Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, fevereiro 28, 2011

The Horse Whisperer

Robert Redford, Kristin Scott Thomas, Sam Neill e Scarlett Johansson (ainda menina) no Encantador de Cavalos, um filme que não me importo de rever de vez em quando (ao contrário do que acontece com grande parte dos filmes). Talvez não seja extraordinário, não sei se é ou não, não sou expert, mas há um equilíbrio, uma graciosidade, uma largueza de espaços, uma beleza, um desprendimento na representação -  não sei explicar bem - que torna este filme, aos meus olhos, um filme harmonioso, que me tranquiliza, que apela por mim.

(Tal como acontece com outros tais como, por exemplo, As pontes de Madison County ou o Lady Chaterly de Pascale Ferran ou até mesmo o Dangerous Liaisons de Stephen Frears).




Estava aqui a pensar a propósito de quê me tinha lembrado hoje disto mas acho que já sei: deve ter sido por ter estado ao pé daqueles cavalinhos ternurentos (vidé post de ontem sobre a primavera ou o das Historinhas da Tá)

Edição 2000 do Expresso - breves sobre a forma e sobre o conteúdo

Estava expectante, depois de tanta publicidade. Edição 2000. De facto é um número importante, merecia bem ser festejado. Sobre as contratações e descontratações já me pronunciei aqui. Sobre a campanha também.

Os números falarão por si ('pelos frutos os conhecemos', não é?), o que interessa às empresas é, sobretudo, o volume de vendas. A opinião individual e subjectiva de pouco vale. Mas transmiti-la-ei, focando, brevemente, a forma e o conteúdo.

Sobre a revista especial sobre a edição 2000 gostaria de saber por que iluminada cabeça passou fazê-la com aquele formato. Por ser um marco, era uma coisa interessante de se guardar. Mas como? Onde se arruma uma coisa assim, daquele tamanho disparatado, e fininha? Não teria sido preferível fazê-la em tamanho standard, talvez com formato de livro, que se pudesse arrumar numa estante?

Depois, a primeira página. Uma profusão de coisas, muito ruído, palavras às cores, de vários tamanhos. A metade de cima, então, é uma confusão.

Edição 2.000 do Expresso: primeira página

Para a 1ª página foi puxado um tema que me incomoda e que, por uma questão de princípio, não leio: segredos roubados. Não leio, tal como não leio escutas. O que sei foi o que ouvi pelas televisões antes de fazer zapping: opiniões e informações que, uma vez divulgadas, se transformam em intriguices, coscuvilhices.

Não me interessa o que funcionários americanos dizem. Cada um terá as suas motivações e tirar as coisas do contexto é um perigo. Não me agrada.

Depois, várias páginas estavam escritas para serem lidas em 3D mas esqueceram-se de nos oferecer os óculos. Mal se lia. O que aconteceu? E logo na edição 2.000?!

Edição 2.000 do Expresso: página interior, desfocada e com aspecto desarrumado


E do caderno principal, agora que o não tenho aqui ao pé de mim, de pouco mais me lembro e mesmo o artigo de Miguel Sousa Tavares me pareceu requentado.

Mas retive que várias páginas estavam uma confusão desagradável, em que até o lettering mudava e, noutras, a organização era tal que até dava a ideia de que o espaçamento das margens era variável.


Do caderno de Economia, ressalvo que João Duque não saíu - o que parece confirmar que a onda levou essencialmente quem escrevia com o coração à esquerda.
Sobre o concurso de ideias que tem o Expresso como sponsor e, portanto, amplamente divulgado, reinventar Portugal, ideias novas, projectos interessantes, a ideia parece louvável - e presumo que tenham acautelado a questão da propriedade intelectual. Mas vamos ver no que dá.

A revista versou uma ideia interessante, qualquer coisa como Jacques Atalli há tempos escreveu: uma antevisão do futuro. Mas algo pobrezinha do ponto de vista gráfico. Não vamos reter porque o tom geral e o aspecto resultou vulgar, sem sal.

E agora a Actual.  Deprimente. Parece que, ao contrário do concurso patrocinado pelo próprio jornal, aqui não se quer nada com novas ideias, quem com a reinvenção de uma vida nova. Não, aqui parece que se combinaram todos para construir um cenário macabro.

Pedro Mexia deu ao seu espaço o estimulante nome de Fraco Consolo, vejam bem. Alimenta com desvelo o seu  próprio pessimismo.

Na sua primeira crónica, bem escrita, escreve sobre Karl Kraus, sem dúvida um sujeito interessante, mas consegue chegar ao fim deste que é o seu texto de estreia, referindo um aforismo que exprime o pouco que a vida vale a trabalheira que dá, participando-nos que essa seria a sua escolha para o próprio epitáfio. Nem dá para acreditar. Até irrita. Começar uma vida nova (afinal começou a escrever num jornal que é de referência em Portugal) a desmerecer a benção que a vida é e a pensar na própria morte... Isto faz algum sentido?! Seja do ponto de vista emocional, filosófico, seja do que for.

Depois, um longo artigo sobre 'Fotografia e o Mal' de Paulo Nazolino, um talentoso fotógrafo, isso não está em discussão, mas, sendo uma pessoa mortificada, as fotografias que constam da exposição e do artigo, são sombrias, e mostram moribundos, mortos e cadáveres mumificados. Mais tétrico era impossível. Estimulante também...

Como se não bastasse, outra das novas estrelas contratadas, Manuel S. Fonseca, começa a crónica dizendo ‘quem me dera que Michelle Pfeiffer estivesse morta’ e ao longo de todo o texto, fazendo a elegia dos actores mortos, fundamenta circunstaciadamente porque deseja que Michelle morra o mais depressa possível. Assustador. Claro que percebo a mórbida ideia dele (quer recordá-la sempre bela) mas, que diabo, que se feche ele numa casa sem televisão nem jornais. Aliás, perigoso como parece ser, melhor que nem saia à rua.

Podia falar de outros, como do jovem Henrique Raposo promovido também a super-estrela que relata também qualquer coisa como afastamento da realidade e suicídio - mas já não tenho paciência.

O que se passou?

Foi apenas uma coisinha má que lhes deu a todos? (Por acaso logo na edição 2.000)... mas vai passar-lhes? Ou vão ficar nisto?

É que eu não tenho paciência para bisbilhotices, desolações, auto-flagelações, cenas sinistras, macabras...

Nem tenho também muita paciência para incompetências como as relatadas acima (páginas inteiras desfocadas, etc).

A primavera que se aproxima, a vida que se renova

Não consigo entender o que leva as pessoas a desperdiçarem o bem mais precioso de todos, a vida. Não consigo entender o que leva alguém a fazer a apologia ou a ocupar o seu tempo à volta de conceitos ou práticas que têm por base o pessimismo, o desânimo, os fracos consolos. Isto, para mim, é enterrar-se em vida. Para mim a vida tem que ser festejada a cada momento, com alegria, com energia, com motivação.

Aqui, in heaven, como sempre que a primavera se auncia, a vida rebenta em toda a sua vitalidade e isto relembra-me, coisa de que nem necessito, que depois dos dias vêm dias.

Ramo de figueira, ainda despido mas já com uma espécie de unhas: em breve estará coberto de folhas

Apesar do aspecto fálico, trata-se de uma pequena pinha que desponta num pequeno pinheiro

O abrunheiro em flor, embeleza o meu céu
Junto a um caminho vi esta família feliz: a mãe égua acaricia o seu potro bebé enquanto o pai come tranquilo

Viva a vida.

domingo, fevereiro 27, 2011

Centros de Tapetes de Arraiolos de modelos clássicos e alguns conselhos práticos - (onde se compra a base, como lavar)

Tenho que voltar ao assunto pois recebo diariamente muitas visitas e muitas questões sobre Tapetes de Arraiolos. Para quem aqui veio ter directamente, informo que este é um de muitos posts que no blogue Um Jeito Manso já escrevi sobre o assunto; para ver os outros, aconselho que procure no separador aqui à esquerda.

Hoje respondo a três questões.

A primeira: onde se compram as bases para os tapetes de Arraiolos.

Eu compro-as nas lojas onde compro as lãs. Volto a dizer que nos centros das cidades ainda se encontram lojas que vendem lãs, para Arraiolos e não só. E vendem também as bases e as agulhas. E, na loja onde geralmente vou, a dona também faz franjas por encomenda.

A segunda questão: como se lavam os tapetes de Arraiolos. Claro que o mais simples é mandar lavar numa lavandaria - mas sai caro.

A maneira mais fácil de os lavar em casa requer um espaço plano ao ar livre, onde a água possa correr sem problemas. É o que eu faço. Ponho-os no chão e, com uma mangueira, começo por os molhar bem. Depois ponho detergente de lavar roupa e, com uma vassoura rija (uso uma de jardim, que tem pelo de arame fino), esfrego enquanto vou pondo água. No fim, com a mangueira tiro todo o detergente. E ali fica a secar ao sol. Convem ir mudando de posição porque o chão por baixo fica molhado. Fica sempre bem, muito direitinho.

Dentro de casa nunca os lavei mas sei que se podem lavar na banheira e deixá-los depois aí a secar, escorrendo, de pé.

E agora o terceiro assunto: como resposta a várias questões sobre centros de Tapetes de Arraiolos, digo-vos que é talvez o elemento decorativo mais importante, o 'focal point'. A questão põe-se essencialmente em modelos clássicos em que o centro tem uma cor que se destaca e uma conjugação de motivos que atrai o olhar. Para o ilustrar mostro o centro de duas carpetes que fiz seguindo um modelo atribuível ao século XVII.
Um centro de tapete de Arraiolos relativamente simples mas com uma cercadura que o enriquece

Centro de tapete de Arraiolos muito vistoso e complexo (uma dor de cabeça de fazer...)

Qualquer questão mais, podem colocar que eu, se souber, responder-vos-ei.

sexta-feira, fevereiro 25, 2011

A mulher que lê as cartas, os diários, ao pé das flores - alienada deste tempo lamacento

Kadafi suja de sangue o jasmim. O Irão provoca. Israel à beira de um ataque de nervos. A Nato em reuniões tensas. José Barroso, com aquele seu inglês enfatuado, armado em durão, faz avisos redondos.

Pedro Passos Coelho não para de dizer que não anda com Sócrates ao colo e, tantas vezes o diz, que nos faz pensar que é isso mesmo que quer. 

Paulo Portas, que quer porque quer ser já ministro, está cada vez mais histérico de tão impaciente que anda, a rapaziada do PC e do BE anda desnorteada e disfarça com o palavreado oco do costume. A título mais pessoal, eu assisto a um inacreditável tirar de tapete a alguém que o não merecia e constato, uma vez mais, que não há nada nesta vida que possamos dar por adquirido.

A campanha publicitária do Expresso continua, o Ricardo Costa agora anuncia a divulgação de telegramas da embaixada americana da wikileaks e isto revolve-me as entranhas. Não gosto de saber segredos. O mundo não pode ser assim devassado.

Nem me interessa saber a todo o minuto o que cada um anda a fazer, o twitter a mim incomoda-me. 

E o José Alberto Carvalho e a Judite de Sousa mudam-se para a TVI, com equipas quase inteiras (e Júlio Magalhães é impiedosamente apeado) - e o que é isso de amor à camisola quando o dinheiro fala mais alto? O que é isso de jornalismo de serviço público com os ordenados a levarem uma facada de 10%? Haja quem dê mais.

(E, se calhar, é compreensível)
 
E as televisões não transmitem uma única notícia boa (e há-as!) e eu não tenho paciência para isto.

Que mundo é este que temos vindo a construir?

Assim como assim, prefiro, por um bocado, alienar-me e, para tal, dedico-me às minhas desarrumações livrescas.

Os movimentos de translação entre livros das várias estantes, trouxeram para a 'rua' os que andavam aquietados, as novas estantes arredaram outros móveis que estavam instalados há anos, os bibelots saltaram dos móveis. Agora há uma secretária perdida no meio da sala, há molduras, velas, peças e pecinhas por todo o lado, livros à procura da sua nova casa e temos que andar com cuidado porque o chão está pejado de obstáculos.

Mas eu gosto, sinto-me bem no meio deste caos que me é familiar.

Tenho que pensar onde alojar os deslocados, como lidar com uma nova ordem que se vai desenhando. A literatura de língua espanhola ganhou direito a um território autónomo. Idem com a asiática. E agora ando com o género epistolar (gosto muito, já vos contei?) e fico encantada com os que repesco do meio dos outros, já nem me lembrava de muitos.


Da Colares Editora, reencontraram-se como amigos e que bonitos que são: 'Cartas íntimas a Vita Sackeville-West' de Virginia Woolf, 'Bilhetinhos com Poemas' de Emily Dickinson, 'Apaixonadamente' de Rainer Maria Rilke, 'Querida Lou' idem; e da Edições Ática, 'Cartas' de Sebastião da Gama... e são tantos que merecem também um território.

A mesma coisa para os Diários. E para as entrevistas.

A fotografia que tirei há bocado mostra alguns destes e o novo do Milan Kundera, 'um encontro' de que estou a gostar imenso, o novo de Nuno Júdice, que tem uma capa líndissima, 'O complexo de Sagitário', e o de Yvette K. Centeno, 'Do longe e do Perto', quase-diário, cuja capa, que transmite uma grande serenidade, reproduz quadro de Edward Hopper. Não se vê solidão nesta pintura, apenas uma quietude boa, uma mulher que lê na sua casa, uma jarra de flores perto da janela.

E, a propósito de uma mulher que lê ao pé das suas flores, mostro-vos um fragmento do meu espaço.

Coisas de casa : a mulher que lê

Mas, enfim, do mal o menos: já é sexta-feira!

Muammar Kadhafi, o ditador louco que ajudava os amigos do ocidente

Ah que cinismo o nosso, ah que hipocrisia.

Olhemo-nos ao espelho antes de cuspirmos na imagem que nos surge nas televisões, a imagem do louco inflamado que ameaça de morte, que manda de matar (como sempre o fez), que nos aparece no figura ridiculamente carnavalesca - olhemo-nos ao espelho e, envergonhados, falemos baixinho contra nós.

Este homem circulou por toda a Europa, foi recebido como um chefe de Estado moderado, abancou numa tenda em Lisboa, todos foram lá ao beija-mão - durante todos estes anos onde estava esta nossa indignação? Achavamos vagamente despropositado mas já nos tínhamos habituado.

Sabíamos (sabíamos!) que este homem é um assassino - mas como pagou indemnizações pelas vítimas, como se confessou arrependido, nós fechámos os olhos e recebemo-lo como se ele fosse um imperador especial.

Com o nosso provinciano sentido de superioriade europeia, sorríamos condescendentes. Falava-se que o homem é um boçal inconveniente, que as maneiras dele são abaixo do mínimo socialmente aceite, mas sorríamos superiores porque temos maneiras e porque ele tem petrodólares, porque nos achamos bcbg e porque a Líbia tem liquidez, tem reservas de petróleo. E porque nós estamos com uma mão à frente, outra atrás, e porque que remédio senão estender a mão a quem nos puder dar uma ajudinha.

Todos nós pusemos num prato da balança o pragmatismo e no outro os princípios morais - e todos nós, deixemo-nos de puritanismos hipócritas, achámos que, paciência, fazer o quê?, venha de lá a esmola.

Agora que a grande onda de revolta da juventude esclarecida e escolada saíu à rua em toda esta parte do mundo, olhamos agoniados e, outra vez com superioridade, escarnecemos dos ditadores, dos malvados.

Muammar al-Gaddafi

A Líbia a ferro e fogo, milhares de mortos, multidões em fuga - e a Europa sem saber o que fazer com esta inesperada onda suja que invade de lama as suas salas. O petróleo em alta faz balançar as economias exangues, os imigrantes assustam as populações.

E nós, pobres tontos, cínicos, ignorantes, não sabemos como lidar com tudo isto que está a acontecer. Acho que, nestes momentos de fractura, deveríamos ser humildes, reconhecer os nossos erros, tentar perceber de que matéria somos feitos, deveríamos tentar perceber em que momento histórico estamos a viver. Talvez, então, depois, pudessemos opinar de cabeça erguida.

quarta-feira, fevereiro 23, 2011

Pedro Tamen é o vencedor do Grande Prémio Literário Casino da Póvoa/Correntes d'Escritas

Poderia ter escolhido um poema do 'Livro do Sapateiro' que lhe deu o prémio, mas apeteceu-me antes este. Apetece-me o sol a nascer, a esperança dos dias que nascem, apetece-me um poema com uma mulher dentro do céu, cujas palavras fazem nascer o sol.

Disseste: o sol nasceu.
Foi verdadeiramente então que o sol nasceu
e que nos habituámos todos a dizer
que o sol nasceu.
Às vezes pensamos que acontece várias vezes
mas é uma ilusão de óptica que não nos deixa ver
o grande círculo azul em cujo centro
tu dizes eternamente: o sol nasceu.

(de Pedro Tamen in Memória Indescritível)

E, daqui, com toda a admiração e apreço que a sua poesia me merece, lhe envio os meus parabéns, oferecendo-lhe como modesto presente uma fotografia tirada de manhã, ao Tejo e ao sol que tinha acabado de nascer.


Embora a qualidade do som não seja a melhor, convido-vos a ouvir o próprio Pedro Tamen a dizer poesia no Centro Cultural de Belém em Março de 2009, festejando a Poesia.


Parabéns e que viva a Poesia.

terça-feira, fevereiro 22, 2011

É assim Paula Rego - entrevista à pintora doutora que agora já pode dar picas

Adoro a Paula Rego. Adoro a sua pintura, os seus desenhos, a sua fantástica e perversa imaginação, as suas personagens de feições marcantes, corpos verdadeiros, a encenação que faz das suas histórias, a sua desconcertante frontalidade, a sua irreverência, o seu gosto pela provocação pura, o seu sentido de humor.

Uma vez, no Palácio Fronteira, pedi-lhe que me autografasse um livro que ilustrou sobre história de Antonio Tabucchi. Quando lhe disse o meu nome, levantou os olhos do livro e olhou-me fixamente, com aquele seu sorriso, 'Que nome tão bonito.... E que bem que lhe fica...' e olhava-me, sorrindo.

As suas entrevistas são imperdíveis, fantásticas. Coloco aqui uma que hoje descobri, dada à TVI, na sua Casa das Histórias em Cascais a propósito do seu recente doutoramento Honoris Causa pela Universidade de Lisboa (e que a levou a dizer, 'Agora já posso dar picas...').

Está abaixo deste quadro no qual se vê a madastra (mazona, como a Paula Rego diria) a vestir as cuecas à Branca de Neve - vá lá perceber-se a lógica...

Branca de Neve - Pintura de Paula Rego

A renovação da gama de produtos nas empresas - e quando os produtos são os jornalistas, os cronistas [a propósito da próxima edição 2000 do Expresso]

Nas empresas, às vezes, acontecem epifenómenos comunicacionais (chamemos-lhes assim). Pretende-se chegar de forma efectiva ao público alvo.

A razão para isso é simples e assenta no seguinte: o mercado é um substrato dinâmico onde permanentemente entram novos players que, darwinisticamente, lutam pela sobrevivência. Ora, para se sobreviver neste – como em qualquer outro – campo de batalha, é preciso ir adaptando as armas de defesa e de ataque. Ou seja, qualquer organismo, para se manter vivo, tem que se adaptar, renovar-se, reinventar-se.

E, pelo caminho, caem os mais fracos, os que já não despertam curiosidade, os que já não transportam consigo o viço da novidade.

É a ordem natural das coisas.

Nas empresas, é frequente assistir-se a uma mudança na gama de produtos vendidos, abandonando os que estão em declínio e introduzindo produtos novos; ou apenas mudando ligeiramente a composição de alguns produtos; ou apenas a embalagem; ou apenas o nome dos produtos. No mercado tudo é possível e o marketing é uma arma tão válida como qualquer outra. Há que tornar o produto apetecível, há que garantir ou conquistar mercado, há que assegurar receitas, há que criar valor para o accionista e inspirar confiança junto dos stakeholders. Lucro - that's the name of the game. Nada de mal nisto, é assim que as empresas sobrevivem e é assim que é criado e mantido o emprego.

Geralmente associado a estes processos de ‘mudança’ (e uma mudança pode ser algo profundo ou, pelo contrário, apenas um ajustamento por alturas de nova equipa de gestão) há campanhas publicitárias, por norma bastante dispendiosas.

Quando há campanhas desta natureza, existem reuniões sempre engraçadas com os accounts, com os criativos, enfim, com uma ‘fauna’ (sem sentido pejorativo) muito peculiar e diferente da que habitualmente frequenta as sedes das empresas. Quando chegam (muitas vezes atrasados), vêm com maquetes, fazem apresentações convincentemente conduzidas, demonstram com uma linguagem fresca (e clean, como gostam de dizer) a visão conceptual da coisa, falam de rebranding, e os gestores vibram com isto. Fecha-se os olhos à enormidade do investimento porque o assunto é vendido como alavanca para um aumento de receitas, para uma consolidação em alta da quota de mercado.

Muitas vezes, a decisão é precedida de um estudo de mercado em que se mostra que se encontra definida uma tendência que é preciso sustentar ou desenvolver ou inverter. Admite-se, pois, que a campanha apresentada é a única forma de assegurar o futuro.

Uma vez aprovada a campanha, é então accionado o cronograma com datas definidas para ocasiões marcantes e, então, vamos assistindo, nessas milestones, a que num dia sai uma breve nas notícias, depois acontece uma entrevista, depois uma nota ‘ocasional’ aqui e ali, depois, quando a apetência está criada, começam a sair os anúncios na imprensa e na televisão, depois aparecem os outdooors e assim sucessivamente, até que no dia que se estipulou como determinante (a data aniversária ou a data de mudança de logo ou o que for), há uma festa em que se consubstancia a mudança e em que passam a vigorar as alterações que se convencionaram.

Isto é o que acontece nas empresas.

Isto é o que está a acontecer no Expresso. Equipa nova, virada para o mercado, campanha publicitária marcante, figuras de proa a darem a cara, opinion makers para os vários targets: Mário Soares, Mariza, Ricardo Araújo Pereira, Horta Osório (os seniores cultos e politizados, a classe média-alta, os empresários e gestores, os adultos jovens razoavelmente instalados, as mulheres independentes, o meio artístico de qualidade).

O costume.

Mário Soares, um influente opinion maker

António Horta Osório, um profissional da self-image, aqui como duplo modelo fotográfico, curiosamente contratado em simultâneo como opinion maker ao serviço de duas campanhas, a do Expresso e a da Universidade Católica, agora rebranded Catolica Lisbon

O jornal Expresso vai, pois, aparecer renovado a partir da edição 2000 do próximo dia 26.

Qual o produto que aqui se vende? Palavras, imagens. Opiniões, notícias, tendências.

Mas as palavras ou as imagens não existem por geração espontânea: por trás estão as pessoas que as produzem e que, em todo este processo de renovação, perdem alguma relevância pois são, na empresa, de facto, um mero produto, uma gama que é preciso renovar.

Os timings são estudados ao milímetro com os accounts que dirigem as campanhas. É natural que, do processo, faça parte a etapa do dismissing: ou seja, os gestores são aconselhados, pelos profissionais da imagem e da comunicação, sobre a melhor forma de se descartarem dos produtos que vão sair da gama. Imagino-os a falarem de qual a melhor altura para que se minimize algum dano colateral. Estas coisas não costumam ser deixadas ao acaso.

No entanto, quantas vezes os advisers não passam de miúdos que dissertam catedraticamente, sem qualquer experiência de vida, apenas papagueando o que se ouvem dizer uns aos outros?

Cabe aos gestores saberem discernir e pensar pela sua própria cabeça e, para isso, é essencial que a tenham, isto é, que tenham boa cabeça. E que tenham também uma boa experiência de vida, que percebam que o sucesso é efémero para os que colocam a eficiência acima do intrínseco respeito pela dignidade dos outros que é, em qualquer circunstância, um valor absoluto.

Nestes processos, o que há a fazer é simples: os que entram são contratados, os que saem são dispensados.

O critério para as escolhas e a forma de o fazer é que marcam a diferença

(Registe-se que, na despedida, os agradecimentos dos que saem tenham ido para Henrique Monteiro, Fernando Madrinha, Nicolau Santos; sobre a nova direcção, de Ricardo Costa, um gélido silêncio; registe-se também que a nova direcção não escreveu uma palavra - que eu tenha visto - sobre os que saíam).

Como leitora do Expresso e sabendo que o Expresso é uma empresa que está no mercado e, embora sabendo que os jornalistas, fotógrafos, cronistas são produtos, gostaria, no entanto, de saber que as saídas foram feitas tendo em consideração o respeito e agradecimento devidos aos que agora saíram. Desejo ainda que os newcomers saibam valorizar o Expresso, de forma a que as mais valias daqui resultantes paguem os investimentos realizados e capitalizem o goodwill da marca. Se nós, clientes, gostarmos, compraremos e, se comprarmos, garantiremos receitas à empresa.

Recomendo ainda que tenham sempre presente que os newcomers de hoje podem vir a ser os dismissed de amanhã.

É a ordem natural das coisas.


Nota: Este post vem no seguimento do que escrevi ontem relativo à saída de José Manuel dos Santos - que a mim deixa muitas saudades - Inês Pedrosa, Ruben de Carvalho, João Duque, António Almeida. Estranhei que o Miguel Sousa Tavares não tenha aparecido nesta edição mas pode ser apenas coincidência. Os que entram, ao que parece, para além de Pedro Mexia, são Sérgio Godinho, Mário Crespo, Maria Filomena Mónica, Nuno Markl e Manuel S. Fonseca. Boa sorte a todos, aos que saem, aos que entram. E aos que ficam.

segunda-feira, fevereiro 21, 2011

Ana Gomes e Júlia Pinheiro, separadas à nascença....?!

Iguais em tudo, no físico, no histrionismo, no riso, em tudo.

Ana Gomes, a gémea univitelina de Júlia Pinheiro, aqui em pose bem comportada


Júlia Pinheiro, a gémea univitelina de Ana Gomes, aqui também bem comportada para ficar parecida com a mana deputada


Estridentes, big mouth, partindo as porcelanas por onde passam, duas irreverentes gémeas verdadeiras.

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José Manuel dos Santos, Inês Pedrosa, Ruben de Carvalho saem do Expresso

É sempre com pena que as pessoas se despedem. Neste caso, pelo que percebi, o processo pode ter sido triste para os próprios. São os tempos, dir-se-á.

Se calhar é mesmo assim: as receitas não devem dar para acomodar todos e, para que entrem novos, alguns têm que sair.

Já aqui manifestei o meu agrado por Pedro Mexia ir para  Expresso. Escreve bem, é inteligente, prepara-se, parece ser intelectualmente honesto. Com ele vão entrar outros. Espero que tenham qualidade, que tenham inspiração, que nos tragam ideias novas mesmo que sobre temas velhos, e que, com as suas palavras, nos iluminem.

Na altura, não me ocorreu que as novas entradas implicassem saídas, muito menos saídas sofridas para os que saem. Espero que o Ricardo Costa saiba honrar o espírito do Expresso, que não lhe suba à cabeça a vaidade dos novos-vencedores que tantas vezes transforma os homens em seres insensíveis,  com a ilusão de que a eficiência é o motor da vida. Não é. Contudo, do que li, apenas posso depreender que a guia de marcha foi comunicada a poucos dias do fim. Isso é mau. Ninguém gosta de se sentir descartável. Mais não sei.

Expresso de dia 19: despedida de cronistas
Não era leitora atenta das crónicas de Ruben de Carvalho e o estilo feminista-alegrista de Inês Pedrosa não me merecia geralmente mais do que uma leitura diagonal para perceber o tema do texto; apenas de vez em quando me merecia uma leitura mais demorada.

Mas lia sempre, com cuidado, com gosto, com vagar, os textos de José Manuel dos Santos. Há nas suas palavras um saber, uma compaixão, um gosto pelos outros, e uma tolerância e amabilidade, um uso das palavras que transmite graciosidade, que deixa transparecer a espessura que se adquire com o viver dos anos, com o conhecimento do mundo. Tenho muita pena que tenha saído do Expresso.

As suas palavras vão fazer-me falta.

A sua despedida entristeceu-me um bocado o fim de semana.

O que vale é que nunca tenho pena para grandes tristezas, especialmente ocupada que ando nesta labuta dos livros. Foi necesssário adquirir nova estante (outra vez: abençoado IKEA) e as coisas começam a ganhar uma lógica que me agrada.

Aparentemente a confusão continua - o movimento de translação e a reestruturação on the fly deixa o chão da casa pejado de livros - mas agora a coisa está no bom caminho.

Livros a caminho de serem arrumados
Mais uns dois ou três dias e talvez esta empreitada esteja terminada e eu possa voltar a dedicar mais atenção aos meus blogues.


PS: Para quem procura o blogue porque se interessa por tapetes de Arraiolos, especialmente por modelos clássicos, chamo a atenção para a minha carpete réplica do modelo Albert and Victoria Museum em Londres, atribuível ao Século XVII (já falei dela há tempos atrás).

sexta-feira, fevereiro 18, 2011

Bibliotecas, estantes, IKEA, flores, Max Ernst (e nada do que se ouve nos media)

As notícias que inundam os media são altamente depressivas: são os juros da dívida soberana que não descem e que nos irão devorar, são as pessoas que todos os dias aparecem mortas em casa, ora no chão, ora na cama, ora sentadas à mesa (coisa que sempre deve ter acontecido - só que os media não davam por isso; agora pairam sobre os cadáveres em decomposição como moscas), são as espertalhices e as mesquinhices da pequena política partidária, com as tontices imaturas e incompetentes das eventuais moções de censura: não há nada que se aproveite. Até o tempo tem andado uma lástima. Para nos distrair, vai agora o PS desafiar Cavaco Silva com o importantíssimo tema da mudança de nome dos transexuais, apresentando a mesma versão que já foi vetada, forçando Cavaco a ajoelhar. Mas fazer Cavaco ajoelhar por causa dos trangéneros...? Até me faz lembrar aquela do Cesariny com o mestre joalheiro (...não posso contar aqui, que este é um blogue de família). 

Lá por fora, a ordem mundial sofre um reajustamento histórico. Como placas tectónicas que provocam sismos para se reajeitarem, assim os países do Norte de África e Médio Oriente se revoltam para que se instalem novos regimes políticos. Sucedem-se as réplicas ao longo de todo o mundo árabe. Vai demorar até que esta parte do mundo se aquiete e que todo o mundo se torne num outro.

Mas não tenho vontade ou paciência para escrever sobre o que quer que seja relacionado com isso.

Agora estou preocupada é como é que vou fazer a reorganização da biblioteca para conseguir acomodar os livros que têm andado a vaguear por aqui à rédea solta. Há duas novas estantes (maravilhoso IKEA) e há que imprimir um movimento de translação entre os livros que estavam noutros redis, para manter alguma lógica, aproveitando para introduzir algumas alterações.


Mas não é fácil, a casa virou um caos. Há livros por todo o lado, desirmanados, desarrumados.

A boa notícia é que, finalmente, uma alma caridosa teve disposição para actualizar a base de dados (e eu sinto-me eternamente agradecida porque vou poder saber por género, por autor, por editora, por título, o que há em casa e, numa fase mais organizada, qual a estante de que divisão onde se encontram).


Literatura portuguesa, brasileira, palop, espanhola, outra, policial.

Crónicas, diários, biografias, correspondência, entrevistas.

Divulgação científica, matemática e física.

Filosofia, psicologia, neurociência.

Poesia, prosa sobre poesia.

História, geografia.

Fotografia.

Pintura.

etc.

E, portanto, rodeada de livros - que são uma companhia, um prazer, uma fonte de saber - e pensando nas minhas florzinhas que começam a despontar, anunciando a primavera, aqui estou. 

Não sei como se chama esta flor mas é linda, linda, de um lilás suave, perfeito.

Além disso, thanks God, it´s friday. Por dois dias não vou estar metida no trânsito, nos stresses, em reuniões ou a ouvir falar em problemas, enfiada em edifícios de vidro energeticamente eficientes, sem janelas que se possam abrir.

Haverá melhor companhia do que a Monja Portuguesa (de Max Ernst) e o perfume de um pinheiro?


quinta-feira, fevereiro 17, 2011

Curveball, Bush e McEwan - mentira e expiação


Rafid Ahmed Alwan al-Janabi, o Curveball
O The Guardian divulgou que Curveball, nome de código do informador iraquiano Rafid Ahmed Alwan al-Janabi, engenheiro químico, “admitiu ter transmitido histórias totalmente falsas sobre fábricas de armas químicas e biológicas clandestinas aos seus contactos ocidentais, no caso aos agentes do serviço secreto alemão BND — que posteriormente partilharam essas informações com os seus congéneres americanos.”

Segundo conta, não gostava do regime totalitário de Saddam e resolveu inventar aquelas mentiras. Revela ainda que durante algum tempo a sua credibilidade esteve posta em causa mas que, a partir de certa altura, as ‘dúvidas’ desapareceram e as suas ‘informações’ voltaram a ter procura revelando, segundo diz, que um ‘caso’ estava a ser forjado para justificar um a guerra.

Ou seja, a sua mentira foi, segundo ele, uma mentira útil.

Agora que é já possível fazer grande parte do balanço da guerra do Iraque, “Janabi, que agora vive exilado na Alemanha, diz que não se arrepende do que fez. “Fico muito triste por todas as mortes no Iraque. Mas pergunto: havia outra solução? Acreditem, não havia outra maneira de levar a liberdade ao Iraque”.

[Esta notícia encontra-se mais detalhada aqui aqui]

Isto, se não fosse trágico, seria apenas dramático. Claro que sabemos que havia todo um élan pró guerra que apenas precisava de um pretexto para a desencadear. Mas o certo é que o pretexto foi uma mentira. Claro que a própria mentira era pouco fiável pois a fonte já estava catalogada como pouco fiável. Mas quando se persegue vivamente um fito, qualquer prurido é posto de parte.

Mas abstraiamo-nos agora das motivações políticas, sociais e económicas (e até pessoais, pois é sabido que o filho Bush queria impressionar o pai, acabando o que o pai tinha começado) que provavelmente levariam, de qualquer maneira, à invasão e à guerra.

Pensemos, agora, apenas no pretexto. Um homem diz uma mentira. A seguir, alguém, talvez querendo mostrar serviço, papagueia a mentira (deveria ter ido, antes, comprovar a veracidade da informação – mas a ambição humana e a falta de escrúpulos não têm limites), a seguir alguém pega na mentira e sobe-a de nível.

Um jogo de estafetas. A mentira correndo de mão em mão. As coisas começam a tomar contornos políticos dentro dos EUA e fora de portas. Provavelmente nos bastidores haverá quem sussurre que andam todos a reboque de um bluff mas, nessa altura, já todos se sentem de 'rabo preso' (se o sabiam porque não o denunciaram?) e calam-se também. A diplomacia de guerra, com o incompetente Bush à frente, sai de fronteiras e começam a forjar-se alianças. Espanha, Inglaterra, Portugal chegam-se à frente, fazem um pacto e a guerra começa a ser incontornável. Blair secunda Bush e afirma que viu as provas da existência das armas químicas biológicas móveis. Todos viram. Todos, perante as câmaras, perante os parlamentos, todos afirmam que viram as provas. Como não? Vão declarar-se totós? Vão dizer que foram infantilmente enganados?
Açores: José Barroso, Tony Blair, George Bush, Aznar, a alegria depois do pacto. Riem de quê?

E a invasão e a guerra aconteceram com o cortejo de mortes que se sabe.

Mais tarde, quando o sangue já começou a correr, vão afirmar que se enganaram? Não. Enquanto podem, todos mantêm a mentira.

Até que não foi mais possível. O reconhecimento foi incontornável: afinal nunca se encontraram essas armas, afinal a CIA, as forças armadas, toda a classe política, todos foram enganados.

Curveball, como agora podemos ler, não se arrependeu. Collin Powel parece que sim, e é agora um orador pago a peso de ouro, ensinando liderança a gestores, tendo virado apoiante de Obama. Donal Rumsfeld, acusado de ter autorizado as torturas a presos no Iraque, duvido que se tenha arrependido.

Mas e os 4 dos Azores?

O inapto Bush passou, entretanto, à história, Aznar também, Blair também anda por aí vendendo-se caro como palestrante, Durão Barroso foi promovido e de maneira e, se lhe falarem no Iraque, qual virgem ofendida, assobiará para o lado.


À noite, antes de adormecerem, pensarão nisto? Pesar-lhes-ão as mortes desta guerra? Ter-se-ão genuinamente arrependido? Ou dirão simplesmente que foram enganados e, tal como Janabi Curveball que, do mal o menos: pelo menos Saddam já era e o Iraque talvez venha a ser uma espécie de democracia?

. [] .

Não é inédito isto: um pequeno facto individual estar na base de uma mudança de rumo da história.

Geralmente isso reporta a um âmbito mais estrito, da esfera pessoal. Mas acontece também nas empresas em que pode arquitectar-se toda uma estratégia de negócio sobre uma mentira que alguém um dia se lembrou de inventar; na política então, quantos casos assim acontecem? Basta lembrarmo-nos de Paulo Portas, Marcelo Rebelo de Sousa e a vichyssoise virtual.

Lembrei-me a este propósito do filme Expiação baseado no romance homónimo de Ian McEwan, com Keira Knightley, cujo trailer aqui vos deixo.

Briony Tallis, então com 13 anos, acusa de violação um jovem rapaz que amava a sua irmã. Mente. É uma mentira mesquinha, são ciúmes de uma adolescente maldosa. Mas, com essa mentira, é a vida de duas outras pessoas que ela muda radicalmente, causando irreversíveis danos, sofrimento sem recuo.

Toda a vida Briony expiará a culpa da sua maldade - mas em vão, nunca conseguirá anular o sofrimento irreversível que causou a outros. E toda a sua própria vida virá a ser condicionada pelas consequências e pela culpa sem tamanho resultante da mentira que, um dia, aos 13 anos, inventou.


Aconselho este filme. Mas aconselho também o livro.

quarta-feira, fevereiro 16, 2011

Como se começa um tapete de Arraiolos + um tapete de modelo clássico

Tenho recebido muitas visitas para ver os tapetes de Arraiolos e são várias as questões colocadas. Uma das que mais tem aparecido prende-se com 'como se começa um tapete de Arraiolos?'.

La-paliceanamente comecemos então pelo início.

Terá que ter a base (eu agora uso base marcada pois facilita as contagens) e as lãs (que, obviamente, terão que ser as apropriadas para terem cores firmes e tratamento anti-traça). Claro que a agulha adequada é indispensável e o dedal também. Uso também um daqueles dedais de plástico que se usam para folhear e que se vendem nas papelarias (não deve chamar-se dedal...). Ajuda a puxar a agulha.

Se o tapete for de modelo clássico ou se espelhar uma pintura, terá que ter um desenho para se guiar. Caso seja de modelo moderno mas de desenho livre, então pode partir à aventura.

Comecemos então a bordar e vou explicar para o caso mais complicado, que é o dos modelo com desenho.

Começo sempre pela fiada que faz o contorno externo da barra. A orientação do ponto acompanha as arestas do rectângulo. O vértice tem que obedecer ao preceito dos cantos (ver post sobre o assunto).

A seguir, conto o número de 'carreiras' que constituem a barra e faço o contorno interior da barra, que segue o mesmo preceito do contorno exterior.

A seguir, faço o contorno do centro. Isso vai ajudar a fazer as contagens para o desenho.

A partir daí, uma vez que já tenho várias referências, começo a desenhar os contornos do desenho. Geralmente faço primeiro os desenhos do interior da barra e, só a seguir, os desenhos do interior do tapete.

É preciso não esquecer também os contornos do desenho do interior do centro.

Quando os desenhos estão todos feitos, coomeça-se, então, a encher. Começo pela barra, depois o centro e o interior.

Finalmente os fundos.

. & .

Para que este post não seja apenas texto, aproveito para vos mostrar uns tapetes de quarto que fiz a partir de um desenho de uma revista. São os únicos que fiz com base nas revistas.

Há muito tempo que não compro nenhuma mas, quando comprava, achava os modelos hiper-pirosos. De todos os que vi, apenas aproveitei estes que são simples mas clássicos.

A fotografia ficou péssima, torta e com luz, mas, apesar disso, acho que dá para ver como é o tapete

Qualquer outra questão que queiram que eu responda, não hesitem em colocá-la porque, se eu souber, responder-vos-ei.

Este é o último (last but not the least....) de vários posts sobre tapetes de Arraiolos. Se pretenderem ver os restantes, sugiro que pesquisem nas etiquetas do lado esquerdo ou na caixa de pesquisa do topo do blogue.

'Um homem e uma mulher caminham' e eu 'penso na eternidade e no tempo'


'E aqueles dois seres, além, reapareceram: eles vão, simplesmente'
'Como é difícil falarmos com alguém! O silêncio? Não é mais que água, uma superfície onde mergulhar o braço até ao que lá brilha no fundo, sobre a areia clara onde passam sombras; e será que alguma vez chegaremos ao que pretendíamos agarrar, acho que não, uma difracção misteriosa zomba de nós, a nossa mão irresistivelmente afastada do objecto do nosso desejo. - Lá vão eles, um junto ao outro, a tarde torna-se também aquele brilho e aquelas sombras, vejo-os por momentos encostados a uma rocha, falam um com o outro. Estarão sós? Há movimento naquela imobilidade, o tecido claro do céu do entardecer estremece no vento que se levanta.'

[excerto de 'Uma variante da saída do jardim' de Yves bonnefoy, tradução de Pedro Tamen in Colóquio Letras, nº 176]

'Este homem e esta mulher que assim passam diante de nós, nesta terra sem eles deserta'
(PS: Tempus fugit)

terça-feira, fevereiro 15, 2011

Nesta noite de chuva, a voz envolvente de Melody Gardot

Dias de chumbo, céu escuro, chuva constante, frio, notícias deprimentes.

O céu ontem estava assim.

In heaven,  debaixo de um céu pesado

E, para uma noite assim, nada como a voz da Melody Gardot em Rain. Ouçamo-la.


E, para que não pensem que o meu estado de espírito está de chuva, sigam, por favor, até ao post abaixo. Estados de espírito soturnos não se dão bem por estes lados.

Façamos sol.

Quando a natureza imita a arte (Pollock & Berberis)

Arbusto despido in heaven (berberis)

Pintura de Jackson Pollock
Durante muito tempo fui indiferente à pintura de Pollock. Até que deixei de ser. Já aqui, há algum tempo, me referi à sua obra. Personagem excessiva, pintava de pé, em estado de quase alucinação, salpicando pincéis cheios de tinta, salpicando, salpicando, aleatoriamente, à toa, frenético, tantas vezes revoltado, tantas vezes alcoolizado.
Pollock: work in progress, uma dança a solo

E, no entanto, sujeita a análise, a sua obra revela padrões, pode ser estudada à luz da teoria dos fractais e, cromaticamente, tem um inesperado sentido estético.

Ao passar pela nuvem de ramos emaranhados do meu arbusto berbéris (creio ser este o nome) foi, por momentos, uma obra de Pollock que antevi. Fotografei e agora, aqui colocada junto a essa pintura, sinto que, como tudo na vida, é preciso darmo-nos tempo para vermos para além do que é superficial.

Há uns tempos, eu diria que a pintura de Pollock não passava de salpicos sobrepostos. Hoje, vejo para além dos salpicos que a compõem: vejo uma mancha abstracta que me convoca, uma realidade sobreposta de mil fragmentos. Não sei explicar. Mas comparemos as duas imagens: olhando-as, poderemos dizer que a pintura de Pollock é uma abstracção desligada da realidade?

E se fosse?

segunda-feira, fevereiro 14, 2011

Street Photo & Co. - O meu novo blogue de Fotografia de Rua

Comecei um novo blogue: Street Photo & Co. com subtítulo 'Um jeito manso de olhar'.

Todos os que me costumam ler já sabem como adoro fotografar. Percebo muito bem a expressão 'a vida através da lente'.

Mas, se gosto de fotografar o Tejo, Lisboa, o Ginjal, as gaivotas, os barcos, as árvores, os azulejos, as coisas da casa, etc, etc, mais ainda gosto de fotografar pessoas, pessoas na rua.

Tento não as apanhar de frente para que não se aborreçam comigo, receio sempre que me venham pedir explicações (ando há séculos a ser aconselhada a saber o que direi no dia em que alguém se zangue). Na brincadeira, os que sabem deste meu gosto, chama-me voyeur. Mas não é voyeurismo, é mais um registo pro-memória. Mas perceberei se alguém, um dia, se indignar ao ver-me, uma desconhecida, de máquina apontada.

Contudo, não consigo deixar de as 'apanhar' sempre que me parecem bonitas, ou feias, ou bem vestidas, ou mal vestidas, ou em gestos de cumplicidade, ou zangadas, ou apressadas, ou descansadas à janela ou num banco de jardim, ou carinhosas com crianças, ou pessoas de idade, sozinhas ou em grupo... enfim, estão a ver, toda a gente. É que não é apenas o carinho que as pessoas me despertam e que me faz querer captar o momento... é também o desafio de conseguir apanhar um momento que dura fracções de segundo e fazê-lo sem que o alvo se dê conta. Uma adrenalina.

Tenho muitas fotografias de pessoas, de situações, muitas, muitas.

E só há pouco me dei conta que este é um género de fotografia, o Street Phography, de que há livros, sites, cursos. Ignorância estúpida esta minha. Henri Cartier-Bresson claro que é um mestre neste género.

Fotografia de Henri Cartier-Bresson, 1961

A americana Vivian Maier, desaparecida em 2009, foi outra fotógrafa de rua, deixando-nos cerca de 100.000 fotografias que estão aos poucos a ser divulgadas.

Fotografia de Vivian Maier

Claro que não estou a comparar-me com os melhores. Mas sinto-me 'desculpada'. São registos que ficam como retratos de época, ajudam a perceber l'air du temps.

E, assim, com a vontade que estava de poder divulgar as minhas fotografias - e achando que nem sempre teriam cabimento aqui, onde gosto de escrever sobre o que calha e nem sempre faz sentido colocar fotografias deste género,  nem no Ginjal e Lisboa, a love affair que é um blogue dedicado a divulgar o Ginjal e a poesia e a música em língua portuguesa , muito menos no Historinhas da Tá - resolvi que era coisa que tinha boa solução e, assim, nasce mais um blogue, o Street Photo & Co.

1ª fotografia: Crianças, pássaro em voo - Va', pensiero, sull'ale dorate
Futuro e paz na fotografia do 1º dia.

Convido-vos a visitar-me neste novo espaço: terei todo o gosto em ter-vos por lá.

sexta-feira, fevereiro 11, 2011

Let egyptian people rule. Let them be happy in democracy. Let them feel free and happy.

Ultimamente os dias 11 não ficavam na história pelos melhores motivos mas o de hoje contraria a tendência. O povo do Egito saíu à rua e, determinadamente, exigiu o fim do regime. Sem violência e, aparentemente, sem organização, forçou a saída de Mubarak. A Europa assiste admirada ao que se passa no mundo árabe.


Claro que houve também a força enorme da internet que propaga como um rastilho opiniões e informações, claro que Barack Obama foi absolutamente determinante, claro que Sarkozy, Angela Merkel, David Cameron  e todos os outros, que, a uma só voz tiraram o tapete a Mubarak exigindo que fosse feita a vontade ao povo, criaram as condições para que o antigo aliado do Ocidente, o último faraó como lhe chamam, se visse forçado a sair pela porta pequena.


Obama hoje, em mais uma memorável comunicação (um modelo de comunicação eficaz), congratulou-se e traçou já a agenda para os próximos tempos: transição pacífica, fim do estado de emergência, preparação de eleições livres, etc.

Imagino que os bastidores fervilhem de acordos, compromissos, escolhas. Um país que viveu reprimido tem a classe política opositora ao antigo regime desorganizada ou inexistente, pelo que não é evidente que, do povo feliz das ruas, emane uma elite coesa que esteja apta, de súbito, a formar governo. Uma ajuda pode ser necessária.

Mas Obama merece confiança e tenho esperança que os conselhos e apoio que os EUA estarão agora a dar irão no bom sentido, permitindo que a solução a encontrar respeite a liberdade e a identidade do povo.


As fotografias mostram um povo vitorioso, todos riem, e tantas mulheres, tantos jovens. Desejo-lhes as maiores felicidades. Que o seu imenso desejo de liberdade seja cumprido, que a alegria e firmeza que têm mostrado seja o garante de que o futuro regime venha a ser democrata e traga prosperidade e liberdade.

A brecha histórica que se abriu com a revolução dos jasmins na Tunísia, acentuou-se hoje no Egipto e a história do mundo árabe está a fazer-se sob o nosso olhar.

Good luck to you egyptian men and women. For you, my spring flowers, white wild jasmine. Be happy, be free.

زهرة بيضاء سلام لك. هتاف.

حظا سعيدا ، والشعب المصري وتكون سعيدا

وآمل أن تمنياتي، وكتب في العربية، أي معنى

quinta-feira, fevereiro 10, 2011

Receita de homem especial (ou seja, a special man, not a commodity man)


Em dois posts anteriores - que têm tido um número inusitado de visitas - Receita de Homem e Adenda teórica e alguns Casos Práticos enunciei os principais requisitos para que um homem seja interessante.

Contudo, para ser honesta para convosco, tenho que confessar que o que ali refiro é, para mim, o patamar mínimo. Com aqueles predicados estaremos apenas na presença daquilo a que poderemos chamar homens-commodities (no mundo dos negócios uma commodity é uma mercadoria vulgar, que tem procura, mas uma procura indiferenciada; petróleo é petróleo, açúcar é açúcar, não são produtos em que o design, a embalagem ou a qualidade intrínseca distinga uns de outros; a escolha geralmente é feita apenas por preço). Inteligência, sentido de humor, ser bom amigo, ter charme, etc e tal, são essenciais, sem dúvida, mas só por si não chegam para que um homem se transforme, aos olhos de uma mulher (exigente), nO homem.

Brad Pitt, inequívoco

Qual é então o predicado que torna um homem especial? Pois, é difícil explicar. Para o definir, teremos que entrar no domínio das partículas elementares, teremos que falar de um intangível quantum (passe a redundância) que faz toda a diferença. E não será apenas um, serão alguns. A arte de saber dirigir um olhar transversal, sabendo fixar o olhar da mulher por um momento infinito (parece uma contradição mas não é), a arte de saber confrontar a mulher com ela mesma mas de uma forma não litigiosa mas também não indulgente - enfim, pequenas coisas essenciais que, conjugadas de uma forma harmoniosa e única, se traduzem no 'terroir', no 'bouquet' que caracteriza inequivocamente um homem.


Sergio Batista, seleccionador da Argentina, not a commodity, for sure



Mas o principal não é isso. O principal, o que verdadeiramente acrescenta aquele distinguo que vale uma vida é outra coisa: é a sabedoria toda feita de intuição que permite distinguir um não que é um definitivo não, de um não que não passa de um velado convite ao sim.

Se uma mulher quer uma coisa mas não quer, ou não lhe apetece confessar, dirá que não. Se o homem acatar, estará perdido. Terá, portanto que perceber que terá que abrir portas, vencer resistências (aparentes mas resistências na mesma), desobedecer, arriscar, até que todas as portas se lhe abram, talvez para sempre (sendo que, nestas matérias, 'sempre' é apenas o momento enquanto dura)

Mas, se a mulher, de facto, não quer e diz que não e o homem não o perceber, estará igualmente perdido porque não passará de um melga insuportável (ou, nos casos limites, de um violador).

Há uns anos, tantos!, vi um filme extraordinário. 'La condanna', 'The conviction' em inglês, de Marco Bellocchio com a sensual Claire Nebout e o carismático Vittorio Mezzogiorno (que infelizmente morreu cedo).




A história é simples e vou contar tal como a recordo quase 20 anos depois: numa tarde, numa Itália dourada, uma rapariga visita um museu antigo (tipo castelo ou instalado num castelo) na companhia de amigas. O professor de arte, um arquitecto, também visita o museu e o seu olhar cruza-se com o dela. Naquele suave entardecer paira um ambiente de sedução através do olhar.

Quando o museu vai fechar, a rapariga repara que não tem o casaco e volta, sozinha, para o procurar. O professor segue-a e nós achamos que ela o percebe. Quando a rapariga dá por isso, o museu já fechou e eis que, sem surpresa, surge o professor. Procuram, sem se esforçarem muito, uma porta aberta. Não encontram mas isso deixa de ser fundamental. A atracção é crescente. Vão vendo o museu, há sorrisos no ar, há um desejo crescente. Percorrem os corredores desertos, apreciam a pintura mas todo o interesse está na aproximação física que se começa a desenhar como inevitável. Numa sala há uma cama perto de um quadro (Maja desnuda?), recriando o cenário. Ele sugere que ela se deite na posição da maja. A sensual Claire deita-se então, e é uma mulher bela e ardente que tenta um homem, que deseja um homem. Vittorio olha-a e fica encantado com a beleza sensual da jovem. Beijam-se e ele leva-a a atingir o orgasmo (e nós, que vemos de fora, sentimos que ele lhe quis oferecer esse prazer quase inicático). Ela nada lhe faz, está quase passiva recebendo esse prazer, nem ele procura qualquer satisfação para si próprio: a ideia com que ficamos é que proporcionar prazer à rapariga é o único propósito dele. Ela ao princípio vai dizendo 'não, não' mas di-lo de uma forma que a nós nos soa pouco convicto, quase como 'não pares'. Ele continua e ela vai também continuando a dizer que não até que deixa de o dizer e se deixa levar, e nós assistimos à sua fantástica expressão de prazer. Depois fica feliz, apaziguada.

De madrugada voltam a procurar a saída e ele vai até uma porta que se abre e ela fica admirada pois verifica que lá ficaram de noite desnecessariamente.

Nessa manhã, mais tarde, ele recebe a acusação: ela, com a sua mãe, tinha apresentado queixa de violação. A mãe, as colegas, a família, a comunidade escolar, todos se viram contra o homem mais velho que violou a jovem indefesa. É o escândalo. É a infâmia que se abate sobre o professor.

Quase todo o filme se passa, pois, no tribunal. A rapariga invocando que tinha dito que não, que tinha sido vítima de violação. Ele explicando que ela tinha dito que não, em palavras, mas que o olhar, a expressão corporal diziam que sim - e que compete a um homem saber perceber isso. Toda a sua defesa se faz em torno dessa indizível contradição e da intuição para a descodificar e que, nisso, reside o poder do homem. E o seu carisma, a força do seu olhar, a sua virilidade intrínseca, vão levando a que toda aquela comunidade comece a mudar o julgamento moral. As mulheres que assistem à sua explicação vão sentindo que ter na sua frente um homem assim, que as perceba sem que elas tenham que explicitar, que as leve até onde elas querem ir, não o querendo assumir, é tudo o que anseiam num homem. A masculinidade na sua essência mais pura.

Dois personagens paralelos do filme são o advogado (de defesa da rapariga?), muito moralista, casado com uma mulher muito esposa, um casamento muito certinho, muito imaculado,  e a sua esposa que se orgulha muito do marido e do seu irrepreensível casamento.

Contudo, aos poucos, ao ouvir o professor-arquitecto, a esposa comportadinha e feliz vai antevendo uma outra forma de se ser homem, muito diferente do que conhece no marido. E começa a achar o marido um insuportável maçador. Ouve deliciada as palavras do professor no tribunal e, mentalmente, vai sentindo um imenso tédio em relação ao marido.

Numa cena fantástica, os dois têm uma discussão, coisa até então rara entre eles. O advogado não percebe a transformação que se tem vindo a operar na mulher (coisa típica nos homens desinteressantes, nunca percebem nada). No fim da zanga, a mulher diz-lhe, fria, seca, definitiva: 'Vou-me embora e livra-te de vires atrás de mim'. Infeliz, o marido ali fica abandonado. A mulher vira costas e vai. E ele, triste, triste, ali fica, com vontade de ir atrás dela mas não o fazendo, tal como ela lho tinha ordenado. Enquanto isso, ela vai avançando, esperando que ele a persiga, a retenha, a impeça de se ir embora, o passo vai abrandando, aguardando, mas ele não vem. Não foi capaz de perceber que o não dela era apenas um desafio para que ele provasse que a queria mesmo. E ela, com a atitude frouxa e imperdoável por parte do marido, comprovou que, de facto, aquele não era o tipo de homem que ela, entretanto, aprendera a apreciar e, assim sendo, segue decidida, rumo a outra vida.

E assim é.

Aprende-se isto? Para os homens que me lêem e se interrogam 'mas como adivinhar o que as mulheres querem?' apenas lhes posso dizer que, em minha opinião, isto é genético. Na compreensão da vontade implícita não-expressa, ou mesmo contraditória, da mulher há que ter intuição, sabedoria, sensibilidade e bom senso, coragem, gosto pelo risco, humildade, irreverência, atenção, obediência e desobediência, altruísmo ... enfim, ingredientes que têm que ser usados em doses homeopáticas, num equilíbrio sem rede.

E quem não nasceu com o dom de ser especial? Bom, não é grave. O que não falta são mulheres pouco exigentes.

Mas talvez também se possa aprender. Nesse caso sugiro que, com uma mulher paciente, o homem  use a metodologia tentativa-erro, até acertar.

Nesta vida há solução para tudo.

Fui clara?