Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, setembro 30, 2010

Meu Deus, quando é que eu embarco? Que encanto é o teu?

Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(se ela estivesse deitada)
dois montinhos que amanhecem
sem ter que haver madrugada.

e a mão do seu braço branco
assenta em palmo espalhado
sobre a saliência do flanco
do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?

(de Fernando Pessoa)



(fotografia que coloquei na minha Galeria do Olhares)


Amo-te muito, meu amor, e tanto
que, ao ter-te, amo-te mais, e mais ainda
depois de ter-te, meu amor. Não finda
com o próprio amor o amor do teu encanto.
(...)
Que encanto é o teu? Deitado à tua beira,
sei que se rasga, eterno, o véu da graça.


(de Jorge de Sena)
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O caçador do Ginjal, a sua caça e poemas do Manuel Alegre


Sei que nada está escrito
e por mais que pergunte
ninguém responde.

Mas nem por isso me limito
a esperar a resposta e disparar.

Vou à caça de salto e continuo
a perguntar porquê e como e onde.



 
As aves voam por dentro
da espingarda e da caneta
na paisagem nunca vista
a que fica na inconcreta
folha de azul e de vento
as aves que estão no centro
da palavra nunca escrita.
.
 
(Manuel Alegre, respectivamente,Caça de Salto ou o Sétimo Poema do Caçador; Arte poética ou o Nono Poema do Caçador)
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quarta-feira, setembro 29, 2010

Ministro das Finanças Suíço ri de gosto sobre Portugal e sobre o Brasil



De facto, o senhor ria-se sobre os termos burocráticos relacionados com importação de carnes temperadas.

Outras traduções adaptadas circulam na net.

A versão brasileira (Lula e a política de transparência...) pode ver-se no link abaixo:

http://www.youtube.com/watch?v=n_EWYkq7iYk
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terça-feira, setembro 28, 2010

Eu, caçador de momentos


(Caçador no Ginjal)

Trabalho num escritório. Durante o dia estou no meu gabinete, faço os meus cálculos, analiso relatórios, elaboro relatórios, apresento relatórios.

Nada de extraordinariamente empolgante mas, ainda assim, nada de que me queixe. Estou instalado na minha zona de conforto, a rotina produz em mim uma sensação de segurança. Sei o que me espera e o que me espera é algo que sei fazer.

Todos os dias, antes de me ir embora, faço uma pequena lista com os trabalhos do dia seguinte. No entanto, há dias em que, por ter reuniões ou por outro motivo, não o faço. Então, no próprio dia, de manhã, quando estou a ir de carro, elaboro mentalmente a dita lista e, quando chego, depois de beber o meu café, ler as últimas notícias, escrevo numa folhinha essas tarefas. À medida que as vou cumprindo, vou pondo um visto. À tarde, saio com todos os pontos picados e o dever de missão cumprida.

Depois vou para casa, leio o jornal, janto, vejo as notícias, faço o registo dos gastos, vejo o que tenho para pagar, nunca sou apanhado desprevenido pois sou muito organizado, tenho tudo orçamentado, tudo contabilizado. Ultimamente já vejo mal e, para ler e escrever, uso uns óculos para ver ao perto.

Tenho uma vida muito boa. Tenho uma boa família, um bom emprego, um bom ordenado, sou respeitado, tenho bons amigos. Sou um homem realizado, feliz.

Mas às vezes tenho necessidade de sair desta rotina. É bom não se ser escravo do trabalho, ter outros interesses. E eu tenho. De vez em quando, saio para fazer expedições fotográficas e faço-o com o verdadeiro espírito de caçador. Em casa, preparo a máquina, a objectiva, o pano de limpar a lente, o cartão de reserva, como quem prepara a arma e as munições.

Antecipadamente penso nos melhores sítios para ‘caçar’ e isso já é parte do gozo.

Não caço animais mas imagens mas tenho a certeza que o espírito é o mesmo.

De véspera já estou empolgado e, no dia, não penso noutra coisa.

Quando me dirijo ao local, espero pela melhor luz, vou andando devagar à espera que alguma presa se atravesse no meu caminho, a máquina preparada. Tenho que agir furtivamente para não espantar a caça. Ponho-me encostado a uma parede ou sentado num canto de onde ninguém me veja para que eu possa apanhar o alvo em movimento, a agir com naturalidade. Estudo o sítio de onde apanharei o melhor ângulo. Se necessário for, deito-me no chão, imóvel a estudar a melhor forma de atingir o meu objectivo. O silêncio é indispensável e, nesses momentos, a minha respiração anula-se para que toda a concentração esteja à disposição do momento perfeito.

Pode ser um casal de namorados com Lisboa em fundo, uma garrafa em contraluz, pode ser o mar contra os pilares do cais. Disparo com um prazer que não sei descrever; naqueles momentos sou um caçador viciado no prazer da captura, que quer capturar a melhor imagem, sou outro.

Quando finalmente regresso, vou sujo mas feliz, não levo pombos ou coelhos penduradas no cinto mas dezenas ou centenas de imagens que exibo vaidoso quando chego a casa.

No dia seguinte ainda estou feliz, saciado.

E se alguém, sabendo que eu, fotógrafo, sou um caçador de imagens, me pergunta o que é que apanhei, respondo orgulhoso, triunfante, como quem brinca com a ignorância verbal de quem me inquire: “O que é que apanhei…!? Apanhei…apanhei à mão…- e sorrio - ...apanhei uma bicicleta presa a um poste, uma parede grafitada, um pescador, um cacilheiro que se aproxima, a ponte iluminada, um homem a sair a correr do barco para se ir sentar num banco a pensar e a olhar Lisboa’.
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Coisas de casa ao pé de Mark Rothko (...wishful thinking...)

Sweet September in Heaven

(coisas de casa: um saco velho, metal oxidado e o chão, tudo coberto de caruma)



domingo, setembro 26, 2010

Here in Heaven tudo é possível


José de Guimarães, ao fundo, observa algo que não consegue compreender.

Mas assim é a vida: incompreensão, diversidade, imprevisibiidade, complementaridade de aparentes contrários.

Talvez por isso, here in heaven, não há impossíveis.

Terra do Nunca.

Terra de Tudo.

Terra de calor e frio, de ventos desabalados, de calmaria ou tempestade, de pedra, de mato, de fruta, de flores.

A place with a view and a place of secrete places.

Abbey Johnson and Lisa Parker - Ablisa, cromos à séria

Não se pode perder! Vejam estas Ídolos! Nunca visto.

sábado, setembro 25, 2010

Robert Mapplethorpe fala do seu background

Um grande da fotografia, um esteta de quem já aqui falei e mostrei fotografias, fala de si próprio durante uns escassos minutos e nós, ao ouvi-lo, percebemos que a arte pura pode nascer inesperadamente.

Livraria Gay e Lésbica (e bissexual)

A propósito do pequeno apontamento de ontem, apeteceu-me partilhar mais um bocadinho de uma série que adoro: Little Britain aqui com o fantástico suposto ''Unico Gay" a quem ninguém liga a mínima.

Enjoy.

sexta-feira, setembro 24, 2010

Pedro Passos Coelho e José Sócrates - o último tango em Lisboa? Provavelmente não.


Nas discussões prévias sobre o triste e esquálido orçamento que aí vem, ter-se-ão aborrecido.

O primeiro quererá que se corte na despesa, o segundo quererá que se aumente na receita.

O primeiro quererá saber o que tem andado o segundo a fazer.

O segundo quererá um cheque em branco.

Ou não. Sabemos lá. Os media também se alimentam destas cegadas.

Mas sabemos que problemas maiores se anunciam e não, não temos que ser tão pessimistas como o Medina Carreira, para o conseguir antever.

Sabemos que os professores, por exemplo, que têm um horário reduzidíssimo quando comparados com os restantes assalariados, conseguiram um aumento significativo na sua massa salarial, enquanto toda a gente (Paulo Bento e outros do género, excluidos, claro) se mantem sem aumentos, enquanto o número de desempregados sobe, enquanto se teme por nova onda de desemprego quando os bancos deixarem de conceder crédito às empresas.

Pois bem, retroceda-se e retire-se-lhes o que lhes foi dado pela sorridente ministra Isabel Alçada. Hoje, na SIC, o Miguel Sousa Tavares, o José Gomes Ferreira e o Ricardo Costa sugeriram medidas imediatas: analisem-se institutos, fundações, administrações como cogumelos (como nas Águas de Portugal) e todas as grandes fontes de despesismo escusado, faça-se uma análise de urgência e, na base da vassourada, limpe-se tudo o que é supérfluo, tudo o que é abuso, tudo o que é chocante - e que é suportado pelo erário público.

E, tendo ambos a coragem política de enfrentar todos essas corporações, todas essas classes priveligiadas, todos esses sorvedoures de dinheiro, então ponham-se de acordo, por favor, aceitem servir o País e deixem-se de tangos.

Durante o tempo suficiente para que as contas se equilibrem e para que o País encontre o seu rumo, por favor, dancem antes um slow, agarradinhos, sossegadinhos.



A parte do beijinho na boca, não é indispensável.

(Video da BBC, Sebastian and the Prime Minister)

quarta-feira, setembro 22, 2010

Sempre que no telefone me falavas



Sempre que no telefone
me falavas, eu diria
que falavas de uma sala
toda de luz invadida,

sala que pelas janelas,
duzentas, se oferecia
a alguma manhã de praia,
mais manhã porque marinha,
(…)
pois, assim, no telefone
tua voz me parecia
como se de tal manhã
estivesses envolvida,

fresca e clara, como se
telefonasses despida,
ou, se vestida, somente
de roupa de banho, mínima,

e que por mínima, pouco
de tua luz própria tira,
e até mais, quando falavas
no telefone, eu diria

que estavas toda nua,
só de teu banho vestida,
que é quando tu estás mais clara
pois a água nada embacia,

sim, como o sol sobre a cal
de muros cuja luz ilumina,
a água clara não te acende:
libera a luz que já tinhas.

(Parte de Paisagem pelo Telefone, João Cabral de Melo Neto, enorme, imortal poeta brasileiro [1920-1999])
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terça-feira, setembro 21, 2010

O teu cheiro na minha mão



De manhã deixo os miúdos na escola e vou de carro até ao barco. Como vou cedo, ainda arranjo lugar numa rua por detrás de uns prédios e, assim, sempre evito pagar estacionamento. Podia levar o carro para Lisboa mas não me compensa. O gasto em gasolina, em portagem e em estacionamento, acabava por me sair muito caro e, indo de barco, tiro o passe integrado que dá também para o metro e para os autocarros e apresento a factura. Na firma pagam-me o passe porque, na minha profissão, tenho que andar de um lado para o outro e, parecendo que não, isso é uma grande ajuda.

Sou vendedor de uma firma de cafés. Tenho um ordenado base e comissões. Como já estou há uns quantos anos na casa, já tenho uma boa zona, uma zona que não se ressente com a crise. Tenho toda aquela zona do Marquês, Fontes Pereira de Melo, Saldanha, Campo Pequeno, Avenida de Roma, Praça de Londres. Toda a gente queria ter esta zona mas, como já tenho muitos anos e como sou muito competente, tenho sido promovido e estou seguro nesta área. As encomendas são sempre certas e pagam a tempo e horas Já recebi três vezes o prémio de melhor vendedor. Tenho as medalhas e os diplomas no móvel da sala porque é um grande orgulho, até os miúdos mostram aos amigos que vão lá a casa.

Não me posso queixar.

A minha mulher também trabalha, é escriturária numa oficina de alumínios perto de casa, tem a responsabilidade das facturas, da caixa, de orientar a papelada para a contabilidade. É muito organizada e competente e, por isso, tem um bom ordenado e toda a gente diz bem dela.

Também não se pode queixar.

Tomara muitos. Ainda este verão estivemos de férias no Algarve, alugámos um apartamento em Quarteira e acabou por sair em conta, até porque comíamos sempre lá. Foi uma semana em grande, os miúdos ficaram malucos com aquilo.

Agora passa-se é uma coisa. Conheci há coisa de um ano uma rapariga por quem me apaixonei.

Trabalhava ao balcão numa pastelaria na Av. da República. Encantámo-nos um pelo outro. Os dias inteirinhos, desde que, de manhã, escolhia a roupa e punha o after-shave, até que depois, à noite, adormecia, eram passados a pensar nela. Ansiava pela hora de passar por lá, para recolher a encomenda ou o cheque ou só para a visitar. Ia a uma hora mais morta e ficávamos ali um bocado, os dois, à conversa. Claro que era sempre a disfarçar, não fosse alguém perceber. Às vezes, à socapa, lá conseguia fazer-lhe uma festa no braço e, o resto do dia, eu andava a cheirar a minha mão, que ficava com o cheiro dela.

E depois ficava a pensar no que tínhamos dito e, sempre que ia a algum lado ou sempre que via ou ouvia alguma coisa, eu pensava em não me esquecer de lhe contar. E, quando via alguma mulher, eu, na minha cabeça, comparava-a com ela e, este tempo todo, nunca nenhuma lhe chegou nem aos calcanhares.

E, ela também: quando eu chegava ao pé dela, toda ela se iluminava, contente por me ver. Foram os meses mais felizes da minha vida, pelo menos nos últimos anos. O que eu mais queria era agora conseguir passar uma tarde inteira com ela ou uma noite ou um fim-de-semana, ou uma semana inteira, ou as férias ou até, quem sabe, o resto da minha vida.

Mas ela é casada e tem filhos e eu também e, por isso, não temos hipótese. Mas o pior é que, há uns tempos atrás, o marido dela, que é motorista, foi promovido a motorista de administração e, por isso, foi transferido para a Sede, ali na 2ª circular e como ela, para não gastar passe, vai e vem com ele no carro da empresa, resolveram que ela havia de pedir para ser transferida para uma pastelaria do mesmo dono ali no Colombo. Só que isso deu-nos cabo da vida.

Agora já não a consigo ver. E tenho tantas saudades. Às vezes ligo-lhe mas não é a mesma coisa. Ela diz que também sente muito a minha falta, diz que a vida já não tem tanta graça. Gosta da loja do centro comercial, tem muito movimento, ganha mais em gorjetas, diz que nem se compara, mas que era melhor quando estava na Av. da República por causa dos nossos bocadinhos de conversa.

E eu deixei de ter aquela motivação que me levava a escolher a camisa a condizer com a gravata e com o casaco, a perfumar-me, a vir feliz para mais um dia de trabalho. Ficou dentro de mim um buraco que não tenho como preencher.

E, por isso, todos os dias, quando ao fim do dia saio do barco, venho direito a um banco que está ali no cais, sento-me a olhar para Lisboa e fico a pensar na minha vida, a pensar nela, fico a tentar recordar-me de todas as conversas que tivemos, das festas que, às escondidas, fazíamos na mão um do outro. Agora os dias já estão a ficar pequenos, quando ali chego já está a ficar escuro e eu sou a única pessoa naquele lugar, até corro o risco de ser assaltado. Mas não me importo. E saio do barco quase a correr como se estivesse com pressa de ir para casa. Mas não, é só para ficar ali sentado naquele banco. São os melhores momentos do meu dia. Em recordação estou com a minha linda, como eu lhe chamava. Ainda conservo aquele hábito de cheirar a minha mão, dou por mim a tentar sentir ainda aquele cheirinho bom que vinha dela. Mas já não vem. O meu amor está longe e eu acho que, se calhar, não volta mais.

E por isso agora até já me custa a dizer que sou um homem cheio de sorte.
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Manuel Maria Carrilho, Dilma Rousseff, Paulo Bento e outros


Nas primeiras páginas dos jornais portugueses de hoje vemos que, por ano, no mundo, morrem cerca de 8 milhões de crianças e que em Portugal há cada vez mais idosos que são abandonados nos hospitais.

Lemos que, por manifesta escassez financeira, os bancos vão começar a cortar no crédito às empresas. Lemos que o ‘buraco’ do estado aumenta 37 milhões por dia, lemos que os juros da dívida pública atingem os quase incomportáveis 6.5%.

Lemos também sobre dívidas da Segurança Social, penhoras da Segurança Social, lemos sobre o FMI, sobre se vem ou não para nos ajudar ou para acabar com a nossa soberania, lemos sobre a demissão do Manuel Maria Carrilho (supostamente por ser desalinhado em relação aos apparatchiks socialistas).


Lemos sobre o número exagerado de pessoas com cargos de chefia numa empresa pública deficitária como a CP (em 2009, resultado líquido de -217 milhões de euros ), empresa em que, numa entrevista à rádio, uma administradora justificava o elevado salário médio dessas chefias por serem pessoas que trabalham lá há mais de 40 ou 50 anos….!

Lemos sobre violações de filhos e violação de animais.

Lemos sobre futebóis e outros Carnavais.

Lemos que no Brasil os apparatchiks petistas conseguem o impossível: a Senhora D. Dilma Rousseff aumentou as intenções de voto e apresenta-se destacada, muito à frente do bem preparado José Serra, e “parece sobreviver incólume ao escândalo de tráfico de influências para beneficiar empresas em contratos com o Governo que levou a ministra Erenice Guerra e outros assessores da Casa Civil do Presidente Lula da Silva a pedir a demissão.”

Lula continua, pois, a controlar bem a máquina.



E, então, nenhuma boa notícia nas primeiras páginas?

Claro que há: Paulo Bento, novo seleccionador nacional, vai ganhar 50.000 euros/mês.

Portanto, no meio de tanta desgraça para toda a gente, uma boa notícia para uma pessoa, para o Paulo Bento.


E, com sinceridade, daqui lhe desejo que a boa sorte não fique por aqui.
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Art in motion

Publicidade à parte, esta escultura em movimento da autoria do fantástico escultor/engenheiro holandês Theo Jansen é uma coisa maravilhosa, poesia in motion.

domingo, setembro 19, 2010

Quero que me lembres e esqueças


Quero-te, como se fosses
a presa indiferente, a mais obscura
das amantes. Quero o teu rosto
de brancos cansaços, as tuas mãos
que hesitam, cada uma das palavras
que sem querer me deste. Quero
que me lembres e esqueças como eu
te lembro e esqueço: num fundo
a preto e branco, despida como
a neve matinal se despe da noite,
fria, luminosa.
voz incerta de rosa.

(Poema de amor para uso tópico, de Nuno Júdice)

sábado, setembro 18, 2010

Miguel Sousa Tavares e Fidel Castro, brothers in arms



No Expresso de hoje o Miguel Sousa Tavares esclarece-me sobre uma dúvida que eu já aqui tinha formulado no dia 28 de Agosto. Diz ele:

“Temos 3.5 milhões de pensionistas, 2.2 milhões de estudantes, do pré-primário ao universitário, subsidiados pelo Estado (…), temos 700.000 funcionários públicos, não incluindo os funcionários da profusão de empresas públicas e municipais, institutos públicos, fundações públicas e sei lá que mais; e temos 300.000 desempregados a receberem subsídio de desemprego mais os que recebem RSI. Façam as contas: são 7 milhões de portugueses, dois terços da população, que vivem integralmente dependentes ou subsidiados em grande parte pelo Estado. Nem Esparta! Já nem Cuba. Talvez só a Coreia do Norte.”

Refere também: “o que se chama Estado Social, traduzido financeiramente na despesa corrente do Estado (isto é, despesa não produtiva) aumenta a um ritmo de 2.5 milhões de euros…por hora! Vai já em 87% do PIB, isto é, de toda a riqueza produzida anualmente no país! O serviço da dívida pública rouba-nos todos os anos milhares de milhões que poderiam servir para financiar o desenvolvimento ou serem libertadas da carga fiscal e entrarem no circuito económico, gerando emprego e riqueza”


 (de Cartoon do António, hoje no Expresso)

Pois bem, noutra notícia do Expresso (Pedro Cordeiro, pag 39), podemos ver que esta semana Fidel Castro, ‘El Comandante’, que se diz "uma espécie de ressuscitado", afirmou que ‘o modelo cubano já não funciona, nem para nós’, isto enquanto foi anunciado o corte de meio milhões de funcionários públicos.

Os despedidos vão receber um mês de salário por cada 10 anos de trabalho (!). A intenção é que sejam recolocados no pequeno emprego privado e cooperativo.

A Central de Trabalhadores de Cuba, a única central sindical, aplaudiu a iniciativa governamental, defendendo o aumento da produtividade cubana através da redução dos “avultados gastos sociais, subsídios excessivos”.

Ou seja, não há Estado Social nem em Portugal, nem em Cuba, nem em lado nenhum do mundo, que resista a uma população com uma esperança de vida cada vez maior (implicando com isso, uma sobrevivência maior à custa do Estado, em todos os sentidos), com tanta dependência do estado, tantos funcionários públicos, tantos subsídios.

A receita de esmifrar com impostos os poucos que trabalham fora do estado dará o resultado que deu a dieta do cavalo do inglês.

Ou seja, tem razão o Miguel Sousa Tavares em chamar a este estado, Estado Fatal, e tem razão El Comandante ao reconhecer que nem em Cuba um Estado assim é já suportável.
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José Mourinho no TGV da Selecção, conduzido pelo extraordinário Gilberto Madail

Esta da suspensão de um bocado do TGV e da 3ª travessia irritou-me. Então depois de meio mundo andar a dizer que não havia dinheiro para isto e de o Sr. Sócrates afiançar a pés juntos que havia, que isto era estrutural para o País, que se não fizéssemos perdíamos os fundos e mais não sei o quê, então agora, de facto, não há dinheiro? E andam a empurrar os problemas com a barriga, enquanto nos media se entretêm a épater les bourgeois?

Ou são como aquela gente burra que só percebe que está a ir de encontro a uma parede, depois de lá esborrachar a testa?

Atitudes destas só descredibilizam ainda mais os governantes, os políticos. Não sei se o TGV faz falta, nunca me dei ao trabalho de analisar os estudos de rentabilidade mas quero acreditar que estamos a ser governados por gente séria, por gente que, quando se mete nas coisas, é porque acha que são possíveis e desejáveis.

Isto assim, defender uma coisa e, a seguir, de rabo entre as pernas, vir dizer que afinal não há dinheiro, é que é uma coisa impensável. Irritante. Desprestigiante. Descredibilizante. Desmoralizante.



Outra igualmente irritante (mas menos grave, apesar de tudo) é a incompetência dos sujeitos da Federação que não foram capazes de aparecer com uma solução já operacional no mesmo dia em que correram com o outro, com o Carlos Queiroz. Passada uma semana aí anda essa madail e titubeante figura a mendigar ao messiânico Mourinho que arranje um tempinho disponível para, em part-time, e em acumulação com o trabalho principal no Real Madrid, vir aqui fazer uma perninha.

Mou, José Mourinho, D. Sebastião, o Messias de que precisamos para orientar 2 jogos da Selecção... Que coisa mais ridícula!

Então tudo isto não se devia ter feito em privado, com profissionalismo, com alguma dignidade? Que tristeza. Não deviam ter aparecido logo com uma solução a sério, a tempo inteiro? Então agora a selecção nacional pode ser enquadrada a part-time? Por favor...!

Que lindo espectáculo que é, em Espanha, as televisão e os jornais andarem a fazer sondagens e entrevistas aos madrilenos e todos a dizerem, embora por outras palavras, que os portugueses se estão a portar como uns verdadeiros palhaços.

Tudo demasiado pífio, uma indigência, um pedir de esmolinha, tudo excessivamente deprimente.

O que é que o Sr. Laurentino Dias dirá desta vez? Será que vai aparecer outra vez com ar de Madre Superiora como se não tivesse nada a ver com o assunto?
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quinta-feira, setembro 16, 2010

Sou uma rapariga cheia de sorte


Sou assistente num escritório de advogados, num dos mais importantes. Não sou funcionária da firma mas isso não interessa. Estou inscrita numa empresa de trabalho temporário e, depois de ter andado a preencher vagas em vários sítios, já há mais de um ano que me chamaram para aqui. Nunca estive num lugar tão bom. Toda a gente me trata muito bem, com muita educação. Gente fina é outra coisa. Quando vim, era para arrumar o arquivo mas depois acharam que eu era mal empregada para estar escondida e arranjaram maneira de eu estar na recepção.

Por isso, tenho sempre muito cuidado com a minha apresentação, arranjo-me com muito cuidado, prefiro não almoçar tão bem para ter tempo (e dinheiro) para cuidar do meu aspecto. Vou ao instituto de beleza aqui na avenida no mínimo uma vez por semana para tratar do cabelo, das mãos, dos pés. Não saio de casa sem uma base, um blush, uma máscara nas pestanas, um gloss. Todas as semanas passo pela Berska ou pela Stradivarius porque têm roupa e sapatos fashion por um bom preço e consigo conjugar as peças de maneira que parece a roupa de marca que eu vejo nas advogadas e nas secretárias aqui do escritório.

Às vezes eles combinam ir beber um copo todos juntos e já me convidaram também. Há um, que é sócio, que me convidou também para ir jantar com ele mas não fui porque acho que ele quer mais qualquer coisa. Sou miúda mas não sou parva e os olhinhos e as bocas dele não enganam. É que eu namoro com um rapaz que está quase a passar a efectivo na Zon e não me quero meter em confusões.


Aqui há tempos, num bar, um senhor com ar de artista veio ter comigo e com o meu namorado e perguntou se eu não queria ser modelo dele. O meu namorado pediu tempo para pensarmos mas depois achámos que mal também não havia de fazer e, por isso, já fui a umas quantas sessões. Tira-me fotografias muito bonitas. Paga-me cem euros de cada vez, que me dão muito jeito para as minhas extensões, para as minhas madeixas e para as minhas roupas. O meu namorado vai assistir, tudo no maior respeito. Nunca disse nada aos meus pais porque isto lhes iria fazer muita confusão mas contei a uma tia que é quase da minha idade e que também achou muito bem.

A minha irmã não tem tido tanta sorte como eu, é ajudante na cozinha dum restaurante, anda sempre sem dinheiro. Mas a mim a vida tem corrido muito bem, já estamos a juntar dinheiro para irmos viver juntos, no escritório toda a gente gosta de mim, posso andar bem vestida e bem penteada, o que é que eu posso querer mais da vida?
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quarta-feira, setembro 15, 2010

Às vezes uma palavra bastava


Às vezes uma palavra bastava
para que eu soubesse que virias sempre
ao meu encontro

mas depois chegaram imprevistas tempestades
que desenharam estranhas perdições
no mapa dos teus dedos

e as palavras que ninguém quis
silenciaram a festa do meu corpo

e cobriram o teu daquele silêncio imóvel
dos lençóis que se estendem sobre as casas
abandonadas no fim do verão


(in 'O que dói às aves', Alice Vieira)
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terça-feira, setembro 14, 2010

Eu, pescador, me confesso



De manhã vou à procura do isco, já sei quem o tem de melhor qualidade mas tenho que procurar, ver os preços, ver se estão bem vivos. Depois levo-o para casa, ponho-o num sítio fresco, um trapo velho de serapilheira meio aberto, areia, alguns limos, e assim, com cuidado, chega sempre à tarde ainda fresco e rijinho.

Depois limpo as canas, oleio os carretos, vejo o nylon, arrumo os anzóis, limpo os baldes, lavo e ponho a secar os trapos, arrumo a cesta. É um trabalho silencioso. Estou sozinho em casa.

A minha mulher sai de casa antes das 6 para limpar escritórios e às 9 vai para casa de uma senhora. De tarde vai para outra senhora e, às 6 da tarde, para outros escritórios. À noite, quando chega a casa, não estou. Trata da casa e faz o meu almoço do dia seguinte, faz o almoço também para ela, que guarda numa caixa para levar. De manhã arranja-me um lanche para eu levar para a pesca. Quando a pesca não corre de feição ou quando está muito mau tempo, vou mais cedo para casa e ainda nos encontramos acordados. Na maior parte dos dias, quando chego, já ela dorme ou na cama ou no sofá, a televisão ligada.

Temos uma vida boa.

Fiquei desempregado há uns anos e não consegui voltar a trabalhar mas agora já me deram a reforma. Na altura andei a sentir-me muito mal, tinha vergonha, sentia-me um vadio, fugia de ver os outros, já sabia que me iam perguntar ‘Então? Ainda nada?’ e eu, ‘Nada’ e encolhíamos os ombros. E eu sentia-me muito infeliz e sentia que toda a gente me achava um infeliz. E perguntavam-me se eu tinha tentado isto e aquilo como se eu fosse preguiçoso e gostasse de estar sem trabalho. Mas é que eu chegava mesmo a sentir-me preguiçoso e ficava com vergonha também disso mas não tinha forças para sair dessa agonia em que andava. Não sabem que, nessas alturas, a falta de esperança é tão grande que nos tira a acção.

Mas agora já me deram a reforma e eu já me sinto outra vez uma pessoa normal.

E, então, preparo as minhas coisinhas todas para a pesca, sento-me à mesa enquanto ouço as notícias e almoço, lavo a minha louça (não quero sobrecarregar a mulher), sento-me um bocado a ler o jornal que vinha a embrulhar o isco (mas vejo cada vez pior e aquilo também é sempre a mesma coisa, a crise, a política, o futebol, já não quero saber disso para nada; mas passo sempre os olhos pelos jornais), depois vou até à cama e passo pelas brasas, levanto-me, faço a cama, e, finalmente, o momento por que espero: pego nas minhas coisas e lá vou para o meu cais, sempre o mesmo, um pontão ali no Ginjal.

Tenho que ir cedo não vá algum forasteiro ficar-me com o meu lugar. Os que me conhecem, respeitam-me.

Chego, o meu lugar está à minha espera. É o sítio mais lindo do mundo. Instalo-me com vagar. O sítio certo para os baldes, tiro água do rio, é aí que guardo os peixes que apanho, molho o trapo do isco, ajeito as coisas, preparo a linha, olho à volta, tudo certo. Um silêncio muito bom, ninguém à volta. Vem um cheiro bom do rio. À noitinha fica mais fresco e o cheiro é diferente, para melhor, um cheiro mais forte, quase misterioso, como misteriosas são as sombras que vagueiam pelo cais.

Estou de frente para Lisboa, conheço tudo, os monumentos, sei o que está em obras, sei o movimento na Ponte, já sei as luzes que acendem primeiro, dali vejo tudo. Ali sinto-me um homem forte e até feliz.

São as melhores horas do meu dia, vigio o alto da cana, vejo se pica, enrolo a linha, volto a lançar, sempre na maior expectativa. Gosto de ver o peixe a dançar no anzol, prateado, brilhante, no ar, Lisboa ao fundo.

As minhas costas já se curvam mas, se tenho dores, nem as sinto. Uma vez, há muitos anos, ainda o meu cunhado era vivo, fomos todos à pesca para Sesimbra. Aí é que foi, apanhámos cada um o seu balde cheio de peixe. Aqui não dá muito mas vai dando alguma ciosita. É o que comemos e chega muito bem. A mulher até chegou a levar uma vez peixe frito para as colegas. Quando chego a casa ainda vou amanhar o peixe. Faço isso com muito cuidado para não acordar a mulher e limpo tudo porque ela diz que já nem pode ver escamas.

Já apanhei uma vez um peixe que devia ter para cima de um quilo, deu para fazer uma caldeirada com tomate e pimento e, o que sobrou, para fazer filetes.

Todos os dias estou à espera de voltar a ter essa sorte. A minha mulher está sempre a dizer que eu sou um optimista. Pois sou. De que serve não ter esperança? E o ar do mar faz tanto bem.

Tenho mesmo muita sorte.
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segunda-feira, setembro 13, 2010

Jorge Jesus, um "benfiquista" cheio de spleen



Volto a este homem outra vez mas é inevitável. Quem conheça benfiquistas saberá que é gente desatinada, destravadamente adepta de futebol, gente com um fundo popular, amigos de festa e de um belo barraco. Gente com indesmentível vivacidade.

Ora vi o Jorge Jesus há pouco na televisão. A imagem é, toda ela, a do anti-benfiquista.

Mexia no cabelo, ar enfastiado e sem forças, acha-se injustiçado, a arbitragem (que me parece que ele diz 'arbitagem') a prejudicá-lo, e todo ele suspira, mas suspira mesmo, já não tem ânimo para respirar normalmente, solta suspiros. Quase nem tem força para falar, deixa as palavras a meio. Infeliz, vergado pelo peso do destino que o maltrata, sem forças para o combater. Ocorreu-me a palavra spleen, tão associada aos românticos suspirantes, aos poetas infelizes.

A palavra spleen, neste sentido, refere-se a melancolia extrema, a desejo de autodestruição. Ora assim o vejo a ele, a comprazer-se com o seu próprio enfastiamento, desgastado, rendido.

Carregadinho de spleen, em suma.

(Ora está-se a ver a "malta" do Benfica com paciência para sujeitos carregadinhos de spleen...? Cá para mim, este melancólico Jorge Jesus não vai longe, não... mas eu nem sou benfiquista nem percebo nada de futebol)
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Enjoy life!


Fotografia que hoje coloquei na minha galeria do Olhares:
(galeria que comecei por sugestão do J. num comentário que aqui deixou há dias atrás):


Dei-lhe o nome de Twice my Colours porque retrata uma parte de um quadro pintado por mim

Desculpando-me pela dupla imodéstia, aqui vos deixo esta mão cheia de cores com os meus votos de que vejam sempre o lado colorido da vida.

Be happy!
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O espelho segundo René Magritte... e um dos meus galos


Quando em frente do espelho, qual a imagem que ele nos devolve? A imagem que temos de nós próprios ou a imagem que os outros têm de nós?

Um dos meus galos, todo vaidosão ao espelho, a ver-se de uma maneira diferente da que nós vemos.



Mas assim, a ver o que nós vemos, ainda fica mais estranho....

René Magritte, belga, 1898-1967, é um mais conhecidos pintores surrealistas. Desafiador, despreconceituado, divertido, provocador e intemporal. A ele voltarei certamente porque a ele volto com muita frequência.
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sábado, setembro 11, 2010

Great minds work well together



Meryl Streep, Clint Eastwood, a óbvia empatia entre dois seres especiais, intemporais.

Tenho que rever.
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O que foram uns belos figos

... As time goes by ...


(Humilde homenagem, outra vez, a Rodin pela sua 'Celle qui fut la belle heaulmière')
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A bus stop here in heaven

João Telles Júnior - um Senhor Cavaleiro, com uma estrelinha muito especial




Não sei bem o que é uma aura mas, seja lá o que for, este menino tem-na.

Só o conheço de o ver nas transmissões televisivas mas, mesmo sem o conhecer pessoalmente, acho que há nele a inteligência, a simpatia, o garbo, a jovialidade, o atrevimento, a arte, o gosto pelo risco, o sentido cénico, a empatia, a sedução, o sorriso, o brilho, a luz daqueles que vieram para ficar no coração e na memória dos outros.

Dá gosto vê-lo na arena, a receber o touro à gaiola, a desafiar os touros possantes, os seus fantásticos cavalos a menearem-se, a cativarem a assistência, a arriscarem - e ele em cima, soberano e menino.

E os ferros violino? O cabelo esvoaça, os olhos brilham, o tronco arqueia e ele domina a praça.

Toda esta família tem esta devoção pela arte do toureio, pelos cavalos, pelas arenas e são todos muito bons. E simpáticos e humildes e bonitos.

Mas o João Telles Júnior é especial. Emana uma luz que o ilumina.

Que tenha uma vida longa e feliz e que nos continue a brindar com os seus maravilhosos e festivos desempenhos!
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Os livros têm vida própria? Alguém os consegue manter arrumados?



Eu hoje estive outra vez assim...

... e a única coisa de jeito que consegui fazer à tarde foi tentar começar a organizar os livros que estão fora das estantes: pilhas por prosa portuguesa, prosa brasileira, prosa africana, prosa castelhana, prosa americana, poesia, história portuguesa, culinária, pintura, etc, etc, etc.


No princípio deste 'trabalhinho' o chão já estava assim:


Agora está pior, muito pior...

E, no meu estado debilitado, como ter ânimo para sair deste caos...?
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sexta-feira, setembro 10, 2010

Carlos Queiroz despedido, Carlos Cruz condenado, uma história de crime e castigo. E os outros?




Carlos Cruz foi à entrevista da Judite de Sousa e, veemente e emocionado, ele, o homem confiante e bem sucedido de há tempos, agora com pálpebras inchadas, afirma repetidamente a sua inocência. Explica o que lhe aconteceu com razões em que não quer acreditar, insinua cabalas que diz achar inverosímeis, diz que há razões políticas para as quais não vê fundamento, refere pré-convicções, pressão da comunicação social e por aí fora. E diz que recebe muitas mensagens de apoio, que vai fundar um movimento social de apoio à vítima da justiça.

É natural este súbito apoio: somos bichos tribais. Sempre que a oportunidade se proporciona, aí vamos nós, pouco mais que animais irracionais, brincar aos bons contra os maus. E é assim que, tendo antes fechado os olhos ao abandono de Timor, tempos depois, vestidos de branco e de velas na mão, fazemos vigílias; é assim com os ingleses coitadinhos a quem desapareceu a filha, por quem rezamos missas, para logo depois os insultar no passeio.

Agora é isto: movimentos de apoio nem sei bem a quê, com direito a estatutos, encabeçados pelo Carlos Cruz.

Mas vejamos: se ele tiver razão, é caso para fazermos todos uma revolução, invadirmos tribunais, expulsarmos das guaritas em que se acobertam polícias, investigadores, procuradores, queimarmos processos, queimarmos tudo, porque todos, em conjunto, teriam ferido de morte os mais elementares princípios de Justiça, que é um bem de primeiríssima necessidade, porque todos se teriam conluiado para porem em prática uma farsa malévola, kafkiana, em que todos se teriam orquestrado, seguindo milimetricamente um guião urdido por alguma alma misteriosa e genial. Mas porque fariam isso? Para tramar o Carlos Cruz?!?! Mas o cidadão Carlos Cruz é quem para que várias classes profissionais, apenas para o prejudicar, pusessem em causa o seu profissionalismo, mérito e honra? Nesse caso a motivação seria ainda mais bizarra, mais ridícula.

Mas, deixemos, por ora, isso e aguardemos pelos próximos passos. Iremos percebendo de que cavernas tenebrosas a natureza humana é feita.

Mas há uma coisa que não referi anteriormente e que quero aqui deixar escrito. Quaisquer pedófilos comprovadamente identificados devem ser punidos e bem punidos. Há perversões insuportáveis e a de obter prazer à custa da violação de crianças ou jovens (ou de quem quer que seja) é uma delas. As nossas crianças não poderão viver em paz se o crime da pedofilia não for exemplarmente punido.

Mas pior, bem pior, é quem tem à sua guarda crianças desfavorecidas, sem família, e, sabendo que são usadas como objecto sexual, compactua, fecha os olhos, ignora, ou, pior ainda, favorece ou, pior ainda (se é que neste assunto faz sentido usar escalas, pois é tudo excessivamente mau), conspurca também o corpo e a alma dos miúdos.

É a Casa Pia enquanto instituição, os seus dirigentes e os órgãos governamentais que tinham essa tutela, que são os primeiríssimos culpados - e aqui não há equívocos, não são precisas provas periciais, testemunhas, bilhetes da auto estrada ou contas de telefone a provarem que o que o menino disse que tinha sido no dia 12 de Fevereiro de há 8 anos às 13 horas e 15 minutos afinal não podia ser.

Aqui é simples: entre que anos se passou este vil comércio? Pois bem, durante esse período, quem foi responsável pela guarda desses meninos é culpado de não ter exercido essa guarda.

Que a Casa Pia era o supermercado, que nos jardins de Belém circulavam carros a ‘contratar’ miúdos, que pelo Parque Eduardo VII andavam sempre rapazinhos Casapianos a prostituírem-se, toda a gente comentava, era um dado adquirido. Mas essas crianças estavam à guarda, à responsabilidade de quem?

Não é crime mais grave vender droga do que consumir droga? Então porque é que nos concentramos numa meia dúzia de supostos consumidores de sexo infantil (quando, contabilizados, ao longo dos anos em que isto se passou, devem ser, de facto, centenas que, sabe-se lá porquê parece passarem ao lado do assunto) e não acusamos também os fornecedores de tão infeliz e sofrida ‘mercadoria’?




E agora falemos de um epifenómeno pós silly season: finalmente foi solucionado o pseudo-problema Carlos Queiroz. Era inevitável. Não só não tem jeito para algumas coisas (nomeadamente, ao que parece, para seleccionador – coisa de somenos…) como se pôs a jeito.

Mas, uma vez mais, e não questionando a lógica da decisão de o demitir, não se deveria ver mais longe?

Quem é que o escolheu? Quem é que fez aquele contrato com ele (a que depois quiseram matreiramente fugir)? Quem é que conduziu com os pés todo este processo? Quem são as inenarráveis figuras que há anos a fio se alaparam aos lugares que ocupam, gerindo o futebol português de forma saloia e geneticamente ultrapassada (até no visual).

Toda aquela gente deveria levar uma mangueirada, não é assim que se está hoje neste mundo globalizado e mediatizado, tem que haver alguma modernidade a par do profissionalismo, transparência, boa comunicação, boa gestão de todas as matérias. Ponham-se ao lado o Platini e o Gilberto. Não dá para perceber as abissais diferenças?

Platini um homem cosmopolita com uma vida no futebol  Gilberto Madail, antes de ter ficado quase louro



Se não dermos um passo atrás, se não virmos as coisas em perspectiva, se ficamos felizes apenas com a imolação dos Carlos desta vida, aquilo a que assistimos não passará de uma encenação para épater le bourgeois. Muita poeira, muito confetti, a plebe toda aos urros a festejar o ter-se  'feito justiça', enquanto os maiores causadores de problemas continuarão livres e prontos para os próximos delitos e dislates.
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quinta-feira, setembro 09, 2010

A meu favor, esta noite ou uma noite qualquer



A meu favor
Tenho o verde secreto dos teus olhos
Algumas palavras de ódio algumas palavras de amor
O tapete que vai partir para o infinito
Esta noite ou uma noite qualquer

A meu favor
As paredes que insultam devagar
Certo refúgio acima do murmúrio
Que da vida corrente teime em vir
O barco escondido pela folhagem
O jardim onde a aventura recomeça.


[A meu favor, Alexandre O'Neill]
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Ginjal e Hieronymus Bosch - com as minhas desculpas pela associação de ideias


Coisas irreais, coisas tornadas possíveis pela imaginação e pelo querer de uns happy few


Ginjal, ao fim do dia - parede grafitada, ferragens velhas


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terça-feira, setembro 07, 2010

Que coisa louca, que coisa linda que os filhos são!


              

Filhos...Filhos?
Melhor não tê-los!
Mas se não os temos
Como sabê-lo?
Se não os temos
Que de consulta
Quanto silêncio
Como o queremos!

Banho de mar
Diz que é um porrete...
Cônjuge voa
Transpõe o espaço
Engole água
Fica salgada
Se iodifica
Depois, que boa
Que morenaço
Que a esposa fica!
Resultado: filho.

E então começa
A aporrinhação:
Cocô está branco
Cocô está preto
Bebe amoníaco
Comeu botão.

Filho? Filhos
Melhor não tê-los
Noites de insônia
Cãs prematuras
Prantos convulsos
Meu Deus, salvai-o!

Filhos são o demo
Melhor não tê-los...
Mas se não os temos
Como sabê-los?

Como saber
Que macieza
Nos seus cabelos
Que cheiro morno
Na sua carne
Que gosto doce
Na sua boca!
Chupam gilete
Bebem xampu
Ateiam fogo
No quarteirão

Porém, que coisa
Que coisa louca
Que coisa linda
Que os filhos são!


[Poema do enjoadinho, Vinícius de Morais]
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Happy kids - happy homes


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Coisas de Casa - Flores


Depois do tema pesado da Casa Pia, hoje quero flores

Parte de um bordado com quase 100 anos (com ponto das colchas de Castelo Branco), oferta de uma pessoa importante na minha vida


Flores numa jarra


Não é campanha pró Manuel Alegre - porque não tenciono votar nele - mas acho que é ajustado que as seguintes palavras habitem o meu espaço, perto das minhas flores:

Amor é mais do que dizer.
Por amor no teu amor fui além
e vi florir a rosa em todo o ser
fui anjo e bicho e todos e ninguém.
(...)
E quanto mais te perco mais te encontro
morrendo e renascendo e sempre pronto
para em ti me encontrar e me perder.


[excerto de Teoria do Amor, Manuel Alegre]
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Caso Casa Pia - a caverna de todos os monstros




É um dos temas presentes nesta rentrée: ao fim de vários anos, foi conhecida a sentença do Caso Casa Pia.

Segundo os mais directamente envolvidos é apenas o início de uma nova etapa pois a seguir virão os recursos. A justiça é uma indústria, uma indústria de processos.

O tema Casa Pia é um tema que me provoca uma sensação de horror e penso que, como toda a gente, tenho vontade de me afastar do horror. Se puder evitar falar ou pensar nisto, melhor.

Mas, por outro lado, sendo um facto marcante, é absurdo passar ao lado.

Referir-me-ei apenas muito sucintamente e, uma vez mais, espero não ser injusta.

Tudo o que tenha a ver com crianças me é particularmente sensível. É-me quase insuportável pensar em sofrimento de crianças. Claro que crianças a sofrer há-as por todo o lado, desde o sofrimento massivo nos países em guerra ou em estado de carência, ao sofrimento mais individual das crianças institucionalizadas e conscientes do facto de não terem família que as acolha. Mas aprendemos a abstrair-nos do que nos é incómodo. Não conseguimos mudar o mundo e aprendemos a não sofrer por isso.

Contudo, há alturas em que a realidade nos é despejada em cima como se de um balde fétido se tratasse. Foi o que aconteceu com o caso vertente. Jovens, pouco mais que crianças, desprotegidos e postos à guarda do Estado foram sinistramente usados e abusados ao longo de anos. O nome dos abusadores saíu à cena e, ao longo de anos de investigação, recursos, incidentes, questões processuais, etc, o pesadelo de provar a culpa dos abusadores foi-se arrastando penosamente, numa demonstração do que é o monstro da justiça em Portugal.

Alguns dos suspeitos, por sorte, outros por malabarismos sabe-se lá de que tipo, ter-se-ão visto livres da acusação. Mas estes poucos que se mantiveram sob suspeita continuam todos eles a jurar a pés juntos que são inocentes.

Se não soubéssemos que as perícias comprovaram aquilo que os miúdos, que o Carlos Silvino, vulgo Bibi, que o Mestre Américo, que o Adelino Granja, que o Pedro Namora e outros diziam, quase poderíamos pensar que nem houve abusos. Mas não: houve abusos sistemáticos, continuados, comprovados a vários miúdos. Por isso, alguém foi. Se houve abusos, houve abusadores. Houve abusadores e ao longo de várias gerações de miúdos. Não foram apenas esta meia dúzia de nomes: foram muitos os pedófilos que, ao longo de anos, saciaram a sua fome miserável com as vítimas da Casa Pia.

Também não me parece possível que todos, desde os investigadores, aos procuradores e aos juízes, todos se tenham enganado em toda a linha, acusando injustificadamente pessoas inocentes.

Então, como explicar a cara aberta, o peito feito, a convicção imbatível com que todos os acusados (com excepção para Carlos Silvino) continuam a clamar inocência?

Eu, que até já escrevi aqui sobre o cepticismo que sinto em relação a alguns agentes da nossa Justiça, admito que possam ter ocorridos alguns erros processuais, algumas conclusões pouco fundamentadas – mas num trabalho extensíssimo seria quase impossível que tudo fosse imaculadamente perfeito.

Mas não me parece plausível que tantos profissionais, pertencentes a diferentes organizações, ao longo de tantos anos, se tivessem concertado criminosamente para destruírem a honra, a reputação e quase a própria vida de uma meia dúzia de pessoas.

Já ouvi e li que esta é uma reação frequente nos pedófilos e, de alguma coisa que conheço da natureza humana, acredito, e espero não estar a ser imperdoavelmente injusta em relação a estes acusados em concreto, é que o acto de abusar de alguém – ainda por cima um jovem e, ainda por cima, do mesmo sexo – é um acto tão horrendo que, aos olhos dos próprios, é inconfessável.

A compulsão do desejo mórbido, a compulsão pela transgressão, a compulsão pelo poder de dominar uma vítima indefesa – e, na altura, o sentimento de impunidade – deviam levar a que uns quantos (estes que se encontram sob os holofotes ou os outros que conseguiram que o processo lhes passasse ao lado) se juntassem num esquema em que poderiam saciar essa sua fome bestial. Uma vez saciados, voltavam a ser normais, voltavam à sua vida familiar e social normal, repudiando vivamente qualquer acto do género.

No dia em que assumirem a culpa, um alçapão abrir-se-lhes-á debaixo dos pés sugando-os para a cave escura em que vivem apenas os animais traiçoeiros, famélicos, escorraçados. Os advogados que os têm defendido, a família, os amigos, toda a gente os olharará com um horror que eles não poderão suportar.

Por isso, e agora falo em abstracto, sem referir nenhum destes em concreto, imagino que mentem sem saber já que estão a mentir, mentem acreditando que estão a dizer a verdade. Os crimes hediondos que cometeram é como se não tivessem sido cometido por eles e, de tanto os negarem, já nem acreditam que os tenham cometido. Nessa luta trágica de negarem a verdade, consomem toda a sua vida, sentindo-se injustiçados, ofendidos, humilhados, colocando-se eles no papel que deveria caber às suas vítimas.

E os que sabem que abusaram de jovens e que não fazem parte do processo? O pavor que devem sentir de cada vez que o assunto volta à ribalta? Quantas vezes já terão condenado os 'violadores', esperando com isso afastar os fantasmas, orando para que a lama nunca os venha a salpicar a eles? Quantas noites não terão já passado em branco, aterrados perante a perspectiva de alguém vir a denunciá-los, ensaiando já histórias, inventando alibis, engendrando cabalas?

Mas e se, no entanto, alguns destes condenados são, afinal, inocentes? Será isso possível ao fim de tantos anos? Mas, e se for? Terá também esse crime absolvição possível?

Todo este tema, para os meninos hoje homens, para os abusadores condenados, para os abusadores que tiveram a injusta sorte de passarem ao lado do castigo, para os juristas relacionados num pesadelo destes, para todos os envolvidos, esta é uma história malvada, é uma história de cavernas escuras, de labirintos sem fim, de monstros terríveis.



(descrição na 1ª pessoa)
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segunda-feira, setembro 06, 2010

Celle qui fut la belle heaulmière - ensaio sobre a beleza efémera, ensaio sobre a passagem do tempo



Há muitos anos, andava eu ainda na faculdade, houve na Gulbenkian uma exposição da obra de Rodin.

Fiquei fascinada: aquilo que me era dado ver era do domínio do divino, do intocável.

No entanto, para além das obras mais conhecidas, houve uma que me marcou de forma indelével. O nome da escultura era este: Celle qui fut la belle heaulmière e o que se via era uma mulher em cujo corpo se desenhava o declínio.

Fiquei presa àquela figura.

Um corpo em que se espelha a normal devastação da idade é menos belo por isso?

Ou então, fazendo a pergunta em reverso: de que serve a beleza física se ela é efémera?

E de que serve a vaidade fátua quando tudo o que é externo se esvai?


Durante anos esta imagem e o título da obra não me saíram da cabeça e, quando tive oportunidade, fui revê-la. Já a vi duas vezes e o fascínio é sempre o mesmo. Fascínio pela arte de Rodin mas também pelo facto de ele querer esculpir este fantástico corpo de mulher. Fascínio ainda por tudo o que o título da obra encerra.

Foi a pensar nesta obra, e como uma modestíssima homenagem, que ontem atribuí o título ‘o que foi uma sólida parede’ à fotografia que coloquei no Olhares e que mostra a erosão do tempo numa parede do Ginjal.


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