Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, dezembro 31, 2010

Um feliz 2011 para vocês!

A todos os que me lêem desejo que 2011 não seja, afinal, tão mau como tememos. Que saibamos encontrar em nós a inspiração, a energia, a sabedoria, para conseguirmos tornar este País um País viável.

Que os nossos cientistas nos continuem a orgulhar, que os nossos escritores nos continuem a alimentar a alma, que os nossos pintores, escultores, fotógrafos, etc, nos continuem a mostrar a beleza, que os gestores saibam criar e manter empresas viáveis, que os professores se concentrem em ensinar, que a justiça se dignifique e se operacionalize, que apareça um conjunto de novos políticos que abane o status quo, que apareçam ideias novas, que o futuro se comece a desenhar, motivador, feliz.

Que, a nível pessoal, tenhamos sorte, saúde, boa disposição, amor, harmonia.

Que saibamos criar, manter e dar valor à felicidade.


(O palco já está montado)

Daqui a nada vou para o Baile Popular e depois vou assistir ao primeiro fogo de artíficio geminado - uma ideia inteligente a abrir 2011, é um bom augúrio.

Divirtam-se! Sejam felizes!

quinta-feira, dezembro 30, 2010

Vizinhas, comadres: intrigas, ineficiências e outras coisas do além na Procuradoria Geral da República

Na justiça o tempo é bissexto.

Isto do Freeport é de pesadelo. Quando parece que o assunto morreu, eis que, tempos passados, sai das trevas uma mão cadavérica para reacender o caso.

E, desta forma, os casos nem morrem nem saem de cena.

Passam meses, anos, e a gente já nem sabe se a coisa já teve desfecho, se ficou pelo caminho, se os arguidos foram os que estavam a ser investigados ou se os culpados eram, afinal, os investigadores.

Nesta never-ending-story do Freeport, agora já nem é o assunto em si que é notícia: agora a notícia já gira em torno das sinistros personagens que, ao longo de anos, têm andado a lamber-se com os despojos deste famigerado caso, ou seja, os procuradores.

Em Julho, Pinto Monteiro instaurou um inquérito para saber porque é que, tendo o processo decorrido ao longo de anos, não ouviram o sacrificado Sócrates.

Agora, finais de Dezembro, quando já ninguém se lembrava disso, eis que se sabe que o inquérito virou processo disciplinar e que Cândida Almeida, a directora do DCIAP, é ela própria visada num processo disciplinar autónomo. Isto é do além!



Mas em que terra vive esta gente, senhores?

Não têm mais que fazer (nomeadamente investigar bandidos) do que andarem a brincar às comadres uns com os outros?

E que organização é esta em que o responsável máximo manda instaurar um processo disciplinar a um director? Se não confia nele a ponto de avançar para uma coisa destas, como é que o mantém em funções? Um lugar de direcção é um lugar de confiança. Se não há confiança, não há condições para exercer o cargo. Ponto. E evita-se a perda de tempo do processo.

Pensamos que andam a ganhar o ordenado para trabalhar no que importa e, em vez disso, andam nesta guerra de vizinhas que já mete nervos.

Como é que a justiça pode readquirir dignidade com estes tristes espectáculos na praça pública?

"Tou aqui a limpá ito" - coisas no NJ



Ontem fui visitar o NJ que está em casa a recuperar de uma maleita infantil. Fechado em casa há alguns dias, já está naturalmente impaciente, impertinente.

Estava de joelhos a brincar com os carros que recebeu pelo Natal mesmo encostado à televisão que estava ligada.

Disse-lhe para se afastar. Não quis, “Não!”, ar de mandão, zangado.

Disse-lhe outra vez para sair, expliquei que fazia mal. “Não!”, mais zangado ainda.

Disse-lhe “Então apagamos a televisão”. “Não!”, já a engrossar a voz, voz de mau.

Levantei-me do sofá e fui tirá-lo dali. Esgueirou-se. Apaguei a televisão. Todo zangado, levantou-se e, desobediente, acendeu a televisão. Zanguei-me já mais a sério, “Isso não se faz! Ai, ai!”.

Quando eu ia para apagar, deu-lhe um ginete e, num gesto inédito, levantou a mão. Apaguei a televisão e zanguei-me mesmo zangada e disse, “Que é isso?! Isso não! Levas um tautau!”. E mostrei-lhe a minha mão ameaçadora.

Nunca me tinha visto zangada, ficou sentido. Ficou sobretudo revoltado por eu ter levado a melhor. Levantou-se todo bravo e, a chorar, foi para o sofá ter com a mãe. A mãe deu-me razão. Ainda mais furioso ficou. Então, num repente, levantou-se, com ar furibundo e de dedo espetado, decidido e desafiador, atavessou num ápice a sala dirigiu-se à televisão para a ligar.

Quando o vi fazer isso, instintivamente, dei-lhe um grito, gritei-lhe pelo nome. E, alto e zangada, perguntei-lhe ”O que é que estás a fazer?!”.

Foi de tal ordem o meu grito que estacou, como que assustado e, acto contínuo, no mesmo instante, virou-se para mim e com o ar mais bem comportado do mundo, respondeu-me “Tou aqui a limpá ito…”, enquanto com a mãozinha limpava o botão da televisão, ar angélico.

Deve ter sido a primeira mentira que disse e, ainda por cima, com ar cândido e natural. Pouco mais é que um bebé pois ainda nem dois anos e meio tem. Começa cedo. E leva jeito…

No entanto, outra coisa me surpreendeu: simultâneo ao ar inocente e à voz de quem estava a fazer a coisa mais natural do mundo, um quase imperceptível sorriso, como se, sendo óbvia a mentira, olhasse com auto-ironia para a situação.

Debate Cavaco Silva - Manuel Alegre na RTP1, com Judite de Sousa

Assisti ao debate Cavaco-Alegre.

Às tantas a minha máquina captou a imagem de um híbrido. Partilho-o convosco.

A foto abaixo não resulta de qualquer manipulação.

(Não acrescenta nada ao que vou dizer, mas o que vou dizer também não acrescenta nada. Portanto está bem uma coisa para a outra)

Juvaco Souva

Quanto ao debate: nada de entusiasmante. Artistas pouco estimulantes, reportório velho e relho. Não há ideias novas, não há uma visão ambiciosa para o futuro, não há nada que motive quem quer que seja.

Cavaco Silva, invulgarmente crispado. Será que consegue aguentar mais um mandato, com esta falta de paciência e indisfarçável irritação?

Ao longo de todo o debate, Cavaco parece que apenas quis prestar explicações sobre o que Alegre tem dito de si. À defesa. Pouco mais do que isso.

Mas, pessoalmente, pouco me interessam as explicações dele. Já o conheço. Já o conhecemos todos de há tantos anos, para quê tanta explicação?

É bom professor e, como professor, é comunicativo, descontraído. Ouvi-o uma vez, em vésperas de Santana Lopes se tornar primeiro-ministro, dizer, sorridente e irónico, que o pior, o impensável poderia estar para acontecer em breve... E aconteceu mesmo, dias depois.

Salvo alguns deslizes é bem intencionado, um homem pacato, um marido dedicado, a mão sempre a buscar a mão da mulher.

E tem uma visão tecnicamente apurada sobre a evolução da macro-economia. É certo que há anos vinha bramando contra o monstro em que o estado se estava a transformar. Anteviu o que iria acontecer. Aliás todos os professores de economia o anteviam (mesmo os que contribuiram para ela).

Mas como político, a Cavaco falta-lhe visão.

Não a teve quando ditou medidas que estiveram na origem do crescimento do monstro.

Não a teve quando usou os fundos europeus que choveram quando foi chefe de governo para infraestruturas (o que é correcto) mas para pouco mais que isso (o que foi um desastre).

Não a teve e não a tem em quantidade e qualidade como se imporia a um Presidente da República neste momento de clivagem histórica.

É, de facto, razoavelmente apolítico. Mas a função de Presidente da República é uma função política.

Portanto...

Mas, infelizmente, também não é com Manuel Alegre que lá vamos.

E Alegre se fará triste

Quando fala, Manuel Alegre enuncia princípios - não ideias objectivas. Não se vê um programa concreto, não se vê alma de grande estadista, dos que são precisos nos tempos difíceis que atravessamos. É um republicano democrata, não há dúvida, mas na melhor tradição dos grandes idealistas, dos bardos, dos que sobem a um palanque e, de peito dado às balas, com uma bandeira dançando ao vento, punho erguido, cabelo em desalinho, enfrenta moinhos de vento, inimigos abstractos.

Mas a questão principal não é só essa. A questão é que, nos momentos decisivos, também não sabe o que quer, oscila consoante o momento, dá o dito por não dito.

Exemplos?

Não dizia se apoiava o Orçamento de Estado para 2011 e não se percebia porque não o dizia. Depois disse que apoiava, que era imprescindível. Mas, a seguir, apoiou a greve geral contra o OE. E sempre com aquela voz de democrata ofendido, como se fosse tudo tão óbvio.

E, recentemente, teve uma atitude que me apetece classificar de infame ao usar informação que constava de uma ficha preenchida por Cavaco Silva na Pide. Ao usar essa informação (ainda por cima informação inócua, banal) revelou mesquinhez, pequenez, maldade, espírito intriguista, baixo nível. A seguir, quando viu que essas suas palavras cairam mal na opinião pública, veio dizer que não era aquilo, que não era isso que queria dizer. Saltou fora com ligeireza. Mas mostrou de que matéria é feito.

[Digo isto e está a custar-me dizê-lo porque o admiro como poeta. Mas é o que penso...]

E essas suas características - que são de carácter, perdoe-se-me a redundância - desagradam-me ainda mais do que o provincianismo de Cavaco.

Acho que, apesar de tudo, talvez Defensor de Moura fosse mais escorreito candidato do que Alegre. Mas não tem o apoio do PS e, portanto, sem apoios não vai a lado nenhum.

Quanto aos outros, não têm existência política que os salve do esquecimento enquanto candidatos.

Pena tenho é que o Manuel João não se candidate desta vez. Ao menos divertia-me a vê-lo.



Não sei o que vou fazer nestas eleições presidenciais. Votar em branco não vou porque, como diz o Manuel João, 'para quê votar em branco se podes votar castanho?'. Nem mais.

quarta-feira, dezembro 29, 2010

A crise em Portugal e as compras de Natal, os saldos, o réveillon e Sócrates

Ouvi dizer nos noticiários que nos últimos dias os portugueses têm levantado dinheiro nas máquinas ATM como se não houvesse amanhã.

Ouvi nos noticiários que, nos saldos que agora começaram (fazendo-nos sentir estúpidos por termos pago há dias o dobro do preço do que as coisas valem agora), a procura tem sido uma coisa do além e os produtos de luxo são os que têm mais procura.


Ouvi nos noticiários que os voos para os principais destinos no réveillon estão esgotados. Dinheiro a sair do País.

Ouvi que os hotéis estão repletos especialmente os mais caros; mas, se fossem apenas os hotéis nacionais, menos mal (porque, apesar de os media não falarem noutra coisa, os portugueses ainda não perceberam bem que é hora de poupança e não de consumo – mas, enfim, seria dinheiro a circular cá dentro).

Mas o que me chocou ainda mais foi ouvir uma espanhola de Vigo a dizer que nesta altura – e este ano não é excepção – dois terços dos clientes são portugueses.

Os portugueses vão passar a passagem de ano a Vigo? Mas a propósito de quê? É que não é apenas uma questão de gosto – é mesmo uma questão de racionalidade económica: com que jeito vão os portugueses dar uma ajuda à economia espanhola?


Como é que isto é possível quando se anunciam cortes de ordenados, subida de impostos, cortes no crédito, aumento das taxas de juro e sabendo que o corolário de tudo isto é aumento do desemprego?

Fala-se que o Sócrates:
  • tem o dom da palavra (e tem),
  • fala geralmente nos aspectos positivos, escamoteando os problemas (é um facto: é um optimista, quer transmitir confiança mas, por vezes, para isso, omite o lado negro das coisas)
  • acordou tarde demais para a crise (e é verdade: as medidas que aí vêm, já deviam estar em vigor há muito),
  • é o culpado pela crise (e isso é injusto - porque a crise portuguesa é em parte o contágio da crise internacional, e em parte a consequência de muitos anos de gestão cega e desequilibrada entre os compromissos que se assumiram e o dinheiro para lhes fazer face, e esse facilitismo já vem muito de trás).
Mas o desequilíbrio orçamental não existe apenas no Estado: existe nas empresas, existe nas famílias.

E será justo culpar o Sócrates por isso?

Era (e, pelos vistos, ainda é) uma filosofia de vida, aqui e em todo o mundo dito desenvolvido, que assentava na designada alavancagem financeira. Gastar agora e pagar depois. Recorrer ao crédito e pagar quando se puder. E os juros a acumularem-se e, logo, o valor da dívida a aumentar. E mais crédito. E assim sucessivamente.

Tem sido este o paradigma.

Quanto ao desequilíbrio a nível do Estado, diz-se agora que o Sócrates é mau. Mas não se disse que era mau quando cedeu aos sindicatos, sejam de professores, de juízes, de quadros da função pública, quando não pôs cobro a reformas antecipadas, quando não foi mais rigoroso na atribuição de subsídios para tudo e mais alguma coisa, quando não eliminou tudo o que de redundante existe a nível de institutos, empresas autárquicas, etc, etc, etc. Nessa altura era um razoável primeiro ministro.

Agora que a festa acabou e que (tarde demais), está a fazer o que é suposto fazer, já é mau? É que o problema não são as medidas terríveis que aí vêm: o problema é o que tornou essas medidas imprescindíveis.

Por exemplo, o que os media têm relatado e que acima referi sobre as opções para o fim-de-ano e as compras compulsivas dos portugueses em geral, não revela nada de bom. Mas alguém de bom senso pode dizer que a culpa deste excesso de consumo, desta irresponsabilidade que é continuar-se a consumir desabaladamente (produtos importados), sem acautelar poupanças, é culpa do Sócrates?




Tem culpas no cartório, tem e muitas, mas, sejamos justos: culpemo-lo pelo que é de responsabilidade dele, não pela que é dos outros, pelo que é de nossa própria responsabilidade.
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terça-feira, dezembro 28, 2010

Como se fazem cantos nos Tapetes de Arraiolos

Para quem veio até a Um Jeito Manso procurando a resposta para a dúvida sobre como fazer cantos nos Tapetes de Arraiolos, aqui mostro a sequência de fotografias que o exemplifica. Espero que seja perceptível.

Aqui temos um canto na barra do tapete, já com alguns desenhos.

Vou exemplificar como se faz o canto com lã azul.

Passei a lã por baixo dos pontos a verde e deixei a ponta de fora para se ver de onde vem a lã.
Na fotografia já aparece um ponto feito a azul mas vou exemplificar com o 2º porque está mais visível.

A agulha está colocada para fazer o primeiro risco da cruz.

Porque, afinal, o canto é ponto-cruz.

Agora que a primeira perna do X está feita, a agulha está colocada para fazer a segunda perna


Uma vez que a cruz está feita, a agulha já passou para cima, para continuar a diagonal.

E assim se completará mais um X

Agora mostro a parte de trás do tapete
Ao contrário do resto do tapete em que a parte de trás são risquinhos verticais, uns por cima dos outros, o canto da barra, visto por trás, tem este aspecto de espinha.

Espero que esteja compreensível.

Livros: os meus amigos de estimação, os meus amigos anarcas

Há uma estante com os livros de ficção, para já até à letra L (excepto ficção em língua portuguesa), outra com as restantes letras do alfabeto. Outra com a ficção portuguesa. Outra com a brasileira. Outra para biografias, entrevistas, diários e correspondências. Outra para história. Outra para economia e gestão. Outra para geografia e viagens. Outra para física, divulgação científica, psicologia. Outra para policiais. Outra para arte em geral. Outra para livros de fotografia. Outra para poesia. Outra para ensaios em geral. Outra para decoração. Outra para culinária.

Estantes de dimensões diferentes, claro. Cada uma arrumada por ordem alfabética de autores.

E depois há os que ainda não se arrumaram.

Tentativamente os desarrumados também se organizam por montes distintos

Mas com o ir agora buscar um, depois outro, acabam por ficar num completo desalinhamento.

A questão é que, frequentemente, já não cabem na estante que lhes está destinada e isso obrigará a uma reorganização que é uma trabalheira e que, enquanto não se efectiva completamente, deixa ainda mais livros no chão...

E, portanto, vão-se evitando esses momentos fracturantes.

Também, supostamente, antes de cairem no anonimato das estantes, deveriam ser carregados na base de dados.

Mas, quando isso não se faz sistematicamente, como ganhar ânimo para catalogar montes e montes...?

Enfim, seres vivos que se multiplicam pelos cantos e que, cá em casa, nos fazem muita companhia - apesar de serem responsáveis por alguns recantos em que impera um certo ar de caos.

My pet friends, my pet-books.

Homenagem às mulheres que sabem viver o amor

Cruzei-me ontem com um jovem, pouco mais que um rapazito, que sorria enquanto atravessava a rua. Do lado de lá, na paragem, uma jovem, pouco mais que uma rapariguita(*), sorria também, aguardando por ele.

Quando se aproximaram sorriam abertamente, de felicidade, e foi o apertado e sentido abraço que se vê na fotografia. Estiveram assim que tempos, num apertado abraço. Uma ternura.

A vida pela frente, tanta esperança, tantos projectos, uma felicidade ainda tão ingénua, tão sem mácula. É isto o amor na juventude.

O que vai acontecendo ao longo da vida irá temperando a forma como se sente, como se pensa, mas a entrega, a disponibilidade, a aceitação, serão sempre ingredientes fundamentais no amor.


(Tanto amor)

E, como forma de homenagear estes dois jovens abraçados, e todas as pessoas apaixonadas, aqui deixo o vídeo desta fantástica jovem cantora (23 anos, apenas) que eu desconhecia - recebi o CD de presente no Natal - e que tem uma voz poderosa, sensual, um requebro, um soul (e country), que nos ficam no ouvido, que nos apetece descobrir melhor: Aurea. Ok, alright.


Aurea - Okay Alright - Official Video


there's a long and open road
i don't need to stop and think about it
'cause my heart will guide me through

you don't need to promise me the moon
just sit with me and watch the moonlight

i got good fellings on my mind


 (Extracto da letra - Palavras que deveremos todos ser capazes de dizer vida fora)

[(*)- Explicação aos leitores do Brasil: rapariga, aqui deste lado do Atlântico, é sinónimo de jovem mulher, apenas isso]

segunda-feira, dezembro 27, 2010

Homenagem às mulheres que sabem preservar o prazer de viver

A título excepcional coloco aqui uma fotografia de alguém de quem se vê o rosto; faço-o porque a senhora falava com tal alegria com os vizinhos na rua, estava tão bem disposta, tão jovial, que penso que talvez até gostasse se soubesse que aqui a homenageio. Não sei quem é (*). Passei pela rua e não consegui resistir à tentação de a fotografar. O longo cabelo apanhado em 'totós' com dois elásticos azuis a condizer com o roupão, a boa disposição matinal, a energia na lida doméstica, fizeram-me sentir ternura por esta mulher que chegou a esta idade com esta alegria.

Tristeza não paga dívidas e é com ânimo e alegria que melhor se atravessa a vida.

Pendurando a roupa numa fria manhã

Como homenagem às mulheres vigorosas, corajosas, jovens de espírito, aqui deixo também o vídeo (que já tem alguns anos - mas não faz diferença) de outra intrépida mulher que, apesar da idade, se mantém bem viva num mundo competitivo e feroz onde a fama e os media devoram sistematicamente artistas: Cher, a great lady.

Apesar de o título da canção sugerir que seria bom que o tempo voltasse para trás (e não seria...?), o saudosismo não tem sido o lema de vida da Cher. Ela esculpe as ancas, retira gordura da cintura, das coxas, enfim, desbasta onde houver para desbastar, ela sobe as maçãs do rosto, sobe os glúteos, os seios e onde houver matéria descaída, ela aumenta os lábios, apaga rugas - ou seja, refaz-se onde for necessário e sempre que for necessário. E, apesar de ser uma forma não consensual de lidar com o efeito do tempo no corpo, é tão respeitável como qualquer outra e eu, pessoalmente, acho fantástica a entrega à profissão - que é o show business - e a energia que a faz continuar a movimentar-se em palco, cantando, dançando, expondo o corpo com sensualidade e jovialidade.

Exemplos de vida - especialmente para aqueles para quem a vida parece um incurável buraco negro.

  

Cher - If I Could Turn Back Time [Official Music Video] [HQ]

[(*) Se alguém souber que a senhora, por algum motivo, não quer aqui  figurar, peço que me informe que, de imediato, retirarei a fotografia.]

Transforma-se o fotografador na cousa fotografada e Manuel Alegre, o caçador de palavras

Agora sei que sou um caçador. Nada mais
que um caçador.

(Fotógrafo no Ginjal, captando o momento em que um navio passava sob a ponte)

Cacei de salto e de batida e de largada
sobretudo de espera. Palavras
imagens
rimas
combinações de sons e de sinais.

(Fotógrafo no Ginjal, fotografando Lisboa ou um navio que passava)

Tentei muitas vezes acenar no alvo
alguns amores saíram largos
outros perto demais
armadilha fatal
caçador caçado.


(Fotógrafo em Cacilhas, com tripé, aguardando a luz certa para captar Lisboa do seu melhor ângulo)

Ouvi o grito da narceja ao levantar
mas era o bater da ilusão lírica
era o tempo a fugir
ou talvez Deus o sentido o sem sentido.

(Num cais do Ginjal, fotografando um cacillheiro que se aproximava)

Agora sei que não fiz senão caçar
o poema o sopro os anjos que passavam
as aves dos milagres os teus braços


(Sniper, apontando para Cacilhas ou Lisboa ou o Tejo ou tudo)

Agora sei que sou um caçador
e que por mais que acerte haverá sempre
um tiro um pouco lento
ou demasiado à frente
uma perdiz que escapa mesmo se ferida
uma perdiz no vento
uma perdiz. Ou talvez o tempo. Ou talvez a vida.


(Excertos de "O caçador" de Manuel Alegre in Doze Naus)
 
 
PS1: Tenho o prazer da fotografia e fotografo tudo: coisas em casa, coisas na rua, coisas no rio, paisagens, navios, pormenores, pássaros, pessoas. Aqui, (como  digo no título do post, parafraseando Camões), transformo os fótografos em alvo das minhas fotografias. Como habitualmente, tento não mostrar o rosto das pessoas mas, caso algum dos fotografados se reconheça e não deseje aparecer aqui, peço-lhe o favor de me contactar que, de imediato, retirarei a fotografia.
 
PS2: Como já aqui disse há alguns meses e volto a referi-lo, o facto de divulgar Manuel Alegre - e hoje, no Ginjal e Lisboa, a love affair também coloquei um poema dele - não significa o meu apoio como candidato presidencial. Se eu não tivesse da poesia uma ideia tão positiva, poderia dizer que só mesmo um poeta para se candidatar com o apoio do PS e do BE (uma coisa e o seu contrário)... Mas como para mim a poesia não é uma coisa etérea, desfasada da realidade, não posso dizer isso.
 
Digo apenas que o acho um poeta com uma singular capacidade de juntar as palavras de forma melódica, com uma invulgar capacidade de transformar as ideias e as palavras em rumor de ondas, em vento sobre as folhas, em lápis sobre o papel, em afago na pessoa que se ama. Poderia escrever a frase simétrica (que ele transforma o rumor das ondas, o vento...., etc, etc, em palavras) mas deliberadamente escrevi assim porque me parece que também está certo. Os seus poemas contêm a vida que passa, o tempo que atravessa vida, a vida totalmente vivida, e a luz e a música que toca as coisas, e exprimem, sobretudo, um absoluto amor pelas palavras.
 
Infelizmente, penso que isso não é suficiente para se ser um bom Presidente da República.

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Video de um Parto para relembrar que no Natal se festeja o Nascimento

Penso que o vídeo que aqui vos deixo hoje não fará impressão a ninguém. Mostra um dos momentos mais importantes na vida de uma pessoa: o nascimento. Seja de quem for o nascimento: o nascimento dos filhos, o dos filhos dos filhos....

É um momento festivo, é o momento em que assistimos ao eclodir da vida, é um momento de esperança, de alegria, de felicidade imensa.

No Natal é isso que festejamos: a vida, a esperança, a alegria. O nascimento. O início. O que está por vir. O futuro.

Recordemos também a figura histórica Jesus Cristo, o lutador, o resistente, o corajoso, aquele que falou aos pobres, aos doentes, aquele que protegeu uma mulher que era desprezada, aquele que reconheceu a importância das palavras e delas fez um veículo de mobilização, aquele que deu a vida por uma causa.

A minha palavra de estima e os meus votos de um feliz dia de Natal vão sobretudo para aqueles que hoje, mais de 2000 anos depois do nascimento de Jesus, ainda sofrem de pobreza, de rejeição social, de opressão.

E também para os que sofrem de solidão.

Feliz Natal.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

Pedro Mexia, o poeta, e Manuel João Vieira



Gosto de ler os textos de Pedro Mexia, já aqui o disse.

Tem, sobre as coisas, uma visão inteligente, temperada com algum saudável cepticismo e por um precoce spleen, e complementada por um saber bastante bem doseado (digo doseado depois de muito pensar na palavra a usar pois, como disse há dias, talvez por preconceito, custa-me usar a palavra erudição em relação a alguém que nem 40 anos tem – é como dar a um aluno a nota 20 no primeiro período; se a seguir ele melhora, dá-se-lhe o quê?).

Mas confesso que tenho alguma desconfiança e falta de empatia em relação à sua poesia.

Para mim, que sou mera consumidora, uma consumidora leiga, a poesia é a tradução de um sentimento ou de um pensamento sob uma forma minimalista mas na qual se apercebe uma musicalidade; além disso, ao ler um poema temos que perceber que o encadeamento de palavras encerra um código invisível mas único (tal como o genoma é a fórmula que determina a identidade de um corpo, também na poesia deve ser possível reconhecer, ainda que, por vezes, de forma imperceptível, a identidade da escrita).

Enfim, é um je ne sais quoi que não sei explicar.

Ora acontece que, do que conheço, não encontro isso na poesia de Pedro Mexia. Acho os seus poemas de uma secura excessiva. As palavras dos seus poemas parece não se ligarem umas às outras, não há uma linha melódica, não há uma palavra a dar a mão à seguinte – as palavras em roda como meninos que cantam.

Leio alguns dos seus textos no(s) blogue(s) e, não raro, encontro ali sentimentos destilados, em estado puro. Ou sentimentos conjugados com reflexões, tudo muito bem articulado, cerzido com inteligência fina. E parece que, sujeitos ao crivo do blogue ou da crónica, é aí que os sentimentos ficam. O que sobra já foi decantado. E, quando passa para poesia, já não traz emoção, já só vem a extrema racionalidade, uma racionalidade por sua vez crivada pelo saber literário. Daí a concisão do aforismo, a secura da escrita descritiva racional.

No meu blogue Ginjal e Lisboa, a love affair coloco poesia de língua portuguesa e já fiz várias tentativas de aí inserir poemas dele mas esbarro sempre nesta minha reserva.

No entanto, em ‘A poesia ensina a cair’ do Eduardo Prado Coelho que ontem referi [e, sobre, PM diz EPC que "Pedro Mexia integrou-se definitivamente num sistema mediático que o elegeu como estrela emergente, mais no domínio da crítica e da reflexão do que da poesia. Devo dizer, com toda a sinceridade, que tudo isto me parece justo, dada a inteligência e o gosto que exibe em todas estas manifestações. Mas temo às vezes que a sua obra de poeta (…) passe para segundo plano. Há nela uma voz singular que merece a melhor atenção …], encontrei um poema que antes me deve ter passado despercebido (a gente quando adquire um pré-conceito, às tantas vê tudo através dessa lente...) e, deste poema, gostei.

É certo que apanhou a boleia musical de Fernando Pessoa, na 'Ceifeira', mas não interessa, saíu bem e isso é o que importa. E, portanto, foi desta que ultrapassei a barreira que me separava da sua poesia.

Aproveito ainda para dar uma outra explicação. No 'Ginjal e Lisboa' coloco sempre um apontamento musical (também a língua portuguesa ou artistas portugueses como critério) que tento que, de alguma forma, tenha alguma relação com a fotografia ou com o poema que se segue.

Neste caso, o que me ocorreu foi exactamente o contrário: Manuel João Vieira, aparentemente o anti- Pedro Mexia.

Não sei se são amigos, se mutuamente se admiram ou se se detestam, não faço ideia. No entanto, eu acho que faria muito bem ao Pedro Mexia um estágio com o Manuel João tout court ou, a espaços, com os seus heterónimos Orgasmo Carlos, Irmão Catita, Lello Universal, Candidato Vieira, Coração de Atum, e por aí vai. Acho que este(s) tiraria(m) Pedro Mexia da sua zona de conforto, o desinstalaria, o levaria para caminhos onde o seu autocontrolo seria posto à prova. Uma acção de coaching que antevejo como altamente salutar para o sóbrio, intelectual, ultra-racional poeta Pedro Mexia. Imagino que, depois de um estágio destes, a poesia de Pedro Mexia sairia desalinhada, emotiva, íntima ou exuberante, espontânea, musical, com aquele grão de imperfeição que dá espessura, textura, vivência às palavras. Não posso dizer se seria melhor poesia, quem sou eu?, mas acho que escrevê-la seria para o próprio Pedro Mexia um momento de maior felicidade do que hoje imagino que seja.

Em suma: hoje no 'Ginjal e Lisboa a love affair' temos Pedro Mexia e Manuel João Vieira.

Promete.

Legalidade, legitimidade, honorabilidade - o BPN e as presidenciais

Claro que, entre outras razões, o buraco sem fundo do BPN resulta dos rendimentos absurdos que, durante anos, e sob diversas formas, foram distribuídos.


Conforme se irá validar judicialmente, aparentemente na gestão do BPN houve burla, fraude, branqueamento e tudo o que um bando de malfeitores costuma fazer quando põe a mão na massa. Como é sabido nos esquemas de tipo esquemas de tipo pirâmide, é possível (mas ilegítimo!) distribuir rendimentos altos usando para isso o dinheiro dos que vão entrando no esquema. A apetência por rendimentos altos, mais altos do que o normal, faz com que novos clientes sejam atraídos e, portanto, enquanto dura a entrada de novos clientes, há dinheiro fácil para distribuir.

O pior acontece quando, por algum motivo, esse fluxo de entrada se interrompe. Como não existem fundos de reserva, se, quem entregou dinheiro, o quer recuperar, verificar-se-á que não há e, não havendo, começa a gerar-se o pânico e aí estaremos perante o fenómeno inverso, todos a quererem debandar. E não haverá dinheiro para saldar todas as contas. Daí os depositantes sentirem-se logrados, e daí o risco de que todo o sistema bancário, mesmo o que é sério, se veja descredibilizado.

É evidente que, seja qual for a entidade bancária,  nunca haverá dinheiro suficiente para saldar contas se toda a gente quiser sair ao mesmo tempo pois o dinheiro entregue não fica debaixo do colchão do banco. Ele é posto em circulação e isso é o correcto. E tudo funcionará bem se se mantiver o normal fluxo de entradas e saídas, salvaguardadas as devidas garantias.

Mas é para evitar o descrédito do sistema bancário e consequentes movimentos de pânico - com toda a gente a querer ir buscar ao mesmo tempo o dinheiro que depositou nos bancos - que os governos tentam colmatar problemas, nacionalizando os bancos com problemas graves (geralmente são os bancos que, por via fraudulenta ou incúria ou tudo junto, pagaram rendimentos mais altos que deviam, desequilibrando a exploração e gerando ‘buracos’).

Foi o que aconteceu no BPN.

Estamos agora a presenciar um buraco que não tem tamanho, um pesadelo. Esse buraco resultará, a provarem-se as acusações, de gestão danosa, de apropriação indevida, etc, etc, e do somatório de dinheiro absurdo pago a quem, durante os ‘anos bons’, usufruiu de rendimentos exorbitantes.

A ser verdade o que os media divulgam, Cavaco Silva e a filha, pela compra de acções da SLN a 1 euro e venda por 2,4 €,  ganharam respectivamente 147.500 € e 209.400 €.


Comprar e vender acções e obter lucros é legal e legítimo e, obviamente, ele e a filha não fizeram nada de ilegal. A provar-se a acusação, quem terá praticado actos ilegais, foram os gestores do banco por gerarem um ‘buraco’ insanável, proporcionando rendimentos desta ordem de grandeza sem contrapartidas reais.

A questão é outra: Cavaco Silva, que foi Ministro das Finanças, que foi Primeiro-Ministro, que foi Conselheiro do Banco de Portugal, que foi Professor Universitário, não suspeitou da gestão que se praticava naquele banco e que possibilitava a distribuição de rendimentos escandalosos?

Impossível não ter suspeitado. Isso poria em causa toda a sua credibilidade profissional. Penso que deve ter suspeitado mas todo se deve ter lambido com aquele dinheiro fácil, fechou os olhos e olhos que não vêem, coração que não sente.

Fica, pois, em minha opinião, ferido aos nossos olhos na sua honorabilidade como guardião da moral e dos bons costumes nacionais.

Nota: Apesar disso, não é claro para mim que haja melhores candidatos do que ele ao cargo de Presidente da República. O estado a que chegámos…

terça-feira, dezembro 21, 2010

A poesia ensina a cair de Eduardo Prado Coelho e um cadavre exquis no primeiro dia de inverno


'A poesia ensina a cair' ao pé dos dois volumes de 'Tudo o que não escrevi'

Morreu cedo demais o Eduardo Prado Coelho. Pessoa politicamente controversa, era, contudo, uma analista cuidadoso e alguém que, em minha opinião, tinha uma assinalável qualidade de escrita.

Deixou organizados vários trabalhos que vão dar origem à colecção Biblioteca Eduardo Passos Coelho da INCM. Este de que hoje falo, 'A poesia ensina a cair', é a obra inaugural e é, além do mais, um livro muito bonito.

A introdução do livro deixou-a o EPC já escrita e, demonstrando a intemporalidade das suas análises, termina assim: ”Os tempos não são exaltantes, a mediania domina, as expressões que definem cada dia não nos conduzem demasiado longe. Contudo, continua a escrever-se poesia. Porque, como sugeriu Luiza Neto Jorge, a poesia ensina a cair.”

Este livro reúne textos e crónicas publicadas nos suplementos Leituras e Mil Folhas do Público entre o final da década de 90 e 2006.

A este livro ainda voltarei em posteriores posts pois tem matéria que muito me interessa. Aqui podemos encontrar textos sobre Sophia de Mello Breyner, Herberto Helder, Pedro Tamen, Nuno Júdice, Ana Luísa Amaral, Manuel de Freitas, Maria do Rosário Pedreira, Adília Lopes, António Mega Ferreira, Fernando Pinto do Amaral, Pedro Mexia, mas também sobre Sylvia Plath, Ferreira Gullar, Adorno, Derrida e Melo Neto e muitos outros autores.

Os textos têm títulos expressivos, apelativos. Refiro aleatoriamente alguns:

As cidades têm luzes nas palavras; Qualquer coisa que muda a escala do olhar; A margem de onde avisto o caos; A poesia volta como a loucura e o acaso; Alguém no escuro olhando; A demência dos pássaros; Esse pássaro fluido; Perdeste a infância e não encontraste o mundo; Deixemos que este livro se feche; Nunca estivémos tão a sul; A respiração azul das cores; Como uma corda de alegria; O princípio da aurora; Um corpo de afectos; Como se fora sua mãe; E Deus é girassol; O que resta do rosto de Deus

E, ao escrever estes títulos, apetece-me juntá-los como se estivesse a jogar ao cadavre exquis para, no fim, ler o resultado e ver se resulta como um ‘objecto’ em si, quase como se fosse um poema. Apetece-me alterar algumas palavras, juntar pontuação, fazer com que o texto se articule entre si.

Vejamos se resulta:

As cidades
têm luzes nas palavras,
e há nelas
qualquer coisa
que muda a escala do olhar

Na margem
de onde avisto o caos
a poesia volta
como a loucura
e o acaso

Estou no escuro
olhando
a demência dos pássaros,
esses pássaros fluidos

Perdi a infância
e
não encontrei o mundo.

Mas deixemos
que este livro se feche.
Afinal
nunca estivémos tão a sul
e
eu sinto
a respiração azul das cores
como uma corda de alegria,
o princípio da aurora,
um corpo de afectos
como se fora a minha mãe.

E Deus é um girassol
- ou o que resta do rosto de Deus.


Gostei de fazer. Uma brincadeira surrealista numa noite fria de chuva, neste primeiro dia de inverno.

Mark Rothko e, numa daquelas minhas crises de imodéstia, fotografias minhas e tapetes de Arraiolos meus 'a la' Rothko

Já aqui muitas vezes referi Mark Rothko, um dos meus pintores de eleição. É difícil explicar. Com frequência dou por mim sem saber defender, com argumentação lógica, porque gosto tanto destas pinturas, aparentemente tão simples. Grandes telas com manchas de duas, três, quatro cores. Mas depois olha-se e cada cor tem pequenas gradações. Mas não há a preocupação da perfeição, há apenas uma intuição, um feeling de cor.

Para quem se move em meios ligados à gestão sabe que é frequente, a propósito dos mais variados assuntos, alguém colocar a questão: "Qual é o racional?". Faço-me esta pergunta a mim própria e, de facto, não encontro. Mas olho estas manchas de cor e há uma ascese, uma pureza (ou melhor, uma depuração), uma indiferença face à opinião alheia, uma total ausência de artificialismo. É a alma sem disfarces. Não sei explicar.

Rothko fazia isto. Grandes telas cheias de cor. E depois as cores foram escurecendo. E depois eram enormes telas cinzentas, escuras, quase a ausência de cor.

E depois, quando a cor se acabou, quando a luz deixou de fazer sentido, suicidou-se. E neste percurso eu encontro um 'racional'.




E eu, que gosto de fotografar, dou por mim a tentar simplificar a imagem obtida, tentando que fique apenas uma sequência cromática simples, como as do Rothko. Sem pretensão, apenas como um exercício que me 'depura', se assim me posso expressar.

(Canteiro pintado e banco, in heaven)


(Chão de cimento, in heaven)


(Murete da vedação in heaven)


(...e até tapetes de Arraiolos a la Rothko já fiz...)
Enfim, gostos.

De qualquer forma, assunto que me interessa mais do que falar da chuva intensa que ouço cair, do Pinto da Costa, another great pretender, a elogiar o Jorge Jesus, da Ana Gomes, essa mulher feroz - mas avó extremosa - a quem andam a assaltar o correio electrónico, ou do Papa que reconhece a humilhação que é a pedofilia na Igreja.

segunda-feira, dezembro 20, 2010

João César das Neves sobre Sócrates, Pedro Passos Coelho e Cavaco Silva. E o meu presentinho para o Senhor Professor César das Neves: Adão e Eva em versão gay

Num fim-de-semana cinzento e frio, nada melhor que uma ida ao circo.

A cor e a alegria, a música, os risos e palmas das crianças contrastam com as notícias de uma Europa gelada e de um Portugal maçador.

A única coisa que me apraz destacar são as sempre argutas palavras do sempre arguto e muito mediático João César das Neves, economista e professor universitário que, em entrevista ao programa «Gente que Conta», da TSF e do «Diário de Notícias», disse que considera José Sócrates como «um grande político», «um táctico genial» e alertou: «não devemos dá-lo como defunto».

Sobre Pedro Passos Coelho, César das Neves mostra desilusão: «não está a mostrar grande capacidade de inspirar o povo».

Mas as surpresas não se ficam por aqui. É que, ao contrário do que aconteceu anteriormente, desta vez César das Neves não vai apoiar Cavaco Silva nas eleições presidenciais. «Sou muito amigo do professor Cavaco Silva, pessoalmente tenho muito respeito por ele, foi meu professor, trabalhei com ele quatro anos. Mas politicamente desta vez não o apoio. Apoiei-o nas duas candidaturas e fiz parte da comissão. Desta vez não aceitei, e não é por nenhuma contestação pessoal, mas porque a assinatura dele está numa das piores leis contra a família da História de Portugal», referindo-se à promulgação do diploma que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Recorde-se que César das Neves é também membro de várias organizações católicas e os livros de ficção de que é autor têm os seguintes títulos: Crónicas do Céu, Contos de Natal, Parábolas sobre Jesus e O Primeiro Dia.

Eu, que tenho uma mente aberta a todas as crenças, fés e orientações políticas (desde que respeitem a liberdade), não acho nada bem que César das Neves seja tão fundamentalista, castigando Cavaco por causa dos casamentos gays…

E, por isso, aqui lhe deixo, como presente de Natal, a versão gay de O Primeiro Dia.

Merry Christmas, Dr. César das Neves!


sexta-feira, dezembro 17, 2010

Focus on winning: João Garcia, António Victorino d'Almeida, Al Gore ... e Irina Shayk

Para quem tem curiosidade em acompanhar assuntos de gestão é divertido ver como indústrias secundárias como a consultoria, a organização de seminários e conferências, a formação académica complementar (Pós-Graduações, por exemplo), a edição de livros e revistas de gestão e respectivas actividades satélites sobrevivem aos tempos.

Tal como em tudo na economia real, é preciso ter-se um produto para vender e, depois, ir à procura de mercado para esse produto.

Falemos então no produto: tal como acontece com qualquer outro, há que garantir o lançamento regular de novos ‘produtos’, tratar da embalagem, tratar do branding, do marketing, etc.

Ora de que produto se trata, quando falamos destas actividades? De muitos.

Governance, Leadership, Innovation, Outsoursing, por exemplo. Passado algum tempo, há um refreshment da gama e aparecem novos nomes (ou novos produtos - mas, muitas vezes, é mais do mesmo) e encontramos Regulation, SOX, Inspiration, Talent Retention, Nearsoursing; depois, o tempo passa e já encontramos Sustentabilidade, Felicidade, Redes Sociais, Redes Neurais, Insourcing, etc.

Cada uma destas designações é um produto. Para cada um há numerosas empresas que o comercializam sob muitas formas: cursos, consultoria, livros, revistas, seminários, etc.


E os ‘agentes’ ou ‘trabalhadores’ deste sector de actividade são muitos, desde os tipógrafos, o pessoal das agências de comunicação, de publicidade, as meninas e meninos das agências de escorting, os consultores, os professores, os oradores (entre os quais encontramos pessoas tão diversas como o alpinista João Garcia, o Maestro António Victorino d' Almeida, o Al Gore, Tony Blair, e por aí fora - pessoas que as agências consideram que são bons opinion makers e que venderão o produto de forma credível).

E, como em qualquer mercado, o que é vendido hoje, amanhã sai de moda e é substituído por outra coisa qualquer. No que acima referi atente-se no produto ‘outsourcing’ (ou seja, ‘o que é bom é o que se compra fora’, o que pode ser dito também como: ‘devemos externalizar competências’, ‘devemos eliminar gorduras internas’, etc) conceito que, para além de outras derivações que, por fastidioso, não refiro aqui, passou, tempos depois para nearsoursing (isto é: ‘comprar fora da empresa ou organização… mas não muito longe; por exemplo, nem sempre é bom adquirir serviços de backoffice em sítios remotos e baratos como a Índia porque há um fosso cultural muito grande e acentuadas diferenças linguísticas’, por exemplo) para chegarmos à moda recente do insourcing (ou seja, demos a volta e, de novo, ‘é bom ter-se competências internas’….).

E, para cada uma destas correntes, isto é, para cada uma das modas, ouviremos sempre reputados oradores e ilustres consultores e professores, a dissertarem com ar convicto, irrefutável, definitivo. E que usarão jargões que são sound bites ditos como doutrina filosófica: "Focus on Winning", "There is too much talking, not enough do", "Go beyond what you think is possible", "Empower yourself!",etc. E haverá sempre quem beba sequioso essas verdades como se, com elas, fosse descobrir a pólvora (claro que isso acontece com pessoas que desconhecem que a pólvora já foi inventada há tanto tempo....)

Ou seja, claro que empresas ou organizações de qualquer tipo em que exista uma cultura sedimentada de sólida gestão, em que se saiba bem o que se quer e como o atingir, se está relativamente imune a isto. Agora quando a gestão está a cargo de equipas newcomers, influenciáveis, fracas, ou quando é uma gestão que está de passagem, ou quando, saloiamente, pretende estar na moda, então, é um maná para esta indústria.

Por exemplo, as grandes empresas públicas ou de capitais públicos, organismos de estado, etc, são mercados apetecíveis para estas empresas de consultoria, de organização de seminários, etc.

É certo que, em termos macro-económicos, é dinheiro que circula, dá-se trabalho a toda essa gente ligada a estas actividades. A questão é que é o tipo de ocupação ‘improdutiva’, digamos assim, pois, de modo geral, não cria valor nem substitui mercadorias importadas. É certo que seria pior se toda essa gente estivesse desempregada mas é também um facto que é gente que não produz nada que substitua a comida que importamos, o vestuário que importamos, as máquinas que importamos nem, e isso seria o suposto, acrescenta conhecimento reprodutível.

Ou seja, de forma geral, é cash out (das organizações que contratam essas serviços) que poderia ser evitado e é uma parte da população a ocupar-se de algo, regra geral, dispensável que em nada contribui para a riqueza do País.

Quando, nas estatísticas internacionais, Portugal aparece como um País altamente improdutivo é devido a coisas como estas. Não é que as pessoas não trabalhem – trabalham é em actividades inúteis.

E, já agora, para fazer a ponte para o post abaixo, refiro que a gestão é assolada por ondas de modas tal como o vestuário (e calçado e joalharia e maquilhagem e por aí fora) mas que a moda associada a estas últimas actividades me parece mais interessante pois ocupa-se de bens transaccionáveis e úteis, apesar de tudo. E em que, por efeito da moda, se gera a procura através da oferta e a procura gera produção (...pena é que tão pouca seja em Portugal...)

Merry Christmas from Intimissimi, com a menina Irina Shayk, talvez futura Irina Shayk Ronaldo

Uma campanha de um produto que não difere muito da campanha para vender Leadership in 2011: escolhe-se alguém credível e conhecido para vender o produto, faz-se uma campanha publicitária, difunde-se a mensagem consoante os públicos-alvo. Aqui, porque é Natal e O Jeito Manso is coming to town, mostro-vos a campanha de Natal da Intimissimi protagonizada pela sensual Irina Shayk, expectável Senhora Cristiano Ronaldo (caso a Srª D. Dolores Aveiro, qual Rainha Elizabeth II, a aprove como nora....e caso a mana Ronalda, qual princesa Ana ...e demais corte, também a aprovem).


quarta-feira, dezembro 15, 2010

O stress e o cérebro, segundo Nuno de Sousa. Oscar Neimeyer faz hoje 103 anos, Manoel de Oliveira fez 102 há dias atrás.


Um trabalho de investigação da equipa liderada pelo médico e neurocientista Nuno Sousa da Universidade do Minho, publicado pela exigente revista Science, comprova o efeito nefasto que o stress prolongado tem no cérebro. A equipa tem estudado a correlação entre o stress e várias formas de doenças demenciais, entre as quais ao doença de Alzheimer.


Na entrevista a Carlos Vaz Marques, na TSF, deu-nos conta desses trabalhos. Um cérebro submetido a frequentes estímulos de stress atrofia, como que bloqueia, passa a reagir de forma repetitiva, não relacionada com os estímulos casuísticos que recebe. Pelo contrário, um cérebro não sujeito a stress frequente é capaz de reagir de forma adequada, criativa, digamos assim.

Claro que há que distinguir entre o stress negativo e o positivo - o positivo é aquele que associamos à adrenalina, ao entusiasmo, ao desafio que, esse, é estimulante e benéfico.

Por outro lado, é sabido como a actividade física e intelectual regulares são essenciais para uma longevidade de qualidade.

Hoje faz 103 anos um dos maiores arquitectos de sempre a nível mundial, Oscar Niemeyer, o arquitecto de Brasília e de tantas obras em que a arquitectura assume formas escultórias, em que o betão armado é esculpido como uma obra de arte. Neymeyer sempre disse que a sua principal fonte de inspiração são as montanhas do Brasil e, sobretudo, as curvas das mulheres.


 Neste aniversário, ao inaugurar mais um edifício, justamente a Fundação Niemeyer, ele explica: “Enquanto eu puder trabalhar eu trabalho, porque o trabalho me distrai, não é sacrifício. Cada problema que aparece é um esforço para resolver que me agrada muito e que ainda consigo fazer”.


A mulher, cerca de 40 anos mais nova, com quem se casou há 4 anos, confirma que ele está bem, com saúde, cheio de projectos, tem aulas semanais de cosmologia, desenha, faz fisioterapia, lê, edita uma revista e gosta de desafios. Diz que está agora a fazer um aquário dentro de água, coisa que nunca ninguém fez. ‘Isso me distrai’, diz ele.


Neste pequeno livro de 1993, em que o autor do texto é Oscar Niemeyer e o autor da capa, dos desenhos e da paginação é... Oscar Niemeyer, leio: " De um traço nasce a arquitectura. E, quando ele é bonito e cria surpresa, ela pode atingir, sendo bem conduzida, o nível superior de uma obra de arte. [...] Na cúpula do Senado, desprezando a característica autoportante que oferece o empuxo que criaria, inclinei em rectas sua linha circular de apoio, tornando-a mais leve, como preferiria. Na Câmara, depois de invertê-la, a estendi horizontalmente como a visibilidade interna exigia, procurando uma forma que a situasse como simplesmente pousada na lage de cobertura. E tudo isso fazíamos com tal empenho que lembro Joaquim Cardozo me telefonando: 'Oscar, encontrei a tangente que vai permitir a cúpula solta como você deseja.'. [...] Um dia, Carlos Drummond de Andrade escreveu num dos seus versos:' Oscar desenha na areia seu edifício.' E tinha razão o nosso amigo. De um risco inicial nasce a arquitectuta e até na areia isso pode acontecer."

É um prazer ler as palavras de Neimeyer, sentir o prazer supremo de alguém que nasceu para fazer o que tão bem tem feito ao longo da sua longa vida.

Daqui, deste lado do Atlântico, envio-lhe os parabéns, Arquitecto Niemeyer!

Manoel de Oliveira, que completou recentemente 102 anos, é feito da mesma fibra: tem dois filmes em fase de financiamento, tem vários projectos em mente, diz não temer a morte mas não querer perder tempo pois, com ironia, diz não saber por quanto mais tempo ainda cá andará.


Pessoas sem stress, pessoas boas, pessoas motivadas, pessoas do mundo, do futuro, pessoas felizes.

Uma lição para os comuns mortais.

terça-feira, dezembro 14, 2010

Voluntariado sempre mas, ainda mais, em tempos de crise. Angelina Jolie, Isabel Jonet.

Era bom que só houvesse pessoas boas, generosas. Era bom que só houvesse justiça à superfície da terra. Era bom que houvesse trabalho para todos e que todos quisessem trabalhar, era bom que não houvesse pobreza, nem doença, nem roubos, nem abandono escolar. Era bom que houvesse equilíbrio entre o que se quer comprar e o que há para vender para que os preços fossem justos e equilibrados. Era bom que nascessem tantas crianças que compensassem o acréscimo de esperança de vida das pessoas. Tudo isso seria maravilhoso e já nem falo de outras coisas que também seriam boas (como, por exemplo, que só houvesse pessoas educadas, respeitadoras, inteligentes, etc).

E era bom que em cada canto estivessem, entre canteiros floridos visitados por borboletas e pássaros multicores, pessoas que, discretamente, tocassem, ao violino, suaves melodias. E que dos céus caíssem confettis brilhantes, coloridos, prlim, pim, pim, tudo na maior harmonia, paz e amor.


Mas um mundo idílico assim não há, nem nunca houve.

Gerir recursos finitos, gerir imperfeições, gerir expectativas, gerir sensibilidades, gerir imprevistos, gerir o impacto de influências externas, tudo isso é, de facto, a difícil atribuição de quem anda nesta vida. Seja qual for o papel de cada um na sociedade, ninguém pode fugir a isso, seja a nível doméstico, social, profissional, político.

Podemos também olhar apenas para dentro de nós próprios e ignorar os problemas ou, então, dizer que, se os há, sejam de que natureza forem, os outros que os resolvam, ou que o Estado que os resolva.

E o Estado seria constituído por batalhões de assalariados, governados por forças políticas, pagos com os impostos dos ‘outros’ que dariam resposta a todo o tipo de necessidades. Desde logo as usuais, educação, saúde, segurança pública, etc, mas também as outras necessidades. Quais?

Por exemplo: se há pessoas que, por uso de drogas ou por alcoolismo ou outros desnortes das vida, caem na rua, haveria funcionários públicos para lhes levar cobertores à noite, distribuir comida quente (de notar que, em grande percentagem dos casos, os sem-abrigo não querem abandonar a rua); se há crianças que se têm que tratar hospitalarmente por períodos prolongados longe da sua residência e a família não tem recursos, então haveria residências do Estado, geridas por funcionários públicos para acolher e dar apoio às famílias; se há pessoas hospitalizadas longe de casa e que não recebem visitas, haveria uma legião de funcionários públicos para visitar doentes sós; se, nas zonas carenciadas, há muitas adolescentes grávidas que são abandonadas pela família, ter-se-iam residências do Estado, em que zelosos funcionários públicos apoiariam, dariam carinho e formação às futuras meninas-mães e acolheriam depois do nascimento, as recém-mamãs com os seus bebés, garantido-lhes a subsistência e o apoio emocional.

Talvez isso fosse possível… mas seria muito complicado. Às tantas tudo seria estatal e não haveria impostos suficientes para acudir a tanta solicitação (já para não falar na ineficiência, pois quem é que geriria todos essa imensa legião de funcionários públicos? Directores-gerais, dependentes de secretários de estado escolhidos de entre o partido do poder….? […e onde é que eu já vi isto….?]).

No mundo imperfeito que temos – em que, infelizmente, temos crianças com cancro a precisar de longos e penosos tratamentos, em que infelizmente, temos gente que cai na rua e aí fica desamparada, em que infelizmente, temos mulheres maltratadas que têm que se esconder dos agressores, em que temos pessoas em casa com fome e vergonha de pedir ajuda, em que temos famílias sem dinheiro para comprar roupa e livros para os filhos, em que infelizmente temos jovens que pertencem a famílias carenciadas ou desagregadas sem um adulto que os apoie no processo de crescimento, em que infelizmente há reclusos renegados pela família que nunca recebem uma visita – há também pessoas abnegadas que se dão a si próprias, que dão parte do seu tempo, de forma desinteressada. São os Voluntários.

Há Voluntários de várias actividades: para ajudarem jovens, para ajudarem famílias, para ajudarem crianças, para ajudarem doentes, para recolherem alimentos, para redistribuírem alimentos, ou vestuário, ou livros, para fazerem visitas, para levarem uma comida quente, uma palavra amiga, para dar formação, para dar apoio administrativo, para transportar, enfim, para quase tudo o que for preciso.

E já nem falo nas missões fora do País, em campanhas de vacinação, alfabetização, etc.
Vidé o filme Beyond Borders ou Amor sem Fronteiras, com a Angelina Jolie (ela própria uma Voluntária, uma lutadora por nobres causas) e o Clive Owen, cujo trailer coloquei no post abaixo.


A quem quer ser Voluntário, que eu saiba, ninguém pergunta qual a religião que professa (eu, por exemplo, conheço católicos, budistas, agnósticos e, da maioria, não faço a mínima ideia), qual o partido em que vota, qual o clube de futebol. Que eu saiba, quem vier por bem, é bem vindo.

Apenas fiz uma pequena actividade de voluntariado e é recente o meu contacto com este outro mundo, pelo que ainda não me considero uma voluntária. O que sei é ainda muito pouco; por isso, frequentei uma acção de formação para me preparar para actividades futuras e tenho lido, tenho-me informado.

Sei que é uma realidade dura, difícil. Abdica-se de estar confortável em casa, com os amigos, com a família, para ir lidar com uma realidade difícil, dolorosa.

Por isso que ninguém desdenhe do trabalho dos voluntários. É uma sociedade civil silenciosa, organizada, generosa, que se movimenta geralmente na sombra, para ajudar quem precisa de ajuda.

Seria bom que todos nós percebessemos isso e nos dispuséssemos também a dar um pouco de nós para bem dos outros.


A Isabel Jonet, à frente do Banco Alimentar contra a Fome, é uma das caras mais conhecidas do voluntariado mas há milhares de outras pessoas que, com a mesma dedicação, se entregam, na medida das suas possibilidades, à ajuda desinteressada a quem, seja quem for, dela esteja a precisar (Acreditar, Ajuda de Berço, Entreajuda, Comunidade Vida e Paz, etc, são algumas instituições conhecidas mas há muitas outras).

São pessoas que dedicam parte da sua vida aos outros, que fazem de tudo para conseguir disponibilidade, recursos, para os entregar a quem mais deles necessita. E são pessoas que sabem acompanhar o seu tempo. Isabel Jonet, uma vez mais, é um exemplo: tem sabido tirar partido das novas tecnologias e assim vemos a instituição que gere já inserida no Facebook, vemos o perfil da própria Isabel Jonet no LinkedIn pretendendo com isso estimular os contactos por esta via - porque todos os meios servem; aliás não nos esqueçamos que felizmente há muitos, mas mesmo muitos, jovens voluntários que, com o conhecimento que têm das novas formas de contacto social, contribuem dessa forma para a divulgação da causa e para angariar mais voluntários, mais meios, mais donativos.

E todos nós, mesmo que felizmente ainda não tenhamos precisado ou mesmo que ainda não tenhamos a abertura de espírito ou a experiência de vida para perceber esta outra realidade, deveremos estar muito gratos a estas pessoas.