ministérios.

.2.


E agora pergunto eu: o que diz Paulo Portas a tudo isto? Não apenas a isto dos desvios mas em relação a tudo isto?

Que Passos Coelho diz uma coisa e o contrário sem perceber sequer que se está a contradizer já a gente sabe. Mas Paulo Portas, que é diferente, o que pensa disto tudo?

É líder do segundo partido da coligação, tem assento no Governo - e vê que o que está a ser feito é a antítese do que foi dito e prometido na campanha eleitoral e atenta contra tudo o que se pensava serem os princípios do CDS/PP. E percebe - tem que perceber porque tem cabeça - que o País está a seguir a trajectória suicidária da Grécia, vê que o Governo está de gatas perante a troika, perante a Merkel, vê que o País, seguindo esta política insana, jamais conseguirá sobreviver. Então porque pactua com isto? Ou melhor, como é que consegue pactuar com isto?

.3.

A situação do País é dramática. Grande parte dos analistas e investidores começa a dar de barato que Portugal vai encostar às boxes, vai reconhecer a insolvência, vai sair do euro. O País deveria crescer para gerar riqueza, para conseguir reduzir a dívida e, ao invés, está a regredir,  e os juros vão aumentando e a probabilidade de conseguir voltar ao mercado em breve é cada vez mais remota.


Talvez a Europa mude - estou em crer que sim, que em Abril começará a mudar -, talvez Christine Lagarde, entretanto, consiga pôr tino nos líderes europeus (e instruir os seus técnicos para mudarem também de estratégia, quando auxiliam os países uma vez que ela diz uma coisa e eles fazem o contrário), mas, até lá, Portugal deveria ser capaz de bater o pé, deveria ser capaz de mostrar que o que são precisas são medidas de estímulo ao crescimento e não reforço das políticas de austeridade.

.4.


Ora o grande problema é que estamos a ser governados por pessoas incompetentes, que nem contas sabem fazer, nem um orçamento em condições são capazes de fazer, que não têm noção do impacto negativo das decisões que tomam - e, para agravar, temos um Presidente da República enfraquecido, que, de cada vez que fala de improviso, desata aos tiros nos próprios pés.

Cavaco Silva é um homem a quem não se conhece grandeza. Tende a mostrar alguma mesquinhez, tende a falar para o ar e a seguir vir dizer 'eu avisei'. Não é o líder de que precisaríamos, não é o referencial em quem nos deveríamos rever.

Quem aqui me acompanha, sabe que não nutro simpatia especial pela figura. Não votei nele.

Mas, meus Caros, neste momento de aflição, quem não tem cão que cace com um gato. Cavaco não é flor que se cheire mas Passos Coelho, Vitor Gaspar, Relvas, Moedas, Cristas, Pastel de Nata e quejandos são bem piores. Por isso, acho que o melhor, numa altura destas, é relevar a 'cena' das pensões de Cavaco, perdoar tudo o resto, esquecer, pôr para trás das costas, e esperar que ele consiga reabilitar a imagem para os mínimos para estar pronto para nos valer, se for caso disso.

Este Governo é uma nódoa e pode muito bem acontecer que um dia destes, por excesso de disparates internos e por mudança da conjuntura internacional, se chegue à conclusão que o País não pode continuar a ser destruído e, nessa altura, será necessário que Cavaco se chegue à frente. Não vejo de que outra forma se pode sair deste buraco, antes que seja tarde demais, antes que andemos desgraçados pelas ruas.
.5.

Paulo Portas está numa posição ingrata mas não acredito que naquela cabeça fervilhante não estejam já a forjar-se planos de 'salvação' - dele, do partido dele e do país. Pena é que Paulo Portas não tenha equipa. Era o que eu dizia antes das eleições e é o que digo agora. Numa altura em que teve que indicar nomes, atirou com miúdos inexperientes e desconhecedores das matéras para os ministérios que lhe saíram na rifa. Uma complicação, uma equação de difícil resolução. Requer engenho - porque não é um caso perdido.



Quanto a António José Seguro tenho muita dificuldade em trazê-lo para a arena. Estivesse António Costa no lugar dele e outro galo cantaria. Agora o Tozé mal consegue dizer um quase inaudível piu-piu e, numa altura destas, não é com piu-pius que se vai a algum lado.



Mas António Costa é um homem inteligente, sabe certamente que um dia destes será chegada a hora de dar o passo em frente, aquele passo que o País espera dele.


.6.


Outra coisa. A Alemanha, como contrapartida para uma nova tranche de esmola e um novo pacote de austeridade, quer obrigar a Grécia a render-se, entregando o controlo da execução orçamental a um comissário europeu. A Grécia não aceita. Mas vamos ver como isto acaba.

Vamos ver quanto tempo demora a que vexame idêntico aconteça connosco - os indigentes da Europa e serem tutorados e geridos a partir dé fora. E a seguir a serem corridos a pontapé. Mendigos incómodos. Foi a isto que chegámos, é a isto que estamos a ser conduzidos por este Governo incompetente.


Talvez Sarkozy vá ao ar em Abril, talvez a estrela de Merkel comece a empalidecer, talvez tudo isto se reajeite de uma maneira diferente, talvez todos percebam que é melhor que povos inteiros não sejam maltratados e humilhados, talvez tudo isso.

Mas nós temos que estar preparados para fazermos frente aos desafios que temos pela frente. E o maior desafio é impedir que Portugal seja destruido.

Não quero envelhecer na pobreza, não quero que os meus filhos tenham que ir para um país estrangeiro para conseguirem sobreviver, não quero que os meus netos cresçam fora do meu País, longe de mim, e não quero isto para mim e não quero isto para todos os meus concidadãos, tal como não quero que os velhos do meu País morram sozinhos, como cães abandonados de que ninguém dá pela falta. Este não é o meu País.

E não me calarei enquanto não sentir que o País está no caminho do futuro e não a andar a alta velocidade para um passado de fome, desemprego e miséria.

.&.

E hoje já não tenho tempo para escolher um poema, uma bela fotografia, um emocionante apontamento de dança. Daqui por 4 ou 5 horas tenho que estar a pé, que amanhã rumo a norte e já devia estar a dormir.

Ah meus amigos, como tupo isto me preocupa e arrelia... Mas não deixem que esta minha conversa vos estrague o princípio da semana. Não, nada disso. Respirem fundo, olhem para a janela, sorriam... e tenham, meus Caros Leitores, uma boa segunda-feira!

domingo, janeiro 29, 2012

In heaven, com os pinheiros que me lembram as mulheres de Graça Morais, e em casa junto ao fogo cheiroso que me aquece a alma. E eis que aparece Leonard Cohen que me diz: Show me the place. E a seguir chega Manuel António Pina que começa a dizer: Procura a rosa.


De tarde, ao passar pelos caminhos, sons de quase gente, restolhares apressados, e eu, em silêncio, sub-reptícia, deslizo, espreito cautelosamente por baixo dos arbustos, o som de corridas apressadas repete-se, um coelho talvez, depois, mais à frente, sons mais violentos, as árvores agitam-se, bater de asas a desprenderem-se das ramagens, e eu avanço, ali sou a intrusa que se esforça por ser bem aceite, e então um grande pássaro desprende-se, rompe a barreira verde e sobe no céu e eu prossigo, o céu está azul, pode ser pouco literário um céu azul, mas é limpo, transparente, leve, e então vejo o muro branco, meridional, onde as sombras se desenham, recortado contra este céu que nada tem de dramático e que é simplesmente belo porque é imenso e azul e o calor deste Janeiro afável mostra-me que um esboço de rebento nasce já na ponta dos ramos das figueiras, ah que rápido corre o tempo, ainda há tão pouco as folhas tinham secado e voavam secas e ruidosas rente ao chão, e antes disso estavam verdejantes, cobrindo os figos tão carnais, e agora já estão, de novo, a renascer, os meses vão passando.


Um dia destes pequenas folhas começarão a desdobrar-se, o verde começará a enfeitar as figueiras e encher o ar deste cheiro doce que se desprende destas árvores que são como mulheres fartas, fortes.

O céu depois começa a ficar rosado e eu olho-o, lá onde a montanha é apenas uma sombra azulada no horizonte, a tarde está quase quente, o dia começa a tombar, e um sol vagaroso, encarnado, afoga-se à minha frente, e o céu agora está mais sereno ainda, quente, um fogo de brasas macias, um cheiro a fim de dia no campo.

Volto a casa, arrefece e, então, passo junto aos pinheiros que perfumam tão docemente o ar, ponho-me ali, sossegada, não há nada de mau no mundo, não há equívocos, não há zangas, não há palavras amargas, nada, apenas há a serenidade imensa da tranquilidade de uma tarde junto aos pinheiros.

Olho o tronco que vai engrossando, os meses passam, os anos passam, o corpo do meu pinheiro está mais belo, mais largo, a sua pele tem uma textura maravilhosa, rugas, peles, e eu amo este meu pinheiro cada vez mais adulto, mais humano.


De um pequeno ramo, quase seco, pende uma pinha enverdecida pelo tempo, uma patine macia, um fruto em tempos cheio de sementes, agora apenas um bela jóia, e eu fotografo o tronco rugoso pelo qual passo a mão, enternecida, agradecida. Sinto-me identificada com a natureza deste meu tão amado pinheiro, tão rude, tão simples, de cores tão belas, as cores da terra.

Lembro-em então das mulheres de Graça Morais, mulheres da terra, a mãe, a tia, a vizinha, mulheres puras, enrugadas e sem rancores, mulheres que sorriem como um pinheiro numa amena tarde de janeiro.


Entro, então, em casa, nesta casa que tem tanto de mim. As paredes são brancas, rugosas, e nelas se reflecte a luz, e há espelhos para que a luz seja ainda mais, multiplicada. E há peças que vêm de todo o lado, que misturo sem regras, sem preceitos, sem tino. Apenas afectos e luz. E cor.


Pratos de barro pintado, artesanais, de outras mãos nasceram, outras mãos os pintaram e eu, agora e desde há muito tempo, os tenho aqui, à minha guarda, cuidados como os filhos que outras mães deixaram ao meu cuidado. Esta é a minha casa, cheia de recantos, com muita luz, com sombras suaves que douram o ambiente, uma casa aberta, franca, despretensiosa.

E agora, que é noite, estou aqui a escrever-vos esta carta num outro recanto, sentada num sofá de uma cor quente, cheio de almofadas macias de cores também quentes, com tapetes que saíram das minhas mãos, com quadros que pintei por prazer, sem qualquer pretensão, leiga, mil vezes leiga, amadora, amante.


E agora, ao ver a fotografia da parede ali ao lado, parece-me que os quadros estão tortos, mas fui ver e parecem-me direitos, deve ser a máquina que os entorta ou então sou eu que gosto tanto de tudo que olho e não vejo que as tintas estão mal arrumadas, que as estantes estão descaídas, que os quadros não têm qualquer valor e que estão tortos. Não faz mal. Irrita-me a perfeição, parece-me coisa artificial, sem alma, coisa de montra, só para os outros verem. Por isso, gosto de me rodear de coisas assim, imperfeitas, mas que têm este tom quente dos afectos. Pouco mais importa nesta vida que os afectos.


E aqui, ao meu lado, crepita este fogo cheiroso, não sei é sobro, se azinho, quente, chamas que dançam, um bailado de afectos, as cores quentes que nos abraçam. Acabei de o fotografar, encantada, uma coreografia caprichosa, perfumada.

Estou, pois, em casa. Esta é uma casa que é também o meu corpo, o corpo que abriga a minha alma.

É, pois, daqui, desta minha amada casa, que vos envio, Caros Leitores, as minhas palavras como se fossem um abraço. A vida é breve, aproveitem bem cada fugidio momento. 

E agora, quase a ir-me, deixo-vos com Show me the place, Leonard Cohen, um velho amigo meu, senhor de voz quente, de palavras belas. De vez em quando vem cá ter comigo, sabe como gosto da sua companhia e eu não podia deixar de partilhá-la convosco.




Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser

que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças

como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.

Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.


['A um jovem poeta' de Manuel António Pina in 'Poesia, saudade da Prosa']

.&.

Descubram, também, meus amigos,  a passagem para o que não se vê - e tentem ser felizes. Um bom domingo!
  

sábado, janeiro 28, 2012

Coisas boas para os sentidos: poemas de o Quarto Azul de Rui Caeiro; fotografias de Mario Sorrenti; dança de Jirí Kilián; e Maria Teresa Horta falando sobre os livros da sua vida


Palavras que fossem
claras  róseas e macias
como a tua pele

para dizerem o sol
ou a sede que fazia
ou nesse lugar havia

by Mario Sorrenti

Há um tempo para estar só
há um tempo para estar nu
há um tempo que falta para ser
o bastante uma coisa e outra
há uma ponte em direcção ao tu

que é necessário atravessar e que
é necessário, coragem, minar
e há um ponto sem chão
nem ponte em que só é preciso
abrir os braços e voar


La Bela Figura
Les Grands Ballets Canadiens
Coreografia de Jiri Kylián


Um deus benovolente atribuiu-nos
uma morada

Disse: só pode ser ali
e por pouco tempo

Que a invasão das águas
o calor e as chamas

não tardam
E assim foi




Houve caminhos fora do quarto
traçados fora da cama, houve

Os principais, porém, foram percorridos
no teu corpo, laboriosamente





Um bom sábado! Divirtam-se! Descansem! Sejam felizes!

&

[PS: A quem, ainda assim, gosta de uma boa e saudável polémica ou a quem se interessa por economia, dívida pública e gosta de reflectir sobre a situação portuguesa, permito-me convidar a ver não apenas o primeiro comentário de hoje mas, também, a descer até ao post abaixo e ver a troca de comentários, agradecendo eu, muito sinceramente aos dois leitores que tão fundamentadamente apresentam as suas razões relativas a este tema]


sexta-feira, janeiro 27, 2012

O fim dos feriados mas não do orgulho de ser português; a política financeira e as dramáticas consequências; Portugal e o euro; Jorge Silva Carvalho ex-expião, ex-ongoing; os Monthy Python e as fotografias de Bettina Rheims


Ora deixa cá ver sobre o que é que eu vou escrever hoje…



 Ora bem...

1. Sobre o fim dos dois feriados escolhidos pelo nosso fantástico governo – o  1º de Dezembro, dia da Restauração da Independência, e o 5 de Outubro, dia da Implantação da República – tenho a dizer que não me espanta. 

Duvido que o Coelho Doce, o Sonso Gaspar, o Alvy del Nata e o Rasteiro Relvas saibam o significado desses dias. História, patriotismo, orgulho nacional, valores democráticos, e outras mariquices do género, cá para mim, é coisa que não lhes assiste


Cá para mim, quando se encontram para tratar do futuro do País, é tudo na base do ‘vão trabalhar malandros!’ e, a seguir, vão para a troika, mascarados de meninos marrõezinhos ou cãezinhos amestrados, e, no meio de dedinhos no ar e béu-béus à mistura, devem dizer ‘agora vamos acabar com estes dois feriados e quando já nem se lembrarem que são portugueses acabamos com o resto, e até com o descanso ao domingo, contem connosco. Béu-béu’.


2. Claro que nada disto resolve coisa nenhuma porque em casa desgovernada, tudo o que seja feito ad hoc, descontextualizadamente, sem nenhuma estratégia de desenvolvimento por trás, é o mesmo que nada. Portugal, no que se refere a feriados está em linha com os restantes países europeus e não é por reduzir 2 feriados que o país se vai tornar competitivo. Poupem-nos. 

O País está num desgoverno que assusta, o desemprego a disparar, e o Governo, em vez de atender ao problema sério que existe, entretém-se a brincar às guerrinhas parvas, desatando aos tiros na História. 

Hoje ia no carro à hora de almoço e ouvi uma notícia na TSF - o Governo tinha reconhecido o estado de emergência no sector da construção civil, tinha ido de encontro ao pedido das empresas. Respirei. Até que enfim vão fazer qualquer coisa, pensei. Mas logo a seguir veio o balde de água fria. A vontade que iam fazer era, afinal, deixar as empresas despedir trabalhadores para além dos limites estabelecidos por lei. Despejar trabalhadores borda fora, é isto que o Governo vai permitir. E o responsável pela associação do sector dizia que não há trabalho, que não vai haver trabalho e e que a situação é dramática. 

A este drama o Governo responde com palermices que são autênticas provocações a quem ama o seu País, a quem tem orgulho e respeito na sua História.


A cruz que as pessoas têm que carregar por estes caminhos desertos de esperança, não é coisa que preocupe o Governo.


3. Sobre a nova subida de juros (mais de 20% a 5 anos!!!!!), coisa que é de meter medo até ao mais destemido faquir, recomendo que façam o favor de descer até ao post seguinte para ler o comentário do meu leitor JHMP, a quem agradeço de novo, e que explica muito bem os termos e os contornos da situação financeira do País relativamente à crise da dívida pública e de que forma isso acaba por influenciar a economia. 


4. Sobre o artigo de Matthew Lynn que alerta para o risco de incumprimento português, o qual, por sua vez, pode precipitar o fim do euro, não vou aqui transcrever as suas previsões mas recomendo que o leiam - não que vos queira assustar mas porque é bom que se perceba a gravidade da situação. 

Felizmente, começa a ser consensual que é errada e muito perigosa a trajectória que está a ser seguida. Quanto mais o garrote é apertado, mais a recessão alastra e, como mais recessão significa menos riqueza, cada vez é menos provável que se consiga alguma vez pagar a dívida e, assim sendo, menos acreditam em nós, e logo, mais os juros aumentam, e mais aumenta a dívida e ... só não continuo para não parecer uma velha gagá a repetir mil vezes a mesma coisa. Mas é a isto que se chama círculo vicioso e os círculos viciosos, quando aceleram, tornam-se numa espiral recessiva e as espirais recessivas desgraçam um país. 


E também já aqui falei tanto disto que vocês já devem estar a suspirar... Mas enquanto isto não for interrompido, a desgraça a caminho da miséria não vai parar. 


5. De qualquer forma, apesar da desgraça em que estamos e que tende a agudizar-se, tenho a dizer-vos que acho que isto, não tarda, dá uma volta. Cá em Portugal, os disparates são tantos e tão básicos, a impreparação total, total, desta gente é de tal monta que, ao fim de poucos meses, já pouca gente os defende e, em breve, não sei como, não me perguntem, serão postos daqui para fora.

Entretanto, um pouco por todo o lado, desde os órgãos da UE, às cúpulas do FMI, toda a gente começa a reconhecer que esta política que está a ser seguida está a estrangular a Europa e a causar danos em cadeia e que, pelo contrário, o que há a fazer é estimular o crescimento, reanimar a economia, combater o desemprego. 

Além disso, estou confiante e já aqui o disse, que, com as eleições em França, um novo equilíbrio europeu está para nascer. Até a Merkel já anda, de rabinho (rabinho...?) entre as pernas, a dizer que defende a Europa e que se tem que estimular a economia (pudera, a crise dos outros dá-lhes cabo das exportações!).


6. Por isso, meus amigos - mesmo que agora andem sem esperança, preocupados com as vossas economias, com a vossa reforma, com o vosso futuro - vamos lá a arrebitar, vamos lá dar a volta por cima.



6. Mas, já agora, antes de me ir, deixem-me fofocar: e que tal a demissão do espião maçon Jorge Silva Carvalho da Ongoing? Diz que se demite só durante um bocadinho para se defender mas que, depois, regressa. Pelos vistos foi apanhado com fichas individuais de centenas de figuras públicas no telemóvel (fala-se em milhares... mas há assim tanta gente interessante neste país...?), o malandro...


Também não me vou alongar porque já falei várias vezes do cocktail perigoso: espião, maçon e dirigente de uma empresa de comunicação social...! Assustador.

Demitiu-se, queixando-se que a sua vida tem sido devassada. Tem graça. Uma coisa destas dita pelo chefe dos espiões... Tem graça. E que está a ser o cordeiro inocente de uma guerra entre a Impresa e a Ongoing, the poor one. Mas tantas são as coisas estranhas nesta história, que a gente já não acredita em nada. Vamos acompanhando de longe, mas bem de longe.


7. E é isto. Vou descansar um pouco que daqui a nada já tenho que estar a pé. 


Mas, para que não fiquem vocês agora com sono, aqui vos deixo este filme educativo, A book at bedtime. Vejam por favor.





Thanks God, it's friday!  Enjoy!



(Nota: Todas as fotografias são, é claro, de Bettina Rheims excepto a dos caezinhos amestrados que é minha)

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Jane Fonda e o Terceiro Acto; Criatividade ou boa gestão; Pep Guardiola é eleito o treinador mais sexy e bate José Mourinho: os estranhos homens do Benfica (exemplo: Jorge Jesus e João Malheiro); Passos Coelho fala e os juros disparam para valores aterradores; e Kirí Jilián, Helmut Newton e Luís Pedroso para isto acabar bem



Diz Jane Fonda (e aconselho francamente que a ouçam) que o mais condiciona a vida de uma pessoa não é tanto o que lhe acontece mas a forma como reage ao que lhe acontece. Eu não podia estar mais de acordo.

Há pessoas a quem surgem oportunidades fantásticas e que, por uma série de indecisões ou más decisões, acabam por passar ao lado do que poderia ser uma vida feliz e realizada.

Há outras a quem acontecem insignificantes contratempos e arrelias e que se deixam enredar de tal forma em equívocos, mal entendidos, reacções extemporâneas, que acabam submersas em coisas que poderiam e deveriam ser coisa de nada.

Em contrapartida há pessoas que seguem em frente, dispostas a não desgastar energias com o efémero que pulula no dia a dia, nem a comprometer o rumo do seu caminho a troco de coisa nenhuma.

Diz Jane Fonda, com a autoridade de quem está nos 74 com um aspecto fantástico e uma vida preenchida e realizada, que a vida é melhor, que a longevidade pode ser usufruída com muito maior qualidade se soubermos manter o propósito de sermos felizes. 

Digo eu que a vida faz mais sentido se não nos desviarmos dos nossos propósitos à primeira contrariedade. Tantos exemplos que conheço de pessoas que, por dá cá aquela palha, viram as costas ao destino. Depois, mais tarde, reconhecem que erraram, que exageraram na reacção mas já é tarde demais, o mundo já seguiu a sua trajectória.

...


Discute-se agora nos meios ligados à gestão se para um progresso (ou sucesso) sustentado, é preferível a inovação e a criatividade ou a boa gestão.

Depois de muitos anos a divulgar-se e a incentivar-se a criatividade como o motor de sucesso de tudo, eis que começam a levantar-se vozes em defesa da qualidade da gestão.

E são dados exemplos de ideias de grande criatividade que por lhes faltar as bases mínimas em termos de gestão acabam por soçobrar e, em contrapartida, ideias que apesar de nada terem de inovador, se tornam sucessos fantásticos.

Defende-se e demonstra-se que a criatividade será sempre uma coisa de nichos, uma coisa de pequenos grupos, não massificada; pelo contrário a qualidade da gestão pode advir de se pegar numa dessas ideias, inovadora ou não e implementá-la de forma sustentada, com bons processos internos, com uma boa ligação ao cliente.

Que cada um de nós, na nossa vida quotidiana, não se exaspere se não descobrir aquela fantástica ideia luminosa que acontece uma vez na vida de uns quantos iluminados - a vida pode ser boa na mesma se nos limitarmos a fazer aquilo de que gostamos, com a competência possível, com os meios ao nosso alcance.

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Prosseguindo na senda dos assuntos de interesse geral, faço agora questão de aqui dar conta de um inquérito levado a cabo junto das leitoras da revista Hola relativamente a qual o treinador que consideravam o mais sexy.


Pois venceu Pep Guardiola (3.360 votos), seguido de longe por José Mourinho (apenas 1.226).

Tenho alguma dificuldade em perceber pois, à vista desarmada, o nosso special one é bem mais giro, tem mais malandrice. 


Mas, talvez, no momento de votar, as leitoras tenham avaliado de outra forma. Defensores que são do que é deles, a primeira motivação das leitoras (espanholas na sua maioria) pode muito bem ter sido dessa ordem, ou seja, com algum chauvinismo à mistura elegeram um espanhol. 

Depois, talvez tenham pensado que o José Mourinho tem um bocado de mau feitio, tem talvez alguma malandrice a mais e, daí, talvez tenham preferido o Pep que tem ar de bom rapaz, malandreco mas um malandreco inocente.  Nestas coisas, nenhuma mulher quer um santinho mas um indivíduo um bocado arrogante e quezilento pode ser uma carga de trabalhos. Por isso, por via das dúvidas, devem ter votado no Pep.

Uma outra razão – mas, claro, tudo isto é mera especulação - pode ter a ver com o cabelo. Dizem que é dos carecas que elas gostam e isto tem uma razão de ser e, como sempre, radica no lado mais animal do ser humano em que, como qualquer animal, a fêmea procura o macho que mais garantias dá de ser um bom procriador. Ora deve ter ficado gravado no DNA da espécie que os carecas são melhores reprodutores. Isto deve-se a que a testosterona é uma das principais causas de calvície. Claro que há outras causas para a calvície e claro que o que não falta são homens que desmentem a teoria, cabeludos e viris, mas enfim, são coisas que vêm dos primórdios, nada a fazer.

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E por treinadores. Há pouco estava a ver, na TVI 24, a Constança Cunha e Sá e, nisto, passou para o noticiário e quem é que eu vejo? De repente quase me parecia a própria Constança com uma voz mole mas, depois, vi com atenção - e, imaginem, era o magnífico treinador do Benfica ou melhor, o treinador da magnífica cabeleira. 


Esta fotografia não lhe faz juz. Agora o cabelo está maior, mais escadeado, uma beleza. 


Estava tal e qualzinho o cabelo da Constança. Ia para o jantar de anos do Eusébio. Quanto ao que ele disse não dá para transcrever nem é relevante - estive o tempo todo estarrecida a olhar para a extraordinária cabeleira. Só visto, mesmo.

Mas, nessa reportagem vi outra coisa igualmente perturbante. 


João Malheiro, aquele cavalheiro que tem uma voz estranha, acho que era o relações públicas do Benfica (mas porque será que no Benfica os homens parece que são assim para o estranho...?), dizia que, para ele, o Eusébio era melhor que o Natal, e enfatizava 'Eu há bocado dizia: ó Maior (porque é assim que eu trato o Eusébio), ó Maior tu para mim és mais melhor que o Natal'. E eu fiquei à espera de uma explicação para metáfora tão profunda mas a explicação não veio e eu ainda aqui estou a pensar que aquele João Malheiro deve ter uma grande confusão naquela cabeça ou então sou eu que não entendo a metafísica da coisa.

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E por coisas delirantes: sobre a notícia que dá como certa que Portugal necessita de um segundo programa de resgate, Passos Coelho falou aos jornalistas. Que não, que não precisamos nem de mais dinheiro, nem de dilatação de prazo. Mas que, se por condições externas, acontecer alguma coisa, a Europa não vai deixar de nos valer.

Reacção dos mercados: juros batem record. A conversa titubeante de Passos foi entendida como o reconhecimento de que alguém vai ter que valer a Portugal. Os juros atingem valores assustadores e eu nem os vou escrever aqui para não ter pesadelos porque, saindo daqui, quero ir dormir descansada. Mas podem ver aqui.

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E agora, para isto não acabar excessivamente mal:

Yesterday is history,
tomorrow a mistery
but today is a gift.
That is why they call it
'the present'

Jirí Kylián (um dos meus coreógrafos preferidos)



Jiri Kílián, Petite Mort-Africa guzman, Joeri de Korte
NETHERLAND DANS THEATER


por Helmut Newton

Reuni uma companhia de actores,
um carnaval delirante.
Simulo que poderei escapar a essa negra
matemática.
A essa deposição de flores sinistras.


Sob mantos de musgo, nada resta.
Sob líquenes e séculos
uma rupestre lua,
um pêndulo cristalino.
Uma manhã submersa.



(Cronómetro I, de Luís Pedroso in Criatura)


E tenham, meus Caros, um bom dia!

quarta-feira, janeiro 25, 2012

Moralismos numa hora destas? E outro plano de resgate para Portugal? ... O ano está a começar bem, está... Valha-nos a poesia de Golgona Anghel e a fotografia de Jeanloup Sieff


Andei na catequese até aos 9 anos.

Fiz a primeira comunhão quando devia ter uns 6 anos, aperaltada com um vestidinho curto, rodado, de renda branca e devia ir toda enfeitada de florzinhas (ou, então, era a capela que estava toda enfeitada de florzinhas e cheirava a rosinhas e a velas derretidas e a soalho encerado e eu adorava aquele cheiro).


Depois continuei na catequese até à comunhão solene à qual compareci vestida de freira, uma veste singela de um tecido espesso branco sujo, um cordão à cintura, um véu do mesmo tecido cobrindo o cabelo comprido. Vejo-me numa fotografia tirada por um fotógrafo profissional a olhar para o alto, de lado, aparentemente compenetrada. Mas lembro-me dessa sessão, de como me senti parvinha, a trocar de roupa para a sessão, o fotógrafo a querer que eu me empertigasse, a ajeitar-me pelos ombros para ficar a três quartos, a rodar-me a cabeça, a levantar-me o queixo (e tinha a mão fria, ele), e a minha mãe a observar, a querer que eu ficasse bem.

Enfim, momentos incompreensíveis da nossa existência.

De facto, nunca percebi nada daquela cena. Porque é que para a primeira comunhão ia radiosa, rendinhas brancas, vestidinho curto e para a outra já fui naqueles preparos, armada em ascética freira?

Mas a questão nem é essa, a questão é que nunca me identifiquei com o que lá aprendia. Era pequena e tudo aquilo me parecia forçado, muito drama para ser ensinado a crianças pequenas, muita culpa, muita punição. Já uma vez aqui falei nisso. Todas as sextas feiras íamos à capela (ou seria só em alturas especiais?) e tínhamos que nos confessar. E eu lembro-me de ficar sentada no banco cá atrás a puxar pela cabeça e a ver o que é que, daquilo que eu tinha feito, poderia ser considerado pecado – e achava que tudo era uma coisa pouco natural, sem lógica nenhuma, e depois, como desde pequena que tendo para a criatividade, chateava-me ter que ser repetitiva e, se na semana anterior confessava que tinha feito alguma maldade, na seguinte já me sentia compelida a descobrir algum pecado de natureza diferente. Depois, se tinha aprendido os pecados capitais, sentia-me ridícula por ir maçar o padre com minudências insignificantes em vez de aparecer a confessar coisa que se visse. E, então, ali ficava a dar a vez aos outros, contrariadíssima, a ver se, entretanto, me ocorria alguma coisa de que me sentisse culpada. 

Felizmente sou uma criatura destemperada e esse sentimento de culpa não deixou marcas dentro de mim.

Se tenho dúvidas, sopeso, analiso e aconselho-me antes de agir; se a minha consciência aprova, faço; se a consciência não aprova, não faço – é simples. Se verifico que errei, corrijo, se for caso disso, peço desculpa ao eventual lesado. Não pauto a minha actuação por preceitos radicados na culpa ou na potencial culpa ou no receio do julgamento por parte de terceiros (mesmo que os terceiros sejam Jesus Cristo e a Igreja católica).

Mas encontro sentimentos de culpa a toda a hora nas pessoas mais atiladas, provavelmente naqueles a quem a catequese produziu efeito.

Penso que grande parte do que se está a passar a nível das medidas para ultrapassar a crise radica aí. É como que um package punitivo. 

Quem fez dívida para além da conta tem que amargar de todas as maneiras possíveis e imaginárias: mais impostos, coisas mais caras, menos segurança, ameaças, medos, ou isto ou o apocalipse, arder no fogo eterno, e tem que rezar cem pais nossos e duzentas ave marias, ou seja, pagar mais juros, muito mais juros, e mais comissões à troika, e mais os ordenados de três mil assessores do governo e mais trezentas chibatadas todos os dias (tantas quantas as vezes que somos fustigadas com as aparições da Merkel ou, por cá, do Relvas, do Passos, do Gaspar, do pequeno Álvaro). Um kit punitivo, portanto. 


E as pessoas, coitadas, acríticas, aceitam arrependidas, esperam que após tamanho sofrimento venha o perdão.

Pois eu acho tudo isso uma carnavalada sem sentido. Mas uma carnavalada perigosa - e aí a coisa deixa de ter graça.

Quem pecou não foram os que estão a ser agora tão duramente penalizados. Quem pecou foram os especuladores financeiros, os políticos fracos e incompetentes que ao longo de anos e anos a fio não souberam governar os países, quem pecou foram os gananciosos que usufruíram de lucros fáceis e especulativos, tantas vezes criminosos. Quem pecou foram muitos dos que agora erguem bandeiras a favor dos cortes nos ordenados, nos subsídios, a favor da austeridade, da necessidade de despedir e penalizar os trabalhadores. E se muitos de nós pecámos foi por sermos tão submissos, aceitando ser governados e manipulados por tão fraca gente.

No dia em que a imprensa estrangeira refere que Portugal pode ter que recorrer a novo programa de ajuda, numa altura em que os juros alcançados atingem valores incomportáveis, numa altura em que o serviço da dívida sorve recursos que deveriam ser canalizados para a economia, num dia em que o FMI censura a forma como o Governo está a conduzir este processo mascarando o défice com medidas extraordinárias e pontuais e não efectuando medidas de fundo, num dia em que várias vozes se levantam no sentido de não se insistir numa austeridade que estrangula de morte a economia, transcrevo de um artigo de antes de ontem no Expresso: 

"Christine Lagarde, num discurso no Conselho Alemão de Relações Externas em Berlim, criticou esta segunda-feira 'uma tendência preocupante em diversos meios - de verem a política orçamental como um jogo de moralismo entre liberalidade e responsabilidade'.

Como conclusão, a directora-geral do FMI repete o seu conselho: 'medidas credíveis que impliquem e ancorem poupanças no médio prazo ajudarão a criar espaço para acomodação de crescimento hoje (sublinhado de Lagarde) - permitindo um ritmo mais lento da consolidação'.

Lagarde, num discurso que abordou extensivamente a situação na zona euro, considerada o 'epicentro' dos problemas, bem como o 'resto do mundo', salientou que estava nas mãos dos políticos evitar 'um momento do tipo dos anos 1930'. 'O que temos todos de compreender é que este é um momento de definição. Não se trata de salvar este país ou região. Trata-se de salvar o mundo de uma espiral económica descendente', referiu. 'Podemos evitar um tal cenário. Digo-o por uma razão simples: sabemos o que tem de ser feito', sublinhou ainda. Terminou citando o poeta alemão Goethe: 'Não basta saber, tem de se aplicar. Não basta querer, tem de se fazer'.

Tomara que ainda se vá a tempo.

[Face à gravidade do que está em jogo, não me apetece tecer comentários sobre o que para aí vai à volta dos dislates e da falta de jeito de Cavaco Silva. Não foi ele igual a si próprio? Claro que foi. Sempre foi assim. E quanto ao afastamento do jornalista Pedro Rosa Mendes, ao que por aí corre, a mando do inefável Relvas? Qual o espanto? Não é Relvas igual a si próprio? Quem não votou neles, não se espanta. Quem votou, porque se espanta?]

Adiante, meus amigos.

por Jeanloup Sieff

                                           (...)

                                           Quantas madrugadas,
                                           quantos passos,
                                           quantas vidas,
                                           quantos medos serão ainda precisos
                                           para que estas ruínas acabem de se despedir?


                                          (excerto de poema de Golgona Anghel in Criatura)

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Uma boa quarta-feira, meus Caros! 

E nada de desanimar que isto um dia destes vira ou este não fosse o ano do dragão (e consta que, por cá, o dragão até tem três gargantas: deve ser dos bons!)



terça-feira, janeiro 24, 2012

Carolina de Mónaco tem 55 anos - breve história da bela princesa que não tem tido sorte com o amor


Carolina de Mónaco fez ontem 55 anos. A bela Carolina que acompanho desde a minha infância tem 55 anos.


Vejo a fotografia dela e apetece-me ir a correr, aflita, olhar-me ao espelho. Envelheceu e, o mais certo, eu com ela. Cresci a vê-la, elegante, bonita, urbana, em tudo o que era revista. Carolina, a princesinha de Mónaco é agora esta mulher que parece ter perdido o brilho.


Grace Kelly, a mãe, era linda e ela herdou a sua harmonia de feições, temperada pelo ar mediterrânico do pai. 


Eu era criança e gostava de a ver de bailarina ou muito arranjadinha com os manos e com os pais, ela pequena senhorinha, tantas vezes com um gentil bouquet nas mãos. 


O mano era louro, sossegado e bonitinho, a mana era engraçada, irreverente e andrógina e ela era feminina, sedutora, rapariguinha pronta a ser seguida pelos fotógrafos que a adoravam.

Depois, quando começou a viver mais à solta, estudante, caíu na esbórnia (como dizem os nossos irmãos brasileiros) e passou a frequentar a noite de Paris. 


Rapariguita desenvolta, arejada, com resmas de pretendentes, dinheiro com fartura, costureiros a quererem vesti-la, fotógrafos a fazerem-na sentir bela e desejada, eis que cai de amores por um homem perto dos 40, bon vivant, com fama de incorrigível mulherengo. 

Grace fica destroçada, queria um príncipe das melhores casas europeias para a sua menina linda e sai-lhe uma coisa totalmente diferente. Mas Carolina é persistente e, aos 22 anos, casa-se então com Philippe Junot que tem, então, 38. 


O vestido é Christian Dior e na assistência pode ver-se a fina flor de Hollywood ao tempo do áureo período de Grace.

No entanto, o sol é de pouca dura e, dois anos depois, o casamento chega ao fim. Philippe gosta da noite, das farras, das aventuras. 

Depois de um tempo de luto, eis que Carolina parte para a desforra e enceta um período fértil para as revistas do coração. Bela, livre, filósofa, bronzeada e bem vestida, ela é disputada e fotografada por onde quer que passe.

Romances, affaires, desmentidos, comprovados, testemunhados. Uma agitação, um frenesim, e Carolina sempre sorridente e bela, uma menina ainda.


Carolina na neve, Carolina a bordo, Carolina à noite, Carolina às compras, Carolina sozinha, Carolina acompanhada. Robertino, o filho do amor louco de Roberto Rossellini e Ingrid Bergman ou Guillermo Villas, o tenista profissional argentino, ocuparam o seu coração durante esse período de azáfama sentimental. Parece não conseguir acertar-se com ninguém, alguma coisa parece sempre correr mal mas os pretendentes são muitos e ela nem tem tempo de parar para pensar.


Relações e mais relações e ralações e mais ralações para a pobre Grace a quem a filha mais nova também não dá descanso. E é nessa altura, em 1982, que Grace, a bela, ao volante do seu automóvel e com a filha mais nova ao lado, sofre um acidente de viação, despenhando-se fatalmente. Dizem depois que teve um AVC enquanto conduzia. Stephanie fica internada durante algum tempo e sofre um choque emocional profundo.

Grace não chega portanto a ver o casamento de sonho de Carolina, profundamente apaixonada por um belo rapaz italiano, um rico herdeiro, um desportista simpático. Na altura toda a gente dizia que era apenas mais um, um meninão rico, mais uma brincadeirinha de Carolina. Com Rainier contrariado,  casam-se no final  de 1983, Carolina, sabe-se depois, já grávida. 


Stefano Casiraghi é quatro anos mais novo que a deslumbrante Carolina o que ainda mais realça a beleza do casal. O casamento é civil dado que, na altura, o Vaticano ainda não tinha concedido a anulação do primeiro casamento. Sorrisos, enamoramento e as crianças a aparecerem, de seguida. Um amor que frutifica, e o jovem casal resplandece com os braços repletos de crianças.


Andrea, Charlotte, Pierre. Crianças bonitas, Carolina feliz, Stefano louro e bronzeado do ar do mar. Mas Stefano não é apenas o menino família que gosta de barcos. Não, Stefano é um empresário de sucesso, e progressivamente toda a gente o aceita e respeita.


E estão apaixonados. Podemos vê-los em todas as revistas: abraçados, cúmplices, beijam-se, há um carinho que os une. Dá gosto ver um casal jovem e bonito assim. Uma história feliz com uma princesa moderna e elegante e um belo príncipe encantador. 

Até que um dia, ao participar numa prova para defender o título de campeão mundial  em corrida de barcos a motor, há uma explosão a bordo. Stefano escapa à morte. Carolina que o costuma acompanhar passa por sufocos e o marido promete retirar-se mal veja consagrado o título. As imagens mostram-na com a mão a proteger a vista do sol, Carolina de boné, Carolina com belos chapéus, alta e dedicada, Carolina na praia com Stefano, namorados, jovens amantes, amigos.


E, então, o imprevisto acontece. Umas semanas depois, em competição, novo acidente. As televisões mostram o barco virado, teme-se o pior. E é assim que aos 30 anos morre o segundo marido de Carolina. Depois de um divórcio, agora a viuvez. Carolina não tem sorte com o amor. Podemos vê-la, então, nas revistas: devastada, apoiada no pai, triste, triste.


Seguem-se anos de afastamento. Carolina passa anos de profunda tristeza, deprimida, decai, isola-se. As crianças crescem, os rapazes parecem-se imenso com o pai, Charlotte parece a mãe quando era pequena.

No baile da Rosa ou noutras cerimónias oficiais Carolina reaparece, magra e triste.

Mas todos os sofrimentos têm prazo de validade e alguns anos depois Carolina volta a reencontrar-se com a vida. As revistas começam a mostrar-nos Carolina com o príncipe Ernst de Hanover. O príncipe era casado com Chantal, amiga de Carolina, mas divorcia-se para se poder voltar a casar.

E é assim que em Janeiro de 1999 Carolina, grávida, se torna Sua Alteza Real Princesa de Hanover.


Em Junho nasce a sua filha Alexandra de Hanover, uma menina bonita mas cujas feições já evidenciam os traços mais fortes de Ernst.

No entanto, aquela felicidade radiosa que se via no semblante de Carolina quando era casada com Stefano, já pouco se volta a ver, agora que vive com o seu terceiro marido.


E os jornais começam a dar conta dos problemas de álcool por parte de Ernst, os fotógrafos apanham-no uma vez a urinar na rua, outras vezes fala-se de violência, e Carolina começa a parecer em público sozinha, diz-se que Ernst fica a dormir, a curtir a ressaca da bebedeira da véspera.

Parece que separaram em 2009 e as revistas já o mostraram, depois disso, com outra mulher.


Carolina, a bela e desejada, tem sido infeliz no amor e isso vê-se no seu rosto, no seu corpo. Está de novo sozinha, magra, encurvada, enrugada.

A beleza sensual parece ter passado toda para a jovem Charlotte, agora o alvo de todas as atenções, tal como em tempos passou de Grace para ela, Carolina.



Só lhe desejo, a ela que não me lê, que volte a ser feliz, que volte a sorrir. Gostava de voltar a vê-la bela e sorridente, alteza sereníssima, para não a ver assim, princesa triste, para a ver realizada e contente no meio dos filhos e com um novo amor na sua vida, um amor que, desta vez, dê certo - e que a bela Charlotte não herde a pouca sorte da mãe. Que ao menos, neste mundo decadente e em crise, as poucas princesas que restam consigam ser felizes.

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Hoje deu-me para isto, meus amigos. Nada do que é habitual, não é? Mas é assim, tem dias. Amanhã outro galo cantará. Tenham, meus Caros, um belo dia!